domingo, 9 de agosto de 2009

Alcoutim em 277º lugar entre os 278 concelhos do continente!


Quando hoje (dia 6) de manhã abri o meu e-mail tinha várias entradas com valores diferenciados.

Alguém, conhecendo bem as minhas motivações, teve a amabilidade de me enviar um trabalho científico elaborado na Universidade da Beira Interior pelo Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social.

O estudo permite aferir o nível de desenvolvimento económico e social ou de bem-estar de cada um dos 278 concelho do continente.

Um estudo é sempre um estudo e sabe-se que as metodologias podem ser diferentes e apresentar outros resultados, mas é este o conhecido.

Qualquer outro que apareça e se dele tiver conhecimento não o deixarei de referir aqui.

Como não podia deixar de ser são abrangidas diferentes áreas tais como equipamentos de comunicação, culturais, de saúde, educativos (...) eu sei lá, um sem número de parâmetros por onde já dei uma vista de olhos e que qualquer interessado no assunto pode fazer.

Não sou ninguém para me pronunciar sobre o trabalho que naturalmente me chamou a atenção quanto aos resultados obtidos.

Vamos ver o que se passou nos quatro concelhos que constituem o Baixo Guadiana, esperando que no próximo número do Jornal do Baixo Guadiana eles venham a ser convenientemente tratados por quem estiver habilitado a fazê-lo.


23 – VILA REAL DE STO. ANTÓNIO

61 – CASTRO MARIM

262 – MÉRTOLA

277 – ALCOUTIM

Estes resultados foram obtidos em 2009 com dados de 2006.

Postos em confronto com os de 2007, com dados de 2004, verificaram-se as seguintes alterações:

VILA REAL DE STO. ANTÓNIO desceu 6 lugares

CASTRO MARIM subiu 32,

MÉRTOLA desceu 7 e

ALCOUTIM desceu 8. Só podia ter descido mais um.

Chama naturalmente a atenção a subida espectacular de Castro Marim onde possivelmente se estará a sentir a orientação política tomada. Aqui deixo as minhas felicitações ao executivo municipal.

Isto são dados reais tratados tecnicamente.

Não se trata de dizer que as coisas estão a mudar para melhor, já lá vão uns anos, quando os estudos científicos dizem precisamente o contrário, estão a piorar.

Pior do que isto só em 1965 quando a Vila de Alcoutim foi a última sede de concelho a receber o saneamento básico!

Isto não tira valor às VIRTUDES que Alcoutim tem, mas para mim, a VERDADE ACIMA DE TUDO.

Estejam atentos porque os jornais regionais e as televisões vão fazer, como é hábito, eco destas situações, para chamar a atenção de leitores e ouvintes.

sábado, 8 de agosto de 2009

Há um século a grande cheia do Guadiana provocou tragédia em Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 3 DE DEZEMBRO DE 1976)

Um centenário é tradicional e habitualmente uma data a assinalar, tanto no que se refere a acontecimentos que nos apraz registar, como a outros que, pelo seu significado, nos obrigam a meditar.

Estamos habituados, assim, a comemorar centenários do mais variado jaez, desde a descoberta científica humanitária, passado pela data de nascimento de figura célebre, até ao fim de uma calamidade local, regional ou mundial

A velha, pequena e histórica vila de Alcoutim, pagou caro, há um século, aquilo que outrora lhe deu vida e importância, fazendo-a ombrear com as principais vilas algarvias de então: a sua posição na margem direita do Guadiana (Ana Flumen dos romanos e a que os árabes chamaram Uádi Ana), no preciso lugar onde a navegação à vela, condicionada pelo regime fluvial e dos ventos, fazia ponto (paragem forçada de seis horas aguardando o virar da maré).

A razão principal da sua existência e da importância e que desempenhou, fez passar, há um século, aquela a quem os árabes chamaram Alcatiã, por dias de verdadeira preocupação e angústia. É a esse acontecimento que nos vamos referir, baseado em documentos vários e na tradição oral.

