sábado, 10 de outubro de 2009

Sanlúcar, irmã siamesa



A Câmara Escura de hoje não é sobre a vila ou concelho de Alcoutim, mas como o título indica diz respeito à sua irmã siamesa, como lhe chamava o nosso saudoso Amigo, Luís Cunha.

Tirada com o meu “caixote” em 1972, ainda não existia o bairro de construções de 1º andar que se veio a construir na parte mais próxima do castelo e que não veio a desfigurar a característica da povoação.

Nestas coisas, Sanlúcar levou sempre a dianteira em relação a Alcoutim, onde as aberrações são mais do que muitas, como qualquer pessoa com um mínimo de sentido estético se apercebe.

O castelo, que bem se divisa no cimo do cerro a uma altura de 137 metros e designado por castelo de São Marcos, é obra do Conde Jerónimo Ró, Mestre de Campo General, responsável pela defesa desta zona na altura das Guerras da Restauração, tendo aproveitado para o efeito os alicerces de uma antiga fortaleza que ali existiu.

A igreja, que igualmente se distingue, tem por invocação Nª Sª de la Rábida e Duarte de Armas já a representa no Livro das Fortalezas, primeira década do século XVI.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Alguns aspectos sobre o linho no concelho de Alcoutim

É conhecido como planta têxtil desde tempos longínquos e na década de cinquenta dos nossos dias ainda era semeado em muitos pontos do concelho de Alcoutim, alimentando os teares manuais existentes por todo o lado.

Em 1890 havia bastantes alcoutenejos que se prontificaram a experimentar o cultivo das variedades de linho a que se refere a Portaria do Ministério das Obras Públicas de 12 de Março daquele ano. Dessa lista constavam: - António José Madeira de Freitas, José Pedro Roiz Teixeira, Eduardo José Lopes, Joaquim José Lopes, Manuel da Palma Vilão, António Joaquim da Palma, António Cavaco, António Estevens, José Gomes Delgado Júnior, António Nobre, António Afonso Teixeira, Manuel Miguel e José Gomes.

[Tosando,(recriação). Foto JV, 2009]
Estão aqui representados os maiores lavradores do concelho encabeçados pelo pároco de Alcoutim.

Postura municipal do século passado proibia alagar linho nos pegos da Ribeira de Cadavais, o que veio a ser alargado a outros.

O Administrador do Concelho informa em 1874 que não tem grassado moléstia alguma em qualquer das espécies de gado, tendo contudo morrido três reses no monte da Palmeira e quatro nas Cortes Pereiras, aquelas há mais de um mês e estas há quinze dias e isto por terem bebido nos pegos onde se alaga linho e adoçam tremoços, por descuido dos rapazes que as guardavam.(1)

Semeava-se no princípio da Primavera e arrancava-se em fins de Julho, deixando-se em seguida secar.

[Fiando (recriação). Foto de JV, 2009]
Os teares eram de fabrico local e na grande maioria dos casos feitos de pinho, aparecendo também alguns de castanho e outros de eucalipto, isto segundo informações prestadas pelas poucas tecedeiras que existiam em 1977 a “entrevistas” feitas pelos alunos da 4ª classe das escolas dos Balurcos, Martim Longo e Palmeira. Ainda laboravam nesta altura teares em Casa Branca, Balurco de Cima, Palmeira, Tacões e Laborato, conforme se extrai dessas “entrevistas”.(2)

As tecedeiras trabalhavam o fio em tipos diversos de panos: - linho delgado, linho de fiado, redondo, estopas, toucas e toalhas.

Com o fuso se fiava, com a mãosoira batia-se e o sedeiro, cepo de madeira com dentes, separava o linho da estopa, são algumas das peças indispensáveis para a preparação da tecelagem.

Em 1877 a Administração do concelho possuía amostras de lã branca e preta e de linho com destino à Exposição de Paris. (3)

Penteadeiros, freguesia de Martim Longo onde trabalha ou trabalhou a última tecedeira do concelho e Premedeiros, zona rústica da freguesia de Alcoutim, são dois topónimos que poderão ter origem nesta actividade.

