quinta-feira, 2 de julho de 2009

A mesa

Estas pequenas mesas que na sua maioria eram de confecção local deixaram de ser usadas, salvo raríssimas excepções.

Havia-as de fabrico mais rústico como se pode ver nalguns exemplares ainda existentes.

Com uma altura de cerca de 0,60 m e 0,80 de comprimento, a largura é cerca de metade deste.

Possuíam, como este exemplar, uma gaveta relativamente alta a todo o comprimento, que servia para arrumação de garfos e colheres e alguma navalha que aqui designam por faca.

Os alcoutenejos, logo de miúdos, começavam a usar uma faquinha (navalha) para resolverem as suas necessidades e este hábito mantinha-se pela vida fora, o que ainda hoje se poderá verificar. Quando tocava a comer, as faquinhas saíam imediatamente dos bolsos para cortar o pão, o toucinho ou qualquer outro “conduto”.

Os garfos eram de ferro e as colheres primeiro de lata e depois de alumínio.

À hora habitual reunia-se a família à volta da pequena mesa, cada um sentado na sua pequena cadeira de tampo de tabua ou de junça e que já aqui apresentámos.

A “patroa”, a quem competia fazer a refeição e administrá-la, despejava da panela de barro e para dentro da pelengana o que tinha podido confeccionar e que tinha estado ao fogo.

Previamente tinha feito as sopas (ao companheiro competia muitas vezes essa tarefa) que absorviam o caldo que era acompanhado por legumes ou couve e o tempero, que era em geral azeite ou carne de porco, nomeadamente toucinho.

Se eram seis pessoas e o prato tinha carne, havia seis “presinhas”, uma para cada um.
É evidente que isto não se passava em todas as casas mas sim nas famílias rurais, no trabalhador à jorna e nos pequenos proprietários que só se distinguiam dos assalariados porque não trabalhavam para fora mas a sua vida era muito semelhante à destes.

Por todo o concelho podem-se ver ainda hoje muitas mesas destas, agora com funções completamente diferentes. As pelenganas continuam a sua tarefa mas cada um come no seu prato.
Este uso e costume não teve lugar exclusivamente no concelho de Alcoutim ou na serra algarvia, espalhava-se por muitas partes do país, senão todas.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Feira de Corpo de Deus



Esta Feira que se realiza na aldeia de Martim Longo juntamente com a de S. Marcos, que tem lugar na aldeia do Pereiro, são as mais antigas do concelho.

A informação é prestada quando o pároco de Martim Longo responde ao inquérito para o efeito organizado em 1758.

A pergunta 19 é feita nos seguintes termos: - Se tem feira, e em que dias, e quantos dura, se he franca ou cativa?
A resposta obtida foi a seguinte: Tem este lugar de Martinlongo sua feyra ou vigília no dia de Corpo de D., a qual dura so m te no tal dia, e ha noticia q. fora instituída franca, mas não consta do previlegio e hoje se conserva cativa. (1)
Já existia nesta data e pela leitura deduz-se que não era de recente instituição.

Naturalmente que Silva Lopes também a refere no seu valioso trabalho sobre o Algarve e fá-lo da seguinte forma: “Os habitantes fabricam muitas fazendas grosseiras de lã, tais como surianos, estamenhas, frizas e meias que levão a vender às feiras do Algarve, ou que alli lhes vêm comprar, principalmente na feira que se faz no dia de Corpo de Deus, em que concorre muita gente”. (2)

Pinho Leal, no seu conhecido Dicionário, considera-a uma grande feira.(3)

Nas nossas pesquisas encontrámos uma pequena referência a ela. Na Sessão da Câmara realizada na aldeia de Martim Longo, em 13 de Janeiro de 1843, foi deliberado demarcar no rossio o terreno para as eiras e para o “local da Feira de Corpo de Deus”. (4)

Os Anuários Comerciais dos anos trinta, além da feira no dia de Corpus Christi, referem outra a 17 de Agosto. Possivelmente esta feira teria sido criada em 1927, já que a Câmara autorizou em Sessão de 16 de Fevereiro a criação de uma feira anual na sede da freguesia, mas não indica a data.

