quarta-feira, 29 de abril de 2009

1940 - 1950 - Como se divertiam os alcoutenejos

Escreve:
GASPAR SANTOS

Habituados como estão aos meios de comunicação que hoje levam às nossas casas diversão e entretenimento, como a rádio, televisão, aparelhagens de som e bons CDs , DVDs e vídeos, muitos Alcoutenejos não suspeitam do isolamento a que estivemos sujeitos nos anos 40 e 50 do Século passado.

Para se entender este isolamento e a carência de notícias que gerava, basta atendermos a que era um acontecimento a chegada pelo rio do “gasolina”, ou pela estrada uma camioneta de carreira. Muita gente de Alcoutim, mesmo sem esperar pessoas, gostava de assistir à chegada e à partida dos transportes.

Exceptuando os bailes que tanto na Vila como em todo o concelho nós protagonizávamos, para o que era suficiente, como animador, um acordeonista (ou com gaita de beiços) ou um grupo constituído por guitarra, bandolim e viola, era raro haver outro divertimento.

Os bailes mais selectos e de frequência mais restrita a que assisti organizava-os a Câmara Municipal no seu salão nobre, em geral por altura da Pinhata. Durante as Feiras Anuais, tanto no S. Marcos no Pereiro como na Feira de Alcoutim, sempre se realizaram bailes. O maior e mais popular passou a realizar-se todos os anos durante a Feira de Alcoutim integrado nas Festas que os jovens efectuam a partir de 1948.

Neste texto não nos ocupamos de futebol, que disputámos algumas vezes com equipas de Mértola, Santana de Cambas, Moreanes, Pomarão e Vila Real Sto António. Nem nos ocupamos de outros desportos de que se disputavam provas por altura das festas da Vila, nomeadamente andebol, voleibol ou outros ligados ao rio como natação ou pau de sebo.


[Os vizinhos espanhois animavam as festas com as suas danças e cantares]

Tivemos algumas vezes representações teatrais efectuadas por companhias de fora, nomeadamente da família de Leonel Mariani Lorador ou récitas organizadas com a prata da casa, que é como quem diz por rapazes e raparigas de Alcoutim.
Essas poucas representações realizavam-se no Teatro da Misericórdia... mas em tão pequeno número que não justificavam manter esse espaço em exclusividade. E por isso esta entidade acabou por alugá-lo ao mestre Manuel Pinto para oficina de carpintaria. Mesmo assim, por cedência deste artífice, ainda se realizaram algumas récitas. Mas no decurso do tempo o equipamento de cena foi-se degradando até o seu uso ser impossível.

Com a prata da casa, integrando rapazes e raparigas de Alcoutim, a Vila ainda teve, aliás com vida muito efémera, um Rancho Folclórico. Tivera também uma banda de música em época mais recuada que eu não cheguei a conhecer. Só vi os instrumentos que o Senhor Silva guardava em sua casa.

Felizmente acompanhámos na Vila, naturalmente com algum atraso, a evolução do cinema. Tivemos amostra de todo o género que a história do cinema relata. Só lamentamos ter sido tão poucas as vezes que tivemos acesso à sétima arte.

Vimos cinema mudo, cinema mudo comentado pelo operador, cinema acompanhado por diálogo suportado por disco a rodar em simultâneo em grafonola, e ainda cinema falado com o som registado na própria fita, sempre a preto e branco. Nem sei se nos anos 50 ainda lá chegou o cinema a cores, assim como as superproduções com grandes ecrãs que começavam então a surgir.

Foi assim que muitos de nós vimos as primeiras obras do cinema mundial, e o cinema dos mestres portugueses António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros, Manuel de Oliveira etc. Costa do Castelo, Leão da Estrela, Aldeia da Roupa Branca e O Fado, História duma Cantadeira, foram alguns desses filmes.

Esse cinema foi levado a Alcoutim sobretudo por José Martins, um antigo ciclista já retirado da prática desportiva; pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI); e pela FNAT hoje INATEL através duma equipa cujo motorista era o José Afonso Fernandes de Alcoutim. O Brigadeiro Manuel Domingos também de Alcoutim era então o Director Geral da FNAT.

O cinema no verão era projectado junto à Casa dos Condes. O ecrã constituído por pano branco suportado entre dois postes situava-se junto ao canto da Igreja de Santo António. A sorte dava o privilégio ao agente da Guarda Fiscal de serviço à vista dos cais de ver o cinema, mas ao contrário, pela transparência do ecrã.

Tanto para o cinema como para qualquer outro espectáculo de circo ou de fantoches, ao ar livre no Verão, cada um levava a sua cadeira de casa.

Foi-nos dado assistir ainda a muitos outros tipos de espectáculos:
Teatro de fantoches ou como então se dizia: - os populares Robertos. Fados e guitarradas. Fados e Guitarradas por grupos de cegos. Ilusionistas, que em geral actuavam na sala da Sociedade Recreativa. Circo e contorcionistas. Pequenos Grupos de circo com animais.

Um destes pequenos circos ficou-me na memória por recorrer a uma cabra que subia a um escadote, no cimo do qual estava um pequeno cilindro de madeira com cerca de 5 cm de diâmetro onde a cabra se equilibrava sobre o topo. Depois, com as suas 4 patinhas e, sem se desequilibrar, dava várias voltas em cima do topo do cilindro.

Por vezes era pedida a participação do público. Chamavam uma pessoa ao palco. Em Alcoutim só havia uma família cujos membros tinham vontade de participar. Eram o mestre João Ricardo ou algum dos filhos. As outras pessoas eram tímidas, não eram capazes de se afoitar, mas...no dia seguinte por todo o lado a inveja falava mais alto e entrava em acção a crítica mais acirrada. Afinal os brandos costumes, como se gosta de dizer, não eram assim tão brandos.

Ainda sobre a participação do público, recordo-me de um espectáculo de circo na Sociedade Recreativa em que chamaram a colaborar um homem que soubesse trabalhar bem com uma marreta. Após muita insistência dos artistas e do público apresentou-se o António Pandeireta.