NOTAS

(1) - Ofício Nº94, de 21 de Setembro de 1874
(2) – Professoras Maria Odete do Rosário Campos (Martim Longo), Domingas Rosa Neto Gonçalves (Balurcos) e Maria Isabel Costa do Rosário Nunes (Palmeira)
(3) - Ofício nº 164 de 24 de Outubro de 1877

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Potes para azeite


O azeite, óleo extraído da azeitona, é a gordura vegetal produzida principalmente na região do Mediterrâneo.

A oliveira espalha-se por todo o país não se dando na faixa marítima e nos lugares de maior altura.

O azeite produzido no concelho de Alcoutim era armazenado em potes de folha-de-flandres feitos artesanalmente pelos vários latoeiros então existentes no concelho.

Eram todos da mesma configuração, a parte inferior tinha o feitio de um cilindro, com a altura cerca do dobro do diâmetro, seguindo-se um tronco de cone de base igual à do cilindro, sendo a outra de metade do diâmetro desta. A parte restante e que diz respeito à tampa, é um cone muito achatado. A tampa funciona através de uma dobradiça, havendo para o necessário ajustamento um considerável rebordo.

Todos os potes têm no seu interior, logo à entrada, uma espécie de pequeno gancho para se colocar um púcaro, normalmente de esmalte que servia para retirar azeite. Quando isso acontecia, levava-se sempre um prato para aproveitar o azeite que ia escorrendo do púcaro.

Todos os potes eram pintados para evitar que a ferrugem os atacasse provocando roturas e perdendo-se o azeite.

Os potes mais pequenos eram de três alqueires de azeite. Alqueire, do árabe al-kail era uma antiga medida de capacidade para secos e líquidos e que variava de zona para zona e o alqueire de sólidos tinha uma capacidade diferente dos de líquidos.

A partir de 3, havia potes para seis, oito, dez e até vinte alqueires.

Apesar da maioria da azeitona ficar nas oliveiras, pensamos que aqueles que ainda utilizam o azeite da sua colheita o armazenam nestes potes.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A aldeia de Giões, descrição através dos tempos


Depois daqui termos feito as descrições da aldeia de Martim Longo e da Vila de Alcoutim, iremos hoje fazer a da aldeia de Giões que ainda constitui o terceiro centro populacional do concelho e que tem menos observadores como iremos ver.

A mais antiga que conhecemos é a que nos dá o pároco local ao responder ao ponto 4 do questionário e que veio a constituir as Memórias Paroquiais de 1758.

Pronunciou-se assim:- O lugar está situado em um outeyro entre montes a que lá chamam serros, que a cercão de sorte, , que quem vem para elle o não vê senão quando, está perto e só da parte do Norte, hé que se vê em distancia de três légoas campos do termo de Mértola e do dito lugar senão descobre povoação alguma, senão a do monte de Casselinha da dita freguesia que dista do dito lugar a terceyra parte de meya legoa.
A que vem a seguir é de meados do Séc. XIX e de Silva Lopes (1): aldeia grande, muito mal arruada, com boas casas, assentada em hum outeiro entre serros: tem a dous tiros de balla huma fonte abundante, de que bebe o povo, e junto hum chafariz para os gados, e ainda vai regar huma horta, está entre penhascos, e antes do terramoto não bastava para uso da povoação, que sim tem alguns poços, mas todos se seccão no verão.
Pinho Leal, pouco depois, limitou-se a transcrever as palavras de Silva Lopes.


[Torre d Igreja Matriz. Foto jV, 2009]
Pereira de Sousa (2) escreveu: - aldeia grande que assenta sobre os terrenos de Culm, num outeiro entre serros (nome muito empregado na região para designar montanhas elevadas).
Do recente Guia de Portugal, (3) transcrevemos:- Das outras aldeias que salpicam este enclave, a de Giões é aquela que mais atrairá a atenção do viandante (...) Giões justifica bem um desvio da estrada principal e mesmo uma caminhada ao longo da ribeira.
No Portugal Meridional (1995) (4) indicam:- Está situada numa pequena estrada secundária que liga Mértola à estrada principal Silves-Alcoutim, a E.N. 124. De Giões partem algumas estradas que levam aos campos em redor.

