sexta-feira, 4 de setembro de 2009

António Silva Carmo, um artista


A entrada de hoje parece, à primeira vista que nada tem a ver com Alcoutim, mas não é verdade como tentaremos explicar.

António Silva Carmo não é alcoutenejo mas que eu saiba, já visitou Alcoutim por duas vezes e isto depois de me ter conhecido porque antes disso, nunca tinha lá ido. Também das duas vezes, não nos encontrámos lá.

Não é alcoutenejo mas é algarvio da bela cidade de Olhão, residindo há muitos anos em Peniche, onde nos conhecemos, principalmente devido à arte que tem desenvolvido como “passatempo” e que é a encadernação.

Foi nas mãos de Silva Carmo que vi o Manual do Encadernador (1937) de autoria de Maria Eduarda Barjona de Freitas, como sabem nascida em Alcoutim. Fui eu que acabei por revelar ao Sr. Carmo que a autora era alcouteneja.

Silva Carmo faz o favor de trabalhar para mim há perto de trinta anos pelo que tenho algumas dezenas de livros que comprovam a sua arte, verdadeiramente artesanal.

A fotografia que apresento mostra vários tipos de encadernação que o artesão praticou ou pratica, incluindo lombadas e cantos a carneira. Além do trabalho de encadernador executa o de dourador. Têm todos a circunstância de serem trabalhos sobre Alcoutim, entre as já apontadas é mais uma ligação que se verifica.

Alguns dos trabalhos encontram-se repetidos por razões várias e neles podemos encontrar Alcoutim, Capital do nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985, 1ª Prova, outro exemplar a que se anexaram as notícias dos jornais, algumas com comentários ao trabalho e a extracção de variadíssimas cartas que o autor recebeu, algumas de pessoas que nunca viu; daí o volume estar mais dilatado. O autor, naturalmente mantém todos os originais arquivados. Lá se encontra também Alcoutim Visto através das posturas Municipais (1834/1858), 1989, que além do opúsculo engloba a 1ª Prova e as análises feitas ao trabalho em jornais ou em cartas, outro com Saúde e Assistência em Alcoutim no séc. XIX, 1993, em termos de conteúdo e encadernação semelhantes, tal como acontece com vários volumes de A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», 2007 e ainda aquelas minhas edições que comportam dois ou três exemplares como a colaboração que prestei ao Jornal do Algarve, 2 Volumes (1973-1989) e (1990-1995), a prestada ao Jornal Escrito e à Revista Stílus num total de 24 artigos, a prestada ao Jornal do Baixo Guadiana que se desenvolveu por 32 escritos, outro volume que tem por título Apontamentos Genealógicos sobre ISA, 2004, e os três primeiros volumes do Blogue Alcoutim Livre, estando o 4º à espera de encadernação e o 5º quase concluído.

De autoria do colaborador deste Blogue, Gaspar Santos, tenho encadernado as Crónicas Alcoutenejas que reúne vários artigos então publicados.

Para além destes é apresentada a colecção completa do Boletim Municipal, 1 Vol. constituído por 12 números e outro de Alcoutim – Revista Municipal, constituído pelos primeiros dez números. Os últimos números tem-me sido difícil encontrá-los pois deixaram-me de ser enviados por motivos que desconheço.


Sem aparecer na fotografia possuo dois volumes encadernados do Jornal do Baixo Guadiana, tudo obra deste grande artista.
Só refiro nesta entrada os trabalhos sobre Alcoutim pois tenho naturalmente muitos mais sobre os mais diversos assuntos.

Sem ele, tudo estaria por aí mas sem a apresentação e durabilidade que têm.

Devo isto ao Meu Prezado Amigo António Silva Carmo, Mestre Encadernador a quem desejo um rápido restabelecimento da saúde e poder continuar a encadernar os meus livros.

