Segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Uma Festa em Giões, percursora das actuais?

[Igreja de Nª Sª da Assunção, 2009. Foto JV]
As feiras, mercados e festas foram sempre apanágio do povo português e no concelho de Alcoutim, apesar do seu isolamento, e talvez por esse facto, também tiveram e têm o seu lugar.

Nota-se nos últimos anos a tentativa de manutenção da Festa Anual na aldeia de Giões que se realiza em 15 de Agosto, em honra do orago, Nª Sª da Assunção.

Este pequeno apontamento destina-se a referir uma festa, como o título indica, e isolada no tempo.

O gionense, Manuel Francisco Passos, resolveu fazer um peditório no sentido do seu produto dar origem a uma festa em Honra de Nª Sª da Assunção, que como já se disse é orago da freguesia, o que efectivamente veio a ter lugar no dia 15 de Agosto de 1883.

Depois de pagas todas as despesas, o Sr. Passos declarou à Junta que ainda tinha em seu poder 9020 réis que queria empregar na festa à mesma Senhora, no presente ano (1884).

Respondendo à Junta de Paróquia que tinha dúvidas, a Câmara informa que não deve existir qualquer complicação, tendo andado bem o dito Passos, bastando à Junta no seu orçamento anual lançar a seguinte verba de receita:- Esmolas com a aplicação à Festa da Senhora da Assumpção, em poder de Manuel Francisco Passos - 9020 réis. (1)

Nestas alturas, o Povo era assim!

NOTA

(1)-Of. nº 52 de 15 de Março de 1884, ao Presidente da Junta de Paróquia de Giões.

Domingo, 19 de Julho de 2009

A ermida do Espírito Santo, templo desaparecido na vila de Alcoutim



É a quarta vez que vamos escrever sobre este pequeno e desaparecido templo da vila de Alcoutim.

A primeira foi uma levíssima referência no nosso trabalho, Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia) (1) que fiz acompanhar de um pequeno desenho das suas ruínas que ainda existiam. Além do nome da invocação, pouco ou nada digo, afirmando até que nas minhas leituras nos arquivos locais nada tinha encontrado sobre ele, o que até hoje se mantém.

Quando o emérito historiador algarvio, Doutor Hugo Cavaco,publicou “Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio (Subsídios para o estudo da História da Arte no Algarve)”, numa edição da CMVRSA – MCMLXXXVII, foram colocados à disposição de todos, dados de muito interesse que vão de 1518 a 1566, que nos ajudam a conhecer melhor aqueles templos e nos revelam outros aspectos da vida local, proporcionaram-me um artigo mais completo que publicámos num semanário da região. (2)

Depois, e numa terceira abordagem, fizemo-lo após termos encontrado pela primeira vez uma referência a ela num assento de óbito.

Ainda que tenhamos alguma coisa de novo a acrescentar pela leitura que fizemos das Memórias Paroquiais – 1758, procuraremos compilar os elementos que demos a público.

Quando chegámos à vila em finais da década de sessenta do século passado, reparámos no que restava das suas ruínas e era bem pouco. Parte da fachada principal com o local do campanário, sobre o qual fazia o seu ninho um casal de cegonhas. Reconhecia-se muito bem o pequeno adro, empedrado, com parte dos muros e ainda se podia avaliar a área do templo devido à existência de ruínas das paredes.

[O templo visto por Duarte de Armas, Sec. XVI]
Foi tudo o que na altura podemos observar.

A nossa curiosidade por estes assuntos, levou-nos a indagar a evocação da ermidinha, mas as pessoas só nos sabiam dizer que era a igreja do Rossio e mais nada.

Tempos depois, uma alcouteneja, D. Conceição Cunha, filha do médico Dr. José Cunha, disse-nos que se tratava da Capela do Espírito Santo.

O passo seguinte sobre a capela, a que pensamos talvez ser mais adequado chamar ermida, por se encontrar sozinha, foi a constatação de a ver representada num desenho que o Doutor José Leite de Vasconcellos ofereceu a Manuel António Torres, considerado seu informador epistolar (3) alcoutenejo de destaque na sua época. Só mais tarde vim a saber que essa cópia tinha sido tirada do hoje bem conhecido Livro das Fortalezas de Duarte de Armas (Séc.XVI)

Em 1565 diz-se que está junto a esta villa da banda d’alem da ribeira d`Alcoutineio.

