quarta-feira, 4 de março de 2009

Dois calvários no monte de Afonso Vicente

PEQUENA NOTA
Este escrito foi enviado para o Jornal do Baixo Guadiana há perto de quatro meses não tendo ainda sido publicado, presumo que por falta de espaço mas até ao presente nada me foi informado.Por uma questão de dignidade pessoal e respeito pelo Jornal, comprometi-me a só publicar neste blogue os artigos enviados para o Jornal, após ali serem publicados.
Atendendo a que já foram publicados três números e não me foi dada qualquer explicação, assiste-me o direito de o publicar em ALCOUTIM LIVRE onde não existe falta de espaço e todos têm lugar



Ao visitante finlandês

Foi com este título mas em relação às Cortes Pereiras que abordámos pela primeira vez o “tema” dos calvários para o qual e a pouco e pouco fomos adquirindo elementos que nos possibilitassem pôr no papel, ainda que nos falte conhecer muito sobre o assunto.

Pensamos com esta publicação evitar que se perca o pouco que recolhemos que dará hipoteticamente pistas a quem um dia desejar aprofundar o assunto.

Eu, por enquanto, só encontrei pistas orais que como se sabe são de pouco rigor e deturpadas naturalmente com o decorrer dos tempos.

Não vamos repetir a parte introdutória que escrevemos, por necessária, quando abordámos os dois calvários de Cortes Pereiras.

Tanto as Cortes Pereiras como Afonso Vicente têm mais calvários nas suas proximidades, em relação a Afonso Vicente escolhemos os dois que lhe ficam mais próximos, mesmo bem perto da povoação, um ao sul, outro ao norte.


CALVÁRIO DA EIRA DA CRUZ

[Na eira da Cruz, 2008]
É mais um cruzeiro erigido para assinalar o local onde morreu alguém.
Também aqui a situação é próxima do monte de Afonso Vicente, mais concretamente perto do seu antigo acesso do Sul.

Por volta de 1968 numa conversa tida com uma alcouteneja, (1) foi-me dito que o edifício em que funcionavam na altura os serviços de Finanças na vila de Alcoutim tinha sido propriedade e residência do capitão-mor, oriundo de Tavira e de nome Aragão. (2)

Dizia-me essa senhora que a sua habitação também lhe tinha pertencido, tendo sido adquirida aos seus herdeiros por um ascendente que presumo ter sido o seu avô paterno.

Dizia-me então que o referido Aragão tinha sido levado por uma hoste de guerrilhas e que a criada, ou governanta teria seguido na sua peugada com um saco de dinheiro em prata oferecendo-o no sentido de livrar o seu amo, o que não se verifica e acaba por ser assassinado próximo de Afonso Vicente, onde acabou por ser erguido, por esse motivo, um calvário.

Muitos anos depois e em contacto com esta povoação fui informado por um afonso-vicentino, já octogenário (3) que se lembrava ainda de ter visto o assento do calvário, mas desconhecia completamente a sua estória.

Mais uma vez, e como é natural, desapareceu o “monumento” mas ficou o nome.
Todos os que conhecem aquela zona sabem localizar onde é a Portela e a Eira da Cruz, a estória é que poucos hoje conhecerão. Aqui fica para a posteridade.


CALVÁRIO DE ISABEL VAZ

[A caminho do sítio da Isabel Vaz, 1989]
Situava-se este cruzeiro muito perto do monte de Afonso Vicente, mais propriamente tomando o caminho Norte da povoação, em direcção ao Serro da Machada. Cerca de duzentos metros andados, do lado direito do caminho, ainda conheci o soco de calvário, erigido para assinalar o lugar onde morreu alguém de uma maneira dramática.

Além dos idosos, gente ainda relativamente jovem sabe situar tal base, mas só os mais velhos sabem contar a razão da sua existência.

Curioso destas situações, vieram-nos contar (4) a estória que receberam de geração em geração, sem a poderem situar no tempo.