[Mestre João Ricardo aos 80 anos. Foto J.V.]

O artista do circo em calções e tronco nu propunha-se deixar partir uma enorme pedra sobre a barriga, apenas coberta por uma toalha, sobre os músculos ventrais esticados. Era necessário que o António Pandeireta desse uma marretada sem dó nem piedade em cima da pedra. O Pandeireta estava com receio de magoar o homem... insistiram... ele deitou a língua de fora no seu jeito característico, alçou a marreta e pum... a pedra partiu-se em duas, cada metade foi para seu lado e o homem não se magoou. Foi espectáculo!!! E aplaudido!

O anterior ponto de exclamação, um amigo meu dizia de “espantação”, traduz de facto o meu espanto face aos aplausos. É que o alcoutenejo é muito poupado nos aplausos aos artistas. Constatei isso nos anos 40 e 50 e mais tarde nos anos 70 já com outras gerações, deixarem conceituados artistas desapontados, por não ser reconhecida a sua exibição. Será uma questão de timidez, ou em Alcoutim se parte da convicção de que ao aplaudir, ao reconhecer a valia do artista, se fica apoucado?

A leitura de livros além de jornais (que na melhor hipótese chegavam no dia seguinte) também serviu de entretenimento e para dar alguma cultura aos alcoutenejos. Os livros eram escassos na generalidade nas casas de Alcoutim, mas essa lacuna foi temporariamente colmatada com a vinda de fora de bibliotecas itinerantes que nos deram oportunidade de ler algumas obras, porém sem outro critério que não fosse a nossa própria escolha. No entanto sempre foi melhor do que não as ter lido. As bibliotecas exibiam um “catálogo” com o nome das obras e o nome do autor e nós escolhíamos.


[Dançando as "Sevilhanas" no Cais Novo"]

Duas entidades deram-nos essa possibilidade: primeiro o SNI – Secretariado Nacional de Informação e depois a Fundação Calouste Gulbenkian. Foi nessa altura que eu “devorei” dezenas de livros.

Os folhetins radiofónicos ainda não tinham sido iniciados mas já os jornais, O Século e o Diário de Notícias, publicavam todos os dias uma página de um romance em folhetim que muitas pessoas liam avidamente. Mas o que me parece, aos olhos de hoje, muito especial é um tipo de leitura a que chamarei leitura para audiência colectiva.

Suponho que provinha de biblioteca itinerante ou de folhetim de jornal, um livro muito grande de aventuras ficcionadas cujo herói era o Rocambole do autor francês Ponson du Terrail que mestre João Madeira, vulgo João Ricardo, lia para várias pessoas ao serão na Rua 1º de Maio, durante as noites quentes de Verão. Havia, naturalmente, a descrição de cenas mais hilariantes ou mais violentas que entusiasmavam o António do Vinagre e as comentava e incitava o herói da maneira mais exuberante possível: Aí Rocambole! Aí Rocambole! Como se fosse possível modificar os acontecimentos por meio desses incitamentos. De longe, os jovens achavam graça e rejubilavam com este espectáculo.

Noutras noites de Verão havia, também, música nessa mesma rua. O Senhor Manuel Serafim acompanhava à viola uma guitarra ou bandolim dedilhado pelo Felício, Fernando Martins ou outro executante à porta da Sociedade Recreativa.

As partidas e as brincadeiras, que não eram exclusivo do mestre Carlos constituíam, também, um divertimento de muitos alcoutenejos, à custa no entanto do achincalhamento, e da troça de alguém.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Quando o perigo nuclear esteve para se instalar em Alcoutim


[Alcoutim, o Guadiana e Sanlúcar do Guadiana, 1991. Foto JV]


Pequena Nota

Só foi possível escrever este pequeno artigo, que o blogue vai publicar na sua rubrica Ecos da Imprensa, devido à amabilidade que um Amigo alcoutenejo teve de me oferecer documentação importante que chegou às suas mãos, dizendo que devido àquilo que eu já tinha escrito sobre Alcoutim, ficaria muito bem nas minhas mãos. A opinião é dele. Passou-se isto em fins dos anos oitenta do século passado e como não podia deixar de ser a documentação é mantida com todo o cuidado estando em vias de encadernação.

Este amigo, desde há muito que quando encontra alguma coisa que considera de interesse sobre Alcoutim tem o cuidado de me o informar, indicando a obra e muitas vezes tira fotocópias que me envia.

Certamente poucos alcoutenejos leram o artigo e a maioria não teve conhecimento da sua saída, segundo penso.

Vim mais tarde a encontrá-lo referido na Internet como um Artigo importante sobre o Algarve.
Mais recentemente, o meu Amigo, Dr. Mariano Calado, cita-o no seu interessante trabalho” A Maldição das Bruxas de Ferrel”, Edições Sempre-em-Pé, 2006.


Possivelmente muitos dos meus visitantes leitores desconheciam este assunto


(Jornal Escrito,Nº 19, de Fevereiro de 2000, p. I, encarte do Postal do Algarve de 24.02.2000)

Se existem assuntos menos conhecidos ou mesmo desconhecidos dos alcoutenejos, este será um deles, ainda que seja dos nossos dias.

A falta de divulgação pelo seu melindre e por outro lado a falta de conhecimento sobre tal assunto, para isso teriam contribuído.

Tentaremos hoje dar a conhecer em linhas gerais e a tosco modo o estudo realizado sobre a possibilidade de instalação de uma central nuclear junto do Guadiana.

Os governos de Portugal e de Espanha acordaram em 1964 mandar realizar um estudo para a instalação de uma central nuclear que servisse os dois países.

Por lhes ser comum, escolheram o último troço do Guadiana.

O trabalho foi entregue a duas empresas, uma de cada país e foi concluído em meados de 1967. Nesta altura tinha eu chegado a Alcoutim e ainda ouvi uns rumores sobre o assunto, mas não passou disso.

Tanto de uma margem, como da outra, foram inicialmente considerados vários sítios com condições aparentemente favoráveis, tomando em consideração só o factor topográfico. Outros, contudo, tinham peso importante como os que concerne à geologia e hidrografia.