É indicada como sendo huma soo casa pequena, paredes até o meo de pedra e barro e dahi para cima de taipa, telhada de duas ágoas, madeirada de castanho emcaniçada.

Tinha um altar de alvenaria e no lugar do retábulo estava a imagem de Nossa Senhora com os Apóstolos e a vinda do Espírito Santo.

A ermida reparava-se à custa de esmolas que se pediam ao povo.

Em 1565 é considerada pelo Prior Visitador do Mestrado da Ordem de Santiago, João Fernandes Barregão, com necessidade de reparação e recomenda-se ao prior da igreja matriz, António Picanço, que junto do povo solicite esmolas para o efeito, pois a ele compete apresentá-la bem reparada e ornada para o serviço de Deus.(4)

Era tradição oral e ouvi-o dizer a alguns alcoutenejos que quando do domínio dos espanhóis, o sino desta ermida tinha sido levado para a matriz de Sanlúcar e lá rachou e foi substituído, e que os alcoutenejos nunca esqueceram o seu som.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, respondendo à pergunta 13, o pároco de S. Salvador escreveu: - a Irmida do Espírito Sancto está no Rocio da villa perto da mesma villa para a banda do norte e todas estas Irmidas são sojeitas ao Ordinário deste Bispado e à Parochia.
Em 1843 procedeu-se à alienação de grande parte do rossio por proposta de um vereador, logo secundado por toda a Câmara. Foram feitos vinte e sete talhões mas nunca consegui encontrar a relação de quem os arrematou. Sumiu-se, como por encanto!
Teria feito a ermida parte de algum dos lotes? É muito possível que sim.

Em Novembro de 2007, deslocámo-nos ao Arquivo Distrital de Faro no sentido de encontrarmos alguns dados de interesse para um trabalho que andávamos realizando e que veio dar origem a A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente». Ao pesquisar os assentos de óbito da freguesia de Alcoutim, aparecem-me dois, seguidos e do mesmo dia, 20 de Agosto de 1855, o primeiro referente a D. Maria do Carmo Xavier Casqueiro de Sampaio, casada com Manuel Francisco Piçarra, natural da cidade de Elvas, residente na cidade de Tavira, o outro de Eduardo Augusto Xavier Casqueiro de Sampaio, solteiro, natural da vila de Moira (Moura) igualmente residente em Tavira e que presumo serem irmãos ou pelo menos parentes próximos. Não se indica a idade em qualquer deles e os assentos são lavrados pelo P. António José Madeira de Freitas (tio).

O que nos chamou a atenção foi o facto de ambos terem sido sepultados na Ermida do Espírito Santo, extramuros desta Vila de Alcoutim.Significará isto que nessa altura a ermida ainda se encontraria de pé e ao culto?
Não encontrámos nas proximidades daquela data mais ninguém com tal sepultura.

Pessoas que viviam em Tavira, que teriam vindo fazer a Alcoutim? Teriam aqui familiares ou seriam aqui proprietários? Talvez ambas as coisas.

A família Xavier por essa altura possuía vários elementos espalhados pelo concelho.

A situação sugere-nos a deslocação das vítimas de Tavira, onde a cólera-morbo já se faria sentir, para estas paragens de ares mais puros e com a epidemia mais distante.

A sepultura na ermida porquê, uma vez que o cemitério já estava em funcionamento a alguns anos?

Sugerimos duas hipóteses: ou a ermida pertencia à família, obtida após a implantação do liberalismo, fazendo parte de um dos vinte e sete talhões que já referimos (5) e assim a família teria o interesse e autorização para o efeito ou tratando de vitimação por tal doença haveria a necessidade da sepultura ter lugar em local distante para evitar contágios e daí a referência no assento a extramuros desta Vila.

Cerca de 20 anos depois, na Cheia Grande de 1876, não encontrámos qualquer referência à Ermida, mas sabemos que a maior prejudicada com a enchente do Guadiana foi D. Ana Xavier de Brito Teixeira (6) que poderá ser da mesma família.Igualmente por esta altura, D. Júlia Xavier de Brito era proprietária nesta zona. (7)

Afirmava o alcoutenense Prof. Trindade e Lima que constava ter sido destruída por um raio e profanada pela impiedade dos homens, mas não indicava quando. (8)




[Lar da 3ª Idade acabado de construir]
As suas ruínas foram removidas em 1985 para dar lugar à construção do Lar para Idosos.