Na época invernosa, os rios engrossam os caudais e muitas vezes transbordam, inundando os terrenos marginais. Nas regiões planas, chuvadas e degelos originam inundações que atingem grandes superfícies. Quando correm junto a terrenos montanhosos, possuem leito mais profundo e consequentemente suportam maiores volumes de água; contudo ainda que com menor frequência, também saltam para os terrenos marginais, fertilizando-os mas causando pânico e prejuízos.

Alcoutim, na margem direita do caudaloso Guadiana, que por aqui corre entre cerros, servindo de linha divisória dos dois países ibéricos, definitivamente acordada em 1297, no Tratado de Alcanises, e na confluência da ribeira de Cadavais, sempre sofreu o efeito das cheias, recentemente insignificantes e mais espaçadas, para o que tem contribuído a construção de barragens no país vizinho.

[O Guadiana. Óleo de J.V., 1988]
De todas, uma alcançou nível bastante elevado, a tal ponto que a sua altura ficou gravada em duas placas de mármore: uma na fachada principal da Igreja da Misericórdia e que tem a inscrição: A esta altura chegou a enchente do Guadiana no dia 7 de Dezembro de 1876. E a outra no edifício que serviu de cadeia, conhecido por Cadeia Velha e que diz: C. M. A. – 1876. Placas da mesma natureza encontrámos na vila de Mértola e em Vila Real de Santo António.

Ficou esta enchente conhecida entre a população por Cheia Grande.

É com frequência que os visitantes, principalmente estrangeiros, prendem o seu olhar nesses marcos indicativos de tão grande e nefasto acontecimento, admirando e chegando mesmo a pôr em dúvida a veracidade do facto.

Se ficou gravado na pedra, muito mais ficou na memória por quem passou por dias tão preocupantes.

Transmitiram-no aos filhos, em noites frias de Inverno, junto das lareiras local aproveitado então para dissertações de carácter educativo e prática de vida, pondo em relevo os maus e bons momentos e reacções consequentes. Alguns desses dados estarão deturpados pelo decorrer dos anos e pela fragilidade da memória de quem já ronda as oito décadas.

O “Portugal Antigo e Moderno”, refere-se ao facto, da seguinte maneira: O Guadiana subiu a uma altura de que não há memória. Em Espanha destruiu as pontes de Mérida e de Badajoz, datando a primeira do tempo dos romanos; em Mértola entrou no andar nobre dos Paços do Concelho a uma prodigiosa altura e, até ao mar, causou grandes prejuízos, nomeadamente no Pomarão, onde arrasou todo o povoado que ali tinha feito a empresa da Mina de S. Domingos.
No “Diária da Manhã” de 17 de Dezembro daquele ano, lê-se o seguinte: Foi medonha a cheia do Guadiana. Alcoutim está quase submergida, abatendo muitas casas. Ficou destruída a Alfândega e muitas repartições públicas.


[Cheia de 1976. Foto JV]
O correspondente de Alcoutim para a “Gazeta do Algarve”, expressa-se da seguinte maneira: O Pomarão desapareceu. Todas as casas foram arrasadas e nem se conhece o lugar onde existiam. Apenas ficaram algumas no ponto mais elevado daquela povoação. Em Alcoutim houve perdas consideráveis; em S. Lucar, aldeia espanhola na margem esquerda do Guadiana, também houve enormes perdas. Os campos de Alcoutim estão debaixo de água que entra na vila em muitas casa e quintais. As carreiras do vapor foram interrompidas. Em Vila Real de Santo António há desgraças a lamentar. Morreram onze homens, três que foram buscar madeira e viram-se perdidos na volta e oito que lhes foram acudir. As ribeiras da serra correm caudalosas e consta que têm morrido dois ou três homens e muitos outros têm escapado com grande dificuldade e perigo. Desde Mértola até Castro Marim, ambas as margens do Guadiana estavam orladas e revestidas de formoso arvoredo, nomeadamente figueiras e romanzeiras espontâneas, silvestres que, pendendo sobre o rio, não só o embelezavam, mas davam abrigo aos barcos, no Verão, e aos marinheiros, passageiros e pescadores. Tudo a cheia derrubou, deixando ambas as margens escalvadas e nuas.

