terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

A residência do Capitão-Mor


Os visitantes/leitores deste blogue, muitos deles assíduos e de que naturalmente desconheço o número, (só sei que as visitas já ultrapassaram as 11 mil) já terão lido algumas referências que aqui tenho feito e de diversos tipos, à chamada “Casa do Capitão-Mor”.

Também alguns dos colaboradores, nomeadamente Gaspar Santos e José Temudo o têm feito.

Encontro-me hoje (2010.02.07) num período de visita ao concelho. Nos pequenos espaços que tenho livres, ou por outra que procuro que sejam livres, desloquei-me à Vila para efectuar uma sessão de fotografias, sem qualquer intuito técnico e mesmo algumas com nível muito baixo, como naturalmente reconhecemos.

As fotos destinam-se além de uma satisfação pessoal, a ter hipóteses de documentar os “escritos” que eu e os colaboradores vamos publicando no ALCOUTIM LIVRE.

Neste dia que dedicámos à vila e sem o procurar, acabámos por “disparar” a máquina para aquilo que além de não nos admirar, poderá ser admiração para muita gente mal informada.

A fotografia que apresentamos do telhado da “Casa do Capitão-Mor” é por demais elucidativa e que nos leva a prever que dentro em breve abaterá!

Este edifício e para quem conhece, tem grande significado para a história local, ainda que tenha sofrido pelo menos nos último 50 anos reparações não ajustadas às suas raízes.

A primeira que lhe conhecemos, já propriedade municipal, foi quando devido a incúria ruiu a cimalha, o que levou à transferência provisória das instalações da Repartição de Finanças e tesouraria de Fazenda Pública, para o edifício dos Paços do Concelho. Tanto a cimalha do beiral do telhado como a da moldura das janelas de sacada foram no restauro, obliteradas.

A quando da restauração das instalações das mesmas repartições, depois do 25 de Abril, houve novamente desajustamentos e creio que por inteiro desconhecimento pois pensava-se que se estava a realizar o melhor possível!

Com a extinção da Guarda Fiscal as instalações ocupadas por esta força militarizada e pertencentes ao Ministério das Finanças foram adaptadas para a instalação da Repartição de Finanças e Tesouraria da Fazenda Pública.

O prédio conhecido por Casa do Capitão-Mor ficou só ocupado pelo Posto da GNR., ficando o restante devoluto.


Depois de alguns anos perguntei politicamente a quem de direito qual o destino daquele espaço histórico de Alcoutim, tendo-me sido afirmado que iria ser adaptado aos serviços técnicos camarários.

Não tenho aqui elementos concretos mas isto tenho a certeza que se passou há mais de 10 anos! O que vi foi no rés-do-chão meterem-se embarcações desportivas conhecidas por canoas! A degradação é notória.

Existe efectivamente o abandono do edifício com a agravante do telhado estar a cair. Até as pináculas de madeira que embelezavam os vértices superiores das grades de ferro forjado, há muito desapareceram.

Eu sei que naturalmente o dinheiro não é elástico e não chega para tudo e existem outras prioridades, mas para nós deixar desaparecer este edifício emblemático da Vila, ou desvirtuá-lo, é um “crime” de lesa-património.

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

Primo Antunes, uma Figura de Alcoutim

Pequena nota
Gostei da lembrança do nosso colaborador Gaspar Santos de recordar Primo Antunes como figura alcouteneja ainda que não tivesse nascido em Alcoutim.

Conheci-o relativamente bem, mas não como o nosso Amigo e Colaborador pelo que não seria capaz de o retratar com esta profundidade.

A actividade de “solicitador” referida no texto deu origem ao nosso contacto e sempre em sentido positivo pela eficiência e honestidade que sempre demonstrou.
Estas pequenas notas biográficas sobre figuras que marcaram o passado alcoutenense têm, segundo a nossa opinião, plena justificação.

Venham mais.

JV







Escreve
Gaspar Santos



Primo Antunes era Guarda-Rios. Era seu amigo e privei de muito perto com ele mas nunca percebi muito bem quais eram as suas tarefas oficiais. Ele fazia muito do seu escritório no Celeiro (quando os humores do Senhor Leopoldo lho consentiam). Ali privámos bastante pois era onde eu trabalhava. Ali escrevia à máquina o seu expediente e os trabalhos de uma espécie de “solicitador” que ele exercia nas suas horas vagas, que eram quase todas. Ajudava a esclarecer muitos assuntos que muita população analfabeta do concelho necessitava. Fazia relações de bens para as habilitações de herdeiros. E todo o tipo de requerimentos de que as pessoas precisavam. Tinha para isso um grosso arquivo de “modelos”. Vim encontrar em Lisboa, nas escadas de acesso ou na própria sala de espera dos Cartórios Notariais, umas figuras semelhantes que elucidavam quem não sabia e serviam de testemunhas em todos os actos notariais.

[Rua D. Sancho II, na Vila de Alcoutim e onde sempre viveu Primo Antunes]

Também cobrava as avenças para o Dr. João Francisco Dias. Avença era uma contribuição para uma espécie de “Serviço Local de Saúde” que o Dr. Dias tinha criado no início dos anos 30 quando veio para Alcoutim. Assim os doentes acediam aos seus serviços gratuitamente. Pagavam quando não estavam doentes, salvo erro vinte escudos por ano por cada família. Uma avença que o Dr. Dias respeitou, penso que, até ao fim da sua vida, o que equivalia a trabalhar gratuitamente para quase toda a população do concelho.