A Feira do Corpo de Deus continua a realizar-se mas sem o esplendor e a mística de outros tempos. Ao contrário da de S. Marcos, realiza-se sem quase se dar por ela.

Não nos recordamos de alguma vez a termos visitado.

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(1)ANTT – Memórias Paroquiais, Freguesia de Martim Longo, concelho de Alcoutim.
(2)Corografia do Reino do Algarve, 1841
(3)Portugal Antigo e Moderno, Vol.V (1875), pág. 101.
(4)Livro dos Acórdãos da CMA (nº2) de 2 de Junho de 1841 a 30 de Dezembro de 1849.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Número de polícia

Se não é assim que se chama, pelo menos já teve essa designação, é o número que cabe a cada porta nos arruamentos para poder haver uma identificação correcta do edifício e de quem lá reside.

Em 1877, num ofício dirigido ao Governador Civil, (*) informa-se que a “numeração de todas as casas de habitação e das susceptíveis de serem habitadas foi concluída (...) no prazo designado (...) e procedeu-se à cobrança dos números mas a maior parte só se prontificou a pagar o número correspondente à casa que habitam, recusando-se a pagar os mais porque dizem que foi assim feito no concelho de Castro Marim.”

Isto aconteceu há muito mais de um século!

É natural que depois disso tenha havido algum ajustamento mas de que não tenho conhecimento.

É hábito e possivelmente obrigação legal as ruas terem duas placas, uma no início e outra no fim.

Passando por “Vila Nova de Alcoutim”(Rossio) onde presumo viva grande percentagem da população, verifiquei que a identificação dos prédios apresenta deficiências.

Não era propriamente da vila que eu queria falar, mas sim das pequenas povoações a que aqui chamam “montes”.

Há meses foi-me dado ler num jornal diário a resolução deste problema por uma Câmara Municipal e que, se a memória não me atraiçoa, foi o Município de Abrantes.

O tempo em que os montes estavam “cheios” de gente, já lá vai.
O tempo em que os montes tinham difícil acesso, já lá vai.
O tempo em que se ia ao poço buscar água, já lá vai.
As candeias há muito desapareceram e os candeeiros a petróleo ou a gás se existem, são para se usar em situações excepcionais.

Estas infra-estruturas mudaram completamente, temos hoje outra realidade que está a ser esquecida.


[Casa apetrechada de receptáculo de correspondência. Foto JV, 2009]
O que tem valido aos carteiros é serem da região e conhecerem bem as pessoas, mas quando aparece um de fora, o assunto complica-se logo, tanto para os funcionários dos CTT como para os utentes.

Dir-me-ão, os painéis de caixas do correio colocados em muitos montes resolveram a situação.

Responderei, “entregámos o oiro ao bandido”. O carteiro, assim, gasta praticamente o mesmo tempo a distribuir uma carta como cinco ou dez. Consequentemente são precisos menos profissionais deste ramo e o desemprego sobe. Alguém terá que ficar prejudicado. É o utente que tem de se deslocar diariamente ao local, por vezes distante e muitas vezes a sua idade e saúde não permitem.

Poder-se-á dizer:- mas os preços desceram ajustando-se à nova situação de gestão. Pelo contrário, todos sabemos que por ano os preços sobem invariavelmente!

É claro que para haver distribuição ao domicílio é necessário que haja a devida identificação dos prédios e que estes possuam os respectivos receptáculos, já que hoje não se devem e bem meter as cartas por debaixo da porta como se fazia antigamente.

Mas a identificação não é só para os carteiros. Então e os serviços de água e electricidade? Quando há avarias, como localizam os locais? Tem o aflito que se pôr à entrada do monte para dizer onde é a casa! Já lá vai o tempo em que havia sempre gente pelos montes e que sabia normalmente fazer essa indicação. No monte onde costumo estar provisoriamente, se não está a vizinha do lado não vejo ninguém. Por vezes resolvo dar uma volta para ver se encontro alguém. Não se vê ninguém!

Muito recentemente visitei com um amigo vinte e duas povoações do concelho. Pois em mais de metade não conseguimos ver uma única pessoa!

E como se governam os Bombeiros ou a autoridade Policial?

No ano transacto apareceu o carro dos bombeiros perguntando por Fulana de tal e as pessoas indagadas não sabiam quem era!