[Cheia de 1976. Ribeira de Cadavais. Foto JV]
Por muitos dias se conservou a região do Guadiana coberta de água.


Depois destes dados, de carácter geral e lidos na Imprensa da época, viramo-nos concretamente para Alcoutim. Terão as actas das sessões camarárias, algo para nos dizer? Certamente que sim.

Em 21 de Dezembro e em sessão extraordinária realizada na casa onde provisoriamente devido à cheia, passaram a efectuar-se, o presidente da edilidade, José Joaquim Madeira, abrindo a sessão, relatou os tristes acontecimentos ocorridos pela extraordinária cheia do Guadiana nos dias 6 e 7, que fez desabar mais de sessenta prédios nesta vila e “montes do rio”, tornando também infrutíferas todas as fazendas marginais, por lhes haver arrebatado o arvoredo, não deixando mais do que montes de areia. E continua: Neste aflito estado, é de toda a urgência empregar todos os meios ao nosso alcance para que sejam minorados tão tristes efeitos sendo esta a razão porque convocou a vereação, a fim de deliberar o melhor convenha em assunto de tanta magnitude.

Sendo por todos reconhecida a necessidade de levar brado ante o Favor de Sua Majestade, fazendo-lhe sentir os nossos infortúnios e pedindo lenitivo às nossas desgraças, unanimemente se acordou: 1º - Pedir ao Governo um empréstimo para poderem levantar os prédios que abateram pelam inundação; 2º - Pedir o dinheiro existente no cofre de Viação Municipal e o que a ele possa pertencer durante os dez anos seguintes para a edificação dos novos Paços do Concelho, em lugar dos que caíram, 3º - Finalmente, que não sendo conveniente a edificação no local em que se achavam por estarem sujeitos às cheias do rio, se peça o castelo, onde, sem receio se pode construir, não só aqueles Paços, mas também casas para a delegação da Alfândega e outras.

[Cheia de 1997.11.06.Foto de Dr. Luís Menezes]
Destas deliberações algo foi conseguido. Os subsídios concedidos atingiram 9 926$000, cabendo à Câmara, para reconstrução dos Paços do Concelho, 1 800$000. Também foram contemplados cento e quarenta e sete agricultores que perderam sementes e cujas fazendas foram arrasadas. Neste aspecto e consequentemente no que respeita a propriedades rústicas, foi D. Ana Xavier de Brito Teixeira, a maior contemplada, visto ter sido a que sofreu maiores danos.

Foram também concedidos 500$000 para matar a fome e o frio aos inundados. A distribuição desta verba levantou forte polémica movida pelo cidadão espanhol, Miguel Angel de Lion, que mais tarde foi assassinado em circunstâncias trágicas na sua residência junto do monte do Vascão.


Veremos agora o que se passou na reunião da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia. Também se realizou fora do lugar habitual, na sacristia da Real Capela de Nossa Senhora da Conceição, a mandato do provedor, Justo António Torres, no dia 24 de Dezembro, que expõe aos irmãos o seguinte:.. "visto os parcos fundos que a Santa Casa dispõe para os gastos a fazer na mesma em vista dos distúrbios causados pela cheia, nos dias 6, 7 e 8 do corrente, achava muito justo que se dirigissem a todas as Santas Casas do Reino, solicitando das mesmas uma esmola a fim de minorar os males que sofreu, o que foi aprovado por todos."

Os auxílios solicitados tiveram eco e, juntando o valioso contributo do Visconde de S. Domingos, a Irmandade conseguiu reedificar a igreja que reabriu ao culto no dia 18 de Janeiro de 1880, com solenidades pomposas.

Nas reconstruções, considerou que as paredes não deviam ser construídas em taipa, pois foi devido a essa maneira de construir que ruíram maior número de edificações.

[Cheia de 1997. Foto Dr. Luís Menezes]
A igreja matriz também sentiu o efeito da inundação, pois em 4 de Abril de 1878, reúne a Irmandade da santa Casa da Misericórdia que se nega a contribuir com qualquer quotização à Administração do Concelho e Junta de Paróquia desta freguesia, para as despesas da Fábrica da Igreja, visto não ter fundos que chegassem para as suas própria necessidades.