[A casa de azul foi a 1ª que a família Antunes habtou]
Foi na mão do Primo Antunes que cerca do ano de 1948 vi pela primeira vez uma esferográfica. Ele só a utilizava em usos muitos restritos, dado que as entidades públicas não o autorizavam nos documentos oficiais, receosas de que esta tinta desaparecesse com o decorrer do tempo.

Este homem era natural do Azinhal concelho de Castro Marim. Tinha formação musical teórica, o que era muito raro encontrar em Alcoutim, mesmo em pessoas que tocavam instrumentos. Ainda tentou dar-me alguma formação musical para execução em bandolim. Fez-me algum jeito como cultura geral tê-lo ouvido falar de claves, de notas breves, semi-breves, colcheias e semi-colcheias. Mas como executante nunca consegui distinguir um sol dum mi.

Era jovem quando veio para Alcoutim e deu o seu contributo ao Clube Recreativo, primeiro como rijo futebolista e, mais tarde, segundo diz o Amílcar Felício deu colaboração na pequena biblioteca.

Tive oportunidade de ver dois dos seus símbolos de autoridade como guarda-rios, que poucos em Alcoutim terão visto. O crachá que ele devia usar sempre no chapéu e não usava. A espingarda (semelhante a um canhangulo) com umas balas muito toscas de chumbo, que ele poderia usar quando em trabalho de campo. Em vez de trazer o crachá no chapéu, ele o trazia sempre no bolso, seguro a um elástico preto. E se acontecia aparecer um chefe, ele rapidamente o tirava do bolso e o colocava no chapéu para se apresentar. Era um funcionário público, guarda ao serviço da Direcção Hidráulica do Guadiana. E teria a incumbência de fiscalizar a pesca ilegal e as respectivas licenças para águas interiores (Ribeiras) e a limpeza do mato e outros obstáculos nos barrancos tais como a construção de muros. Penso que, mesmo à distância, sem muito se dedicar a visitas ao terreno, ele cumpria.

[Casa que habitava Primo Antunes quando se reformou]
Em vencimento e dignidade era equivalente a cantoneiro da Junta Autónoma das Estradas. Os cantoneiros tinham porém um certo grau de ciúmes pois os seus esforços e utilidade visível eram muito distintos.

Sendo um trabalho que pouco o ocupava, dividia esse tempo fazendo escritório nos mais variados sítios: celeiro, repartições públicas e até… nas tabernas. Por fim veio a ter um escritório no largo da “Aparada”. O tipo de trabalhos que por vezes executava, de um simples requerimento para pessoa amiga a quem nada cobrava. Morava na parte alta da Vila na Rua D. Sancho II, tendo mantido sempre um relacionamento pouco amistoso com a proprietária do prédio, pelo que depositava as rendas à ordem do Juiz da Comarca. Era uma prática que eu nesse tempo desconhecia.

Quando se reformou foi viver para o Azinhal no concelho de Castro Marim onde veio a falecer. Fica assim a lembrança desta figura de que gostávamos.

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

A importância da árvore na herança alcouteneja

Já tenho referido em vários textos este assunto mas nunca o fiz numa análise individual.

Quando cheguei a Alcoutim e me apercebi que existiam árvores, nomeadamente oliveiras, de duas ou mais pessoas, fiquei embasbacado. Depois e perante a minha admiração foi-me dito que existiam árvores em terrenos de outras pessoas, o que reforçou a minha admiração já que não conhecia nada semelhante.

Naturalmente que isto não aparece por aparecer, tem forçosamente que ter uma explicação.

Numa explicação simples e procurando um exemplo elucidativo, admitindo que ficaram por herança duas propriedades rústicas de terreno e áreas semelhantes, dava-se a circunstância que uma delas possuía três oliveiras. Supondo dois herdeiros, aquele que ficaria com o terreno que não tinha oliveiras nem qualquer outra árvore, caber-lhe ficar com uma e o outro com duas pois era a sua terra que as alimentava e além disso ficava mais devassada.



Poder-se-á perguntar porque não haveria tornas a quem ficasse mais beneficiado? Existem, segundo o nosso ver, duas razões para o facto: 1ª - as árvores eram escassas nesta região e o seu fruto indispensável para a subsistência directa no caso da oliveira e indirecta por exemplo quando se tratava de azinheiras cujo fruto se tornava importante para a alimentação dos animais domésticos, nomeadamente do porco. A carne de porco e o azeite, a que se juntava o “pão” (trigo) eram o sustentáculo deste povo; 2ª – o papel moeda era escasso e ainda no primeiro quartel do século passado, a troca frequente, trocando-se trigo por louça de barro, ovos por sardinhas ou petróleo, por exemplo. O pouco dinheiro existente tinha destinos obrigatórios como acontecia com as décimas (contribuição predial).

Que seja do meu conhecimento, as árvores utilizadas nas situações que apresentámos, eram a oliveira, azinheira e o sobreiro. Não tenho conhecimento de mais nenhuma.

Estas situações passavam de pais para filhos, desconhecendo muitas vezes os proprietários as suas origens.

Tenho conhecimento de oliveiras pertencerem a três e mais pessoas!



