segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Faz hoje 72 anos!



Pura coincidência!

Só me apercebi que faz hoje precisamente setenta e dois anos que esta fotografia foi tirada quando fui escrever o texto! Feliz coincidência!

Trata-se da quermesse em Alcoutim, na zona ribeirinha, certamente com alguns dos seus mentores e onde as meninas para vender as rifas eram peça importante.

Não se pode tratar das Festas de Nª Sª da Conceição, pois estas têm lugar em 8 de Dezembro e muito menos das actuais que só se iniciaram em 1948. Pela data, pensamos que se aproveitou a realização da Feira Anual para instalar a quermesse e recolher uns tostões para a Igreja ou para o Hospital.

Eu ainda conheci esta estrutura, já muito velhinha e com remendos, isto em 1967.

Sei que foi obra das mãos habilidosas do Dr. José Pedro Cunha, médico de Alcoutim, pois o mesmo me foi afirmado, nessa altura, por sua filha, D. Berta Cunha Martins.

Quem amavelmente nos cedeu a fotografia só conseguiu identificar o prof. Trindade e Lima, no interior e ao centro, exteriormente do lado direito, dois rapazes, Francisco Duarte do Rosário, que veio a ser engenheiro civil e Rui Lopes da Trindade e Lima, militar de profissão e que veio a ser brigadeiro do nosso exército. A “senhorita” de vestido às ramagens é Ricardina Temudo, filha do então secretário de Finanças do concelho, José Themudo.

domingo, 13 de setembro de 2009

O testemunho de uma criança

Escreve
José Temudo


Advertência

Sei, por experiência própria e com alguns amargos de boca, que a memória não funciona como uma casa-forte onde se guardam objectos e valores, e de onde, passados alguns anos, podemos levantar esses mesmos objectos e valores sem lhes notar uma qualquer diferença.

No resguardo subterrâneo onde “trabalha”, a memória age, a um primeiro tempo, como um arquivista meticuloso, classificando, ordenando, arrumando, guardando.

Mas, por vezes, a memória, vá-se lá saber porquê, age como um realizador de cinema; vai ao que está guardado, desarruma, desordena, corta aqui, acrescenta acolá, faz alinhamentos que não existiam, produz o que podemos chamar um filme. O resultado final dessa actividade, o que mais tarde vem à flor dos nossos dias, não sendo uma mentira perversa, também já não é a verdade que possa ser jurada colocando a mão sobre a Bíblia.

Com este preâmbulo, pretendo resguardar-me de algum deslize ou imprecisão que possa cometer ao trazer, à luz da actualidade, recordações de factos, de que fui testemunha, ocorridos em Alcoutim ou observados a partir de Alcoutim, no ano de 1936, tinha eu sete anos de idade.

Feita a prevenção, passemos aos factos, tal como os recordo.



O QUE A CRIANÇA VIU

Na fresca margem do rio, que as pessoas procuravam nas noites de Verão, fugindo à incomodidade das suas pequenas casas sobreaquecidas, durante o dia, por um calor escaldante, eu pude assistir, sem então lhe compreender o seu verdadeiro significado, a um estranho e espectacular acontecimento. Do outro lado do rio, na vila de S. Lúcar, os sinos da Igreja rasgaram o silêncio da noite morna e calma, tocando a rebate, de forma aflitiva e continuada. Depois, mesmo junto à linha de água do rio, acenderam uma enorme fogueira que foi consumindo, ao longo de uma ou mais horas, tudo o que sobre ela um grupo de pessoas que continuamente lhe lançavam. A gritaria era enorme, fazendo-se ouvir no lado de cá, a despeito do persistente toque dos sinos.


[Igreja paroquial de Sanlúcar. Foto JV. 2009]

Alcoutim, em peso, estava junto ao rio, vendo e comentando o que via. Assim, fiquei sabendo que os comunistas e os anarquistas tinham assaltado a Igreja, roubado os santos e os paramentos e, com eles, estavam a alimentar aquela medonha fogueira. Diziam alguns que tinha começado a guerra civil em Espanha; que não, diziam outros, que assaltos a Igrejas e Conventos já tinham acontecido noutras terras e nem por isso a guerra tinha eclodido. O certo é que, naquela noite, a violência não foi mais além. Foi depois. E nós, os que jogávamos berlinde no terreiro, à beira do rio, fomos os primeiros a dar por isso. A terra tremia sob as nossas mãos. Uns dias depois, aos tremores da terra, veio juntar-se o troar dos canhões, longínquo, assustador. Depois, cessaram os tremores de terra, deixámos de ouvir o troar dos canhões. Alcoutim, voltou à sua vida de todos os dias, à sua modorra. Que não demorou muito. Talvez uns dias; porventura, umas semanas. Apenas me lembro de que, um dia, fomos novamente despertos pelo repicar vivo e continuado dos sinos da Igreja de S. Lúcar e pela vozearia de centenas de pessoas que corriam, convergindo, aparentemente, para um determinado ponto da vila espanhola. Lembro-me de ouvir gente nossa a dizer que os franquistas tinham chegado e ocupado S. Lúcar, sem combate, pacificamente. Porém, do que se passou nos dias seguintes, retenho na memória a caça que era feita pelas nossas autoridades, auxiliadas por um civil, um zé ninguém, cujo nome ainda não esqueci, aos espanhóis que, de barco ou a nado, procuravam alcançar a nossa margem, fugindo à sanha vingativa e assassina dos franquistas.



