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domingo, 3 de janeiro de 2010

Igreja Matriz de Alcoutim


[Cristo Salvador]

Tem por invocação O Salvador.

Situa-se na parte baixa da vila, perto do Guadiana, tendo-lhe passado junto, recolhendo-a, a muralha que cercava a vila.

Data o templo da primeira metade do século XVI, do reinado de D. João III, tendo-se aproveitado para capela lateral, hoje a do Santíssimo, a anterior igreja de uma só nave, que existia em 1518. (1)

Admite-se que o trabalho possa ser de André Pilarte, mestre pedreiro de Tavira ou de seus colaboradores. (2)

Existem elementos arquitectónicos semelhantes na Misericórdia de Tavira e na capela dos Falcões no cemitério de S. Francisco de Tavira. (3)

A primitiva igreja de Alcoutim tinha em 1320 por invocação, Santa Maria. (4)

A actual matriz da vila tem merecido, no decorrer dos tempos, várias obras de restauro, algumas tirando-a da ruína, como aconteceu com a última ocorrida nos fins da década de quarenta princípios da seguinte e que a deixou com o aspecto actual.

[Pórtico renascença]

O portal, que constitui talvez a peça de arquitectura de maior valor, está virado para o sul. Simples mas elegante, é em estilo renascença.

De arco perfeito e estreitas colunas, é trabalhado em baixo relevo de finos pormenores, utilizando-se a lei da simetria. De cada lado nota-se esculpido um cálix. No friso cimeiro que os une, predominam linhas curvas e outros elementos decorativos como aves estioladas, aparecendo com relevância as asas e patas.

Sobre o friso, uma faixa. Dois ornatos laterais e outro maior e central, esculpidos com maior relevo e em forma de facho, ladeiam na verga um escudo de tipo francês com a divisa ALLEO entre ramos de azinheira entrelaçados, estando assim representada a Casa de Vila Real, tronco do Condado de Alcoutim que na qualidade de donatários da vila, teriam sido patrocinadores da obra.

[Brasão da Casa-Vila Real]

A mesma inscrição ALLEO e pelos mesmos motivos, encontrámo-la na Capela de Nª Sª da Conceição fazendo parte do brasão de armas da vila.

A porta é de duas folhas e dá-lhe acesso escadaria recente, composta por dez lanços a que se chega pela Rua Eng. Duarte Pacheco.

Na fachada, de empena de bico, sobre o portal abre-se um óculo redondo que areja e ilumina a igreja. É protegido por grade de ferro forjado onde as rectas se misturam com curvas e contracurvas. É obra proveniente do restauro.

Torre sineira de secção quadrangular e três olhais de arco perfeito. Cúpula piramidal da mesma secção em cujo vértice se situa cata-vento de ferro representando o tradicional galo.

Nos vértices da torre existem pináculos de argamassa e de adorno que condizem com a cúpula.
São dois os sinos. O maior, com uma grande cruz em relevo, mede 0,52 m de altura por 0,52 de diâmetro. O seu peso é de cerca de 130 kg.

Dá nota sol 4. As legendas dizem:

Em cima: - Ave Maria Gratia de S. Salvador Mundi
Em baixo: - Anno DE 1?18

Não se consegue ver se é 1718 ou 1818, porque o segundo algarismo está desgastado.

O menor, com a altura de 0,40 m, diâmetro de 0,44 m e peso aproximado de 60 kg., dá nota lá 4.

A inscrição é assim: I H S Maria Jose ano 1779

Estes sinos, segundo o autor de Vozes de Bronze, são a voz de Portugal mais fácil de se fazer ouvir em Espanha. (5)

[Capitel coríntio. Foto J.V. 2008]
Entremos no templo considerado amplo e de boa construção. É de três naves um pouco desproporcionadas e quatro tramos. A nave central assenta em oito fortes colunas de fustes cilíndricos rematados por belos capitais de vários ornatos, predominando elementos florais, mas de estilo pouco definido, constituindo peças de valor arquitectónico.

Dá nas vistas uma pia tetralobada e que envolve uma das colunas. (6)
Pedra sepulcral com a seguinte inscrição:-Aqui jaz Gaspar Gomes na era de 1648.

Foi sargento-mor e Familiar do Santo Ofício.


O baptistério situa-se sob a torre sineira e é defendido por largo portão de ferro forjado no qual se vê o ano de 1905.

A pia baptismal tem cerca de um metro de diâmetro e nada de interesse.

[Baixo-relevo no Baptistério]

Na parede, e como alusão ao acto, um baixo-relevo colorido, de interesse, representando o Baptismo de Jesus. É cercado por uma orla onde se lê a enigmática legenda:- “1653 - CAPITULUM SACROANTAE LATERANENSIS ECCLESIAE”. Que poderia ter o Cabido da Igreja de Latrão com Alcoutim? - pergunta o Prof. Pinheiro e Rosa. (7)

A capela-mor é dividida do corpo da igreja por arco triunfal perfeito, sem ornatos, e que no fecho ou chave tem a era de 1902, certamente indicativa de alguma reconstrução ou reparação.

O retábulo, que foi restaurado, é de madeira trabalhada e forma um conjunto harmonioso.

A abóbada é de berço sem qualquer decoração.
No altar da nave do Evangelho, existiram telas muito estragadas: Cristo Crucificado, S. Miguel Purgatório e mais três pequenas com imagens de santos, mas cobrindo pinturas em tábua de muito melhore qualidade.(7)

O retábulo da capela colateral esquerda classificado como do século XVI princípios do XVII, foi restaurado, mas com desvirtuamento das suas características. (7)

[Interior do templo]

Além dos painéis indicados, havia na igreja mais três de pintura não boa:- um Nascimento, uma Entrega do Escapulário do Carmo e uma Visitação. Estas peças mesmo que não tivessem grande valor artístico, tinham-no iconográfico e histórico e nunca se deviam destruir nem alienar. (7)

O tecto da nave central é de madeira, tal como o púlpito de secção hexagonal e a escada em caracol, circundando uma coluna da nave e que lhe dá acesso.

Tem coro.

O corpo da igreja possui uma porta lateral, de arco perfeito, mas sem qualquer interesse.

A sacristia tem porta e janela para o exterior. Recebe também luz por três frestas de arcos ogivais.

Do outro lado do templo, a confraria. Um lanço exterior de dez degraus de ladrilhos, protegidos por muro, leva-nos a uma porta de acesso. Janela quadrangular guarnecida por grade de ferro forjado.

A nível de alfaias, guarda um cofre eucarístico de prata e madrepérola e uma custódia templete do século XVII, rematada por uma imagem de Nª Sª da Conceição. (8)

Dois cálices de prata, um liso, outro cinzelado, do século XVII. (7)

No inventário dos Bens da Paróquia de 1878, (9) consta um cálix de prata dourado por dentro e bordado por fora, com os Martírios do Senhor.

De paramentos são apontados: uma casula francesa, do século XVI, com sebastos de veludo, panos laterais de seda lavrada e guarnições de brocatel, e uma casula verde, também do século XVI, em damasco com sebastos de brocatel. (7)

Como se disse, o estado actual deve-se ao restauro iniciado em 1948 e que a tirou da ruína. Em 14 de Janeiro de 1951, dizendo-se missa, reabria-se ao culto, considerando o correspondente local do Diário de Lisboa, uma obra do Estado Novo.

Por testamento de 20 de Setembro de 1852, Joaquim Madeira disse que irão para a igreja matriz, onde se conservarão, as imagens de Santo António e de Nª Sª do Carmo, que tem em sua casa. Estas imagens não aparecem referenciadas no inventário de 1878 nem são conhecidas na igreja.
Enquanto esteve em ruína, serviu de matriz a Igreja da Misericórdia.

Ocupa uma área de 417 m2 e pertence à Diocese de Faro. (10)

A Igreja de S. Salvador é considerada um dos melhores exemplares do primeiro renascimento no Algarve. (11)



N.B.Este texto foi retirado da 2ª Edição de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), em preparação, guardando-se as notas para uma hipotética publicação.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Igreja Matriz de Vaqueiros



O simples mas gracioso templo, que tem por invocação S. Pedro, no dizer de Pinheiro e Rosa, (1) é mais antigo que a criação da freguesia, sem contudo dever recuar dos princípios do século XVI.

