Faleceu ontem em Lisboa, com 86 anos o alcoutenejo Fernando Vaz Martins que irá ser hoje sepultado no cemitério de Benfica.
Era o último vivo de uma série de irmãos e que conheci no funeral do mais velho, Leopoldo, ocorrido há muitos anos em Alcoutim.
Saiu novo da “pequena vila raiana” tendo feito toda a sua carreira de funcionário da então Direcção-Geral das Contribuições e Impostos em Serpa.
Apesar do afastamento físico da sua terra natal onde excepcionalmente se deslocava, manteve sempre com ela um sentimento de afectividade que só os mais íntimos conheceram, tendo estado na sua mente o desejo de ir morrer a Alcoutim.
A doença que o acabou por vitimar, não lhe permitiu satisfazer esse desejo.
As nossas condolências.
sábado, 1 de agosto de 2009
Rosmaninho, minha flor
Poemas de
José Temudo
ORVALHO DO MAR
Porque te chamaram assim,
meu Lindo rosmaninho?
Longe de mim pensar
que não fosse por carinho!
Que poeta, cego de amores,
ousou imaginar
que uma delicada haste de flores,
fosse orvalho do mar?
Porque te chamaram assim,
doce rosmaninho,
perdido nos secos cerros de Alcoutim,
entre estevas e alecrim?
Vila do Conde, 19 de Abril de 2007.
Uma simples flor
é mais do que apenas uma flor!
É forma,
é aroma,
é cor,
é vida!
Indiferente ou sentida?
Tem sentimentos uma flor?
Alegrias, tristezas, segurança, temor?
Se lhe falo com carinho,
o que sente o rosmaninho?
Só pode sentir amor!
24 de Dezembro de 2007.
ROSMANINHO SECO
Velho e relho,
ressequido, desfolhado,
sem cor, sem beleza,
sem odor, sem vida
que outra vida atraia,
meu rosmaninho querido,
o que te resta?
Se em ti já nada presta,
porque te manténs de pé, orgulhoso,
como se vivo fosses, formoso?
Se já por nada te interessas,
se já a ninguém interessas,
porque persistes
simulando vida,
se já não existes?
Assim seco e desnudo,
esta é aquela hora,
de te ires embora,
de mansinho,
meu triste rosmaninho,
meu pobre Zé Temudo!
Vila do Conde, 19 de Abril de 2007.
Um dia, quando eu for nada,
peguem em mim
e plantem-me, solitário,
num cerro duro e seco de Alcoutim.
Verão nascer, crescer e florir,
um forte e cheiroso tufo
de estevas, de rosmaninho e de alecrim.
Vila do Conde, em data incerta.
Pequena nota
É a primeira vez que apresentamos uma entrada de POESIA no ALCOUTIM LIVRE.
Fazemo-lo com muito prazer e até porque é área em que não entro. Não fui dotado com esse dom, ainda que haja na minha família várias pessoas que com ele tenha uma relação próxima.
Sendo assim, só o Espaço dos Amigos poderia colmatar essa falha o que hoje é feito por este Colega e Amigo, o que muito me orgulha.
Se é patente o bucolismo do poeta, o que não me admira, não deixa de surpreender-me a forte ligação que mantém com esta pequena vila raiana. Que se tivesse manifestado quando foi “arrancado pela raiz”, ainda que seja de admirar, compreende-se; o que para mim é difícil de entender é a permanência desse apego por toda a vida, chegando ao manifesto de“plantem-me solitário/ num cerro duro e seco de Alcoutim.” para alimento “de estevas, de rosmaninho e de alecrim.”
Recorrendo às palavras do autor,” mais não são do que um reflexo da saudade e do carinho que sempre senti por Alcoutim.”
Poucos até hoje têm sabido sentir assim Alcoutim.
Obrigado, Bom Amigo pela lição de fascínio que uma pequena terra pode motivar!

[Rua de Alcoutim onde viveu José Temudo na década de 30 do século passado. Foto JV, 2009]
José Temudo
ORVALHO DO MAR
Porque te chamaram assim,
meu Lindo rosmaninho?
Longe de mim pensar
que não fosse por carinho!
Que poeta, cego de amores,
ousou imaginar
que uma delicada haste de flores,
fosse orvalho do mar?
Porque te chamaram assim,
doce rosmaninho,
perdido nos secos cerros de Alcoutim,
entre estevas e alecrim?
Vila do Conde, 19 de Abril de 2007.
Uma simples flor
é mais do que apenas uma flor!
É forma,
é aroma,
é cor,
é vida!
Indiferente ou sentida?
Tem sentimentos uma flor?
Alegrias, tristezas, segurança, temor?