Para finalizar direi que no Jornal do Algarve de 1 de Junho de 1995 publiquei um escrito que tem por título: A arte de um algarvio na cerimónia nupcial de D. Duarte de Bragança e de D. Isabel Herédia.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

António de Assunção Valério

Só hoje nos é possível noticiar o falecimento do alcoutenejo, António de Assunção Valério, de setenta e oito anos, ocorrido no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, no dia 26 de Agosto último.

Enfermeiro-chefe aposentado, fez o curso de enfermagem psiquiátrica com alta classificação, curso que iniciou em 1949.

Frequentou, entretanto, o curso de medicina e o de matemática, que não concluiu.

De 1943 a 1949 exerceu funções no Grémio da Lavoura de Alcoutim.

Foi um dos fundadores do Grupo Desportivo de Alcoutim e correspondente de jornais diários.

Manteve sempre ligação à terra que o viu nascer, tendo mesmo construído habitação de férias no monte da Corte da Seda, onde passava temporadas.

Veio a sepultar no cemitério de Alcoutim no dia 29 de Agosto.

As nossas condolências.

sábado, 29 de agosto de 2009

D. Miguel Luís de Meneses, o Conde que foi Duque



D. Miguel Luís de Meneses, filho do D. Manuel de Meneses, 4º Conde de Alcoutim e de sua mulher, D. Maria da Silva que foi Dama da Rainha D. Catarina.

Teria nascido cerca de 1565.

Como primeiros títulos, usufruiu os de Conde de Alcoutim (5º) e de Valença (6º) que competiam aos herdeiros da Casa de Vila Real.

Já usava o título em 1580.

Foi 8º Conde e 6º Marquês de Vila Real. Governou Ceuta por muitos anos com acerto e felicidade.

Casou a primeira vez em 1604 com D. Isabel de Lencastre, filha do Duque de Bragança D. Teodósio I e da Duquesa D. Brites de Lencastre, a qual morreu sem geração em 21 de Abril de 1626.

Por carta de 14 de Dezembro de 1620, Filipe III de Portugal (IV de Espanha) concedeu-lhe o título de 1.º Duque de Caminha.

Casou segunda vez com sua sobrinha D. Maria Brites de Meneses, filha de seu irmão, D. Luís de Noronha e Meneses, que lhe veio a suceder no título e de sua mulher D. Juliana de Meneses, de quem também não teve descendência.

Esta D. Maria Brites quando viúva, passou a segundas núpcias com D. Pedro Portocarrero, conde de Medelin.

O 5º Conde de Alcoutim teve, porém, uma filha natural da castelhana D. Maria Xuar, em Ceuta, à qual deixou os bens livres e tentou deixar a sua casa.

Chamou-se D. Antónia de Meneses, criou-se no Mosteiro de Almoster (Santarém) e seu pai casou-a com D. Carlos de Noronha que foi Presidente da Mesa da Consciência e Ordens e que pretendeu suceder na Casa de Vila Real.

D. Miguel Luís de Meneses possuía vastíssimas terras e tinha honras de parente e tratamento de sobrinho de el-rei.

Para a expedição organizada em 1624, a fim de restabelecer o domínio Português na cidade de Baía, no Brasil, que tinha sido tomada pelos holandeses, contribuiu com 16.500 cruzados.

Faleceu a 10 de Agosto de 1637 e não tendo descendência directa, sucedeu-lhe o seu irmão e sogro, como já se disse, D. Luís de Noronha e Meneses, indo para seu sobrinho e cunhado, o título de Duque de Caminha.

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Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, Imprensa-Nacional Casa da Moeda

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Edições Alfa, 1982

Nobreza de Portugal e do Brasil, Edições Zairol, Lda., Lisboa, 2000.

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História (fac-similada da de 1946)

Wikipédia, a enciclopédia livre.


Pequena nota

Com esta nota biográfica do 5º Conde de Alcoutim, terminámos o roteiro que nos tínhamos proposto efectuar – apresentar notas biográficas sobre os seis Condes de Alcoutim.

