sexta-feira, 30 de outubro de 2009

História de Portugal, Vol. III [1495-1580]



Para dar corpo ao Escaparate de hoje temos o III Vol. da História de Portugal, de Joaquiim Veríssimi Serrão, Editorial Verbo. De formato idêntico aos anteriores, é constituído por 475 páginas.

Este volume aborda O SÉCULO DE OURO.

Nele encontramos duas referências a Alcoutim, como vamos indicar:

Pág. 215

Reforma de foraisO notável esforço legislativo acabaria em 1519, com os forais de Alcoutim, Azinhoso, Celorico de Bastos e Lavre.

Pág. 312

Moinhos e azenhas
A existência de engenhos hidráulicos de 1495 a 1580 pode assentar-se com predominância: (…) ; no Algarve (Lagos, Faro, Loulé, Tavira, Alcoutim. Tratava-se somente de moinhos e azenhas, mas havia também casos de pisões, de moinhos de vento e de moendas para azeite e pão.


O volume foi publicado em 1978.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Futebol em Alcoutim em 1964



A Câmara Escura de hoje apresenta uma equipa de futebol. Foi tirada em 12 de Setembro de 1964 no Campo da Fonte Primeira, hoje incluído nos terrenos de apoio à praia fluvial.

Como se vê pela data, nessa altura realizava-se a Festa Anual da Vila e era tradicional haver sempre um encontro de futebol entre a equipa do 1º de Dezembro, hoje Grupo Desportivo de Alcoutim e uma de naturais do concelho que nunca deixavam de vir assistir à sua Festa.

Ainda conheci essa tradição, não sabendo se ainda se mantém.

Neste ano os naturais do concelho que estavam fora perderam por três a um com a equipa local.

Os “naturais” estão aqui representados e são os seguintes: De pé, da esquerda para a direita: Olímpio, Fernando Fernandes, Manuel Rafael, António Barão, Gaspar Santos e Virgílio Gonçalves. No primeiro plano e pela mesma ordem: José Teixeira, Álvaro Fernandes, António Teixeira, N N e Eleutério Veríssimo.

É uma fotografia histórica e que amavelmente nos foi cedida pelo colaborador deste blogue, Eng. Gaspar Santos que fez parte da equipa.

Não foi possível identificar um dos elementos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Igreja de Nª Sª da Conceição, Matriz de Martim Longo

[Igreja Matriz, 2007. Foto de JV]

Foi sede de priorado, tendo três igrejas curadas anexas, que foram Giões, Vaqueiros e Cachopo. (1)

É o templo do concelho sobre o qual, e em consequência do seu valor, mais se tem escrito, sendo o único considerado como Imóvel de Interesse Público (Decreto nº 47508, de 24 de Janeiro de 1967), o que é significativo.

É lamentável verificar que depois da publicação do diploma, sofreu acções que lhe limparam elementos de valor histórico e iconográfico.

Silva Lopes, (2) considera-a a mais antiga destes arredores e Correia de Azevedo (3) diz que não há como esta, outra em toda a área do concelho.

O douto Prof. Pinheiro e Rosa refere-a como antiquíssima, embora se encontre modernizada por partes. (4)

Desconhecendo-se a data da fundação, é construção de raiz gótica mas muito obliterada (5), conservando poucos elementos artísticos da primitiva construção. Exteriormente destacam-se as portas góticas, a principal de um só colunelo e a lateral mais simples (6) e os seus botaréus semicilíndricos, três em cada uma das paredes laterais, (7) de um tipo pouco comum na arte portuguesa.

Tem semelhanças com os da ermida de S. Brás, em Évora, dos finais do século XV, considerada protótipo de arte gótico-manuelina-mudéjar (8) e com as matrizes de Espírito Santo (Mértola) e Santa Cruz (Almodôvar). (9)

[IGreja Matriz, desenho de JV.]

As duas portas góticas e os contrafortes teriam (terão) talvez uma longa história para contar, segundo observa Victor Adragão. (10)

A fachada principal é muito estreita. Sobre a porta de pedraria e a que já nos referimos, uma janela de verga trabalhada, que ilumina e areja o templo. Este janelão teria sido feito em meados do século XVIII.

Sobre o bico da empena, uma interessante cruz de ferro forjado.

O portal situa-se a um nível bem abaixo ao da rua.
A torre sineira é saliente da fachada. A cúpula, sobre a qual é hábito nidificarem as cegonhas, apresenta dois fogaréus. É de seis olhais, dois em cada uma das faces anterior e posterior e um em cada uma das laterais.

Os dois sinos, antes de 1943, tinham as seguintes imagens e inscrições: (o maior) - imagem de Nª Sª da Conceição e uma cruz / Nossa Senhora da Conceição e Martim Longo / Manuel António da Silva filho Lxa Anno de 1865, (o menor) uma cruz, uma inscrição ilegível com a indicação da fábrica e esta INS Maria José Anno de 1787. Ambos estavam rachados e conta-se do menor uma curiosa lenda.

Tocou pela primeira vez no baptismo de uma criança que cresceu, se fez homem e viveu noventa anos. No dia em que estava dobrando pelo seu falecimento, rachou.

Em 1943, sendo pároco o Padre Júlio Alves de Oliveira, foram feitos novos sinos, dando-se em troca os dois velhos e mais 1.202$95, saldo de uma festa de 1942.

