segunda-feira, 13 de julho de 2009

Padrão Epigráfico de 1661



Foto tirada em 1968 por J.V.

Este importante documento epigráfico encontra-se na muralha, junto ao cais velho desde 1877, ou seja, após a CHEIA GRANDE e mandado colocar pela Câmara.

O seu local de origem era a PORTA DE TAVIRA onde foi colocado em 1661.

A inscrição diz:- ALFOMSVS VI REX PORTVGALI ET ALGARAVIORVM MDCLXI e possivelmente deveria ter sido deslocada devido à PORTA se encontrar em ruína.

Porque razão se teria feito tal gravação? Teria sido só para marcar a realeza de D. Afonso VI? Não o sabemos. Teria sido para assinalar a conclusão de obras de beneficiação na fortaleza que tiveram lugar nesse ano e para as quais foram concedidos 3 000 cruzados na primeira fase e orientadas pelo Eng. Pêro de Sancta Colomba? Ou teria sido para assinalar o ajuste do casamento de D. Catarina, irmã de D. Afonso VI com o rei de Inglaterra, Carlos II, que igualmente teve lugar naquele ano? Pelo menos foram feitas estrondosas salvas de artilharia, festejando-se o acontecimento com outras demonstrações de alegria.

Em 1880 é solicitado o envio para Lisboa do “documento” mas a Edilidade nega-se a fazê-lo pois pretende conservar neste povo a memória daqueles que nos fizeram glória no passado.

domingo, 12 de julho de 2009

D. Luís de Noronha e Meneses, 6º e último Conde de Alcoutim

Na nota biográfica que organizámos dos Condes de Alcoutim no nosso trabalho, Alcoutim, capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985, foi a do 6º e último que se apresentou mais desenvolvida, possivelmente por esta última circunstância.
Iremos hoje publicar uma nova nota aumentada no que nos foi possível compilar.

***

D. Luís de Noronha e Meneses nasceu em 1589 sendo filho de 4º Conde, D. Manuel de Meneses e de sua mulher D. Maria da Silva, Dama da Rainha D. Catarina.

Casou com D. Juliana de Meneses, filha de D. Luís de Meneses, 2º Conde de Tarouca que foi 19º Capitão e Governador de Tânger, onde faleceu em 1614 e de D. Luísa Henriques, sua primeira mulher.

Herdou o título de seu irmão, D. Miguel Luís de Meneses que casou duas vezes, sendo a última com sua sobrinha, filha daquele que veio a herdar o seu título visto não ter deixado geração, a não ser uma filha natural havida em Ceuta e filha de uma mulher nobre castelhana, D. Maria Xuar.

Herdou o título com 48 anos de idade.

Foi o 9º Capitão general de Ceuta, 7º Alcaide-mor de Leiria, Comendador de Vila Franca, na Ordem de Cristo e Senhor de Valença, Caminha, Valadares, Chão de Couce e outras.

Além de Conde de Alcoutim ostentou os títulos de 9º Conde e 7º Marquês de Vila Real e 7º Conde de Valença

Além disto era membro do Conselho de Estado de D. Filipe III.


[Coroação de D. João IV]

Quando os conspiradores iniciam o levantamento em 1 de Dezembro de 1640, encontrava-se o Marquês na sua cidade de Leiria e só tem conhecimento do acontecido no dia 8 por informação de seu filho, o 2º Duque de Caminha. Logo fez aclamar em Leiria D. João IV como Rei e jurou-o sem problemas nas Cortes que tiveram lugar em Janeiro seguinte, em Lisboa.

D. João IV depois disto acabou por reconduzi-lo no cargo de Conselheiro de Estado, o que igualmente aconteceu ao arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos e Noronha e ao inquisidor-geral, D. Francisco de Castro.

A estes juntou alguns membros saídos da nova situação política.

Além da recondução no lugar de conselheiro, o rei não o chamou para mais nada de relevo, antes pelo contrário, nomeou-o coronel do Terço da Nobreza, o que o Marquês sentiu como agravo.

Além disso um dos conjurados, D. Carlos de Noronha, Comendador de Marvão e muito bem aceite por D. João IV é nomeado em 7 de Janeiro de 1641 Presidente da Mesa da Consciência e Ordens.

D. Carlos de Noronha tinha casado com D. Antónia de Meneses que nasceu em Ceuta e pretendeu ser filha legítima de D. Miguel Luís de Meneses, 5º Conde de Alcoutim, decorrendo demanda judicial pela sucessão da Casa de Vila Real, o que naturalmente criava mal-estar.

Era sabido que as duas grandes Casas Senhoriais, a de Bragança e a de Vila Real nunca tiveram grandes laços de ligação, bem pelo contrário.

As mercês concedidas pelo Rei a uma nobreza menos ilustre mas que se tinha empenhado na Revolução, causou desagrado e descontentamento à que se considerava de maiores pergaminhos, como aconteceu com D. Luís de Noronha e Meneses, Marquês de Vila Real e Conde de Alcoutim e seu filho, 2º Duque de Caminha.


[D. João IV]
Começa a congeminar-se uma conspiração e em que são principais figuras os três conselheiros que o Rei manteve do tempo da Duquesa de Mântua, o arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos e Noronha, D. Luís de Noronha e Meneses e o bispo inquisidor-geral, D. Francisco de Castro.

A conspiração veio a ser descoberta por intermédio de D. Afonso de Portugal, 5º Conde de Vimioso

A 28 de Julho foi dada ordem de prisão aos conspiradores nos quais se encontrava o 6º Conde de Alcoutim que foi interpelado por Tomé de Sousa, enquanto seu filho, 2º Duque de Caminha foi preso por Pedro de Mendonça (outros dizem Jorge de Melo) e António de Saldanha. O cabecilha, D. Sebastião de Matos e Noronha foi preso por D. Rodrigo de Meneses, Desembargador do Paço.