Notas
(1)Edição da Câmara Municipal de Alcoutim, 1985.
(2)“A desaparecida Ermida do Espírito Santo, na Vila de Alcoutim”, in Jornal do Algarve de 2 de Fevereiro de 1989.
(3)Etnografia Portuguesa, Tentame de Sistematização pelo Dr.J. Leite de Vasconcellos, Vol. VI, organizado por M. Viegas Guerreiro, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.
(4)Visitações da Ordem de Santiago no sotavento Algarvio..., Hugo Cavaco, 1987.
(5)“Coisas Alcoutenejas – Os Rossios”, José Varzeano, in Jornal do Algarve – magazine, 30 de Junho de 1994.
(6) Acta da Sessão da C.M.Alcoutim, realizada na Capela de Nª Sª da Conceição em 21 de Dezembro de 1876.
(7) Acta da Sessão ca C. M. de Alcoutim de 21 de Setembro de 1876.
(8)“Pequenos Apontamentos – Turismo”, in O Povo Algarvio, Tavira, 5 de Outubro de 1974.


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Sábado, 18 de Julho de 2009

Páginas da História de Santarém



O Escaparate de hoje pode à primeira vista pensar-se que nada tem a ver com Alcoutim, mas não é verdade, como tentaremos explicar.

O seu autor é o Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, o emérito historiador que nos deu o seu importante aval para que o meu livro, Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia) viesse a público. Sem ele, possivelmente ainda estaria na gaveta.

Trata-se de uma colecção de muitas dezenas de artigos, que o autor durante os anos fez publicar na imprensa regional, nomeadamente no Correio do Ribatejo de Santarém e na Vida Ribatejana de Vila Franca de Xira.

Este 1º Volume de 580 páginas, de 0,16X0,23 m, abrange duas temáticas, “Estudos Históricos” e “Santarenos Ilustre e Adoptivos”.

Já conhecia um número razoável destes artigos mas outros para mim foram uma autêntica novidade e estão a constituir a minha última leitura diária.

A edição é da Academia Portuguesa da História (Lisboa, MMVIII) com o patrocínio da Câmara Municipal de Santarém e o apoio da Fundação Eng. António de Almeida.

O prefácio é da Professora Doutora Manuela Mendonça que substituiu o autor na Presidência da Academia Portuguesa da História.

O exemplar foi-me oferecido pela Câmara Municipal de Santarém.

Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Alcoutim faltou!

Pequena nota

Este artigo foi escrito há 14 anos, não foi hoje!
Na procura de determinada documentação, fui encontrar este original que acaba por ter uma “estória”.

Tal como o enviei para publicação num jornal semanário do Algarve, aqui o publico tantos anos depois, mas que consideramos de interesse fazê-lo.

Para minha admiração, o artigo não foi publicado no número seguinte do jornal, o que, pelo menos quanto à minha colaboração não era habitual, mas pior, não o foi no número seguinte!

Pedindo, obviamente, uma explicação foi-me dito que não tinha chegado!

Hoje as coisas já não são bem assim, visto os mesmos serem enviados por “e-mail” e se não forem devolvidos é que chegaram ao seu destino. Com as cartas, as coisas podiam passar-se de uma maneira diferente.

Poderei acrescentar que nunca mais enviei nenhum escrito para esse jornal que nada perdeu comigo e eu muito menos com o jornal, pois deixei de fazer despesa com o envio dos mesmos. Se alguém perdeu, foi Alcoutim e alguns dos meus assíduos leitores que sei que os tinha.


JV


[Alcoutim de hoje. Foto JV]

Quando fui alertado pelo “anúncio” de que o próximo SERÕES NA PROVÍNCIA iria ser dedicado a Castro Marim, tomei nota para o seguir na íntegra, já que é zona que conheço relativamente bem.

Pensei para comigo: – Era um programa destes que Alcoutim devia procurar que se realizasse.

É importante uma “terra” dispor de alargado tempo de antena para dar a conhecer à plateia que é PORTUGAL, de Norte a Sul, as suas potencialidades, os seus problemas, as dificuldades e anseios.