Silva Lopes (2) classifica-a como “mediana com três confrarias de certos rendimentos “ e Pinho Leal (3) como “Egreja ordinária e pobre”. O Dicionário "Portugal" (4) informa que “é pobre e nada tem de notável”.

Estas duas últimas referências baseadas uma na outra, como tudo indica, não correspondem de maneira nenhuma à realidade, como a seguir justificaremos.

Templo quinhentista, que estava quase concluído em 1565, (5) foi remodelado no século XVIII. (6) É daí que lhe vem o frontão da fachada principal e a torre sineira, principalmente a sua cobertura, de estilo barroco tardio. (7)

A frontaria é baixa e o frontão fantasiado com pináculos nos cantos e ao centro uma cruz de ferro forjado.

A porta, de arco quase ogival, é decorada com cabeças de anjos nas pilastras.

A torre sineira, à esquerda da fachada, fica à face da mesma e é de quatro olhais, cujos frontões acompanham a cornija do varandim, em cujos cantos se erguem fogaréus do mesmo tipo da cúpula, sobre a qual se situa um cata-vento figurando um galo, símbolo da vigilância e muito vulgar nas torres das igrejas.

A torre tem dois sinos. O maior, de 0,50 m por 0,95 de diâmetro, pesa 140 kg. Há nele uma cruz e a legenda: S. PEDRO ORA PRO NOBIS - ANNO DE 1779. Já não é o que fora posto em 1755, para o qual a confraria do Santíssimo despendera 2000 réis.

O menor, que mede 0,40 m por 0,46, pesa 70 kg. Além da cruz tem as seguintes inscrições: ESTE SINO MANDOV FAZER O Rº. Pe JOSÉ MARIA REIS - ANTÓNIO FERNANDES PAULO ANDADEV O FEZ EM 1860. (8)


Sobre a capela-mor também existem florões.

A porta lateral da fachada direita é igualmente quinhentista.

Pouca ruína teve do terramoto de 1755 pois apenas abriu algumas pequenas rachas na sacristia e campanário e essas ainda se não repararam pela pouca ruína que ameaçam, segundo refere a “Memória Paroquial”



É de uma só nave que dá acesso à capela-mor, mais estreita e de planta rectangular.

O retábulo do altar-mor, do século XVI, enquadra duas pinturas sobre tábua, da mesma época, figurando Sant ‘Ana e S. José. O arco que precede o altar da Senhora da Soledade está ornado com pinturas ao gosto do século XVIII. (6)

Cadeiral maneirista.

A imagem do padroeiro que apresenta um báculo na mão esquerda e uma chave na direita é pintada, dourada e estofada e encontra-se no nicho principal do retábulo da capela-mor. (9)

Na indumentária havia uma bolsa de corporais de seda branca bordada a ouro em relevo no anverso e a sedas matizadas no reverso, devendo tratar-se, segundo Pinheiro e Rosa, de peça do século XVIII.


Uma pequena custódia de prata lavrada e ostensório radiado que já existia em 1790 e um cálix do século XVIII, de prata dourada e relevada com motivos vegetais, sendo a ornamentação do pé e base toda em escudetes irregulares, constituem peças de ourivesaria a mencionar.
Existia um livro litúrgico datado de 1621. (1)

A Junta de Paróquia foi autorizada em 1860 a lançar uma derrama com o fim de fazer face à despesa com a fundição de um sino e a compra de um paramento roxo. (10)

Em 1884 a mesma Junta apresenta a Sua Majestade uma petição solicitando um subsídio para poder compor a Igreja Paroquial que se achava em ruínas. A Câmara Municipal que para o efeito a tinha de confirmar fá-lo atestando a veracidade do alegado. (11)

Em 1988 a Câmara Municipal mandou colocar um relógio na torre.

O templo situa-se num extremo da aldeia, tendo à saída do adro um escadório que nos leva ao largo principal.

Está inscrito na matriz predial com uma superfície coberta de 274 m2 e 600 de logradouro, que na última visita que lhe fiz, encontrava-se mal cuidado.

Tenho conhecimento que recentemente recebeu obras de restauro que não conheço.

NOTAS

(1)-“São Pedro na Arte Religiosa do Algarve”, Pinheiro e Rosa in Correio do Sul de 1 de Junho a 13 de Julho de 1967.
(2)-Corografia do Reino do Algarve.
(3)-Portugal Antigo e Moderno.
(4)-Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues.
(5)-Alcoutim - Algarve - Portugal (Brochura Turística), Francisco Ildefonso Lameira.
(6)-Tesouros Artísticos de Portugal , Selecções do Reader’ s Digest, 1976.
(7)-“Um olhar sobre as Igrejas de Alcoutim” (Folheto Turístico) Ed. C.M.A.
(8)-Vozes de Bronze , P. José António Pinheiro e Rosa,1946.
(9)-A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX , Manuel Rodrigues e Francisco Lameira,1985.
(10)-Acta da Sessão da C.M.A. de 8 de Agosto de 1860.
(11)-Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Agosto de 1884.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Igreja de Nª Sª da Conceição, Matriz de Martim Longo

[Igreja Matriz, 2007. Foto de JV]

Foi sede de priorado, tendo três igrejas curadas anexas, que foram Giões, Vaqueiros e Cachopo. (1)

É o templo do concelho sobre o qual, e em consequência do seu valor, mais se tem escrito, sendo o único considerado como Imóvel de Interesse Público (Decreto nº 47508, de 24 de Janeiro de 1967), o que é significativo.

É lamentável verificar que depois da publicação do diploma, sofreu acções que lhe limparam elementos de valor histórico e iconográfico.

Silva Lopes, (2) considera-a a mais antiga destes arredores e Correia de Azevedo (3) diz que não há como esta, outra em toda a área do concelho.

O douto Prof. Pinheiro e Rosa refere-a como antiquíssima, embora se encontre modernizada por partes. (4)

Desconhecendo-se a data da fundação, é construção de raiz gótica mas muito obliterada (5), conservando poucos elementos artísticos da primitiva construção. Exteriormente destacam-se as portas góticas, a principal de um só colunelo e a lateral mais simples (6) e os seus botaréus semicilíndricos, três em cada uma das paredes laterais, (7) de um tipo pouco comum na arte portuguesa.

Tem semelhanças com os da ermida de S. Brás, em Évora, dos finais do século XV, considerada protótipo de arte gótico-manuelina-mudéjar (8) e com as matrizes de Espírito Santo (Mértola) e Santa Cruz (Almodôvar). (9)

[IGreja Matriz, desenho de JV.]

As duas portas góticas e os contrafortes teriam (terão) talvez uma longa história para contar, segundo observa Victor Adragão. (10)

A fachada principal é muito estreita. Sobre a porta de pedraria e a que já nos referimos, uma janela de verga trabalhada, que ilumina e areja o templo. Este janelão teria sido feito em meados do século XVIII.

Sobre o bico da empena, uma interessante cruz de ferro forjado.

O portal situa-se a um nível bem abaixo ao da rua.
A torre sineira é saliente da fachada. A cúpula, sobre a qual é hábito nidificarem as cegonhas, apresenta dois fogaréus. É de seis olhais, dois em cada uma das faces anterior e posterior e um em cada uma das laterais.

Os dois sinos, antes de 1943, tinham as seguintes imagens e inscrições: (o maior) - imagem de Nª Sª da Conceição e uma cruz / Nossa Senhora da Conceição e Martim Longo / Manuel António da Silva filho Lxa Anno de 1865, (o menor) uma cruz, uma inscrição ilegível com a indicação da fábrica e esta INS Maria José Anno de 1787. Ambos estavam rachados e conta-se do menor uma curiosa lenda.

Tocou pela primeira vez no baptismo de uma criança que cresceu, se fez homem e viveu noventa anos. No dia em que estava dobrando pelo seu falecimento, rachou.

Em 1943, sendo pároco o Padre Júlio Alves de Oliveira, foram feitos novos sinos, dando-se em troca os dois velhos e mais 1.202$95, saldo de uma festa de 1942.