Conheci um caso em que um apreciável número de azinheiras que se situavam nos arredores da Ribeira de Cadavais, para os lados da Corte Tabelião, davam origem a cinco quinhões, quase todos já divididos.

Havia um acordo entre as cinco partes iniciais, que tinha origem em tempos que ninguém conhecia e em que havia um único dia para a sua apanha, o dia de Todos-os-Santos. Cada quinhão fazia-se representar por um determinado número de pessoas e se alguém faltasse nesse dia da apanha, perdia o direito ao fruto.

Os homens velhos faziam os montões dos cinco quinhões, se todos estivessem representados e depois, cada quinhão era dividido nas partes que o constituíam, devido às heranças que o decorrer dos anos tinham originado.

Diz-nos a nossa informadora que se juntavam vinte ou trinta pessoas e que ela fez muitas vezes este trabalho. Algumas das pessoas não se conheciam como família, vindo algumas de montes relativamente distantes.

Ainda hoje a nossa informadora, já octogenária, desconhece de quem era a terra onde se encontravam as azinheiras.

Faltará dizer que, ainda que pareça impossível, estavam inscritas na matriz predial rústica algumas árvores nestas circunstâncias.

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

O vinho "caseiro"

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 31 DE MARÇO DE 1994-MAGAZINE)

O concelho de Alcoutim é um dos mais pobres do país.

É aqui, em plena serra algarvia que se encontrava o mais baixo rendimento agrícola nacional: apenas quinhentos escudos por hectare, isto em relação a 1970, quando a amêndoa ainda se vendia menos mal (1), se semeava algum trigo e havia mais braços de trabalho.

Habituado à paisagem vinhateira, quando ali chegámos, sentimos a sua falta. “Vai daí”, perguntei se pelo concelho não havia vinhas, se não se fabricava vinho.

As informações e explicações dadas sobre o assunto deixaram-nos embasbacados, já que nada tinham a ver com aquilo que conhecíamos. Ficava tudo para trás do nosso horizonte!

O que então encontrámos, e já lá vão quase trinta anos, mantém-se hoje com algumas pequenas diferenças.

As pequenas vinhas existentes situavam-se nas várzeas do Guadiana, principalmente nas zonas de Premedeiros, Lourinhã, Vale de Condes e Vinagre. Eram “feitas” por mergulhia ou “atanchando” (2) varas. A reprodução fazia-se assim “directamente” e não por enxertia do bravo.

Distante das margens do rio, junto dos barrancos, onde os terrenos são mais profundos e frescos, existiam os parrões .

A vara enraizando com mais facilidade, trepava pelos loendreiros com o auxílio das gavinhas, deixando livre o terreno que se aproveitava para qualquer mimo hortícola, já que, muitas vezes, existia perto pequeno poço do qual se extraía, quando necessário, caldeiras de água para pequenas regas.

A cava e a pode constituíam o tratamento dispensado.

Quando me disseram que não se fazia a “cura”, não queria acreditar. Adquiri um pulverizador para o fazer e ofereci os meus préstimos que de uma maneira geral foram rejeitados – acreditavam que aquele líquido é que iria fazer mal às parreiras!

Hoje, a maioria já não pensa assim, pelo que a cura se faz. Há pouco me contou um amigo que quando jovem abandonou o seu “monte” indo procurar uma vida melhor, fixou-se no concelho de Palmela, grande produtor de vinho. Quando dizia que na sua terra as parreiras não eram tratadas, quem o ouvia tinha dificuldade em compreender, concluindo sempre que assim, não davam uvas.

Segundo me constou, já há quem se dedique à cultura de uva de mesa, utilizando técnicas modernas.

Já me foi dado ver, apesar do longo afastamento, pequenas vinhas “aramadas” em Santa Marta, Diogo Dias e Fonte Zambujo do Meio.

Além das doenças próprias, o alcoutenejo considera as vespas as grandes destruidoras das uvas e para o evitar, quando os cachos eram poucos, muitas vezes optava por embolsá-los, isso é, colocá-los dentro de uma parte de meia velha que de certa maneira os protegia. Até agora e em qualquer outra parte do País, nunca vi tal!



Além das “assarias”, entre outras castas tenho ouvido referir “tintilho” (sugere-me influência espanhola), “olho-de-perdiz” e “olho de lebre”.

Depois deste pequeno apontamento, em que guardámos o fabrico do vinho para um pouco mais adiante, por motivos que então se compreenderão, e em que rebuscámos a nossa memória, iremos explanar o que compilámos com algum sentido histórico, um dos apanágios pretendidos nos meus escritos.

No século XVI existem referências a variadíssimas vinhas.

Sabe-se que Lourenço Martins Orraco traz uma vinha no Pontal de que paga cada ano dez reais, António Dias, outra no mesmo local, pagando dezasseis reais, Nicolau Estevens Queimado paga, de foro pela vinha de Premedeiros, quarenta reais, outra vinha na Várzea do Moinho, explorada por André Pires e João Afonso Vilão trata de outra na Cova de Santa Maria.

Mais outras podíamos indicar na Lourinhã e nos Carreiros, Era tudo propriedade da Capela de Nª Sª da Conceição.

O vigário de São Salvador de Alcoutim tinha de mantimento, entre outros, vinte e sete almudes de vinho. (3)

Frei João de S. José (4), e também com referência ao mesmo século, faz-nos descrições e fornece-nos informações importantes sobre as vinhas e o vinho do “Reino do Algarve”.

