Vai hoje a sepultar no cemitério da Vila de Alcoutim, António José (vulgo António Frederico), de oitenta e sete anos, natural e morador de Afonso Vicente, freguesia e concelho de Alcoutim.
Era pai de Maria José Costa Frederico Mestre, casada com Fernando António Mestre e avô de Sérgio Manuel e de Maria Fernanda.
Pela sua facilidade de memória e vivência, era uma das pessoas a que recorríamos para saber coisas do passado afonso-vicentino. Num artigo retido na redacção do Jornal Baixo Guadiana e a publicar oportunamente, essa circunstância está referida.
Aqui deixamos as nossas condolências aos seus familiares.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Figueiredo Valente

Nasceu em 30 de Dezembro de 1893 na aldeia de Martim Longo, de seu nome completo, João Carlos de Figueiredo Valente, tendo casado em 9 de Janeiro de 1943, com D. Ana do Rosário da Silva Teixeira na igreja de S. Pedro de Alcântara em Lisboa.
Assentou praça como voluntário em 20 de Julho de 1916
Concluiu o curso de oficial da Infantaria na Escola de Guerra em 30 de Dezembro de 1917, sendo promovido a alferes em 30 de Março de 1918. Era capitão em 30 de Junho de 1932, alcançando o posto de coronel em 7 de Fevereiro de 1947, passando à situação de reserva em 16 de Junho de 1950.
Prestou serviço em várias unidades e estabelecimentos militares, entre os quais o 1º e 4º Grupo de Metralhadoras, Regimento de Infantaria nº 22, no Quartel General do Governo Militar de Lisboa, na 3ª Direcção Geral do Ministério da Guerra, no Quartel General da 3ª Região Militar, onde exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior, de 3.11.1948 a 2.11.1949, no Regimento de Artilharia de Costa, na 3ª Direcção Geral do Ministério da Guerra e na Legião Portuguesa, como Director da Defesa Civil do Território e depois como Inspector da DCT e da Legião Portuguesa, funções que chegaram pelo menos até 1959.
Quanto a acções militares, foi expedicionário a Moçambique, participando em acções em Angoche, Guomeia e Lalona.
Participou no movimento de 18 de Abril de 1925, quando já era tenente tendo para o efeito interrompido a licença para estudos em que se encontrava e liderado por Filomeno da Câmara e com o apoio de outros. Há 61 oficiais envolvidos e entre os civis encontra-se José Pequito Rebelo. Esta revolta que veio a fracassar foi o prelúdio do 28 de Maio de 1926, a que o oficial esteve sempre muito ligado.
Igualmente se apresenta voluntariamente, pois continuava de licença para estudos, para participar na repressão da Revolta de 7 de Fevereiro de 1927, o primeiro grande afrontamento reviralhista, e o único que fez tremer verdadeiramente a Ditadura.
Ao serviço do Estado-Maior do Exército, executou levantamentos topográficos no norte do País.
Publicou as seguintes obras:- Para Onde Vamos, 1936, focando a campanha da Abissínia, Operações da Noite, 1938 e Vida e Acção de D. Nuno Álvares Pereira, 1947.
Da sua folha de serviço constam muitos louvores e condecorações, entre os quais a Medalha de Mérito Militar de 2ª classe e o Grau de Grande-oficial da Ordem de Avis.
Por deliberação da Junta de Freguesia então vigente e eleita democraticamente, o Coronel Figueiredo Valente é homenageado na terra natal, tendo sido dado o seu nome a uma das artérias da aldeia (1979) com o fundamento de que foi sempre um grande amigo da terra onde nasceu e dos seus conterrâneos.
Como já se referiu, o então tenente-coronel foi padrinho do sino grande que se instalou na igreja matriz em 1943. (3)
Tivemos o prazer de conhecer o Senhor Coronel Figueiredo Valente com quem mantivemos cordiais relações no âmbito senhorio-inquilino, já que habitámos na vila, durante oito anos um dos seus prédios.
_________________________________
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. 33, pág. 902 e 903
Dicionário de História do Estado Novo, Fernando Rosas e JM Brandão de Brito, Vol.II, Bertrand, Venda Nova, 1996
Tradição Revolução, Uma biografia do Portugal Político do século XIX ao XXI, José Adelino Maltez, Vol.II (1910-2005)
Vozes de Bronze, José António Pinheiro e Rosa, 1946.
domingo, 28 de dezembro de 2008
Salazar e Alcoutim
(Publicado no Jornal Escrito, nº 27, de Novembro de 2000, p.IV, encarte do Postal do Algarve de 23.11.2000)
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Este pequeno escrito, que vem na sequência dos anteriores, só o escrevi com um sentido histórico. Não podia ter qualquer análise política à figura histórica que é e será Oliveira Salazar. É claro que temos opinião formada sobre o leader do “Estado Novo” mas que, como é evidente, não merece qualquer interesse jornalístico.
Como aconteceu com quase todas as cidades e vilas do País, o Professor Oliveira Salazar também tinha o seu nome numa rua da pequena vila raiana, substituído logo após o “25 de Abril” por esta mesma designação. Foi assim em Alcoutim, foi assim por esse País fora, mas ainda existem algumas placas toponímicas que ostentam o nome daquele político.