O maior, com 146 kg, apresenta uma cruz e uma custódia e chama-se de Nª Sª da Conceição. O menor, com 90 kg, é de São Marcelino. Foram fabricados na Fundição Nova Lusitânia, de H. S. Jerónimo - Ermesinde.

Ambos têm uma inscrição que diz:- Fundido e Sagrado em 1943. Foram padrinhos do sino grande, o Senhor Tenente - Coronel, João Cândido Figueiredo Valente e a Senhora D. Maria Isabel do Carmo Ricardo Ildefonso, do pequeno o Senhor Artur de Moura e a Senhora D. Isabel de Freitas.

[Igreja Matriz, 1990. Foto de JV]

Às dez e quinze do dia 5 de Setembro foi colocado na torre o sino grande pelos seguintes martim-longuenses:- Augusto Soares, Manuel António, António Luís, José Gomes, António Brás, Matias da Conceição e Manuel Brás. (11)


Em 1534 já aparece um campanário sobre a porta principal, só com um sino e que os moradores da aldeia mandaram fazer à sua custa. Trinta e um anos depois está aberto pelo meo e despegado (...) da parte da igreja, muito perigoso e situam-no da banda do norte pegado com a parede junto à porta principal. Tem nesta altura dois sinos, um de bom tamanho e outro pequeno, mas ambos bons.

É recomendado o seu arranjo por estar perigoso e para cair. (12)

Em 1518 a igreja tinha sido feita de novo pelos moradores da aldeia e seu limite e às suas custas. Já era de três naves, a única assim em todo o concelho. (13)

As naves são separadas por quatro arcos ogivais, de cada lado, assentes em colunas de pedra, muito baixas, com capitéis tronco-piramidais invertidos, muito sóbrios e simples, predominando os elementos geométricos. (14) São elementos dos primórdios da construção.

Os arcos são de tijolo e as colunas de pedraria.

As três naves dão ao templo um ar seguro e acolhedor. (15)

Em 1565 encontrava-se madeirada de castanho, forrada de canas e he toda a dita igreja bem ladrilhada. (16)
O pavimento em soalho já estava muito estragado em 1946. (17)

Há referência a um altar de alvenaria dedicado a São Luís, do lado do Evangelho e na banda da Epístola existe outro, de Nossa Senhora da Graça, com o Menino Jesus nos braços, isto em 1565.

Em 1712 tinha seis altares a saber: o mor, com o Santíssimo, dois colaterais, sendo um o de Nª Sª da Assunção e mais três laterais, São Luís e Almas, Santo António e São Brás, afinal os mesmos que tinha em 1946.

Os retábulos dos altares eram em estilo renascença, do século XVII ou anteriores. O de Nª Sª da Assunção tinha sido feito entre 1681 e 1684, sendo da mesma época os de São Luís e de Nª Sª do Rosário.

Em 1518 a igreja tem a capella (mor) deribada (...) a quall hade ser feyta aa custa do Bispo e Cabydo de Sylves e do comendador e em 1534 ainda assim se mantinha mas em 1565 já estava feita, de alvenaria, abobadada, com dois arcos de pedraria feitos em cruz com chave também de pedra. Altar também de alvenaria. Retábulo de cinco painéis e pintura a óleo.

Arco cruzeiro de pedra e nas paredes pinturas, entre elas representando Nª Senhora e S. João.
As paredes laterais da capela-mor foram azulejadas, painéis posteriormente colocados na fachada principal do desaparecido cemitério da freguesia. (18)

Há notícia de que o prior de Martim Longo, Nuno Rijo de Sousa, fundou um vínculo em capela na igreja, o qual por sua morte deixou a seu sobrinho, filho de sua irmã, Margarida Baptista de Sousa, de Portimão, o Dr. Diogo Mascarenhas de Figueiredo, cónego da Sé de Faro, arcediago de Lagos, e que foi vigário-geral do Bispado do Algarve em 1685 e também prior de Martim Longo por renúncia que nele fez o referido Nuno Rijo de Sousa.

Diogo de Mascarenhas era comissário do Santo Ofício em 1665 e morreu em Faro em 1696.

Mandou reconstruir à sua custa, segundo uma inscrição nela existente, a há muito profanada ermida de São Cristóvão, situada nos arredores de Faro. (19)

Era filho de Diogo Martins Mascarenhas, Senhor do Morgado de Quelfes, moço fidalgo, dizem que capitão - mor de Faro e da dita senhora. (20)

O templo, em meados do século XVI, tinha um bom púlpito de madeira de pinho.
A pia baptismal, ainda existente, é dos primórdios do templo e uma das suas peças mais valiosas, com o pial decorado de carrancas. Em 1518 diz-se que tem hum pyar de pedra muito boõ.


[Imagem de Nª Sª da Conceição]

Presentemente, na capela-mor encontra-se a imagem da padroeira, Nª Sª da Conceição. Na base, apresenta uma serpente mordendo uma maçã e os crescentes da Lua. Sobre a mão esquerda está o Menino de vulto perfeito. Nos dias festivos usa coroa de prata.

Imagem pintada, dourada e estofada, está em bom estado de conservação e é exemplar de muita qualidade, segundo os especialistas. Sofreu arranjos em 1607, 1661 e 1754.

Além desta imagem encontra-se a de Cristo Crucificado sobre cruz de madeira, cujas extremidades apresentam decoração em talha. Estando em bom estado de conservação, tem alguma qualidade. (9)

Segundo Álvaro Pais (pseudónimo do prof. Pinheiro e Rosa) onde a igreja é verdadeiramente rica é na indumentária e na ourivesaria.

Nas visitações de 1518, 1534 e 1565 aparecem referidas várias vestes sagradas e roupas de altar.

[Interior da igreja. Foto JV.]

Na Exposição de Arte Sacra realizada em Faro, em 1940, foi apresentada uma casula do século XVII. O fundo é de seda rosácea brochada com fio de prata e sedas de várias cores. O sebasto central tem ramos, frutos e pinhas estilizadas. Os laterais, ramagens, flores e escudetes. A forma da casula é muito análoga com as orlas quase direitas. Abertura para a cabeça muito pequena.

Possuía também duas dalmáticas de veludo carmesim e outras duas também de interesse e de damasco branco. Mais uma casula de damasco verde, possivelmente do século XVI e outra de seda branco, bordada a matiz que também figurou na referida Exposição.

Assim a descreve o prof. Pinheiro e Rosa: ”Ao fundo, um florão com uma cercadura de ramagens e flores, fechadas numa moldura circular. O resto do fundo é composto de folhagem verde, fina, com vários tipos de flores estilizadas. Tudo isto é envolvido por uma larga orla em que um tronco sustenta alternadamente palmetos amarelados e tufos de folhas verdes, donde saem rosas singelas e seus botões.

Nos lados mais curtos, estes ornatos, em vez de sobrepostos, ladeiam-se mutuamente. As sanefas dos lados maiores são de três tipos: ornato em leque com enrolamentos; cornucópia com flores; e flor com folhagem (três de cada). As dos lados menores são também de três tipos: rapaz com ramagens, cornucópia com flores e flores com folhagem.

Rectangular, é pálio para seis varas.” (4)

Uma cruz processional que igualmente figurou na Exposição de Arte Sacra. Tem 0,87 X 0,35 m. Foi comprada em 1753 e custou 124$720, tendo sido reparada em 1800.

De prata branca lavrada, eis como o Prof. Pinheiro e Rosa a descreve:- Uma coluna canelada, à qual se segue o nó ovalado, em que há, entre ornatos, diferentes ovais com símbolos da Paixão - coluna e esponja, bolsa de Judas, escada e lança, cruz e flagelos. A esta parte, segue-se uma truncatura de pirâmide fantasiada, tendo por ornatos cruzes de braços iguais e mais símbolos - dados, coroa de espinhos e cravos, martelo e torquês, escudo com as cinco chagas. Por cima, um ático donde parte a haste maior da cruz. Os ornatos geométricos são autênticos do século XVII. As hastes terminam em esferas. O Cristo tem coroa de espinhos separada e o resplendor é maciço.