Sem respeitarmos a cronologia, iniciámos o trabalho no Jornal do Baixo Guadiana com D. Pedro, o 2º e depois com D. Manuel, o 4º, possivelmente os que tiveram maior nome. Os quatro restantes já tiveram lugar neste ALCOUTIM LIVRE e possivelmente tiveram mais leitores do que se fossem publicados na imprensa regional algarvia que demonstra não estar muito virada para a escrita deste tipo.

Quando cheguei a Alcoutim há quarenta e tal anos, nunca ninguém me falou nos Condes, assunto praticamente desconhecido da população local.

Eu também desconhecia o título nobiliário e tive conhecimento dele através de um simples Anuário Comercial que o então correspondente me emprestou. A partir daí iniciei as minhas “pesquisas orais” e encontrei duas ou três pessoas que tinham conhecimento da sua existência.
A nível de leitura recorria à Biblioteca Municipal de Faro quando me era possível e foi lá que comecei por consultar alguns dos trabalhos base sobre o Algarve, comportando naturalmente Alcoutim.

A sala estava quase sempre deserta.

Não esqueço que o responsável na altura pela Biblioteca, pessoa muito reservada e que eu já conhecia de nome, devia ter notado que eu com alguma frequência ali me deslocava. Não lhe teria passado despercebido o meu interesse por Alcoutim e então a única “ajuda” que me prestou foi chegar junto de mim e perguntar-me se havia alguns arquivos capazes de consultar em Alcoutim! Podia ter dito, mesmo pensando que não o iria praticar:- Se precisar de alguma coisa, diga, que eu ajudarei se puder.

Em contrapartida direi que a senhora que me atendia e que não teria qualquer formação na área, foi sempre extremamente simpática e procurou-me sempre, apesar das suas limitações, ajudar-me o que algumas vezes aconteceu. Não podia deixar de escrever isto. Os nomes, é o que menos interessa.

Isto passou-se há mais de 35 anos mas ainda hoje é fácil encontrar.

Há cinco anos e numa área geográfica completamente diferente solicitei audiência ao senhor Director da Biblioteca que desceu as escadas do seu gabinete e veio ter comigo perguntando-me o que é que eu desejava.

Disse-lhe que andava completando um trabalho e gostaria de o enriquecer, por isso pedia-lhe que como director da biblioteca me desse algumas pistas para eventuais pesquisas.

Ele, que já me conhecia de nome, através da minha colaboração em jornais, disse-me que quem conhecia do assunto era eu e que aguardava a publicação do meu trabalho para a biblioteca dispor dele.

Isto revela a sua incompetência profissional e a verdade é que quando o poder político mudou, foi imediatamente substituído.

Acrescentarei que ofereci a algumas bibliotecas esse meu trabalho, mas àquela, não.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Barrada, povoação dinâmica à beira da estrada



Pertence à freguesia de Martim Longo, ficando-lhe próximo, a cerca de 3 km de distância e muito perto da EN 124, do seu lado esquerdo, que atravessando a Serra do Caldeirão, no sentido norte/sul nos leva ao Barranco do Velho, de onde se podem tomar várias direcções.

Por esse facto, é dos poucos “montes” do concelho que ainda possui um pequeno estabelecimento comercial, beneficiando do movimento da estrada e onde se pode tomar uma bebida fresca ou quente, conforme a época do ano, além de um pequeno restaurante recentemente criado.

O topónimo, que consta do Novo Dicionário Corográfico de Portugal (1), é muito frequente no país, tal como o seu plural. No primeiro caso são conhecidas nove e no segundo, três.

Barrada significa terra de semear em encostas, fora das vargens, segundo José Pedro Machado e que já se atesta no país em 1258. (2) Ainda que conheçamos pouco da zona, pensamos que o topónimo se ajusta plenamente.


A agricultura, principal actividade destas gentes, andou sempre ligada à pastorícia e temos conhecimento que no século XVIII, António Dias, deste “monte”, faz na Câmara o manifesto dos seus gados, constituído por bovinos, caprinos e ovinos. (3)

Em Maio de 1844 pairou sobre esta região uma horrível trovoada que devastou as searas. (4)

Fazia parte da Junta de Paróquia de Martim Longo, em 1858, José Rodrigues residente neste “monte”.