Não vamos aqui transcrever o que o erudito frade escreveu sobre o assunto mas transmitir as ideias e uma ou outra leve transcrição para assim podermos ser mais concretos.

Diz o frade que a vinha neste “Reino” difere da de Portugal por se não cavar nem empar. Como castas importantes refere as mouriscas, de que se faz vinho e as chamadas assarias, destinadas a passas.

As uvas que se destinavam a vinho, eram postas a secar, ao sol, durante doze a treze dias. Parece que este uso teve origem nos romanos.

Quanto ao fabrico do vinho, vamos transcrever o que para o efeito considerarmos mais importante: “É pois o caso que todos os Algaravios, para fazer o seu azeite e vinho, já têm em suas casas um ou dous lagares de pau, feitos de duas ou três tábuas grossas, pesadas, muito juntas sobre ua s travessas com suas bordaduras ou torno, as quais assim juntas fazem cinco, seis palmos em largo e oito, nove em comprido, à maneira de tabuleiro, e a isto chamam eles lagar. Tem ua bica no meio duma das cabeceiras e asentam-no sobre dous banquinhos pêra isto feitos, quando se querem servir dele; e, acabado o seu ofício, encostam-no a ua parede té que o tornam a haver mister”.



“É tão fácil e maneiro este engenho que o carregam sobre qualquer besta e o levam de um cabo pêra o outro com pouco trabalho e serve de lagar de azeite e também de vinho, como o alimparem primeiro”.

“A maneira de fazer o vinho é a mesma que do azeite, de maneira que não há mais ciência nisto que meter as uvas na saca, como fica dito da azeitona e, no próprio lagar bem lavado, pisá-las muito bem e dar-lhe o arrocho té três vezes e sai o vinho limo…” (5)

O que acabámos de transcrever e que foi publicado em 1577, tem muita aplicação ainda nos dias de hoje. O alcoutinense continua a fazer o seu vinho num lagar de pau, só com a diferença do tampo constituir uma peça única e em lugar dos bancos para suporte, usam-se três pés implantados, A estes lagares de pau, chama o homem da serra queijeiras. Quando tal me disseram, pareceu-me justificar o nome como engenho onde se faziam queijos, o que, contra a nossa expectativa, não nos foi confirmado. Se alguma vez teria sido, diziam os meus informadores, ninguém se lembra dos queijos serem feitos ali; aquilo só se destinava ao azeite (o que já não acontece) e ao vinho, que ainda continua.

Após desenhar as queijeiras que acompanham para documentar este escrito e já com um segundo sentido, perguntei a um amigo, natural do distrito de Portalegre, se conhecia aqueles engenhos o que facilmente confirmou, ainda que presentemente sejam raros. Ali, no Alto-Alentejo, aqueles objectos destinavam-se ao fabrico de queijo, aliás, como o nome indica.

Parece-nos que o “lagar de pau” do litoral, e por haver muito menos produção de uva na serra, seria substituído, devido a análogos existente, pela queijeira que nessa altura serviria para fazer queijos.

Perdeu o uso, ficou o nome. No Alentejo permaneceram as duas coisas.

Conheci quem juntava ao mosto, alfarroba, o que dava ao vinho um paladar agradável e uma cor característica. O hábito de juntar frutos ao vinho virá pelo menos do tempo dos árabes.

Silva Lopes, que realizou grande trabalho monográfico sobre o Algarve, considera que as várzeas de Alcoutim são férteis e abundantes em vinhas, além de outras culturas. Afirma ainda que o primeiro trabalho que se lhe faz, é a cava junto à cepa, antes de lhe cair a parra, seguindo-se a poda, em Janeiro, voltando a cavar-se em Abril ou Maio, mas não se empam. A vindima é feita em princípios de Setembro.

As vinhas ficaram bastante estragadas e muitas deixaram de ser vindimadas em 1833 e podadas em 1834 devido à guerra civil. (6)

Em 1867 chega ao nosso país a doença da filoxera, oriunda dos Estados Unidos. Devastou as nossas vinhas principalmente na região do vinho do Porto. (7)

A filoxera era um insecto muito pequeno, do grupo dos afídios.

Em 1874 o presidente da Câmara recebe um mapa para preencher com o fim de se conhecer o estado das vinhas no concelho e da sua produção. Por ser muito técnico o seu preenchimento, não se atreve a fazê-lo, enviando contudo nota designando os sítios e milheiros de cepas em cada localidade e a sua produção em almudes. Que pena não termos conhecimento desses números e dos locais. Acrescenta ainda que a uva, sendo muito boa para comer, não o é para mosto e por isso se vende para consumo do concelho e para os portos de Vila Real e Pomarão. (8)

Em 1880 e em resposta ao Agrónomo do Distrito de Faro, o Administrador do Concelho, Manuel José da Trindade e Lima, informa que nas vinhas próximas da vila (nomeadamente uma das melhores que possui) apareceram primeiramente muitas cepas afectadas da moléstia conhecida pelo nome de “cinzeiro” (9) e mais tarde, muito antes dos calores, secaram-se todas as “espigas”, morrendo totalmente algumas cepas e ficando muitas outras sem parras. As cepas mais afectadas são as de uva branca.