Marcadamente situada no século XIX, é-nos contado que uma moça do monte de Afonso Vicente foi levar a um dos moinhos da ribeira do Vascão um saco de trigo a fim de ser transformado em farinha para a confecção semanal da “amassadura”, base da alimentação destes povos. Carregado o burro, regressa ao “monte”com a preciosa carga. Depois de percorridos alguns quilómetros e já próximo do “monte” o burro espantou-se, corre desalmadamente e a moça não o aguenta e cai, de tal maneira que presa à arreata, da qual não se consegue desembaraçar, é arrastada e acaba por morrer.

A dor e o constrangimento de tal situação, pouco vulgar, fez os familiares erigirem um pequeno “monumento” para assinalar tão inaudito acontecimento e para que perdurasse, como memória, através dos tempos.

O cruzeiro há muito que desapareceu, e à sua base, que ainda conheci, penso que já aconteceu o mesmo.

Muita gente conhece o sítio rústico da Isabel Vaz, antropónimo e nome de família vulgares na zona e constante da desaparecida matriz predial rústica.
Desapareceu o calvário, ficou contudo e para todo o sempre, o nome da vítima, nele invocado: ISABEL VAZ


NOTAS
(1) – D. Belmira Lopes, neta do Capitão Paulo José Lopes que foi Presidente da Câmara de Alcoutim. Ficou sepultada no cemitério de Alcoutim, no único jazigo existente e junto de sua filha única, falecida aos dezoito anos e vítima de tuberculose.
(2) – Em documentação do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Alcoutim encontrei referência a um Aragão mas que por falta de mais dados não me possibilitou a identificação desejada.
(3) – António José (vulgo Frederico), natural de Afonso Vicente e recentemente falecido.
(4) - Maria Catarina Borralho, natural de Afonso Vicente, então octogenária e já falecida.

terça-feira, 3 de março de 2009

João José Viegas Teixeira

Nasceu na aldeia de Vaqueiros em 1823 ou 1824.

Em 1859 era casado com D. Maria Francisca Viegas, natural da freguesia de Martim Longo, filha do lavrador de Giões, Francisco Gomes Delgado e da lavradora de Martim Longo, D. Maria das Dores.(1)

O casal residia na vila de Alcoutim onde João José desempenhava as funções de Procurador Régio do Julgado de Alcoutim.

Muito jovem, foi indicado com outros cidadãos como representante da Câmara Municipal de Alcoutim na divisão e demarcação com o concelho de Tavira, na parte em que confina com a freguesia de Cachopo. A reunião teve lugar no dia 4 de Março de 1850.

Preside à Câmara Municipal de Alcoutim desde 15 de Março de 1866 até 31 de Dezembro de 1869 e é nessa altura que com a extinção quase momentânea do concelho (Dec. de 10 de Dezembro de 1867) propõe, chegando mesmo a pedido oficial, a criação de outro concelho com sede na aldeia de Martim Longo, que englobaria todas as freguesias de Alcoutim e as de Cachopo e Ameixial, convidadas e interessadas em tal, segundo demonstrado em reuniões para o efeito realizadas.

A petição a que se opôs o vereador José Joaquim Madeira, que a assinou como vencido, acabou por não surtir efeito sendo restaurado o concelho de Alcoutim tal e qual como se encontrava antes. (2)

[A aldeia de Vaqueiros]
Viegas Teixeira, que pertencia à numerosa família Teixeira, era por exemplo, primo do P. José Pedro Rodrigues Teixeira, pároco de Martim Longo durante muitos anos e também, entre outros, de Pedro José Rodrigues Teixeira que foi durante mais de quarenta anos secretário ou escrivão da Câmara Municipal de Alcoutim. O P. José Pedro deixou-lhe em testamento de 1868, duas acções na mina das Cortes Pereiras.

