segunda-feira, 9 de março de 2009

João Freire de Andrade, Senhor de Alcoutim

(Publicado no Jornal Escrito nº 64, de Junho de 2004, p IV e encarte de O ALGARVE nº 4799)

Fidalgo da Casa de D. Afonso V, seu aposentador – mor, (1) conforme huma carta del Rey, feita em 25 de Setembro de 1451 e outra datada em Évora a 18 de Novembro do mesmo anno. (2)
Filho secundogénito do Senhor de Bobadela e Travanca, do mesmo nome e de D. Catarina de Sousa, neto paterno de Gomes Freire de Andrade, o 1º Senhor de Bobadela e de D. Leonor Pereira, que foi dama da rainha D. Filipa e materno de Martim Afonso de Sousa, 2º Senhor de Mortágua e de D. Maria de Briteiros. Era bisneto de Álvaro Pereira “marchal” de Portugal e Senhor da Terra da Feira. (3)

João Freire de Andrade devia ter nascido no primeiro quartel do século XV (cerca de 1415).

[Armas dos Andrade]
Consta que alguns anos antes das cartas outorgadas e referidas, tinha já exercido o “dito ofício” de aposentador - mor, mas o ter sido culpado de uma morte no Algarve, o fez ausentar para Castela e Ceuta, donde se recolheu ao Reino, beneficiando do perdão geral após a batalha de Alfarrobeira. (4)

A vida deste fidalgo parece ter sido um pouco agitada.

Em Castela (1434), num torneio, quebra três lanças com um dos “contenedores” (5) que ficou rapidamente vencido. Pediu então a Sueiro de Quiñones para lhe dar mais que fazer antes de deixar a teia pois fizera tão pouco para contemplação da sua dama, que por ela ali tinha ido.

Casa com D. Isabel Coutinho (cerca de 1442), viúva de D. Fernando de Cascais, que era filha de D. Pedro de Meneses, 2º Conde de Viana e de sua segunda mulher, a Condessa D. Beatriz Coutinho, mas de que não houve geração. D. Isabel já era falecida em 1450.

Nesta altura, D. João de Andrade era considerado pelo rei como pessoa que muito foi e é em nosso desserviço. (6) mas pouco depois, mais precisamente em 20 de Abril de 1444, foi expedida uma carta de perdão a seu favor, com a condição de ir servir sete anos para Ceuta, o que fez com muito valor pelo que o rei o nomeou, como vimos, aposentador - mor.

Obtém depois, em 7 de Novembro de 1458, por carta outorgada em Ceuta, que a vila de Alcoutim fosse um couto para quinze homiziados. Os autores dos crimes, não os podiam ter praticado num raio de 50 km da vila (6) carta que veio a ser confirmada a seu genro em 12 de Julho de 1497, passando de quinze para trinta e a distância para sete léguas. (7)

Em 1465 D. Afonso V tinha-lhe feito mercê do senhorio de Alcoutim, vila de que também foi alcaide - mor.

João Freire de Andrade casou em segundas núpcias com D. Leonor da Silva, filha de Pedro Gonçalves Malafaia, rico – homem, do Conselho e Vedor da Fazenda (8) de D. Duarte e embaixador a Castela e de sua mulher, D. Isabel Gomes da Silva.

Pedro Malafaia esteve igualmente em Ceuta. Também o pai de João Freire de Andrade, do mesmo nome, tomou parte como capitão na tomada da cidade.

Deste casamento nasceu D. Maria Freire de Andrade, sua herdeira que veio a ser a 1ª Condessa de Alcoutim e depois 2ª Marquesa de Vila Real.

Foi senhor de grande número de herdades e outros bens no concelho, tendo algumas delas, segundo penso, dado origem a pequenas povoações (montes) que lhe herdaram o nome e outras mantêm-se na toponímia rústica. São exemplos no primeiro caso, Palmeira e Zorrinhos e no segundo, Diogo Lopes ou Bacelar.

Estes bens vieram a constituir o Condado de Alcoutim e mais tarde, com outros, a Casa do Infantado, extinta em 1834 e os seus bens alienados à burguesia local em meados do século XIX.