Desconheço totalmente como os programas são agendados, mas certamente que não andarei distante da verdade ao dizer que tem de haver um interesse mútuo entre as partes.

Os intervenientes eram para os algarvios pessoas conhecidas e provenientes de vários quadrantes políticos e profissionais.

Como não podia deixar de ser, lá estava o dinâmico presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, defendendo a sua dama como pôde, dependendo Vila Real da sua vila pela água que lhe fornece e pela autorização da passagem de “fronteira”, ao que risonhamente respondeu o seu congénere dizendo que em Vila Real se considerava Castro Marim como a sua quarta freguesia.

As referências visuais e auditivas sobre Alcoutim e o seu concelho apareceram em quantidade apreciável.

Estavam presentes, além do presidente anfitrião, os de Vila Real de Santo António e de Tavira. O de Alcoutim (a cadeira como as câmaras mostraram, encontrava-se vaga), segundo o moderador, não estava presente por motivo de doença.

Daqui auguro ao Senhor Presidente rápidas melhoras, mas com os dados que disponho não compreendo porque não se fez representar pelo vereador a tempo inteiro, que o substitui, por sinal um alcoutenejo conhecedor da sua terra e interessado pelos seus problemas. E se este também não fosse possível comparecer, a Câmara ainda dispunha de mais três vereadores eleitos democraticamente e que podiam dar voz ao concelho, isto apesar de todo o interesse manifestado pelos presentes que se referiram a Alcoutim.

Todos nós sabemos que os meios de comunicação social, principalmente os audiovisuais, têm grande impacto e perder uma oportunidade destas, traduz-se em prejuízo para o concelho.

Eu, que muito modestamente procuro divulgar o nome de Alcoutim e do seu concelho há mais de um quarto de século, através da escrita e nomeadamente nas páginas deste semanário, que tem estado sempre ao nosso dispor, confesso que me senti frustrado ao assistir ao último SERÕES NA PROVÍNCIA.

E tinha de escrever isto.

Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

5000 VISITAS!



Quem foi dos nossos visitantes/leitores que deu pelo facto de hoje termos alcançado as 5000 visitas?

Certamente que nenhum, aliás como bem se compreende e até porque como já tivemos dois contadores diferentes, temos de fazer as contas o que não dá muito jeito.

A mudança do contador, como então tentei explicar, teve a ver com o bloqueamento do blogue.

Alcançámos os cinco milhares após um ano e vinte e seis dias de existência o que para nós e ponderadas todas as circunstâncias é motivador.

Não criámos um blogue para colocarmos meia dúzia de artigos para não dizermos menos e o abandonarmos totalmente, ficando “pendurado”. Houve um projecto que até agora temos conseguido cumprir, quando isso não for possível, daremos conhecimento aos nossos visitantes/leitores e retiraremos todo o seu conteúdo.

Podemos informar que estamos longe de esgotar os assuntos a abordar.

Não podemos deixar de agradecer aos visitantes que o fizeram de outros países, certamente pelas mais variadas razões.

O primeiro contador não fazia a acumulação como o actual faz, pelo que o número de visitantes “estrangeiros” do primeiro está incluído no cômputo geral.

Como se compreende, o Brasil e a Espanha são os maiores utilizadores dado que a língua e a proximidade são factores importantes.

Continua por outro lado a aumentar o número de blogues que referem este pelas razões que entenderam.

A média diária do número de visitantes tem aumentado consideravelmente.

Mais uma vez agradeço a todos que têm tido a amabilidade de nos escrever através do nosso e-mail.

Contem com o ALCOUTIM LIVRE. Continuem a divulgá-lo.

Bem hajam.

Alforges

Para ilustrar a nossa página de etnografia fomos hoje buscar algo de diferente do que até agora tínhamos apresentado.

Não se trata de peça exclusiva de Alcoutim ou da região, mas sim de um utensílio que muito se usou do Norte ao Sul do País.

Pensamos, contudo, que as suas linhas, padrões e mesmo a confecção serão diferentes de outras zonas do País. Os dois exemplares que apresentamos são velhos na “idade” (mais de 50 anos) mas novos, porque nunca foram utilizados.