Como utensílios de altar, dois cálices, um do século XVII, de prata dourada, com a altura de 0,24 m e outro também de prata dourada mais relevada, muito elegante. Tem o pé e a base recortados e divididos em três secções. Parece ter sido comprado em 1799, em Lisboa.

Uma custódia-cálix de prata dourada, do tipo templete, com ornatos do século XVII. Segundo Pinheiro e Rosa, já existia em 1620.

Também de referir é um cofre para guarda do Santíssimo - uma arqueta de prata branca lisa com cabeças de anjos nos pés e na base da cruz. Já existia em 1808.

Nas visitações de 1518, 1534 e 1565, da Ordem de Santiago, são referidas bastantes peças de ourivesaria, cálices, custódias, turíbulos, cruzes, etc. e paramentos que foram desaparecendo algumas vezes por troca com novos como se poderá verificar nos textos, mas nem sempre terá sido assim.

Em 1565 o prior era obrigado a dizer missa ao povo todos os domingos e festas de guarda do ano e administrar os Santos Sacramentos aos fregueses.

[Torre sineira. Foto JV.]

Tinha como “mantimento” em cada ano, um moio de trigo, quatro mil reais em dinheiro e ainda o pé de altar da matriz e das anexas que eram, como já se disse por várias vezes, Giões, Vaqueiros e Cachopo.

Existiam três confrarias: a do Santíssimo Sacramento, com bom rendimento, bastante para os seus encargos, a do Rosário e a das Almas que pouco tinham para se manter.

Como era hábito, no adro da igreja, enterravam-se os defuntos, tal como acontecia no seu interior para os mais endinheirados.

No primeiro quartel do século XVI, o mordomo recebia por cada sepultura nova trezentos reais e por vez que se abria para os herdeiros, mais trinta. (13)

Tinha a igreja, por estas alturas, mais 17,5 alqueires de trigo proveniente de foros de quatro herdades e umas casas junto dela em que se guardavam diversos utensílios.

Serão estas casas possivelmente as mesmas que possui no Largo da Igreja, um prédio com três divisões e de 60 m2 de área coberta, que se encontra inscrito na respectiva matriz sob o nº 260.

Sabe-se que por testamento de 2 de Janeiro de 1881 uma devota deixa a Nª Sª da Conceição, orago da matriz, uma cerca denominada do “moinho” cujo rendimento será aplicado no culto da mesma Senhora.

A matriz predial regista ainda hoje uma cerca no sítio do “montinho” em nome da Junta de Paróquia. Pensamos que se tratará da mesma cerca já que o topónimo se pode confundir.

Segundo as Memórias Paroquiais (1758) (12) A Igreja deste lugar que he o único e maior edifício que nelle há não padeceo ruina nem dano algum no terramoto de 1755.
Em 1862 a Junta de Paróquia requer à Câmara que lhe aprove por meio de Postura a derrama de 200 mil réis a lançar sobre os fregueses, para se fazer “hum telhado novo na Igreja Paroquial”, o que a Câmara veio a acordar. (21)


Pequena nota

O presente “post” é tirado totalmente da 2ª Edição (em preparação) de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia) pelo que as notas aguardarão uma hipotética edição

sábado, 24 de outubro de 2009

Igreja da Misericórdia

Classificamo-la de igreja para respeitar a origem pois presentemente não passa de uma simples capela.

Quando a conhecemos já lhe tinha sido amputada a sacristia, que com a casa de despacho e a residência do andador formaram o hospital.

Situa-se na Rua D. Fernando próximo da Praça da República.

[A Igreja da Misericórdia em 1967]

A fundação do templo parece ser anterior a 1513 visto no interior existir uma pedra sepulcral com a seguinte inscrição:- SEPULTURA DE MARTIM VILÃO E DE SUA MULHER (E) HERDEIROS - ERA DE 1513 - O PRIMEIRO SEPULTADO NESTA CASA. PADRE NOSSO - AVÉ MARIA. Contudo, na visitação de 29 de Dezembro de 1565, da Ordem de Santiago à Igreja de São Salvador, matriz da vila, diz-se:- Diante deste altar na mesma nave está huma capella d´ abobada (...) madeirada de duas ágoas (...), a qual capella foi a capella moor desta igreia e agora servem-se os irmãos da Misericórdia della por não terem casa feita nesta vila. (1)

Fica aqui patente uma contradição, parecendo que a “casa” já existia antes de 1513.

Na fachada lateral que dá para a Rua da Misericórdia, uma porta rectangular, agora englobada na Conservatória de Registos e Notariado, torna-se curiosa devido ao lintel de pedra que tem a seguinte inscrição: ESTA OBRA MANDOU FAZER AFONSO MADEIRA CORVO FAMILIAR DO SANTO OFÍCIO 1628, em letra usada nas inscrições portuguesas desde meados do século XV.

O templo é muito simples e pobre. Não se encontram nele quaisquer motivos de uma construção manuelina. Telhado de duas águas e de telha de canudo. Teve planta rectangular sendo o comprimento superior ao dobro da largura.

Fachada de empena de bico sem motivos de interesse. No topo, uma cruz simples de ferro forjado, certamente obra de artesão local. Nas extremidades e alegrando-a, trabalhos de argamassa de forma piramidal.

Não existe torre sineira mas possui pequeno sino sobre a fachada lateral esquerda. Tem a seguinte inscrição:- // SANTVS // SVPRE //VEN // ESPRITVS // I. T. F.

A porta principal é rectangular e de ombreiras carcomidas pelo decorrer dos séculos. Na verga e ao centro, pequena inscrição circular. Por cima, abre-se uma janela rectangular servindo o comprimento de ombreira. Areja e ilumina o templo.

Além da pedra sepulcral já referida, existem mais duas, a do sargento-mor da vila, José de Brito Magro que foi durante muitos anos provedor da Santa Casa e a de sua filha, D. Ana Jacinta Roza, falecida em 1808.

[A Igreja da Misericórdia num desenho de J.V., 1967]

O epitáfio da primeira é do seguinte teor: "Aqui jaz / o cap am mor J e de B ro / Magro da V a de Alc tim / Quase Perpetuo Pr vor / desta Caza dur te / sua vida e q mais / se exmerou em prom ver / as fellecid es della / faleceo no dia 12 / de Maio de 1824 / P e N o A e M a"

Em 1768 tinham sido decorados o púlpito e a tribuna e mais tarde os santos são encarnados de novo. A decoração é de tipo marmóreo.

Em 1789 sabe-se que existiam vários paramentos, um cálix, um missal, uma estante para o mesmo, turíbulo de prata, quatro castiçais de pau preto, um caixão de sacristia, móveis da sala de despacho e as imagens de Santo Christo, Nº Senhor, São João Evangelista e de “Magdalena”. Destas, só restavam três, a de Cristo, Nº Senhor e de São João (imagem de roca setecentista). Um crucifixo de trono e outro que também serve a tumba, são da mesma época e de madeira grosseiramente pintada.

O exemplar de ECCE HOMO é considerado pelo Dr. Francisco Lameira de boa qualidade e em bom estado de conservação. (2)

O altar era separado do resto da igreja por um arco triunfal onde estavam pintadas as armas de D. João VI e a era de 1819.

A quando da cheia do Guadiana de 1876, ficou muito danificada, tendo sido fechada ao culto. As imagens foram recolhidas na igreja matriz.

Em 24 de Dezembro desse ano reúne-se a Irmandade na sacristia da Real Capela de Nossa Senhora da Conceição. Aberta a sessão, o provedor, Justo António Torres faz saber que, visto os parcos fundos da Santa Casa para os gastos que tem de fazer na mesma, em virtude dos distúrbios causados pela cheia nos dias 6, 7 e 8, achava muito justo que se dirigissem a todas as Santas Casas da Misericórdia do Reino, solicitando uma esmola a fim de minorar os males que a mesma sofreu; o qual foi aprovado e resolveu-se enviar circular a todas as Misericórdias.