Provado o delito de lesa-majestade foi degolado no Rossio de Lisboa no dia 29 de Agosto de 1641

Os seus bens foram confiscados e incorporados na Casa do Infantado, criada por alvará de D. João IV, de 11 de Agosto de 1654, a favor dos filhos segundos dos nossos monarcas.
________________________________________________

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações Alfa, 1982, II Vol. Pág.335
Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, coord. de Barroso da Fonte, Editora Cidade Berço, Guimarães.
História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, Vol. II, pág.293.
Nobreza de Portugal, dir. de Afonso Martins Zúquete.
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
D. João IV, Leonor Freire Costa e Mafalda Soares da Cunha, Reis de Portugal, Temas e Debates, 2008.
D. João IV e a Campanha da Restauração, Mário Domingues, Edições Romano Torres, 1970
Wikipédia, a enciclopédia livre.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Arrancado pela raiz...

Pequena nota

Temos hoje o grato prazer de apresentar um pequeno texto mas que encerra grande profundidade de um nosso Amigo e Colega de profissão, José Temudo de seu nome.

Conheci-o há 42 anos num jantar de homenagem ao nosso Director-Geral, em Lisboa.
Era eu o mais jovem ou dos mais jovens convivas e ainda que ele o fosse também, já se encontrava na 2ª classe.

Calhou ficarmos bem perto um do outro e quando me perguntou em que concelho exercia e lhe disse que era em Alcoutim, ficou tão entusiasmado que lhe perguntei se era de lá. Disse-me que não mas que tinha passado lá os melhores anos da sua vida!

Anos depois, quando publiquei o “Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia)”, tive o cuidado de lhe oferecer um exemplar que muito apreciou e o que fiz a todos os colegas no activo que passaram por Alcoutim e não foram poucos.

Tomo a liberdade de transcrever um parágrafo daquela carta, datada de Póvoa do Varzim a 8 de Abril de 1987.



É notório o encanto que Alcoutim lhe desperta, tal como a sensibilidade de poeta que eu lhe desconhecia.

O texto que se segue é bem revelador do seu sentir por Alcoutim, aqui não existem palavras balofas, não se diz isto para parecer bem, não se escreve isto há procura do que quer que seja, diz-se isto porque se sente.

O quadro descrito, devia ter tido lugar em finais da década de trinta do século passado, talvez em 1937/38.

José Temudo foi sempre para mim, pela sua capacidade técnica e verticalidade, um colega de referência.



ARRANCADO PELA RAIZ...
Escreve
José Temudo:



“Naquele dia, chorei pelos meus amigos, companheiros de tantas brincadeiras e aventuras, que não tornei a ver.

Chorei pela Loba, que cresceu comigo, fiel e corajosa amiga, que lutou até ao Limite das suas forças para continuar connosco.

Chorei, ainda por algo indefinido que, só anos mais tarde, eu viria a saber o que era. Para além dos amigos e da Loba, eu estava igualmente, a afastar-me da parte mais despreocupada, mais alegre, mais interessante e mais feliz da minha infância.

Tinha oito anos quando saí de Alcoutim, afinal, do meu Paraíso. Arrancado pela raiz, como rosmaninho.”


Extraído de “ACONTECEU EM ALCOUTIM”, de JT
[Rua Pedro Nunes em Alcoutim e onde residiu a Família Themudo]

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Licores caseiros "Hortinha das Lajes"


Iremos hoje versar um tema muito diferente daqueles que habitualmente abordamos, mas estas mudanças servem também para arejar o ALCOUTIM LIVRE, torná-lo mais diversificado.

A lembrança veio porque há dias ocupei uma tarde inteira confeccionando o meu LICOR DE GINJA, pois a mesma já tinha um ano de infusão e havia que disponibilizar o vasilhame para recolher o novo produto que este ano, por estas bandas, é abundante e de boa qualidade.

Desde criança que me lembro em casa de minha avó materna se fazerem licores, tarefa em que era perita a minha tia mais velha, ainda que as irmãs também o soubessem fazer, já que naquela época devia fazer parte dos conhecimentos femininos.

Os sobrinhos conheciam o hábito e obtinham da tia a especial concessão de molharem os lábios com uma colherinha de chá!

Nunca me esqueci do gosto do licor de tangerina, lembrando-me também que se faziam o de leite e o de café.

Em casa de meus pais, era hábito a minha mãe fazer licor de ginja, principalmente depois de termos no quintal duas ou três ginjeiras.

Foi assim e devido à minha curiosidade que aprendi a fazer o licor de ginja, sistema que fui testando e alterando segundo as minhas concepções, mas nunca esquecendo a base que minha mãe me ensinou e as recomendações que fazia.

A tia já tinha falecido o que anos depois aconteceu como é natural a minha mãe. Antes do último desenlace e porque continuava no meu imaginário o gosto do licor de tangerina que a tia fazia, pedi auxílio a minha mãe e fiz o dito licor que me saiu muito bem e que era parecido com o que a tia fazia.

Estes dois licores começaram a ser um hábito anual.


A partir do aumento da minha disponibilidade e do começo da produção “hortícola”iniciei a tarefa dos licores dos mais variados matizes e hoje possuo, todos de origem dos meus produtos e que passarei a referir por serem apreciados: - poejo, alfarroba, hortelã, amêndoa amarga (esta não é feita de caroços de nêspera!) ameixa, tangerina, limão, laranja, a nível individual ou no seu conjunto a que chamamos licor de citrinos, erva-luísa (lúcia-lima) e como última experiência positiva, o de funcho! E uma ratáfia de romã, de feitura diferente de todos os outros.


