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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O figo da índia e o seu aproveitamento



As insónias, quando se chega a uma idade mais avançada, são uma pecha que atormenta a maioria dos idosos, pelo que também eu tenho períodos em que sinto esse flagelo.

A última vez que isso me aconteceu, foi na passada terça-feira, dia 21, pelo que não conseguindo dormir, resolvi ligar o rádio para ouvir música baixinha o que nalgumas vezes facilita o adormecer.

Rondaria as 6 da manhã e a “Antena 1” estava dinâmica com o noticiário: Prefiro o da rádio ao da televisão por ser mais completo e informativo.

O sono continuava distante até que, para meu espanto, o jornalista diz que vai ligar a Alcoutim.

Pensei com os meus botões que fosse mais uma das "larachas" que por vezes aparecem, passando pelos jornais locais, regionais, nacionais, rádios e televisões. Afinal enganei-me, era algo de diferente.

Se não tinha sono, acabava por ter o cérebro cansado pela falta de dormir, mas o facto não evitou que me tivesse apercebido que alguém no concelho de Alcoutim tem um projecto ou está tentando, no concelho mais pobre do país ou pelo menos um dos mais pobres, aproveitar algo que à primeira vista não presta para nada, o figo da Índia, mais conhecido localmente por figo de tuna.

Quando ainda se criavam porcos pelo concelho, era um dos principais alimentos desses animais, tendo ouvido dizer que esta alimentação dava bom gosto à carne.

Era um fruto que desconhecia quando cheguei a Alcoutim e ao prová-lo não me agradou muito, contudo, tempos depois, talvez pelo hábito, comecei a apreciá-lo.

Ainda no tempo do escudo entrando numa grande superfície comercial de uma cidade do Oeste, vi-os à venda, com pouco bom aspecto e estavam marcados a 600$00 o quilo!
Disse para com os meus botões, aqui está uma coisa que se dá tão bem em Alcoutim e que podia gerar alguma fonte de riqueza.

Falando algum tempo depois com um alcoutenejo que realizou variadíssimos projectos com auxílios comunitários e que nenhum acabou por vingar, disse-me que chegou a pensar nisso mas que tinha posto a ideia de parte.

Pela entrevista, aclarei algumas das utilizações que já conhecia conforme indico na minha postagem de 8 de Abril de 2009.

Licores, compotas, destilação, farmacopeia e cosmética são algumas das áreas que podem ser exploradas. Das sementes extrai-se um óleo valioso, comprado pela indústria cosmética. O fruto é utilizado para o combate à diarreia, ainda que o seu uso excessivo possa causar obstipação.

Nunca tinha ouvido falar disto no concelho de Alcoutim.

Numa região tão pobre, parece-me que tal exploração poderá ser compensadora, pois tem uma compreensível base de sustentação.

A figueira-da-índia é plantada para exploração das suas potencialidades em vários países, como no México, de onde parece originar, em Itália e no Brasil, entre outros.

Será que o projecto irá ser apoiado por quem de direito?

Oxalá que sim, mas duvido.

O povo gosta é de festas!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Figos lampos (brancos)



A figueira, que parece originária do Oriente, tem sido sempre uma árvore de referência do Algarve, pela sua boa adaptação aos terrenos e ao clima e pela qualidade dos seus frutos de paladar agradável e dulcíssimo.

Apesar de ser uma cultura em decadência, o figo seco do Algarve continua a ser procurado por todas as casas da especialidade que querem tê-lo devido ao interesse sempre manifestado pelos compradores e constituiu, em tempos, produto de acentuada exportação.

Em meados do século passado a sua cultura ainda era uma actividade importante no concelho de Alcoutim, fazendo-se a plantação nos terrenos mais propícios, ou seja nos mais baixos e por isso, normalmente mais frescos, sendo as margens do Guadiana terrenos privilegiados para a cultura, sempre necessitada de muito sol.

No concelho de Alcoutim, o figo funcionava, na altura, como um dos sustentáculos da economia familiar, já que a sua existência proporcionava, em verde, a alimentação humana e os de inferior qualidade a dos animais, nomeadamente dos porcos. Na época própria,as pessoas deslocavam-se para os seus terrenos na margem do Guadiana, levando consigo os porcos.