As situações que aponto podem ser resolvidas ou pelo menos melhoradas desde que haja interesse nisso.

Aqui fica o alvitre aos responsáveis.

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(*) – Nº 148, de 18 de Setembro.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Forno de cozer pão de Jesus Fabião



Esta fotografia foi tirada num “monte” da freguesia de Alcoutim em Agosto de 1988.

A razão principal que me levou a disparar a máquina foi a existência ainda de um forno de cozer pão, já desactivado e que era propriedade de um moleiro de origem alentejana mas há muito fixado nesta povoação e que conheci no declínio da vida.

Ainda que existissem outros tipos de fornos, este era o mais usual. A abóbada era feita com tijolo de burro e cacos de argila que o barro amassado fixava. Para o obter percorriam-se por vezes distâncias consideráveis.

Nem todas as pessoas tinham possibilidades de possuir forno pelo que recorriam aos de familiares e amigos ou ao forno comunitário que muitos “montes” possuíam e que não era o caso desta povoação, a crer nas informações recolhidas.

Este meio de produção cozeu o pão que alimentou uma família de cinco filhos além de outros elementos que as circunstâncias da vida agregaram.

De tudo o que a foto mostra, nada existe, tudo se transformou. O forno com o seu poial (pial) foi por desnecessário, removido o mesmo acontecendo ao fontanário visto a água ter sido levada ao domicílio. O chão público foi cimentado.

Resta, que eu saiba, esta fotografia.

sábado, 27 de junho de 2009

Dormir ao relento

A actual época do ano e devido ainda à sua prática na serra algarvia, levou-me a alinhavar estas linhas.

Vem de sempre o homem dormir ao relento (humidade atmosférica da noite) e fá-lo pelos mais variados motivos.

Não nos vamos alongar na matéria que pertence, entre outros, aos antropólogos, vamos procurar referir o seu uso na serra algarvia, nomeadamente no concelho de Alcoutim.

Numa zona onde o pão foi e continua a ser a base da alimentação deste povo, as terras delgadas de xisto iam produzindo o que era possível e quando se chegava às nove sementes de produção era considerada uma excelente colheita!

Todos os trabalhos do campo são árduos, mas ceifar com foice numa época cálida é um trabalho desumano e hoje praticamente extinto, mas na primeira metade do século passado era “o pão-nosso de cada dia”, e os algarvios da serra deslocavam-se a pé e em grupos fazendo as ceifas do sul do Alentejo, muitas vezes efectuadas de empreitada.

Mas é ao concelho de Alcoutim que nos queremos referir.


As ceifas locais eram de uma maneira geral feitas pelas pessoas da casa e muitas vezes auxiliadas pelos vizinhos. O lema era este:- Hoje fazemos a tua, amanhã a minha. Já que o trabalho devido à época quente em que se realizava tinha todo o interesse efectuar-se ao nascer do sol, havendo que dormir junto das searas para que assim que raiasse o sol, começar o trabalho.

Por outro lado, devido ao calor, tornava-se mais convidativo dormir ao relento do que em casa.

Muitas das refeições, quase totalmente constituídas por gaspacho, eram confeccionadas no local e outras vezes feitas pela “patroa” que à hora aprazada a levava aos ceifeiros, montando um macho ou outro animal de sela.

Outro dos trabalhos que originava dormir ao relento era a apanha dos figos, cuja maioria das figueiras se situava nas margens do Guadiana, local que devido à água se tornava mais fresco.

Era hábito levar os porcos para a engorda que os figos provocavam.


[Hotel *****]
Os que se iam apanhando secavam-se, sobre palha no chão, metidos em sacas e transportados por alguém, normalmente aquele que ia levar o abastecimento dos que realizavam a tarefa.

Havia naturalmente a selecção, para um lado aqueles que iam fazer parte da alimentação humana, ou outros, os de fraca qualidade destinavam-se ao sustento dos animais, nomeadamente das bestas.

Ainda que quase todos os proprietários tivessem uma cabana na sua várzea, não se dormia nela pois tornava-se mais agradável dormir ao relento.

Depois do trabalho concluído era o regresso a casa, ao “monte”.