Abordaremos agora o aspecto populacional pois é sempre importante analisá-lo.

No censo de 1911 tem 128 habitantes e ocupa a 5ª posição a nível de freguesia. Em 1940 o número passa para 176 e sobe ao 2º lugar, só ultrapassado por Santa Justa.
Vinte anos depois mantém o lugar passando a população a ser de 190 habitantes. A partir daqui começa o decréscimo em todo o concelho e dez anos depois, ou seja, em 1970, o número era de 146 e tinha sido ultrapassado pelo Pessegueiro.

Em 1981 viviam no monte 121 pessoas e dez anos depois, segundo os últimos dados, oficiais que possuímos, eram 114.

Presentemente, conforme indicação que pedimos e recebemos, rondará a meia centena.

Como se verifica por estes dados, esta povoação foi sempre das mais importantes da freguesia.




Não possuímos indicações quanto à criação do posto escolar que teria existido e depois transformado em escola que presumo ter encerrado em 1989. (5) Em 2000 o edifício é adaptado e inaugurado um núcleo museológico denominado “Espelho de Nós”que a informação diz pretender traduzir as origens daquela povoação, com a ligação da comunidade à Serra do Caldeirão. (6)

Não o conhecemos nem tencionamos conhecê-lo e o seu acesso está condicionado.

Como por todo o concelho, mais ou menos acentuadamente, tomando em consideração vários factores de interesse, também neste monte existiam fornos comunitários para cozer o pão, existindo regras ancestrais para a sua utilização, de forma a que todos pudessem usufruir dos mesmos. (7)

De referir igualmente, nas proximidades da povoação, uma eira situada na encosta de uma pequena elevação.

Após o 25 de Abril este monte tomou a fama de ser a povoação mais “esquerdista”, pelo menos da sua freguesia. Efectivamente não se tratava de esquerda ou direita, mas sim aproveitar as oportunidades para vencerem as grandes dificuldades da vida.

É nesta altura criada uma Cooperativa Agro-Pecuária que em 1987 comprava bens intermédios, alugava máquinas (2 tractores, 1 debulhadora, 1 moinho de martelos); produzia farinha e azeite que vendia. Possuía armazéns para a secção de compra e venda de produtos (8) para cuja construção a Cooperativa foi apoiada pela Direcção Regional de Agricultura do Algarve, (9)

Em 1985 foi criada uma queijaria através do programa Leader. (10)

Fracassou a tentativa de turismo rural levada a efeito em 1995.


Existe uma associação designada por Centro Cultural e Recreativo da Barrada onde os associados se juntam para conversar, tomar uma bebida ou disputar uma partida de “sueca” ou de “três setes”.

Em frente da sede social o espaço disponível foi ajardinado. (11)


Construiu-se ultimamente uma casa mortuária.

Após um interregno, realizou-se recentemente a Festa Anual.

É dos poucos montes do concelho que possui saneamento básico, acabado de efectuar.


NOTAS
(1)– A.C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1981
(2)- Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte/Confluência, 1º Vol., 1993, pág.220.
(3)– Manifeztoz e Arolam toz da Camera doz gadoz, pág. 59
(4)– Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 3.11.1844.
(5)– Jornal do Algarve de 29 de Março de 1990.
(6)– Jornal O Postal de 15 de Junho de 2000.
(7)– “Potencialidades turísticas do nordeste algarvio – I”, Susana Faísca, in Jornal do Algarve de 24 de Abril de 1985.
(8)– Caracterização da Produção Animal do Baixo Guadiana, Engs. C. Alves da Costa e A. Costa Cardoso, 1987.
(9)– Jornal do Algarve de 14 de Fevereiro de 1985.
(10)– Jornal da Serra de Novembro de 1995
(11)– Alcoutim, Revista Municipal, nº 6 de Janeiro de 1999, pág. 9

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Colaborador do Alcoutim Livre candidato à Presidência da Câmara de Peniche


Depois da apresentação das candidaturas da CDU, PS e PSD à Câmara de Peniche, apareceu outra que não era esperada, a do BE composta por independentes e três filiados no Partido e que concorre à Câmara e à Assembleia Municipal.