O maior, com 146 kg, apresenta uma cruz e uma custódia e chama-se de Nª Sª da Conceição. O menor, com 90 kg, é de São Marcelino. Foram fabricados na Fundição Nova Lusitânia, de H. S. Jerónimo - Ermesinde.

Ambos têm uma inscrição que diz:- Fundido e Sagrado em 1943. Foram padrinhos do sino grande, o Senhor Tenente - Coronel, João Cândido Figueiredo Valente e a Senhora D. Maria Isabel do Carmo Ricardo Ildefonso, do pequeno o Senhor Artur de Moura e a Senhora D. Isabel de Freitas.

[Igreja Matriz, 1990. Foto de JV]

Às dez e quinze do dia 5 de Setembro foi colocado na torre o sino grande pelos seguintes martim-longuenses:- Augusto Soares, Manuel António, António Luís, José Gomes, António Brás, Matias da Conceição e Manuel Brás. (11)


Em 1534 já aparece um campanário sobre a porta principal, só com um sino e que os moradores da aldeia mandaram fazer à sua custa. Trinta e um anos depois está aberto pelo meo e despegado (...) da parte da igreja, muito perigoso e situam-no da banda do norte pegado com a parede junto à porta principal. Tem nesta altura dois sinos, um de bom tamanho e outro pequeno, mas ambos bons.

É recomendado o seu arranjo por estar perigoso e para cair. (12)

Em 1518 a igreja tinha sido feita de novo pelos moradores da aldeia e seu limite e às suas custas. Já era de três naves, a única assim em todo o concelho. (13)

As naves são separadas por quatro arcos ogivais, de cada lado, assentes em colunas de pedra, muito baixas, com capitéis tronco-piramidais invertidos, muito sóbrios e simples, predominando os elementos geométricos. (14) São elementos dos primórdios da construção.

Os arcos são de tijolo e as colunas de pedraria.

As três naves dão ao templo um ar seguro e acolhedor. (15)

Em 1565 encontrava-se madeirada de castanho, forrada de canas e he toda a dita igreja bem ladrilhada. (16)
O pavimento em soalho já estava muito estragado em 1946. (17)

Há referência a um altar de alvenaria dedicado a São Luís, do lado do Evangelho e na banda da Epístola existe outro, de Nossa Senhora da Graça, com o Menino Jesus nos braços, isto em 1565.

Em 1712 tinha seis altares a saber: o mor, com o Santíssimo, dois colaterais, sendo um o de Nª Sª da Assunção e mais três laterais, São Luís e Almas, Santo António e São Brás, afinal os mesmos que tinha em 1946.

Os retábulos dos altares eram em estilo renascença, do século XVII ou anteriores. O de Nª Sª da Assunção tinha sido feito entre 1681 e 1684, sendo da mesma época os de São Luís e de Nª Sª do Rosário.

Em 1518 a igreja tem a capella (mor) deribada (...) a quall hade ser feyta aa custa do Bispo e Cabydo de Sylves e do comendador e em 1534 ainda assim se mantinha mas em 1565 já estava feita, de alvenaria, abobadada, com dois arcos de pedraria feitos em cruz com chave também de pedra. Altar também de alvenaria. Retábulo de cinco painéis e pintura a óleo.

Arco cruzeiro de pedra e nas paredes pinturas, entre elas representando Nª Senhora e S. João.
As paredes laterais da capela-mor foram azulejadas, painéis posteriormente colocados na fachada principal do desaparecido cemitério da freguesia. (18)

Há notícia de que o prior de Martim Longo, Nuno Rijo de Sousa, fundou um vínculo em capela na igreja, o qual por sua morte deixou a seu sobrinho, filho de sua irmã, Margarida Baptista de Sousa, de Portimão, o Dr. Diogo Mascarenhas de Figueiredo, cónego da Sé de Faro, arcediago de Lagos, e que foi vigário-geral do Bispado do Algarve em 1685 e também prior de Martim Longo por renúncia que nele fez o referido Nuno Rijo de Sousa.

Diogo de Mascarenhas era comissário do Santo Ofício em 1665 e morreu em Faro em 1696.

Mandou reconstruir à sua custa, segundo uma inscrição nela existente, a há muito profanada ermida de São Cristóvão, situada nos arredores de Faro. (19)

Era filho de Diogo Martins Mascarenhas, Senhor do Morgado de Quelfes, moço fidalgo, dizem que capitão - mor de Faro e da dita senhora. (20)

O templo, em meados do século XVI, tinha um bom púlpito de madeira de pinho.
A pia baptismal, ainda existente, é dos primórdios do templo e uma das suas peças mais valiosas, com o pial decorado de carrancas. Em 1518 diz-se que tem hum pyar de pedra muito boõ.


[Imagem de Nª Sª da Conceição]

Presentemente, na capela-mor encontra-se a imagem da padroeira, Nª Sª da Conceição. Na base, apresenta uma serpente mordendo uma maçã e os crescentes da Lua. Sobre a mão esquerda está o Menino de vulto perfeito. Nos dias festivos usa coroa de prata.

Imagem pintada, dourada e estofada, está em bom estado de conservação e é exemplar de muita qualidade, segundo os especialistas. Sofreu arranjos em 1607, 1661 e 1754.