Analisados estes dois últimos factores, optou-se pelo sítio da Várzea do Alcaçarinho, no que respeita a Portugal e pela Bárcia Redonda, em relação ao país vizinho.

[Bárcia Redonda - Espanha]


A Várzea do Alcaçarinho (alcácer em árabe significa castelo) bem conhecida dos alcoutenejos, situa-se a cerca de 2,5 km de Alcoutim e a 25 de Vila Real de Santo António. Trata-se de uma plataforma quaternária de xistos e grauvaques com uma área de 13 ha aproximadamente, sendo possível, sobre estas rochas, a fundação directa de todas as estruturas de uma central nuclear, qualquer que seja o seu tipo.


[Várzea do Alcaçarinho-Portugal]


Concluíram os técnicos pela viabilidade económica da instalação duma central nuclear de grande potência, da ordem de 500 a 600 MW, a entrar em actividade em 1975/76.

A repartição da potência seria dividida pelos dois países em partes iguais e no estudo não se pretendeu estabelecer qualquer premissa de propriedade mista, designadamente por motivos de ordem política internacional. Daí a apresentação de duas hipóteses, uma em cada país mas de realização comum.

Prevendo-se que não se realize a central com carácter de fornecimento de energia para os dois países, entendem os técnicos portugueses que deve ser encarada a hipótese de uma só para o nosso país mas de 300 MW e após estudo feito nesse sentido, já que o local é tecnicamente considerado excelente. Além dos factores positivos indicados, tomava-se em consideração a água, o isolamento e a fraquíssima densidade populacional.

Pensa-se na altura não ser fácil encontrar melhor local do que este.

Na zona, a agricultura, a pecuária e a pesca revestem-se de muito pequena importância, o que também é de considerar.

Prevê-se a utilização do rio para o transporte de peças grandes e pesadas, depois de efectuadas as obras indispensáveis para a descarga.

A mão-de-obra para a realização do empreendimento é calculada entre 1500 e 2000 homens havendo necessidade de recorrer a pessoal de fora da região e à construção de alojamentos O seu funcionamento criaria cento e cinquenta postos de trabalho.

É também afirmado que o sítio possui boas características do ponto de vista de segurança nuclear, visto que a zona, eventualmente afectada, é pouco povoada e de insignificante actividade humana.

Feita uma análise preliminar dos riscos de contaminação radioactiva do rio pelos efluentes líquidos da central, chegou-se à conclusão que é de excluir a possibilidade de contaminação em níveis perigosos.


[Pôr do Sol no Guadiana, 1988. Foto JV]

O perigo para as populações vizinhas resultante de um acidente nuclear, deve-se essencialmente à libertação de produtos de cisão que finamente divididos se comportam como aerossóis difundindo-se na atmosfera e podendo contaminar extensas áreas, com consequências mais ou menos graves em função de factores tais como a meteorologia, climatologia e microclimatologia do sítio e da demografia e bens materiais existentes nas áreas atingidas, razão porque lhe chamam factores específicos de segurança nuclear.

Desconhecemos as razões que evitaram a sua realização, apesar do relatório ser francamente favorável. Teria havido atraso na sua iniciação? Após 74 já não era possível.

O que seria hoje Alcoutim com uma central nuclear a 2,5 km? Não uma vila de Paz e de Sossego, onde é possível descansar e a poluição quase não chega. O que seria o Guadiana? Se agora já pouco peixe aparece, com a central até a hortelã da ribeira desaparecia!

Alcoutim passaria a ser um INFERNO.

Fazemos votos para que a hipótese nunca mais seja sequer, levantada.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A Casuarina, árvore de interesse público


[A casuarina nos nossos dias]

Este escrito começou por me dificultar a escolha do título pois pensei que a designação de O PINHEIRO DO CAIS se ajustava mais ao conhecimento geral.

Acabei por modificá-lo atendendo a que já existe muita gente, uma parte significativa da população que a conhece pelo seu verdadeiro nome e isto a partir da altura que nela foi colocada em posição pendente uma placa de madeira que indica o seu nome e a circunstância de ter sido classificada como de interesse público, o que aconteceu por aviso publicado na 2ª Série do Diário da República, nº 74, de 29 de Março de 1999, pág. 4555.

A partir daí começaram a olhar para ela de uma maneira diferente. É que tal como as pessoas, as árvores também têm a sua história.

Eu sempre ouvi falar de uma azinheira nos Balurcos, penso que no Balurco de Cima, de porte descomunal e que debaixo da sua copa podiam semear-se não sei quantos sacos de semente. Parece que foi vítima de um vento ciclónico que a arrancou pela raiz, o que normalmente acontece a árvores de tão grande porte.

Não conheço nada escrito sobre ela e era interessante que existisse.



[A casuarina com cerca de treze anos de idade já tinha este bonito aspecto]







Possivelmente terão existido mais árvores no concelho, nomeadamente nas proximidades do rio que pelo seu porte e características deviam ficar nomeadas para conhecimento dos vindouros.

Árvores assim, despertam-me sempre muito interesse. Sempre gostei de árvores e as minhas favoritas são a oliveira e a alfarrobeira. Destas e de outras espécies, tenham plantado algumas.

Em 26 de Outubro de 1998 escrevi à Direcção-Geral das Florestas chamando a sua atenção para este exemplar e foi nesta altura que procurei saber o seu nome exacto pois de outra maneira o assunto ou parava ou teria um andamento diferente.

Transcrevo parte do que então escrevi:- Trata-se de um exemplar de casuarina, segundo penso, que a 1,30 m da base do tronco tem um perímetro de 3 metros e 22 e cuja altura nos parece ser cerca de 25 metros. Quanto à copa, que é enorme, não a consigo calcular. / Foi plantada há mais de cinquenta anos e “bebe” fartamente no Guadiana.
Termino a minha carta pondo-me ao dispor para qualquer outra informação necessária e que me fosse possível dar.