Em 1929 uma Câmara Municipal da região do Porto pretende oferecer um relicário de ouro ao Professor Doutor António de Oliveira Salazar, o qual levará dentro uma barra de oiro de lei a fim de em nome de todos os municípios do País ser oferecido a quem tanto zela o ouro de Portugal. Alcoutim inscreveu o seu nome, contribuindo com duzentos e cinquenta escudos.
Mais curioso e possivelmente desconhecido de grande número de alcoutinenses, é o facto de em sessão extraordinária a Edilidade ter conferido o diploma de cidadão honorário a Sua Excelência o Senhor Doutor António de Oliveira Salazar, devendo o mesmo ser escrito em pergaminho com o brasão de armas da vila.
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Um representante do município deslocou-se para esse efeito a Lisboa e a deliberação foi aprovada por aclamação, dado “os altos merecimentos do glorioso Fundador do Estado Novo”.
O diploma foi encerrado numa pasta de veludo vermelho tendo o brasão do município e uma legenda em prata.
Que seja do meu conhecimento, foi o único cidadão que até hoje recebeu tal galardão!
Dois elementos representativos do município deslocaram-se a Lisboa para as Comemorações do Ano X da Revolução Nacional.
Outras manifestações de apoio e apreço mereceu esta figura nacional, não do povo alcoutenejo, mas sim dos representantes que lhes impunham.
Se é verdade que houve alcoutenejos salazaristas e existiu mesmo a União Nacional, outros foram-no por interesses pessoais, também os houve no campo oposto e que marcaram bem a sua posição de antagonismo.
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Este pequeno escrito, que vem na sequência dos anteriores, só o escrevi com um sentido histórico. Não podia ter qualquer análise política à figura histórica que é e será Oliveira Salazar. É claro que temos opinião formada sobre o leader do “Estado Novo” mas que, como é evidente, não merece qualquer interesse jornalístico.
Como aconteceu com quase todas as cidades e vilas do País, o Professor Oliveira Salazar também tinha o seu nome numa rua da pequena vila raiana, substituído logo após o “25 de Abril” por esta mesma designação. Foi assim em Alcoutim, foi assim por esse País fora, mas ainda existem algumas placas toponímicas que ostentam o nome daquele político.
Em 1929 uma Câmara Municipal da região do Porto pretende oferecer um relicário de ouro ao Professor Doutor António de Oliveira Salazar, o qual levará dentro uma barra de oiro de lei a fim de em nome de todos os municípios do País ser oferecido a quem tanto zela o ouro de Portugal. Alcoutim inscreveu o seu nome, contribuindo com duzentos e cinquenta escudos.
Mais curioso e possivelmente desconhecido de grande número de alcoutinenses, é o facto de em sessão extraordinária a Edilidade ter conferido o diploma de cidadão honorário a Sua Excelência o Senhor Doutor António de Oliveira Salazar, devendo o mesmo ser escrito em pergaminho com o brasão de armas da vila.
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Um representante do município deslocou-se para esse efeito a Lisboa e a deliberação foi aprovada por aclamação, dado “os altos merecimentos do glorioso Fundador do Estado Novo”.
O diploma foi encerrado numa pasta de veludo vermelho tendo o brasão do município e uma legenda em prata.
Que seja do meu conhecimento, foi o único cidadão que até hoje recebeu tal galardão!
Dois elementos representativos do município deslocaram-se a Lisboa para as Comemorações do Ano X da Revolução Nacional.
Outras manifestações de apoio e apreço mereceu esta figura nacional, não do povo alcoutenejo, mas sim dos representantes que lhes impunham.
Se é verdade que houve alcoutenejos salazaristas e existiu mesmo a União Nacional, outros foram-no por interesses pessoais, também os houve no campo oposto e que marcaram bem a sua posição de antagonismo.
sábado, 27 de dezembro de 2008
Maria Olinda Costa

Foi ontem a enterrar no cemitério da sua freguesia natal, no concelho de Soure esta nossa amiga que a única relação que teve com o concelho de Alcoutim foi o facto de o ter visitado a meu convite e de minha mulher.
Ela que era uma pessoa viajada, conhecendo os quatro cantos do Mundo, desde a Suécia à Nova Zelândia, passando pelo Brasil e África, acabou por gostar do concelho de Alcoutim, nomeadamente do aconchego da vila e da sua marginal, admirando a paisagem natural para o sul que se desfruta da estrada que nos leva ao monte de Monchique.
Admirou e gostou do prato de favas, que ajudou a apanhar, guisadas com casca, acompanhadas de boas postas de barbo frito que confeccionámos e que desconhecia totalmente.
Admirou o monte com as explicações que lhe demos e gostou muito do nosso refúgio que a recebeu durante uns dias.
Mostrámos-lhe o visitável castelo de Mértola e os magníficos núcleos museológicos da vila que surgiam a cada passo e que muito gostou.
Uma das suas últimas vontades foi ouvir a nossa neta ao telefone e pedir uma fotografia dela.
Aqui ficam estas palavras que traduzem a nossa singela Homenagem.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Contraluz

Contraluz tirado do Castelo de Sanlúcar do Guadiana em Agosto de 1967.
É notório o mar de cerros que a Serra Algarvia constitui, no dizer do nosso grande geógrafo, Orlando Ribeiro.