Notas
(1) - Corografia do Reino do Algarve, 1841, pág. 398.
(2) - O Terramoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal (...) Lisboa – 1919, pág. 21
(3) – Algarve, José Victor Adragão, Editorial-Presença, pág. 184.
(4) - John e Madge Measures, pág. 77.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Miradouros de Alcoutim

Pequena nota: Este pequeno artigo de opinião foi escrito há 36 anos. Era então um jovem.Hoje as coisas estão algo diferentes. Na altura não havia um tostão na Câmara, hoje existem muito e muitos milhares de euros. Lá fiz a minha crítica que como é óbvio, não deu qualquer resultado.Gostei de reler aquilo que escrevi pelo que o dou a conhecer aos visitantes/leitores do ALCOUTIM LIVRE.

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 4 DE AGOSTO DE 1973)

Abranger largos horizonte, subindo ao cume de um cerro, ao alto de uma torre, ao píncaro de um penedo ou a qualquer outro ponto proeminente, dá-nos uma sensação de conforto e ao mesmo tempo da nossa pequenez perante a imensidão que se alcança.

Desde sempre o homem procurou estes locais, ainda que as razões dessa procura tenham variantes, no decorrer dos tempos.

Inúmeros miradouros, desde o Minho ao Algarve, espalham-se pelo País, alguns até de renome europeu. Uns, desde sempre aproveitados, outros por várias razões ainda por descobrir. Alguns, constituem mesmo, pontos vitais de turismo, com passagem obrigatória.

[Miradouro dos Bancos da Capela. Des. de JV]
Como se compreende a existência de inúmeras vivendas, normalmente de estrangeiros, situadas nos contrafortes da serra algarvia, em pontos proeminentes? Além do sossego das zonas, onde a poluição ainda não chegou, é nossa modesta opinião que a possibilidade de desfrutar uma boa paisagem, teve a sua quota-parte para tal escolha. É evidente que existem outros factores de monta, mas não teria sido desprezado.

Existem variadíssimos aspectos paisagísticos: miradouros que têm como fundo principal uma grande cidade ou pequena vila, a imensidade de uma planície, sulcada pelo rio que a irriga e onde se admira a produtividade do solo; outros retêm por cenário a imensidão do oceano, onde se vislumbra aqui e ali uma embarcação na faina pesqueira ou em passeio turístico; e outros têm por base vales verdejantes, serranias descalvadas ou repletas de arvoredo.

A pequena e velhinha vila de Alcoutim, que não chega a ter três centenas de habitantes e onde as características algarvias são entrecortadas pelas alentejanas, para não falar na influência espanhola, não esquecendo que na maioria das famílias daqui oriundas, pulula sangue do país vizinho, cambem foi bafejada pela natureza com miradouros de interesse, que quaisquer olhos recebem com prazer.

Tem amendoeiras, cuja flor é a avidez de muitos turistas nacionais e estrangeiros. Dispõe mesmo de “quadros” que talvez façam inveja a muitos outros, neste aspecto, já que as amendoeiras, ainda que de menor porte do que no litoral, dispõem-se em terrenos acidentados e não em planícies.

Além do “nevão algarvio” que na visita no mês de Fevereiro, mostra o Guadiana ziguezagueante, ora de margens escarpadas, ora semiplanas, onde o alcoutenejo produz os mimos hortícolas. Em redor, espalham-se os montículos e os vales a que dão origem. Para lá do profundo rio, as terras da vizinha Espanha e, de onde em onde, os agregados populacionais.

A paisagem por vezes é agreste, predominando o mato. A brancura da flor da esteva e nos barrancos o cor-de-rosa da dos loendreiros, não significam menos beleza. Há anos, uma família de pintores dinamarqueses, ali se instalou durante alguns meses, reproduzindo na tela as paisagens e motivos locais.

Vários são os miradouros naturais: cerros da Mina, da Forca, do Alcaçarinho e da Castanha, para só falar nos que nos ocorrem de momento. Dos indicados, é este último que nos feriu mais a sensibilidade e o de mais fácil aproveitamento. Nele se instalou, em 1969, um posto retransmissor da R. T. P. que serve exclusivamente a vila e de que beneficia Sanlúcar do Guadiana.

Para lá se instalar, havia que construir uma pequena casa e via de acesso. A população, convidada a contribuir, foi generosa e os que o não fizeram monetariamente, ofereceram o seu trabalho braçal. Soube-se aproveitar as facilidades da R. T. P. e o precioso auxílio de um dilecto filho desta terra. Hoje funciona a telescola com bastante benefício para a população.