Além desta imagem encontra-se a de Cristo Crucificado sobre cruz de madeira, cujas extremidades apresentam decoração em talha. Estando em bom estado de conservação, tem alguma qualidade. (9)

Segundo Álvaro Pais (pseudónimo do prof. Pinheiro e Rosa) onde a igreja é verdadeiramente rica é na indumentária e na ourivesaria.

Nas visitações de 1518, 1534 e 1565 aparecem referidas várias vestes sagradas e roupas de altar.

[Interior da igreja. Foto JV.]

Na Exposição de Arte Sacra realizada em Faro, em 1940, foi apresentada uma casula do século XVII. O fundo é de seda rosácea brochada com fio de prata e sedas de várias cores. O sebasto central tem ramos, frutos e pinhas estilizadas. Os laterais, ramagens, flores e escudetes. A forma da casula é muito análoga com as orlas quase direitas. Abertura para a cabeça muito pequena.

Possuía também duas dalmáticas de veludo carmesim e outras duas também de interesse e de damasco branco. Mais uma casula de damasco verde, possivelmente do século XVI e outra de seda branco, bordada a matiz que também figurou na referida Exposição.

Assim a descreve o prof. Pinheiro e Rosa: ”Ao fundo, um florão com uma cercadura de ramagens e flores, fechadas numa moldura circular. O resto do fundo é composto de folhagem verde, fina, com vários tipos de flores estilizadas. Tudo isto é envolvido por uma larga orla em que um tronco sustenta alternadamente palmetos amarelados e tufos de folhas verdes, donde saem rosas singelas e seus botões.

Nos lados mais curtos, estes ornatos, em vez de sobrepostos, ladeiam-se mutuamente. As sanefas dos lados maiores são de três tipos: ornato em leque com enrolamentos; cornucópia com flores; e flor com folhagem (três de cada). As dos lados menores são também de três tipos: rapaz com ramagens, cornucópia com flores e flores com folhagem.

Rectangular, é pálio para seis varas.” (4)

Uma cruz processional que igualmente figurou na Exposição de Arte Sacra. Tem 0,87 X 0,35 m. Foi comprada em 1753 e custou 124$720, tendo sido reparada em 1800.

De prata branca lavrada, eis como o Prof. Pinheiro e Rosa a descreve:- Uma coluna canelada, à qual se segue o nó ovalado, em que há, entre ornatos, diferentes ovais com símbolos da Paixão - coluna e esponja, bolsa de Judas, escada e lança, cruz e flagelos. A esta parte, segue-se uma truncatura de pirâmide fantasiada, tendo por ornatos cruzes de braços iguais e mais símbolos - dados, coroa de espinhos e cravos, martelo e torquês, escudo com as cinco chagas. Por cima, um ático donde parte a haste maior da cruz. Os ornatos geométricos são autênticos do século XVII. As hastes terminam em esferas. O Cristo tem coroa de espinhos separada e o resplendor é maciço.

Como utensílios de altar, dois cálices, um do século XVII, de prata dourada, com a altura de 0,24 m e outro também de prata dourada mais relevada, muito elegante. Tem o pé e a base recortados e divididos em três secções. Parece ter sido comprado em 1799, em Lisboa.

Uma custódia-cálix de prata dourada, do tipo templete, com ornatos do século XVII. Segundo Pinheiro e Rosa, já existia em 1620.

Também de referir é um cofre para guarda do Santíssimo - uma arqueta de prata branca lisa com cabeças de anjos nos pés e na base da cruz. Já existia em 1808.

Nas visitações de 1518, 1534 e 1565, da Ordem de Santiago, são referidas bastantes peças de ourivesaria, cálices, custódias, turíbulos, cruzes, etc. e paramentos que foram desaparecendo algumas vezes por troca com novos como se poderá verificar nos textos, mas nem sempre terá sido assim.

Em 1565 o prior era obrigado a dizer missa ao povo todos os domingos e festas de guarda do ano e administrar os Santos Sacramentos aos fregueses.

[Torre sineira. Foto JV.]

Tinha como “mantimento” em cada ano, um moio de trigo, quatro mil reais em dinheiro e ainda o pé de altar da matriz e das anexas que eram, como já se disse por várias vezes, Giões, Vaqueiros e Cachopo.

Existiam três confrarias: a do Santíssimo Sacramento, com bom rendimento, bastante para os seus encargos, a do Rosário e a das Almas que pouco tinham para se manter.

Como era hábito, no adro da igreja, enterravam-se os defuntos, tal como acontecia no seu interior para os mais endinheirados.

No primeiro quartel do século XVI, o mordomo recebia por cada sepultura nova trezentos reais e por vez que se abria para os herdeiros, mais trinta. (13)

Tinha a igreja, por estas alturas, mais 17,5 alqueires de trigo proveniente de foros de quatro herdades e umas casas junto dela em que se guardavam diversos utensílios.

Serão estas casas possivelmente as mesmas que possui no Largo da Igreja, um prédio com três divisões e de 60 m2 de área coberta, que se encontra inscrito na respectiva matriz sob o nº 260.

Sabe-se que por testamento de 2 de Janeiro de 1881 uma devota deixa a Nª Sª da Conceição, orago da matriz, uma cerca denominada do “moinho” cujo rendimento será aplicado no culto da mesma Senhora.

A matriz predial regista ainda hoje uma cerca no sítio do “montinho” em nome da Junta de Paróquia. Pensamos que se tratará da mesma cerca já que o topónimo se pode confundir.