Alcoutim e Sanlúcar passavam por uma letargia confrangedora que se foi acentuando e só sofreu um abanão, depois do 25 de Abril.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Mensagem


É NATAL!
FELIZ NATAL …
Para os visitantes deste blogue e suas famílias.
São eles os responsáveis por esta página que procura levar bem longe o nome de ALCOUTIM, com verdade, com as riquezas e pobrezas que possui.
Onde estão os presépios típicos do Algarve com a simplicidade do Menino, o trono com as searinhas e laranjas? Possivelmente nalgum museu.
O Mundo é hoje uma incomensurável aldeia.
Enquanto o número de visitantes o justificar e a minha saúde o permitir, terão o ALCOUTIM LIVRE, sempre com Verdade e onde a bajulação é palavra que não existe.
É NATAL! Haja uma boa fritada, um cálice de medronho para rebater a gordura, filhós de canudo, “arfeladas” em mel e umas empanadilhas para os mais gulosos. Onde vai isto!
Hoje é global, é tudo igual, excepto o DINHEIRO. Uns com MUITO, outros sem NADA.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
93 VELAS DÃO UMA BOA LUZ!

Toda a gente sabe que 93 velas dão uma
BOA LUZ!
Há 93 anos nascia gente no Monte de Afonso Vicente, (Alcoutim) o que há muitos anos não acontece nem vai acontecer.
Tia MARIA CATARINA COSTA: Os seus sobrinhos, Isabelinha e António Miguel enviam-lhe UM GRANDE ABRAÇO e UM GRANDE BEIJÃO de parabéns, esperando e desejando que lhes venha a fornecer mais velas.

(Monte de Afonso Vicente, 2004)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Santa Justa, um monte maior do que algumas aldeias
Hoje escolhemos para escrever o monte de Santa Justa desde sempre um dos mais importantes do concelho e que se situa na freguesia de Martim Longo.
Se estivermos na sede de freguesia e se o pretendermos alcançar, tomando a direcção de Vaqueiros e logo à saída da aldeia, cortarmos à esquerda seguindo a orientação viária tomando a estrada municipal nº 1040, asfaltada e na altura com bom piso, cerca de 6 km andados, encontrar-nos-emos neste monte.
Quem vier de Alcoutim a caminho de Martim Longo pela estrada 124, encontrará um cruzamento à esquerda que igualmente levará a esta povoação.
O topónimo tem origem num nome de santo, sendo por isso designado por um hagiotopónimo (a toponímia hagionímica é um dos mais profundos processos de formação)
Tudo indica que a devoção a Santa Justa deu origem ao topónimo, devoção que originou à erecção de um templo ainda hoje existente.
Santa Justa e a sua irmã Rufina, vendiam na feira as louças que o pai fabricava. Festejam-se a 19 de Julho e são igualmente padroeiras de Burgos e de Sevilha. (1)
Estará isto relacionado com a arte de olaria que existia na sede da freguesia? Pensamos que sim mas faltam as provas. A olaria teria tido origem neste monte e depois passado para Martim Longo? Não sabemos, estamos só formulando conjecturas.
Sabe-se contudo que no sítio dos Telheiros, numa pequena elevação, próximo do caminho para Santa Justa, existiram fornos de olaria, de que restam ruínas onde a Professora Doutora Helena Catarino recolheu fragmentos de cerâmica de época tardo-medieval e moderna. (2)
Um dos filões a explorar, seria a consulta de assentos de baptismo, óbito ou casamento que nos poderiam indicar essa profissão.
Em 1839 era o monte que tinha maior número de fogos na freguesia (36) (3), situação que se mantinha em 1991 com 110 e a grande distância dos outros.
De 1911 a 1981 foi sempre o mais populoso da freguesia, (4) só sendo ultrapassado no censo de 1991 pelo do Pessegueiro mas por uma diferença insignificante.
Em 1911 eram 267 os habitantes, subindo para 315 em 1940. A partir daqui começa o decréscimo pois em 1960 já tinha passado para 264, em 1970, 241 e 1981, 150 e igual número dez anos depois.
Nesta altura o número de habitantes é superior ao de duas freguesias do concelho, mais concretamente Pereiro e Vaqueiros.(5)
Era o único monte da freguesia que possuía capela, o que confirmava a notoriedade que desfrutava. Recentemente, o monte que com ele ombreava construiu um pequeno templo. Estamo-nos a referir ao monte do Pessegueiro.
A Capela de Santa Justa já se diz no século XVI que he huma capella muito antiga que não há memória do tempo que se edifiquou.
Na altura, tinha paredes de pedra e barro, telhado de telha vã, sendo mais larga que comprida. Um altar pequeno de alvenaria coberto com umas toalhas e nele a imagem esculpida de Santa Justa, já muito velha.
Tinha madeira para fazer um alpendre e era reparada à custa de esmolas dos devotos. (6)
O retábulo foi colocado no altar em 1682/83 e em 1744 foi repintado.
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Além da imagem mais antiga, tem outra que foi “renovada e encarnada” em 1687/88 e novamente em 1746. Tem uma coroa simples. (7)
A Ermida de Santa Justa é referida nas Memórias Paroquiais de 1758, afirmando-se que fica a uma “légua pequena” de distância, não tem romagem (romaria) e só por acaso lá vai alguma pessoa fora dos dias das suas festas.