[A Casuarina já com a bonita idade de 34 anos]








O processo decorreu muito bem e fui gradualmente informado até à sua conclusão, tendo havido a amabilidade de me agradecerem o interesse e colaboração prestada.

Começamos o assunto praticamente pela actualidade, agora teremos de andar uns bons anos para trás.

Antes disso transcreverei os dados ainda não referidos e de mais interesse da Ficha da Árvore de Interesse Público que obtive na site http://www.afn.min-agricultura.pt/

Nome científico – Casuarina cunninghamiana Miquel
Nome vulgar – casuarina-ténue
Interesse histórico ou paisagístico – Bom exemplar de casuarina de fuste grosso, copa densa e frondosa. A árvore situa-se num pequeno terraço com uma excelente perspectiva sobre o Guadiana e a Vila Espanhola de Sanlúcar del Guadiana. O local é ponto de encontro e de realização de festas.

Perímetro da Base 5.0
Perímetro a 1,30: - 3,31
Diâmetro da copa norte/sul – 19.0
Diâmetro da copa este/oeste – 19,5
Altura – 23,7
Nota: - As medidas são em metros.
Última medição – 2006.
Idade (anos) – 90.


Este último dado tem um grande desfasamento, por excesso, perante a realidade como tentaremos justificar seguidamente.

Ainda que eu tivesse algumas informações sobre o assunto, elas não me permitiam tirar conclusões pois apareciam divergências notórias.

Através do alcoutenejo amigo e colaborador deste blogue, Eng. Gaspar Santos, foi possível recolher infomação bastante mais segura.

Quem plantou a hoje já “célebre” casuarina, foi um seu tio materno e padrinho, Manuel Martins que como cabo comandou o posto da GNR de Alcoutim e isto ter-se-ia dado em 1953/54, com mais hipótese para o último ano. Em relação a este ano, terá por isso cerca de 55 anos o que realmente é uma bonita idade mas muito inferior à apontada oficialmente, possivelmente por alguma informação errónea.


[Vista de parte do cais novo onde ainda não se encontrava plantada a casuarina. Além da Capela de Sto. António notam-se a venda do Sr. Sabino e a parte cimeira dos armazens do comerciante local, J.B.Guerriro. Esta fotografia foi gentilmente cedida pelo Sr. Eng. Gaspar Santos, de Alcoutim]

Se o cais foi inaugurado em 1944 e a árvore ainda não estava lá como se demonstra com a fotografia que se junta e gentilmente cedida por aquele nosso amigo, o que aliás não seria necessário por razões óbvias. Não se iria construir um cais em face da existência de uma árvore!

É-nos referido que o cabo Manuel Martins, natural dos Montes do Rio, se deslocava assiduamente de regador na mão e numa altura que não havia fornecimento de água ao domicílio para proceder à indispensável rega.

Conheci-a quando tinha cerca de doze anos e já possuía um porte apreciável.

Para quem possa desconhecer, direi que nos termos da legislação em vigor, o arranjo, incluindo o corte e a desrama deste exemplar fica sujeito a autorização prévia da Direcção-Geral das Florestas.

Aqui deixamos a nossa homenagem ao homem que teve a feliz ideia de plantar esta árvore, hoje um “ex-libris” da pequena vila raiana, nas margens do Guadiana.

domingo, 26 de abril de 2009

FAMÍLIAS NOBRES DO ARGARVE


Este título, de autoria do Visconde de Sanches de Baêna, foi editado em Lisboa, A Liberal – Officina Typographica, 216, Rua de S. Paulo, 216, em 1900.

Noventa e dois anos depois teve a 2ª Edição, para o que se juntaram três responsáveis que foram os seus editores.

A edição é fac-similada e constituída por dois volumes, visto ter havido posteriormente uma Parte Segunda, editada em 1906, em Lisboa, Typographia do Annuário Commercial, Praça dos Restauradores, 27.

Ainda que não tenha já feito uma leitura total do trabalho, já deu para encontrar algumas pessoas que tiveram alguma ligação ao concelho de Alcoutim, como por exemplo Diogo de Mascarenhas de Figueiredo que foi prior de Martim Longo ou Diogo Lobo Pereira, natural de Loulé e que acudiu a Alcoutim quando o inimigo intentou acometer por este lado (1707).

Tive conhecimento da existência deste trabalho em Alcoutim, em 1968, por intermédio do comerciante local, e já falecido, João Baltazar Guerreiro que não o tinha completo. Mais tarde encontrei algumas citações mas nunca me tinha sido possível consultar o trabalho.

Através das novas tecnologias foi-me possível encontrar esta segunda edição que adquiri (nº 353) rubricado por um dos editores, Fernando Santos, em cuja livraria foi adquirido, Rua dos Chões, 121, 4710-230-Braga.

Quantas bibliotecas do Algarve teriam adquirido este trabalho?

Responda quem souber.

sábado, 25 de abril de 2009

25 de Abril de 2009 - 35 anos de democracia


Não quero deixar de assinalar a passagem deste dia que só aqueles que sentiram a falta de LIBERDADE compreendem. Os que a sempre tiveram, só a compreenderão melhor se um dia a perderem.

Eu não me admiro e até compreendo que aqueles que usufruíam de determinadas regalias não se sentissem bem com a mudança, compreendo-os melhor do que àqueles que no dia 26vestiram nova casaca.

O que para mim é revoltante é verificar que muitos que nada tinham, sem hipóteses de progressão nas suas vidas e que a Revolução possibilitou promoções de braço no ar e que hoje se encontram em situações estáveis, aproveitam todas as oportunidades para tentar denegrir o 25 DE ABRIL!

O que eu pretendo com este pequeno escrito é dar uma leve ideia do que se passou na vila há 35 anos.

Entre a diminuta população, menos de três centenas, as notícias que chegavam pela rádio eram recebidas pela maioria das pessoas com indiferença e desconfiança.

Os rádios também eram poucos e o sinal que chegava provocava uma audição com ruídos.

Ouvi comentários e até me lembro de quem os fez, que esperassem, porque em breve viriam as ordens para a cacetada e então é que iam ver.