Continua a informar que no dia seguinte tenciona mandar arrancar algumas cepas e observá-las minuciosamente, para ver se encontra nas raízes ao “galhos ou verrugas” que me são indicados. (10)

Efectivamente, oito dias depois, o Administrador informa que tendo examinado minuciosamente as raízes de algumas cepas, não foi possível descobrir a filoxera nem outro qualquer insecto. Posso contudo dizer com convicção que me dá a experiência de muitos anos, e continua o Administrador, que o mal aparecido este ano em muitas vinhas deste concelho e a forma horrível como foram atacadas e os estragos que nela produziu, nunca eu nem muita gente aqui viu, conclui o administrador. (11)

No final do ano comunica-se que o concelho produziu 5 250 litros de vinho, isto porque a inundação de 1876 arrancou e fez desaparecer completamente todas as vinhas que existiam na margem do Guadiana, seu local de maior implantação. (12)

Dois anos depois é constituída a Comissão Concelhia Antifiloxera, composta por sete elementos e chefiada pelo presidente da Câmara, Manuel António Torres. (13)

Em 1883 volta a informar-se que é pouca a importância vitícola do concelho, sendo a sua produção consumida em “verde”. A Comissão de Vigilância ainda não tem pesquisador habilitado para a inspecção da filoxera, nem ainda se resolveu preparar indivíduo algum para esse serviço. (14)



Na Sessão da Câmara de 5 de Julho de 1884 é deliberado convidar um indivíduo para se deslocar a Santarém a fim de estudar ou habilitar-se a conhecer a moléstia das vinhas conhecida por filoxera.

Em 1889 continua a informar-se que não se tem descoberto, por enquanto, neste concelho, o mal da filoxera, o que tem predominado com muita intensidade é o oídio que bem tem prejudicado as vinhas. Pedia o Administrador do Concelho que lhe fosse indicada a melhor5 forma de o atacar. (15)

Não tem havido plantação de vinhas e a uva produzida nos poucos bocados que há, é consumida em verde. Segundo os cálculos, importa o concelho 45 728 litros por ano. Igualmente se informa que não se fabrica aguardente no concelho. (16)

Sabe-se contudo que António Joaquim Pinto fabricava essa bebida na vila, em 1843, onde existiam oito casas públicas que a vendiam. (17)

Acabámos de referir o que conseguimos obter em trabalhos publicados e por pesquisa própria, oral e escrita, sobre a vinho caseiro, como os alcoutenejos e todos os homens da serra algarvia chamam ao pouco vinho que fabricam. Não me consta que alguma vez tivessem avaliado o seu teor alcoólico.

Na primeira metade deste século, um conhecido comerciante da praça de Mértola deslocava-se frequentemente na época de caça à parte norte da freguesia de Alcoutim. Parece que o principal motivo não era a caça mas sim o “caseiro” que muito apreciava, produzido pelo Ti Virgolino, de Afonso Vicente.

Pensamos que se houvesse um estudo adequado, os terrenos xistentos da serra algarvia podiam produzir um vinho generoso de qualidade apreciável.

NOTAS

(1) “As Serranias de Alcoutim, a mais deprimida zona portuguesa”, Roby Amorim, em O Século, de 22 de Julho de 1975.
(2) Vide Dicionário do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, 1988.
(3) Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, 1987.
(4) “Duas Descrições do Algarve do Século XVI”, Sá da Costa, Editora, Cadernos, Revista de História Económica e Social – 3, Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, 1983.
(5) Idem. Ibidem.
(6) Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, João Baptista da Silva Lopes, 1841.
(7) História de Portugal, Vol. IX, Joaquim Veríssimo Serrão, pág. 264.
(8) Ofício nº 108 do Administrador do Concelho de Alcoutim, de 13 de Novembro de 1874.
(9) Doença provocada por certos fungos, oídios.
(10) Ofício nº 57 de 16 de Julho de 1880, dirigido ao Agrónomo do Distrito de Faro.
(11) Ofício nº 63, de 24 de Julho de 1880, dirigido ao Agrónomo do Distrito de Faro.
(12) Ofício nº 161, de 3 de Dezembro de 1880, dirigido ao Governador Civil de Faro.
(13) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim, de 9 de Novembro de 1882.
(14) Ofício nº 18 de 20 de Janeiro de 1883 ao Presidente da omissão Central de Antifiloxera do Sul, dirigido pelo Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim.
(15) Ofício nº 19 de 28 de Janeiro de 1889 ao Agrónomo da 9ª Região – Lobular.
(16) Ofício nº 160 de 29 de Agosto de 1889 do Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim.
(17) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim, de 22 de Dezembro de 1843.

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Prato "grande"


Não encontrámos localmente um nome próprio e específico para esta peça de louça que foi muito usada no concelho de Alcoutim onde era considerada importante.

Constituía com as pelenganas, tigelas , caçoilas e alguns pratos soltos as peças de louça existentes numa casa alcoutenense de nível médio.

Era uma peça usada principalmente em dias festivos, nomeadamente em casamentos desempenhando as funções destinadas às travessas que por aqui não existiam e só vieram a aparecer muito mais tarde.

Era hábito nestas alturas e para suprir as necessidades pedirem-se a familiares e vizinhos. Eram neles que se colocava o carneiro guisado com batatas, prato muito característico destes eventos.

Nem todas as casas possuíam esta peça.