Aí procediam à sua apanha e secavam-nos (local designado por almanxar) em esteiras de funcho, de cana ou de outros arbustos, enquanto os porcos iam comendo os que de pior qualidade que ficavam pelo chão.

O tempo era de calor e as pessoas dormiam nas propriedades junto ao rio em cabanas ou ao relento.

[Figueira carregada de figos. Foto JV, 2010]

Depois de secos eram transportados nas bestas para casa onde se procedia à selecção. Os de melhor qualidade destinavam-se ao consumo humano após a adequada preparação, havendo arcas de castanho onde eram acondicionados, bem espalmados uns sobre os outros e misturados com funcho e ervas doces.

Quando se ia trabalhar para o campo, uma mão cheia de figos no taleigo constituía muitas vezes a alimentação possível.

Os de pior qualidade destinavam-se ao suplemento alimentar de bestas e gado e guardavam-se em grandes canastras.

A folha da figueira constituía também alimento de vacas, ovelhas ou cabras.

Além disso, a destilação do figo proporcionava uma aguardente que fazia sempre jeito ter em casa.

A figueira-lampa dá duas camadas, sendo a segunda mais abundante, em meados de Agosto.

Conhecem-se cerca de 600 espécies de figueiras.

terça-feira, 2 de março de 2010

Amendoeiras em flor

[Tendo por fundo a Corte da Seda. Foto AM, 2010]

Uma nossa amiga e visitante/leitora deste blogue teve a amabilidade de nos enviar esta foto tendo como fundo o “monte” de Corte da Seda, freguesia de Alcoutim.

Foi efectuada há dias quando se dirigia à pequena vila raiana, vinda do país vizinho e acompanhada de uns amigos, segundo refere. Além de outros aspectos a visita tinha em mira a “Casa dos Condes”.

A foto é bem elucidativa do abandono do amendoal, o que era impensável há cinquenta anos, já que a amêndoa era o produto onde os pequenos proprietários realizavam algum dinheiro.

[A caminho de Alcoutim. Foto de JV, 2010]

A amendoeira espalhou-se pelo litoral algarvio constituindo um rendimento apreciável do agricultor a que se juntava o do figo principalmente seco e numa faixa central a alfarroba, nomeadamente no concelho de Loulé.

A floração da amendoeira, misturando o branco com o cor-de-rosa ténue, foi um dos primeiros atractivos que trouxeram turistas nacionais e estrangeiros.

O desenvolvimento urbanístico levou à ocupação de terrenos onde anteriormente eram amendoais, juntando também o abandono a que o camponês o votou devido a solicitações mais compensadoras.

[Pormenor. Foto JV, 2010]

Enquanto isto se ia passando, o Algarve serrano após ter abandonado a cultura cerealífera, dirigiu o seu interesse para esta cultura o que fez sem sentido técnico por falta de conhecimentos e principalmente por falta de ajuda. Os amendoais semearam-se por processos inteiramente primitivos, sem tomar em consideração as condições dos terrenos, sem conhecer as espécies e sem escolher as mais adequadas, principalmente quanto à época da floração, que deveria ser o mais tardia possível devido às geadas próprias da zona que poderia dizimar a flor.

[Em Afonso Vicente. Foto JV, 2010]

Na década de 60 do século passado os novos amendoais começavam a produzir os seus frutos e os alcoutenejos a ver nas mãos algum dinheiro que os compensava do esforço feito. É que os amendoais não foram subvencionados como foi a florestação com pinheiros e azinheiras.

[A caminho dos Premedeiros. Foto JV, 2010]

Entretanto países que importavam a nossa amêndoa, tornaram-se produtores por processos evoluídos. A falta de mão-de-obra e a subida dos salários, com o decréscimo do preço, deu-lhe a machadada fatal, de tal maneira que poucos são aqueles que as apanham. Ficam nas árvores e quando caem são manjar dos javalis.

Totalmente abandonadas, árvores relativamente novas secam-se com grande facilidade.

Voltaremos um dia ao assunto noutra perspectiva.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A importância da árvore na herança alcouteneja

Já tenho referido em vários textos este assunto mas nunca o fiz numa análise individual.