Se lhe falo com carinho,
o que sente o rosmaninho?
Só pode sentir amor!
24 de Dezembro de 2007.
ROSMANINHO SECO
Velho e relho,
ressequido, desfolhado,
sem cor, sem beleza,
sem odor, sem vida
que outra vida atraia,
meu rosmaninho querido,
o que te resta?
Se em ti já nada presta,
porque te manténs de pé, orgulhoso,
como se vivo fosses, formoso?
Se já por nada te interessas,
se já a ninguém interessas,
porque persistes
simulando vida,
se já não existes?
Assim seco e desnudo,
esta é aquela hora,
de te ires embora,
de mansinho,
meu triste rosmaninho,
meu pobre Zé Temudo!
Vila do Conde, 19 de Abril de 2007.
Um dia, quando eu for nada,
peguem em mim
e plantem-me, solitário,
num cerro duro e seco de Alcoutim.
Verão nascer, crescer e florir,
um forte e cheiroso tufo
de estevas, de rosmaninho e de alecrim.
Vila do Conde, em data incerta.
Pequena nota
É a primeira vez que apresentamos uma entrada de POESIA no ALCOUTIM LIVRE.
Fazemo-lo com muito prazer e até porque é área em que não entro. Não fui dotado com esse dom, ainda que haja na minha família várias pessoas que com ele tenha uma relação próxima.
Sendo assim, só o Espaço dos Amigos poderia colmatar essa falha o que hoje é feito por este Colega e Amigo, o que muito me orgulha.
Se é patente o bucolismo do poeta, o que não me admira, não deixa de surpreender-me a forte ligação que mantém com esta pequena vila raiana. Que se tivesse manifestado quando foi “arrancado pela raiz”, ainda que seja de admirar, compreende-se; o que para mim é difícil de entender é a permanência desse apego por toda a vida, chegando ao manifesto de“plantem-me solitário/ num cerro duro e seco de Alcoutim.” para alimento “de estevas, de rosmaninho e de alecrim.”
Recorrendo às palavras do autor,” mais não são do que um reflexo da saudade e do carinho que sempre senti por Alcoutim.”
Poucos até hoje têm sabido sentir assim Alcoutim.
Obrigado, Bom Amigo pela lição de fascínio que uma pequena terra pode motivar!

[Rua de Alcoutim onde viveu José Temudo na década de 30 do século passado. Foto JV, 2009]
domingo, 26 de julho de 2009
Rua da Misericórdia
Esta fotografia, de fins da década de sessenta do século passado, foi das primeiras que tirei em Alcoutim.Na Idade Média, a rede viária era constituída por duas artérias, a rua (direita) das Portas de Mértola e a rua (direita) das Portas de Tavira que aproximando-se do rio, desembocavam na praça ou terreiro onde se situava o poder político, administrativo judicial e senhorial, além das relações comerciais, ligadas fundamentalmente ao rio.
Com o decorrer dos tempos, a rua direita das Portas de Tavira foi dividida em duas, a Rua D. Sancho II e a do Dr. João Dias, enquanto a das Portas de Mértola manteve este nome e deu seguimento à Rua da Misericórdia.
Enquanto a primeira foi perdendo o movimento que tinha por falta de seguimento condigno, a segunda com a operacionalidade da estrada 122-1 foi-se mantendo ou mesmo recrudescendo.
Quando em meados do século passado começaram a chegar à vila as camionetas de carreira que vieram substituir o transporte fluvial, era por esta rua que passavam para chegar à praça, já da República.
Entretanto as camionetas foram-se transformando no sentido de transportar mais pessoas e então já não podiam passar por tais artérias, pelo que foi aberto um novo acesso ainda existente por aquilo a que o povo chamava “Os Trases” e que era constituído por quintais pertencentes às habitações e que iam até junto aos restos da muralha da vila.
Apesar desta machadada a rua continuou com algum movimento, pois era lá que se situava a Misericórdia e onde pontificava o seu pequeno Hospital fundado pelo Dr. João Francisco Dias e ao qual o seu filho, o saudoso Dr. João Lopes Dias deu, digno seguimento. Acabou-se o “João Semana”!
Quem conhece hoje o local pode estabelecer as diferenças operadas em relação a esta fotografia
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Alcaria Alta, foi o mais importante"monte"da freguesia de Giões
A povoação de Alcaria Alta, e que por não ser sede de freguesia é designada por “monte”, situa-se no concelho de Alcoutim, de onde dista cerca de 25 km e na freguesia de Giões ficando a uma distância de aproximadamente 4 km a Sul da sede de freguesia.Em 1987 (1) aparece-nos referido que se acaba de aprovar, entre outros, o concurso de um caminho rural da estrada nacional 124 a Alcaria Alta.