Já então era considerado por Portaria de 12 de Janeiro de 1863 descobridor da Mina da Cova dos Mouros, próximo do monte das Ferrarias, freguesia de Vaqueiros e seu concessionário, situação que mantém até à data do seu falecimento.

Exerceu igualmente as funções de Administrador do Concelho em 1875/76 e em cujo exercício manteve tenaz confronto com Miguel Angel de Lion, político de esquerda e conhecido popularmente por D. Miguel, das Cortes Pereiras que veio a ser assassinado ainda hoje em situação mal definida.

Em 17 de Março de 1876 requer três meses de licença no sentido de tratar dos seus negócios no estrangeiro mas a 15 de Maio é suspenso dessas funções passando-se, além disso, algo de mais grave.

Não sendo conveniente regressar ao País, veio a falecer no dia 4 de Setembro em Aiamonte, com cerca de quarenta e sete anos e onde ficou sepultado. (3)

Deixou duas filhas.
Lembramo-nos muitíssimo bem de por volta de 1970 ouvirmos falar dele a pessoas de Martim Longo que o tinham em grande consideração isto pelo que tinham ouvido aos seus antepassados.

Só muito depois viemos a “conhecer” Viegas Teixeira através da investigação histórica realizada.

NOTAS

(1) - Assento de óbito nº 45, de 1883.09.05, freguesia e concelho de Alcoutim, in Arquivo Distrital de Faro.

(2) – Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), José Varzeano, 1985., p.24.

(3) - Ofício nº 86 de 6 de Setembro de 1876 ao Governador Civil de Faro.

segunda-feira, 2 de março de 2009

A Praça da República (antiga Praça D.Afonso IV)



Este postal representa a parte central da vila e já existia em 1967.

Metade do que vê já desapareceu na voragem do tempo.

Nele se podem ver os Paços do Concelho, hoje meio abandonados, as antigas escolas ocupadas por serviços municipais, o edifício que a tradição aponta ter sido residência do capitão-mor e onde funcionaram durante muitos anos os serviços de Finanças, hoje em local próprio e o Posto da GNR que ainda se mantém

Ao fundo, tal como agora, a residência e outros cómodos dos caseiros da fazenda do Rossio.

Ainda que não seja referido, este o outros postais do tipo tiveram por base a iniciativa do comerciante local, já falecido, João Baltazar Guerreiro.

Só depois do 25 de Abril a Câmara tomou a iniciativa de mandar editar uma colecção de postais.

domingo, 1 de março de 2009

Mês de Março

EFEMÉRIDES

Dia?
1564
– Falece vítima do coice de um cavalo, o 3º Conde de Alcoutim, D. Miguel de Meneses.


Dia 1
1877 –
Devido aos prejuízos causados pela Cheia do Guadiana de 1876, é deliberado pela Câmara acudir ao reparo da muralha que defende e resguarda a Igreja Matriz.

1897 – Nasce em Alcoutim o professor do Ensino Primário Oficial, Manuel José da Trindade e Lima, onde exerceu a sua profissão e foi Presidente da Câmara e Administrador do concelho.

Dia 3
1845
– Quarenta dos principais lavradores do concelho apresentam um requerimento na Câmara no sentido de poderem aceirar maior porção de terreno para assim poderem manter os seus rebanhos.

Dia 7
1391
– O rei dá instruções ao contador Silvestre Esteves para, através do sacador Gonçalo Ovelheiro, cobrar dívidas antigas nas Comarcas do Algarve e Entre Tejo e Guadiana, a fim de reparar o Castelo de Alcoutim que é fronteiriço e está despovoado. Obra a fazer por iniciativa do rei.

1998 – É inaugurada em Alcoutim a Casa da Cultura (Casa dos Condes).

Dia 8
1955
– Falece às primeiras horas da manhã na sua residência em Alcoutim, o Dr. João Francisco Dias que foi excelente clínico e cirurgião benemérito. Foi durante muitos anos Provedor da Santa Casa da Misericórdia.