Não passam despercebidos o azul forte muito característico do Sul do País e as barras castanhas e brancas igualmente do gosto deste povo e que era muito usado nas chamadas “mantas de trabalho”

Estavam guardados para se utilizarem quando os que em uso se estragassem. Os mais usados destinavam-se a transporte de vários tipos entre as propriedades rústicas e as residências nos montes.

Quando se ia à vila e às feiras e havia sempre necessidade de transportar alguma coisa, iam-se buscar os mais novos e bonitos, tal qual como se fazia com a roupa que se vestia.

O alforge, como se chamam as peças apresentadas, é uma espécie de saco comprido, fechado nas extremidades e aberto no meio, por onde se dobra, formando duas bolsas e em cujos cantos se colocam vistosas borlas de lã.

Começado a usar pelo homem que o colocava ao ombro, passou a utilizar-se sobre o dorso das montadas pelo que as suas medidas se ajustaram aos novos utilizadores.

Naturalmente tinha que se distribuir a carga para se manter o equilíbrio.

A palavra é de origem árabe, de al-khurj “o saco”. É mais uma entre muitas que os árabes nos deixaram.

Infelizmente, caminhando o burro para a extinção e que foi dos maiores auxiliares do homem, os alforges deste tipo também desapareceram, mantêm-se, contudo, de outro género para as pessoas e para os veículos de duas rodas, nomeadamente as motos.

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

D. Diogo Nunes Figueira

Nestas FIGURAS DO BAIXO GUADIANA, voltamos hoje ao concelho de Mértola, referindo assim a sua sexta Figura.

D. Diogo Figueira tomou o grau de bacharel na Universidade de Coimbra, sendo depois admitido no Colégio Real de S. Paulo, onde entrou em 1571.

Foi nomeado Bispo de Macau, confirmado pelo Papa Gregório XIII a 23 de Janeiro de 1576, nomeação que consta da História Eclesiástica de Portugal, pelo P. Miguel de Oliveira, sendo o primeiro bispo daquela diocese.

Parece que nunca veio a exercer tais funções, que não aceitou, tal como as do mesmo lugar no Congo, oferecido por D. Sebastião, no Japão e em Angra por oferta de D. Henrique e de Filipe I, respectivamente.

Em 1578 foi eleito deputado da Inquisição de Évora, sendo Cónego e tesoureiro-mor da Sé da mesma cidade.

Foi secretário de D. Teodósio de Bragança (1578/1602), arcebispo de Évora, tendo governado por duas vezes o arcebispado.

Renunciou igualmente aos seus lugares de cónego e tesoureiro-mor de Évora a favor de dois sobrinhos.


Acabou por recolher-se a um convento que fundou em 1612 para religiosos de S. Francisco, numa Quinta sua, na terra natal e de que ainda restam ruínas, onde veio a falecer a 28 de Junho de 1613.

Foi apreciado poeta latino e muito erudito nesta língua, conhecendo igualmente a bom nível as línguas grega e hebraica.

Deixou dois livros em latim.

***



O Convento situa-se a sul de Mértola, junto da confluência da Ribeira de Oeiras com o Rio Guadiana.

Com a extinção das Ordens Religiosas por Decreto de 30 de Maio de 1834, o espaço é votado ao abandono e em princípios dos anos 80 do século passado o convento em completa ruína é adquirido por particulares que o adaptam para sua residência, ficando a igreja reservada para actividades culturais, como concertos e exposições, entre outras.

Um “Museu da Água” ao ar livre em que a água é extraída da velha nora por processo mecânico sendo a alimentação feita por energia solar.

Peças de arte contemporânea, um jardim botânico, uma reserva ornitológica e uma galeria de arte são outras das atracções.

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Padrão Epigráfico de 1661



Foto tirada em 1968 por J.V.

Este importante documento epigráfico encontra-se na muralha, junto ao cais velho desde 1877, ou seja, após a CHEIA GRANDE e mandado colocar pela Câmara.

O seu local de origem era a PORTA DE TAVIRA onde foi colocado em 1661.

A inscrição diz:- ALFOMSVS VI REX PORTVGALI ET ALGARAVIORVM MDCLXI e possivelmente deveria ter sido deslocada devido à PORTA se encontrar em ruína.