[Sanlúcar, local junto ao barranco onde foram queimados os santos. Foto JV, 2009]

Lembro, ainda, porque o conheci, D. Sebastian, o barqueiro que fazia a ligação de S. Lúcar a Alcoutim, a quem o meu Pai, um dia, perguntou:

“D. Sebastian, de que lado está?”
“De que lado hei-de estar, senhor? “Eu sou pobre!”, respondeu.

Soubemos, depois, que tinha sido fuzilado, juntamente com os seus filhos mais velhos. O que. Aliás, aconteceu a todos quantos tinham participado ou apoiado o assalto à Igreja e à queima dos santos e dos paramentos, ou que, sendo socialistas, comunistas ou anarquistas, manifestaram publicamente a sua solidariedade ao governo da Frente Popular.

Lembro, sobretudo, o silêncio e a expectativa com que ouvíamos o arrastado e trágico dobre a finados dos sinos da Igreja de S. Lúcar, tentando sobrepor-se às descargas dos pelotões de fuzilamento.

Lembro-me, também, de ter visto chegar, algum tempo depois, ao cais de Alcoutim, vindo de S. Lúcar, uma lancha da Guarda Civil, transportando um pequeno grupo de militares. Vestiam farda verde escuro que parecia acabada de estrear. E não esqueci sequer, o característico bivaque, donde pendia um berloque ou borla que lhe dava uma certa graça. Não me lembro de ter visto muita gente de Alcoutim no cais, a recebê-los. Para além de alguns elementos da Guarda Fiscal, haveria uma dúzia de pessoas, incluindo a pequenada que, como eu e àquela hora, andavam brincando à beira rio.


[Sanlúcar, local onde se situa o cemitério. Foto JV, 2009]

Para ajudar a que tudo isto me tivesse ficado gravado na memória, aconteceu que, depois de darem uma volta pela vila, um dos militares ter pedido a um dos acompanhantes que lhe indicasse a casa onde morava o sr. Temudo. Eu ouvi a conversa e, cheio de medo, de imediato corri para casa para avisar os meus Pais sobre o que tinha ouvido.

E foi com algum alívio, que vi, momentos depois, quando eles chegaram a minha casa, os meus Pais cumprimentarem com muita simpatia um dos militares que, fiquei a saber depois, conheciam de Vila Real de Santo António, onde ele servira, durante alguns anos, na mercearia onde nos abastecíamos. O rapaz não tinha esquecido que os meus Pais tinham vindo para Alcoutim e, uma vez do lado de cá, não quis perder a oportunidade de os ver e de os cumprimentar. Há, porém, uma pergunta que a mim mesmo faço, sem encontrar resposta que me satisfaça: como se explica, numa altura em que a fronteira estava, obviamente encerrada, a vinda de um, ainda que pequeno, grupo de militares espanhóis a Alcoutim? Terão ido agradecer o “prestimoso” serviço de caça aos que, de barco ou a nado, tentavam escapar à “justiça” dos vencedores, aos pelotões de fuzilamento? Cruenta “justiça”, essa, de olho por olho, dente por dente, praticada, aliás, por ambos os lados dessa guerra fratricida!

Lembro-me, por fim, de um pequeno mas interessante facto, que me parece digno de ser contado. A vila de Alcoutim tinha Igreja, mas não tinha padre. Esta carência, ao que julgo, dever-se-ia à falta de recursos da paróquia para o seu sustento. Quando nascia, se casava ou morria alguém, chamava-se o cura de S. Lúcar para vir celebrar as habituais cerimónias. Isto satisfazia as necessidades religiosas que mais preocupavam os crentes e, diga-se sem cinismo, ficava muito mais em conta! Mas esta situação, beneficiou de um breve intervalo. Fugido aos azares da guerra e às graves implicações das opções político-partidárias e religiosas de cada um, veio parar a Alcoutim um cura espanhol, um “fraca roupa”, muito velhinho, muito debilitado, mas, também, muito simpático e bondoso. Instalaram-no numa pequenina casa, muito pobre, perto do rio, para lá do Quartel da Guarda Fiscal. Nós, a garotada, visitávamo-lo com alguma frequência, menos para o ver a ele, do que para admirarmos um casal de rolinhas mansas que ele trouxera consigo, numa gaiola. Para trás, deixou tudo, menos as suas doces rolinhas!

Permaneceu pouco tempo em Alcoutim. O vento que o trouxe, o levou, também.

Este é o testemunho prestado setenta e três anos depois da ocorrência dos factos que relatei, sujeito, por isso, a todos os percalços que referi na “Advertência”.

Vila do Conde, 16 de Agosto de 2009.


Pequena nota

Se as três colaborações anteriores deste nosso Amigo e Colega de profissão estão muito ligadas a Alcoutim, esta então bate em cheio. Tudo se passa à volta da pequena vila raiana e naturalmente da sua irmã siamesa.

Setenta e três anos depois manter tudo isto bem arrumado na memória, não é para todas as pessoas. Registar tudo isto aos 7 anos! A mim, impressiona-me.

Quando isto se passou, eu ainda não era nascido. Trinta e um anos depois a vida profissional levou-me a Alcoutim. Nesta altura estes factos ainda estavam bem enraizados na memória dos alcoutenejos que a eles assistiram. Devido ao interesse que sempre tive por estes assuntos fui tendo conhecimento praticamente de todos, excepto do cura com as suas rolinhas que neste relato nos traz a indispensável pitada de doçura.