Quando cheguei a Alcoutim e me apercebi que existiam árvores, nomeadamente oliveiras, de duas ou mais pessoas, fiquei embasbacado. Depois e perante a minha admiração foi-me dito que existiam árvores em terrenos de outras pessoas, o que reforçou a minha admiração já que não conhecia nada semelhante.

Naturalmente que isto não aparece por aparecer, tem forçosamente que ter uma explicação.

Numa explicação simples e procurando um exemplo elucidativo, admitindo que ficaram por herança duas propriedades rústicas de terreno e áreas semelhantes, dava-se a circunstância que uma delas possuía três oliveiras. Supondo dois herdeiros, aquele que ficaria com o terreno que não tinha oliveiras nem qualquer outra árvore, caber-lhe ficar com uma e o outro com duas pois era a sua terra que as alimentava e além disso ficava mais devassada.



Poder-se-á perguntar porque não haveria tornas a quem ficasse mais beneficiado? Existem, segundo o nosso ver, duas razões para o facto: 1ª - as árvores eram escassas nesta região e o seu fruto indispensável para a subsistência directa no caso da oliveira e indirecta por exemplo quando se tratava de azinheiras cujo fruto se tornava importante para a alimentação dos animais domésticos, nomeadamente do porco. A carne de porco e o azeite, a que se juntava o “pão” (trigo) eram o sustentáculo deste povo; 2ª – o papel moeda era escasso e ainda no primeiro quartel do século passado, a troca frequente, trocando-se trigo por louça de barro, ovos por sardinhas ou petróleo, por exemplo. O pouco dinheiro existente tinha destinos obrigatórios como acontecia com as décimas (contribuição predial).

Que seja do meu conhecimento, as árvores utilizadas nas situações que apresentámos, eram a oliveira, azinheira e o sobreiro. Não tenho conhecimento de mais nenhuma.

Estas situações passavam de pais para filhos, desconhecendo muitas vezes os proprietários as suas origens.

Tenho conhecimento de oliveiras pertencerem a três e mais pessoas!



Conheci um caso em que um apreciável número de azinheiras que se situavam nos arredores da Ribeira de Cadavais, para os lados da Corte Tabelião, davam origem a cinco quinhões, quase todos já divididos.

Havia um acordo entre as cinco partes iniciais, que tinha origem em tempos que ninguém conhecia e em que havia um único dia para a sua apanha, o dia de Todos-os-Santos. Cada quinhão fazia-se representar por um determinado número de pessoas e se alguém faltasse nesse dia da apanha, perdia o direito ao fruto.

Os homens velhos faziam os montões dos cinco quinhões, se todos estivessem representados e depois, cada quinhão era dividido nas partes que o constituíam, devido às heranças que o decorrer dos anos tinham originado.

Diz-nos a nossa informadora que se juntavam vinte ou trinta pessoas e que ela fez muitas vezes este trabalho. Algumas das pessoas não se conheciam como família, vindo algumas de montes relativamente distantes.

Ainda hoje a nossa informadora, já octogenária, desconhece de quem era a terra onde se encontravam as azinheiras.

Faltará dizer que, ainda que pareça impossível, estavam inscritas na matriz predial rústica algumas árvores nestas circunstâncias.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Alguns aspectos sobre o linho no concelho de Alcoutim

É conhecido como planta têxtil desde tempos longínquos e na década de cinquenta dos nossos dias ainda era semeado em muitos pontos do concelho de Alcoutim, alimentando os teares manuais existentes por todo o lado.

Em 1890 havia bastantes alcoutenejos que se prontificaram a experimentar o cultivo das variedades de linho a que se refere a Portaria do Ministério das Obras Públicas de 12 de Março daquele ano. Dessa lista constavam: - António José Madeira de Freitas, José Pedro Roiz Teixeira, Eduardo José Lopes, Joaquim José Lopes, Manuel da Palma Vilão, António Joaquim da Palma, António Cavaco, António Estevens, José Gomes Delgado Júnior, António Nobre, António Afonso Teixeira, Manuel Miguel e José Gomes.

[Tosando,(recriação). Foto JV, 2009]
Estão aqui representados os maiores lavradores do concelho encabeçados pelo pároco de Alcoutim.

Postura municipal do século passado proibia alagar linho nos pegos da Ribeira de Cadavais, o que veio a ser alargado a outros.