Segundo as Memórias Paroquiais (1758) (12) A Igreja deste lugar que he o único e maior edifício que nelle há não padeceo ruina nem dano algum no terramoto de 1755.
Em 1862 a Junta de Paróquia requer à Câmara que lhe aprove por meio de Postura a derrama de 200 mil réis a lançar sobre os fregueses, para se fazer “hum telhado novo na Igreja Paroquial”, o que a Câmara veio a acordar. (21)


Pequena nota

O presente “post” é tirado totalmente da 2ª Edição (em preparação) de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia) pelo que as notas aguardarão uma hipotética edição

domingo, 25 de outubro de 2009

Barril para água



Ainda que já mutilada pelo grande uso a que foi sujeita, era em meados do século passado uma peça indispensável na altura das ceifas, quando o calor se fazia sentir e a sede apertava.

Este tipo de infusa tinha neste caso duas asas, uma já desaparecida e servia para levar do poço mais perto para junto do trabalho o precioso líquido a fim de compensar o que ia saindo através da transpiração.

Quando havia um moço pequeno era um serviço que lhe competia, o de ser aguadeiro do pessoal.

Há muito que a ceifa nas searas deixou de ser feita por este processo manual e de grande violência física para homens e mulheres, já que é feito mecanicamente.

Se ainda existem foices, o que é um facto, já poucos sabem trabalhar com elas e são usadas para pequenos trabalhos como ceifar erva para os animais domésticos.

Mais uma peça de museu que possivelmente não existirá no concelho de Alcoutim.

sábado, 24 de outubro de 2009

Igreja da Misericórdia

Classificamo-la de igreja para respeitar a origem pois presentemente não passa de uma simples capela.

Quando a conhecemos já lhe tinha sido amputada a sacristia, que com a casa de despacho e a residência do andador formaram o hospital.

Situa-se na Rua D. Fernando próximo da Praça da República.

[A Igreja da Misericórdia em 1967]

A fundação do templo parece ser anterior a 1513 visto no interior existir uma pedra sepulcral com a seguinte inscrição:- SEPULTURA DE MARTIM VILÃO E DE SUA MULHER (E) HERDEIROS - ERA DE 1513 - O PRIMEIRO SEPULTADO NESTA CASA. PADRE NOSSO - AVÉ MARIA. Contudo, na visitação de 29 de Dezembro de 1565, da Ordem de Santiago à Igreja de São Salvador, matriz da vila, diz-se:- Diante deste altar na mesma nave está huma capella d´ abobada (...) madeirada de duas ágoas (...), a qual capella foi a capella moor desta igreia e agora servem-se os irmãos da Misericórdia della por não terem casa feita nesta vila. (1)

Fica aqui patente uma contradição, parecendo que a “casa” já existia antes de 1513.

Na fachada lateral que dá para a Rua da Misericórdia, uma porta rectangular, agora englobada na Conservatória de Registos e Notariado, torna-se curiosa devido ao lintel de pedra que tem a seguinte inscrição: ESTA OBRA MANDOU FAZER AFONSO MADEIRA CORVO FAMILIAR DO SANTO OFÍCIO 1628, em letra usada nas inscrições portuguesas desde meados do século XV.

O templo é muito simples e pobre. Não se encontram nele quaisquer motivos de uma construção manuelina. Telhado de duas águas e de telha de canudo. Teve planta rectangular sendo o comprimento superior ao dobro da largura.

Fachada de empena de bico sem motivos de interesse. No topo, uma cruz simples de ferro forjado, certamente obra de artesão local. Nas extremidades e alegrando-a, trabalhos de argamassa de forma piramidal.

Não existe torre sineira mas possui pequeno sino sobre a fachada lateral esquerda. Tem a seguinte inscrição:- // SANTVS // SVPRE //VEN // ESPRITVS // I. T. F.

A porta principal é rectangular e de ombreiras carcomidas pelo decorrer dos séculos. Na verga e ao centro, pequena inscrição circular. Por cima, abre-se uma janela rectangular servindo o comprimento de ombreira. Areja e ilumina o templo.

Além da pedra sepulcral já referida, existem mais duas, a do sargento-mor da vila, José de Brito Magro que foi durante muitos anos provedor da Santa Casa e a de sua filha, D. Ana Jacinta Roza, falecida em 1808.

[A Igreja da Misericórdia num desenho de J.V., 1967]

O epitáfio da primeira é do seguinte teor: "Aqui jaz / o cap am mor J e de B ro / Magro da V a de Alc tim / Quase Perpetuo Pr vor / desta Caza dur te / sua vida e q mais / se exmerou em prom ver / as fellecid es della / faleceo no dia 12 / de Maio de 1824 / P e N o A e M a"

Em 1768 tinham sido decorados o púlpito e a tribuna e mais tarde os santos são encarnados de novo. A decoração é de tipo marmóreo.

Em 1789 sabe-se que existiam vários paramentos, um cálix, um missal, uma estante para o mesmo, turíbulo de prata, quatro castiçais de pau preto, um caixão de sacristia, móveis da sala de despacho e as imagens de Santo Christo, Nº Senhor, São João Evangelista e de “Magdalena”. Destas, só restavam três, a de Cristo, Nº Senhor e de São João (imagem de roca setecentista). Um crucifixo de trono e outro que também serve a tumba, são da mesma época e de madeira grosseiramente pintada.