Em 1878 o Administrador do Concelho oficia ao Prior Presidente da Junta de Paróquia no sentido deste lhe enviar com a brevidade possível o orçamento dado por peritos para as obras a fazer na Ermida de Santa Justa, obras já contempladas no orçamento da Junta. (8)
Quando visitámos a ermida, já lá vão uns bons anos, lembramo-nos que estava chovendo. Anotámos um botaréu na parede da retaguarda e outro na do lado esquerdo.
De empena de bico, telhado de duas águas e telha de canudo. Porta de duas folhas com trabalhos de argamassa semelhantes por exemplo aos existentes na chamada Casa dos Condes e aos que existiam no edifício que serviu os serviços fiscais do concelho e na desaparecida casa nobre do Padre António, no local onde se encontra hoje a farmácia Caimoto, igualmente na vila.

(A Capela de Santa Justa, 1990)
As suas linhas e estruturas assemelham-se muito às das capelas do Espírito Santo e S. Sebastião, na aldeia.
Por cima da porta, uma cruz de pedra em relevo e no bico da empena, uma simples cruz de ferro forjado.
Pequena janela gradeada.
O prédio foi inscrito na competente matriz predial sob o nº 1524.
Há anos que lhe fazem uma festa, no mês de Agosto. Existe um palco e uma casa de apoio e a Câmara Municipal em 1989 apoiou a população na feitura do recinto das festas. (9)
Quanto ao ensino escolar sabemos que em 1935, por diligência do presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, prof. Trindade e Lima, junto do Ministro da Instrução, são criados vários postos de ensino escolar no concelho, entre os quais o de Santa Justa. (10)
Com a supressão dos postos escolares no governo de Marcelo Caetano, o posto transformou-se em escola tendo sido construído um edifício para o efeito.
Em 1991 já a escola não funcionava por falta de alunos que o justificasse e procura-se elaborar um projecto visando o aproveitamento do edifício e espaço envolvente. (11)
Alguma criança em idade escolar era encaminhada para a sede de freguesia.
Em 1992 abre-se concurso público para a execução da empreitada de pavimentação de arruamentos em muitas localidades do concelho, no qual se incluía esta. (12) Os pavimentos encontravam-se concluídos no ano seguinte.
Entretanto é concluída a estrada de ligação entre o monte e a E.N. 124. (13)
Em 1996 são partidos os arruamentos a fim de instalar o fornecimento de água ao domicílio sem o indispensável sistema de esgoto o que veio provocar problemas de vária ordem só resolvidos, a partir de 2006 após a execução da empreitada de rede de abastecimento e saneamento. (14)

(O Monte de Santa Justa, 1990)
Nos Alcariais de Santa Justa ou Barreiros, os árabes deixaram vestígios da sua presença num pequeno povoado que ali funcionou. (15)
Quando se fala ou escreve sobre a Pré-História, mais concretamente no período entre a idade da pedra e a do bronze (calcolítico), durante o qual as comunidades iniciam a produção, ou utilização de objectos de cobre, o Cerro do Castelo de Santa Justa, próximo do monte, é sempre referido como povoado importante dessa época, guarnecido por fortificações com muralhas, bastiões e torres circulares.
A identificação é relativamente recente pois teve lugar em 1978 por uma equipa chefiada pelo Professor Doutor, Vitor S. Gonçalves.
O povoado fortificado possuía pelo menos nove torres, umas ocas, outras maciças e de dimensões diversas e consolidavam os muros internos, constituindo um importante ponto de defesa.
Uma porta em cotovelo tornava-se mais eficaz em possíveis assaltos.
As cabanas onde viviam eram circulares e as bases constituíam um soco de pedra.
Grande parte do povoado, de uma configuração elíptica, foi destruída por um incêndio.
A sua vida deve datar à volta do 3º milénio A.C.
O sítio devia ter tido intensa vida agrícola e sendo os solos de má qualidade, os povoadores contrabalançavam tal situação com a metalurgia do cobre.
Muitos objectos foram encontrados representativos de várias épocas, entre os quais lâminas de sílex e de xisto, furadores, pontas de setas e enxós de pedra lascada, percutores de quartzo e como objectos de adorno, contas de colar, em xisto.
Pesos de tear que se contam às centenas de um único tipo e variadíssimos recipientes cerâmicos, constituem outros dos achados. (16)
NOTAS
(1) – Dicionário de Santos, Jorge Campos Tavares, Porto, 1990, p. 89
(2) –“ O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica”, Helena Catarino, in Al `-Ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, págs. 196 e 712.
(3) - Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Algarve em Foco Editora (edição facsimilada), 1988
(4) – Os Montes do Nordeste Algarvio, Cristiana Bastos, Ed. Cosmos, Lisboa, 1993, p. 74
(5) – Censo Populacional de 1991-
(6) - “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco
(7) - A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do Séc. XVI ao séc. XIX., -Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, 1985
(8) - - Of. nº 178 de 28 de Julho do Presidente da Junta de Paróquia
(9) - Boletim Municipal, nº 5 de Setembro de 1989.
(10) - Acta da Sessão da C.M.A. de 28 de Fevereiro
(11) – “Antiga Escola Primária vai ser aproveitada”, in Jornal do Algarve de 11 de Julho de 1991
(12) – Jornal do Algarve de 11 de Junho de 1992.
(13) – Jornal do Algarve de 16 de Setembro de 1993.