Porque razão se teria feito tal gravação? Teria sido só para marcar a realeza de D. Afonso VI? Não o sabemos. Teria sido para assinalar a conclusão de obras de beneficiação na fortaleza que tiveram lugar nesse ano e para as quais foram concedidos 3 000 cruzados na primeira fase e orientadas pelo Eng. Pêro de Sancta Colomba? Ou teria sido para assinalar o ajuste do casamento de D. Catarina, irmã de D. Afonso VI com o rei de Inglaterra, Carlos II, que igualmente teve lugar naquele ano? Pelo menos foram feitas estrondosas salvas de artilharia, festejando-se o acontecimento com outras demonstrações de alegria.

Em 1880 é solicitado o envio para Lisboa do “documento” mas a Edilidade nega-se a fazê-lo pois pretende conservar neste povo a memória daqueles que nos fizeram glória no passado.

Domingo, 12 de Julho de 2009

D. Luís de Noronha e Meneses, 6º e último Conde de Alcoutim

Na nota biográfica que organizámos dos Condes de Alcoutim no nosso trabalho, Alcoutim, capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985, foi a do 6º e último que se apresentou mais desenvolvida, possivelmente por esta última circunstância.
Iremos hoje publicar uma nova nota aumentada no que nos foi possível compilar.

***

D. Luís de Noronha e Meneses nasceu em 1589 sendo filho de 4º Conde, D. Manuel de Meneses e de sua mulher D. Maria da Silva, Dama da Rainha D. Catarina.

Casou com D. Juliana de Meneses, filha de D. Luís de Meneses, 2º Conde de Tarouca que foi 19º Capitão e Governador de Tânger, onde faleceu em 1614 e de D. Luísa Henriques, sua primeira mulher.

Herdou o título de seu irmão, D. Miguel Luís de Meneses que casou duas vezes, sendo a última com sua sobrinha, filha daquele que veio a herdar o seu título visto não ter deixado geração, a não ser uma filha natural havida em Ceuta e filha de uma mulher nobre castelhana, D. Maria Xuar.

Herdou o título com 48 anos de idade.

Foi o 9º Capitão general de Ceuta, 7º Alcaide-mor de Leiria, Comendador de Vila Franca, na Ordem de Cristo e Senhor de Valença, Caminha, Valadares, Chão de Couce e outras.

Além de Conde de Alcoutim ostentou os títulos de 9º Conde e 7º Marquês de Vila Real e 7º Conde de Valença

Além disto era membro do Conselho de Estado de D. Filipe III.


[Coroação de D. João IV]

Quando os conspiradores iniciam o levantamento em 1 de Dezembro de 1640, encontrava-se o Marquês na sua cidade de Leiria e só tem conhecimento do acontecido no dia 8 por informação de seu filho, o 2º Duque de Caminha. Logo fez aclamar em Leiria D. João IV como Rei e jurou-o sem problemas nas Cortes que tiveram lugar em Janeiro seguinte, em Lisboa.

D. João IV depois disto acabou por reconduzi-lo no cargo de Conselheiro de Estado, o que igualmente aconteceu ao arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos e Noronha e ao inquisidor-geral, D. Francisco de Castro.

A estes juntou alguns membros saídos da nova situação política.

Além da recondução no lugar de conselheiro, o rei não o chamou para mais nada de relevo, antes pelo contrário, nomeou-o coronel do Terço da Nobreza, o que o Marquês sentiu como agravo.

Além disso um dos conjurados, D. Carlos de Noronha, Comendador de Marvão e muito bem aceite por D. João IV é nomeado em 7 de Janeiro de 1641 Presidente da Mesa da Consciência e Ordens.

D. Carlos de Noronha tinha casado com D. Antónia de Meneses que nasceu em Ceuta e pretendeu ser filha legítima de D. Miguel Luís de Meneses, 5º Conde de Alcoutim, decorrendo demanda judicial pela sucessão da Casa de Vila Real, o que naturalmente criava mal-estar.

Era sabido que as duas grandes Casas Senhoriais, a de Bragança e a de Vila Real nunca tiveram grandes laços de ligação, bem pelo contrário.

As mercês concedidas pelo Rei a uma nobreza menos ilustre mas que se tinha empenhado na Revolução, causou desagrado e descontentamento à que se considerava de maiores pergaminhos, como aconteceu com D. Luís de Noronha e Meneses, Marquês de Vila Real e Conde de Alcoutim e seu filho, 2º Duque de Caminha.