O exemplar de ECCE HOMO é considerado pelo Dr. Francisco Lameira de boa qualidade e em bom estado de conservação. (2)

O altar era separado do resto da igreja por um arco triunfal onde estavam pintadas as armas de D. João VI e a era de 1819.

A quando da cheia do Guadiana de 1876, ficou muito danificada, tendo sido fechada ao culto. As imagens foram recolhidas na igreja matriz.

Em 24 de Dezembro desse ano reúne-se a Irmandade na sacristia da Real Capela de Nossa Senhora da Conceição. Aberta a sessão, o provedor, Justo António Torres faz saber que, visto os parcos fundos da Santa Casa para os gastos que tem de fazer na mesma, em virtude dos distúrbios causados pela cheia nos dias 6, 7 e 8, achava muito justo que se dirigissem a todas as Santas Casas da Misericórdia do Reino, solicitando uma esmola a fim de minorar os males que a mesma sofreu; o qual foi aprovado e resolveu-se enviar circular a todas as Misericórdias.

Em 16 de Abril de 1877, a Irmandade volta a reunir no mesmo local e por convocação do mesmo provedor que lhes fez saber, achando-se em S. Domingos o visconde do mesmo título, (3) se deveria recorrer à sua filantropia pedindo-lhe, por meio de uma comissão, esmola para os fins da pronta reedificação da Santa Casa, o que por todos foi aprovado.

Algumas congéneres enviaram as suas esmolas, sendo a de Moncarapacho a única do Algarve que o fez.

Por acórdão de 4 de Abril de 1878, a Irmandade negou-se a contribuir para a quotização efectuada dois anos mais tarde a favor da Igreja Matriz, também danificada pela inundação, alegando ter ela mesma de contrair um empréstimo para reparar o indispensável na sua igreja que está ainda sem soalho e outros reparos urgentes a fazer para ser aberta ao culto.

A reabertura verificou-se em 18 de Janeiro de 1880, tendo isso ficado decidido em reunião da Irmandade realizada a 28 de Novembro do ano anterior. Ali ficou determinado como tudo se processaria e assim foi cumprido.

A missa foi acompanhada por música vocal e instrumental, havendo Te Deum. Colaboraram na festividade o Rev. Prior e Ajudador da vila, priores de Giões e Pereiro e Cura de Sanlúcar.

[A Igreja da Misericórdia. Foto J.V., 2009]

Em Março de 1885 é convocada a mesa para saber se havia fundos para pintar a capela da igreja. Parece que efectivamente a obra foi realizada, como se depreende da seguinte inscrição:- ESTA RECTIFICAÇÃO DE PINTURA MANDOU FAZER O PROVEDOR MANOEL A. TORRES E A MESA QUE SERVIU EM 1885. A inscrição concluía com E FEITA POR JOÃO S. LEIRIA.

Toda a parte interior do templo foi destruída em 1973/74 com as obras do Centro de Saúde que ocuparam espaço importante da igreja, transformando a sua planta que era rectangular em praticamente quadrada.

Todo o altar desapareceu, rolando o brasão de armas de D. Afonso VI num monte de entulho e que acabou por ser recolhido por uma senhora cujos familiares eram oriundos da vila.

As pedras sepulcrais foram removidas para outro local e as sepulturas profanadas tendo uns brincos vermelhos de D. Ana Jacinta rendido vinte escudos ao seu achador!

O chão estava repleto de sepulturas e assisti ao levantamento de uma delas que estava colocada mesmo junto à parede lateral e um pouco acima da porta. Além do mais, levantou-se a cabeça, os pés e as mãos, em barro daquilo que suponho ser uma imagem religiosa.

Antes do camartelo entrar em acção, o alcoutinense Luís Cunha pretende evitá-lo mas o seu alerta lançado num semanário (4) não resultou.

Em 7 de Julho de 1918 é benzida com toda a solenidade a imagem do Senhor dos Aflitos, tendo a missa desse mesmo dia sido dita por alma dos nossos soldados mortos heroicamente no campo da batalha (Guerra Mundial de 1914/18), pedindo ao mesmo tempo à Rainha Santa Isabel que implore ao Altíssimo o termo do terrível flagelo da conflagração europeia.

Enquanto a matriz esteve em ruína, foi este templo que a substituiu.

Já há muito que só serve de casa mortuária.



NOTAS

(1) - “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, 1987.

(2)-A Escultura de Madeira no Concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX.

(3)-Trata-se do 1º Visconde de Mason de S. Domingos, o súbdito britânico, James Mason, concessionário da Mina de S. Domingos. Foi elevado a este título por Decreto de D. Luís de 7 de Dezembro de 1868.

(4)–“Irá perder-se a vetusta Igreja da Misericórdia de Alcoutim?” in Jornal do Algarve de 22 de Setembro de 1973.

N.I.-A maioria das referências feitas teve por base os livros de actas, despesas, inventários e outros da Santa Casa. Na altura não pensava publicar algo sobre o assunto; movia-nos só o gosto de conhecer e daí não termos feito as competentes referências nos nossos apontamentos.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NRP CUNENE



Foto que tirei em 1975 a este navio da República Portuguesa que pertenceu à classe Cacine.

Aumentou o efectivo dos navios da Armada em 6 de Junho de 1969.

Como navio-patrulha desempenhou missões de busca e salvamento, fiscalização da pesca em todas as zonas náuticas do Continente e outras.