Apercebi-me facilmente que só obtinha relatos mais abertos quando tinha um só interlocutor e ainda que no fundo “encontrássemos “ a posição política do narrador, ele naturalmente tentava encobri-la como autodefesa. “Estávamos na “democracia-salazarista” e até aqui havia gente a trabalhar directa e indirectamente para o regime político vigente.

Não digo antes, mas depois do 25 de Abril nunca encontrei nada escrito sobre este assunto.

Nunca ninguém vê as coisas da mesma maneira, mas este precioso relato irá mostrar aos jovens alcoutenejos de hoje que tenham interesse por estes assuntos, o que se passou em Alcoutim neste períodos tão difícil da vizinha Sanlúcar.

Este relato, tenho a certeza, já não se vai perder. Ficará a fazer parte da história recente de Alcoutim.


Direi ao José Temudo, pois penso que não o saberá, que pelo menos enquanto estive em Alcoutim, na Festa em Honra da Padroeira de Sanlúcar, Sta. Virgem de la Rábida, quando a procissão passava no local onde foram queimados os santos, parava, virando-se as imagens para o barranco, relembrando o acontecimento.

Apraz-me referir que este texto foi escrito propositadamente para o ALCOUTIM LIVRE
o que muito me sensibilizou e agradeço.

O seu contributo é e será importante para Alcoutim.

Um grande abraço do

JV

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Etnografia Portuguesa (Vol. VI)



ETNOGRAFIA PORTUGUESA, Tentame de sistematização pelo Dr. J. Leite de Vasconcellos, Vol. VI, organizado por M. Viegas Guerreiro com a colaboração de Alda da Silva Soromenho e Paulo Caratão Soromenho, é da responsabilidade da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983, onde o adquiri em 1990.

Este volume tem várias referências a Alcoutim, como iremos indicar:

Pág. 112 – tambolarões (pesos dos teares),
Pág. 283 – malhão (maroiço de pedras, que se faz num cerro para se estar à sombra, no Verão),
Pág. 296 – noiva (boneca da chaminé ou frade do lar);
Pág. 299 – forno (cúpula de tijolos e pedaços de telha, base de pedra; na parte superior, um pote antigo),
Pág. 336 – dobrez da roupa (mantas e lençóis dobrados e em pilha), machucador (para pisar o alho), colherão (colher de pau de cabo comprido), palheto (para mexer a comida na panela) e
Pág. 579 – pensamento (brincos – argolas de certo feitio).

De formato 21X28,5 cm é constituído por 773 páginas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Arroja cus



A Câmara Escura de hoje é uma foto recentíssima.

Como todos sabemos, as zonas rústicas também têm nomes para poderem ser identificadas, tal como acontece com as urbanas. Era este um dos meios utilizados para a sua identificação nas antigas matrizes prediais, grandes calhamaços descritivos, muitos deles quase desfeitos pelo seu constante manuseamento.

Estes topónimos rústicos têm várias origens, algumas semelhantes à dos urbanos mas os ligados aos reinos vegetal e animal, tal como os de caracterização geográfica, são preponderantes.

O caso que apresentamos é bem diferente.

É topónimo antigo ainda que não conheçamos quando teria aparecido.

Conhecêmo-lo antes de termos percorrido a zona e sempre nos interrogámos quanto à sua origem.

Localmente, nem “estórias” há para contar. Ninguém se lembrava de ter um nome diferente, mas ninguém sabia dizer porque o tinha.

Pouco depois de conhecermos razoavelmente a zona, que se situa nas redondezas do “monte” de Afonso Vicente, encontrámos algo que pode justificar a presença do topónimo:- uma grande pedra, (grauvaque) “nascidia” como aqui designam as que “nasceram”no local e que possui uma considerável inclinação, como a fotografia acima mostra.

Teria servido em tempos para alguém por ela escorregar? É que nesta altura não havia “fabricados”, e não podia haver, os escorregas que as nossas crianças têm nos parques infantis.

Quando fui para a escola primária, o seu acesso fazia-se por uma escadaria que possuía lateralmente um muro de cada lado, inclinado, coberto por larga cantaria. Escorreguei por ele muitas vezes e era uma luta entre a pequenada para conquistar um lugar para o fazer. Nesse tempo, já existia na minha cidade um parque infantil, com baloiços e escorrega, mas para o utilizar era necessário pagar, pelo que se estivessem a dele usufruir cinco crianças, estavam a assistir duas ou três vezes mais!

Também sabemos que escorregar por uma pedra é uma reminiscência de um antigo culto gálico.

Estará aqui a razão do topónimo?

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Tachos de arame



Na rubrica Etnografia apresentamos hoje mais uma peça, neste caso várias de tamanhos diversos e que são hoje praticamente peças de museu.

Estes tachos sem tampa eram designados antigamente por tachos de arame, pois eram feitos de ligas metálicas à base de cobre. A estas ligas hoje é comum chamarem-lhe latão ou bronze.

Eram muito frequentes no Alentejo, acabando por se estender às zonas circunvizinhas como é o caso da Serra Algarvia e concelho de Alcoutim.

Com formato em tronco de cone invertido, possuíam duas asas arqueadas e robustas e havia-os dos mais pequenos aos maiores.

Muito areados por dentro, o seu brilho chamava a atenção e constituíam peças de referência nas casas mais abastadas.