João Freire de Andrade já era falecido em 8 de Julho de 1474, segundo Braamcamp Freire.

A ligação do Senhor de Alcoutim (e que ainda não o era) aos Meneses, não produziu descendência, o que veio a acontecer mais tarde com a de sua filha, a D. Fernando de Menezes, dando origem aos Condes de Alcoutim.

NOTAS
(1)-Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira - Aposentador - antigo oficial a quem competia tratar, pelo menos com um dia de antecedência, de tudo o que se relacionasse com a aposentadoria do rei e ainda guardar os privilégios e foros dos senhores das pousadas (Viterbo)
(2)-Geografia Histórica, Luís Caetano de Lima - Lisboa, 1736.
(3)-Portugal Antigo e Moderno, A.S.B. Pinho Leal - Vol. 11, pág. 955
(4)-"Elementos para o Estudo dos Coutos de Homiziados instituídos pela Coroa" - Portugalie Histórica - Vol. II, 1974.
(5)-Significa defensor, protector.
(6)-Brasões da sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire - Coimbra, 1927
(7)-Castro Marim Quinhentista - O Foral Novo (de 1504) e o Tombo da Comenda (de 1509) , Hugo Cavaco, Edição C.M. de Castro Marim,2000
(8)-Funcionário da mais alta categoria a quem cumpria a administração da Fazenda Pública, in Dicionário de História de Portugal, Dir. de Joel Serrão, Livraria Figueirinhas,Porto.

domingo, 8 de março de 2009

Manuel Cabanas


Manuel dos Santos Cabanas, de seu nome completo, nasceu em Vila Nova de Cacela, concelho de Vila Real de Santo António, em 11 de Fevereiro de 1902.

Cedo iniciou a sua actividade política no Barreiro onde se radicou apenas com vinte anos e foi dirigente sindical ferroviário.

Participa no levantamento armado e por isso é preso em 8 de Fevereiro de 1927 quando o almirante Câmara Leme tentava sublevar a Escola de Torpedos da Armada.

Ligado aos meios socialistas da época participa em todas as acções de vulto da oposição democrática.

Faz parte do movimento grevista em 1934, do MUNAF (1943), do MUD (1945), das campanhas presidenciais de Norton de Matos (1948/49) e de Quintão Meireles (1951). Em 1958 participa activamente na campanha do General Humberto Delgado e sempre que a liberdade lhe permite nas campanhas eleitorais legislativas pela Oposição Democrática.

Sofreu por várias vezes a prisão sendo aposentado compulsivamente da CP em 1963 por razões políticas.

Foi funcionário da Ordem dos Advogados e professor do Ensino Técnico, acabando naturalmente por ser demitido em 1968 porque “era contrário aos altos interesses do Estado”.

Em 1973 ajuda a fundar o Partido Socialista. Depois do 25 de Abril, já septuagenário, tornou-se deputado do Partido Socialista na Assembleia da República.

Autodidacta, adquiriu através do seu estudo razoável formação intelectual, ajudada ainda devido ao convívio com grandes vultos do pensamento e das letras.

Artista plástico na área da xilografia que iniciou em 1937, a sua obra ficou fortemente marcada, como não podia deixar de ser, pelas suas concepções ideológicas. Nela abundam personalidades marcantes do pensamento e da ruralidade.

Foi sócio efectivo da Sociedade Nacional de Belas Artes.

Desde jovem foi articulista na imprensa divulgando os seus ideais republicanos e socialistas.

Em 1974 doou o fundamental da sua obra artística e a sua colecção de arte ao Museu Municipal de Vila Real de Santo António, de que foi Conservador nos últimos anos de vida.

Em 1993 o Presidente da República, Dr. Mário Soares, descerrou um busto de bronze em Vila Nova de Cacela que perpetua a sua memória.

As obras que doou ao município encontram-se hoje no Centro Cultural António Aleixo, em Vila Real de Santo António.