[Miradouro do Cerro da Castanha. Des. de JV]
É do cume deste cerro que se avista surpreendente panorama sobre a vila de Sanlúcar, distantes terras de Espanha, o Guadiana, cerros e vales circunvizinhos.

Não seria possível adquirir uns metros quadrados de terreno para lá instalar uma plataforma de cimento e xisto da região, salpicando-a de simples bancos e de adequados canteiros onde se colocassem variedades de cactos, plantas que além de serem muito decorativas suportam com facilidade a falta de água, que ali se faz sentir?
Desde que imperasse o bom gosto, conseguia-se, com pouco dispêndio, um retiro agradável. Com o alcatroamento do pequeno troço de acesso e a colocação de uma placa indicativa no entroncamento, os alcoutinenses podiam dizer que também tinham o seu miradouro, utilizando-o e oferecendo-o aos visitantes que por vezes aparecem e que abalam sem que os seus olhos “bebam” um panorama interessantíssimo, que reteriam na lembrança.

Não era muito para o que Alcoutim, a vila desprezada, necessita, mas era alguma coisa.

Aqui fica um alvitre, uma sugestão, uma impertinência ou … uma bazófia, se assim o quiserem considerar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Lutão, dois "montes" de topónimo confuso, freguesia de Martim Longo

Iniciemos pelo topónimo que se mostra muito confuso, começando logo pela grafia já que há quem o escreva com um U e quem o faça com um O. Escrevemos com um U porque foi assim que oficiosamente o vimos escrito. No Novo Dicionário Corográfico de Portugal, de A.C. Amaral Frazão - Porto - 1981, o topónimo está escrito com O. Em 1771, em livros da Câmara, escrevia-se com U.

Lutão de lutar ou de luto? Ou Lotão de loto, o mesmo que lódão, substantivo que tem a ver com a flora? Os antigos davam o nome de loto a diversas plantas e a uma delas, comestível, é dada como vulgar no Algarve.

Nas consultas que temos vindo a realizar ao logo dos anos, nunca encontrámos uma explicação para este topónimo.

Esta zona foi ocupada por romanos e árabes como provam alguns achados. Uma mina nas proximidades com vestígios de extracção que remota ao período romano.

Na “Cerca das Oliveiras” com vestígios muçulmanos passava um caminho com calçada medieval ou anterior. Num troço próximo do “monte” havia lajes de grandes dimensões, sendo muitas recolhidas pelo povo para utilizarem como soleiras nas portas das suas casas.

Esta zona estava sob o domínio do Castelo das Relíquias, situado a cerca de 5 km, próximo da ribeira do Vascão. (1)

Quem estiver na sede de freguesia, a aldeia de Martim Longo e o pretender encontrar, toma a estrada nº 124 e, poucos quilómetros andados, situa-se a indicação para voltar à esquerda encontrando estrada (Nº 1041) asfaltada que o levará ao monte de Baixo, onde se localiza, logo à entrada, a antiga escola, encerrada desde 1989 por falta de alunos. (2)

O Monte de Cima situa-se à esquerda, tomando um desvio antes de chegar ao Lutão de Baixo.


[Monte de Cima. Foto JV, 2009]

É curioso verificar que os dois núcleos populacionais possuem placas identificativas ainda que o seu estado já se encontre degradado.

Em 1839 contava vinte e um fogos. Estava ao nível dos Castelhanos com vinte e nove e do Laborato com vinte e oito. (3)

A nível populacional o número de moradores foi aumentando até 1960 e que era de 138 em 1911, cifrando-se em 1991 em 93, sendo apesar disso o quarto mais populoso da freguesia, nessa altura.

Em 1771 e 1774, Manuel Guerreiro, deste monte, fazia o seu manifesto de gados na Câmara, sendo no último registo de 38 reses, 100 ovelhas, 20 cabras, 21 borregos e 7 chibos. (4)


[Monte de Baixo. Foto JV, 2009]

A Junta de Paróquia fez saber à Câmara Municipal em 1846 (5) que a requerimento dos Povos havia formado dois coitos para pastarem somente reses e bestas, um nos restolhos próximos à aldeia e o outro junto do monte do Lutão. Pediam à Câmara a sua confirmação para que possa produzir os efeitos legais.