Os de menores dimensões destinavam-se principalmente à confecção das tradicionais papas, principalmente de milho, feitas e acompanhadas de diferentes maneiras. Os exemplares maiores, entre outras funções, tinham por fim “fazer” o azeite, ou seja fervê-lo, para lhe dar um paladar mais adequado.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A Capela de Santa Marta (a velha) e o "monte" do mesmo nome, na freguesia de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 26 DE ABRIL DE 1990)



O “monte” de Santa Marta situa-se na parte norte da freguesia de Alcoutim.

Para o homem do nordeste algarvio, “monte” não significa o mesmo que no Alentejo.

Aqui, é sinónimo de povoação, lugar, lugarejo. Para o alcoutenejo, aldeia, destina-se exclusivamente a povoações sede de freguesia, com excepção da vila, como é óbvio.

De resto, tudo são “montes” ou “montinhos” e nalguns casos faz parte do próprio topónimo.

Lembramo-nos de certo dia ouvir a um balurquense, muito satisfeito, dizer que o seu monte já tinha sido elevado a aldeia, pois era assim que no jornal que tinha lido, lhe chamavam.

Mas é muito possível que, em tempos recuados o significado fosse o mesmo, uma vez que o concelho era constituído fundamentalmente por herdades, grande parte do Senhor de Alcoutim, o fidalgo João Freire de Andrade; mais tarde dos Condes, pelo casamento da filha deste com o primogénito do Marquês de Vila Real e depois, por confiscação, da Casa do Infantado e com o liberalismo, vendidas à burguesia local.

Ee abono deste ponto de vista, temos os “montes” da Palmeira, Zorrinhos, Castelhanos e Soudes, onde em todos existiram herdades com esses nomes que pertenceram aos Condes de Alcoutim. Pela mesma ordem de ideias, talvez a herdade do Vascão, que pertenceu à Capela de Nª Sª da Conceição, tivesse dado origem ao “monte” do mesmo nome, ainda que primitivamente fosse designado por Fonte Almece. Também nos parece estar relacionado com a herdade dos Coitos, que foi património municipal, o topónimo Coito, na freguesia do Pereiro.

Notam-se também alguns topónimos provenientes de antropónimos, o que dá ideia de abastados senhores possuidores de vastos domínios. Poderá estar neste, entre outros, Afonso Vicente.

Talvez esteja aqui a razão pela qual os alcoutinenses chamam “montes” às suas povoações.

É evidente que nem todos os montes teriam essa origem, como será o caso de Santa Marta, que foi buscar o nome (o que é vulgar no nosso País), à Santa da devoção das suas gentes e a quem ergueram uma ermidinha. Quando escrevemos alguma coisa sobre ela, não pensávamos que fosse tão antiga. Graças ao valioso trabalho do Dr. Hugo Cavaco (1), ficámos a saber que em 1566 já era uma “hermida … muito antiga” e a descrição feita nessa altura, identifica-se bastante com as ruínas ainda existentes.

A porta é que parece ter sofrido várias transformações e nessa altura, descreve-se como ”d`alvenaria redondo fechado com suas portas”.

De duas águas, encaniçada, paredes de pedra e barro. Altar de alvenaria e nele encontrava-se a imagem da padroeira, considerada muito velha. De tal maneira que é proposta a sua substituição nos seguintes termos: “que … fação outra imagem nova porque a que hora tem não he como deve ser”.

Certamente que não é esta a imagem que chegou aos nossos dias, pois o Dr. Francisco Lameira (2) refere-a em razoável estado de conservação, considerando-a como exemplar de boa qualidade, imagem pintada, dourada e estofada, datando-a do século XVIII.

Depois da tentativa de roubo, lá pelos meados da década de setenta, dos nossos dias, foi recolhida na Escola Primária.

Talvez por esta ter ficado devoluta, passou para o salão de convívio.

Festejada a 29 de Julho com missa solene, procissão e arraial, tudo acabou na década de trinta. Depois, foram as divergências para o seu restauro, acabando por vencer a opinião que defendia a construção de uma nova capela.


Em 1985 é noticiada a concessão à Diocese do Algarve, pela Câmara Municipal, de 480 metro de terreno para o efeito (3) e em 1986 já a avistámos de pé, mas pensamos que ainda está distante a sua conclusão.

Os santa-martenses reagiram de uma maneira diferente dos seus vizinhos de Clarines, que tiraram das ruínas a sua velhinha capela.


Santa Marta, irmã de Maria e de Lázaro. Uma antiga tradição diz que ela foi morrer na Provença (França). Curiosamente, perto da povoação de Santa Marta existiu uma herdade denominada das Provenças, zona rústica ainda hoje assim conhecida. Haverá alguma relação entre uma coisa e outra? Pensamos que sim.

A povoação e em relação aos montes vizinhos, ainda está consideravelmente habitada.

Teve sempre uma vida muito ligada a “Os Coutos” ou “Coitos do Concelho”, mais tarde designada por “Herdade dos Coitos”.

Terrenos tornados imunes por uma carta (de couto), implicavam, como privilégio mais importante, a proibição à entrada de funcionários régios. Este privilégio foi abolido na última década do século XVIII.

Em 1837 a Rainha D. Maria II, por despacho de 23 de Setembro, comunica à Junta de Paróquia do Santíssimo Salvador de Alcoutim que não lhe pode entregar os terrenos denominados - Os Coutos - , por carecer de autoridade para fazer doações de bens pertencentes a outras corporações.