Comendador da Ordem da Liberdade (1985) e da Ordem do Infante D. Henrique (1993)

Faleceu em Faro a 25 de Maio de 1995.

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http://pt.wikipedia.org/wiki
Manuel Cabanas, Vida e Obra, Luís Romão
Traços Biográficos de Manuel Cabanas, Carlos Bicas

sábado, 7 de março de 2009

A pelengana


Na casa do alcoutenejo comum, o pequeno proprietário agricultor que em ocasiões especiais tinha de abandonar o seu monte à procura de trabalho onde pudesse adquirir uns tostões para fazer face à vida, deslocava-se em emigrações periódicas para o Alentejo, nomeadamente para a zona de Serpa-Moura, outros para as Fincas do país vizinho de onde traziam uns duros e bastantes para as Minas de S. Domingos, ainda que o trabalho fosse muito duro, podiam ganhar mais uns patacos, os utensílios de cozinha eram muito poucos e rudimentares.

Panelas e tigelas de barro, caçoilas, alguidares de vários tamanhos, sertãs de ferro, um ou outro prato grande (hoje designado por prato de arroz) e pouco mais.

O meu visitante/leitor sabe que eu não nasci nem fui criado por estas paragens pelo que só apanhei alguns resquícios destas vivências, pois naturalmente algumas transformações se operaram.

Uma das peças que encontrei em actividade foi a pelengana, termo que desconhecia completamente e para o qual pedi uma explicação que me foi dada com a admiração de eu não o conhecer.

Tendo eu tido sempre interesse por estas coisas, a minha observação continuou a fazer-se tanto para esta peça como para todas as outras que não conhecia e que não se usavam na zona onde nasci e fui criado ou que então tinham outros nomes e funções um pouco diferentes.

É natural que tivesse procurado dicionários que me pudessem fornecer mais elementos e verifiquei que a utilização do termo é muito variada o que acontece igualmente à ortografia. Pode dizer-se e escrever:- palangana, pelangana, plangana (1) e mesmo pelengana, que eu por aqui sempre ouvi e utilizo no título e como é referido no Dicionário do Falar Algarvio, 2ª Edição aumentada, de Eduardo Brazão Gonçalves, Algarve em Foco – Editora, 1996, p. 147.

A palavra palangana, que normalmente encabeça a entrada nos dicionários, é segundo os mesmos de origem Castelhana, tendo por base o Latim palanga.

São muitos os significados que pode ter: tabuleiro onde são levados os assados à mesa; grande tigela, alguidar, bacia (no Brasil) e no Minho, infusa ou cântara.

As pelenganas em Alcoutim eram peças de base redonda, muitas decoradas dos mais variados motivos e com bordos ligeiramente inclinados como a representada na fotografia, que tem seguramente mais de sessenta anos. Para se lhe chamar pelenganas, tinham de ser vidradas.

Não serviam diariamente mas sim em dias de nomeada. Era nelas que se vazavam, e isto para utilizar o verbo que me foi referido, os jantares de grão, feijão, fava ou couve, feitos ao fogo lento de lenha e numa panela de barro.

Apesar de todas as transformações operadas na vida dos alcoutenejos, as pelenganas continuam em uso, muitas bem velhinhas, mas outras novas pois os comerciantes ambulantes continuam a trazê-las pois sabem que se vendem com facilidade.

NOTA
(1) – http:// www.kinhost.com.br

sexta-feira, 6 de março de 2009

Nau dos Corvos


“Nau dos Corvos” foi o título que o autor deu ao conjunto de 61 poemas que numa edição de autor foi apresentado no dia 31 de Janeiro último, cerimónia para a qual teve a amabilidade, como é já seu hábito, de me convidar, mas que não me foi possível estar presente, como desejava, visto encontrar-me no concelho de Alcoutim, a uma distância relativamente considerável de Peniche.

O sentimentalismo do autor levou-o a ir buscar para título este emblemático rochedo que constitui um dos ex-libris da cidade onde não nasceu mas que considera como sua e onde se fixou desde tenra idade.