Desde há muito que havia uma vereda por onde se passava com dificuldade e que chegámos a utilizar.
O caminho é asfaltado e os estevais dominam. Notava-se o traçado telefónico pois um posto público foi lá instalado em 1989. (2) O piso, então de terra batida, encontrava-se (1977) em muito mau estado. Algumas amendoeiras e um ou outro eucalipto.
Presentemente (2009), tal como a foto mostra, encontra-se pelo menos reparada no exterior, talvez resultante da remodelação efectuada em 2002. (3)
A criação de um posto de ensino escolar é solicitada em 1932 (4), pedido reforçado dois anos depois. (5)
Será altura de referir o topónimo muito vulgar em Espanha e em Portugal, principalmente a sul no Tejo, Alentejo e Algarve.
Alcaria deriva do árabe al-qariâ, aldeia, vila, pequena povoação (6). Temos conhecimento de doze povoações assim designadas e podemos-lhe juntar mais quatro no plural, contudo, à grande maioria juntou-se-lhe um qualificativo para a distinguir das outras, nomeadamente as mais próximas. A esta, devido à sua posição topográfica, juntaram-lhe Alta. Encontramos duas no país, a outra situa-se no concelho de Almodôvar, freguesia de Gomes Aires.
Os qualificativos têm origens diversas como Branda, Ruiva, Cova, Cume, Fria, Fernão Vaz, etc. (7)
Na freguesia de Cachopo, existe Alcarias Baixas.
Os arruamentos vieram a ser pavimentados conforme adjudicação que teve lugar em reunião da Câmara de 22 de Julho de 1992. (8) Mais tarde (1999) veio a verificar-se uma nova intervenção neste sentido. (9)
A par de recentes edificações e que por vezes nada têm a ver com a região, ainda se vêem velhas construções de xisto, resquícios de velhas e desactivadas pilheiras, tal como fornos de cozer pão.
A possibilidade da recolha de água potável foi sempre uma preocupação destas povoações que tinham muitas dificuldades para receber um pequeno subsídio municipal ou estatal.
Assim, em 1933, é concedido pelo Estado, um subsídio para a abertura de um poço, (10) mas não se conseguem arranjar homens a menos de 130$00 por metro de profundidade, apesar da Câmara fornecer dinamite e fulminantes. Devido à muita necessidade do mesmo foi autorizado pagar mais 10$00 por metro, sendo encarregado de fiscalizar os trabalhos a efectuar o proprietário local, Manuel Tomás Lourenço. A abertura do poço veio a custar a quantia de 1.540$00
Era um trabalho diário e árduo ir à água ao poço que ficava sempre em local baixo, ao passo que as habitações se situavam normalmente em posições altas e de uma maneira geral a distâncias consideráveis.
Depois do fornecimento de água por fontanários, em 2002 já tinha sido feita a ligação aos domicílios. (11)
Nas redondezas, algumas árvores vicejam, principalmente alfarrobeiras e amendoeiras.
Em 1851 (12) foi concedido terreno no rossio do monte para se construirem umas casas para habitação.
Da povoação avistam-se Cachopo, Martim Longo e alguns “montes” do concelho de Mértola.
A pastorícia e a cerealicultura foram as actividades principais e em 1997 ainda existia um rebanho de 1100 ovinos.
O Pároco da freguesia que respondeu ao inquérito formulado pelas Memórias Paroquiais (1758) e ao contrário do que todos os outros do concelho fizeram, não indica por montes a sua população, mas sim no seu conjunto. A sede de freguesia tinha 377 pessoas enquanto os montes possuíam 412.
Em 1839 Silva Lopes atribui-lhe 43 fogos, seguindo-se Farelos com 30 e Clarines com 20.
Nas proximidades de Alcaria Alta foram identificados vários locais arqueológicos, como no sítio, Vila do Lavajo e no Curralão, situado a cerca de 1km, numa zona rodeada pelos barrancos da Laginha e do Bem Parece.
A actividade mineira está representada pela mina da Couraça, a céu aberto e com vestígios de exploração antiga. (14)
Em 1976 tinha 81 habitantes e em 1991 tinha descido para 42, sendo ultrapassado por Farelos com 87 e Clarines com 65.
Terra pobre, a sua rudeza não deixa de ser bela. É face de um outro Algarve que não conhece o turismo e que ainda vive à espera do dia dos prodígios.
Porém, este isolamento, este silêncio que nos envolve, esta gente que nos escancara a porta com generosidade para nos oferecer aquilo que produz, como o mel, o presunto, as azeitonas, o pão caseiro ou o chá para a saúde, tudo isto são as raízes esquecidas da nossa essencialidade.