As visitas optam por uns, em desfavor de outros!


Existe naturalmente todo um material (tachos, panelas, frascos, garrafas, colheres de vários tamanhos, funis, coadores, etc.) que é exclusivo desta tarefa que vamos realizando ao longo do ano.

É fácil. Basta ter gosto. Experimente.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O caniço


Em escrito publicado num mensário regional, tivemos oportunidade de nos referirmos à cana e à sua importância na vida alcouteneja.

É a uma das suas utilizações e que então referimos superficialmente que hoje vai merecer a nossa atenção.

Quando há quarenta e dois anos cheguei a Alcoutim e vi as casas forradas com canas, fiquei bastante admirado nunca pensando que pudesse ter tal aplicação.

Situações como esta encontrámos em vários campos. Por falta de contacto com elas é natural uma primeira rejeição.

Para que tal acontecesse nesta região e não em outras que já conhecíamos, teria de haver uma explicação que tentámos obter na observação atenta e numa fase posterior em alguma literatura.

Por um lado os canaviais são abundantes nas margens do rio e das ribeiras, enquanto a escassez de madeira era notória.


Nas zonas de pinhal, as telhas das casas modestas eram suportadas por ripas de madeira pregadas em traves da mesma substância, os chamados telhados de telha vã, enquanto as melhores tinham forro feito de tábuas de pouca espessura e devidamente aparelhadas, tendo nas extremidades de junção um canelamento que lhe dava enfeite.

Por aqui, arranjar as traves (a que chamam vulgarmente paus), não era fácil, poucos tinham dinheiro para as mandar vir de fora e quando isso acontecia, vinham rio-acima, onde ficavam em qualquer porto e depois era necessário ir buscá-las em burros. A maioria das pessoas procuravam adquiri-las localmente entre as árvores que possuíam e é por isso que se viam muitos paus tortos utilizados nestas aplicações, por falta de outros mais perfeitos.

A cana tem época própria para ser colhida, é na altura do repouso da planta quando está devidamente vidrada. Se assim não for, depressa se desfaz, apodrecendo.

As canas, junto às paredes, são ajustadas a uma cana guia, em posição vertical e por corda de sisal através de um nó especial e fixas aos paus por pregos e com o auxílio de varas de loendro devidamente rachadas.

Nos últimos tempos o caniço começou a ser forrado com papel das sacas de cimento e sobre o qual punham uma leve camada de massa.

É importante dizer que este tipo de forro acaba por ser o mais adequado ao clima da região, considerada das zonas mais quentes do país. Com estes telhados as casas tornam-se mais frescas e se as suas paredes forem feitas de pedra e barro com larguras que rondam os 60 cm e se forem caiadas, possuímos a casa ideal destas paragens, o que vai naturalmente rareando.


Um caniço é feito por duas pessoas, o mestre e o ajudante, função que já desempenhei uma vez, e era como fazer uma cadeira ou um cesto, arte conhecida da grande maioria dos homens da região.

As paredes começaram a ser feitas, naturalmente, de tijolos e blocos de cimento para depois substituírem também os caniços por placas de cimento.

Os caniços que restam vão a pouco e pouco desaparecendo na voragem do progresso e qualquer dia ninguém sabe fazer um caniço!

Em Junho último demos uma volta e visitámos 22 povoações. Em algumas, nem vivalma! Mas a verdade é que todas estão cheias de “maisons”e os “montes” completamente descaracterizados. Foi possível, contudo, verificar algumas recuperações feitas com equilíbrio.

As fotos que se apresentam são de um caniço que tem22 anos e estará para durar. Não é contudo um caniço de encher o olho como alguns que tenho visto e que constituem peças lindíssimas.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Guerra da Sucessão - D. Pedro e D. Miguel


São vários os livros que retratam o período das guerras entre liberais e absolutistas, escritos por oficiais franceses e ingleses que estiveram ao serviço de ambas as partes e principalmente no que respeita às suas intervenções.

Neste caso trata-se do almirante inglês, Charles Napier que esteve ao serviço de D. Pedro, tendo vencido a importante batalha naval do Cabo de S. Vicente que foi decisiva para a vitória final dos liberais.

No Tomo II, Capítulo VII, encontramos referências ao concelho de Alcoutim nomeadamente a acção do barão de Sá (futuro Marquês de Sá da Bandeira) que se fez sentir em Martim Longo. São igualmente referidas acções no Guadiana, em Mértola e Castro Marim, e isto para só referir as zonas mais próximas.

Com introdução de António Ventura, é uma edição Caleidoscópio – Edição e Artes Gráficas, SA, de Março de 2005.

É constituído por 328 páginas no formato 17X24.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Capela de São Bento e o "monte" de Alcaria Queimada

Pequena nota

O "post" de hoje do TEMA, Ecos da Imprensa, é dedicado ao nosso visitante/leitor, A.C.P. que teve a amabilidade de me enviar por "e-mail" algumas considerações sobre o ALCOUTIM LIVRE e ao mesmo tempo que gostaria que eu escrevesse alguma coisa sobre o “monte” de Alcaria Queimada.

Naturalmente respondi às suas considerações, informando que já tinha escrito algo sobre esse monte, artigo que iria incluir brevemente em Ecos da Imprensa, o que hoje vai acontecer, esperando que ele lhe dê algumas “novidades".