A Fábrica da Igreja do Pereiro possuía aqui terrenos de que pagava foro, em meados do séc, XVIII, (360 réis), Manuel Martins deste monte. (6)

As ruas foram alcatroadas em 1989. (7)

Existe um Clube de Caçadores.

O Lutão é terra de artesãos, encontrando-se cinco manifestados na Câmara Municipal. Fazem-se flores da folha seca de milho, chapéus de palha e várias miniaturas em madeira. (8)

Em 1992, a Barragem a efectuar no Barranco da Fonte encontrava-se numa fase de análise do respectivo estudo geológico e geotécnico.(9) As obras já estavam em andamento em 1993, calculando-se a sua capacidade em mais de 90.000 m3 o que permitiria abastecer de água as populações de Martim Longo, Lutão e Giões. (10)

Em 1996 foi inaugurado um pontão que era aspiração da população residente.(11)


[Interessantíssima casa de habitação no Monte de Cima. Foto JV, 2009]O

Lutão tem pelo menos uma oficina. Possui habitações modernas, algumas vivendas restando contudo outras ao gosto da região


Nota complementar

Um leitor do AL (A. Martins) ao ler este escrito teve a amabilidade de se nos dirigir nos seguintes termos:
(…)
 De facto, há um vocábulo latino, lutum, cujo significado é barro, lama, e de onde discorre o nosso luto, acção de se cobrir com terra (ou lama) como demonstração de desgosto pela morte de alguém. Daí a lutão, não é difícil, dada a natural evolução do vocábulo para o português a partir de uma das formas tomadas na declinação da palavra. Pode, portanto, estar-se ante a origem do actual topónimo, se (o que não sei se acontece) a região em que a povoação assenta tem características argilosas ou, pelo menos, nela existem ( ou existiram?) lameiros em quantidade que justificaria a designação do local. De qualquer modo, aqui fica uma achega, pois não sou linguista, apenas tendo algum interesse nestes (e outros) assuntos.

Acrescentamos nós que na zona de Martim Longo há terrenos argilosos que deram origem à olaria.

JV 

NOTAS
(1)- “O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, in Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6 – 1997/98
(2) – Boletim Municipal, nº 4 de Abril de 1989, pág. 4.
(3) – Corografia do Algarve, Silva Lopes, 1841.
(4) - Manifeztoz e Arolam toz da Camera doz Gadoz , 1771
(5) - Acta da Sessão da C.M.A. de 1 de Junho de 1846.
(6) – A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) do passado ao presente, António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), J.F. Pereiro, 2007, p.116
(7) – Boletim Municipal nº 5, Setembro de 1989, pág. 4.
(8) – Portugal Meridional, John e Magde Measures, 1995.
(9) - Boletim Municipal nº 10 de Abril/92, pág.3.
(10) - Boletim Municipal nº 12 de Abril/93.
(11) - Alcoutim - Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996.


domingo, 4 de outubro de 2009

História de Portugal - I Vol. (1080-1415)



Pequena nota

O Escaparate de hoje necessita de uma pequena nota introdutória. Iremos referir a “Monumental” HISTÓRIA DE PORTUGAL (em publicação) do Prof. Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, cujo I Volume apareceu nos escaparates em 1977, encontrando-se já publicados dezassete.

Destes, doze trazem referências a Alcoutim, acontecendo isso nos primeiros 10 volumes que chegam até 1910. A partir daí, o valor histórico de Alcoutim começa a declinar até aos dias de hoje.

Que eu saiba, mais nenhuma obra do tipo faz tantas referências a esta pequena vila do Guadiana e ao seu concelho.

Trata-se de uma Edição VERBO.

Iremos referir sequencialmente os volumes que têm referências a Alcoutim e o seu tipo.

Procuraremos intercalar com outras obras para se tornar mais leve a leitura.



O I Volume que abrange o período de 1080 a 1415 (ESTADO, PÁTRIA E NAÇÃO) refere a Pág. 285 - Guerras com Castela (1369-1370 e 1372-1373) e lá vem, como todos os historiadores fazem, as Pazes de Alcoutim que sempre considerámos o acontecimento histórico mais importante passado na pequena vila raiana. Até hoje, como várias vezes temos comentado, nenhum Edil se lembrou de deixar tal acontecimento lavrado numa placa em qualquer lugar da vila.