O cabeça de lista à Câmara é Fernando Lino, penicheiro, de 49 anos.

Foi militante do PS e representou-o várias vezes na Assembleia Municipal onde se bateu pelos seus pontos de vista.
Em 2002, encabeçou a lista de candidatos por Leiria do Movimento Partido da Terra (MPT) às eleições legislativas.
É a primeira vez que o Bloco de Esquerda concorre em Peniche onde nas últimas eleições para o Parlamento Europeu alcançou um votação significativa.

Que obtenha ao que se propôs, são os nossos votos.

Um "Milagre" desconhecido dos alcoutenejos


[Igreja Matriz de S. Salvador. Óleo de JV, 1970]

Quem mexe nestes assuntos sabe que uma das bases de informação para o que aparece escrito sobre o passado das “pequenas terras de Portugal” tem por base aquilo a que se convencionou chamar MEMÓRIAS PAROQUIAIS.

Sebastião José de Carvalho e Melo, que veio a ser Marquês de Pombal, por aviso de 18 de Janeiro de 1758, faz remeter a todos as paróquias um interrogatório onde se solicitam informações de carácter geográfico, demográfico, histórico, etc. e os estragos eventualmente causados pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755.

Esta importante informação juntamente com outras do mesmo tipo vieram constituir 44 Volumes e cujas datas extremas são 1722-1832.

Na posse de cópias,no que se refere a Alcoutim, vamos tentando ler o mais correctamente possível o documento, o que temos vindo a realizar sem dificuldades de maior.

Temos de ter em conta que é documentação com mais de dois séculos e meio, com casos de tinta repassada, deterioração de vários tipos, os termos e grafia apresentados, sendo esta última muito variada de pessoa para pessoa, tudo isto provoca entraves a uma melhor leitura.

O Pároco da Freguesia de O Salvador do Mundo, ao responder ao quesito 7, refere algo que desconhecíamos completamente, pois nunca o encontrámos referido em qualquer trabalho e por outro lado não existe tradição local daquilo que expõe e tentaremos descrever.

Ao descrever o templo diz que do lado da Epístola estão três altares, o SS Nome de Jesus, seguindo-se-lhe o do Senhor Jesus dos Milagres, de recente levantamento (1750) e nele se venera um devotíssimo Senhor Crucificado, Imagem milagrosa e de muitos prodígios, seguindo-se um terceiro altar com capela abobadada e onde se encontra a venerável Imagem da Doutora Santa Catarina, protectora das Almas. “Esta capela é privilegiada todos os dias e se reforma o seu privilégio de quinze em quinze anos.”

Diz o pároco e confirma-se que toda a parte da Epístola está defronte da vila de Sam Lucar de Castela e do seu castelo. E continua o sacerdote: é digno de memória que no tempo das guerras, governando em Sam Lucar do Guadiana um hereje ou pouco católico, a artilharia começou a atirar a esta igreja (...) destruindo os telhados da Igreja e paredes, abrindo com as balas muitos buracos nas mesmas, havendo resposta de parte a parte.

E agora vai o “milagre”:- As balas que batiam na parede da Capela das Almas não a penetravam, deixavam o sinal onde tinham batido mas acabavam por cair no chão, não fazendo outro qualquer efeito

Para terminar, afirma o pároco:- Estes testemunhos infalíveis do prodígio, ainda hoje se podem ver!

Não sabemos a que guerras se refere o informador, para as da Restauração da Independência, acho-as muito distantes (c. de 90 anos), talvez queira referir as da Sucessão de Espanha (1704/1713) que aqui se fizeram sentir.

Aqui fica esta referência histórico/lendária que as Memórias Paroquiais nos deixaram.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Anunciar é sempre útil!