O prato apresentado é da Fábrica Sacavém, tem 40 cm de diâmetro e presumo que seja centenário.

Na minha região de origem estes pratos eram conhecidos como “pratos de arroz”.

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Um roubo perfeito no Guadiana

Pequena nota
Depois da assídua colaboração deste alcoutenejo Amigo, que os nossos visitantes/leitores bem conhecem pelo estilo e conteúdo das suas abordagens, pouco temos a dizer.
Confesso que desconhecia totalmente esta história curiosa que acaba por enriquecer o meu conhecimento local.
J.V.






Escreve

Gaspar Santos


Estávamos no início do Século XX. O transporte de pessoas e mercadorias entre Vila Real Sto António e toda a zona ribeirinha no Baixo Guadiana fazia-se por barcos à vela que sulcavam o rio.



Os barcos maiores, com vela latina grande, daquelas cuja “escota” faz muita força, precisam de cadernal de roldanas com dois ou três quilogramas de peso para o mestre a manobrar em segurança.

Um destes barcos subia o Guadiana “bordejando” ou bolinando, por alturas do Álamo, com forte vento que soprava do Norte. No fim dum bordo, ao virar a proa ao Norte, antes de a vela “cambar” no início de novo “bordo”, a vela varejou e a roldana atingiu violentamente um passageiro na cabeça.



Este homem, sentado imprevidentemente na borda do barco, caiu pela borda fora e ninguém mais o viu. Ele talvez soubesse nadar, mas a carga que trazia nos sacos de couro presos à cintura, com a roupa e calçado vestidos e ainda atordoado pela pancada do cadernal na cabeça, não lhe deram possibilidades de salvação.

O homem que morreu afogado era um pagador da Mina de S. Domingos. Deslocava-se periodicamente às minas para pagar aos trabalhadores. Os trabalhadores recebiam em moedas de ouro. Para as transportar de forma segura, o pagador levava à cintura uns sacos de couro cheios dessas moedas, de que nunca se separava.

Após as infrutíferas tentativas de salvamento, as buscas continuaram a expensas da Administração das Minas de S. Domingos, para além da Guarda-fiscal e das Autoridades Judiciais. Só passados vários dias o corpo foi encontrado.



O cadáver jazia nas lamas que ficam a descoberto na baixa-mar, na margem espanhola junto à foz do barranco, quase em frente do Álamo na curva à vista dos Guerreiros do Rio. Os sacos com ouro tinham sido cortados da cintura do cadáver e desaparecido. E havia pegadas na lama desde a margem do Rio até junto do morto.

Muitos anos passados após este acontecimento, contava o meu avô, não se deu por sinais exteriores de riqueza que denunciassem alguém pelo seu proveito e consequentemente pela autoria do roubo do ouro.

Por isso dizemos hoje que nessa altura se deu um roubo perfeito no Guadiana.

sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Montes desaparecidos ou despovoados na freguesia de Alcoutim

Quanto à freguesia de Alcoutim, as Memórias Paroquiais (1758), referente a este aspecto, de todos os “montes” que indica, nenhum desapareceu ou está despovoado, mas caminha-se a passos largos para que isso aconteça, principalmente em dois, ambos com três residentes fixos, ainda que tenham normalmente residentes acidentais.

O pároco encarregado de responder ao questionário, não indica o monte de Corte das Donas, certamente por lapso, uma vez que como tudo indica já existiria.

A nível da freguesia da sede do concelho, encontramos referências à Grandaça onde em 1771 vivia André Gomes que fazia o manifesto dos seus gados, o mesmo acontecendo com Manuel Rodrigues. Pelo menos em 1858 ainda era habitado.

A Herdade da Grandaça pertenceu aos Condes de Alcoutim e foi alienada em meados do século passado.


[Antigo Posto da G.F. do Vinagre. Foto JV, 2009]

Na zona rústica conhecida por Vinagre e considerada das mais ricas em olival nas redondezas, o que ainda hoje se pode provar pelos elevados impostos com que os terrenos são taxados, igualmente existiria um ou outro fogo disperso e cerca de 1890 foi construído o posto da Guarda-Fiscal que foi adquirido por um particular e ainda existe.

O Sr. António Francisco que foi coveiro no cemitério de Alcoutim durante muitos anos, era conhecido por António do Vinagre por ter lá nascido e sido criado.

Entre a Vila e o Marmeleiro existiu um fogo de que ainda há pouco tempo existiam ruínas e onde viveu José António Duarte Moura, contista que deixou retratada a vida alcouteneja dos anos trinta e quarenta e que foi funcionário da F.N.P.T. (Celeiro).

Os Anuários Comerciais da primeira metade do século passado ainda o indicam como habitado e designam-no como Montinho.

Antes do Montinho das Laranjeiras existia a Casa Velha ainda habitada em meados do século passado.

[O Brejo. Foto JV, 2009]

O Brejo chegou quase aos nossos dias. Situado nas proximidades do castelo-velho, possuía um poço que dava muita água proporcionando um bom hortejo.

Hoje os telhados já caíram e restam as paredes que se vão degradando cada dia que passa.

Pela foto recente apresentada ainda se podem ver algumas árvores mais mimosas.