Em 16 de Abril de 1877, a Irmandade volta a reunir no mesmo local e por convocação do mesmo provedor que lhes fez saber, achando-se em S. Domingos o visconde do mesmo título, (3) se deveria recorrer à sua filantropia pedindo-lhe, por meio de uma comissão, esmola para os fins da pronta reedificação da Santa Casa, o que por todos foi aprovado.

Algumas congéneres enviaram as suas esmolas, sendo a de Moncarapacho a única do Algarve que o fez.

Por acórdão de 4 de Abril de 1878, a Irmandade negou-se a contribuir para a quotização efectuada dois anos mais tarde a favor da Igreja Matriz, também danificada pela inundação, alegando ter ela mesma de contrair um empréstimo para reparar o indispensável na sua igreja que está ainda sem soalho e outros reparos urgentes a fazer para ser aberta ao culto.

A reabertura verificou-se em 18 de Janeiro de 1880, tendo isso ficado decidido em reunião da Irmandade realizada a 28 de Novembro do ano anterior. Ali ficou determinado como tudo se processaria e assim foi cumprido.

A missa foi acompanhada por música vocal e instrumental, havendo Te Deum. Colaboraram na festividade o Rev. Prior e Ajudador da vila, priores de Giões e Pereiro e Cura de Sanlúcar.

[A Igreja da Misericórdia. Foto J.V., 2009]

Em Março de 1885 é convocada a mesa para saber se havia fundos para pintar a capela da igreja. Parece que efectivamente a obra foi realizada, como se depreende da seguinte inscrição:- ESTA RECTIFICAÇÃO DE PINTURA MANDOU FAZER O PROVEDOR MANOEL A. TORRES E A MESA QUE SERVIU EM 1885. A inscrição concluía com E FEITA POR JOÃO S. LEIRIA.

Toda a parte interior do templo foi destruída em 1973/74 com as obras do Centro de Saúde que ocuparam espaço importante da igreja, transformando a sua planta que era rectangular em praticamente quadrada.

Todo o altar desapareceu, rolando o brasão de armas de D. Afonso VI num monte de entulho e que acabou por ser recolhido por uma senhora cujos familiares eram oriundos da vila.

As pedras sepulcrais foram removidas para outro local e as sepulturas profanadas tendo uns brincos vermelhos de D. Ana Jacinta rendido vinte escudos ao seu achador!

O chão estava repleto de sepulturas e assisti ao levantamento de uma delas que estava colocada mesmo junto à parede lateral e um pouco acima da porta. Além do mais, levantou-se a cabeça, os pés e as mãos, em barro daquilo que suponho ser uma imagem religiosa.

Antes do camartelo entrar em acção, o alcoutinense Luís Cunha pretende evitá-lo mas o seu alerta lançado num semanário (4) não resultou.

Em 7 de Julho de 1918 é benzida com toda a solenidade a imagem do Senhor dos Aflitos, tendo a missa desse mesmo dia sido dita por alma dos nossos soldados mortos heroicamente no campo da batalha (Guerra Mundial de 1914/18), pedindo ao mesmo tempo à Rainha Santa Isabel que implore ao Altíssimo o termo do terrível flagelo da conflagração europeia.

Enquanto a matriz esteve em ruína, foi este templo que a substituiu.

Já há muito que só serve de casa mortuária.



NOTAS

(1) - “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, 1987.

(2)-A Escultura de Madeira no Concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX.

(3)-Trata-se do 1º Visconde de Mason de S. Domingos, o súbdito britânico, James Mason, concessionário da Mina de S. Domingos. Foi elevado a este título por Decreto de D. Luís de 7 de Dezembro de 1868.

(4)–“Irá perder-se a vetusta Igreja da Misericórdia de Alcoutim?” in Jornal do Algarve de 22 de Setembro de 1973.

N.I.-A maioria das referências feitas teve por base os livros de actas, despesas, inventários e outros da Santa Casa. Na altura não pensava publicar algo sobre o assunto; movia-nos só o gosto de conhecer e daí não termos feito as competentes referências nos nossos apontamentos.

domingo, 19 de julho de 2009

A ermida do Espírito Santo, templo desaparecido na vila de Alcoutim



É a quarta vez que vamos escrever sobre este pequeno e desaparecido templo da vila de Alcoutim.

A primeira foi uma levíssima referência no nosso trabalho, Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia) (1) que fiz acompanhar de um pequeno desenho das suas ruínas que ainda existiam. Além do nome da invocação, pouco ou nada digo, afirmando até que nas minhas leituras nos arquivos locais nada tinha encontrado sobre ele, o que até hoje se mantém.

Quando o emérito historiador algarvio, Doutor Hugo Cavaco,publicou “Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio (Subsídios para o estudo da História da Arte no Algarve)”, numa edição da CMVRSA – MCMLXXXVII, foram colocados à disposição de todos, dados de muito interesse que vão de 1518 a 1566, que nos ajudam a conhecer melhor aqueles templos e nos revelam outros aspectos da vida local, proporcionaram-me um artigo mais completo que publicámos num semanário da região. (2)

Depois, e numa terceira abordagem, fizemo-lo após termos encontrado pela primeira vez uma referência a ela num assento de óbito.

Ainda que tenhamos alguma coisa de novo a acrescentar pela leitura que fizemos das Memórias Paroquiais – 1758, procuraremos compilar os elementos que demos a público.

Quando chegámos à vila em finais da década de sessenta do século passado, reparámos no que restava das suas ruínas e era bem pouco. Parte da fachada principal com o local do campanário, sobre o qual fazia o seu ninho um casal de cegonhas. Reconhecia-se muito bem o pequeno adro, empedrado, com parte dos muros e ainda se podia avaliar a área do templo devido à existência de ruínas das paredes.

[O templo visto por Duarte de Armas, Sec. XVI]
Foi tudo o que na altura podemos observar.

A nossa curiosidade por estes assuntos, levou-nos a indagar a evocação da ermidinha, mas as pessoas só nos sabiam dizer que era a igreja do Rossio e mais nada.

Tempos depois, uma alcouteneja, D. Conceição Cunha, filha do médico Dr. José Cunha, disse-nos que se tratava da Capela do Espírito Santo.

O passo seguinte sobre a capela, a que pensamos talvez ser mais adequado chamar ermida, por se encontrar sozinha, foi a constatação de a ver representada num desenho que o Doutor José Leite de Vasconcellos ofereceu a Manuel António Torres, considerado seu informador epistolar (3) alcoutenejo de destaque na sua época. Só mais tarde vim a saber que essa cópia tinha sido tirada do hoje bem conhecido Livro das Fortalezas de Duarte de Armas (Séc.XVI)

Em 1565 diz-se que está junto a esta villa da banda d’alem da ribeira d`Alcoutineio.

É indicada como sendo huma soo casa pequena, paredes até o meo de pedra e barro e dahi para cima de taipa, telhada de duas ágoas, madeirada de castanho emcaniçada.

Tinha um altar de alvenaria e no lugar do retábulo estava a imagem de Nossa Senhora com os Apóstolos e a vinda do Espírito Santo.

A ermida reparava-se à custa de esmolas que se pediam ao povo.

Em 1565 é considerada pelo Prior Visitador do Mestrado da Ordem de Santiago, João Fernandes Barregão, com necessidade de reparação e recomenda-se ao prior da igreja matriz, António Picanço, que junto do povo solicite esmolas para o efeito, pois a ele compete apresentá-la bem reparada e ornada para o serviço de Deus.(4)

Era tradição oral e ouvi-o dizer a alguns alcoutenejos que quando do domínio dos espanhóis, o sino desta ermida tinha sido levado para a matriz de Sanlúcar e lá rachou e foi substituído, e que os alcoutenejos nunca esqueceram o seu som.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, respondendo à pergunta 13, o pároco de S. Salvador escreveu: - a Irmida do Espírito Sancto está no Rocio da villa perto da mesma villa para a banda do norte e todas estas Irmidas são sojeitas ao Ordinário deste Bispado e à Parochia.
Em 1843 procedeu-se à alienação de grande parte do rossio por proposta de um vereador, logo secundado por toda a Câmara. Foram feitos vinte e sete talhões mas nunca consegui encontrar a relação de quem os arrematou. Sumiu-se, como por encanto!
Teria feito a ermida parte de algum dos lotes? É muito possível que sim.