O Administrador do Concelho informa em 1874 que não tem grassado moléstia alguma em qualquer das espécies de gado, tendo contudo morrido três reses no monte da Palmeira e quatro nas Cortes Pereiras, aquelas há mais de um mês e estas há quinze dias e isto por terem bebido nos pegos onde se alaga linho e adoçam tremoços, por descuido dos rapazes que as guardavam.(1)

Semeava-se no princípio da Primavera e arrancava-se em fins de Julho, deixando-se em seguida secar.

[Fiando (recriação). Foto de JV, 2009]
Os teares eram de fabrico local e na grande maioria dos casos feitos de pinho, aparecendo também alguns de castanho e outros de eucalipto, isto segundo informações prestadas pelas poucas tecedeiras que existiam em 1977 a “entrevistas” feitas pelos alunos da 4ª classe das escolas dos Balurcos, Martim Longo e Palmeira. Ainda laboravam nesta altura teares em Casa Branca, Balurco de Cima, Palmeira, Tacões e Laborato, conforme se extrai dessas “entrevistas”.(2)

As tecedeiras trabalhavam o fio em tipos diversos de panos: - linho delgado, linho de fiado, redondo, estopas, toucas e toalhas.

Com o fuso se fiava, com a mãosoira batia-se e o sedeiro, cepo de madeira com dentes, separava o linho da estopa, são algumas das peças indispensáveis para a preparação da tecelagem.

Em 1877 a Administração do concelho possuía amostras de lã branca e preta e de linho com destino à Exposição de Paris. (3)

Penteadeiros, freguesia de Martim Longo onde trabalha ou trabalhou a última tecedeira do concelho e Premedeiros, zona rústica da freguesia de Alcoutim, são dois topónimos que poderão ter origem nesta actividade.

NOTAS

(1) - Ofício Nº94, de 21 de Setembro de 1874
(2) – Professoras Maria Odete do Rosário Campos (Martim Longo), Domingas Rosa Neto Gonçalves (Balurcos) e Maria Isabel Costa do Rosário Nunes (Palmeira)
(3) - Ofício nº 164 de 24 de Outubro de 1877

quarta-feira, 22 de julho de 2009

As romãzeiras


[Entre muitas, três romãs colhidas em 2006 num monte da freguesia de Alcoutim. Pesaram 2980 g. Foto JV]
Estes arbustos, muitas vezes em forma de árvores mas sem nunca constituírem porte assinalável, tiveram e têm importância na vida alcouteneja, ainda que nas últimas décadas não nos pareça terem merecido a atenção dos alcoutenenses.

Da família das punicáceas (púnica gramatum, Lin.) é originária do Oriente e cultiva-se nas regiões quentes e temperadas.

O seu fruto, (comestível) a romã ou romeira, (não virá daí o hábito dos alcoutenejos chamarem romaneira à planta?) tem forma arredondada e casca avermelhada e nalgumas espécies acinzentada e encerra grande quantidade de bagos vermelhos e sumarentos.

Dá uma flor grande de um vermelho vivo. Quando está em plena floração, este vermelho vivo contrasta com o verde das folhas fasciculadas que ainda encerram a beleza de parecerem envernizadas.


Lembro-me perfeitamente que na minha região natal as romãs, os diospiros e os marmelos eram considerados frutos de classe inferior e que além de serem baratos em relação aos outros tinham pouca procura.

A “fruta” produzida em Alcoutim devido aos parâmetros conhecidos, como o solo, clima e meios de comunicação, por exemplo, era fundamentalmente constituída por figos, marmelos, romãs, uvas, algumas peras e laranjas, isto na margem do rio ou das ribeiras que devido à presença da água, possibilitava a sua cultura.

Na Cheia Grande de 1876 as notícias publicadas referem que “Desde Mértola até Castro Marim, ambas as margens do Guadiana estavam orladas e revestidas de formoso arvoredo, nomeadamente figueiras e romãzeiras espontâneas, silvestres que, pendendo sobre o rio, não só o embelezavam mas davam abrigo aos barcos, no Verão, e aos marinheiros, passageiros e pescadores. Tudo a cheia derrubou, deixando ambas as margens escalvadas e nuas”.

Praticamente todas as várzeas do rio, junto à água, tinham romãzeiras e marmeleiros que além dos frutos que davam, estabilizavam as terras o que era muito importante.