Dia 9
1877
– Data indicada numa placa toponímica referente à construção da Estrada Alcoutim-Pereiro.

Dia 10
1957
– Foi descerrado na vila de Alcoutim o busto do Dr. João Francisco Dias e de autoria do escultor F. Ferreira, adquirido por subscrição pública.






Dia 11
1943
– Falece em Alcoutim o médico Dr. José Pedro Cunha, concelho onde exerceu a sua actividade durante cerca de 40 anos.





Dia 12
1837 –
Em sessão de Câmara determina-se que se fizesse saber ao rendeiro do ver da freguesia de Odeleite que não deve fazer a entrega de quantia alguma em virtude da mesma renda do cofre do extinto concelho de Castro Marim pertencer agora ao de Alcoutim.


Dia 14
1999 –
Realiza-se na aldeia de Vaqueiros a 1ª Feira do Pão Quente e do Queijo Fresco.

Dia 16
1524 –
É morto em África, na luta contra os mouros, D. João de Noronha, Capitão de Ceuta e filho do 1º Conde de Alcoutim.

1883 – A Mina de antimónio das Cortes Pereiras encontrava-se novamente em laboração, dirigida certamente pelo cidadão inglês, James Henry Hoyle.

Dia 17
1883
– Forte trovoada na freguesia de Alcoutim, sendo um homem vítima de descarga eléctrica em casa de Manuel Gaspar, no monte dos Guerreirinhos.

1890 – Falece em Alcoutim com 80 anos, Pedro José Rodrigues Teixeira, natural de Giões e que foi durante quarenta e seis anos Secretário da Câmara Municipal, Administrador do Concelho, após a aposentação e Provedor da santa Casa da Misericórdia. Proprietário de, entre outras, das Herdades 1ª do Mosteiro e do Brejo. Era cunhado do Padre António José Madeira de Freitas (tio).




Dia 20
1520
– Foral Novo concedido a Alcoutim por D. Manuel, estando em Évora.






Dia 23
1883
– O “Gomes II” não pode fazer a carreira habitual em consequência da cheia do Guadiana.






Dia 26
1822 –
Alvará que criou a Feira da Vila de Alcoutim.







Dia 28
1482 –
É nomeado por mercê de D. João II, Escrivão das Sisas de Alcoutim, Martim Gonçalves Carneiro.

Dia 30
1841
– António José Madeira Barros, por Carta de D. Maria II, é nomeado professor proprietário e vitalício da cadeira de ensino primário em Alcoutim e
Pedro José Rodrigues Teixeira é nomeado por da mesma Soberana, Secretário da Câmara Municipal de Alcoutim.

Dia 31
1371
– Assinatura do Tratado de Paz em Alcoutim, entre D. Fernando e D. Henrique II de Castela.

Mistério "do finlandês"totalmente esclarecido!

Os meus assíduos visitantes/leitores certamente que repararam no post que coloquei no ALCOUTIM LIVRE no dia 10 de Fevereiro sobre a enigmática visita de um “hipotético finlandês”.

Procurei no escrito justificar aquela entrada e a curiosidade que me assistia.

Houve depois disso três amigos visitantes/leitores que me perguntaram se “o finlandês” já tinha dito alguma coisa e a que respondi que não e certamente que não o iria fazer.

Hoje, dia 26, quando abri o blogue encontrei surpreendentemente uma nova visita “do finlandês” o que redobrou a minha curiosidade e imediatamente fui consultar o meu e-mail para ver se havia alguma novidade. Nada, não havia nada!

Como tive uns assuntos a tratar, só horas depois voltei a abri-lo e imediatamente fui ver se havia algum e-mail.

Havia notícias “do finlandês”e antes de abrir a mensagem chamei a minha mulher que veio apressadamente para assistir à leitura.