Tinha a matrícula P. 1141 e foi abatido em 1985.

Esteve várias vezes atracado ao Cais de Alcoutim, principalmente na altura das Festas da Vila e possibilitava a sua visita a quem o desejasse fazer.

Esta fotografia por erro de composição faltou inserir na página 151 do nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O corte de carnes verdes na Vila de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL ESCRITO, Nº 61, DE MARÇO DE 2004, P.IV, ENCARTE DE "O ALGARVE" Nº 4785)

A vila de Alcoutim não possui qualquer talho fixo, ainda que tenha há muito mercado municipal, onde quase diariamente funciona a venda de peixe fresco e de espaço a espaço, frutas e hortaliças.

Há trinta anos matava-se em qualquer quintal, de vez em quando uma cabeça de gado, normalmente ovino, que se adquiria nos chamados talhos da vila.

Hoje a vila é abastecida por um talho móvel que aparece aos sábados de manhã e onde as pessoas formam fila.

Mas não é sobre o actual abastecimento de carnes verdes à população que queremos escrever, mas sim sobre o que se passava na vila na segunda metade do século XIX.

Em 1836 cada pessoa que matasse na vila, pagaria por cabeça, vinte réis, satisfazendo assim o imposto Real de Água.

Achando-se o açougue em estado absoluto de ruína e carecendo de ser reparado, mas não havendo fundos para o efeito, acordou a Câmara em estabelecer um imposto, aplicado exclusivamente para a conservação e reparos do mesmo açougue, mandando que se observe o seguinte: - “Todo o indivíduo que vender carne ao público sem ter antes manifestado e pago 40 réis por cabeça abatida, aplicados para reparação e conservação do açougue, terá de multa quinhentos réis.”

Esta postura compreende não só o gado lanígero e de cabelo, assim como o suíno e começará a vigorar no 1º de Novembro próximo futuro, em diante. (1)

Em 1844 a Câmara Municipal decide pôr à arrematação o Corte Exclusivo de Carnes Verdes no Açougue da Vila, com as seguintes condições:

1º-Começa em 1 de Junho e finda em 30 de Junho do ano seguinte;

2º-Deve de haver dois cortes por semana, ao Sábado e à 3ª feira, desde o Sábado de Aleluia até ao dia 4 de Outubro e um só corte no resto do ano, alterando-se o corte do dia de Entrudo para a 2ª feira-gorda.

3º-Dar corte de chibato aos sábados, carneiro às 3ªs e quando houver um só corte ser sempre de chibato e matar, além disso, cabra nos meses de Junho até Setembro, inclusive.

4º-Vender o chibato e carneiro a 35 réis nos meses de Fevereiro e seguintes até Julho, inclusive, e de igual montante nos meses de Outubro e Novembro, enquanto em Agosto e Setembro seria a 30 réis e a 40 em Dezembro e Janeiro. No que diz respeito à cabra, em Junho e Julho seria a 25 réis e nos outros dois meses, Agosto e Setembro, passaria para 20 réis.

5º-Finalmente, as cabeças a abater não deverão ter idade inferior a dois anos e deverão ser capados, o chibato sempre, o carneiro nos meses de Julho, Agosto e Setembro.

O corte de carnes verdes, sob estas cláusulas, foi posto a concurso sendo arrematado por Manuel Madeira, do Monte de Afonso Vicente. (2)


No preço referido não consta a quantidade a que diz respeito, não estando ainda em vigor o sistema decimal. Seria o arrátel que em Alcoutim equivalia a 448,75 g.

Eram estas as condições que a Edilidade procurava impor para defesa do povo (estávamos no liberalismo) tanto a nível de número de cortes, do preço, que oscilava conforme a época, como da maturidade da cabeça a abater.

Igualmente, o aspecto religioso é tomado em consideração.

As arrematações foram-se sucedendo dentro destes parâmetros, já que só em 1868 voltámos a extrair ficha do assunto, atendendo a que existem algumas mudanças consideráveis.

A principal começa logo por só se ter apresentado um interessado ao corte exclusivo de carne, na vila. Trata-se de Custódio Domingues, do Balurco de Cima com quem a Câmara convencionou as seguintes condições:

1º-Que ele, Custódio Domingues, fica obrigado a fornecer carne de chibato e de carneiro aos habitantes desta vila desde hoje (16.05.1868) até 1 de Novembro do corrente ano;

2º-Que a carne de carneiro que só podia matar até ao fim de Junho, será vendida a cento e vinte réis o quilograma (já tinha entrado em vigor o sistema decimal) e a de chibato a 140 rs., igualmente ao quilo;

3º-Que haverá dois cortes por semana, um nas 3ªs feiras e outro nos sábados;

4º-Finalmente que fica proibido a qualquer outra pessoa o matar e vender carne ao povo “dentro dos muros da villa”. (3)

As condições propostas e devido aos condicionalismos, proporcionam uma maior liberdade de movimentos.

Quinze anos depois, em 1883, aparece-nos um auto de Contracto de Fornecimento de Carnes Verdes feito com João Francisco Pimenta desta vila por tempo de um ano a começar no 1º de Maio e findando em 30 de Abril. Não encontrámos expressas mais clausulas no contracto.