Dois dias depois, a vereação municipal debruça-se sobre a propriedade que o concelho possui entre os montes de Santa Marta e do Coito, chamada os “Coitos do Concelho”, concluindo que havia de produzir mais rendimento, sendo aforada, do que andando de ração. Acordaram que a Câmara fosse em vistoria com a assistência de dois lavradores conhecedores daqueles terrenos, a fim de os demarcar e dividir em duas ou mais sortes, para assim serem aforados a quem por eles mais desse.

No dia seguinte, os membros da Câmara reuniram-se com o lavrador do monte do Coito, Joaquim Costa, tendo faltado, com legítimo impedimento, o outro lavrador designado, Lourenço Dias, do Cerro da Vinha.

Foram feitas duas “sortes” ou “quinhões”, a do Norte, pegado ao Coito e a do Sul, a Santa Marta.

Fez-se público em todo o concelho esta divisão e pelo espaço de trinta dias a contar de 1 de Outubro recebiam-se os lanços para no fim serem os quinhões aforados a quem mais oferecesse. O preço de abertura foi fixado em 12 mil réis.

Sá passados seis anos (19.06.1843) se volta a falar dos "Coitos" nas sessões municipais. A situação financeira do município é considerada grave, só de Terças devem ao estado 365$275, que têm de pagar imediatamente por haver já ordem para a citação.

Para resolver a situação alvitra-se propor superiormente a devida autorização para a venda dos foros e dos coitos do concelho.

Se assim não for, terão de o ser na mesma pelo poder judicial, para pagamento daquela dívida (Terças).

Este problema, se foi resolvido, foi-o em parte, conseguindo-se o seu adiantamento já que em 14 de Março de 1850 se volta a falar na dívida das Terças e outra.

E o curador Geral dos Órfãos neste julgado, António Pedro Teixeira (4), que em reunião camarária informa haver recebido ordem determinante para fazer entrar no Cofre dos Órfãos, todas as dívidas activas do mesmo cofre e que entre elas figura uma não pequena contraída pela Câmara, há trinta e tantos anos para o fim de satisfazer as Terças, a qual presentemente ainda monta para mais de trezentos mil réis. Pede por isso que a dívida seja satisfeita, pois se o não for, vê-se obrigado a executar a Câmara e proceder à penhora dos bens e rendimentos do concelho.

Preocupa-se o Presidente e propõe que o assunto decorra com o menor vexame para a câmara e habitantes do concelho.

Para resolver a situação foi deliberado pedir autorização ao Conselho do Distrito para a venda ou remição dos pequenos foros e venda de parte da Herdade dos Coitos (5), isto é, os terrenos que presentemente constituem os ferragiais do Coito e Santa Marta.

Em 1854, sessão de 24 de Maio, voltam os Coitos do Concelho a ser motivo importante pelo pouco rendimento que dão à Câmara. Nova proposta é apresentada e aprovada: dividi-la em pequenas courelas e ferragiais junto dos montes. Para proceder à divisão em courelas, foram nomeados Manuel Bartolomeu, de Afonso Vicente, Manuel Vilão, do Coito e Manuel Afonso Corvo, de Santa Marta.

Em 20 de Agosto a Câmara foi em “comissão” ao Coito proceder à divisão de demarcação dos ferragiais para serem arrendados. As coisas não deviam ter decorrido com muito sossego já que o Administrador do Concelho mandou levantar auto sobre os acontecimentos que tiveram lugar no monte do Coito, onde aquele povo reunido com o de Santa Marta cometeu o excesso, segundo a Câmara, de arrancar os marcos que esta tinha mandado colocar.

A Câmara agradece ao Administrador as providências que tomou para conhecer quem foram os principais membros da assuada que lhe foi feita.

Durante anos, foi posta a arrematação “as rações dos coitos do concelho” que acabou por ficar devoluta durante quatro anos” sem haver quem nella queira lavourar depois que a Câmara decidiu não dar terra de renda”.

Esta decisão municipal encontrou grande oposição por parte do povo de Santa Marta e do Coito, montes que viviam muito na sua dependência.

A Edilidade acabou por decidir o arrendamento pelo prazo de seis anos, o que foi arrematado por José António de Santa Marta, pela quantia de 40$000 réis anuais, sendo o primeiro pagamento feito por Santa Maria de Agosto de 1859.

Esta situação de arrendamento e à mesma pessoa mantém-se até 1873.



Na sessão municipal de 4 de Novembro de 1860, o presidente da Câmara, Augusto Carlos Pinto, comentou “a estreiteza e acanhamento do espaço que ocupão os Paços do Município, tornando-os insuficientes para o fim a que são destinados”. Acontece que a Câmara é obrigada a fornecer instalações para as audiências judiciais, Administração do Concelho e, agora, também para a Repartição de Fazenda, o que já foi solicitado pelo respectivo escrivão. E continua o Presidente da Câmara: “He de todos sabido que não há casas que possam destinar-se para tais funções e mesmo se as houvesse, a Câmara teria de pagar de aluguel acima de trinta mil réis anuais”.

Sabe-se que a Herdade dos Coitos, propriedade do município, está rendendo 40$000 réis, quando o seu valor intrínseco excede seguramente a 1 800$000 réis.
Se esta propriedade fosse vendida teria a Câmara 1000$000 réis para fazer um prédio com as acomodações necessárias para as repartições públicas no Largo da Praça Nova e lhe ficava ainda 800$000 réis para empregar em inscrições de juros a 3%ao ano.

Além disso ficavam-lhe os actuais Paços do Concelho que poderiam alugar-se”.