A Câmara Escura de hoje, podia ter vários títulos, tal a riqueza de elementos que apresenta. Podíamos realçar os verdejantes e alinhados “pinheiros de jardim”, escolher as rosas “chá”ou optarmos pelas malvas-rosas de colorido variado.

Outro aspecto a poder salientar seria o contraste nos tipos de construção com a utilização prática da lusalite ou folha zincada e isto pondo de parte o veículo protegido das intempéries ou a frondosa árvore com sombra acolhedora, pois até estávamos no mês de Agosto de 1992, já lá vão por isso sete anos.

O quadro estava disposto à beira da estrada e o “anúncio” chamava a atenção para os passantes, da existência de tal serviço, já que para as pessoas do monte penso não seria necessário.

Optámos pelo ineditismo do anúncio por tais paragens.

Julgo que o quadro desapareceu em parte, mas ficou a fotografia.

domingo, 23 de agosto de 2009

Zeca - O tempo de criança

Poema Livre de
José Temudo



[Vista parcial de Alcoutim na década de 30 do século passado]

A CRIANÇA ZECA

Vem, Zeca
vem comigo.

Não me estranhes,
nada receies de mim.

Sou teu amigo,
sê-lo-ei até ao fim!

O coração que em ti pulsa
é o mesmo que pulsa em mim.

Porque tu és o meu
primeiro eu.

Talvez o melhor,
o mais livre,
o mais natural,
o mais sincero,
o menos convencional!

O que só nadava na margem do rio,
o que não gostava da escuridão,
o que não ia ao monte sozinho,
o que temia a solidão.

O que gostava do amigo como de um irmão,
o que na luta não pontapeava o vencido!

O que viu, seduzido,
o amigo almoçar pão e toucinho cozido!

O que viu, em silêncio, amedrontado,
corpos a boiar no rio.

O que passava pelo cemitério a correr,
sentindo na espinha um calafrio.

O que nas árvores ou no chão,
entre estevas, alecrim e rosmaninhos,
como se fosse um ladrão,
roubava ovos dos ninhos!

O que viu, sem compreender,
uma revolução a acontecer.

O que ouviu o silêncio que precede a morte,
dos que, em dia de má sorte,
vão ser pela manhã fuzilados.

O que viu e ouviu, espantado,
o relinchar do cavalo reprodutor,
cheio de entusiasmo, fremente,
montar a fêmea, aberta ao cio, obediente.

O que viu, admirado, atónito, aflito,
o nascimento de um burrito!

O que surpreendeu, sem deixar de olhar,
um homem e uma mulher a (é melhor calar...)

O que não perguntou aos Pais,
curioso, ingénuo, inocente,
Ele já sabia por demais,
Donde vinham os meninos/

O que não gostava da escola,
o que esquecia os livros na sacola.

O que gostava de jogar
à bilharda, ao berlinde, ao pião,
o que gostava de ganhar,
de ser sempre o campeão.

O que sofria quando a Mãe chorava,
o que, feliz, sorria, quando ela o abraçava.

O que ouvia falar de Deus,
de anjos, de arcanjos e de santos,
de crentes e de ateus.

O que tudo isso esqueceu,
o que ficou como nasceu!

O que saiu chorando
da terra que o viu crescer
e viver brincando,
sem saber,
sequer imaginar,
que jamais iria voltar,
àquele tempo, àquele lugar!


Vila do Conde, 31 de Dezembro de 2008.
J.T.


[Grupo de alunas com a Prof. D. Arminda. José Temudo, que não andava na escola, é o terceiro (está sentado) a contar do lado esquerdo e as duas meninas à sua esquerda são suas irmãs. Anos 30]


Pequena nota
De certa maneira já apresentei aos meus visitantes/leitores este colaborador do ALCOUTIM LIVRE que domina as vertentes poesia e prosa de uma maneira muito própria.