O artigo quando foi publicado no Magazine do Jornal do Algarve só foi ilustrado com o desenho de nossa autoria que igualmente se publica. Além disso, juntamos hoje algumas fotografias.

Posso informar o leitor que já tendo passado uns bons anos, possuo mais elementos que tenciono juntar aos já dados a público, quando me for possível e oportuno.

Mais uma vez agradeço as suas palavras e o interesse manifestado.

JV

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 26 DE JULHO DE 1990 – MAGAZINE)



[A Capela de São Bento de Alcaria Queimada. Desenho de JV, 1990]

Desta vez, além de sairmos da vila de Alcoutim e aproveitando o Abril primaveril, fomos “descobrir” a única capela que não conhecíamos no concelho.

Rodando pela estrada nacional nº 124, encontrámos a placa indicativa de Alcaria Cova e seguimos a indicação, o que equivale a dizer que utilizámos a estrada municipal nº 508.
A manhã estava agradável, a nosso lado um reformado e uma jovem da área do jornalismo. Ainda que naturais do concelho, nada conheciam daquelas bandas.

A paisagem é a habitual do concelho: cerros atrás de cerros, estevais espessos, de onde em onde uma courela limpa, normalmente com amendoeiras.

Atravessámos a Ribeira da Foupana por ponte de quatro pilares, deixando assim a freguesia do Pereiro para entrarmos na de Vaqueiros.

A estrada agora é de macadame sem qualquer sinalização, pelo menos a nível toponímico. Vale-nos na circunstância o mapa do concelho que nos acompanha.

Cortámos à direita e pouco depois aparece-nos ao longe, uma pequena povoação onde se destaca um pequenino templo. Íamos chegar a Alcaria Queimada, o “monte” que procurávamos. Desde que deixámos a estrada nacional, não nos cruzámos com nenhum veículo automóvel e vimos dois ou três pastores. Foi tudo.

A pequena povoação tem presentemente catorze fogos habitados com cerca de quarenta habitantes. Em idade escolar, são sete, dois na primária, três na telescola e dois na secundária.

Em 1955 possuía duzentos e cinco moradores, segundo nos informaram.

Desenvolve-se pela encosta de uma pequena elevação, partindo do ponto de desenvolvimento que terá sido a pequena capelinha situada à entrada, junto a amplo largo, onde se encontram também o lavadouro público e o fontanário.

É airosa a povoação, onde o branco da cal impera (o que não é vulgar nesta região), e lhe dá uma nota agradável.

Os campos circunvizinhos ainda se encontram limpos de mato, estão semeados ou de pousio e alguns arborizados com amendoeiras.


[Vista Geral do Monte de Alcaria Queimada, Foto JV, 1992]

Alcaria é topónimo vulgaríssimo no Baixo-Alentejo e Alto Algarve e de origem Árabe – Al caria, que significa A aldeia. Na maior parte dos casos, está associado, para destrinça de outras. Queimada porquê? Teria sido alguma vez vítima de incêndio, natural ou propositado? É possível.

Este povo, além da agricultura e pastorícia, suas actividades fundamentais, teve outra, a de mineiro.

Da mina de Alcaria Queimada, foram concessionários, Antoine e Leroy. (1)

Esta mina de cobre foi registada em 2 de Outubro de 1859 e mais tarde (15.01.1873) também o foi por D. João Carvalho Diaz, cidadão espanhol.

Servida hoje por fontanários espalhados pela aldeia, passou bastantes problemas com o fornecimento do precioso líquido.

Na sessão da Câmara de 9 de Setembro de 1876, foi lido um requerimento dos habitantes do monte de Alcaria Queimada no qual fazendo ver a necessidade absoluta que têm de água para beber e tendo de abrir um poço novo, pedem que a Câmara concorra para a dita obra com vinte mil réis.

Depois de discutida largamente esta pretensão, a Câmara acordou em conceder um subsídio de seis mil réis, verba que calculam ser a despesa da mão do mestre e da cal, devendo tudo o resto correr por conta dos habitantes. (2)

Em 6 de Agosto de 1931 a Câmara resolve conceder quinhentos escudos de subsídio para o arranjo do poço.

Alguns alcarienses desempenharam funções de relevância a nível local. Assim, em 1850/51, Lourenço Cavaco fez parte da Junta de Paróquia de Vaqueiros; o mesmo e José Teixeira, eram em 1855 os maiores contribuintes da freguesia. Em 1858, o referido José Teixeira fazia parte do quadro dos vogais do conselho municipal e era Juiz eleito substituto. (3)

Em 1771 o Capitão Manuel Henriques, deste “monte” fez o seu manifesto de gado na Câmara de Alcoutim, nalgumas dezenas de cabeças com predomínio do gado caprino. Tudo indica que na altura desempenhasse as funções de Presidente da Câmara., visto ser ele que rubrica todas as folhas ainda existentes do livro.

Chegou a altura de falarmos na pequena capela que tem por orago, São Bento.

De planta rectangular, tem 5m X 8. Solo de mosaico e tecto de três panos. Quatro bancos compridos. Há missa ao 4º sábado de cada mês.

Fachada de empena de bico com armação de argamassa para suporte do pequeno sino. Sobre a porta rectangular, um pequeno óculo circular. A porta é debruada a azulejos brancos que sobre a verga se elevam em forma de cruz.

No bico da fachada, cruz de ferro forjado com algum interesse artístico. Anexa ao corpo da capela a sacristia e “confraria”, onde se lobriga um andor.

O adro é amplo e todo murado, destacando-se frente à porta um cruzeiro. A base de argamassa é cúbica, encimada por pirâmide quadrangular em cujo vértice se situa uma cruz trilobada de mármore.