Em 1 de Março de 1877 e devido aos efeitos da cheia, resolve a Câmara acudir ao reparo da muralha que defende e resguarda a igreja matriz.

O encarregado da barca de passagem para S. Lucar, António Marques, apresentou-se na sessão camarária, pedindo abatimento na renda devido à inundação não lhe permitir fazer serviço de Dezembro a Janeiro, continuando a passagem a ser muito diminuta, pelo estado em que se achavam as margens do rio, que dificultava o embarque e desembarque. A Câmara acordou e fez abatimento (1 de Setembro de 1877).

Deixemos porém as actas que nos ajudaram a compilar os factos que descrevemos, e recorramos à boca do povo, à tradição.

O nível das águas alcançou a cruz de alvenaria da fachada da capela de Santo António; as águas corriam da Rua do Quebra-Costas (actual Dr. João Dias), para a da Misericórdia (que mantém a designação), pela Rua da Parada. Entrando pelo barranco do cemitério, chegavam ao largo da Rua Portas de Tavira (actual D. Sancho II).
Os barcos, numa tentativa de resguardo, eram amarrados às grades da cadeia e a força da enxurrada era tão grande que as cordas cediam e as embarcações lá iam, rio abaixo, sem destino.

É também tradição que a população desalojada acolheu-se à Capela da senhora da Conceição que, situada no ponto mais elevado da vila, os acolhia com maior segurança. Junto da imagem da Padroeira de Portugal oravam pedindo para que interferisse, minorando os seus males.

De tudo aparecia boiando, havendo mesmo quem se dedicasse à recolha de “despojos”, avultando sacos cheios de farinha. Flutuavam cadáveres de animais domésticos que os donos não puderam salvar pois, por vezes, até a sua própria vida esteve em perigo.

Já vimos que os “montes do rio” também foram muito martirizados. Entre o Montinho e as Laranjeiras, apareceu um cadáver humano boiando, o qual, avistado por uma mulher, foi motivo para alarme e terror das populações.

São repassadas de angústia, tristeza e terror as palavras insertas nas actas de reunião da Santa Casa e da Câmara Municipal.

[Cheia de 1997. Foto Dr. Luís Menezes]
Quero terminar este apontamento com uma referência em que episodicamente participei e que se enquadra na Cheia Grande.

Quando o então presidente do município tentou a construção da ponte sobre a Ribeira de Cadavais, velha aspiração da população das Cortes Pereiras e montes vizinhos, e para o efeito se deslocou ao local o técnico dos serviços competentes e quando tudo parecia estar bem encaminhado, ou qualquer coisa do género, reparou na placa indicativa da altura da cheia de 1876 e deu o assunto por terminado, não havendo viabilidade em tal construção.

Dias depois, cavaqueando num passeio higiénico com o nosso bom amigo relatava-me o acontecido, desabafando assim: Se tenho sabido, tinha mandado arrancar a fulano a placa.
Parece, mas não é anedota.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Etnografia Portuguesa


ETNOGRAFIA PORTUGUESA, Tentame de sistematização pelo D.or J. Leite de Vasconcellos, Vol V, organizado por M.Viegas Guerreiro com a colaboração de Alda da Silva Soromenho e Paulo Caratão Soromenho, é da responsabilidade da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982, onde o adquiri em 1990.

O Grande Mestre (1858-1941) visitou a Vila de Alcoutim de onde levou algumas peças arqueológicas oferecidas por Pedro José Lopes, pai de D. Belmira Lopes Teixeira, que me prestou a informação.

Criou alguma amizade com Manuel António Torres que foi seu informador epistolar e a quem ofereceu, em 1909, uma cópia da vista de Alcoutim tirada do norte e constante do livro de Duarte de Armas, então pouco divulgado.

O volume tem várias referências a Alcoutim (rifão que fala de perdizes.pág.332; lavadeiras, lajes estendidas sobre os muros, pág. 536;cabos de sachos feitos de loendro, pág.546 e dedeira, galapo, dedilo e caleira protecções para a mão, nas ceifas, pág.550).