Era aquilo a que estavam habituados com as outras tentativas abortadas de depor o regime, esquecendo-se que as condições de guerra motivaram a análise da política.

Sendo dia de São Marcos e como era habitual, o povo lá foi para o Pereiro, onde se realiza há séculos a maior feira do concelho e uma das maiores da Serra do Caldeirão.

A vila ficou quase deserta. Eu falhei o São Marcos pela primeira vez! Fiquei agarrado à rádio numa tentativa de me aperceber de como as coisas estavam evoluindo.

Segundo me consta, na Feira, só os feirantes pegavam na situação para tentarem convencer as pessoas a comprar os produtos.

O semanário regional, de maior expansão no Algarve traz um inquérito aos presidentes das Câmara. Pelas minhas contas faltam dois, possivelmente estariam doentes.

Na Música e animação (que) marcam o 25 de Abril no Algarve, não são indicados três dos concelhos, certamente por falta do jornalista

Nos 28 de Maio em Lisboa, Alcoutim estava sempre representado!

O desenho que ilustra este pequeno apontamento foi feito em 18 de Março de 1994 pela habilidosa mão do alcoutenejo João Pedro, hoje vogal na Assembleia Municipal de Alcoutim.

Desculpa não ter pedido autorização para a publicação, que certamente não me seria negada.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A Ribeira de Cadavais

O topónimo Cadaval deve estar no nome comum cadava ou cadavo mais o sufixo al e assim cadaval significa abundância de cadavas ou cadavos e, portanto lugar onde ficaram bastantes restos de matos e árvores que se queimaram. (1)

A ribeira de Cadavais ou de S. Marcos é formada pela colaboração de vários barrancos. O do Poço Velho junta-se ao Grande, perto de Tacões, formando outro de maiores dimensões que toma a designação de Ladrões que no século XVIII ainda se vadeava. (2)

É o ribeiro dos Ladrões que unindo-se ao do Alcoutenejo, oriundo da “lagoa” de Marim, dá origem à ribeira que vem desaguar mesmo junto à vila.


[Alcoutenejo com barrancada, 2008. Foto J.V.]

Por esta região, os terrenos que ladeiam os barrancos são aproveitados para pequenas hortas e plantação de árvores mimosas, uma vez que se tornam mais frescos e aráveis. As oliveiras são muito utilizadas, por enxertia dos zambujeiros, pois nos cerros têm dificuldade em sobreviver.

No caso da ribeira de Cadavais, esse aproveitamento torna-se mais notório, pois existem melhores condições naturais.

Tal como junto ao rio, são terrenos muito disputados e encontram-se bastante divididos. É o pomar da vila. Saborosos citrinos daqui saiam a caminho da capital, onde o seu nome gozava reputação. Os produtos hortícolas têm campo propício ao seu desenvolvimento. Esta bacia é considerada como zona de maior quantidade de água. De há uns anos a esta parte, os pomares estão quase todos abandonados pois segundo dizem, já ninguém quer os citrinos de Alcoutim.


[Ribeira de Cadavais dos tempos antigos.]

A riqueza hortícola da zona não foi estranha aos povos que por aqui passaram, atribuindo-se aos Árabes a construção de algumas noras existentes, tendo mesmo aparecido vários objectos desse período, como por exemplo alcatruzes de barro que se guardam em museus. (3)

No princípio deste século, numa propriedade do P.deAntónio, quando andavam em trabalhos de cava apareceram grandes potes de barro que partidos mostraram um pó muito brilhante a que os jornaleiros chamaram ouro. (4) Possivelmente tratar-se-ia de arte funerária romana.

A ribeira que pouco antes da foz descreve curvas e contracurvas caprichosas, em épocas invernosas traz grande corrente, conhecida por “ribeirada”, pois nela se juntam as águas pluviais das terras circunvizinhas.

O correr das águas (ludras como aqui são designadas) dá origem a um barulho característico, inconfundível e poético.


Na época estival ficam-lhe vários pegos, entre os quais o do Corvo, da Arvela, do Calhau Branco, das Portas e Fundo, junto do qual a D.H.G. fez construir umas passadeiras em 1952.

Já em 1883 o vereador, Manuel António Torres, faz ver à Câmara a grande necessidade que há de se colocarem umas passadeiras na passagem da ribeira para a Fonte Primeira e outras onde se passa para a horta junto do reguengo de Lúcio Domingues. (5)

“Ontem à tarde (29.09.1949), após ter acabado de cair nesta região chuva torrencial que devastou os terrenos, principalmente os que estavam de alqueive, não tardou uma hora que a ribeira de Cadavais (...) viesse com uma enchente, cujo golpe de água atingia uma altura de três metros. As várzeas, junto às margens, foram invadidas pela enorme torrente, arrancando árvores, destruindo muros, rasgando terrenos e levando consigo alguns objectos agrícolas. Poços e noras ficaram entulhados. Só ao fim de meia hora as águas começaram a baixar. Sofreram enormes prejuízos as propriedades de José Peres Pereira, António Madeira do Rosário, Belmira Lopes Teixeira, José Pedro Severiano Teixeira, Alfredo Lopes e Bárbara Trindade.


[Azenha do Conde de Alcoutim na ribeira de Cadavais, Séc. XVI, Livro das Fortalezas de Duarte de Armas]


O povo desta vila não se lembra de ver a pequena ribeira com tão grande caudal”.

Foi esta a notícia que o correspondente do Diário de Lisboa, na vila, enviou para publicação.

Para a petizada, no Verão, a ribeira constituía a piscina natural onde aprendiam a nadar para depois passarem a utilizar o rio.

Muitos alcoutenejos devem o saber nadar à existência da ribeira.

No mapa de Portugal de Fernando Álvares Seco, de cerca de 1621, está representada uma ribeira, junto a Alcoutim, designada por Bellaxarim, que nos parece ser termo de origem árabe.