Sem nunca escamotear as suas origens ribatejanas, de que muito se honra, e a qualidade de almeirinense, tem vivido a maior parte do seu tempo na cidade de Peniche que ama como poucos, sendo considerado uma das suas maiores figuras pelo menos dos últimos cinquenta anos.

Além da sua obra poética que já conta seis títulos e onde sobressai o encantamento que possui pela terra onde se fez homem e que glorifica com ternura e emoção, cultiva igualmente a prosa com trabalhos de ficção.

Mas a faceta pela qual os penichenses nunca o esquecerão, está no valioso trabalho que tem realizado sobre a história de Peniche, dando a público em 1962, Peniche na História e na Lenda, que já vai na 4ª Edição e se encontra presentemente esgotado.

Além deste trabalho publicou entre outros, Fortificações da Região de Peniche, para nós, o seu melhor trabalho e ainda uma valiosíssima História da Renda de Bilros de Peniche, 2003.

O Dr. Mariano Calado que nasceu em Almeirim em 1928 é Licenciado em Psicologia Social e obteve na Universidade de Lisboa, em 1999, o grau de Mestre em História Regional e Local.

Teve a gentileza de nos oferecer este livro com simpática dedicatória, o que muito lhe agradecemos

quinta-feira, 5 de março de 2009

Recordar um amigo




Escreve
José Miguel Nunes




A minha filha, como qualquer miúdo da sua idade, adora que lhe leiam uma história, e como as que temos cá em casa já lhe foram lidas vezes sem conta, aqui há uns tempos tive de lhe renovar o “stock”, e foram histórias da “Moranguinho”, do “Noddy”, dos “Irmãos Koala”, eu sei lá…

Pensarão, mas o que é que isto tem a ver com Alcoutim? Provavelmente nada, depende de quem escreve, depende de quem lê.

Mas voltando às histórias da minha filha, no meio delas há uma em especial que ela adora que lhe leia, chama-se “O Capitão Nelo”, e é da colecção dos “Irmãos Koala”. O Nelo é um pequeno vombate que mora no interior da Austrália, que certo dia se depara com uma descoberta deveras interessante: uma pequena lancha em muito mau estado. Com a ajuda dos irmãos Koala, Franco e Beto, arranja a lancha, e realiza o seu sonho de ser um verdadeiro Capitão de Mar, com um chapéu à capitão e tudo.

Voltamos novamente ao mesmo, mas o que tem isto a ver com Alcoutim? Provavelmente nada, depende de quem escreve, depende de quem lê.

Cada vez que lhe leio aquela história, lembro-me de Alcoutim. Cada vez que lhe leio aquela história, lembro-me do Sr. Leonel, que morava na rua onde se situava a casa dos meus avós, era logo a primeira do lado direito, no sentido de quem sobe, mesmo junto às escadinhas que aí existiam e recentemente assassinadas.

O Sr. Leonel, homem alto, grande e de voz grossa, estava sempre pronto para uma brincadeira, alguns da minha idade ainda o recordarão com toda a certeza. Metia-se muito comigo, aliás como fazia com todos os outros miúdos, mas talvez por ser próximo da família, ou por eu ser “um pouco irrequieto”, raramente passava por mim sem me provocar de alguma maneira.

O Sr Leonel nunca me tratou pelo meu nome, sempre me chamou de “Capitão”, ou melhor, de “Captão”, sempre me lembro de assim ser. Não faço a mínima ideia porquê, a verdade é que também eu, como o pequeno Nelo da história dos Irmãos Koala tinha um chapéu de Capitão de Mar, é possível que tenha sido essa a razão.

A história do “Capitão Nelo” é uma história que eu gosto de lhe ler, e que ela gosta de ouvir. Até acho que gosta mais desta do que das outras, ou então sou eu que gosto mais desta do que das outras. Não sei, é possível que lha leia de um modo diferente do que lhe leio as outras, é que esta recorda-me Alcoutim, é capaz de ser isso.
Mas o que é que isto tem a ver com Alcoutim? Provavelmente nada, depende de quem escreve, depende de quem lê.