(14) – Edital publicado no Jornal do Algarve de 14 de Julho de 2005.
(15) - –“ O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica”, Helena Catarino, in Al `-Ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, pág. 147.
(16) – “Cerro do Castelo de Santa Justa”, Vítor S. Gonçalves, in História de Portugal, Vol. I, Dir. de João Medina, pág. 215
Se estivermos na sede de freguesia e se o pretendermos alcançar, tomando a direcção de Vaqueiros e logo à saída da aldeia, cortarmos à esquerda seguindo a orientação viária tomando a estrada municipal nº 1040, asfaltada e na altura com bom piso, cerca de 6 km andados, encontrar-nos-emos neste monte.
Quem vier de Alcoutim a caminho de Martim Longo pela estrada 124, encontrará um cruzamento à esquerda que igualmente levará a esta povoação.
O topónimo tem origem num nome de santo, sendo por isso designado por um hagiotopónimo (a toponímia hagionímica é um dos mais profundos processos de formação)
Tudo indica que a devoção a Santa Justa deu origem ao topónimo, devoção que originou à erecção de um templo ainda hoje existente.
Santa Justa e a sua irmã Rufina, vendiam na feira as louças que o pai fabricava. Festejam-se a 19 de Julho e são igualmente padroeiras de Burgos e de Sevilha. (1)
Estará isto relacionado com a arte de olaria que existia na sede da freguesia? Pensamos que sim mas faltam as provas. A olaria teria tido origem neste monte e depois passado para Martim Longo? Não sabemos, estamos só formulando conjecturas.
Sabe-se contudo que no sítio dos Telheiros, numa pequena elevação, próximo do caminho para Santa Justa, existiram fornos de olaria, de que restam ruínas onde a Professora Doutora Helena Catarino recolheu fragmentos de cerâmica de época tardo-medieval e moderna. (2)
Um dos filões a explorar, seria a consulta de assentos de baptismo, óbito ou casamento que nos poderiam indicar essa profissão.
Em 1839 era o monte que tinha maior número de fogos na freguesia (36) (3), situação que se mantinha em 1991 com 110 e a grande distância dos outros.
De 1911 a 1981 foi sempre o mais populoso da freguesia, (4) só sendo ultrapassado no censo de 1991 pelo do Pessegueiro mas por uma diferença insignificante.
Em 1911 eram 267 os habitantes, subindo para 315 em 1940. A partir daqui começa o decréscimo pois em 1960 já tinha passado para 264, em 1970, 241 e 1981, 150 e igual número dez anos depois.
Nesta altura o número de habitantes é superior ao de duas freguesias do concelho, mais concretamente Pereiro e Vaqueiros.(5)
Era o único monte da freguesia que possuía capela, o que confirmava a notoriedade que desfrutava. Recentemente, o monte que com ele ombreava construiu um pequeno templo. Estamo-nos a referir ao monte do Pessegueiro.
A Capela de Santa Justa já se diz no século XVI que he huma capella muito antiga que não há memória do tempo que se edifiquou.
Na altura, tinha paredes de pedra e barro, telhado de telha vã, sendo mais larga que comprida. Um altar pequeno de alvenaria coberto com umas toalhas e nele a imagem esculpida de Santa Justa, já muito velha.
Tinha madeira para fazer um alpendre e era reparada à custa de esmolas dos devotos. (6)
O retábulo foi colocado no altar em 1682/83 e em 1744 foi repintado.
.jpg)
Além da imagem mais antiga, tem outra que foi “renovada e encarnada” em 1687/88 e novamente em 1746. Tem uma coroa simples. (7)
A Ermida de Santa Justa é referida nas Memórias Paroquiais de 1758, afirmando-se que fica a uma “légua pequena” de distância, não tem romagem (romaria) e só por acaso lá vai alguma pessoa fora dos dias das suas festas.
Em 1878 o Administrador do Concelho oficia ao Prior Presidente da Junta de Paróquia no sentido deste lhe enviar com a brevidade possível o orçamento dado por peritos para as obras a fazer na Ermida de Santa Justa, obras já contempladas no orçamento da Junta. (8)
Quando visitámos a ermida, já lá vão uns bons anos, lembramo-nos que estava chovendo. Anotámos um botaréu na parede da retaguarda e outro na do lado esquerdo.
De empena de bico, telhado de duas águas e telha de canudo. Porta de duas folhas com trabalhos de argamassa semelhantes por exemplo aos existentes na chamada Casa dos Condes e aos que existiam no edifício que serviu os serviços fiscais do concelho e na desaparecida casa nobre do Padre António, no local onde se encontra hoje a farmácia Caimoto, igualmente na vila.

(A Capela de Santa Justa, 1990)
As suas linhas e estruturas assemelham-se muito às das capelas do Espírito Santo e S. Sebastião, na aldeia.
Por cima da porta, uma cruz de pedra em relevo e no bico da empena, uma simples cruz de ferro forjado.
Pequena janela gradeada.
O prédio foi inscrito na competente matriz predial sob o nº 1524.