[Monte dos Currais, Cortes Pereiras. Foto JV]

O Monte dos Currais, próximo do S. Martinho, faz parte das Cortes Pereiras Já o visitámos uma vez. Chegando ao S. Martinho, cortámos à esquerda apanhando o caminho à beira do qual segue o traçado dos postes da energia eléctrica

Três ou quatro centenas de metros andados, estamos chegando ao monte que se situa numa pequena elevação, que está desabitado e mesmo abandonado. Parece que o último morador faleceu em 1988.

Foi sempre um monte pequeno. Nos anos setenta ainda tinha três fogos habitados e poucos mais seriam.

Aqui viveu Manuel Roiz (Rodrigues), pessoa de certa notoriedade local já que fez parte da Junta de Paróquia de Alcoutim, pelo menos em 1850/51.

Talvez não seja descabido pensar e devido ao número reduzido de fogos e a alguma abastança de terras que o monte teria sido fundado pela família Rodrigues.

O aspecto era desolador. Só uma casa se encontrava fechada. Muros derruídos pelo tempo. Telhados caídos pelo abandono. Entre as paredes, ainda se podiam ver restos de peças que serviram os seus habitantes, como camas e potes de barro.
Estava de pé uma chaminé com algum interesse. Anotámos um boqueirão com portas e lintel de madeira e poiais cobertos por lajes de xisto. Nas redondezas os currais que originaram o topónimo, não estes mas outros desaparecidos e que foram substituídos. A actividade principal destas gentes não podia deixar de ser a pastorícia.

Se a tristeza nos invade com esta desolação, ficamos satisfeitos com o ar puro que respiramos e a magnífica vista que podemos desfrutar. Dali se avistam a antiga escola, o São Martinho com os restos da sua capela, Monte Longo, Casa da Amêndoa, muitíssimo bem o Monte do Sol e o Curral da Arvela.

Se mais não fosse, só por isto merece a pena lá ir.

[Corte Miguel. Restos de paredes. Foto JV]

Outro monte que teria existido, situava-se para além de Afonso Vicente e a caminho da Ribeira do Vascão. É conhecido por Corte Miguel e um local a que as gentes das redondezas atribuem grande antiguidade Ainda se podem ver restos de paredes e rusticamente a zona ainda é assim designada.

Nunca encontrámos qualquer referência nas pesquisas que efectuámos no arquivo histórico da Câmara Municipal ou no da Misericórdia, o que nos tem admirado.

A arqueóloga, Prof. Doutora Helena Catarino refere o seu abandono provavelmente nos finais do século XVII ou no século XVIII, pois as prospecções revelaram apenas restos de montes de pedra e alicerces de casas de época moderna. Considera também que o seu povoamento pode estar ligado à exploração mineira da Herdade da Ferrugem.

O “Monte das Poupas” de que encontrei leve referência em documentação consultada, situava-se próximo dos Balurcos, é o único dado que podemos fornecer.

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

História de Portugal, V I I volume [1807-1832]


HISTÓRIA DE PORTUGAL, VII VOLUME [1807-1832]

O VII Volume da História de Portugal, de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo, abrange o período A INSTAURAÇÃO DO LIBERALISMO, tem 541 páginas e foi publicado em 1984.

Até agora todos os volumes têm referências a Alcoutim, o que não acontece com todas as vilas e sedes do concelho do país, provando-se assim a importância que a vila desempenhou nos períodos que o insigne Historiador já abordou.

Neste período, bastante sentido em Alcoutim, o autor faz duas referências que iremos indicar:

A revolta no Algarve

Pág. 49

A Câmara de Faro fizera saber a todas as outras de que a luta era sem quartel (…) “enquanto houvesse Cidade Villla ou Aldeia que viva dominada da tirania Franceza”(...)
Não admira pois que a sublevação no Baixo Alentejo tivesse recebido um forte apoio da zona meridional, sendo Alcoutim, São Brás de Alportel, Mértola e Silves focos de penetração da revolta para o interior.

Revoltas no Porto e no Algarve

Pág. 408

Também o Algarve entendeu opor-se à marcha de D. Miguel para a realeza
(…)
Embora reduzidos à impotência, não eram poucos os defensores das ideias liberais em Alcoutim (…) que optaram então por uma política de resistência.

Como se vê, são curtas as referências mas bem elucidativas da acção contra o inimigo francês e o absolutismo de D. Miguel e seus partidários.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Monte Longo



Esta fotografia tirei-a em Agosto de 1986, por isso, passaram-se já vinte e três anos!
Pelo nome, a esmagadora maioria dos alcoutenejos, e refiro-me ao concelho, não sabe onde se situa. Em contrapartida eu pergunto:- Quem sabe onde se situa o Monte do Vale do Asno ou Valdasno? Acontecerá a mesma coisa se não for pior.

A denominação é praticamente apenas conhecida pelos moradores do monte e pelos das redondezas. Tirando isso, será uma excepção o seu conhecimento.

As construções existentes eram quase todas ainda de paredes de xisto e grauvaque e telha de canudo.

O troço de acesso era de terra batida, só ao longe havia vegetação.

Entretanto as construções foram quase todas recuperadas dando lugar às novas.

O local era movimentado. O estabelecimento comercial tinha sempre gente. Juntavam-se com facilidade, vinte ou trinta pessoas.

E, melhorou muito, até já possui saneamento básico, mas depois da apresentação de todos estes melhoramentos eu concluo: ESTÁ BASTANTE MAIS POBRE!