(...)
Ouve-se o assobio do camponês e o cântico dos pássaros. O gado descansa em currais de pedra solta.
São estas algumas das palavras que Luís Monteiro Pereira escreveu sobre “Um fim-de-semana em Alcaria Alta”. (15)
_____________________________________________
Notas
(1)-“Abertura de mais quatro caminhos rurais”, in Boletim Municipal nº 1 de Outubro de 1987, pág. 5.
(2)Boletim Municipal nº 5, de Setembro de 1989, pág.2
(3)Alcoutim, Revista Municipal nº 9 de Dezembro de 2002, pág. 10
(4)-Acta da Sessão da C.M.A. de 12 de Janeiro.
(5)- Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Janeiro.
(6)–Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizontes/Confluência, 2ª Edição, 1993.
(7)Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A. C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1981.
(8) Boletim Municipal nº 11, de Setembro de 1992, pág. 4.
(9)Alcoutim, Revista Municipal nº 6 de Janeiro de 1999, pág. 10.
(10)Acta da Sessão da C.M. Alcoutim de 27 de Julho.
(11)Alcoutim, Revista Municipal nº 9, de Dezembro de 2002, pág. 10
(12)Acta da Sessão da C.M.Alcoutim de 12 de Janeiro.
(13)Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Algarve em Foco, Editora, Edição 1988 (fac-similada), pág.496.
(14)– “O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica”Helena Catarino, in al-‘ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98.
(15)In Jornal do Algarve de 25 de Abril de 1991.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Panela de barro
Pegámos num dicionário, o que estava mais próximo e procurámos “panela”. Esclarece:- s.f. Vaso ou pote de barro ou de metal para serviços culinários. Procurámos depois num mais recente em que a explicação é a mesma, passando o barro do primeiro plano, para o segundo.Compreende-se assim, mas nem só por isto que apareceu naturalmente primeiro o barro e só depois se começaram a utilizar metais de vários tipos.
O uso da panela de barro em Alcoutim está praticamente extinto como facilmente se compreende, devido a toda uma evolução de vida que se foi processando.
Nos princípios do século passado o uso da panela de barro estava generalizado a todo o concelho, nomeadamente nos meios mais rurais, os montes, o que se veio a estender até meados do século.
A confecção das refeições era feita através da combustão da lenha, representada principalmente pelas estevas e onde aparecia algum tronco (cepo) de oliveira, amendoeira, chaparreiro ou qualquer outro proveniente de limpeza ou secagem das árvores.
A lenha era por essas alturas muito escassa pois os campos andavam limpos, todo o terreno aproveitado para as sementeiras.
Por outro lado havia que cozer a amassadura semanal e os fornos precisavam igualmente de serem aquecidos.
As refeições faziam-se na “casa do fogo” tivesse ou não chaminé. O vulgar era acender-se o fogo a um canto da casa e o fumo saía por uma telha que se levantava.
As panelas de barro, bojudas, eram ligeiramente mais altas do que largas. Umas eram vidradas, outras não e havia-as de vários tamanhos.
Destinavam-se principalmente à feitura dos “jantares” de couve, feijão e grão, pratos muito substanciais e do agrado dos alcoutenejos, ainda que cada vez haja menos pessoas que os saibam confeccionar. Primeiro porque se deixaram de fazer nas panelas de barro, depois porque o tempo da cozedura encurtou bastante e os ingredientes deixaram de ser de produção local, nomeadamente as carnes e os enchidos.Punha-se a panela ao fogo antes de se sair para os trabalhos do campo e quando se regressava, estava pronto a servir. Em lume brando, ia cozendo lentamente, apurando assim a sua feitura.
Confesso que nunca comi um “jantar” feito nestes moldes, limito-me a descrever o que me têm contado, mas é fácil concluir, devido às razões apontadas deviam ser muito bons.
Aqui fica o que pudemos compilar sobre a velha panela de barro que caiu naturalmente em desuso.
Quem ainda as tem? Poucos serão.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
As romãzeiras

[Entre muitas, três romãs colhidas em 2006 num monte da freguesia de Alcoutim. Pesaram 2980 g. Foto JV]
Estes arbustos, muitas vezes em forma de árvores mas sem nunca constituírem porte assinalável, tiveram e têm importância na vida alcouteneja, ainda que nas últimas décadas não nos pareça terem merecido a atenção dos alcoutenenses.
Da família das punicáceas (púnica gramatum, Lin.) é originária do Oriente e cultiva-se nas regiões quentes e temperadas.