Encontrando-se presente o Administrador do Concelho, Paulo José Lopes, foi a proposta posta à discussão sendo aprovada por unanimidade, pedindo-se a “Sua Magestade” autorização para a venda da herdade e a possibilidade de aplicar a quantia que for necessária para execução daquele plano. Foi pedida também autorização para a venda do edifício onde estavam funcionando os serviços municipais e de cadeia se no novo houvesse lugar a essas dependências.

A herdade veio a ser efectivamente vendida, penso que a quem a trazia de renda, pois na sessão de 15 de Novembro de 1873 são apresentados cinco títulos de inscrição de dívida interna fundada, no valor de dois contos duzentos e cinquenta mil réis, provenientes da troca da venda da Herdade dos Coitos.

A título de curiosidade dizemos que em 1845 havia no monte de Santa Marta uma ama de leite e em 1877 faz-se apreensão de tabaco de contrabando a um indivíduo aqui residente que é enviado sob prisão para Tavira.

A construção da E.N. 122, cujas principais obras de arte ainda estavam por concluir em 1940 (6), passou mesmo ao lado de Santa Marta, o que foi um benefício considerável pelas facilidades de comunicação que adquiriu.

Em 18 de Janeiro de 1917 é pedida a criação de uma escola móvel neste monte, a que se juntariam as gentes de Afonso Vicente e do Coito. Por despacho publicado no Diário do Governo de 29 de Março, daquele ano, é efectivamente criada tal escola que funcionou em casa de Joaquim Celorico Palma, que oferecia igualmente a iluminação para a mesma e residência para o professor.

Em 28 de Fevereiro de 1935 o Presidente da Câmara informa que entre outros, foi criado um posto de ensino escolar em Santa Marta.

O edifício escolar que entretanto foi construído, encontra-se presentemente devoluto, por falta de alunos, como já se disse.

Desde 1984 que Santa Marta se pode orgulhar de possuir algo que, no concelho, só ali existe, um Atelier-Galeria que tem efectuado, além de exposições, sessões culturais destinadas a jovens (passagem de slides artísticos, música, iniciação à cerâmica artesanal, ecologia, jogos de computadores, etc.) tudo isto em plena serra algarvia.



Entre outros, já ali expuseram artistas como Kum Nam Baik, professor de arte na Universidade de Jung Kyun Kwan, da Coreia do Sul (1986), Lídia Soares Lopes, licenciada em artes plásticas (1988), Nicolau Saião (1988), Almeida e Sousa (1988) e Manuela Alegre (1989).

Aqui fica um pouco do passado e do presente do monte de Santa Marta, freguesia de Alcoutim.

NOTAS
(1)“Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Ed. CMVRSA, 1987
(2)A Escultura de Madeira no Concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX (em colaboração com Manuel Rodrigues), Faro, 1985.
(3)Jornal do Algarve de 13.06.1985.
(4)Em 1842 era recebedor do Concelho e em 1855 um dos maiores contribuintes do concelho. Nasceu em Giões a 8 de Abril de 1816 e faleceu em Alcoutim no dia 11 de Novembro de 1857. Sepultado no cemitério da vila, constituindo a sepultura uma pequena obra de arte, a única do tipo existente.
(5)Acta da Sessão da Câmara de 14 de Março de 1850.
(6)O Século, nº extraordinário de 1940.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Uma "insurreição" em Alcoutim





Escreve
Gaspar Santos




Tempos difíceis em Alcoutim nos anos de 1940 a 1945. Portugal não entrou na Guerra Mundial que estava a decorrer, mas participava no esforço de guerra fornecendo alimentos aos países beligerantes. Por isso havia rigoroso racionamento, aliado às carências financeiras e de transportes dos habitantes do concelho de Alcoutim.

A gestão do racionamento estava a cargo da Intendência Geral dos Abastecimentos.

Sendo o seu dirigente concelhio um tenente reformado do exército de nome Victor Manuel da Costa que residia nas Laranjeiras e era, então, também Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim.

O escritório da Intendência Geral dos Abastecimentos era no rés-do-chão dos Paços do Concelho, tendo uma janela para a actual Rua do Município e outra para a rua que sobe na direcção da Igreja Matriz.


A maior parte das vezes um chefe de família obtinha da Intendência uma senha para dois ou três quilos da farinha de trigo ou de milho, que compraria depois num moinho a 5, 10 ou 15 ou mais km de distância da sua residência. O saco era trazido para casa às costas. Para obterem essa senha tinham que tomar lugar na fila muitas vezes ao pôr-do-sol. Dormiam ao relento para não perderem a sua vez. Estas pessoas estabeleciam para o dia seguinte o início da fila na janela que tinha funcionado nesse dia.

Vi muitas vezes esse “espectáculo” quando vinha de regresso com minhas irmãs que acompanhara ao baile.

Algumas vezes, dependendo do humor do tenente Victor, a janela em que os funcionários começavam a dar as senhas era aquela em que não havia fila. As pessoas tinham que se reorganizar de novo o que por vezes não era fácil e levava a que os mais espertos enganassem os outros na ordem da fila. Não era só o tempo de espera que estava em causa – isso até era o menos. Acontecia que muitas vezes o stock de géneros se esgotava e a noite passada ao relento revelava-se infrutífera. Originavam-se conflitos entre os homens, chegando até a haver pancadaria. Cenas que deliciavam o tenente Victor que gostava de ver o povo em aflição.