Em Novembro de 2007, deslocámo-nos ao Arquivo Distrital de Faro no sentido de encontrarmos alguns dados de interesse para um trabalho que andávamos realizando e que veio dar origem a A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente». Ao pesquisar os assentos de óbito da freguesia de Alcoutim, aparecem-me dois, seguidos e do mesmo dia, 20 de Agosto de 1855, o primeiro referente a D. Maria do Carmo Xavier Casqueiro de Sampaio, casada com Manuel Francisco Piçarra, natural da cidade de Elvas, residente na cidade de Tavira, o outro de Eduardo Augusto Xavier Casqueiro de Sampaio, solteiro, natural da vila de Moira (Moura) igualmente residente em Tavira e que presumo serem irmãos ou pelo menos parentes próximos. Não se indica a idade em qualquer deles e os assentos são lavrados pelo P. António José Madeira de Freitas (tio).

O que nos chamou a atenção foi o facto de ambos terem sido sepultados na Ermida do Espírito Santo, extramuros desta Vila de Alcoutim.Significará isto que nessa altura a ermida ainda se encontraria de pé e ao culto?
Não encontrámos nas proximidades daquela data mais ninguém com tal sepultura.

Pessoas que viviam em Tavira, que teriam vindo fazer a Alcoutim? Teriam aqui familiares ou seriam aqui proprietários? Talvez ambas as coisas.

A família Xavier por essa altura possuía vários elementos espalhados pelo concelho.

A situação sugere-nos a deslocação das vítimas de Tavira, onde a cólera-morbo já se faria sentir, para estas paragens de ares mais puros e com a epidemia mais distante.

A sepultura na ermida porquê, uma vez que o cemitério já estava em funcionamento a alguns anos?

Sugerimos duas hipóteses: ou a ermida pertencia à família, obtida após a implantação do liberalismo, fazendo parte de um dos vinte e sete talhões que já referimos (5) e assim a família teria o interesse e autorização para o efeito ou tratando de vitimação por tal doença haveria a necessidade da sepultura ter lugar em local distante para evitar contágios e daí a referência no assento a extramuros desta Vila.

Cerca de 20 anos depois, na Cheia Grande de 1876, não encontrámos qualquer referência à Ermida, mas sabemos que a maior prejudicada com a enchente do Guadiana foi D. Ana Xavier de Brito Teixeira (6) que poderá ser da mesma família.Igualmente por esta altura, D. Júlia Xavier de Brito era proprietária nesta zona. (7)

Afirmava o alcoutenense Prof. Trindade e Lima que constava ter sido destruída por um raio e profanada pela impiedade dos homens, mas não indicava quando. (8)




[Lar da 3ª Idade acabado de construir]
As suas ruínas foram removidas em 1985 para dar lugar à construção do Lar para Idosos.


Notas
(1)Edição da Câmara Municipal de Alcoutim, 1985.
(2)“A desaparecida Ermida do Espírito Santo, na Vila de Alcoutim”, in Jornal do Algarve de 2 de Fevereiro de 1989.
(3)Etnografia Portuguesa, Tentame de Sistematização pelo Dr.J. Leite de Vasconcellos, Vol. VI, organizado por M. Viegas Guerreiro, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.
(4)Visitações da Ordem de Santiago no sotavento Algarvio..., Hugo Cavaco, 1987.
(5)“Coisas Alcoutenejas – Os Rossios”, José Varzeano, in Jornal do Algarve – magazine, 30 de Junho de 1994.
(6) Acta da Sessão da C.M.Alcoutim, realizada na Capela de Nª Sª da Conceição em 21 de Dezembro de 1876.
(7) Acta da Sessão ca C. M. de Alcoutim de 21 de Setembro de 1876.
(8)“Pequenos Apontamentos – Turismo”, in O Povo Algarvio, Tavira, 5 de Outubro de 1974.


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terça-feira, 7 de abril de 2009

A Capela de Santa Marta (a velha)


[As ruinas em 1990]

Referimo-nos a esta capela, primeiro e dentro dos poucos conhecimentos que tínhamos, no nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (subsídios para uma monografia), 1985, pp 231, 232 e 351 e posteriormente, já com outros conhecimentos no artigo intitulado “A Capela de Santa Marta (a velha) e o “monte” do mesmo nome, na freguesia de Alcoutim, publicado no Jornal do Algarve de 26 de Abril de 1990.

Iremos primeiro ao nome da invocação. Santa Marta, irmã de Maria e de Lázaro. Uma antiga tradição diz que ela foi morrer na Provença (França). Curiosamente, perto da povoação de Santa Marta existiu uma herdade denominada das Provenças, onde em 1859 foi registada uma mina de cobre (1), zona rústica ainda hoje assim conhecida. Haverá alguma relação entre uma coisa e outra? Pensamos que sim.

O culto de Santa Marta foi especialmente estimado nos séculos XIII-XIV. (2)

No final do ano de 1565, a Ordem de Santiago, a quem D. Dinis declarou dar as igrejas que mandasse fazer em Alcoutim, veio a ser cabeça de Comenda e dependia do Mestrado de Cacela, na “visitação”, espécie de inspecção, que efectuou entre outros templos foi à Hermida de Santa Marta, situada numa pequena elevação, perto do monte do mesmo nome, freguesia de Alcoutim, a qual he muito antiga e repaira se a conta de pessoas devotas.
É então descrita nos seguintes termos: A capella he de duas agoas madeirada dàguieiros, emcaniçada; as paredes são de pedra e barro; tem hum altar dàlvenaria cubertos com humas toalhas da terra e nelle a imagem de Santa Marta de vulto já muito velha; o arco da capella está armado sobre aguieiros de madeira; he pequeno e não como deve ser; as paredes do corpo da igreja são de pedra e barro desguarnecidas por dentro e por fora; he madeirada de castanho, emcaniçada por cima; o portal da porta principal he d` alvenaria redondo fechado com suas portas. (3)

Esta descrição do pequeno templo, feita há mais de quatrocentos e quarenta anos, ainda hoje se ajusta em grande parte ao que ainda resta das suas ruínas. A porta é que deixou de ser em arco redondo para passar a rectangular. Notavam-se igualmente pequenas transformações, nomeadamente quanto ao espaço.

De planta rectangular, tem cerca de 12m X 6 m e uma das paredes laterais é suportada por três gigantes. Construída de xisto e grauvaque da região com auxílio de barro. O local da porta apresentava uma abertura com cerca de dois metros.

Como obra posterior, as ruínas apresentam a indicação de dois pequenos compartimentos, um destinado à sacristia e outro possivelmente à Confraria que a dirigisse.

Por cima do altar, de que nada resta, situava-se um nicho. Podia ainda ver-se também na frontaria parte da beira-telha e por cima da porta notava-se igualmente uma fresta que arejava e iluminava o templo.

O visitador recomenda aos devotos que arranjem a capela, guarneçam a ermida e façam outra imagem nova porque a que ora têm, não é como deve ser.
Certamente que não é esta a imagem que chegou aos nossos dias pois Francisco Lameira (4) refere-a em razoável estado de conservação, considerando-a como exemplar de boa qualidade, imagem pintada, dourada e estofada, datando-a do século XVIII.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, na resposta ao quesito 14 refere-se: Em alguns dias do ano vão algumas pessoas, desta freguesia, como de fora (…) a Santa Marta, sendo que no dia da sua festa sempre concorre mais gente; fora do dia da sua festa, não tem dias determinados, nem há sempre as tais romarias. (5)


A devoção por esta Santa era e é grande, sendo, como acabamos de dizer, local de romaria.

Constavam de missa solene e procissão. Nas imediações a juventude cantava e dançava modas de roda.

Na ermidinha tinham lugar frequentemente casamentos e baptismos. Tenho conhecimento de alguns, que os próprios me referiram.