O seu fruto, (comestível) a romã ou romeira, (não virá daí o hábito dos alcoutenejos chamarem romaneira à planta?) tem forma arredondada e casca avermelhada e nalgumas espécies acinzentada e encerra grande quantidade de bagos vermelhos e sumarentos.
Dá uma flor grande de um vermelho vivo. Quando está em plena floração, este vermelho vivo contrasta com o verde das folhas fasciculadas que ainda encerram a beleza de parecerem envernizadas.
Lembro-me perfeitamente que na minha região natal as romãs, os diospiros e os marmelos eram considerados frutos de classe inferior e que além de serem baratos em relação aos outros tinham pouca procura.
A “fruta” produzida em Alcoutim devido aos parâmetros conhecidos, como o solo, clima e meios de comunicação, por exemplo, era fundamentalmente constituída por figos, marmelos, romãs, uvas, algumas peras e laranjas, isto na margem do rio ou das ribeiras que devido à presença da água, possibilitava a sua cultura.
Na Cheia Grande de 1876 as notícias publicadas referem que “Desde Mértola até Castro Marim, ambas as margens do Guadiana estavam orladas e revestidas de formoso arvoredo, nomeadamente figueiras e romãzeiras espontâneas, silvestres que, pendendo sobre o rio, não só o embelezavam mas davam abrigo aos barcos, no Verão, e aos marinheiros, passageiros e pescadores. Tudo a cheia derrubou, deixando ambas as margens escalvadas e nuas”.
Praticamente todas as várzeas do rio, junto à água, tinham romãzeiras e marmeleiros que além dos frutos que davam, estabilizavam as terras o que era muito importante.
Ouvi falar aos alcoutenejos em duas qualidades de romãs, umas boas, as assarias e outras que não prestavam, as de grainha de pau.
Era vulgar ver pessoas comerem romãs acompanhadas com pão!
As alcoutenejas deslocavam-se ao S. Mateus em Mértola onde procuravam vender as suas romãs, o que faziam igualmente nos “Pagos” da Mina de S. Domingos.
Hoje, com as possibilidades de captação de água podem-se ter romãzeiras em qualquer parte e se a qualidade for boa e se tiver tratamento, obtêm-se exemplares de excelente qualidade.
Hoje a romã ombreia com qualquer outra “fruta” a nível de preço e de procura.As romãzeiras devem ser acarinhadas pelos alcoutenejos e os seus frutos poderão ser uma referência nas sobremesas.
Não esquecer que se faz uma excelente ratáfia de romã.
Por outro lado a casca das raízes é um bom tenífugo o que significa dizer que expulsa a ténia.
A casca e coroa da romã são usadas em tratamentos de hemorroidal.
terça-feira, 21 de julho de 2009
José Manuel Pereira

Nasceu em Vila Real de Santo António a 17 de Junho de 1922 tendo falecido no Hospital Distrital de Faro no dia 29 de Março de 1998, vítima de doença que nos últimos anos o vinha afectando.
Iniciou a sua vida profissional na antiga Tipografia Socorro, como aprendiz de tipógrafo, por isso numa actividade ligada à escrita e à leitura.
Ao cumprir o serviço militar, foi mobilizado para os Açores, como furriel-miliciano.
Convivendo com oficiais americanos e empresários britânicos, estudou o inglês de que se tornou um profundo conhecedor, tendo fama de bom explicador para os alunos do ensino liceal.
Vocacionado para as línguas e com o sentido de melhor compreender as grandes obras da literatura europeia, levou-o a estudar, pelos seus próprios meios as línguas francesa, espanhola e alemã, além da inglesa entretanto assimilada.
Com o advento do Turismo, servindo desinteressadamente como cicerone para visitantes ilustres interessados no passado histórico da então vila pombalina, o que lhe deu grande traquejo e cimentou os seus conhecimentos.
Quando o jornalista profissional José Barão, em 1957 decidiu fundar o Jornal do Algarve, convida-o para nele colaborar.
Em 4 de Setembro de 1965, assume o cargo de editor que José Barão justifica “... pela sua devoção ao jornalismo, um somatório de predicados normais e intelectuais que o recomendam para o cargo em que foi investido”.
Com o falecimento de José Barão ocorrido em 1966, assume a direcção do Jornal.
Com o 25 de Abril passaram-se em todos os jornais diários e regionais algumas contradições que levaram ao enfraquecimento do seu dinamismo, acabando por se extinguirem muitos. José Manuel Pereira afasta-se voluntariamente devido ao rigor e independência como dirigia o jornal não cedendo a pressões nem a interesses politico -partidários.
Com novos proprietários em 1983, José Manuel Pereira volta à direcção do semanário regional para lhe dar credibilidade.