Uma outra referência é feita a Pág. 358 - Pescas e navegação costeira. Ligado à actividade costeira prende-se o problema das saboarias. Aqui se refere a concessão de D. Fernando em 7 de Julho de 1376 ao seu Almirante Lancerote de França das saboarias pretas de Tavira, Castro Marim e Alcoutim.

sábado, 3 de outubro de 2009

Portas de Mértola



Eram as mais faladas pelo povo que muitas vezes se referia a elas, simplesmente dizendo: -... ali às portas. Esta expressão era suficiente para determinar o local a que nos queríamos referir.

Porque eram as mais faladas? Talvez tivessem sido as últimas a ruir e daí ainda se ter mantido a utilização da expressão. Segundo informações colhidas nos fins da década de sessenta, a algumas dezenas de anos existia um resto de muro onde se encontrava saliente uma pedra perfurada, peça fundamental para o girar da porta, segundo diziam.

A toponímia local mantém a designação de Rua Portas de Mértola, o que só por si, com relativa segurança, nos indicaria a sua localização:- mesmo ali, ao desembocar na estrada nacional que deixou de ser a única entrada rodoviária da vila. Antes da construção do desvio para a Praça da República, todo o trânsito passava por esta rua.

A artéria, também foi conhecida pela Rua da Corredoura, nome que oficialmente já teve, acabando por voltar ao que nos parece mais ajustado.

Esta “Porta” teria começado por servir o velho caminho que conduzia às Cortes Pereiras e dali para Mértola, então importante centro. Daí a designação de “Portas de Mértola”.

Na maioria dos casos as “Portas” tomavam o nome das terras importantes que serviam. Também era frequente o nome de santos. Foi aqui assim, foi por esse País fora.

Só há ruas com a designação de “Portas de...” quando as povoações foram amuralhadas tendo como complemento, na maior parte das vezes o nome das terras que serviam. Os casos em contrário revelam total ignorância e podem enganar muitas vezes as pessoas menos precavidas.

Em 20 de Março de 1873, José Francisco Barrigudo Bravo, aspirante a farmacêutico, oriundo de Mértola e residente em Alcoutim, requer à Câmara terreno para fazer umas casas às Portas de Mértola, pegadas às que ali tem D. Libânia de Barros.

Esta e as outras portas da vila, segundo o pároco que respondeu ao questionário das Memórias Paroquiais (1758) tinham guarda permanente e fechavam à noite, abrindo de manhã.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Caniço para queijos


Quando publicámos no Jornal do Baixo Guadiana, nº 78, de Agosto de 2006, o artigo “A cana na vida alcouteneja”, referimos naturalmente esta utilização que a planta proporciona.

Dos dicionários que consultámos há um que o refere como um regionalismo do Alentejo, definindo-o como rede de canas suspensas do tecto e sobre a qual se secam os queijos (Dicionário da Língua Portuguesa, Fernando J. da Silva, Editorial Domingos Barreira, Porto, 4ª Edição, 1984) e que corresponde efectivamente à definição que aqui lhe pretendemos dar.

O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa/Verbo, 2001, no significado da palavra apresenta, entre outros: Rede de canas entrelaçadas sobre a qual se secam e curam os queijos, ou se põem as carnes ao fumeiro. Por aqui os enchidos punham-se ao fumeiro enfiados em várias canas que se cruzavam e suspensas por arames.

Os caniços para secar queijos, como a fotografia representa, eram constituídos normalmente por três canas com cerca de um metro de comprido e que funcionavam como suportes estruturantes, sendo-lhe atados pedaços de cana mais estreitos (cerca de um terço das de suporte) com um nó muito próprio para evitar o deslaçar e que é semelhante ao feito nos caniços dos telhados.

Constituindo uma espécie de rede, são suspensos do tecto para proporcionar um melhor arejamento dos queijos que se vão estendendo por todo ele e por outro lado evita o ataque da bicharada nociva.