NOTAS

(1)-Lendas, Historietas e Etimologias... Alexandre de Carvalho Costa, 1958.
(2)-Portugal na Crise dos Séculos XIV e XV, A.H. Oliveira Marques, 1987.
(3)-Informação prestada pelo Sr. Luís Lopes Corvo que foi proprietário de uma das noras.
(4)-Informação prestada pelo nosso bom e saudoso Amigo, Sr. Mário Vicente um dos jornaleiros.
(5)-Acta da Sessão da C.M.A. de 15 de Dezembro de 1883.

terça-feira, 21 de abril de 2009

António José Madeira de Freitas

O Padre António José Madeira de Freitas, num meio tão pequeno como foi sempre Alcoutim, é obrigatoriamente uma figura de referência, ainda que eu não conheça escrito, nem por via oral, nada que o tivesse colocado numa situação de destaque.

Mesmo que se vá esbatendo no tempo, talvez ainda se encontrem hoje nos mais idosos filhos de Alcoutim, quem dele tivesse ouvido falar a pais e avós, nomeadamente para contarem sobre ele uma estória picaresca, como por exemplo ouvi contar ao meu sogro.

Para complicar mais o assunto, o Padre António, como era conhecido pela população, teve um sobrinho precisamente com o mesmo nome, que igualmente foi sacerdote e profissionalmente contemporâneo do seu tio, que acabou por substituir após a sua morte.

O P. António José Madeira de Freitas nasceu em Alcoutim em 1796, sendo filho do Alferes de Ordenanças António Sebastião de Freitas, igualmente de Alcoutim e de D. Maria Joaquina, filha do Capitão de Ordenanças Manuel Martins Lemos e natural de São Sebastião dos Carros, do concelho de Mértola. (1)

Foi seu avô paterno, José Carlos de Freitas Azevedo, natural do Porto, que foi chefe da secretaria da Câmara Municipal durante muitos anos e que casou com a alcouteneja, D. Rita do Carmo. Presumo que veio a fazer um segundo casamento com D. Maria da Conceição Botelho.

Segundo a lápide sepulcral existente no cemitério da Vila, paroquiou a freguesia de S. Salvador desde 1835 até 25 de Maio de 1872, data do seu falecimento.


[Igreja Matriz de S. Salvador, da Vila de Alcoutim, des. de J.V.]

De carácter oficial sabemos que por Mercê de D. Maria II, Carta de 16 de Dezembro de 1841 é nomeado Pároco da Igreja Paroquial de S. Salvador de Alcoutim, (2) admitindo nós que ele tivesse exercido desde 1835 e até àquela data as funções de carácter interino.

É seguro que em 1834 era Pároco da Igreja do Espírito Santo do Pereiro, talvez tenha exercido essas funções desde 1820, por isso, muito jovem e após a ordenação.
(3)

O P. António tinha uma irmã mais nova doze anos, D. Rita Antónia Joaquina do Carmo (1808-1858) que casou com Pedro José Rodrigues Teixeira (1810-1890), natural de Giões e que foi durante cerca de quarenta anos secretário da Câmara.

O Padre Madeira de Freitas que se encontrava muito debilitado, faleceu no dia 25 de Maio de 1872 em sua casa na Rua de Santo António na vila de Alcoutim. Ainda que fossem lavrados pelo seu coadjutor há muito, assinou os termos até treze dias antes do seu falecimento.

O epitáfio foi lavrado nos seguintes termos: À sombra da cruz / Aqui repousam / O P. António José Madeira de Freitas (Tio) / E o P. António José Madeira de Freitas (sobrinho) / Ambos naturais desta Vila de Alcoutim / Cuja freguesia Paroquiaram, o primeiro desde 1835 até 24/5/1872, data do seu falecimento e o segundo desde Julho de 1873 até 13 de Junho de 1906, em que faleceu.



[Paços do Concelho de Alcoutim que antes foram casas nobres do P. António, onde faleceu.Des. de J.V.]

Foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia de 1847 a 1853. (4)
Prestou informações a Francisco Xavier d`Ataíde Oliveira para a organização do livro As Mouras Encantadas e os encantamentos do Algarve, 1898, como o autor anota e agradece a págs. 279.

Entre os bens imóveis que deixou constavam a morada de casas nobres em que residia na Rua de Santo António, na vila de Alcoutim e a fazenda da Amarela constituída por pomar, algum arvoredo e terra de semente. (5)

Esta zona rústica ainda assim conhecida, já o era no reinado de D. João III e onde existiam uns moinhos, no esteiro. (6)

Parece-nos que o topónimo rústico, Cerro do Padre António, ainda hoje existente e próximo da vila, não terá a ver consigo mas com o sobrinho que possivelmente foi seu proprietário.
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NOTAS

(1)-Assento de óbito–PAALCT/001/LIV 15 – 1872
(2)–PT-TT-RGM/H/200735
(3)–A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) do passado ao presente, António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), 2007, pág.263.
(4)–Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), 1985, pág.250
(5)–Testamento de 4 de Julho de 1853.
(6)–TT – Livro 1 dos Místicos, pág. 68 v.

Pequena Nota
A título de curiosidade direi que o Padre António baptizou quatro dos trisavós de meu filho, e uma das suas tetravós, Maria do Rosário, foi apadrinhada em 7 de Março de 1807 pelo pai do sacerdote, então Alferes António Sebastião de Freitas.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Favas à maneira de Alcoutim, na Várzea


O último fim-de-semana foi passado na Várzea, concelho de Santarém.

O jantar de sábado e mesmo ao jantar, não se dispensou que a base fosse a típica sopa de pedra, confeccionada em Almeirim e que tanta fama e proveito tem dado a esta cidade das margens do Tejo.

Para o almoço de domingo, estava planeada uma caldeirada que um dos familiares se prontificou a confeccionar, ao seu jeito.


Cerca da meia-noite, o prato foi posto de parte pois tinha surgido outra hipótese. Havia um outro familiar que nos informou que já tinha favas capazes de comer e quando fosse à caldeirada levaria uma saca cheia delas.

Dizendo eu que as iria fazer à maneira de Alcoutim, enquanto um dos interlocutores já conhecia tal prato feito a quando de uma visita àquela zona e de que gostou muito, o outro não conhecia tal coisa e mostrou-se entusiasmado em conhecer.