Os festejos no seu dia (29 de Julho) tinham repercussão nas redondezas, sendo muito concorridos. O último teve lugar em 1939, segundo nos informou a Sr. Catarina Maria Guerreiro, do Monte de Baixo que nos adiantou no seu saber que a Santa do seu lugar avistava os sete irmãos que eram S. Martinho (Cortes Pereiras), Nª Sª das Neves (Mesquita), Nª Sª do Amparo (?), São Barão (Alcaria Ruiva) Senhora de Aracelis (Vale de Açor), Senhora de Aguada de Lupos (?) (Serpa) e Virgem de La Penha (Alcaria Puebla-Espanha).

A estória de se avistarem sete irmãos repete-se por imensos sítios desconhecendo eu a sua origem que possivelmente estará relacionada com alguma lenda.

A aceleração da ruína da capela foi contínua e em meados dos anos setenta do século passado houve mesmo uma tentativa de roubo a que o povo pôs cobro, levando a imagem e os castiçais para a escola primária que se encontrava ainda em funcionamento.

Com o fecho desta, passou para o salão do Centro Cultural Recreativo e Desportivo local, fundado em 1981.


[A nova capela no dia da inauguração, 4.8.1991]

Gerou-se depois um movimento no sentido de dar lugar compatível a Santa Marta, pensando-se proceder ao restauro do velho templo, o que acabou por ser posto de parte e construído um novo, agora à entrada do Monte de Cima.

Para o efeito, a Câmara Municipal cedeu à Diocese do Algarve 480 m2 de terreno (6) e em 1986 já se encontrava de pé.

De planta pentagonal e com um pequeno alpendre, foi inaugurada no dia 4 de Agosto de 1991.

Assim, Santa Marta ficou com nova residência.



NOTAS

(1) – Registo de 2 de Outubro de 1859.
(2) – Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (Adenda), entrada Alcoutim.
(3) –“Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio (subsídios para o estudo da História da Arte no Algarve) Hugo Cavaco, Vila Real de Santo António, MCMLXXXVII, pp 346 e 347.
(4) – A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do séc.XVI ao séc. XIX, Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, Faro, 1985.
(5) – Vol. 2, nº 12, ANTT.
(6) – Jornal do Algarve de 13 de Junho de 1985.

terça-feira, 17 de março de 2009

A Capela de São Sebastião na aldeia de Martim Longo


[A Capela em 1972]

Esta pequena capela com uma área coberta de 28,5 m2 e um adro de 200 (1) é considerada como um dos pólos de desenvolvimento da aldeia, sendo o da igreja matriz o mais importante. (2)

Situa-se na extremidade da aldeia, junto da estrada que segue para Vaqueiros.

A festa de S. Sebastião ocasionava procissão que atravessava todo o povoado. (3)

O culto de S. Sebastião (que anda associado à cólera), é dos mais marcantes nesta região. Sebastião, martirizado em Roma, foi crivado de setas pelos próprios soldados que comandava, ao ser denunciado como cristão ao Imperador Diocleciano.

Afirma-se que é templo muito antigo. Em 1565 estava em reparação. Tinham feito uma parede nova do lado sul estava sem telhado, mas já tinham madeira para lho colocarem, acabando assim o trabalho.

Cabia ao povo a obrigação de realizar essas tarefas.


[A Capela em 1992]

O altar era de alvenaria, tinha na parede pintada a imagem do orago, já muito velha e despintada. (4)
Em 1688 a ermida encontrava-se novamente em obras, pelo que a imagem do padroeiro foi colocada num dos altares da Igreja Matriz. (5)

A Junta de Paróquia envia ao Administrador do Concelho orçamento de “peritos” para as obras a efectuar nas ermidas do Espírito Santo, Santa Justa e São Sebastião, da sua paróquia e votadas no seu orçamento de 1878/79, em 90$000 réis. (6)

A capela é de planta rectangular. Cada uma das paredes laterais é suportada por dois botaréus semicilíndricos, semelhantes aos existentes na Igreja Matriz. Exteriormente, é a única nota de interesse.

Sobre o bico da fachada existe uma cruz de ferro sem qualquer interesse artístico. Não tem sineira. A porta é rectangular e de duas folhas. De cada lado há dois compridos bancos de alvenaria.


[A Capela nos dias de hoje]

Interiormente, o retábulo foi colocado em 1682/83, gratuitamente, por a confraria ser pobre. (7)
A imagem de São Sebastião foi adquirida em 1792, possivelmente por interferência do bispo, D. Francisco Gomes. Em complemento, apresenta um tronco de árvore e um capacete junto aos pés sobre a peanha. Apresenta ainda uma coroa de metal na cabeça e os olhos são de vidro. Em bom estado de conservação é, segundo o abalizado parecer do Prof. Doutor Francisco Lameira, um exemplar de muita qualidade.

Conhecemos a capelinha em 1968 e encontrava-se em semi-ruína. Hoje, está cuidada apresentando um jardim contíguo.

NOTAS
(1)-Matriz Predial - Freguesia de Martim Longo, Artº 1528.
(2)-À Descoberta de Portugal - Selecções do Reader’s Digest, 1982.
(3)-Algarve – Roteiro, José Victor Adragão,Editorial Presença.
(4)-Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco,Edição da Câmara Municipal de Vila Real de Sto. António, 1985.
(5)-A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim, do séc.XVI ao séc.XIX, Francisco Lameira e P. Manuel Oliveira, Faro, 1985.
(6)-Ofício nº 204 de 27 de Agosto de 1878 do Prior Presidente da Junta de Paróquia de Martim Longo.
(7)-Idem, ibidem, nota (5).

sábado, 24 de janeiro de 2009

A capela de S. Domingos na aldeia de Giões



As ruínas da ermida de S. Domingos situam-se fora da aldeia, mas perto dela, numa pequena elevação, passando-lhes perto a actual estrada para Clarines.

Foi igreja matriz até 1565, ano em que já se encontrava numa fase adiantada a construção da actual.

Em 1534 é descrita como tendo paredes de pedra e barro, rebocadas, duas portas em alvenaria, a principal com ferrolho e a lateral com fechadura.

Era madeirada de castanho e de telha vã.

Interiormente, um arco de alvenaria e no altar-mor, como não podia deixar de ser, a imagem do padroeiro. Pinturas na parede do Espírito Santo com Nª Senhora e os Apóstolos, como se usava na época.

Dois altares colaterais de alvenaria. No do lado do Evangelho, estavam pintados Nª Senhora, Santa Ana e Santo António, e no da Epístola, Santa Bárbara.

No cruzeiro, um crucifixo e outras imagens igualmente pintadas.

Possuía pia baptismal de barro e uma pequena de pedra, para água benta.

Sobre a porta principal, um campanário de tijolo, com um bom sino.

Trinta anos depois, na descrição feita pelos “visitadores” da Ordem de Santiago, à qual estava sujeita, as diferenças encontradas não são muito significativas.

Paredes, telhado, arco cruzeiro, altar de alvenaria e a imagem de S. Domingos estavam na mesma, a diferença é que naturalmente estava tudo mais velho pois já se tinham passado trinta anos!

Diz-se que para ir ao altar subia-se um degrau de alvenaria. É-se mais preciso indicando a porta principal de pedraria e redonda, formato que ainda é nítido nas suas ruínas, tendo desaparecido a pedraria, certamente para aplicação noutro lugar.
Ainda se mantinha a porta lateral e faz-se referência à existência de três botaréus em cada uma das paredes laterais.

O campanário já não tinha sino!

Foi mordomo da ermida, Afonso Fernandez, morador na aldeia, que tinha à sua guarda vários bens móveis, desde utensílios de altar, do culto, vestes sagradas e de altar.

Parece-nos de interesse transcrever as determinações feitas pelos visitadores, em 1566.

Por acharmos que os fregueses desta freguesia tem obrigação ao corregimento desta hermida por aver sido da sua matriz, mandamos aos elegidos e aos morodomos que a repairem do madeiramento e telhado e concertem o ladrilho e de marquem o adro ao redor com marcos que bem posão ser visto para que não se entremetão os vezinhos a lavrarem nelle o que comprirão com pena de dez cruzados, ametade para os cativos e a outra ametade para o meirinho da Ordem. (1)

Não conhecemos o resultado destas determinações, revelaram-nos contudo que o templo era ladrilhado e que havia que ter cuidado com o adro, sendo implícito a aplicação de coimas.