Esta tarefa fazia juntar nas margens do rio muita gente que quando tinham um pequeno período de descanso, confraternizavam dado que se conheciam todos.

Quando cheguei à vila de Alcoutim em 1967 fiquei admirado de grande partes dos moços, no Verão, irem dormir para a eira da Fonte Primeira, onde se encontra hoje situada a chamada praia fluvial, o que resta do vasto rossio oportunamente usurpado pelos políticos da época por maneiras ridiculamente ardilosas.

Lembro-me bem que os moços sentiam a protecção de um respeitado ancião da vila, conhecido por Ti Mário e que era o Sr. Mário Vicente, um agricultor e homem de bem muito considerado na vila e redondezas.

Também este costume se esvaiu no decorrer dos tempos mas ainda vivem na vila pessoas que o praticaram com regularidade.

As tarefas a que nos reportámos estão completamente extintas, mas ficaram reminiscências do dormir ao relento.

Quando em 1987 restaurei uma casa situada num monte da freguesia de Alcoutim e que desde essa data comecei a frequentar assiduamente, a população era mais do dobro da actual.

Havia três dias que eu e minha mulher, e isto no mês de Agosto, não conseguíamos dormir, nem de dia, nem de noite pois o calor abafado era sufocante e se fazíamos uso da “ventoinha”, ainda nos sentíamos pior.


[Hotel ***]

Cerca da meia-noite resolvemos dar uma volta pelo monte. Para nosso espanto verificámos que grande parte da população dormia nos pátios e nas varandas. Disse para a minha companheira, já encontrei a solução.

Cheguei a casa, peguei num colchão e estendi-o no pátio das traseiras da casa. : - Vais dormir aí? - É claro que sim como diz hoje a minha neta de três anos. - Eu não sou capaz! - Então dorme em casa.

Passado meia-hora estava junto de mim e dormimos até às 7 da manhã. Foi um regalo.

Ainda existe um homem que quando o calor começa a apertar não dispensa dormir ao relento, mas de uma maneira geral nas varandas que existem pelo “monte”.Diz-me que opta pelas varandas para evitar a bicharada, principalmente os lacraus.

Leva duas mantas, das de trabalho, (premedeiras) que ainda existem no concelho, deixadas por mães e avós.

Deitam-se numa e a outra serve para se taparem ao raiar do dia.
Quando o encontro pela manhã, costumo perguntar:- Qual foi hoje o hotel. A resposta é imediata, foi no hotel tal (nome do proprietário da varanda!).

Aqui têm a reminiscência do DORMIR AO RELENTO!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Crónicas Alcoutenejas (2ªEdição)


No dia 12 de Setembro de 2008 no meu ESCAPARATE, dei aqui a público a compilação destas então dezanove crónicas, numa edição muito limitada.

Acontece que vários familiares e amigos mostraram-se muito interessados na sua aquisição pelo que o autor resolveu e muito bem fazer uma segunda edição, esta já de 60 exemplares, revista e aumentada com mais quatro crónicas que o autor publicou neste blogue e que tem merecido justo elogios dos leitores.
A impressão e encadernação são da Gráfica Montalto, Lisboa.

Gaspar Martins dos Santos já tem publicadas neste espaço mais algumas crónicas alcoutenejas e outras irão surgir.

O exemplar chegou há pouco tempo às nossas mãos com simpática dedicatória.

Estou convencido que mais tarde ou mais cedo irá surgir uma 3ª Edição aumentada e revista, como não poderá deixar de ser.

Daqui enviamos ao Amigo e Colaborador o nosso abraço de muita consideração e estima, além do sempre devido agradecimento.

domingo, 21 de junho de 2009

Os cadeireiros

Nem na minha região de origem, nem por onde passei depois, tinha ouvido tal designação.

Quando cheguei a Alcoutim e já passaram mais de quarenta anos, nas casas que fui conhecendo encontrava um tipo de cadeiras que considerava esquisitas pois não havia duas iguais, ainda que naturalmente tivessem coisas parecidas.

[Armação de cadeira muito antiga. Foto JV]

A minha curiosidade levou-me a fazer perguntas sobre elas e que os meus interlocutores iam respondendo conforme sabiam e que, lá no fundo se admiravam porque é que eu queria saber estas coisas!