Rapidamente a caldeirada foi substituída pela favada com cascas que só mais duas pessoas conheciam, sendo uma natural de Alcoutim.

Tudo ficou combinado e no domingo pelas nove horas estávamos a fazer as compras necessárias num hipermercado e a caminho dos campos ubérrimos de Almeirim. As chuvadas dos dias anteriores obrigaram-nos à utilização de botins de borracha de cano alto.


[Um aspecto do almoço]

As faveiras estavam lindas, carregadas de favas tenras e saudáveis, mesmo em boas condições para serem feitas daquele modo. Com favas assim, qualquer um sabe cozinhar!

Enchemos a saca pois pelas nossas contas seriam à volta de dezassete pessoas. Apanhámos um bom molho de folhas de alho e outro de cebola, indispensáveis para tal prato. Porque os coentros já estavam espigados, tínhamo-nos abastecido no hipermercado tal como das indispensáveis alfaces, para a salada à montanheira.


Não havia tempo a perder pois para cozinhar para tanta gente leva o seu tempo.

Armado em cozinheiro fui dando as minhas ordens e mobilizando o pessoal disponível.

Apesar do tacho ser bastante grande, arranjámos outro mais pequeno para auxiliar pois apesar de não ser fácil o cálculo, não temos muita experiência com quantidades tão grandes em cozinhar para tanta gente ainda que já o tivéssemos feitos várias vezes para maior número de pessoas.

Entre os convivas havia alguma curiosidade em conhecer tal prato. Estávamos contudo precavidos com outro, para quem não gostasse.

Acabámo-nos por juntar dezassete pessoas, em que se incluíam duas crianças e a bebé Maria Zita que já foi vedeta deste blogue. Foram naturalmente as únicas que disseram não ao prato, todos os outros comeram e repetiram e o tacho maior ficou no fundo.
Acompanhámos com vinho branco de Almeirim e tinto da Várzea, local onde nos encontrávamos reunidos.

[A Zita, a mais jovem conviva, com três meses]
Naturalmente que houve outras variedades mas que não interessam para este texto.

Toda a gente gostou das favas à maneira de Alcoutim e foram-me pedidas explicações para a sua confecção, dizendo que na primeira oportunidade iriam fazer.

Penso que é assim que se divulgam as coisas boas de Alcoutim sem basófias e pedantismo.

Foi por isso que escrevemos este texto que pode chegar aos quatro cantos do Mundo!

Defendamos os nossos usos e costumes, as nossas tradições.


[As convivas menos jovens, bisavós maternas da Zita]

domingo, 19 de abril de 2009

Informação pertinente

Como é próprio da minha maneira de estar nas coisas, devo aos meus visitantes/leitores uma tentativa de explicação da minha ausência nos últimos dias, principalmente àqueles que diariamente nos visitam.

Por motivos que desconheço inteiramente, o meu blogue bloqueou, nem para a frente, nem para trás e entrar nele nem pensar.

Calculo que o bloqueio possivelmente teria atingido todos aqueles que o abriram pois tivemos algumas informações nesse sentido.

Mobilizei o meu técnico privativo no sentido de solucionar o problema como já teriam verificado, mas certamente que repararam que desapareceu o contador.

Não foi este o único blogue a que isto aconteceu mas até agora e por aqui ainda não se conseguiu chegar a uma conclusão, esperando em breve instalar outro.

A isto se sobrepôs uma ausência de quatro dias por visita à minha cidade natal e à freguesia da Várzea, onde entre outras coisas fui festejar os 118 anos de um MENINO que se chama CORREIO DO RIBATEJO, que transversalmente já esteve em três séculos!


Foi apaparicado pelo seu jovem e dinâmico preceptor, amas, aios e mais criadagem que não deixaram de estar presentes e cantar os “Parabéns a você”.

O rei (Presidente Moita Flores) em representação da Câmara presenteou-o com a assinatura de um protocolo que prevê a sua digitalização e os primeiros 30 anos já estão e tivemos oportunidade de ver algumas páginas.

A contrapor a isto muitos reis não mandam coleccionar os jornais dos seus reinos, boletins ou revistas. É que estas coisas não dão votos! Moita Flores, se não for Presidente da Câmara, tem imensas coisas para fazer.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Monte do Torneiro, subsidiário dos Balurcos

Para completarmos as pequenas notas monográficas das povoações da freguesia de Alcoutim, iremos hoje referir o monte do Torneiro que como o título indica é (era) subsidiário dos Balurcos.

Estes artigos têm sido publicados ao longo dos anos na imprensa regional e agora com mais intensidade neste blogue, LIVRE de tudo e principalmente de falta de ESPAÇO.

Situa-se a cerca de 9 km da sede do concelho. Saindo da vila pela estrada nº 122-1, às Quatro Estradas, tomamos à esquerda a estrada 122. Passamos pelo posto de abastecimento de combustíveis e pouco depois, novamente à esquerda, uma placa indica-nos Torneiro. Esta estrada, identificada com o nº 1057 (o mesmo da dos Balurcos), é uma obra efectuada antes do 25 de Abril, desconhecendo-se a razão dessa prioridade, certamente ligada ao Antigo Regime.

A estrada, após uma curva pronunciada, possibilita-nos ver ao fundo, numa pequena altura, a povoação.

Os terrenos da esquerda estavam limpos e nas proximidades do monte notava-se a existência de arvoredo, nomeadamente alfarrobeiras e amendoeiras, não faltando a vinha. Um tanque proporcionava a rega de uma horta.

A povoação que se situa nos antigos terrenos da Herdade do Bacelar, que pertenceu aos Condes de Alcoutim e mais tarde à Casa do Infantado e depois alienada no Liberalismo pela burguesia local, poderá ter origem em instalações deste latifúndio que a grosso modo iria desde as proximidades dos Guerreirinhos até ao rio.



É de tipo concentrado, desenvolvendo-se à volta do “terreiro”onde se encontrava o forno comunitário. Era ali que se armava o mastro em dia de festa.