Ouvi falar aos alcoutenejos em duas qualidades de romãs, umas boas, as assarias e outras que não prestavam, as de grainha de pau.

Era vulgar ver pessoas comerem romãs acompanhadas com pão!

As alcoutenejas deslocavam-se ao S. Mateus em Mértola onde procuravam vender as suas romãs, o que faziam igualmente nos “Pagos” da Mina de S. Domingos.

Hoje, com as possibilidades de captação de água podem-se ter romãzeiras em qualquer parte e se a qualidade for boa e se tiver tratamento, obtêm-se exemplares de excelente qualidade.

Hoje a romã ombreia com qualquer outra “fruta” a nível de preço e de procura.

As romãzeiras devem ser acarinhadas pelos alcoutenejos e os seus frutos poderão ser uma referência nas sobremesas.

Não esquecer que se faz uma excelente ratáfia de romã.

Por outro lado a casca das raízes é um bom tenífugo o que significa dizer que expulsa a ténia.

A casca e coroa da romã são usadas em tratamentos de hemorroidal.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A Casuarina, árvore de interesse público


[A casuarina nos nossos dias]

Este escrito começou por me dificultar a escolha do título pois pensei que a designação de O PINHEIRO DO CAIS se ajustava mais ao conhecimento geral.

Acabei por modificá-lo atendendo a que já existe muita gente, uma parte significativa da população que a conhece pelo seu verdadeiro nome e isto a partir da altura que nela foi colocada em posição pendente uma placa de madeira que indica o seu nome e a circunstância de ter sido classificada como de interesse público, o que aconteceu por aviso publicado na 2ª Série do Diário da República, nº 74, de 29 de Março de 1999, pág. 4555.

A partir daí começaram a olhar para ela de uma maneira diferente. É que tal como as pessoas, as árvores também têm a sua história.

Eu sempre ouvi falar de uma azinheira nos Balurcos, penso que no Balurco de Cima, de porte descomunal e que debaixo da sua copa podiam semear-se não sei quantos sacos de semente. Parece que foi vítima de um vento ciclónico que a arrancou pela raiz, o que normalmente acontece a árvores de tão grande porte.

Não conheço nada escrito sobre ela e era interessante que existisse.



[A casuarina com cerca de treze anos de idade já tinha este bonito aspecto]







Possivelmente terão existido mais árvores no concelho, nomeadamente nas proximidades do rio que pelo seu porte e características deviam ficar nomeadas para conhecimento dos vindouros.

Árvores assim, despertam-me sempre muito interesse. Sempre gostei de árvores e as minhas favoritas são a oliveira e a alfarrobeira. Destas e de outras espécies, tenham plantado algumas.

Em 26 de Outubro de 1998 escrevi à Direcção-Geral das Florestas chamando a sua atenção para este exemplar e foi nesta altura que procurei saber o seu nome exacto pois de outra maneira o assunto ou parava ou teria um andamento diferente.

Transcrevo parte do que então escrevi:- Trata-se de um exemplar de casuarina, segundo penso, que a 1,30 m da base do tronco tem um perímetro de 3 metros e 22 e cuja altura nos parece ser cerca de 25 metros. Quanto à copa, que é enorme, não a consigo calcular. / Foi plantada há mais de cinquenta anos e “bebe” fartamente no Guadiana.
Termino a minha carta pondo-me ao dispor para qualquer outra informação necessária e que me fosse possível dar.








[A Casuarina já com a bonita idade de 34 anos]








O processo decorreu muito bem e fui gradualmente informado até à sua conclusão, tendo havido a amabilidade de me agradecerem o interesse e colaboração prestada.

Começamos o assunto praticamente pela actualidade, agora teremos de andar uns bons anos para trás.

Antes disso transcreverei os dados ainda não referidos e de mais interesse da Ficha da Árvore de Interesse Público que obtive na site http://www.afn.min-agricultura.pt/

Nome científico – Casuarina cunninghamiana Miquel
Nome vulgar – casuarina-ténue
Interesse histórico ou paisagístico – Bom exemplar de casuarina de fuste grosso, copa densa e frondosa. A árvore situa-se num pequeno terraço com uma excelente perspectiva sobre o Guadiana e a Vila Espanhola de Sanlúcar del Guadiana. O local é ponto de encontro e de realização de festas.