Por ser assunto que sempre conheceram, considerando-o o mais normal possível, nem mesmo as pessoas mais evoluídas se questionaram no sentido de explicar tal arte.

Esta acção normalmente acontece às pessoas de fora que não conhecem os usos e tradições.

Começaram por me dizer que eram feitas por homens locais a que chamavam cadeireiros quando as faziam para venda, mas que de uma maneira geral todos as sabiam fazer para seu uso, uns melhor, outros pior, conforme a disposição e habilidade.

Quantas mais íamos vendo, melhor as observávamos, estabelecendo semelhanças e diferenças.

[Cadeira pequena. Foto JV]
Havia-as de diferentes tamanhos, mas as mais vulgares eram as pequenas que serviam para as pessoas se sentarem ao fogo, à roda da pequena mesa onde se serviam as refeições, para pelar amêndoas, para costurar, eu sei lá, para as tarefas mais variadas.

As cadeiras mais antigas, segundo nos foi dado observar, eram todas feitas de loendro e as peças que compunham a sua estrutura, de formato cilíndrico, excepto as travessas das costas que ao meio e para melhor cómodo, eram um pouco espalmadas.

É fácil reparar que as travessas da estrutura básica são colocadas a diferentes alturas para proporcionar uma maior resistência (vide foto junta).

A experiência do homem levou-o a substituir, nomeadamente as travessas mais próximas do chão, pela esteva delgada e por isso mais fácil de colocar, mas muito mais resistente.

Em alternativa utilizava-se, principalmente nas de maior porte, o zambujeiro que como se sabe é bastante resistente.

É altura de dizer que a madeira referida é abundante no concelho onde se encontra com muita facilidade. Além disso o loendro é leve e trabalha-se bem.

Entretanto o homem começou a facetar timidamente os pés até chegar a uma forma aproximada de paralelepípedo que foi aperfeiçoando e decorando com elementos simplistas.

As costas começam a ser completamente espalmadas e em lugar de terem um encaixe cilíndrico, já é de secção rectangular.

O exemplar que se apresenta foi adquirido numa das primeiras Feiras de Artesanato de Alcoutim e o cadeireiro era da freguesia de Vaqueiros e se não estou em erro, do monte do Fortim.

Nada disto levava grude e muito menos qualquer cola que não existia.

A cadeira seguinte já é mais evoluída e foi adquirida na Feira de São Marcos, em 1987mas o artista não é do concelho de Alcoutim mas sim de Alcaria dos Javazes, freguesia do Espírito Santo, que faz fronteira com este e pertence ao de Mértola.

[Cadeira de tamanho normal. Foto JV]
Ainda que seja notória a evolução, é tudo trabalho inteiramente artesanal, este não é o artesanato semi-industrial que nos pretendem impingir em muitas feiras do país.

Nota-se algum requinte no trabalho das costas, o tampo é protegido para maior estabilidade, por estreitas e delgadas ripas, fixas com pequenos pregos.

Os pés já são facetados.

Se a madeira utilizada era como regra esta, não quer dizer que não aparecesse outra, como por exemplo de oliveira.

As travessas começaram a ser fixas por intermédio de “puas” de esteva e mais tarde por pequenos pregos.

[Cadeirão adquirido na 1º Feira do Artesanato de Alcoutim.Foto JV].

E com que se fazia tudo isto?

Primitivamente apenas com um serrote, um trado e uma faca, como aqui chamam à navalha. Só depois apareceram a grosa e o cepilho.

Falta referir o tampo que é aquilo que nunca vi fazer e me causa muita confusão. É tecido (dizem-me que há duas maneiras de o fazer) com tabua ou junça, plantas que crescem onde existe água. Esta última, não necessita de tanta para se desenvolver, é mais resistente mas é naturalmente mais difícil de trabalhar.

[Tecendo o fundo com tabua. Foto JV]
Colhem-se em verde, secam à sombra e são molhadas para se trabalharem, tal como acontece à ráfia para as enxertias.

O cadeirão confeccionado nos mesmos moldes, era menos usual mas também os faziam, normalmente de encomenda. Além de maiores dimensões, eram providos de braços.