Décadas depois, ainda conhecemos um familiar de João Francisco Pimenta em tarefas da mesma natureza, mas sem o espartilho imposto nas arrematações.
Atendendo a que o açougue, palavra de origem árabe (4) é o lugar destinado ao abate de rezes e onde pode ter lugar o corte e venda de carnes a retalho, ajusta-se que digamos aquilo que encontrámos nas nossas leituras, ainda que seja reduzido.

Sabemos que em 1860 o açougue da vila situava-se na Rua da Misericórdia, junto ao local onde Manuel José da Trindade e Lima estava edificando um prédio para habitação. (5) Convindo-lhe esse espaço para incorporar na casa, apresenta à Câmara Municipal um requerimento solicitando permissão para a sua inclusão na construção que estava realizando, obrigando-se a construir outro açougue com as dimensões do actual, no sítio que a Câmara julgar por conveniente.(6)

[Casa mandada contruir por Manuel José da Trindade e Lima, na Rua da Misericórdia e ainda existente. Foto JV, 1972]

A Câmara aceita a proposta e deu um prazo de três meses para a sua construção.

O Presidente da Câmara, José Joaquim Madeira, informa a mesma que não tendo o cidadão Manuel José da Trindade e Lima, cuidado ainda de aprontar a casa que destina para açougue, era conveniente lembrar-lhe a necessidade de fazer a referida obra dentro do prazo de três meses que se lhe havia marcado no princípio de Março, pelo que foi aprovado fazer-se a competente intimação, em termos legais para se for necessário poder ter lugar ulteriores procedimentos. (7)

Não encontrámos mais qualquer referência a esta construção. Dezoito anos depois temos a informação dada à Câmara, pelo Administrador do Concelho, que havia feito mudar de um local imundo, onde se achava, a casa do açougue, passando este serviço para outra dentro do castelo, no qual se dão as precisas condições higiénicas. A Câmara reunida, louvou esta medida e autorizou a remoção das estrumeiras. (8)

Neste mesmo ano, em data que não podemos precisar, é dito que as casas do castelo pertencentes ao Ministério da Guerra e que já foram aquartelamento estão de tal forma deterioradas que não reúnem nenhuma das condições indispensáveis para serem hoje ocupada pela força militar.

Dez anos depois (9) o Administrador do Concelho informa que foi arrendado o castelo desta vila com exclusão das casas onde se acham depositados os utensílios pertencentes às obras públicas.

Em 1892, o terreno e figueiras do castelo, bem como todas as casas que se achem dentro deste, à excepção da anteriormente referida, estavam arrendadas a António Maria Xavier.(11)

Estas últimas informações fazem pensar que nesta altura já o açougue não funcionava no castelo.

Aqui ficam alguns factos passados no decorrer dos tempos que nos podem levar à reflexão.


NOTAS

(1)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 20 de Outubro de 1841

(2)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 25 de Maio de 1844

(3)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 16 de Maio de 1868

(4)- Do ár. As-sõq, “mercado, feira”- Vocabulário Português de Origem Árabe - José Pedro Machado - Editorial Notícias - 1991

(5)- Trata-se do prédio onde está hoje instalado o Bar "Vila Velha".

(6)- Acta da Sessão Câmara Municipal do Alcoutim de 3 de Agosto de 1860

(7)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 10 de Abril de 1870

(8)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 5 de Setembro de 1878

(9)- Ofício nº 140, de 2 de Julho de 1888, do Administrador do Concelho ao Director de Obras Públicas de Faro.

(10)- Ofício nº 169 de 29 de Outubro de 1892, do Administrador do Concelho ao Chefe da Comissão de Engenharia de Tavira.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

História de Portugal - II Vol. (1415-1495)



No Escaparate de hoje iremos abordar o II Vol. da História de Portugal, de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo. De formato idêntico ao I Vol. é composto por 373 páginas.

Este volume trata da FORMAÇÃO DO ESTADO MODERNO. É dos tomos publicados até agora, o que possui maior número de referência a Alcoutim.

Assim:

Pádg. 246
Vida municipal
Foram mais tardias as obras municipais no Algarve, onde, em 1475, o panorama era desolador quanto a fortificações militares: os castelos de Alcoutim, Castro Marim e Cacela tinham os muros derrubados, o mesmo sucedendo com a maior parte dos muros de Tavira (…)
Pág. 251
Coutos de homiziados
A política régia de protecção aos homiziados manteve-se no reinado de D. Afonso V levando por variáveis razões à instauração de coutos em Colmenar das Donas (1450), Alcoutim (1458), Vilar de Mouros, Caminha (1462), Odemira (1465) (…)
Pág. 256
Judeus
Nos finais do século XIV havia várias comunas judaicas, sendo as mais importantes Lisboa, Santarém, Coimbra, Porto, Guarda, Évora e Faro.
(…)
A partir da segunda metade do século XV, devido à aglomeração dos judeus em várias terras, surgiram novas comunas em todo o Reino. Assim, ao Norte do País (…) Na parte que respeita ao sul do Tejo, surgem bairros judaicos em Avis, Crato, Fronteira, Évora-Monte, Estremoz, Palmela, Juromenha, Alvito, Beja, Moura, Alcoutim, Silves, Portimão e Alvor- Tal facto permite defender que a presença social dos hebreus já era marcante no Reino antes da forçada imigração de Castela, o que comprova a importância desse estrato da população no período que se abre com a dinastia de Avis.