O cruzeiro indica que o terreno onde está colocado é sagrado e pertence à capela. Funciona como um marco de propriedade.

O retábulo da ermida é datado de 1756/7 e foi adquirido por 10$000 réis. (4)


[A imagem do Senhor São Bento. Foto JV.]
Quanto à imagem de São Bento, Bispo, e de madeira pintada, datada de 1749/50, sendo considerada um exemplar de boa qualidade e em razoável estado de conservação.

Apresenta um báculo (símbolo do poder pastoral conferido aos bispos na sua sagração) na mão direita e um cálice na esquerda.

Além da imagem do padroeiro, o altar conta com um Cristo crucificado sobre cruz de madeira, em razoável estado de conservação sendo datado do século XIX. (5)

Sabe-se que o telhado da capelinha foi reparado em 1935 e encontramos várias inscrições que atestam arranjos mais ou menos recentes, o último dos quais em 1988, que incluiu a feitura nas proximidades, de um palco de alvenaria onde actua um conjunto musical no dia da festa.

Encontrando-se já electrificada, esse facto criou alguns problemas de ordem económica e o palco constituiu um investimento para fazer face às despesas.

Em 1799, das doze confrarias então existentes no concelho, a de São Bento de Alcaria Queimada era a segunda maior em saldo apresentado, só superada pela de Nª Sª da Conceição, na vila.

Estes saldos ficaram cativos até novas ordens, segundo ordem do Príncipe Regente, D. João, transmitida ao escrivão da Câmara, José Carlos de Freitas Azevedo.

Para o efeito, foi nomeado fiel depositário, Pedro José dos Reis. (6)

Também sabemos que em sessão municipal de 9 de Junho de 1866, foi apresentado um requerimento da Junta de Paróquia de Vaqueiros pedindo à Câmara que lhe autorizasse, por via de postura, o lançamento de uma derrama de 60 mil réis para com esta quantia mandar fazer o tecto e retocar a imagem do Senhor São Bento que “se achão num verdadeiro estado de ruína”. A Câmara, depois de ouvir o vereador da freguesia, deferiu o pedido.

A Capela de S. Bento de Alcaria Queimada e a de Santo António na vila, são as únicas do concelho de Alcoutim que não aparecem referidas nas visitações efectuada pela Ordem Militar de Santiago, de 1518 a 1565 (7), penso que por ainda não existirem.

A Romaria ao S. Bento é secular, reunindo o povo das redondezas e mesmo de terras distantes, a dezenas de quilómetros.

Esta festa profano-religiosa tem sofrido naturalmente as transformações do tempo, procurando adaptar-se e mantendo o fundamental.

Começa no dia 9 de Agosto e termina no dia seguinte.

Antigamente, e ouvimo-lo aos romeiros de então, partiam de manhã bem cedo para chegarem de noite (isto em relação à freguesia de Alcoutim) pois o caminho era difícil e percorrido de burro, quando não a pé.


[O altar da Capela de S. Bento. Foto de JV.]
Quem sofresse de dores de cabeça, metia-a três vezes num buraco do altar e com isso ficava livre desse flagelo, por uma temporada! O número de vezes acaba por ser variável, dependendo da fé de cada um.

As promessas eram pagas com pão cozido, de formato da parte do corpo que tinha sido curada pelo santo milagreiro.

Coutou-nos há vinte e três anos uma octogenária da freguesia de Alcoutim que tinha ido ao São Bento pagar uma promessa, oferecendo um bácoro pois a porca, que esteve doente, não tinha morrido.

Entretanto, as figuras de cera começaram a substituir as de pão mas ainda há quem atribua mais rigor às primeiras.

O pagador de promessas ao entrar na capela, dirige-se ao altar onde faz as suas orações de agradecimento pela graça concedida e entrega a figura de cera que consequentemente entra na posse do Santo, o que é o mesmo que dizer, na “confraria ou irmandade”.

A “irmandade ou confraria”, qualquer dos nomes, não é identificado pelos actuais responsáveis, é dirigida presentemente por três pessoas e uma tem a seu cargo “ficar à mesa das promessas”.

Dentro da própria capela se coloca pequena mesa apetrechada de figuras de cera que são vendidas ao mesmo preço, cuja taxa é de 140$00, fixada pelos responsáveis.

O abastecimento da mesa, quando necessário, faz-se naturalmente através do altar o que significa que a mesma peça pode ser vendida as vezes que forem necessárias.

Não há eleições para responsáveis, segundo nos informa um dos actuais – tem passado de pais para filhos – já o meu avô desempenhava este lugar, diz-nos o nosso interlocutor.

Antigamente os romeiros iam chegando pela noite fora, descansando das suas caminhadas pelo adro e terreiro, já que o tempo dá para isso.

Em 1980/81 veio uma crente de Espanha aqui pagar uma promessa. A sua progenitora era dos lados da serra de Serpa e foi ela que lhe referiu as qualidades “milagreiras” do São Bento de Alcaria Queimada.

O segundo dia é destinado ao folguedo, cantando-se e dançando-se. Em tempos que já lá vão, dançava-se ao toque da gaitinha de beiços, hoje actua um conjunto musical. É assim que a “irmandade” vai arranjando fundos para a sua manutenção, queixando-se do custo da energia eléctrica, cuja taxa mínima é elevada para os seus recursos.
A capelinha está impecavelmente caiada tal como o adro e tudo o que lhe diga respeito e a limpeza ali, não é palavra vã.

Estas capelinhas, espalhadas por todo o País e por vezes em locais quase inóspitos, têm quase sempre uma lenda para explicar a sua existência e a de São Bento não falhou.