Perímetro da Base 5.0
Perímetro a 1,30: - 3,31
Diâmetro da copa norte/sul – 19.0
Diâmetro da copa este/oeste – 19,5
Altura – 23,7
Nota: - As medidas são em metros.
Última medição – 2006.
Idade (anos) – 90.


Este último dado tem um grande desfasamento, por excesso, perante a realidade como tentaremos justificar seguidamente.

Ainda que eu tivesse algumas informações sobre o assunto, elas não me permitiam tirar conclusões pois apareciam divergências notórias.

Através do alcoutenejo amigo e colaborador deste blogue, Eng. Gaspar Santos, foi possível recolher infomação bastante mais segura.

Quem plantou a hoje já “célebre” casuarina, foi um seu tio materno e padrinho, Manuel Martins que como cabo comandou o posto da GNR de Alcoutim e isto ter-se-ia dado em 1953/54, com mais hipótese para o último ano. Em relação a este ano, terá por isso cerca de 55 anos o que realmente é uma bonita idade mas muito inferior à apontada oficialmente, possivelmente por alguma informação errónea.


[Vista de parte do cais novo onde ainda não se encontrava plantada a casuarina. Além da Capela de Sto. António notam-se a venda do Sr. Sabino e a parte cimeira dos armazens do comerciante local, J.B.Guerriro. Esta fotografia foi gentilmente cedida pelo Sr. Eng. Gaspar Santos, de Alcoutim]

Se o cais foi inaugurado em 1944 e a árvore ainda não estava lá como se demonstra com a fotografia que se junta e gentilmente cedida por aquele nosso amigo, o que aliás não seria necessário por razões óbvias. Não se iria construir um cais em face da existência de uma árvore!

É-nos referido que o cabo Manuel Martins, natural dos Montes do Rio, se deslocava assiduamente de regador na mão e numa altura que não havia fornecimento de água ao domicílio para proceder à indispensável rega.

Conheci-a quando tinha cerca de doze anos e já possuía um porte apreciável.

Para quem possa desconhecer, direi que nos termos da legislação em vigor, o arranjo, incluindo o corte e a desrama deste exemplar fica sujeito a autorização prévia da Direcção-Geral das Florestas.

Aqui deixamos a nossa homenagem ao homem que teve a feliz ideia de plantar esta árvore, hoje um “ex-libris” da pequena vila raiana, nas margens do Guadiana.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

As tuneiras



Tuneira é o nome mais vulgar no concelho de Alcoutim para designar uma planta arbustiva, carnosa, de ramos compridos, articulados e espinhosos.

Este tipo de opúncias ou cactáceas é também designado noutras regiões por figueira-da-índia, figueira-da-barbária, pita, nopal, etc.

Tendo por nome científico (Opuntia ficus-indica (L.) Mill), é provavelmente originária da América Central, mais propriamente da região semidesértica do México, de onde os espanhóis a trouxeram para a Europa e os mouros para África.

Planta sub-espontânea, desenvolve-se bem em solos pedregosos e secos, resistindo bem à falta de humidade pois vai acumulando-a nos seus troncos verde-escuro, no período das chuvas e que quando velhos se tornam acinzentados e lenhosos.

As folhas estão transformadas em espinhos.

Esta planta no concelho de Alcoutim tinha várias utilidades. Colocada nas extremas, dividia e protegia com eficiência as propriedades.

Os figos de tuna, como chamam aqui aos seus frutos, são muito doces, frescos e comestíveis.

Colhem-se pela manhã, com uma tenaz, aproveitando as maresias pois nessa altura os espinhos dos frutos que são muito finos, têm menos possibilidade de se cravarem nas nossas mãos, de onde dificilmente se tiram. Depois, varrem-se bem varridos para que todos os espinhos saiam.

São considerados um bom alimento para os porcos que além dos engordarem bem, também lhe proporciona uma carne mais saborosa.

As tuneiras localizavam-se de uma maneira geral junto dos montes onde normalmente a terra era pouca. Por outro lado, os pocilgos estavam por perto sendo mais fácil o trabalho de transporte.

As tuneiras devido à transformação do modo de vida começaram a ser atacadas pelo homem que já delas não necessita como anteriormente.