Em 1986 e quando o jornal já sentia estabilidade, José Manuel Pereira regressa, por vontade própria,a simples colaborador mantendo as suas apreciadas crónicas, “Brisas do Guadiana” que escreveu até à morte.
José Manuel Pereira era um autodidacta que possuía uma apreciável cultura. Gostava do debate das ideias e interessava-se pelos movimentos artísticos e culturais.
Era conhecido pelo seu carácter de homem sério e honrado. A fraternidade foi sempre uma palavra que nunca descurou pois aplicava-a a todo o instante.
Colaborou como dirigente de várias associações locais, como a Associação Humanitária dos Bombeiros de Vila Real de Santo António, do Glória Futebol Clube, Cine Clube e ao Grupo de Escuteiros de que era chefe.
Colaborou em vários jornais e revistas tendo sido correspondente de alguns diários.
Em 1991 aceitou que a Câmara Municipal lhe publicasse o seu único livro, “Rimas de Quando Jovem” no qual se revelou um apreciável poeta.
Foi um homem que procurou passar sempre sem ser notado.
É sempre possível dizer mais sobre um homem desta estirpe.
_____________________________________________
“Faleceu um dos “históricos” do Jornal do Algarve”, F Reis, in Jornal do Algarve de 2 de Abril de 1998.
“José Manuel Pereira, o jornalista e o cidadão”, Post de 2 de Julho de 2009 http://algarvehistoriacultura.blogspot.com
Pequena nota.
Conheci pessoalmente José Manuel Pereira com quem falei muito poucas vezes mas as suficientes para reparar que estava ali um grande homem, tanto na sua estatura física como intelectual e moral.
Guardo no meu arquivo pessoal uma série de cartas que teve a amabilidade de me escrever e em que revela todo o interesse nos escritos que lhe ia enviando para publicação.
Ainda que já tivesse escrito para outros jornais, as suas palavras tiveram grande influência para que o continuasse a fazer e não esqueço que um dia, com a sua voz calma suave e compassada, ouvi-lhe dizer:- Os seus textos já começam a ultrapassar o âmbito do jornal, tem que começar a pensar num livro – um livro, é sempre um livro.
Ainda que na altura não me sentisse com tal aptidão, a verdade é que essas palavras não caíram em saco roto e no primeiro livro que apareceu em 1985 não podia deixar de referi-lo nos meus agradecimentos.
Tive muitíssimo gosto em oferecer-lhe um exemplar. Nas suas “Brisas do Guadiana de 6 de Fevereiro de 1986 comentou e analisou o trabalho em parâmetros que muito me sensibilizaram, o que igualmente veio a fazer com outras publicações.
A minha colaboração no jornal esteve sempre ligada à sua presença.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Uma Festa em Giões, percursora das actuais?
[Igreja de Nª Sª da Assunção, 2009. Foto JV]As feiras, mercados e festas foram sempre apanágio do povo português e no concelho de Alcoutim, apesar do seu isolamento, e talvez por esse facto, também tiveram e têm o seu lugar.
Nota-se nos últimos anos a tentativa de manutenção da Festa Anual na aldeia de Giões que se realiza em 15 de Agosto, em honra do orago, Nª Sª da Assunção.
Este pequeno apontamento destina-se a referir uma festa, como o título indica, e isolada no tempo.
O gionense, Manuel Francisco Passos, resolveu fazer um peditório no sentido do seu produto dar origem a uma festa em Honra de Nª Sª da Assunção, que como já se disse é orago da freguesia, o que efectivamente veio a ter lugar no dia 15 de Agosto de 1883.
Depois de pagas todas as despesas, o Sr. Passos declarou à Junta que ainda tinha em seu poder 9020 réis que queria empregar na festa à mesma Senhora, no presente ano (1884).
Respondendo à Junta de Paróquia que tinha dúvidas, a Câmara informa que não deve existir qualquer complicação, tendo andado bem o dito Passos, bastando à Junta no seu orçamento anual lançar a seguinte verba de receita:- Esmolas com a aplicação à Festa da Senhora da Assumpção, em poder de Manuel Francisco Passos - 9020 réis. (1)
Nestas alturas, o Povo era assim!
NOTA
(1)-Of. nº 52 de 15 de Março de 1884, ao Presidente da Junta de Paróquia de Giões.
domingo, 19 de julho de 2009
A ermida do Espírito Santo, templo desaparecido na vila de Alcoutim

É a quarta vez que vamos escrever sobre este pequeno e desaparecido templo da vila de Alcoutim.