Há anos que lhe fazem uma festa, no mês de Agosto. Existe um palco e uma casa de apoio e a Câmara Municipal em 1989 apoiou a população na feitura do recinto das festas. (9)
Quanto ao ensino escolar sabemos que em 1935, por diligência do presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, prof. Trindade e Lima, junto do Ministro da Instrução, são criados vários postos de ensino escolar no concelho, entre os quais o de Santa Justa. (10)
Com a supressão dos postos escolares no governo de Marcelo Caetano, o posto transformou-se em escola tendo sido construído um edifício para o efeito.
Em 1991 já a escola não funcionava por falta de alunos que o justificasse e procura-se elaborar um projecto visando o aproveitamento do edifício e espaço envolvente. (11)
Alguma criança em idade escolar era encaminhada para a sede de freguesia.
Em 1992 abre-se concurso público para a execução da empreitada de pavimentação de arruamentos em muitas localidades do concelho, no qual se incluía esta. (12) Os pavimentos encontravam-se concluídos no ano seguinte.
Entretanto é concluída a estrada de ligação entre o monte e a E.N. 124. (13)
Em 1996 são partidos os arruamentos a fim de instalar o fornecimento de água ao domicílio sem o indispensável sistema de esgoto o que veio provocar problemas de vária ordem só resolvidos, a partir de 2006 após a execução da empreitada de rede de abastecimento e saneamento. (14)

(O Monte de Santa Justa, 1990)
Nos Alcariais de Santa Justa ou Barreiros, os árabes deixaram vestígios da sua presença num pequeno povoado que ali funcionou. (15)
Quando se fala ou escreve sobre a Pré-História, mais concretamente no período entre a idade da pedra e a do bronze (calcolítico), durante o qual as comunidades iniciam a produção, ou utilização de objectos de cobre, o Cerro do Castelo de Santa Justa, próximo do monte, é sempre referido como povoado importante dessa época, guarnecido por fortificações com muralhas, bastiões e torres circulares.
A identificação é relativamente recente pois teve lugar em 1978 por uma equipa chefiada pelo Professor Doutor, Vitor S. Gonçalves.
O povoado fortificado possuía pelo menos nove torres, umas ocas, outras maciças e de dimensões diversas e consolidavam os muros internos, constituindo um importante ponto de defesa.
Uma porta em cotovelo tornava-se mais eficaz em possíveis assaltos.
As cabanas onde viviam eram circulares e as bases constituíam um soco de pedra.
Grande parte do povoado, de uma configuração elíptica, foi destruída por um incêndio.
A sua vida deve datar à volta do 3º milénio A.C.
O sítio devia ter tido intensa vida agrícola e sendo os solos de má qualidade, os povoadores contrabalançavam tal situação com a metalurgia do cobre.
Muitos objectos foram encontrados representativos de várias épocas, entre os quais lâminas de sílex e de xisto, furadores, pontas de setas e enxós de pedra lascada, percutores de quartzo e como objectos de adorno, contas de colar, em xisto.
Pesos de tear que se contam às centenas de um único tipo e variadíssimos recipientes cerâmicos, constituem outros dos achados. (16)
NOTAS
(1) – Dicionário de Santos, Jorge Campos Tavares, Porto, 1990, p. 89
(2) –“ O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica”, Helena Catarino, in Al `-Ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, págs. 196 e 712.
(3) - Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Algarve em Foco Editora (edição facsimilada), 1988
(4) – Os Montes do Nordeste Algarvio, Cristiana Bastos, Ed. Cosmos, Lisboa, 1993, p. 74
(5) – Censo Populacional de 1991-
(6) - “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco
(7) - A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do Séc. XVI ao séc. XIX., -Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, 1985
(8) - - Of. nº 178 de 28 de Julho do Presidente da Junta de Paróquia
(9) - Boletim Municipal, nº 5 de Setembro de 1989.
(10) - Acta da Sessão da C.M.A. de 28 de Fevereiro
(11) – “Antiga Escola Primária vai ser aproveitada”, in Jornal do Algarve de 11 de Julho de 1991
(12) – Jornal do Algarve de 11 de Junho de 1992.
(13) – Jornal do Algarve de 16 de Setembro de 1993.
(14) – Edital publicado no Jornal do Algarve de 14 de Julho de 2005.
(15) - –“ O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica”, Helena Catarino, in Al `-Ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, pág. 147.
(16) – “Cerro do Castelo de Santa Justa”, Vítor S. Gonçalves, in História de Portugal, Vol. I, Dir. de João Medina, pág. 215
domingo, 21 de dezembro de 2008
O rossio da aldeia de Martim Longo

(Rotunda de Martim Longo, 1990)
Por definição, rossio é um terreno fruído em comum pelo povo, um logradouro público.
A primeira referência que dele conhecemos, em relação à aldeia, é de 1839. (1)
A Câmara reuniu extraordinariamente em Martim Longo a fim de definitivamente se fazer a demarcação do rossio, pela parte em que este confina com a Herdade da Finca Rodilha, visto que não aparecendo marcos suficientes, se pretende inculcar que alguns terrenos concedidos pelas Câmaras anteriores, já pertenceriam à Herdade.
Consultadas as pessoas mais idosas da terra e na presença do procurador do senhorio da herdade, foram descobertos três marcos da partilha antiga.
Um deles encontrava-se na parte esquerda da estrada que vai para Tavira; outro próximo da Ermida de São Sebastião e o último no pontal da cerca de Francisco Gomes Delgado, em direcção ao marco antigo que se acha por cima do pontal e este condiz com a esquina da parte do sul da Ermida de São Sebastião.