Não chegou aos nossos dias com todos os seus elementos de ligação, que se foram diluindo no decorrer dos tempos, mas chegou.

A primitiva capela (o São Bento Velho), situava-se junto da ribeira da Foupana que passa a cerca de quinhentos metros de Alcaria Queimada, local onde, segundo os nossos narradores, ainda se notam vestígios como pedras “quadrejadas” e telhas.

Por sofrer as inundações da ribeira ou por qualquer outro motivo, o santo não gostava de lá estar e um pastor de Alcaria Cova encontrou-o na ribeira quando pastava os seus gados. Admirado, ao regressar ao monte, contou o sucedido mas para sua mágoa ninguém acreditou em tal.

Tempos depois, o encontro repetiu-se mas desta vez o pastor, para não lhe chamarem mentiroso, meteu-o numa saca e pôs-se a caminho do monte. Quando lá chegou, qual não foi o seu espanto pois a saca nada continha!

Não ficou por aqui a “estória” pois no próximo encontro cortou-lhe dois dedos que fechou bem na mão a fim de provar o que dizia.

Não me souberam explicar como veio para Alcaria Queimada, mas chamaram-me a atenção para o facto (vá ver) do Senhor São Bento ter dois dedos “cortos”.

Aqui tendes o que nos foi possível juntar sobre seta singela e interessante capelinha do nordeste algarvio, freguesia de Vaqueiros, concelho de Alcoutim.

NOTAS
(1)Dicionário Corográfico de Portugal, Américo Costa, Ed. 1968.
(2)Livro de Actas da Câmara Municipal de Alcoutim, de 2 de Janeiro de 1876 a27 de Abril de 1882.
(3)Livro de Actas da Câmara Municipal de Alcoutim, de 2 de Janeiro de 1850 a 4 de Fevereiro de 1858.
(4)A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim no século XVI ao século XIX Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, Faro, 1985.
(5)Idem, ibidem.
(6)Livro de Contas da Real Confraria de Nª Sª da Conceição, iniciado em 1785, págs. 15, 18 e 20 v.
(7)Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, CMVRSA, 1987

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A fábrica de foices de Alcoutim

Qual o segredo da sua tecnologia??




Esceve:
Gaspar Santos





A casa dos meus Pais era muito perto desta fábrica. Bastava descer até ao largo da Igreja Matriz, virar à esquerda no sentido da Ribeira de Cadavais e sempre por essa rua chegava-se lá. A parte fabril era no fim da rua do lado esquerdo. Do lado direito da rua encontrávamos uma casa, onde o Sr. Francisco do Rosário acondicionava as foices.

Havia, ainda, uma pequena varanda/terraço onde quase todos os dias se regalavam com um petisco. Era a Sacrístia. Este lado direito da rua terminava num quintal de semeadura, onde o Sr. António do Rosário tinha uma criação de coelhos.

Era um local ruidoso. Um motor continuamente a trabalhar, pontuado pelo bater de martelos em bigornas, umas vezes dessincronizados, outras vezes sincopados em som alternado. Um cheiro agradável do petróleo queimado nesse motor e, sobretudo, o cheiro a alcatrão da hulha provindo da destilação do carvão de pedra ao arder.

Este local sempre despertou em mim, desde muito cedo, uma grande atracção. Uma das primeiras vezes que me aproximei para espreitar o que estavam a fazer, teria então 6 ou 7 anos, fui recebido com esta expressão: Anda cá meu malandro que te corto a p.....
Proferida pelo Sr. Manuel Francisco enquanto empunhava um facalhão que ele estaria a amolar. Este homem, trabalhador da forja, senhor de umas barbas pretas, não cortadas havia mais de um mês, e a mostrar devido a AVC o vermelho da pálpebra de um olho, tinha um aspecto temível. Era uma jóia de homem. Mas eu não sabia. Corri até minha casa à velocidade máxima que as minhas fracas pernas permitiam!!!















A marca de foices que aqui fabricavam era J. Rosário & Castellejos que chegou a ter uma enorme produção, mesmo só trabalhando metade do ano. Vendiam para todo o Algarve, Baixo e Alto Alentejo numa época em que todos os cereais eram ceifados à mão. Quando se deu o aparecimento das ceifeiras mecânicas esta fábrica fechou. São as consequências inevitáveis das revoluções industriais.

Esta marca de foices resultou da fusão, segundo creio, da firma Rosário com outra firma mais pequena da família espanhola Teixeira com instalações nas traseiras da Rua D. Sancho II. Foi assim que o herdeiro da segunda, Luis Fernandes Teixeira (vulgo Luis Ferreiro) passou a empregado da firma Rosário.

Nas aldeias de Pereiro, Giões e Martinlongo também se fabricavam foices. No entanto as da marca Castellejos tinham uma qualidade e um preço competitivos resultantes da particularidade de toda a foice (corpo e corte) ser uma só peça, ao contrário das outras que eram fabricadas com duas peças: uma folha arqueada a que se caldeava a parte cortante.

Não sei se era um segredo esta sua fabricação, mas o certo é que os outros concorrentes não conseguiam utilizar um só aço.