A primeira foi uma levíssima referência no nosso trabalho, Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia) (1) que fiz acompanhar de um pequeno desenho das suas ruínas que ainda existiam. Além do nome da invocação, pouco ou nada digo, afirmando até que nas minhas leituras nos arquivos locais nada tinha encontrado sobre ele, o que até hoje se mantém.
Quando o emérito historiador algarvio, Doutor Hugo Cavaco,publicou “Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio (Subsídios para o estudo da História da Arte no Algarve)”, numa edição da CMVRSA – MCMLXXXVII, foram colocados à disposição de todos, dados de muito interesse que vão de 1518 a 1566, que nos ajudam a conhecer melhor aqueles templos e nos revelam outros aspectos da vida local, proporcionaram-me um artigo mais completo que publicámos num semanário da região. (2)
Depois, e numa terceira abordagem, fizemo-lo após termos encontrado pela primeira vez uma referência a ela num assento de óbito.
Ainda que tenhamos alguma coisa de novo a acrescentar pela leitura que fizemos das Memórias Paroquiais – 1758, procuraremos compilar os elementos que demos a público.
Quando chegámos à vila em finais da década de sessenta do século passado, reparámos no que restava das suas ruínas e era bem pouco. Parte da fachada principal com o local do campanário, sobre o qual fazia o seu ninho um casal de cegonhas. Reconhecia-se muito bem o pequeno adro, empedrado, com parte dos muros e ainda se podia avaliar a área do templo devido à existência de ruínas das paredes.
[O templo visto por Duarte de Armas, Sec. XVI]
Foi tudo o que na altura podemos observar.
A nossa curiosidade por estes assuntos, levou-nos a indagar a evocação da ermidinha, mas as pessoas só nos sabiam dizer que era a igreja do Rossio e mais nada.
Tempos depois, uma alcouteneja, D. Conceição Cunha, filha do médico Dr. José Cunha, disse-nos que se tratava da Capela do Espírito Santo.
O passo seguinte sobre a capela, a que pensamos talvez ser mais adequado chamar ermida, por se encontrar sozinha, foi a constatação de a ver representada num desenho que o Doutor José Leite de Vasconcellos ofereceu a Manuel António Torres, considerado seu informador epistolar (3) alcoutenejo de destaque na sua época. Só mais tarde vim a saber que essa cópia tinha sido tirada do hoje bem conhecido Livro das Fortalezas de Duarte de Armas (Séc.XVI)
Em 1565 diz-se que está junto a esta villa da banda d’alem da ribeira d`Alcoutineio.
É indicada como sendo huma soo casa pequena, paredes até o meo de pedra e barro e dahi para cima de taipa, telhada de duas ágoas, madeirada de castanho emcaniçada.
Tinha um altar de alvenaria e no lugar do retábulo estava a imagem de Nossa Senhora com os Apóstolos e a vinda do Espírito Santo.
A ermida reparava-se à custa de esmolas que se pediam ao povo.
Em 1565 é considerada pelo Prior Visitador do Mestrado da Ordem de Santiago, João Fernandes Barregão, com necessidade de reparação e recomenda-se ao prior da igreja matriz, António Picanço, que junto do povo solicite esmolas para o efeito, pois a ele compete apresentá-la bem reparada e ornada para o serviço de Deus.(4)
Era tradição oral e ouvi-o dizer a alguns alcoutenejos que quando do domínio dos espanhóis, o sino desta ermida tinha sido levado para a matriz de Sanlúcar e lá rachou e foi substituído, e que os alcoutenejos nunca esqueceram o seu som.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, respondendo à pergunta 13, o pároco de S. Salvador escreveu: - a Irmida do Espírito Sancto está no Rocio da villa perto da mesma villa para a banda do norte e todas estas Irmidas são sojeitas ao Ordinário deste Bispado e à Parochia.
Em 1843 procedeu-se à alienação de grande parte do rossio por proposta de um vereador, logo secundado por toda a Câmara. Foram feitos vinte e sete talhões mas nunca consegui encontrar a relação de quem os arrematou. Sumiu-se, como por encanto!
Teria feito a ermida parte de algum dos lotes? É muito possível que sim.
Em Novembro de 2007, deslocámo-nos ao Arquivo Distrital de Faro no sentido de encontrarmos alguns dados de interesse para um trabalho que andávamos realizando e que veio dar origem a A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente». Ao pesquisar os assentos de óbito da freguesia de Alcoutim, aparecem-me dois, seguidos e do mesmo dia, 20 de Agosto de 1855, o primeiro referente a D. Maria do Carmo Xavier Casqueiro de Sampaio, casada com Manuel Francisco Piçarra, natural da cidade de Elvas, residente na cidade de Tavira, o outro de Eduardo Augusto Xavier Casqueiro de Sampaio, solteiro, natural da vila de Moira (Moura) igualmente residente em Tavira e que presumo serem irmãos ou pelo menos parentes próximos. Não se indica a idade em qualquer deles e os assentos são lavrados pelo P. António José Madeira de Freitas (tio).