Anos depois, encontrando-se a vereação camarária em correição pelo concelho, realizaram uma sessão nesta aldeia. Saíram pela mesma e entre outras coisas mandaram tapar covas e remover estrumeiras que tinham encontrado, além da aldeia, no rossio.
De acordo com o Conselho Municipal, foram então demarcados no rossio terrenos para as eiras e para a realização da Feira de Corpo de Deus. (2)
Em 1858 o Vice-Presidente da Câmara, em exercício, Augusto Carlos Pinto, durante uma sessão do executivo, informou que tendo ido há poucos dias a Martim Longo, observou que de terrenos do rossio destinados a eiras, foi tirado tanto barro que já um deles se achava inutilizado e deste estrago recebeu reclamações. Propunha por isso que o Regedor fosse encarregado de vigiar pela conservação das eiras, impedindo tais práticas e lançando, caso fosse necessário, coimas aos transgressores. A Câmara concordou em absoluto e foram transmitidas ordens ao regedor.(3)
NOTAS
(1) - Acta da Sessão Extraordinária da C.M.A. realizado em 21 de Março na aldeia de Martim Longo.
(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 13 de Janeiro de 1843.
(3) - Acta da Sessão de 8 de Abril.
sábado, 20 de dezembro de 2008
A Moura do Cerro das Relíquias
Se nisto de encantamentos fosse possível fazer cronologia, classificaria esta das mais distantes, o que não evitaria que a considerasse das mais enraizadas no concelho de Alcoutim.
Como é próprio das suas características, o local do encantamento é um roqueiro castelo, só possível identificar através de escavações, o que em parte foi feito pela Professora Doutora Helena Catarino.

(Cerro das Relíquias, escavações arqueológicas, 1990)
O cerro das Relíquias situa-se a cerca de quatro quilómetros da aldeia de Giões e sobranceiro à ribeira do Vascão. Aí tinha existido uma capela, além de uma fortificação que fazia parte de uma linha colocada ao longo da faixa piritosa alentejana.
O Cerro das Relíquias foi possivelmente o primeiro local onde o homem se fixou nesta zona, como atestam alguns achados arqueológicos, havendo uma ligação estreita ao monte de Clarines.
De tudo o que resta nesta simbiose Relíquias/Clarines, pensamos que sobressai o aspecto lendário, traduzido pela existência de uma lenda que através dos tempos tem tido várias derivações.
A lenda da moura encantada no Cerro das Relíquias é-nos apresentada por Ataíde de Oliveira, em As Mouras Encantadas e os encantamentos do Algarve, Editado em 1898 (1). Dedica-lhe cinco folhas e foi-lhe transmitida pelo gionense, António Joaquim Teixeira, da antiga família Teixeira. Além do aspecto lendário são transmitidos factos concretos e a indicação de achados arqueológicos.
Estas lendas têm sempre várias versões. Num interessante trabalho executado pela Escola Básica Integrada de Alcoutim, (7º ano, 1996/97) li duas, referidas como Lenda da Moura Encantada (Serro das Relíquias) e Lenda do Serro de Arreliques (Clarines), numa recolha do aluno João Dias.
A versão que aqui vou contar foi recolhida em 1990 e quando subimos ao cerro de onde desfrutámos excelentes vistas. Fomos acompanhados pelo Sr. Manuel Mateus Teixeira, que teve a amabilidade de nos servir de cicerone então com oitenta e cinco anos, que chegou ao cimo mais fresco do que eu, apesar da grande diferença de idades.
Nesta altura já se tinham realizado algumas escavações que estivemos a observar e a fotografar.
O nosso cicerone era proprietário de uma grande courela nas proximidades e conhecia a zona como ninguém, vivendo ali isoladamente, deslocando-se à aldeia e na altura para comprar pão e pouco mais.
Foi – nos dizendo que em tempos “tinha subido ao cerro grande companhia com pás e piques à procura de oiro antigo”. Estava a referir-se, ao que creio, ao ano de 1864 em que Francisco Martins, moleiro de Giões sonhou com o lugar onde estava o oiro e com vinte sócios levaram um mês a cavar encontrando só três moedas de cobre, sendo duas romanas. Isto é o que refere Ataíde de Oliveira.
É evidente que o Sr. Manuel Teixeira tinha que nos narrar factos relacionados com a Moura Encantada que estava no cerro esperando que alguém a desencantasse. E foi assim que foi dizendo:
O maioral (pastor) José Gomes, que era de Clarines, andava pastando o gado nos terrenos das Relíquias que eram do seu patrão, o meu avô Joaquim Cavaco Teixeira.
Ao cair da noite, quando o maioral estava sentado num penedo, vigiando o gado, ouviu uma voz dizer-lhe:- Boa noite vizinho!
Olhou para o lado e viu uma formosa donzela, a quem respondeu:- Não a conheço por ser minha vizinha !
O diálogo continuou acabando a donzela por convidá-lo a ir a sua casa onde o receberia com tudo do melhor que ele pudesse imaginar, mas havia uma condição, não podia admirar-se nada do que visse.
Acedendo ao convite, lá foram. Entraram por uma gruta que ele nunca tinha visto, apesar de conhecer bem o local. Poucos metros andados um enorme clarão mostrou-lhe tantas barras de oiro que o homem, estupefacto, levando as mãos à cabeça, afirmou: Jesus, valha-me Deus e o Santíssimo Sacramento.