Em lugar das tuneiras estão hoje algumas casas.

A sua flor, de cor alaranjada, é muito bonita, apresentando um quadro agradável à vista.

Os alcoutenejos utilizam o suco das suas palmas que faz misturado com mel ou açúcar, um xarope para a tosse e para a asma.

Os seus derivados são utilizados em farmácia e cosmética. Das sementes do seu fruto extrai-se um óleo valioso, comprado pela indústria cosmética por cerca de mil euros o litro, segundo informação que recolhemos.

O fruto é utilizado para o combate à diarreia, o seu uso excessivo pode causar obstipação.
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sábado, 10 de janeiro de 2009

O loendro, arbusto característico do concelho de Alcoutim


Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa – Verbo, 2001, loendro é uma planta arbustiva da família das apocináceas (nerium oleander, Lin.), de flores cor-de-rosa dispostas em cacho e considerada tóxica, também conhecida por cevadilha e espirradeira. O loendro é espontâneo nas margens dos rios e dos ribeiros, no Alentejo e no Algarve.

Ao consultarmos o Dicionário da Língua Portuguesa “Editora”, 5ª Edição, 1977, encontramos outras designações, como adelfeira, adelfa, aloendro, eloendro, aloendreiro, landro e loendreiro.

Ainda que já não sejam poucas as designações para uma planta (não sei se existirá outra com tantos nomes), localizámos no dicionário Lello Universal, Porto, 1975 mais duas, rododendro e loureiro-rosa. Se não contou, conte, são doze as designações!

Este dicionário define-o como um arbusto de grandes flores cor-de-rosa ou brancas, dispostas em corimbos e considerada muito vulgar como planta ornamental, conhecendo-se três espécies da região mediterrânea e da Ásia.

Antes de chegar a Alcoutim, só conhecia o loendro como arbusto ornamental colocado nos jardins da minha terra natal. Significava para mim uma “flor”de jardim.

Quando há cerca de quarenta anos comecei a ter contacto com o concelho serrano do Caldeirão, reparei com admiração, na época própria (Junho e Julho), como numa zona tão seca, floresciam uns arbustos que vicejavam nos vales por onde correm em determinadas épocas do ano, as águas, ora de pequenas nascentes, ora do escorrer das encostas xistentas do “mar de cerros” que a serra algarvia constitui no dizer do grande geógrafo, Orlando Ribeiro.

Só então percebi que aquele arbusto era o mesmo que eu conhecia dos jardins da minha cidade, ainda que existissem algumas modificações que os homens ligados à ciência botânica e depois os jardineiros tivessem transformado com o sentido de fornecer plantas dobradas e mais chamativas.

Foi a altura de perguntar àqueles que sempre conviveram com ele “coisas” que eu desconhecia completamente.

Soube assim, aquilo que qualquer moço sabia, que nasciam por esses barrancos fora, sem ninguém os plantar, até porque não eram bem-vindos na maior parte dos casos, ou seja, disputavam as humidades e fertilizantes naturais às plantas cultiváveis ou a outras espontâneas que o homem aproveitava através da enxertia, como acontecia por exemplo com os zambujeiros transformados em oliveiras.

Ainda que a base da alimentação do alcoutenejo fosse o trigo, não podia dispensar a cebola ou o alho, os coentros, os tomates, algum pimento, as suas couves de rebolo, bem características e hoje quase desaparecidas e as batatas. Tudo isto em mini-produção que os lugares para o efeito eram reduzidos e de uma maneira geral afastados das habitações, construídas em pontos altos, onde a água não existia. Os pequenos hortejos que fabricavam junto dos barrancos onde as característica topográficas e de solo proporcionavam a acumulação de terra e a abertura de um pequeno poço que desse alguma água originando a indispensável rega. Mas alto lá, havia que combater desapiedadamente os loendros que nasciam nesses lugares propícios ao seu desenvolvimento. Eram as cavadeiras, os piques, os serrotes e o fogo os meios que o alcoutenejo utilizava para os combater. Ali não os queriam, que lhe roubavam o sustento das suas plantas, crescessem noutros lugares pois apesar de tudo, sempre necessitavam deles para algumas das suas necessidades, tudo o que nascesse espontaneamente teria de ter a sua aplicação para melhorar as condições de sobrevivência em zona de tão poucos recursos.