Esta arte espalhava-se pelos concelhos limítrofes e outros mais além mas no concelho de Alcoutim encontra-se praticamente extinta.

Há muitos anos que não vejo uma cadeira destas à venda na Feira de S. Marcos, a maior do concelho e onde eram muito procuradas.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

1º ANIVERSÁRIO


Passa hoje o 1º aniversário deste blogue que tem por título, ALCOUTIM LIVRE!

Tínhamo-nos comprometido como afirmámos no nosso post de apresentação a semanalmente apresentarmos alguma coisa de novo.

Por outro lado era nosso propósito ocupar esmagadoramente o blogue com assuntos sobre Alcoutim, só saindo dele em condições muito excepcionais.

Na passagem do 1º Aniversário é conveniente fazer um balanço para analisarmos o situação e se os nossos objectivos foram alcançados.

Quanto ao número de intervenções, superou em muito o que nos tínhamos comprometido pois a média semanal cifrou-se acima de quatro.

Por outro lado os nossos visitantes/leitores verificaram que muito excepcionalmente saímos de “ALCOUTIM” e quando o fizemos teve quase sempre alguma ligação ao seu concelho.

Depois da recepção dos e-mails referentes ao seu aparecimento e que dei nota de alguns após o primeiro mês de existência, mais alguns apareceram e que anotei.

Nos TEMAS específicos que criámos o CÂMARA ESCURA aparece 26 vezes com a vantagem dos comentários sobre a foto apresentada terem sido “enriquecidos” em relação às primeiras publicações.

As FIGURAS aparecem 25, sendo as últimas de Alcoutim e onde pensamos ter recuperado alguns nomes que estavam completamente esquecidos e demos a conhecer outros inteiramente ignorados.

O ESCAPARATE apareceu por 22 vezes e na sua grande maioria com referências a Alcoutim, ainda que apareçam alguns de carácter geral mas que considerámos de interesse para o visitante/leitor. Tivemos a confirmação do seu interesse por alguns dos leitores que desta maneira tiveram conhecimento das obras publicadas.

A ETNOGRAFIA, dos últimos temas criados, tem andado de passo certo e dizem-lhe respeito 19 entradas.

Pensamos que o ECOS DA IMPRENSA se justifica plenamente com a republicação de escritos publicados na imprensa regional, alguns com dezenas de anos e que desta maneira possibilitámos a sua leitura aos nossos visitantes, nomeadamente aos que ainda não eram nascidos. Inseridos espaçadamente como se justifica, já foram publicados 17.


Em MONTES DO CONCELHO completámos um escorço histórico sobre os montes da freguesia de Alcoutim, mas não deixámos de passar pela de Martim Longo e Vaqueiros.
O não aparecer aqui a freguesia do Pereiro, tem a ver com a publicação do nosso último trabalho, A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim), do passado ao presente, Edição da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007 e onde poderão encontrar as referência que consegui compilar em relação a todos os montes da freguesia.
Apesar das dificuldades que este TEMA apresenta, já referimos 13 povoações, cabendo aos Balurcos o de maior extensão, tendo sido dividido em cinco partes.

As EFEMÉRIDES ALCOUTENEJAS, que tenho conhecimento igualmente de leitores muito interessados, chegaram naturalmente ao seu fim.
Poderão aparecer esporadicamente com um formato diferente.

O ESPAÇO DOS AMIGOS foi para mim o mais importante que criei e em boa hora tive essa lembrança.
Gostaria que tivesse mais colaboradores, mas reconheço as dificuldades.
Além de ter aberto o espaço a todos os que quisessem colaborar, tive oportunidade de pessoalmente o fazer a diversas pessoas. Compreendo perfeitamente porque muitos não o querem fazer. Não é fácil ser livre!

Este espaço já tem 10 entradas provenientes de três colaboradores, sendo só um alcoutenejo!

Gaspar Santos já apresentou 7 interessantíssimos artigos sobre a terra onde nasceu e que não esquece. Não consigo distinguir o melhor – são todos excelentes e que vão deixar uma marca importante no passado alcoutenejo. Possivelmente se não fosse o BLOGUE ALCOUTIM LIVRE estes depoimentos perder-se-iam com o tempo!
Muito obrigado bom amigo, o ESPAÇO é seu.