Antes de a terminar identifiquei “o finlandês” e achei imensa piada a toda esta “estória” que naturalmente não posso revelar aos meus visitantes/leitores, para o que lhes apresento as minhas desculpas – há coisas que não podemos fazer e esta é uma delas.
Afinal “o finlandês” que eu mal conheci, acabou por me conhecer melhor do que eu alguma vez podia supor e pelo que disse passou a ser meu “admirador”.
Ainda que o vá fazer de carácter pessoal, não quero aqui deixar de muito lhe agradecer a amabilidade que teve em responder ao meu apelo.

O MUNDO DA INTERNET TEM ESTAS COISAS!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

As andilhas ou zandilhas


Já referimos aqui os vários tipos de cangalhas que o alcoutenejo utilizou (ou utiliza) para colocar nas bestas no sentido de poder efectuar mais adequadamente vários transportes indispensáveis à sua manutenção.

Hoje iremos referir outro artefacto também para auxílio no transporte de outros produtos. São designados como o título indica, andilhas ou zandilhas, termo que se usa mais no concelho de Castro Marim mas igualmente conhecido e empregue no de Alcoutim.

O alcoutenejo construía uma armação rectangular de madeira rija, normalmente azinho e onde o zambujeiro igualmente podia ser utilizado, senão totalmente, pelo menos em algumas peças.

Nas extremidades desta armação, construíam-se duas espécies de bolsas formadas por varas de marmeleiro ou de qualquer outra planta com características semelhantes no que toca à flexibilidade e resistência. As varas eram introduzidas através de um buraco feito com um trado, vergadas, introduzindo-se a extremidade no lado oposto e por intermédio do mesmo sistema.

Com o equilíbrio conveniente e conforme mostra a foto iam-se colocando mais varas. Depois, procedia-se à sua ligação com o auxílio de arames com o intuito de harmonizar a bolsa construída e lhe dar mais resistência.

Estes objectos destinavam-se principalmente ao transporte de uvas, marmelos e romãs

Tal como as cangalhas, caíram completamente em desuso, pois além de os burros já serem raros, os caminhos, ainda que maus, vão possibilitando a passagem de veículos motorizados que fazem o transporte do pouco que se produz.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A lenda da moura encantada no castelo velho de Alcoutim


[O que se via da muralha do castelo em 1973]

Como se sabe, as Lendas cada qual conta-as da sua maneira e diz o que quer.

A lenda da moura encantada no castelo velho de Alcoutim, pelo menos há quarenta anos, ainda estava bem enraizada na população da vila e arredores, principalmente naquela que se situa ao norte da freguesia.

Posso mesmo dizer que a maioria, para não dizer a totalidade, dos alcoutenejos que viviam na altura na vila, conheciam-na, melhor ou pior, com mais ou menos pormenores e uma grande parte respeitava-a.

Como aconteceu com muita coisa em relação a Alcoutim, foi o meu saudoso Amigo, Sr. Luís Cunha, a primeira pessoa que nela me falou. Tempos depois refere-a num interessante artigo que publicou no Jornal do Algarve, de 14 de Julho de 1973 com o título “Em Alcoutim – outro interessante desporto à disposição dos jovens”.

Calculo que hoje o conhecimento da lenda passará despercebida à grande maioria dos jovens alcoutenejos mais preocupados naturalmente com outros assuntos.

Por outro lado, ainda que pareça que não, as escavações arqueológicas operadas durante anos acabaram por desmistificar o local, retirando-lhe o misticismo.

Depois do artigo do Sr. Luís Cunha, voltei a encontrar a lenda em As Mouras Encantadas e os seus encantamentos no Algarve, um dos muitos livros que publicou o algarvio, Francisco Xavier d` Ataíde Oliveira, numa edição de 1898 e que teve pelo menos mais uma edição de 1994.