Ficando explicada as razões do combate ao loendreiro, iremos agora abordar as utilizações que o alcoutinense lhes dá ou deu.

A toxidade da planta não permite a sua utilização pelos animais de pastoreio e como não podia deixar de ser, pelos selvagens. O homem parece ser o seu único inimigo, isto não contando com pequenos insectos ou fungos que lhe poderão proporcionar a morte.

Os típicos caniços que constituíam quase exclusivamente os forros dos telhados, eram feitos com o precioso auxílio das varas de loendro que depois de rachadas ao meio serviam para ajustar e fixar as canas com a colaboração dos pregos.

Devido às características da sua madeira, cor, maleabilidade e resistência, era muito procurada para a confecção artesanal das típicas cadeiras, de todos os tamanhos e que faziam parte do “mobiliário”das habitações. Enquanto os pés e as costas eram quase sempre de loendro, as travessas que lhe davam equilíbrio e consistência, faziam-se de esteva ou de zambujo. Com o tampo de junça ou tabua, podia dizer-se que o material não tinha custo.

Era apanágio do homem completo, além de outras coisas, saber fazer uma cadeira, ainda que houvesse quem se dedicasse com mais assiduidade à sua confecção.

Segundo informação que retenho na memória, o loendro tinha de ser colhido em determinada época, só assim não “bichava”no futuro.

Em tempos mais recuados as mulheres queimavam-nos para aproveitar a sua cinza na barrela, ou seja na limpeza da roupa.

Nos pocilgos, os ramos eram utilizados para fazer “sombrachos” que protegiam os animais do sol. Eram igualmente utilizados com o mesmo fim para pessoas, coisas e animais.

Quando não havia outro meio, era o loendro que servia para atar uma faxina de lenha ou o enxerto de zambujeiro.

Os alcoutenejos também lhe conheciam as aplicações curativas, utilizando-o na extracção de calos e nas picadas de lacrau, segundo os meus informadores da altura e já lá vão umas décadas.

Hoje, raramente se faz um caniço, já não há cadeireiros em actividade, barrelas nem pensar nisso, porcos já não se criam, ninguém apanha uma faxina de lenha e os poucos enxertos que se fazem, são efectuados com corda, quando não com ráfia!

Não há muitos anos, praticamente ninguém se preocupava com o uso decorativo do loendreiro, ninguém perdia tempo com essas coisas. Só muito excepcionalmente isso acontecia.

Ainda que já se vejam pelo concelho alguns destes arbustos usados como ornamento de parques e jardins, penso que será possível investir mais nesta espécie tão característica.

Ao contrário do que muita gente pode pensar, a transplantação do loendro não é fácil.

A nível de literatura, encontrámos no conhecido Guia de Portugal, no Vol. II, de Raul Proença, 1927, pp 198 e 199, o seguinte texto (…) um raro e belo arbusto, a adelfeira ou loendro, enfeita os ribeiros com a sua folhagem lustrosa e as flores rosadas e brilhantes. Nos estreitos vales do Caldeirão, as linhas dos riachos e dos barrancos são verdadeiros jardinzinhos de loureiros-rosas, em Maio ou Junho todos floridos.

Muito mais recente é o que respigámos em Portugal Meridional, Gentes, tradições, fauna e flora de John e Madge Measures, 1995.

Os vales dos rios são geralmente bordejados de loendros que constituem um espectáculo inesquecível quando em plena floração, em Junho. Não deve esquecer-se também que estas plantas são muito venenosas e cada uma das folhas contém veneno suficiente para matar uma pessoa. (pág. 69)

Mais adiante, pág. 75, encontramos: Na Ribeira do Vascão cresce abundantemente o loendro, planta indígena que proporciona uma paisagem colorida em Junho e Julho, época em que as suas flores cor-de-rosa encobrem as folhas venenosas.

E por último, pág. 109 e já no concelho de Castro Marim, refere mais uma aplicação do loendreiro: Nos ribeiros perto de Azinhal, crescem loendros cuja madeira, dura mas leve, é trabalhada para fazer bilros para a renda.


Certamente que existirão mais utilizações deste arbusto venenoso característico do concelho de Alcoutim e de outros do Sul do país.