Recordar Leonel Mariani Lorador, falecido em 1994 e um verdadeiro amante de Alcoutim, é a simples homenagem que lhe posso prestar.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Dois calvários no monte de Afonso Vicente

PEQUENA NOTA
Este escrito foi enviado para o Jornal do Baixo Guadiana há perto de quatro meses não tendo ainda sido publicado, presumo que por falta de espaço mas até ao presente nada me foi informado.Por uma questão de dignidade pessoal e respeito pelo Jornal, comprometi-me a só publicar neste blogue os artigos enviados para o Jornal, após ali serem publicados.
Atendendo a que já foram publicados três números e não me foi dada qualquer explicação, assiste-me o direito de o publicar em ALCOUTIM LIVRE onde não existe falta de espaço e todos têm lugar



Ao visitante finlandês

Foi com este título mas em relação às Cortes Pereiras que abordámos pela primeira vez o “tema” dos calvários para o qual e a pouco e pouco fomos adquirindo elementos que nos possibilitassem pôr no papel, ainda que nos falte conhecer muito sobre o assunto.

Pensamos com esta publicação evitar que se perca o pouco que recolhemos que dará hipoteticamente pistas a quem um dia desejar aprofundar o assunto.

Eu, por enquanto, só encontrei pistas orais que como se sabe são de pouco rigor e deturpadas naturalmente com o decorrer dos tempos.

Não vamos repetir a parte introdutória que escrevemos, por necessária, quando abordámos os dois calvários de Cortes Pereiras.

Tanto as Cortes Pereiras como Afonso Vicente têm mais calvários nas suas proximidades, em relação a Afonso Vicente escolhemos os dois que lhe ficam mais próximos, mesmo bem perto da povoação, um ao sul, outro ao norte.


CALVÁRIO DA EIRA DA CRUZ

[Na eira da Cruz, 2008]
É mais um cruzeiro erigido para assinalar o local onde morreu alguém.
Também aqui a situação é próxima do monte de Afonso Vicente, mais concretamente perto do seu antigo acesso do Sul.

Por volta de 1968 numa conversa tida com uma alcouteneja, (1) foi-me dito que o edifício em que funcionavam na altura os serviços de Finanças na vila de Alcoutim tinha sido propriedade e residência do capitão-mor, oriundo de Tavira e de nome Aragão. (2)

Dizia-me essa senhora que a sua habitação também lhe tinha pertencido, tendo sido adquirida aos seus herdeiros por um ascendente que presumo ter sido o seu avô paterno.

Dizia-me então que o referido Aragão tinha sido levado por uma hoste de guerrilhas e que a criada, ou governanta teria seguido na sua peugada com um saco de dinheiro em prata oferecendo-o no sentido de livrar o seu amo, o que não se verifica e acaba por ser assassinado próximo de Afonso Vicente, onde acabou por ser erguido, por esse motivo, um calvário.

Muitos anos depois e em contacto com esta povoação fui informado por um afonso-vicentino, já octogenário (3) que se lembrava ainda de ter visto o assento do calvário, mas desconhecia completamente a sua estória.

Mais uma vez, e como é natural, desapareceu o “monumento” mas ficou o nome.
Todos os que conhecem aquela zona sabem localizar onde é a Portela e a Eira da Cruz, a estória é que poucos hoje conhecerão. Aqui fica para a posteridade.


CALVÁRIO DE ISABEL VAZ

[A caminho do sítio da Isabel Vaz, 1989]
Situava-se este cruzeiro muito perto do monte de Afonso Vicente, mais propriamente tomando o caminho Norte da povoação, em direcção ao Serro da Machada. Cerca de duzentos metros andados, do lado direito do caminho, ainda conheci o soco de calvário, erigido para assinalar o lugar onde morreu alguém de uma maneira dramática.

Além dos idosos, gente ainda relativamente jovem sabe situar tal base, mas só os mais velhos sabem contar a razão da sua existência.

Curioso destas situações, vieram-nos contar (4) a estória que receberam de geração em geração, sem a poderem situar no tempo.