Certamente que esta lenda foi transmitida ao autor pelo pároco de Alcoutim, P. António José Madeira de Freitas (sobrinho), a quem no final do livro agradece a colaboração prestada.

No meu trabalho Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio, Subsídios para uma monografia, 1985, a p. 145 e nas três seguintes, refiro aquilo que os outros escreveram mas transmitindo também a minha narração em consonância com dois dos informadores mais “credíveis”, os senhores Mário Vicente e António Maria Corvo, ambos falecidos há muito.

Não vou transcrever o que então escrevi mas sim procurar fazer um resumo breve.

Diz assim:

[O Castelo Velho segundo Duarte de Armas - Séc.XVI]

No castelo velho de Alcoutim, estava encantada uma bela agarena por motivos que não são conhecidos mas que devem estar relacionados com o abandono forçado que aquele povo teve que fazer.

Depois “conhece-se” a forma de proceder à quebra do encanto, libertando a bela moura:
Na manhã de S. João, e só nessa altura, o pretendente ao desencanto, que ao efectuá-lo, receberia o grande tesouro que se encontrava escondido no local onde se situou o velho castelo mourisco que denominava e vigiava a curva existente no rio, tinha que travar luta contra um bicho façanhudo, tipo réptil que tinha grandes pestanas e sobrancelhas e, o que é muito importante para a estória, uma malha preta na cabeça, único ponto vulnerável que possuía, desde que fosse tocado por uma arma branca.

Se o pretendente não o conseguisse, seria devorado por tal bicho que tinha como local de repouso, observação e defesa dois chaparreiros onde se enroscava e o dilatado tempo já passado, sem que ninguém tivesse o arrojo de o enfrentar, tinha originado o alisar do tronco das árvores.

Quanto à bela agarena, a lenda não indica o seu destino.

Que houve gente que passou dias a cavar no local esperando encontrar o tesouro sem enfrentar o bicho façanhudo, parece ter acontecido pelo menos nos princípios do século passado e possivelmente aconteceu o mesmo em séculos anteriores onde naturalmente a lenda estava mais arreigada.

Ainda hoje e segundo informações muito recentes há tractoristas que em locais impregnados de lendas deste tipo fartam-se de escavar para cima e para baixo esperando encontrar as famosas barras de oiro em arcas ou em coiro de boi, por exemplo!

E a moira, de que se desconhece o nome, o que nem sempre acontece, lá continua no seu padecido encantamento, até a lenda se perder com o esboroar dos tempos!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Um jantar em louvor de Alcoutim


[Fotógrafo - Conviva e cronista Fernando Lino]

Quem leu o título possivelmente pensará que se trata de um jantar de grão ou de feijão muito típico da serra algarvia onde Alcoutim se situa, mas na verdade não foi isso que aconteceu porque para mim um jantar sem abóbora de casca perde muito do seu valor e segundo o povo entendido, esta abóbora só deve ser cozinhada nos meses que não têm “R”, ou seja Maio, Junho, Julho e Agosto, se assim não for, perde todas as características, nomeadamente o seu gosto.

Ainda que eu faça o prato, a verdade é que nunca o consegui confeccionar com as características que ele deve possuir e isto por mais que me esforce. Sendo assim, não o apresento aos meus convidados.

É um gosto que me vem de família, quando calha convidar alguns amigos para almoçar ou jantar, sendo a refeição feita por mim e por minha mulher.

No passado dia 9 assim aconteceu e juntaram-se-nos sete amigos que nos deram a honra da sua presença.

Menu escolhido: “Jantar de caça criada em Alcoutim”, mais propriamente na ZRT Marmelcaça. A refeição alargada teve por base a perdiz e a lebre e a sobremesa os dulcíssimos citrinos (laranjas e tangerinas) da Hortinha das Lajes, sita no Monte de Afonso Vicente. Os doces foram acompanhados por variadíssimos licores e onde a ginja (de Peniche) é rainha, não faltando contudo os de alfarroba, poejo, amêndoa, ameixa, tangerina, etc. que igualmente têm origem em produtos alcoutenejos.