A estação elevatória (1987) proporcionava o fornecimento de água a cinco fontanários.

Hoje, existirá fornecimento da mesma ao domicílio, com o natural pagamento a que se acresce uma taxa pela recolha do lixo, além claro, do pagamento do ramal. Estaria tudo certo se houvesse o resto, o esgoto, o que completaria o saneamento básico.

Ainda que eu seja leigo na matéria, a verdade é que o esgoto, feito para aquilo a que chamam fossas, causará vários problemas de salubridade.

No terreiro existia uma casa com interessante fachada, trabalhada a argamassa e que presumo ser do segundo quartel do século passado. Talvez seja isso que tivesse obrigado o Regulamento do Plano Director Municipal de Alcoutim a considerar a existência de construções de qualidade plástica. (1)

Em 1989 a Câmara Municipal em parceria com a Junta de Freguesia e por administração directa estava a proceder à pavimentação dos respectivos arruamentos. (2), para em 1996 ser concluída a repavimentação da estrada de acesso à povoação. (3)

Abordemos agora o topónimo, assunto que de uma maneira geral interessa às populações que muitas vezes o apresenta ligado a uma “estória” bem arquitectada e que nada tem a ver com a realidade.

A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, na sua Adenda, pág. 892 diz:- Os topónimos mais dignos de nota são (...) Torneiro (...) do antigo “torno” (talvez nascente de água).

José Pedro Machado diz que Torno, donde derivou Torneiro, é topónimo frequente em Portugal e na Galiza, antigo substantivo masculino torno, “bolhão de água”, nascente abundante. (4), pelo que as opiniões manifestadas não são divergentes.

Encontrámos o registo em Portugal de treze topónimos referentes a povoações, sendo este o único ao sul do país. (5)

E porque o topónimo tem a ver com “água”dizemos que segundo a imprensa da época noticiou, (19 de Março de 2005) os habitantes perderam a confiança na água do furo. Houve uma altura em que aparecia negra com resíduos desagradáveis pelo que a população recorria a um poço situado a mais de cem metros da povoação.

A nível populacional a primeira notícia que temos é a que nos dá as Memórias Paroquiais (1758) que lhe atribui 7 vizinhos o que deve rondar cerca de vinte pessoas, os mesmos que o Vascão e mais um do que o Marmeleiro que lhe fica próximo.

Em 1839 os fogos eram dezassete, ao nível de Marmeleiro, Cerro dos Balurcos e Palmeira. (6)

Em 1976 e já em franco retrocesso populacional, segundo um mapa estatístico organizado no Centro de Saúde, tinha sessenta e nove habitantes.

No recenseamento populacional de 1991, os trinta e três habitantes constituíam quinze famílias e a povoação tinha quarenta e seis edifícios.

Presentemente, deverá rondar as duas dezenas, acompanhando a desertificação do concelho.

No século XVIII vários moradores desta pequena povoação desempenharam funções de tesoureiro da Irmandade de Nª Sª da Conceição, na vila. Assim, Manuel Dias em 1742 e 1755, Manuel Martins em 1758, Custódio Roiz em 1765 e José Dias em 1768.
(7).

Em 1771 fazia o manifesto de seus gados na Câmara Municipal, Mário Gonçalves, constituído por gado bovino, caprino e ovino.

A quando da criação de um novo cemitério que a lei impunha, realizou-se uma reunião da Capela de Nª Sª da Conceição no dia 22 de Dezembro de 1843 com a presença das forças políticas da vila e com representantes de todos os montes da freguesia. O Torneiro fez-se representar por Francisco Vicente.
Nesta reunião foi deliberado construir o novo cemitério que é aquele que ainda existe com as alterações que foi necessário introduzir, nomeadamente quanto ao espaço. (8)

Devido ao prejuízo causado pela cheia do Guadiana de 1876 são indemnizados Francisco Dias, Vª com 100 mil réis e António Rodrigues com 20 mil. (9)

[Machado de pedra polida (xisto), des.]
A presença da passagem do homem por esta zona está testemunhada pelo achado de um machado de fibriolite, quebrado na parte superior da extremidade oposta ao gume, um outro de pedra polida (xisto), de secção elíptica e ainda outro de pedra polida que deve ter sido primitivamente machado e que depois parece ter sido utilizado como polidor e martelo.

Estes objectos foram recolhidos por José Leite de Vasconcelos e encontram-se em Lisboa no Museu Etnológico. (10)

[Antiga Escola dos Balurcos]

Não me consta a existência de qualquer estabelecimento comercial, recorrendo os seus moradores ao longo dos tempos aos Balurcos. As crianças frequentavam igualmente a escola do Montinho do Cerro e assim se justifica o título dado ao escrito.

O Monte do Torneiro foi janela aberta no dia 29 de Maio de 2006 por tudo o que foi televisão, rádio e jornais, pois foi visitado pelo Senhor Presidente da República que aí avaliou a sua tensão arterial e viu cozer pão, o que naquele monte já não se devia fazer há muitos anos. É que foi aqui que se iniciou o” Roteiro para a Inclusão”.

NOTAS

(1)-Diário da República, I Série de 12 de Dezembro de 1995.
(2)-Boletim Municipal, nº 5 de Setembro de 1989, pág. 4)
(3)-Alcoutim, Revista Municipal, nº 4 de Dezembro de 196, pág. 8
(4)-Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte/Confluência, Vol. III, pág. 1420.
(5)–Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A.C.Amaral Frazão, Editorial Barreira, Porto, 1981.
(6)–Corografia (...) do Reino do Algarve, João Baptista da Silva Lopes, 1841.
(7)–Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), António Miguel Ascensão Nunes, 1985, pág. 346
(8)–“O cemitério da Vila de Alcoutim – da origem aos nossos dias”, José Varzeano, in Jornal do Algarve de 10 e 17 de Março de 1988.
(9)–Acta da Secção da C.M.A., de 24 Abril de 1877
(10)–“Objectos arqueológicos de Alcoutim”, in O Archeologo Português. Pp 198 a 200.