Ah! Ladrão que me dobraste o encanto e ouviu-se um grande estoiro, tudo desapareceu e o pastor, quando abriu os olhos, cheio de medo, estava no mesmo sítio em que a moura o tinha encontrado.
Nunca mais o José Gomes voltou ao Cerro das Relíquias a apascentar o seu gado, concluiu o Sr. Manuel Teixeira.
Aqui fica registada mais uma versão desta antiquíssima lenda.
NOTA
(1) –A Edição que adquirimos é da responsabilidade de “Notícias de Loulé”, e de 1994. A Moura de Giões encontra-se na pág 207 e seguintes.
Como é próprio das suas características, o local do encantamento é um roqueiro castelo, só possível identificar através de escavações, o que em parte foi feito pela Professora Doutora Helena Catarino.

(Cerro das Relíquias, escavações arqueológicas, 1990)
O cerro das Relíquias situa-se a cerca de quatro quilómetros da aldeia de Giões e sobranceiro à ribeira do Vascão. Aí tinha existido uma capela, além de uma fortificação que fazia parte de uma linha colocada ao longo da faixa piritosa alentejana.
O Cerro das Relíquias foi possivelmente o primeiro local onde o homem se fixou nesta zona, como atestam alguns achados arqueológicos, havendo uma ligação estreita ao monte de Clarines.
De tudo o que resta nesta simbiose Relíquias/Clarines, pensamos que sobressai o aspecto lendário, traduzido pela existência de uma lenda que através dos tempos tem tido várias derivações.
A lenda da moura encantada no Cerro das Relíquias é-nos apresentada por Ataíde de Oliveira, em As Mouras Encantadas e os encantamentos do Algarve, Editado em 1898 (1). Dedica-lhe cinco folhas e foi-lhe transmitida pelo gionense, António Joaquim Teixeira, da antiga família Teixeira. Além do aspecto lendário são transmitidos factos concretos e a indicação de achados arqueológicos.
Estas lendas têm sempre várias versões. Num interessante trabalho executado pela Escola Básica Integrada de Alcoutim, (7º ano, 1996/97) li duas, referidas como Lenda da Moura Encantada (Serro das Relíquias) e Lenda do Serro de Arreliques (Clarines), numa recolha do aluno João Dias.
A versão que aqui vou contar foi recolhida em 1990 e quando subimos ao cerro de onde desfrutámos excelentes vistas. Fomos acompanhados pelo Sr. Manuel Mateus Teixeira, que teve a amabilidade de nos servir de cicerone então com oitenta e cinco anos, que chegou ao cimo mais fresco do que eu, apesar da grande diferença de idades.
Nesta altura já se tinham realizado algumas escavações que estivemos a observar e a fotografar.
O nosso cicerone era proprietário de uma grande courela nas proximidades e conhecia a zona como ninguém, vivendo ali isoladamente, deslocando-se à aldeia e na altura para comprar pão e pouco mais.
Foi – nos dizendo que em tempos “tinha subido ao cerro grande companhia com pás e piques à procura de oiro antigo”. Estava a referir-se, ao que creio, ao ano de 1864 em que Francisco Martins, moleiro de Giões sonhou com o lugar onde estava o oiro e com vinte sócios levaram um mês a cavar encontrando só três moedas de cobre, sendo duas romanas. Isto é o que refere Ataíde de Oliveira.
É evidente que o Sr. Manuel Teixeira tinha que nos narrar factos relacionados com a Moura Encantada que estava no cerro esperando que alguém a desencantasse. E foi assim que foi dizendo:
O maioral (pastor) José Gomes, que era de Clarines, andava pastando o gado nos terrenos das Relíquias que eram do seu patrão, o meu avô Joaquim Cavaco Teixeira.
Ao cair da noite, quando o maioral estava sentado num penedo, vigiando o gado, ouviu uma voz dizer-lhe:- Boa noite vizinho!
Olhou para o lado e viu uma formosa donzela, a quem respondeu:- Não a conheço por ser minha vizinha !
O diálogo continuou acabando a donzela por convidá-lo a ir a sua casa onde o receberia com tudo do melhor que ele pudesse imaginar, mas havia uma condição, não podia admirar-se nada do que visse.
Acedendo ao convite, lá foram. Entraram por uma gruta que ele nunca tinha visto, apesar de conhecer bem o local. Poucos metros andados um enorme clarão mostrou-lhe tantas barras de oiro que o homem, estupefacto, levando as mãos à cabeça, afirmou: Jesus, valha-me Deus e o Santíssimo Sacramento.
Ah! Ladrão que me dobraste o encanto e ouviu-se um grande estoiro, tudo desapareceu e o pastor, quando abriu os olhos, cheio de medo, estava no mesmo sítio em que a moura o tinha encontrado.
Nunca mais o José Gomes voltou ao Cerro das Relíquias a apascentar o seu gado, concluiu o Sr. Manuel Teixeira.
Aqui fica registada mais uma versão desta antiquíssima lenda.
NOTA
(1) –A Edição que adquirimos é da responsabilidade de “Notícias de Loulé”, e de 1994. A Moura de Giões encontra-se na pág 207 e seguintes.