Marcadamente situada no século XIX, é-nos contado que uma moça do monte de Afonso Vicente foi levar a um dos moinhos da ribeira do Vascão um saco de trigo a fim de ser transformado em farinha para a confecção semanal da “amassadura”, base da alimentação destes povos. Carregado o burro, regressa ao “monte”com a preciosa carga. Depois de percorridos alguns quilómetros e já próximo do “monte” o burro espantou-se, corre desalmadamente e a moça não o aguenta e cai, de tal maneira que presa à arreata, da qual não se consegue desembaraçar, é arrastada e acaba por morrer.

A dor e o constrangimento de tal situação, pouco vulgar, fez os familiares erigirem um pequeno “monumento” para assinalar tão inaudito acontecimento e para que perdurasse, como memória, através dos tempos.

O cruzeiro há muito que desapareceu, e à sua base, que ainda conheci, penso que já aconteceu o mesmo.

Muita gente conhece o sítio rústico da Isabel Vaz, antropónimo e nome de família vulgares na zona e constante da desaparecida matriz predial rústica.
Desapareceu o calvário, ficou contudo e para todo o sempre, o nome da vítima, nele invocado: ISABEL VAZ


NOTAS
(1) – D. Belmira Lopes, neta do Capitão Paulo José Lopes que foi Presidente da Câmara de Alcoutim. Ficou sepultada no cemitério de Alcoutim, no único jazigo existente e junto de sua filha única, falecida aos dezoito anos e vítima de tuberculose.
(2) – Em documentação do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Alcoutim encontrei referência a um Aragão mas que por falta de mais dados não me possibilitou a identificação desejada.
(3) – António José (vulgo Frederico), natural de Afonso Vicente e recentemente falecido.
(4) - Maria Catarina Borralho, natural de Afonso Vicente, então octogenária e já falecida.

terça-feira, 3 de março de 2009

João José Viegas Teixeira

Nasceu na aldeia de Vaqueiros em 1823 ou 1824.

Em 1859 era casado com D. Maria Francisca Viegas, natural da freguesia de Martim Longo, filha do lavrador de Giões, Francisco Gomes Delgado e da lavradora de Martim Longo, D. Maria das Dores.(1)

O casal residia na vila de Alcoutim onde João José desempenhava as funções de Procurador Régio do Julgado de Alcoutim.

Muito jovem, foi indicado com outros cidadãos como representante da Câmara Municipal de Alcoutim na divisão e demarcação com o concelho de Tavira, na parte em que confina com a freguesia de Cachopo. A reunião teve lugar no dia 4 de Março de 1850.

Preside à Câmara Municipal de Alcoutim desde 15 de Março de 1866 até 31 de Dezembro de 1869 e é nessa altura que com a extinção quase momentânea do concelho (Dec. de 10 de Dezembro de 1867) propõe, chegando mesmo a pedido oficial, a criação de outro concelho com sede na aldeia de Martim Longo, que englobaria todas as freguesias de Alcoutim e as de Cachopo e Ameixial, convidadas e interessadas em tal, segundo demonstrado em reuniões para o efeito realizadas.

A petição a que se opôs o vereador José Joaquim Madeira, que a assinou como vencido, acabou por não surtir efeito sendo restaurado o concelho de Alcoutim tal e qual como se encontrava antes. (2)

[A aldeia de Vaqueiros]
Viegas Teixeira, que pertencia à numerosa família Teixeira, era por exemplo, primo do P. José Pedro Rodrigues Teixeira, pároco de Martim Longo durante muitos anos e também, entre outros, de Pedro José Rodrigues Teixeira que foi durante mais de quarenta anos secretário ou escrivão da Câmara Municipal de Alcoutim. O P. José Pedro deixou-lhe em testamento de 1868, duas acções na mina das Cortes Pereiras.

Já então era considerado por Portaria de 12 de Janeiro de 1863 descobridor da Mina da Cova dos Mouros, próximo do monte das Ferrarias, freguesia de Vaqueiros e seu concessionário, situação que mantém até à data do seu falecimento.