[D. João IV]
Começa a congeminar-se uma conspiração e em que são principais figuras os três conselheiros que o Rei manteve do tempo da Duquesa de Mântua, o arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos e Noronha, D. Luís de Noronha e Meneses e o bispo inquisidor-geral, D. Francisco de Castro.

A conspiração veio a ser descoberta por intermédio de D. Afonso de Portugal, 5º Conde de Vimioso

A 28 de Julho foi dada ordem de prisão aos conspiradores nos quais se encontrava o 6º Conde de Alcoutim que foi interpelado por Tomé de Sousa, enquanto seu filho, 2º Duque de Caminha foi preso por Pedro de Mendonça (outros dizem Jorge de Melo) e António de Saldanha. O cabecilha, D. Sebastião de Matos e Noronha foi preso por D. Rodrigo de Meneses, Desembargador do Paço.

Provado o delito de lesa-majestade foi degolado no Rossio de Lisboa no dia 29 de Agosto de 1641

Os seus bens foram confiscados e incorporados na Casa do Infantado, criada por alvará de D. João IV, de 11 de Agosto de 1654, a favor dos filhos segundos dos nossos monarcas.
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Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações Alfa, 1982, II Vol. Pág.335
Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, coord. de Barroso da Fonte, Editora Cidade Berço, Guimarães.
História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, Vol. II, pág.293.
Nobreza de Portugal, dir. de Afonso Martins Zúquete.
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
D. João IV, Leonor Freire Costa e Mafalda Soares da Cunha, Reis de Portugal, Temas e Debates, 2008.
D. João IV e a Campanha da Restauração, Mário Domingues, Edições Romano Torres, 1970
Wikipédia, a enciclopédia livre.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Arrancado pela raiz...

Pequena nota

Temos hoje o grato prazer de apresentar um pequeno texto mas que encerra grande profundidade de um nosso Amigo e Colega de profissão, José Temudo de seu nome.

Conheci-o há 42 anos num jantar de homenagem ao nosso Director-Geral, em Lisboa.
Era eu o mais jovem ou dos mais jovens convivas e ainda que ele o fosse também, já se encontrava na 2ª classe.

Calhou ficarmos bem perto um do outro e quando me perguntou em que concelho exercia e lhe disse que era em Alcoutim, ficou tão entusiasmado que lhe perguntei se era de lá. Disse-me que não mas que tinha passado lá os melhores anos da sua vida!

Anos depois, quando publiquei o “Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia)”, tive o cuidado de lhe oferecer um exemplar que muito apreciou e o que fiz a todos os colegas no activo que passaram por Alcoutim e não foram poucos.

Tomo a liberdade de transcrever um parágrafo daquela carta, datada de Póvoa do Varzim a 8 de Abril de 1987.



É notório o encanto que Alcoutim lhe desperta, tal como a sensibilidade de poeta que eu lhe desconhecia.

O texto que se segue é bem revelador do seu sentir por Alcoutim, aqui não existem palavras balofas, não se diz isto para parecer bem, não se escreve isto há procura do que quer que seja, diz-se isto porque se sente.

O quadro descrito, devia ter tido lugar em finais da década de trinta do século passado, talvez em 1937/38.

José Temudo foi sempre para mim, pela sua capacidade técnica e verticalidade, um colega de referência.



ARRANCADO PELA RAIZ...
Escreve
José Temudo:



“Naquele dia, chorei pelos meus amigos, companheiros de tantas brincadeiras e aventuras, que não tornei a ver.

Chorei pela Loba, que cresceu comigo, fiel e corajosa amiga, que lutou até ao Limite das suas forças para continuar connosco.

Chorei, ainda por algo indefinido que, só anos mais tarde, eu viria a saber o que era. Para além dos amigos e da Loba, eu estava igualmente, a afastar-me da parte mais despreocupada, mais alegre, mais interessante e mais feliz da minha infância.

Tinha oito anos quando saí de Alcoutim, afinal, do meu Paraíso. Arrancado pela raiz, como rosmaninho.”


Extraído de “ACONTECEU EM ALCOUTIM”, de JT
[Rua Pedro Nunes em Alcoutim e onde residiu a Família Themudo]