Não posso nem devo deixar de agradecer ao meu amigo Fernando Lino, que conhece Alcoutim, o artigo que teve a amabilidade de escrever e onde mais uma vez patenteia todo o seu estilo inconfundível de escrita.

O colaborador que falta referir, José Miguel Nunes, tem a circunstância de ser meu filho.
Ainda que cedo lhe tivesse notado alguma facilidade “no escrever”, estava distante de mim a ideia que o viesse a fazer para os outros.
Quando disso me apercebi, já teria publicado possivelmente mais de uma centena de artigos, o que me deixou embasbacado.

Ainda que a base da sua escrita seja completamente diferente da minha e por isso eu tenha alguma dificuldade em avaliar o conteúdo, salta-me contudo o principio, meio e fim com que aborda os assuntos, com moderação mas sem ser pacífico ou submisso, argumentando bem e defendendo os seus pontos de vista.

Os dois artigos que teve a amabilidade de escrever para este BLOGUE e numa área que não é da sua intervenção, não receio dizer que agradaram-me muito. Neles retratou com muita fidelidade e justeza dois quadros da infância, passada em Alcoutim.

Tenho a certeza que nunca mais vai deixar de escrever.

Para ti, o meu agradecimento.

Outros Temas foram abordados e que a nível de movimento tiveram por razões várias menor desenvolvimento.


O número de visitas ronda as 4.500 englobando mais de uma dezena de países de origem.

Ainda que no primeiro contador utilizado não ficassem registados por acumulação, os números agora apresentados indicam o Brasil e a Espanha como os de maior utilização.

Verificamos que a média que se cifra acima de 12 visitas diárias é muito boa para este tipo de blogue que apresenta exclusivamente texto, fotos e desenhos.

Temos a sensação que a grande maioria dos visitantes não reside no concelho de Alcoutim e que talvez no seu cômputo geral mais de 50% não seja natural do concelho.

Para terminar, gostaríamos de lançar um repto aos nossos visitantes/leitores.

Manifestem através do meu e-mail a vossa opinião. Refiram o melhor (se existir) e o pior. O tema que gostam mais de ver abordado. Os erros encontrados. Sugestões. Tudo isto com o intuito de melhorar o ALCOUTIM LIVRE.

Com a vossa ajuda isso é possível.

Fico esperando pelas opiniões.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Dionísio Guerreiro

Algumas das últimas figuras alcoutenenses que temos vindo a referir, são-no pelo interesse local que podem despertar.

Em todas as pequenas terras houve famílias dominantes e que muitas vezes se cruzavam para cimentar o poderio.

Dominavam o sector económico, político, religioso e administrativo. Atingindo este objectivo naturalmente começaram a pensar em mais altos voos pelo que muitas se deslocaram para terras de maior amplitude, quando não para a capital, cortando radicalmente com a terra das suas origens.

Quem se der ao trabalho de pesquisar os arquivos locais verificará o que estamos a dizer.

Só excepcionalmente os nomes ultrapassam duas gerações e quando isso acontece vão-se diluindo no tempo.

Iremos hoje referir um elemento da vasta e importante família Teixeira que afinal não tinha ou usava Teixeira no nome pois é sempre apresentado como Dionísio Guerreiro e só uma vez o vimos designado por Dionísio Guerreiro Teixeira e precisamente no seu assento de óbito,

Nasceu na freguesia de Giões em 1806, por isso no período das Invasões Francesas e era filho de Pedro Rodrigues, proprietário e de Ana Teixeira.


[Vista Parcial da aldeia de Giões, 18.06.2009. Foto JV]

Vamos encontrá-lo com vinte e oito anos como um dos licenciador para as eleições da Câmara Municipal de Alcoutim, e como juiz almotacé em Giões.

Com 44 anos ocupa o lugar de Presidente da Câmara, funções que exerce até 1853.
Desempenhou igualmente funções de vereador e de vogal do Conselho Municipal em várias ocasiões.

Em 1855 era o sétimo maior contribuinte do concelho, pagando 6.340 réis de décima. Dois dos seus irmãos ocupavam a 4ª e a 5ª posição.