O que nos chamou a atenção foi o facto de ambos terem sido sepultados na Ermida do Espírito Santo, extramuros desta Vila de Alcoutim.Significará isto que nessa altura a ermida ainda se encontraria de pé e ao culto?
Não encontrámos nas proximidades daquela data mais ninguém com tal sepultura.
Pessoas que viviam em Tavira, que teriam vindo fazer a Alcoutim? Teriam aqui familiares ou seriam aqui proprietários? Talvez ambas as coisas.
A família Xavier por essa altura possuía vários elementos espalhados pelo concelho.
A situação sugere-nos a deslocação das vítimas de Tavira, onde a cólera-morbo já se faria sentir, para estas paragens de ares mais puros e com a epidemia mais distante.
A sepultura na ermida porquê, uma vez que o cemitério já estava em funcionamento a alguns anos?
Sugerimos duas hipóteses: ou a ermida pertencia à família, obtida após a implantação do liberalismo, fazendo parte de um dos vinte e sete talhões que já referimos (5) e assim a família teria o interesse e autorização para o efeito ou tratando de vitimação por tal doença haveria a necessidade da sepultura ter lugar em local distante para evitar contágios e daí a referência no assento a extramuros desta Vila.
Cerca de 20 anos depois, na Cheia Grande de 1876, não encontrámos qualquer referência à Ermida, mas sabemos que a maior prejudicada com a enchente do Guadiana foi D. Ana Xavier de Brito Teixeira (6) que poderá ser da mesma família.Igualmente por esta altura, D. Júlia Xavier de Brito era proprietária nesta zona. (7)
Afirmava o alcoutenense Prof. Trindade e Lima que constava ter sido destruída por um raio e profanada pela impiedade dos homens, mas não indicava quando. (8)

[Lar da 3ª Idade acabado de construir]
As suas ruínas foram removidas em 1985 para dar lugar à construção do Lar para Idosos.
Notas
(1)Edição da Câmara Municipal de Alcoutim, 1985.
(2)“A desaparecida Ermida do Espírito Santo, na Vila de Alcoutim”, in Jornal do Algarve de 2 de Fevereiro de 1989.
(3)Etnografia Portuguesa, Tentame de Sistematização pelo Dr.J. Leite de Vasconcellos, Vol. VI, organizado por M. Viegas Guerreiro, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.
(4)Visitações da Ordem de Santiago no sotavento Algarvio..., Hugo Cavaco, 1987.
(5)“Coisas Alcoutenejas – Os Rossios”, José Varzeano, in Jornal do Algarve – magazine, 30 de Junho de 1994.
(6) Acta da Sessão da C.M.Alcoutim, realizada na Capela de Nª Sª da Conceição em 21 de Dezembro de 1876.
(7) Acta da Sessão ca C. M. de Alcoutim de 21 de Setembro de 1876.
(8)“Pequenos Apontamentos – Turismo”, in O Povo Algarvio, Tavira, 5 de Outubro de 1974.
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sábado, 18 de julho de 2009
Páginas da História de Santarém

O Escaparate de hoje pode à primeira vista pensar-se que nada tem a ver com Alcoutim, mas não é verdade, como tentaremos explicar.O seu autor é o Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, o emérito historiador que nos deu o seu importante aval para que o meu livro, Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia) viesse a público. Sem ele, possivelmente ainda estaria na gaveta.
Trata-se de uma colecção de muitas dezenas de artigos, que o autor durante os anos fez publicar na imprensa regional, nomeadamente no Correio do Ribatejo de Santarém e na Vida Ribatejana de Vila Franca de Xira.
Este 1º Volume de 580 páginas, de 0,16X0,23 m, abrange duas temáticas, “Estudos Históricos” e “Santarenos Ilustre e Adoptivos”.
Já conhecia um número razoável destes artigos mas outros para mim foram uma autêntica novidade e estão a constituir a minha última leitura diária.
A edição é da Academia Portuguesa da História (Lisboa, MMVIII) com o patrocínio da Câmara Municipal de Santarém e o apoio da Fundação Eng. António de Almeida.
O prefácio é da Professora Doutora Manuela Mendonça que substituiu o autor na Presidência da Academia Portuguesa da História.
O exemplar foi-me oferecido pela Câmara Municipal de Santarém.