De formato de 21X28,5 cm é constituído por 708 páginas.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Os "Trases"


A qualidade da fotografia é má e praticamente imperceptível, mas o seu interesse histórico é na nossa perspectiva, grande.

Datada de 1935, é das fotografias mais antigas que conheço de Alcoutim.

Os visitantes que conhecem a vila, já descobriram qual é a parte fotografada?

Não é difícil descobrir, no cimo do cerro, a Igreja de Nª Sª da Conceição. Não está nítido, mas percebe-se.

A fotografia é tirada do prédio que pertenceu e onde residiu, Pedro José Lopes, filho de Paulo José Lopes que foi Presidente da Câmara e Administrador do Concelho e pai de D.Cristina e D. Belmira Lopes Teixeira.

As casas que se distinguem, com alguma dificuldade são as que ainda constituem as traseiras das ruas da Misericórdia e das Portas de Mértola, daí a designação popular de “Trases”.

O declive, que é notório, vendo-se alguma arborização, levava-nos à ribeira de Cadavais.

Por este local passou a muralha da vila que se foi desmoronando com o decorrer dos tempos e onde se veio a construir, por intermédio de expropriação, na década de cinquenta do século passado, o muro de suporte e a estrada para possibilitar um novo acesso à Praça da República, tomando em conta as camionetas de transportes públicos que já não podiam passar pela ruelas medievais da Rua de Portas de Mértola e da Misericórdia.

Tem má qualidade, mas é histórica!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Referências ao "ALCOUTIM LIVRE"

Ultimamente tivemos conhecimento de duas referências ao ALCOUTIM LIVRE.

O companheiro de percurso, Um monte no interior algarvio, (http://alcariaalta.blogspot.com)

escreveu:

REFERÊNCIA A ALCARIA ALTA


Não podia deixar de fazer referência a uma entrada, blog Alcoutim Livre, sobre Alcaria Alta, de seu título “Alcaria Alta foi o mais importante monte da freguesia de Giões”, no qual o sr. José Varzeano descreve informações muito interessantes, algumas para mim desconhecidas, acerca do monte que dá nome a este blog. E até tem uma foto da “Casa do Monte”.

Por outro lado

Picachouriços-Guarda Fiscal(http://picachoricosgf. blogspot.com), associou o nosso artigo, “A Guarda-Fiscal em Alcoutim” e destacou as ilustrações que o acompanharam, o que teve o cuidado de nos informar através de e-mail.

A ambos agradecemos a gentileza.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O último carcereiro ou a morte do Senhor Jerónimo

Pequena Nota

O artigo que irão ler do nosso Amigo e colaborador, Gaspar Santos, é mais um da série que tem vindo a publicar neste blogue e com o mesmo interesse dos anteriores.
É claro que há assuntos que se prestam a uma análise mais profunda devido ao seu desenvolvimento e ao próprio conhecimento que se tem das coisas, mas o interesse é patente em todos.
No meu trabalho que vulgarmente é conhecido por Monografia de Alcoutim (1985), apresento a pág. 23 um desenho da cadeia e refiro-me esporadicamente a ela no decurso do livro.
Na altura, o conhecimento sobre o assunto era quase nulo, mas nunca foi esquecido.
Em 30 de Novembro de 1993 publiquei no Jornal do Algarve um estudo sobre a mesma e a que dei o título “A desaparecida cadeia”, inserido no Magazine que já nos dá uma panorâmica sobre ela, abordando vários aspectos que vão desde a construção em si, até às funções que teria tido, passando por alguns dos presos que albergou, funcionários que teve, indo até à função da sineta.
Os crimes mais hediondos costumam ficar na memória do povo e vão passando de geração em geração e ainda hoje se fala de alguns.
Em 2006 tive conhecimento de um crime de canibalismo passado “nos campos de Alcoutim” e praticado em 24 de Dezembro de 1909 de que nunca ouvi falar e já perguntei a várias pessoas idosas que nada me souberam dizer.
Só a ida da documentação da Conservatória para o Arquivo Distrital de Faro irá, segundo penso, possibilitar a quem o desejar, recolher mais elementos.