Se alguém espera que aqui se tivesse servido caviar como produto representativo de Alcoutim, enganou-se totalmente pois aqui não se engana ninguém.

Nesta altura do ano ser-me-ia muito difícil servir uma refeição só com produtos alcoutenejos, mas em Alcoutim isso já aconteceu muitas vezes, além do produto base, as batatas, cebola, alho, salsa, vinhos, licores, alfaces, rabanetes, etc., etc., ser tudo produzido na Hortinha das Lajes

Como sempre acontece, as visitas elogiaram a refeição e eu espero que o tenham feito por ser verdade e não por delicadeza.

Os pratos de caça bem confeccionados, acompanhados de alguns bons vinhos já existentes, e nesta época, os maravilhosos citrinos podem e devem ser um verdadeiro CARTAZ do concelho de Alcoutim. Se lhe juntar um doce regional e um licor de alfarroba ou de poejo, completará a ementa.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Casas de paredes arredondadas


[Construção de parede arredondada em Afonso Vicente, foto JV, Janeiro de 2009].
A Etnografia de hoje apresenta uma velha e típica construção de xisto e grauvaque que numa fase inicial serviu de habitação para depois se transformar em palheiro ou arramada.

Não nos parece que tenha a ver com uma questão de formato da área porque de uma maneira geral o terreno que lhe é contíguo é do mesmo proprietário.

No nosso trabalho, A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», 2007, a p. 66, apresentamos outra construção semelhante situada naquela freguesia, existindo outras espalhadas por todo o concelho, mas que vão desaparecendo por falta de utilização e quando já se procuram efectuar novas construções onde o tijolo é rei.

A existência de líquenes que lhe dá uma coloração agradável à vista, é uma das provas da sua antiguidade.

Este tipo de parede faz-nos lembrar as construções circulares feitas em pedra solta e terra, com telhados de colmo e que em tempos serviram de habitação aos seus proprietários, na freguesia de Cachopo, serra do Caldeirão e de origem Pré-Histórica, são hoje aproveitadas para recolha de palha e outros apoios.

Não esquecer que as palhotas em África têm uma configuração semelhante.

Parece-nos igualmente que devido ao material usado e existente na época, seria mais fácil fazer uma parede arredondada do que direita e esquinada. Os actuais materiais de construção tudo modificaram e a habitação da serra algarvia passou a ser igual à das Beiras ou Trás-os-Montes.

Quem as inventariou e recolheu fotograficamente? Possivelmente ninguém!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O meu cavalo

Escreve

Gaspar Santos

O cão que acompanhava o meu Pai a caçar, que guardava a casa e que muito brincava comigo, chamava-se Tejo. O nome era necessário pois tanto a caçar como em outras circunstâncias era preciso chamá-lo de maneira inequívoca. E porque cães havia muitos. O meu cavalo chamava-se simplesmente Cavalo... Pois era único.

O meu cavalo deve ter nascido por volta de 1936. Fora concebido pelo médico Dr. Pedro Cunha, feito pelas mãos do meu Pai e também pelas mãos do Dr. Cunha. O Cavalo teve uma longa vida e divertiu muitas gerações de crianças. Não deve haver em Alcoutim homem ou mulher nascidos entre 1930 e 1960 que não o tenha montado. Na minha infância era um corrupio de outros garotos e garotas que me visitavam para montar o cavalo. A mim serviu para montar a sua garupa e... para dormir no estrado, uma vez por outra, uma sesta ou “folga” como lá se diz, enquanto minha Mãe ou irmã me balanceavam ao mesmo tempo que me contavam uma história.