Onde estava o segredo? Era muito importante a foice ser uma só peça em vez de duas peças, dada a redução de tempo e consequentemente do trabalho de fabrico. Pretendiam os seus donos não ser um segredo desta fábrica. Não ocultavam como se fazia. O certo é que os concorrentes tentavam usar o mesmo aço único e as foices ao serem temperadas partiam-se. A firma inglesa fornecedora das barrinhas de aço, a dada altura, mandou um investigador ver como faziam por lhes interessar vender esse material a mais fábricas. O Zé Pedro sempre me disse, mesmo após o fecho da fabricação, que não havia qualquer segredo e, a mim que não era concorrente, ele não precisava de o ocultar. Mas o que é certo é que depois de verem todo o fabrico e em especial a fase da tempera que era onde poderia residir o segredo (??) experimentavam fazer igual e as foices depois de temperadas partiam-se como o vidro quando cai no chão.

[Rua S. Salvador, em Alcoutim onde funcionou a oficina. Foto JV, 2009]
A fábrica funcionava num barracão de alvenaria com telhado suportado pelo tradicional caniço, ao lado de uma outra casa que servia de armazém do carvão e do aço. Num primeiro compartimento havia uma forja provida de 2 foles de pele que forneciam o ar para activar o carvão na forja ou frágua. No telheiro maior estavam situados os outros postos de trabalho: duas pedras de amolar ou rebolos de arenito vermelho de Silves em que dois operários deitados de barriga para baixo amolavam as foices; o motor a petróleo que accionava essas pedras de amolar por meio de correias de transmissão; uma outra forja também com os seus dois foles; uma bancada para os trabalhos mais delicados de serralharia, e um posto de trabalho tipo cavalete com uma pequena bigorna de secção rectangular onde eram picadas as foices.

Eram muitos os passos por que passava o aço até ser uma foice.

Começava pelo corte da barrinha de aço. Esta tinha de comprimento vários metros, 2,5 cm de largura e 4 mm de espessura. A barrinha era cortada em vários pedaços obliquamente, para uma ponta ser inserida no cabo e a outra para ser a extremidade da foice.

Em seguida, na primeira forja dois homens (mestre Madeira vulgo Chapa de Aço irmão do barbeiro João Ricardo e outro homem) batendo alternadamente com os respectivos martelos no troço de barrinha aquecida ao rubro, moldavam-na de acordo com uma foice modelo (foice de homem, de mulher, foicinha e podão).

Depois a foice era desgastada/amolada num dos rebolos até à espessura adequada, após o que aguardava o passo seguinte, num tanque com água de cal para entretanto não enferrujar. Vi executarem este trabalho Manuel Francisco, José Pires, Joaquim do Rosário, Henrique, etc.

Um dos sócios da firma, António Madeira do Rosário picava a foice com um escopro especial e um martelo. Isto consistia na formação de um serrilhado que aumentava o poder do corte e o conservava com o uso. Trabalhava sentado num cavalete de tronco de árvore que tinha na frente uma pequena bigorna. A foice era colocada em cima da bigorna e fixada por correias de couro esticadas com os pés. Ele determinava se a foice era esquerda ou direita conforme o lado em que a picava, pois na ceifa as ranhuras do picado ficam sempre para baixo.

Na segunda forja a foice era levada ao rubro, gravada a marca, e depois era mergulhada num grande bidão com água e óleo para lhe dar a têmpera. (Vi nesta tarefa Luís Ferreiro e após a sua morte o José Francisco Rita vulgo Zé Pedro).
Após a colocação do cabo de madeira que era fabricada ao torno em Giões, as foices eram levadas para a casa do outro lado da rua para serem embaladas. Era ocupação do gerente/comercializador, Francisco Madeira do Rosário. Consistia no acondicionamento das foices em caixas de cartão, depois de a lâmina ser embrulhada em fita de papel.

Executavam por encomenda outros trabalhos, nomeadamente peças simples de ferro forjado como camas, ferros náuticos (âncoras), até peças mais delicadas para substituição de outras avariadas em espingardas de caça, instrumentos para cortar carne e, inclusive, as peças de corte de ferro das suas guilhotinas e tesouras que exigiam temperas especiais. Faziam a manutenção do antigo relógio (já substituído) que dava horas com badaladas no sino da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, relógio aliás que tinha sido concebido por um ferreiro do concelho.

Os anos 50 e 60 do Século passado foram para o concelho de Alcoutim, como para muitos outros concelhos do interior o fim do artesanato, o fim da agricultura cerealifera, a grande debandada da emigração, o começo da desertificação.

A fábrica de foices de Alcoutim era uma indústria, fabricava em série e em linha de montagem mas também fechou por essa época.

A mudança tecnológica para a ceifa mecânica, obrigou-a a fechar e, tal como o artesanato do concelho, não soube adaptar-se aos novos tempos e mudar o seu programa de fabrico, nem se manteve como oficina de serralharia e de ferros.

Penso que isso se deveu a que os seus proprietários já não tinham idade, nem paciência, nem saber organizativo para conceber alterações de fabrico, e, por outro lado, tinham outras actividades industriais e comerciais, não tendo por isso necessidade de continuar com outro fabrico reformulado. Entretanto ter-se-ia perdido todo aquele espólio?

Não sei se há alguma referência nos núcleos museológicos do concelho a esta actividade fabril ou mesmo à de tipo artesanal de que havia várias. Se não há referência, espero que ainda se lhe venha a dar o destaque devido.

[O Zé Pedro é o que está de pé. à direita.]
Finalmente uma referência ao amigo já falecido Zé Pedro que aqui trabalhou. Era neto da “Última Boleira” como lhe chama José Varzeano no texto do seu blogue dia 15 de Junho de 2009. Com poucos anos ficou órfão de Pai e Mãe e foi educado em casa do Senhor António do Rosário, começando desde muito novo a trabalhar na forja. Por morte do Luís Ferreiro assumiu com competência a responsabilidade da sua substituição. Foi durante muitos anos dirigente e praticante de futebol no Grupo Desportivo de Alcoutim.