“O Último carcereiro ou a morte do Senhor Jerónimo “ é um assunto que desconhecia totalmente e enriqueceu o meu conhecimento sobre a temática.
Obrigado, Eng. Gaspar por mais este importante contributo.


JV






Escreve
Gaspar Santos





Morreu o Senhor Jerónimo! Morreu o Senhor Jerónimo! Foi assim de boca em boca que o triste acontecimento se transmitiu entre a miudagem que tinha por amigo este homem.

O Senhor Jerónimo, após a morte de sua mulher, vivia sozinho no primeiro andar da Cadeia. Era o Carcereiro. E foi o último. Mais tarde esta residência ainda foi ocupada pelo Marciano, um antigo pescador de Castro Marim que veio com a mulher viver para Alcoutim e também aqui faleceu. Só uma vez subi ao primeiro andar deste edifício, já no tempo do Marciano, tendo observado de perto e de cima o alçapão que dava acesso à cadeia.

O Senhor Jerónimo tivera um talho, de cuja prática lhe ficara a marca na última falange do dedo polegar esquerdo. A última falange e a unha eram bífidas. Quando o conhecemos e com ele privámos era uma pessoa simpática e disponível devido á sua pouca ocupação. Vestia sempre um fato de macaco azul e passava as tardes a pescar à linha, em geral com pescas de fundo de fio de pesca (ainda não aparecera o fio de nylon) à sombra da muralha entre os dois cais. E era aqui que a miudagem lhe fazia todas as perguntas e ele ensinava tudo sobre aquele tipo de pesca e sobre os utensílios que ele manufacturava: empatar anzóis, fazer bóias de cortiça, guizos para ampliar o sinal de peixe a picar, manobra de ajudar o peixe ferrar, etc.


Gostávamos dele. Constou que a sua morte se dera por tuberculose. O corpo do Senhor Jerónimo foi metido em caixão e colocado na Igreja de Santo António. A miudagem curiosa e por sentir já saudades do seu amigo Jerónimo teria gosto em lhe fazer uma última companhia. Mas as mães, atentas perante o pavor da tuberculose para a qual não havia remédio nesse tempo, fizeram esta séria recomendação:

Nada de irem acompanhar o Senhor Jerónimo! Os micróbios abandonam o morto e tratam de se instalar nos vivos!

[Desaparecida Cadeia. Desenho de J.V.]
E por este motivo, cheios de receio, nós só assomávamos à porta da Igreja, porque o nosso corpo ficava convenientemente entrincheirado no seu umbral. E foi assim que o Senhor Jerónimo esteve só, na morte, como tinha estado nos últimos anos de vida se não fossem os miúdos!

Quando hoje por causa da gripe H1N1 ou gripe A vemos todos os dias na televisão responsáveis sanitários e até a Ministra da Saúde a falar de uma coisa que ainda não existe ou se existe é em termos pouco significativos (mas parece que a desejam como uma espiação) a preocupação das nossas mães que pouco conheciam de epidemiologia são largamente justificadas.

Felizmente, os presos que vimos nesta cadeia, foram poucos. Podem contar-se pelos dedos. A cadeia não se destinava ao cumprimento de penas. Era uma cadeia para detenção de pequena duração de pessoa que cometera algum delito e apenas até transitar para a Judiciária ou Tribunais.

Os dois ou três casos de delitos simples que conheci deram para perceber como funcionava a cadeia. As autoridades entregavam o detido ao Senhor Jerónimo que lhe indicava uma escada de madeira para descer através do alçapão para o rés-do-chão que tinha umas grades e onde o homem ficava publicamente exposto. Depois a escada era removida e o detido não tinha por onde fugir. Essa escada por onde o detido iria sair um ou dois dias depois, não era o único elo de ligação que tinha com os outros, já que através das grades era possível passar um copo de água, um refresco ou simplesmente conversar – aspecto que suavizava o outro menos simpático da exposição pública.