Neste poema o autor, colocando a memória ao seu serviço, após sete décadas passadas, rebuscando palavras simples mas muito ajustadas, dá-nos uma verdadeira panorâmica das vivências alcoutenejas observadas e retidas por uma criança inteligente e observadora.

Quem sabe o que era Alcoutim na década de trinta do século passado, encontrará aqui pontos proeminentes.

E mais uma vez o poeta termina demonstrando um grande carinho
pela terra que o viu crescer e viver brincando, sem saber, sequer imaginar, que jamais iria voltar, àquele tempo, àquele lugar!
JV

sábado, 22 de agosto de 2009

A Catredal do Algarve e o seu Cabido - Sé de Faro



Valioso trabalho do falecido investigador algarvio, José António Pinheiro e Rosa, que nos deixou desenvolvida bibliografia, em dois volumes, de 16X24 e que no seu conjunto comportam 422 páginas.

É ilustrado com gravuras a cores e a preto e branco. Apresenta igualmente uma planta desdobrável da Sé de Faro.

Neste exaustivo trabalho que devia constar pelo menos de todas as bibliotecas do Algarve, o que eu não estou convencido que aconteça, encontramos variadíssima informação, incluindo quadros de desempenho.

Ainda que não possua índice toponímico, localizámos referências a Alcoutim e a Martim Longo e a algumas figuras religiosas que passaram por este concelho.

Assim, a pág. 176 do I Vol. refere Diogo de Figueiredo Mascarenhas (1676-1696) como Arcediago de Lagos da Sé de Faro.

No II Vol., pág. 13, Joaquim José Cavaco (1840-1848) como cónego reitor e que foi pároco da Matriz de S. Salvador, sendo conhecido pelas suas ideias liberais, a pág. 17, o cónego prebendado, Dr. António Luiz de Macedo e Brito, da família dos Condes da Ravelada (Vaqueiros), a pág. 35, ao celeiro de Martinlongo, a pág. 179 às contas do celeiro de Martinlongo de 1826 e 1827.

Nas pág. 214 e 215 encontramos indicações sobre os celeiros de Martinlongo, Alcoutim, “Contos” de Vaqueiros, e Miuças de Martim Longo.

Mais outras certamente se encontrarão.

Constituindo uma Separata dos “Anais do Município de Faro – nº XII para o I Volume (1983), o II diz respeito `a Separata – nº XIII (1984) e foram compostos e impresso na Tipografia União – Faro.

Faltará dizer que o trabalho, há muito esgotado, foi-me oferecido por um leitor em 2007.

Atendendo a que não foi possível executar informaticamente uma cópia da capa, apresentamos a lombada (a carneira) e parte da capa e contracapa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Colcha de "carapulo"



A urdidura desta colcha era feita primitivamente em linho vindo depois a ser substituída por linha.

O branco representado na teia contrasta com outra cor, normalmente o azul anil ou preto e isto proveniente de lã tingida nessas cores. Os desenhos geométricos a que dão origem vão-se repetindo harmoniosamente.

Sendo primitivamente o azul obtido através de uma planta criada nas ribeiras, o anil,
passou-se depois a adquirir umas pedrinhas vendidas nas casas da especialidade. À água aquecida com urina, juntavam-se-lhe as pedrinhas e só depois a lã que lá devia permanecer de 8 a 10 dias. A cor assim preparada não desbotava.

O “carapulo” é uma técnica em que se repuxa o fio de maneira a formar figuras, na maior parte das vezes geométricas e onde as estrelas são muito frequentes.

Estas colchas, conhecidas por colchas de aparelho, serviam para utilizar nos animais como enfeite em dias festivos, casamentos, baptizados, festas pagãs ou religiosas e isto no que diz respeito às azuis.

As pretas tinham um sentido mais sóbrio e usavam-nas quem andasse de luto e em determinadas circunstâncias.

A representada na fotografia estava a ser utilizada como embelezamento da janela no dia da procissão de Nª Sª da Conceição, 8 de Dezembro, na vila de Alcoutim.

Eram tecidas em teares rudimentares.