O Cavalo não tinha nada de caricatural. Era uma miniatura feita à escala de um cavalo de carne e osso, como se pode ver na foto ao lado, em que eu monto o meu Cavalo e o meu Pai monta a sua égua. Era uma verdadeira obra de arte naturalista. Anatomicamente era uma reprodução de todas as curvas e saliências que exibe um cavalo verdadeiro. Uma cabeça provida de orelhas, com a crina caindo sobre uns olhos de vidro que pareciam vivos, uma boca provida de dentes mordendo o freio, um pescoço curvado encimado por fartas crinas, membros anteriores e posteriores em posição de galope forte, não faltando um rabo que tinha pertencido a um boi e cascos assentando em estrado curvo.


[Eu e meu Pai cada um em sua montada, em 1937]

No dorso o Cavalo tinha uma sela enchumaçada com os limites salientes atrás e à frente, armados de arame de aço para dar a consistência necessária e evitar o escorregamento do cavaleiro para a frente ou para trás. Para evitar o escorregamento lateral contava-se com um par de estribos e...com a perícia do cavaleiro! Para sustentar a sela tinha a competente cilha e correias passadas ao peito e ao rabo. Tinha assim estribos a condizer e rédeas a terminar no freio.

O cavalo tinha uma estrutura forte de madeira. As formas no pescoço e nas patas eram esculpidas na própria madeira, enquanto que o ventre e as ancas eram constituídas por madeira aparafusada ou pregada completada por enchimento de papel de jornal. A parte mais superficial era cartão pintado, sugerindo a pelagem.
O estrado onde aparafusavam as patas do cavalo tinha um formato encurvado que permitia balançar. O balancear fácil e com pouco esforço possibilitava que crianças de muito tenra idade fossem capazes de cavalgar autonomamente, sem necessidade que outrem os empurrassem.

Não me lembro da sua cor original nem se era de uma só cor. Mais tarde, por volta dos anos 1945 ou 1946, tendo já algumas esfoladelas foi restaurado e pintado de castanho escuro pelo meu tio Gregório.
Durante esse restauro recordo-me de ler em jornal envelhecido, que o meu tio retirou do enchimento do ventre do cavalo, uma notícia que foi, então, novidade para mim. Esse jornal noticiava que o José Luís, boxeur de Faro, tinha travado um combate. Ora o José Luís que eu conhecia dos cromos que coleccionava, era famoso pelos combates que disputava em Lisboa no Parque Mayer mas...de Luta Livre. O José Luís era um atleta algarvio de que nos orgulhávamos muito pelas suas vitórias.

Não resisto a transcrever as bonitas palavras-dedicatória do “fotografo” meu primo, escritas no verso da fotografia: Com votos de que no futuro possam andar juntos cada um em seu cavalo que ande, oferece primo, A J Patrocínio - 26-2-937


[O cavalo em 1959 montado por meu filho com 17 meses]


O meu cavalo ainda foi montado por meu filho mais velho como se pode ver na foto acima. O filho mais novo ainda o viu, parcialmente destruído, quando já não estava em condições de ser montado.

Para recordação deste brinquedo que nos divertiu tanto ficaram várias fotos. Numa aparece um zeppelin que nesse momento sobrevoava Alcoutim e que ficou como documento notável e que deu origem a um artigo que escrevi e foi publicado no Jornal do Baixo Guadiana. Ainda hoje me interrogo se o meu primo quando me fotografou teve intenção de me fazer acompanhar do zeppelin.

O meu Cavalo era, como se descreve, um brinquedo artesanal. Mas deixou gratas recordações dele e de quem o construiu!!. Gostava que os nossos filhos e netos pudessem dizer o mesmo de algum dos vários brinquedos que a sociedade de consumo (ou de desperdício) lhes coloca hoje nas mãos em grande número.

Mas havia nesses tempos outros pólos de brincadeira. Um deles era um automóvel a pedais que os saudosos irmãos Fernando e João filhos do Dr. Dias tinham no quintal e que todos nós uma ou outra vez nos entusiasmámos a conduzir.