Exerceu igualmente as funções de Administrador do Concelho em 1875/76 e em cujo exercício manteve tenaz confronto com Miguel Angel de Lion, político de esquerda e conhecido popularmente por D. Miguel, das Cortes Pereiras que veio a ser assassinado ainda hoje em situação mal definida.

Em 17 de Março de 1876 requer três meses de licença no sentido de tratar dos seus negócios no estrangeiro mas a 15 de Maio é suspenso dessas funções passando-se, além disso, algo de mais grave.

Não sendo conveniente regressar ao País, veio a falecer no dia 4 de Setembro em Aiamonte, com cerca de quarenta e sete anos e onde ficou sepultado. (3)

Deixou duas filhas.
Lembramo-nos muitíssimo bem de por volta de 1970 ouvirmos falar dele a pessoas de Martim Longo que o tinham em grande consideração isto pelo que tinham ouvido aos seus antepassados.

Só muito depois viemos a “conhecer” Viegas Teixeira através da investigação histórica realizada.

NOTAS

(1) - Assento de óbito nº 45, de 1883.09.05, freguesia e concelho de Alcoutim, in Arquivo Distrital de Faro.

(2) – Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), José Varzeano, 1985., p.24.

(3) - Ofício nº 86 de 6 de Setembro de 1876 ao Governador Civil de Faro.

segunda-feira, 2 de março de 2009

A Praça da República (antiga Praça D.Afonso IV)



Este postal representa a parte central da vila e já existia em 1967.

Metade do que vê já desapareceu na voragem do tempo.

Nele se podem ver os Paços do Concelho, hoje meio abandonados, as antigas escolas ocupadas por serviços municipais, o edifício que a tradição aponta ter sido residência do capitão-mor e onde funcionaram durante muitos anos os serviços de Finanças, hoje em local próprio e o Posto da GNR que ainda se mantém

Ao fundo, tal como agora, a residência e outros cómodos dos caseiros da fazenda do Rossio.

Ainda que não seja referido, este o outros postais do tipo tiveram por base a iniciativa do comerciante local, já falecido, João Baltazar Guerreiro.

Só depois do 25 de Abril a Câmara tomou a iniciativa de mandar editar uma colecção de postais.

domingo, 1 de março de 2009

Mês de Março

EFEMÉRIDES

Dia?
1564
– Falece vítima do coice de um cavalo, o 3º Conde de Alcoutim, D. Miguel de Meneses.


Dia 1
1877 –
Devido aos prejuízos causados pela Cheia do Guadiana de 1876, é deliberado pela Câmara acudir ao reparo da muralha que defende e resguarda a Igreja Matriz.

1897 – Nasce em Alcoutim o professor do Ensino Primário Oficial, Manuel José da Trindade e Lima, onde exerceu a sua profissão e foi Presidente da Câmara e Administrador do concelho.

Dia 3
1845
– Quarenta dos principais lavradores do concelho apresentam um requerimento na Câmara no sentido de poderem aceirar maior porção de terreno para assim poderem manter os seus rebanhos.

Dia 7
1391
– O rei dá instruções ao contador Silvestre Esteves para, através do sacador Gonçalo Ovelheiro, cobrar dívidas antigas nas Comarcas do Algarve e Entre Tejo e Guadiana, a fim de reparar o Castelo de Alcoutim que é fronteiriço e está despovoado. Obra a fazer por iniciativa do rei.

1998 – É inaugurada em Alcoutim a Casa da Cultura (Casa dos Condes).

Dia 8
1955
– Falece às primeiras horas da manhã na sua residência em Alcoutim, o Dr. João Francisco Dias que foi excelente clínico e cirurgião benemérito. Foi durante muitos anos Provedor da Santa Casa da Misericórdia.

Dia 9
1877
– Data indicada numa placa toponímica referente à construção da Estrada Alcoutim-Pereiro.

Dia 10
1957
– Foi descerrado na vila de Alcoutim o busto do Dr. João Francisco Dias e de autoria do escultor F. Ferreira, adquirido por subscrição pública.