Tudo isto começa a cair em desuso.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Descrição da vila de Alcoutim através dos tempos

Alcoutim, antiga praça forte (1) e histórica vila, também conhecida e indicada por Alcoitim (2) e a que os romanos teriam chamado Alcoutinium (!) e os árabes chamaram Alcatiã (3), situa-se na margem direita do Guadiana, para ele debruçada, e no ponto de confluência deste rio com a ribeira de Cadavais, na encosta de um serro, onde principia a serra algarvia. Na frente, tendo só de permeio o rio fronteiriço, ergue-se a vizinha Sanlúcar do Guadiana, com altaneiro castelo, “ayuntamiento” espanhol onde impera a brancura das casas, facto que lhe tem merecido alguns prémios, de que os habitantes muito se orgulham.

A primeira descrição que conhecemos é a que nos dá o cronista João Cascão, em 1573, quando acompanhou D. Sebastião numa visita ao Algarve:-Alcoutim é de 250 vizinhos, tem defronte hum lugar de Castela, a que chamam S. Lucar e também de 250 vizinhos e toda a mais gente que nelle vive são Portugueses homiziados e não há mais distância de hum lugar a outro, que a largura do Rio.



Na Corografia do Reino do Algarve ( 1577 ), Frei João de S. José, descreve-a assim: ... é ua vila situada na ribeira de Guadiana, seis léguas da barra, pelo rio acima, pera o norte. É pequena na povoação, mas fresca no sítio, porque goza do mesmo rio que lhe bate nas portas e de muito arvoredo e fruta de que as ourelas deste rio estão acompanhadas assim da banda de Portugal como de Castela, com que faz sua navegação não pouco deleitosa, em especial nos meses de Verão e Primavera.

Henrique Fernandes Sarrão, na História do Reino do Algarve (1607), refere:- A vila de Alcoutim está à borda do rio Guadiana, na parte do ocidente, seis léguas da vila de Castro Marim. É de duzentos vizinhos e a derradeira do reino do Algarve de ocidente a oriente... .

O eng. italiano Alexandre Massaii, em 1621, vê-a assim: A sobreditta Villa esta no Rio de guadiana E dista sinco Legoas da Vª de Mertolla, E por esta p.te do leste E o prim.ro lugar do Rei/no do Algarve, he Vª pequena e acastellada ao longuo do Rio e frontrade São lucar de guadiana q he Vª de andaluzia do Reino de Castela (...) (4)



Os espanhóis, em manuscrito citado por J. Veríssimo Serrão, in Uma Estimativa da População Portuguesa em 1640, escrevem: - Cinco leguas de Tavira, en el Algarve, y de su Commarca, se ve la villa de Alcoytin, en un collado cerca del rio Guadiana con una fortaleza, 200 vezinos y una Parroquia Yes cabeça de Condado.
Padre Carvalho (1712), descreveu-a assim: - Cinco légoas da Vila de Castro Marim para o Norte, de fronte da vila de São Lucas, em Andaluzia, junto do Guadiana, em sítio alto, está fundada a vila de Alcoutim, cercada de bons muros, com forte castelo... .



Silva Lopes (1841), anota que está assentada em um cerro que desce para o Guadiana, o qual neste sítio de fronte de S. Lucar, tem 215 varas de largo. Todas as casas são em declive, muito quentes no verão.
O francês Charles Bonnet, na Memória sobre o Reino do Algarve (1850), escreveu: Esta vila que é sede de concelho, está construída em anffiteatro junto ao desfiladeiro em que corre o rio Guadiana. Encontra-se, em parte, cercada por velhas e fracas muralhas que remontam ao tempo dos Mouros, o mesmo acontecendo ao seu forte castelo que está a cair em ruínas, apresentando um aspecto triste. Os seus arrabaldes são pouco férteis, à excepção dos barrancos das margens do rio e do vasto planalto que se estende mais a Oeste.
Ferreira Moitinho (1890), dedica-lhe as seguintes palavras:... a alpestre villa de Alcoutim - situada à margem direita do Guadiana, em frente à villa hespanhola de San Lucar, d’onde as tricanas andaluzas segredam amores aos pegureiros portugueses...