Tem tudo o que referi mas falta-lhe o seu melhor: GENTE.

A população vai decrescendo assustadoramente.

Para quem não sabe, direi que o Monte Longo é um dos submontes que constituem as Cortes Pereiras e assim já a grande maioria conhece pelo menos o nome.

domingo, 24 de Janeiro de 2010

Menino de Alcoutim visita cidade grande

Pequena nota
Mais uma interessante história verídica e contada por um menino alcoutenense que com cerca de 5/6 anos sai do seu ninho para conhecer um Mundo diferente que acabou por fasciná-lo. Apesar de se terem passado setenta anos mantém na sua privilegiada memória o que na altura viu e sentiu.
JV






Escreve
Gaspar Santos






Minha Mãe e eu fomos a Beja em 1939. O convite era de meus tios que lá moravam. Era a primeira vez. Foi um deslumbramento sobretudo para os olhos. Tudo era novo para mim. Minha Mãe viajava muito preocupada. Tinha receio de que eu tivesse medo de entrar na camioneta e ficássemos a meio caminho em Mértola, sem ter programado uma decisão alternativa. É que eu, por ter medo, já recusara uma viagem ao Pereiro, à Feira de S. Marcos.

O deslumbramento começou logo na contemplação do Rio Guadiana e de suas margens. De tal maneira que ainda hoje o meu imaginário ambiciona repetir essa viagem do Pomarão até Mértola. É um forte desejo ver outra vez a Penha d’ Águia, os vaus onde o gasolina só passa na preia-mar (maré cheia). De um dos vaus os barqueiros até dizem que os “barcos têm que sair do Rio!”. Há as ameaçadoras rochas que as águas límpidas deixam ver. Em Mértola, no rio, a ponte barca (que já não existe), fazia a passagem de pessoas, animais e veículos para a margem esquerda, sobretudo para as Minas de S. Domingos. Era um barco caixotão guiado por duas correntes e movido por manivela que um homem rodava. Nunca tinha visto nada parecido.


[O porto fluvial do Pomarão]

Afinal foi pacífica a minha entrada na camioneta em Mértola. E a viagem até Beja foi a continuação do meu encantamento.

Em Beja impressionou-me o tamanho da cidade, o casario e o grande número de pessoas nas ruas. Mas como recordação, que ficou a traço mais forte, foram de longe, o Museu e o jardim.

[A Vila de Mértola com o seu cais]

O Museu ficava na mesma rua em que moravam os meus tios. Depois de saber o caminho visitava-o todos os dias. No trajecto passava por uma casa de costura. Lá trabalhavam cerca de 10 costureiras, que me cumprimentavam e me faziam muitas perguntas. Eu respondia embaraçado e envergonhado. Falava baixo, com voz fanhosa, incompreensível para elas, que pediam para repetir. Eu lá repetia como podia mas sem que previamente não tivesse que limpar várias vezes a garganta, tossindo. Depois destas conversas quotidianas lá ia até ao Museu. Ali deixavam-me entrar e apreciar quase religiosamente os objectos expostos.

[Biciclo]

Ainda hoje me lembro daquele que mais me impressionou. Era uma bicicleta, sem corrente, com os pedais ligados rigidamente à roda da frente, que era enorme em comparação com a minúscula roda traseira. De outros objectos expostos, que também me impressionaram, não recordo hoje nem um.

Ao jardim, ia sempre acompanhado, pois era mais longe. Impressionaram-me a beleza do arranjo e organização dos espaços, os caminhos entre relvas e flores, um lago com cisnes brancos que vinham morder os nossos sapatos, sem magoar; e, sobretudo… um automóvel a pedais.

Este automóvel fazia-me sentir autónomo, pois com o volante e os pedais era possível ir para onde quisesse. Discretamente e com simpatia, um guarda exercia a sua vigilância e a sua ajuda sem que eu suspeitasse. A experiência não me era desconhecida pois em Alcoutim os irmãos Fernando e João Dias já me tinham deixado conduzir o carro deles. Mas aqui era outra coisa. Estava mais livre, mais solto.
No regresso sei que mantive a mesma curiosidade e os olhos registaram o que lhes foi possível mas que o decorrer do tempo já esbateu.


[Jardim de Beja]

Vale a pena reflectir sobre como eram por ali os transportes nesse tempo. Para se viajar de Alcoutim para Beja, tínhamos que programar previamente a viagem. Utilizar um dos dois “gasolinas” de Alcoutim para Mértola, que tinham horário variável com as marés, em dia em que esse horário permitisse que tomássemos a camioneta de Mértola para Beja, com horário fixo. Era assim por não haver estrada para Mértola. Essa estrada só foi construída quase 10 anos depois, em 1947. Lembro-me de assistir à construção da Ponte sobre o Rio Vascão que une o Algarve ao Alentejo e o nosso concelho ao de Mértola.

Entre Vila Real Stº António e Mértola, além dos barcos à vela, atracavam em Alcoutim dois barcos a motor os “gasolinas” com carreiras diárias. Um era conduzido pelo mestre Manuel Enguiço e o outro pelo mestre Francisco Simões, casado com uma das irmãs Balbino.

De camioneta no final dos anos 30 já se podia ir até Vila Real Stº António.
Hoje, com a facilidade de transportes que temos, muitos nem acreditam, como nesse tempo era uma demorada aventura a viagem a Beja.