Mas houve um detido por delito mais grave, o Romão, de Soudes freguesia do Pereiro, tocador de acordeão, que depois de constituir um grande problema para vários homens o conseguirem fazer descer pela escada, teve artes de fugir pelas grades. Com as unhas conseguiu arrancar uma pedra da parede e com essa pedra bateu tantas vezes nas grades que rebentou o mármore onde as grades estavam encastradas. Saiu depois pelo gradeamento que parcialmente removeu.
Ainda não fora possível dominá-lo nem impedir os danos no gradeamento, apesar das espectaculares e perigosas tentativas feitas. Homens em número e coragem suficientes para o dominar, tentaram descer por cordas e pela escada que a breve trecho se partiu. Mas antes de chegarem ao solo eram ameaçados pelo homem furioso com os restos esquirolados da escada. Era um doente mental, e só na rua, foi possível dominá-lo.

Depois desta detenção, não tenho conhecimento de que tenham procedido a outra, para este espaço.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Saco de linho


A peça, que escolhemos para a entrada de hoje na área da etnografia, é muito simples e poderá dizer-se que as que existem estão guardadas em malas ou arcas funcionando como peças de museu.

Até meados do século passado, o concelho de Alcoutim era relativamente bem habitado, comparando com o que é hoje e a actividade pautava-se pelo binómio agricultura / pastorícia.

O alcoutenejo tinha que viver com o que produzia, importando o mínimo possível por falta de poder económico e pelo acréscimo motivado pelas dificuldades de transportes e comunicações.

Se os homens entre outras coisas tinham que saber fazer cadeiras ou cestos, as mulheres, por outro lado, tinham de saber fiar e tecer, a fim de resolverem os problemas inerentes a essa área.

Em todos os “montes” existiam teares rudimentares que iam passando de pais para filhos e onde grande parte das mulheres sabia tecer pelo menos coisas rudimentares, sendo uma delas a teia para fazer sacos como este.

Os sacos de linho, que tinham por comprimento o dobro da largura, possuíam quase sempre duas pequenas borlas aos cantos sendo a boca a um dos cantos provida de uma corda que servia para a atar.

Estes sacos destinavam-se fundamentalmente ao transporte de sementes, nomeadamente de trigo.

Depois do cereal devidamente limpo nas eiras era metido nestes sacos e transportado no dorso dos animais para os celeiros onde era armazenado.

Quando havia necessidade de farinha, voltavam a servir enchendo-se e lá iam a caminho de moinhos ou azenhas, carregando os animais destinados a esse transporte.

Depois do grão transformado em farinha, regressavam a casa, agora mais leves devido à retenção da maquia.

O exemplar fotografado, quase novo, foi-me oferecido por um familiar por afinidade. Fê-lo sabendo que apreciamos estas coisas e que o saberíamos preservar e até agora não se enganou.

domingo, 2 de agosto de 2009

Frei Luís de Mértola



Este religioso que usou o nome da sua terra natal, também usou igualmente Frei Luís da Apresentação.

Devia ter nascido por volta de 1581.

Frade da Ordem mendicante do Monte Carmelo (calçado), foi Comissário e Visitador da Vigairaria da sua província no Brasil.

Faleceu no Convento do Carmo em Lisboa no dia 15 de Abril de 1653.

Escreveu:
Vida e morte do P. Fr. Estevam da Purificação, religioso da Ordem de N.S. do Carmo, Lisboa, 1621;

Excellencias da misericórdia, e fructos da esmola, Lisboa, 1625

Extracto dos processos que se tiraram por ordem dos ill.mos senhores Ordinários sobre a vida e morte do Vem. Padre António da Conceição, religioso da Congregação de S. João Evangelista de Portugal, Lisboa, 1647.

Em língua castelhana escreveu:

Vida de la B.M. Maria Maddalena de Pazzi, traducida del idioma toscano, Lisboa, 1626
e

Demonstracion evangélica, y destierro de ignorâncias judaicas, Lisboa, 1631.

As obras de carácter religioso que escreveu gozam de estimação pela vernacularidade da sua linguagem e pelo estilo grave e natural.