Sabemos que a Confraria de S. Domingos foi-se mantendo e em 1727 o retábulo do altar foi pintado. Contudo, em 1745 “a ermida do Santo está cahida” e a Imagem é transferida para a igreja matriz.. (2)

As Memórias Paroquiais (1758) informam que a aldeia tem uma ermida do Senhor São Domingos e acrescentam que em alguns dias acodem em romagem algumas pessoas que têm padecido de sezões, terçãs, ou quartãs por ser nesta freguesia e seus arredores o Santo Advogado contra as referidas enfermidades.

A Câmara, em correição pelo concelho em Janeiro de 1843, na passagem por Giões, determina que “o caminho que vai da Ermida de São Domingos para a Parochia, deve ser feito pelo Povo, por diante da cerca de José Pereira”. (3)

Nos finais da década de trinta dos nossos dias ainda era um templo conservado ao culto mas por volta de 1957, segundo testemunha ocular e porque a capela já estava em ruína, S. Domingos foi levado em procissão para a igreja matriz, onde ainda se encontra.

Ao ser verdade o que nos informaram, depois de 1745 a imagem teria regressado ao seu lugar na ermida, possivelmente após alguma reparação. Em 1957 teria efectuado o regresso definitivo.

O que resta? O que ainda existe?

O amplo adro onde além dos enterramentos se juntava o povo em romaria e as quatro paredes que têm aguentado com “resignação” as intempéries.

Já por duas vezes ouvimos falar na sua reconstrução, a primeira em 1990 e a segunda mais recentemente, mas... até agora nada de concreto e não tardará muito que o seu estado seja semelhante ao da Capela de S. Martinho, nas Cortes Pereiras.

A Revista Municipal, Alcoutim, nº 11 de Janeiro de 2005, traz na página 23 uma fotografia das ruínas com a seguinte legenda:- Capela de S. Domingos, edifício a recuperar em Giões. Já se passaram praticamente quatro anos, mas ainda nada se vê. Possivelmente dentro de pouco tempo virá à “baila”.

É assim que se preserva o património construído!

NOTAS

(1) - “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, Vila Real de Santo António, MCMLXXXVII.

(2) - A Escultura de Madeira no Concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX, Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, Faro, 1985.

(3) – “Irá sair das ruínas a Ermida de São Domingos na aldeia de Giões (Alcoutim)?, in Jornal do Algarve de 1 de Novembro de 1990.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A Ermida de S. Sebastião

Desconhecendo-se a data da fundação, já existia em meados do século XVI, mais precisamente em 1565, (1) figurando no Livro de Duarte Darmas, do mesmo século, na vista tirada da banda do sul, da vila de Alcoutim.

É apresentada nessa altura como muito semelhante à Ermida do Espírito Santo, pois afirma-se que é de uma só casa pequena, que as paredes são até ao meio de pedra e cal e daqui para cima, em taipa.


(A Ermida de S. Sebastão vista por Duarte Darmas)

O telhado é de duas águas, madeirado e encaniçado. Parece contudo que nesta altura estaria em mau estado, pois afirma-se que tem duas paredes abertas e para cair e que o telhado está muito danificado. É pedida a sua reparação, a efectuar com o produto das esmolas adquiridas junto do povo.

Tinha um altar de alvenaria coberto com uma toalha e nele a imagem do patrono. Provavelmente, segundo os autores de A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim, do século XVI ao século XIX (2), seria a imagem que em 1518 estaria colocada num altar na igreja matriz.

Sempre nos disseram que a imagem de São Sebastião, que se encontra na Capela de Nª Sª da Conceição tinha vindo da Capela do Cemitério, mas nunca me referiram que tinha sido patrono do templo.

Na parte posterior do altar, substituindo o retábulo, hum pano de linho pintado de figuras.

Respondendo à pergunta 13 do Questionário que deu origem àquilo que hoje conhecemos por Memórias Paroquias, 1758, o pároco da Paróquia de Alcoutim, escreveu:- A Irmida de Sam Sebastião está em hum alto de hum serro sobranseiro a Guadianna perto da villa para a banda do sul (…) e acrescenta que, como as outras, está sujeita ao Ordinário deste Bispado e à Paróquia.

Estaria ao culto e o seu estado de conservação seria normal visto nada ter acrescentado.

Em reunião efectuada na Capela de Nª Sª da Conceição, em 22 de Dezembro de 1843, acordou-se (...) fazer um cemitério em o sítio de S. Sebastião, ao sul da ermida, pegado à mesma (3)


(A Capela do cemitério, 1990)

Parece assim que a Ermida de São Sebastião teria dado origem à actual Capela do Cemitério, com todas as transformações que o tempo e os homens motivaram.

A imagem é considerada como um exemplar de alguma qualidade, pintura recente mas má, encontrando-se em mau estado de conservação e datando do século XVII. (4)
É curioso verificar que na aldeia de Martim Longo existem duas ermidas, a do Espírito Santo e a de São Sebastião, tal como existiram na vila. E mais, a Igreja Matriz daquela freguesia tem por orago Nª Sª da Conceição e a vila tem uma capela ou igreja da mesma invocação e que segundo alguns foi a primeira matriz.


N.B. – Este artigo foi retirado da 2ª Edição em preparação de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (subsídios para uma monografia) que por sua vez teve por base o artigo “De Ermida de S. Sebastião a capela do cemitério da vila de Alcoutim” publicado no Jornal do Algarve de 16 de Março de 1989, guardando-se as notas para essa eventualidade.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A Capela do Espírito Santo na aldeia de Martim Longo

Situa-se sensivelmente a meio da povoação esta capelinha de 64 m2 de superfície coberta. (1)

A fachada é muito idêntica à de São Sebastião, situada na extremidade da aldeia. Sobre a porta, trabalho de argamassa com sentido decorativo e por cima deste foi aberto depois de 1975 um óculo circular.

No topo da fachada, situa-se um pedestal encimado por cruz simples de ferro forjado.

Telha de canudo. Pequeno adro empedrado com xisto da região.



Não aparece referida nas “Visitações” da Ordem de Santiago de 1518 a 1566, ainda que o culto do Espírito Santo seja dos mais enraizados no concelho estendendo-se também a concelhos vizinhos, como ao de Mértola.

Sabe-se que o retábulo foi consertado em 1695 e em 1782. O pintor tavirense, Diogo Mangina, recebe 4$800 réis pela pintura que nele faz, mas não se sabe se se trata do mesmo retábulo. (2) Notar que o pároco da freguesia ao responder à pergunta 13 do questionário (Memórias Paroquiais - 1758), informa que a freguesia tem duas “Irmidas”, a de S. Sebastião, um pouco distante do lugar e a de Sta. Justa, distante dele uma légua pequena, pelo que na altura esta não devia existir, ou se existisse estaria completamente em ruína e isto tomando em consideração que era assunto forçosamente conhecido do eclesiástico.

Em 13 de Janeiro de 1843 a Câmara, em correição (toda a vereação), percorre a aldeia e entre outras deliberações, determina que não se consintam estrumeiras junto da Igreja do Espírito Santo. (3) pelo que nesta altura já existia.

Em 1870, na toponímia local existe a Rua do Espírito Santo, certamente aquela que lhe dá acesso e que na actualização toponímica, efectuada recentemente, foi mantida.

No altar encontra-se uma imagem de Santo António (sobre a sua mão esquerda está o menino) pintada e decorada. Pertenceu à Confraria de Santo António, da Igreja Matriz, onde esteve colocado. (5)

Já há muito que serve de capela mortuária e encontra-se bem cuidada.

NOTAS

(1)Art. 1529 da Matriz Predial, freguesia de Martim Longo, concelho de Alcoutim.
(2) A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do século XVI ao Século XIX, Francisco Lameira e P. Manuel Oliveira Rodrigues, Faro, 1985.
(3) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 13 de Janeiro de 1843, realizada em Martim Longo.
(4) Ofício da Junta de Paróquia datado de 27 de Agosto de 1878.
(5) A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do século XVI ao Século XIX, Francisco Lameira e P. Manuel Oliveira Rodrigues, Faro, 1985.