Mas um dia, quando o tenente Victor anunciou: hoje as senhas não são dadas nessa janela, são na outra, destacaram-se vários homens à frente dos quais o Alberto pescador e outros pescadores dos Montes do Rio. Foram na direcção do tenente e gritaram: as senhas são dadas nesta janela ou nós partimos isto tudo!

O tenente mandou prender os três homens que se tinham destacado, e, considerados como presos políticos estiveram mais de um mês fora de suas casas. Não satisfeito com essas prisões, nesse mesmo dia, pelo telefone, pediu reforços ao Governo Civil. A G.N.R. de Tavira arrancou para Alcoutim com uma força de cavalaria para debelar a “insurreição”.

Já a força da G.N.R. estava na estrada, próximo de Castro Marim quando os políticos não salazaristas de Alcoutim começaram a temer o pior: - mal entendidos, precipitações agressivas, prisões etc.
Francisco do Rosário foi falar com o Dr. João Francisco Dias de quem era amigo e disse: Dr. Dias, se a G.N.R. aqui chega as coisas podem complicar-se. Faça qualquer coisa. Ponha fim a isto. O Senhor tem prestígio e nunca fez uso dele de modo a esgotá-lo!!!

Convencido, o Dr. Dias telefonou ao Governador Civil de Faro e disse-lhe:
-Não há aqui nenhuma insurreição.

A seguir esclareceu o Governador Civil do que vinha acontecendo e deu-lhe as garantias que este lhe exigiu:

-Sim senhor, assumo a responsabilidade de que aqui nada de grave se passa e garanto a ordem pública.

Passado pouco tempo, por via telegráfica, o tenente Victor era exonerado de todos os seus cargos administrativos: Presidente da Câmara Municipal e Delegado da Intendência Geral dos Abastecimentos. Após o que foi nomeado Presidente da Câmara Municipal o professor José Maria Mendes Amaral.

E foi assim, desta maneira muito simples, que o Dr. João Dias terminou com esta “insurreição”.


Pequena nota

Mais um excelente texto do nosso Amigo e colaborador do ALCOUTIM LIVRE, Eng. Gaspar Santos que os nossos visitantes-leitores bem conhecem deste blogue.

Grande parte daquilo que aqui narra, já conhecia por conversas tidas ao longo dos anos com quem viveu esses tempos tão atribulados.

Os enredos existentes não eram bem conhecidos do cidadão comum, havendo sempre uma crítica mordaz para a maneira de executar as coisas.

Temos a sorte de ter um filho da terra que apesar da sua tenra idade olhava para as coisas com interesse, fixando-as e que com o avançar da idade e formação em variadíssimos domínios lhe possibilitam hoje escrever estes textos que bem nos ajudam a conhecer e a compreender o passado alcoutenejo.

JV

domingo, 6 de setembro de 2009

Inaugurada Barragem do Pessegueiro

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O dia 2 do corrente foi dia de festa e grande satisfação para o povo do “monte” do Pessegueiro, freguesia de Martim Longo (sem hífen), concelho de Alcoutim. Ia-se inaugurar, com a presença do Senhor Ministro da Agricultura e Pescas, Jaime Silva e outras individualidades como o Director Geral da Agricultura, o Director Regional, os Presidentes da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia de Martim Longo e dos associados da Cooperativa Agrícola do Pessegueiro, representados nomeadamente pelo seus Presidente da Direcção e da Assembleia Geral.

A cerimónia, marcada para as 11 horas veio a ter lugar um pouco mais tarde pois o percurso até à barragem foi efectuado a pé pelas entidades referidas e pelo povo.


A Barragem de aterro com perfil zonado, com altura máxima de 15 m e um desenvolvimento de coroamento de 209 m, situa-se a Noroeste da povoação.

A albufeira a que dá origem tem uma capacidade total de 297x10\3 metros cúbicos e uma área de 7,86 ha.

O Descarregador de Cheias tem um comprimento de 65 m e a largura do canal é de 6m.


A rede de rega desenvolve-se no vale a jusante, numa extensão aproximada de 2,5 km, beneficiando uma área de 23,6 ha, existindo 41 bocas de rega.


Após a inauguração do empreendimento e as palavras de circunstância dos vários oradores, cabendo o encerramento dos discursos ao Senhor Ministro efectuou-se o regresso ao monte, mais propriamente à sede do Clube Recreativo local onde os convidados foram obsequiados com um almoço volante, de onde não constava “caviar” mas sim um interessante e significativo gaspacho, presunto e enchidos de confecção local, com os seus paladares característicos, não faltando as saborosas azeitonas maçanilhas retalhadas e temperadas ao gosto local, os saborosos figos de tuna e as tradicionais filhós adoçadas com mel.

É claro que não faltavam outras iguarias, como jaquinzinhos fritos, leitão assado no espeto, rissóis e croquetes, frangos, eu sei lá que mais!

A doçaria era muito abundante e variada, tal como as bebidas de tipos diversos notando bem a presença de apaladado vinho caseiro, muito elogiado pelos forasteiros, incluindo o Senhor Ministro.

A organização estava perfeita, praticamente sem falhas, sendo previstas todas as situações.

A sede social do Cube Recreativo, é airosa sem luxos, muito funcional e representa bem o interesse e trabalho dos seus associados.

A circunstância da apresentação dos produtos regionais e locais, apresentados com orgulho e dignidade, certamente que constituíram uma lição para muita gente, dada por um povo empreendedor e activo, situado no meio da serra, a cerca de 36 km de Alcoutim. Bato as minhas palmas ao Povo do Pessegueiro.