Pág. 272
Moinhos e azenhas
Nos últimos anos do século XV, tem-se notícia da existência de moinhos em Leiria, Fundão, Tavira, Ota, Pernes, Trancoso, Lamego, Alcoutim, Loulé, Lagos, (…) Havia vários engenhos de água na região de (…)

Págs 283 e 284
Alfândegas e portos secos
O surto do comércio externo ao longo do século XV traduziu-se no movimento alfandegário e dos portos secos (…) No que respeita sobretudo ao comércio terrestre com o reino vizinho, tornou-se considerável o número de pontos de ligação, quer em regime de alfândega (Caminha, Chaves, Alfândega da Fé, Alcoutim e Castro Marim), quer de portos (…)
Diogo Pereira, «nosso criado», obteve a recebedoria da Alfândega de Alcoutim (carta de 9 de Maio de 1475)


Pág. 321
Humanismo e tipografia
Pelo ano de 1485 veio para o Reino o humanista italiano Cataldo Parício Sículo, crê-se que atraído por D. Fernando Coutinho, futuro bispo de Lamego, ainda que a tradição mantenha que foi o Príncipe Perfeito que o chamou para a educação do bastardo D. Jorge, que vivia junto de D. Joana no Convento de Jesus de Aveiro. O humanista passou depois ao serviço da corte estabelecendo relações com os nossos letrados e cortesãos (…) o que levaram Costa Ramalho a considerá-lo o introdutor do Humanismo em Portugal. (…) Mas a existência de nomes como D. Pedro de Meneses, conde de Alcoutim (…) basta para compreender o ambiente cultural, de raiz italiana que se viveu no Reino na última fase do século XV.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Portas de Tavira


[Rua D. Sancho II, antiga Rua Portas de Tavira. Foto JV, 1986]

A Edilidade não manteve o velho nome de Rua das Portas de Tavira e crismou-a com D. Sancho II, o rei que conquistou (?) a vila para sempre aos mouros. Sem dúvida que o nome do monarca tinha um lugar a ocupar, mas havia outros locais (ruas, praças e largos) onde não ficaria mal.

Parece-nos não andar distante da verdade localizando-a ao cimo dessa rua, junto às escadinhas de Nª Sª da Conceição.

Em 1 de Maio de 1873, João Francisco “Pimenta” e António Barão pedem terreno municipal junto às “Portas de Tavira” para construírem um prédio, mas não foi concedido porque não estava decidido por onde a estrada nacional havia de sair da vila. (1) Um ano depois, João Francisco Pimenta pede à Câmara terreno para fazer umas casas, agora fora das “Portas de Tavira”, já demolidas e no sítio que lhe for demarcado. (2) Por isso, em 1874 as portas já não existiam.

A parte cimeira da Rua D. Sancho II constituiu a “nova” vila, sendo as habitações de construção mais recente em relação ao núcleo histórico situado dentro das muralhas.

Esta “porta”, além de servir o caminho da forca, devia ser o término duma estrada que partia das proximidades de Tavira e atingia a “serra”, percorrendo as principais povoações deste concelho.

Novamente encontrámos a razão da designação de “Portas de Tavira”. Dela ainda possuímos um interessante documento, uma pedra gravada, encimada por brasão de armas real e com a seguinte inscrição ALFOMSVS VI REX PORTVGALI ET ALGARAVIORVM MDCLXI, assunto que já aqui abordámos e para não nos repetirmos.

A lápide está colocada na muralha da igreja matriz, mesmo junto ao cais velho.

Se em 1661 a “porta” existia, porque não aparece no desenho de Duarte de Armas (Século XVI)?

Tal como nas duas já referidas, as "Portas de Tavira" tinham a sua guarda própria.

NOTAS
( 1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 1 de Maio de 1873.
( 2) -Acta da Sessão da C.M.A. de 13 de Março de 1874.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Três alcoutenejos de verdade


A Câmara Escura de hoje apresenta três alcoutenejos de verdade, pois nasceram os três na pequena vila de Alcoutim, à beira do Guadiana.

Quem sabe quem são? Não será fácil.

A fotografia deve ter sido tirada à volta de 1937, mais ano, menos ano.

O mais velho, já não é propriamente um menino, mas sim um rapaz. Parece que está a fazer continência, com estilo militar e chamava-se Fernando. O menino, que está como condutor do bólido e teve sempre tendência para a condução, dava pelo nome de João e que, apesar da falta de qualidade da fotografia, como era próprio da época, se olharem bem para ele, conhecerão.

A menina, a mais nova, de sapatinho e peúgo branco, tal como o casaco e que parece ir à boleia, dá pelo nome de Marina.

A fotografia é tirada no quintal da casa do Dr. Dias e trata-se dos saudosos amigos, Fernando José Lopes Dias, fundador do Grupo Desportivo de Alcoutim e 1º Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alcoutim, após o 25 de Abril e o Dr. João Lopes Dias, ilustre clínico que tanto trabalhou em prol da população alcouteneja que contava só com a sua vontade de servir e competência médica.

A menina é a Professora Marina Ramos Themudo, doutorada em Filosofia e que exerceu a sua actividade na Universidade de Coimbra, felizmente ainda entre nós.

Foi ela que teve a amabilidade de nos ceder a fotografia. Bem-haja por isso.

Deste “bólido” já me tinha falado o nosso amigo e colaborador Eng. Gaspar Santos que agora o irá recordar.