Exerceu funções na Junta de Paróquia de Giões em 1858 o que aconteceu em outras ocasiões.

Casou com Faustina Maria, de quem ficou viúvo voltando a casar, desta vez com Ana José.

Foi pai de José Pedro Guerreiro Teixeira que faleceu primeiro do que ele, tendo-lhe deixado dois netos, Manuel da Silva Teixeira e Maria José da Silva Teixeira..

Foi padrinho de seu sobrinho, Pedro Severiano Teixeira, filho de seu irmão Joaquim Pedro Teixeira que foi professor de Instrução Primária.

Faleceu no dia 26 de Junho de 1883, aos setenta e sete anos e viúvo na aldeia de Giões em cujo cemitério ficou sepultado.

Na sessão da Câmara realizada quatro dias após o seu falecimento e que era Presidida pelo seu sobrinho António Joaquim Teixeira, o Vice-Presidente, Manuel António Torres pede para ser consignado na acta um bem merecido voto de sentimento pela morte do cidadão Dionísio Guerreiro, da aldeia de Giões, não só pelo seu exemplar comportamento como particular, senão tão bem no desempenho dos cargos de Presidente da Câmara e Vogal do Conselho Municipal que por muito tempo e diferentes vezes ocupou neste concelho nos quais se houve com o maior zelo, actividade e honradez possível, o que foi aprovado por unanimidade.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A morte levou a última "boleira"de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 8 DE ABRIL DE 1977)



Quando organizámos em Dezembro último, o escrito “AS BOLEIRAS DE ALCOUTIM”, inserido em recente número do Jornal do Algarve, não pensávamos que quando o escrito saísse, aquela que considerávamos a última boleira de Alcoutim já não pertencesse ao número dos vivos.

Um breve apontamento sobre ela, além de simples homenagem, se tal se lhe pode chamar, a uma mulher do povo que sempre trabalhou numa actividade sui generis, completaria, ou melhor, enriqueceria o tema que abordámos.

Logo pela manhã do dia 4 de Fevereiro, a notícia correu célere na pequena vila serrana: a Ti Ana Brandoa falecera em Vila Real de Santo António, para onde a tinham levado, depois de uma queda que deu na sua casinha, na rua do Poço Novo.

Apesar da avançada idade e assim se esperar a qualquer instante o seu passamento, a notícia causou surpresa e constrangimento no pequeno meio em que todos se conhecem.

A senhora Ana Bárbara Casegas, segundo a sua versão e Ana Bárbara, segundo o assento de nascimento, nasceu em Alcoutim no dia 2 de Outubro do recuado ano de 1887. Sempre afirmou que tinha mais idade e segundo as suas afirmações, assim parecia.

Filha de um beirão que para ali fora exercer a actividade profissional, casou e criou os filhos na terra que a viu nascer.

Muito trabalhadeira, cedo se dedicou à actividade de boleira, fazendo e vendendo as especialidades pelas feiras e mercados das redondezas. Exímia fabricante de nógado, podemos dizer que o confeccionou até à hora da morte, sempre com o mesmo carinho e interesse.

Era uma figura típica da vila que dificilmente nos esquecerá. Magra, sem ser esquelética, seca de carnes, alta, espadaúda, muito direita, quase todos os dias corria a vila, batendo nos pontos habituais de cavaqueira: escadas da Misericórdia e Santo António, bancos da “capela” e largo de “praça”, ou fazendo visitas a doentes, pessoas que chegavam para férias, etc.

De quando em quando, também ia a nossa casa, solicitando por vezes a escrita de um postal ou carta. Uma vez, levou-nos uma carta originária da Dinamarca e a si endereçada. Se não nos atraiçoa a memória, era a participação de casamento de uma dinamarquesa que por ali tinha passado há anos.

De lanço na cabeça, xale pelos ombros, saia que lhe chegava aos pés e sapatos de corda e pano, era vê-la andar, desembaraçada, pelas íngremes ruelas da vila. O seu tipismo não passou despercebido ao operador da T V , quando da organização de um programa sobre a pesca local, pois na panorâmica que quis dar da vila, captou-a em pormenor, proporcionando um bom apontamento.