Em Alcoutim, velha praça de armas, principia a serra de Monchique, de cujo cimo a contemplamos... . Foi outrora boa e segura fortaleza que continha em respeito a truculência dos nossos vizinhos, truculência que o decorrer dos anos foi convertida num caudal de promíscuos affectos das paixões - o que leva a crer que, de futuro, os explodimentos entre os dois povos não demandarão d’outra metralha que não seja o doce amplexo da mais cordial sympathia trocada de margem para margem, de coração para coração. Antes assim... (5)

Depois desta referência de sabor sentimental, aliás justíssima, passamos à que nos oferece Leite de Vasconcelos, que teve aqui amigos que visitava com frequência. Pelas nove horas passámos (descendo o Guadiana) entre S. Lucas (Andaluzia) e Alcoutim (Algarve), duas povoações pitorescas, que se saúdam entre si, cada uma com o seu castelo em ruínas, prova da antiga amizade e mútua confiança... (6)

Pela mesma altura, Raul Proença (7), tal como Leite de Vasconcelos, descendo o rio, descreve (...) É um cone formidável que se destaca dos outros montes; é Alcoutim num fundo risonho de amendoeiras, com S. Lucar do Guadiana na margem oposta; é sobretudo a vida maravilhosa das águas, que se embebe de todos os tons de azul dos montes, e que estremece, reluz e se modifica a todos os momentos, com uma sensibilidade extraordinária.
Chegámos à altura própria para deixar falar a sensibilidade de um alcoutinense - Luís Cunha:

Com o seu casario em presépio, meio derruído pelo tempo, Alcoutim assenta em pequeno morro alcantilado de rocha de xisto à beira do Guadiana no preciso lugar onde a navegação à vela - fenícia, grega ou cartaginesa - condicionada pelo regime fluvial e dos ventos, fazia ponto (paragem forçada de seis horas aguardando o virar da maré). (8)



Noutra oportunidade, expressa-se da seguinte maneira: Esta encantadora vila à beira do rio Guadiana, alcandorada num pequeno morro alcantilado, está limitada, por todos os lados, por barreiras naturais que rigidamente lhe cortam a possibilidade de expansão. Ao situá-la a meio do maior troço de recta entre Vila Real de Santo António e Mértola, onde a navegação à vela compelida a aguardar o virar da maré, os seus fundadores procuraram simultaneamente, garantir à navegação, o necessário apoio durante a imobilidade e subtraí-lo às surpresas das curvas. Ponto de apoio ou base de assalto, feitoria e, depois armazém de mercadorias em trânsito, bastavam-lhe as limitadas proporções que o pequeno morro rochoso oferecia.
Tal condicionalismo determinou o denso aglomerado do casario em volta do velho castelo e um arranjo original e pitoresco de acomodação do interior da habitação, em patamar, com degraus a dar comunicação entre as divisões da casa, degraus às vezes lavrados na própria rocha.

Um cerro de enorme declive barra por dois lados o alargamento da vila e, dos outros dois, o Guadiana e a ribeira de Cadavais completam o cerco. (9)



Agora, uma pequena mas muito significativa descrição de Helder Pinho: - Debruçada sobre o Guadiana, tal qual a sua vizinha Sanlucar, na margem espanhola do rio. A vila é linda na sua simplicidade. Alcoutim com as suas ruelas floridas e o pequeno porto fluvial, é um local ideal para repouso. (10)

É de José Manuel Fernandes, jornalista e escritor, a última referência, quase dos nossos dias (1985): - A vila muito pobre, vale sobretudo pelo rio. Quanto à serra que a rodeia, deserta e inóspita, com a rocha nua à vista e a esteva por todo o lado, é o testemunho vivo de como uma impensada “campanha de trigo” pode destruir, em pouco tempo, os solos já pobres de que todo um concelho se alimentava. (11)



Numa redução topográfica do original existente na Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos e Topográficos e que se encontrava no átrio da Biblioteca Municipal de Faro, consta: - He uma piquena e irregular Praça fronteira a Sanlucar e de pouca consideração. Necessita de algumas reformações.

Em tempos recuados, foi entreposto de comércio fluvial de relativo interesse. A localização (ponto de maré) foi de capital importância para esse facto. (12)

Dista 95 Km de Faro, 42 de Vila Real de Santo António, 40 de Mértola, 20 de Giões, 30 de Martim Longo, 15 de Pereiro e 37 de Vaqueiros, constituindo as quatro últimas as sedes das restantes freguesias que compõem o concelho de que é cabeça.

NOTA - Extraído de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 2ª Edição (em preparação)