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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Dicionário Bibliográfico Português, Inocêncio Francisco da Silva, Tomo V, 1860

sábado, 1 de agosto de 2009

Fernando Vaz Martins

Faleceu ontem em Lisboa, com 86 anos o alcoutenejo Fernando Vaz Martins que irá ser hoje sepultado no cemitério de Benfica.

Era o último vivo de uma série de irmãos e que conheci no funeral do mais velho, Leopoldo, ocorrido há muitos anos em Alcoutim.

Saiu novo da “pequena vila raiana” tendo feito toda a sua carreira de funcionário da então Direcção-Geral das Contribuições e Impostos em Serpa.

Apesar do afastamento físico da sua terra natal onde excepcionalmente se deslocava, manteve sempre com ela um sentimento de afectividade que só os mais íntimos conheceram, tendo estado na sua mente o desejo de ir morrer a Alcoutim.

A doença que o acabou por vitimar, não lhe permitiu satisfazer esse desejo.

As nossas condolências.

Rosmaninho, minha flor

Poemas de
José Temudo


ORVALHO DO MAR

Porque te chamaram assim,
meu Lindo rosmaninho?
Longe de mim pensar
que não fosse por carinho!
Que poeta, cego de amores,
ousou imaginar
que uma delicada haste de flores,
fosse orvalho do mar?
Porque te chamaram assim,
doce rosmaninho,
perdido nos secos cerros de Alcoutim,
entre estevas e alecrim?


Vila do Conde, 19 de Abril de 2007.


Uma simples flor
é mais do que apenas uma flor!
É forma,
é aroma,
é cor,
é vida!
Indiferente ou sentida?
Tem sentimentos uma flor?
Alegrias, tristezas, segurança, temor?
Se lhe falo com carinho,
o que sente o rosmaninho?
Só pode sentir amor!


24 de Dezembro de 2007.


ROSMANINHO SECO

Velho e relho,
ressequido, desfolhado,
sem cor, sem beleza,
sem odor, sem vida
que outra vida atraia,
meu rosmaninho querido,
o que te resta?
Se em ti já nada presta,
porque te manténs de pé, orgulhoso,
como se vivo fosses, formoso?
Se já por nada te interessas,
se já a ninguém interessas,
porque persistes
simulando vida,
se já não existes?
Assim seco e desnudo,
esta é aquela hora,
de te ires embora,
de mansinho,
meu triste rosmaninho,
meu pobre Zé Temudo!


Vila do Conde, 19 de Abril de 2007.


Um dia, quando eu for nada,
peguem em mim
e plantem-me, solitário,
num cerro duro e seco de Alcoutim.
Verão nascer, crescer e florir,
um forte e cheiroso tufo
de estevas, de rosmaninho e de alecrim.


Vila do Conde, em data incerta.


Pequena nota

É a primeira vez que apresentamos uma entrada de POESIA no ALCOUTIM LIVRE.
Fazemo-lo com muito prazer e até porque é área em que não entro. Não fui dotado com esse dom, ainda que haja na minha família várias pessoas que com ele tenha uma relação próxima.

Sendo assim, só o Espaço dos Amigos poderia colmatar essa falha o que hoje é feito por este Colega e Amigo, o que muito me orgulha.

Se é patente o bucolismo do poeta, o que não me admira, não deixa de surpreender-me a forte ligação que mantém com esta pequena vila raiana. Que se tivesse manifestado quando foi “arrancado pela raiz”, ainda que seja de admirar, compreende-se; o que para mim é difícil de entender é a permanência desse apego por toda a vida, chegando ao manifesto de“plantem-me solitário/ num cerro duro e seco de Alcoutim.” para alimento “de estevas, de rosmaninho e de alecrim.”

Recorrendo às palavras do autor,” mais não são do que um reflexo da saudade e do carinho que sempre senti por Alcoutim.”

Poucos até hoje têm sabido sentir assim Alcoutim.

Obrigado, Bom Amigo pela lição de fascínio que uma pequena terra pode motivar!



[Rua de Alcoutim onde viveu José Temudo na década de 30 do século passado. Foto JV, 2009]