A minha presença e da acompanhante tem a ver com o convite expresso formulado por um responsável local que nos “conheceu” através do ALCOUTIM LIVRE, do qual é visitante assíduo, segundo nos confessou.

Espero e faço votos que os pessegueirenses tenham perante a barragem a mesma atitude que têm tido nas várias circunstâncias que a vida lhes tem reservado onde têm dado provas de entre ajuda, dinamismo, empreendimento e bairrismo ou não seja o “monte” do Pessegueiro o mais populoso do concelho e o único que tem conseguido manter, com pequeníssimas oscilações, a sua população.

Toda a ajuda que lhe possa ser prestada, justifica-se plenamente.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

António Silva Carmo, um artista


A entrada de hoje parece, à primeira vista que nada tem a ver com Alcoutim, mas não é verdade como tentaremos explicar.

António Silva Carmo não é alcoutenejo mas que eu saiba, já visitou Alcoutim por duas vezes e isto depois de me ter conhecido porque antes disso, nunca tinha lá ido. Também das duas vezes, não nos encontrámos lá.

Não é alcoutenejo mas é algarvio da bela cidade de Olhão, residindo há muitos anos em Peniche, onde nos conhecemos, principalmente devido à arte que tem desenvolvido como “passatempo” e que é a encadernação.

Foi nas mãos de Silva Carmo que vi o Manual do Encadernador (1937) de autoria de Maria Eduarda Barjona de Freitas, como sabem nascida em Alcoutim. Fui eu que acabei por revelar ao Sr. Carmo que a autora era alcouteneja.

Silva Carmo faz o favor de trabalhar para mim há perto de trinta anos pelo que tenho algumas dezenas de livros que comprovam a sua arte, verdadeiramente artesanal.

A fotografia que apresento mostra vários tipos de encadernação que o artesão praticou ou pratica, incluindo lombadas e cantos a carneira. Além do trabalho de encadernador executa o de dourador. Têm todos a circunstância de serem trabalhos sobre Alcoutim, entre as já apontadas é mais uma ligação que se verifica.

Alguns dos trabalhos encontram-se repetidos por razões várias e neles podemos encontrar Alcoutim, Capital do nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985, 1ª Prova, outro exemplar a que se anexaram as notícias dos jornais, algumas com comentários ao trabalho e a extracção de variadíssimas cartas que o autor recebeu, algumas de pessoas que nunca viu; daí o volume estar mais dilatado. O autor, naturalmente mantém todos os originais arquivados. Lá se encontra também Alcoutim Visto através das posturas Municipais (1834/1858), 1989, que além do opúsculo engloba a 1ª Prova e as análises feitas ao trabalho em jornais ou em cartas, outro com Saúde e Assistência em Alcoutim no séc. XIX, 1993, em termos de conteúdo e encadernação semelhantes, tal como acontece com vários volumes de A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», 2007 e ainda aquelas minhas edições que comportam dois ou três exemplares como a colaboração que prestei ao Jornal do Algarve, 2 Volumes (1973-1989) e (1990-1995), a prestada ao Jornal Escrito e à Revista Stílus num total de 24 artigos, a prestada ao Jornal do Baixo Guadiana que se desenvolveu por 32 escritos, outro volume que tem por título Apontamentos Genealógicos sobre ISA, 2004, e os três primeiros volumes do Blogue Alcoutim Livre, estando o 4º à espera de encadernação e o 5º quase concluído.

De autoria do colaborador deste Blogue, Gaspar Santos, tenho encadernado as Crónicas Alcoutenejas que reúne vários artigos então publicados.

Para além destes é apresentada a colecção completa do Boletim Municipal, 1 Vol. constituído por 12 números e outro de Alcoutim – Revista Municipal, constituído pelos primeiros dez números. Os últimos números tem-me sido difícil encontrá-los pois deixaram-me de ser enviados por motivos que desconheço.


Sem aparecer na fotografia possuo dois volumes encadernados do Jornal do Baixo Guadiana, tudo obra deste grande artista.
Só refiro nesta entrada os trabalhos sobre Alcoutim pois tenho naturalmente muitos mais sobre os mais diversos assuntos.

Sem ele, tudo estaria por aí mas sem a apresentação e durabilidade que têm.

Devo isto ao Meu Prezado Amigo António Silva Carmo, Mestre Encadernador a quem desejo um rápido restabelecimento da saúde e poder continuar a encadernar os meus livros.

Para finalizar direi que no Jornal do Algarve de 1 de Junho de 1995 publiquei um escrito que tem por título: A arte de um algarvio na cerimónia nupcial de D. Duarte de Bragança e de D. Isabel Herédia.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

António de Assunção Valério

Só hoje nos é possível noticiar o falecimento do alcoutenejo, António de Assunção Valério, de setenta e oito anos, ocorrido no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, no dia 26 de Agosto último.

Enfermeiro-chefe aposentado, fez o curso de enfermagem psiquiátrica com alta classificação, curso que iniciou em 1949.

Frequentou, entretanto, o curso de medicina e o de matemática, que não concluiu.

De 1943 a 1949 exerceu funções no Grémio da Lavoura de Alcoutim.

Foi um dos fundadores do Grupo Desportivo de Alcoutim e correspondente de jornais diários.

Manteve sempre ligação à terra que o viu nascer, tendo mesmo construído habitação de férias no monte da Corte da Seda, onde passava temporadas.

Veio a sepultar no cemitério de Alcoutim no dia 29 de Agosto.

As nossas condolências.