[O Henry é o de fato branco]
No início dos anos 50 do século passado, um casal dinamarquês que pintava a óleo paisagens campestres hospedou-se na Pensão Madeira (edifício onde é hoje a Farmácia Caimoto), com os seus três filhos também pintores, Henry e duas irmãs muito bonitas, esbeltas e com um ar muito saudável. Estas jovens tal como o irmão gostavam de se divertir. Iam a todos os bailes e eram muito requestadas pelos alcoutenejos, alguns muito bem postos e engravatados. Mas...foi o Zé Pedro, por vezes todo enfarruscado do trabalho, quem teve o mérito e a felicidade de conquistar o coração de uma delas.
Pensamos que aqui estará a razão e o remetente da mensagem que a “Última Boleira” recebeu da Dinamarca e mostrou ao José Varzeano. O casamento, porém, não veio a verificar-se.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A mesa

Estas pequenas mesas que na sua maioria eram de confecção local deixaram de ser usadas, salvo raríssimas excepções.

Havia-as de fabrico mais rústico como se pode ver nalguns exemplares ainda existentes.

Com uma altura de cerca de 0,60 m e 0,80 de comprimento, a largura é cerca de metade deste.

Possuíam, como este exemplar, uma gaveta relativamente alta a todo o comprimento, que servia para arrumação de garfos e colheres e alguma navalha que aqui designam por faca.

Os alcoutenejos, logo de miúdos, começavam a usar uma faquinha (navalha) para resolverem as suas necessidades e este hábito mantinha-se pela vida fora, o que ainda hoje se poderá verificar. Quando tocava a comer, as faquinhas saíam imediatamente dos bolsos para cortar o pão, o toucinho ou qualquer outro “conduto”.

Os garfos eram de ferro e as colheres primeiro de lata e depois de alumínio.

À hora habitual reunia-se a família à volta da pequena mesa, cada um sentado na sua pequena cadeira de tampo de tabua ou de junça e que já aqui apresentámos.

A “patroa”, a quem competia fazer a refeição e administrá-la, despejava da panela de barro e para dentro da pelengana o que tinha podido confeccionar e que tinha estado ao fogo.

Previamente tinha feito as sopas (ao companheiro competia muitas vezes essa tarefa) que absorviam o caldo que era acompanhado por legumes ou couve e o tempero, que era em geral azeite ou carne de porco, nomeadamente toucinho.

Se eram seis pessoas e o prato tinha carne, havia seis “presinhas”, uma para cada um.
É evidente que isto não se passava em todas as casas mas sim nas famílias rurais, no trabalhador à jorna e nos pequenos proprietários que só se distinguiam dos assalariados porque não trabalhavam para fora mas a sua vida era muito semelhante à destes.

Por todo o concelho podem-se ver ainda hoje muitas mesas destas, agora com funções completamente diferentes. As pelenganas continuam a sua tarefa mas cada um come no seu prato.
Este uso e costume não teve lugar exclusivamente no concelho de Alcoutim ou na serra algarvia, espalhava-se por muitas partes do país, senão todas.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Feira de Corpo de Deus



Esta Feira que se realiza na aldeia de Martim Longo juntamente com a de S. Marcos, que tem lugar na aldeia do Pereiro, são as mais antigas do concelho.

A informação é prestada quando o pároco de Martim Longo responde ao inquérito para o efeito organizado em 1758.

A pergunta 19 é feita nos seguintes termos: - Se tem feira, e em que dias, e quantos dura, se he franca ou cativa?
A resposta obtida foi a seguinte: Tem este lugar de Martinlongo sua feyra ou vigília no dia de Corpo de D., a qual dura so m te no tal dia, e ha noticia q. fora instituída franca, mas não consta do previlegio e hoje se conserva cativa. (1)
Já existia nesta data e pela leitura deduz-se que não era de recente instituição.

Naturalmente que Silva Lopes também a refere no seu valioso trabalho sobre o Algarve e fá-lo da seguinte forma: “Os habitantes fabricam muitas fazendas grosseiras de lã, tais como surianos, estamenhas, frizas e meias que levão a vender às feiras do Algarve, ou que alli lhes vêm comprar, principalmente na feira que se faz no dia de Corpo de Deus, em que concorre muita gente”. (2)

Pinho Leal, no seu conhecido Dicionário, considera-a uma grande feira.(3)

Nas nossas pesquisas encontrámos uma pequena referência a ela. Na Sessão da Câmara realizada na aldeia de Martim Longo, em 13 de Janeiro de 1843, foi deliberado demarcar no rossio o terreno para as eiras e para o “local da Feira de Corpo de Deus”. (4)

Os Anuários Comerciais dos anos trinta, além da feira no dia de Corpus Christi, referem outra a 17 de Agosto. Possivelmente esta feira teria sido criada em 1927, já que a Câmara autorizou em Sessão de 16 de Fevereiro a criação de uma feira anual na sede da freguesia, mas não indica a data.

A Feira do Corpo de Deus continua a realizar-se mas sem o esplendor e a mística de outros tempos. Ao contrário da de S. Marcos, realiza-se sem quase se dar por ela.

Não nos recordamos de alguma vez a termos visitado.

_____________________________________

(1)ANTT – Memórias Paroquiais, Freguesia de Martim Longo, concelho de Alcoutim.
(2)Corografia do Reino do Algarve, 1841
(3)Portugal Antigo e Moderno, Vol.V (1875), pág. 101.
(4)Livro dos Acórdãos da CMA (nº2) de 2 de Junho de 1841 a 30 de Dezembro de 1849.