Dia 11
1943
– Falece em Alcoutim o médico Dr. José Pedro Cunha, concelho onde exerceu a sua actividade durante cerca de 40 anos.





Dia 12
1837 –
Em sessão de Câmara determina-se que se fizesse saber ao rendeiro do ver da freguesia de Odeleite que não deve fazer a entrega de quantia alguma em virtude da mesma renda do cofre do extinto concelho de Castro Marim pertencer agora ao de Alcoutim.


Dia 14
1999 –
Realiza-se na aldeia de Vaqueiros a 1ª Feira do Pão Quente e do Queijo Fresco.

Dia 16
1524 –
É morto em África, na luta contra os mouros, D. João de Noronha, Capitão de Ceuta e filho do 1º Conde de Alcoutim.

1883 – A Mina de antimónio das Cortes Pereiras encontrava-se novamente em laboração, dirigida certamente pelo cidadão inglês, James Henry Hoyle.

Dia 17
1883
– Forte trovoada na freguesia de Alcoutim, sendo um homem vítima de descarga eléctrica em casa de Manuel Gaspar, no monte dos Guerreirinhos.

1890 – Falece em Alcoutim com 80 anos, Pedro José Rodrigues Teixeira, natural de Giões e que foi durante quarenta e seis anos Secretário da Câmara Municipal, Administrador do Concelho, após a aposentação e Provedor da santa Casa da Misericórdia. Proprietário de, entre outras, das Herdades 1ª do Mosteiro e do Brejo. Era cunhado do Padre António José Madeira de Freitas (tio).




Dia 20
1520
– Foral Novo concedido a Alcoutim por D. Manuel, estando em Évora.






Dia 23
1883
– O “Gomes II” não pode fazer a carreira habitual em consequência da cheia do Guadiana.






Dia 26
1822 –
Alvará que criou a Feira da Vila de Alcoutim.







Dia 28
1482 –
É nomeado por mercê de D. João II, Escrivão das Sisas de Alcoutim, Martim Gonçalves Carneiro.

Dia 30
1841
– António José Madeira Barros, por Carta de D. Maria II, é nomeado professor proprietário e vitalício da cadeira de ensino primário em Alcoutim e
Pedro José Rodrigues Teixeira é nomeado por da mesma Soberana, Secretário da Câmara Municipal de Alcoutim.

Dia 31
1371
– Assinatura do Tratado de Paz em Alcoutim, entre D. Fernando e D. Henrique II de Castela.

Mistério "do finlandês"totalmente esclarecido!

Os meus assíduos visitantes/leitores certamente que repararam no post que coloquei no ALCOUTIM LIVRE no dia 10 de Fevereiro sobre a enigmática visita de um “hipotético finlandês”.

Procurei no escrito justificar aquela entrada e a curiosidade que me assistia.

Houve depois disso três amigos visitantes/leitores que me perguntaram se “o finlandês” já tinha dito alguma coisa e a que respondi que não e certamente que não o iria fazer.

Hoje, dia 26, quando abri o blogue encontrei surpreendentemente uma nova visita “do finlandês” o que redobrou a minha curiosidade e imediatamente fui consultar o meu e-mail para ver se havia alguma novidade. Nada, não havia nada!

Como tive uns assuntos a tratar, só horas depois voltei a abri-lo e imediatamente fui ver se havia algum e-mail.

Havia notícias “do finlandês”e antes de abrir a mensagem chamei a minha mulher que veio apressadamente para assistir à leitura.

Antes de a terminar identifiquei “o finlandês” e achei imensa piada a toda esta “estória” que naturalmente não posso revelar aos meus visitantes/leitores, para o que lhes apresento as minhas desculpas – há coisas que não podemos fazer e esta é uma delas.
Afinal “o finlandês” que eu mal conheci, acabou por me conhecer melhor do que eu alguma vez podia supor e pelo que disse passou a ser meu “admirador”.
Ainda que o vá fazer de carácter pessoal, não quero aqui deixar de muito lhe agradecer a amabilidade que teve em responder ao meu apelo.

O MUNDO DA INTERNET TEM ESTAS COISAS!