domingo, 13 de dezembro de 2009

Joaquim Gomes


Faleceu hoje e vai a sepultar amanhã no cemitério da Vila de São Brás de Alportel, Joaquim Gomes, vulgo Relógio, de 92 anos, natural de Balurcos-Deserto, freguesia e concelho de Alcoutim.

Residiu durante muitos anos nesta vila algarvia onde exerceu a sua profissão e se aposentou.

Deixa três filhos, vários netos e um bisneto.

Depois de terem feito a viagem todos os meus tios por consanguinidade, e eram sete, este é o último a fazê-la dos que o eram por afinidade.

Já não tivemos forças para o ir acompanhar, como era nosso desejo. As distâncias parecem cada vez maiores.

As condolências aos seus.

[Monte do Deserto, Balurcos, 2009]

sábado, 12 de dezembro de 2009

Uma caçada às raposas





Escreve
Gaspar Santos





Antigamente não se pensava nem se agia, como agora, na protecção da natureza. Hoje, muitas vezes, exagera-se nessas preocupações, outras vezes tende a descurar-se a ecologia. Há legislação, um Ministério do Ambiente e entidades oficiais e grupos para a protecção da natureza e da biodiversidade.

Há 50 ou 60 anos as raposas, os lobos e outros predadores da caça eram perseguidos e mortos até pelas entidades oficiais. Os zelosos guardas da caça colocavam no campo, estrategicamente, carne envenenada para matar estes predadores e impedir assim que eles comessem a caça. Também os populares sempre que apanhavam uma raposa andavam de monte em monte e nas sedes de freguesia a mostrá-la e, na oportunidade, recebiam dinheiro dos particulares por terem cometido a façanha de capturar um “inimigo”. Deve acrescentar-se que estes predadores quando faltava a caça vinham às capoeiras ou atacavam as ovelhas e até o homem. Às crianças contavam-se as histórias mais impressionantes e sangrentas de ataques de lobos a pessoas.


Os caçadores como parte interessada, também não perdiam o ensejo, sempre que ele surgia, de fazer o gosto ao dedo, quando deparavam com um destes animais pelo caminho. E organizavam caçadas às raposas. Não com o aparato dos ingleses, mas como uma caçada normal, quanto muito com um chumbo mais grosso e a ajuda de muitos cães.

Dois dos locais que se prestavam para isto lindamente eram os buracos duma mina abandonada situada no Serro da Mina frente à Vila.

A metodologia era simples. Colocavam-se vários caçadores de arma aperrada em torno do buraco da mina. Para espantar as raposas e colocá-las no ângulo de tiro dos caçadores, um batedor, acompanhado de vários cães, ia para dentro da mina.

Recordo uma caçada dos finais dos anos 40 ou princípios dos anos 50 do século passado. Para dentro da mina foi o António “Pandeireta”.

Havia outras minas mais labirínticas, com vários percursos possíveis, que davam a hipótese à raposa de escolher uma das saídas mas…ficava sempre ao alcance dos caçadores. Prepararam esta caçada para aquela mina em que o buraco é único, tem mais de 100 m de comprimento, cerca de 1,5 m de largura por 2 m de altura e desenvolve-se sempre ao mesmo nível. Não deixa, portanto, qualquer possibilidade de fuga ao animal, que neste dia até tinha sido visto a entrar para lá.

Assim, a raposa foi-se sorrateiramente escapando até ao fundo da mina, à frente do homem que estava munido de uma lanterna. A raposa sentindo-se “acuada” no extremo da mina, teve como alternativa inverter a marcha, e saltar por cima do perseguidor. António “Pandeireta” agarrou-a pelo pescoço. Ela estrebuchava e arranhava-o. Ele ainda pensou libertá-la, tais eram as dores que sentia nos braços. Reflectiu: se a liberto ela morre com um tiro dos caçadores e o resultado da caçada (a pele da raposa) é dividido por todos; se não a liberto a pele é só para mim.

Prevaleceu esta última solução. Pois a pele vale mais quando não está furada pelo chumbo.

A longa espera preocupou os caçadores. Eles estavam habituados a que rapidamente a raposa saísse do buraco. E começaram a surgir dúvidas sobre se teria acontecido alguma coisa ao homem. E, quando se dispunham a ir ver o que se passava, surgiu o António “Pandeireta” todo arranhado mas feliz a exibir a “fera” morta.

[Cerro da Mina, Foto de JV, 1973]

Há aspectos na evolução dos últimos anos que importa sublinhar, como sob a ecologia se humanizou (e muito bem) o tratamento dos animais. Por vezes com algum exagero na própria legislação. Leva-se longe de mais a legislação tanto na protecção da fauna como da flora.

Estou a lembrar-me de queixas de agricultores de Alcoutim e de outros pontos da serra algarvia. Dizem ser proibido limpar as estevas e as silvas nos barrancos e até debaixo de árvores para se poder apanhar os frutos. Para se roçar esse mato têm que o fazer às escondidas. Antigamente os Guarda-rios obrigavam a desmatar os barrancos para facilitar o escoamento das águas. Hoje essa protecção exagerada das espécies vegetais parece ser um convite aos fogos, à desertificação humana dos campos e ao desincentivo à agricultura.

Pelo contrário em Cinfães, onde vou com alguma frequência, qualquer proprietário de campo, que recebe um subsídio de apoio ao desenvolvimento rural em terras desfavorecidas, é obrigado pela fiscalização a cortar as silvas, os fetos e todo o mato e feno que a terra produz e além disso a semear produtos agrícolas.

O comportamento contraditório a que são obrigadas as pessoas destes dois concelhos, levou-me a procurar esclarecer o porquê disto e concluí que é por Alcoutim e os outros concelhos vizinhos constituírem a REN (Reserva Ecológica Nacional).

Pelos vistos na Serra Algarvia caminhamos para o deserto. Por causa das alterações climáticas e, pasme-se, com o apoio da legislação.



Pequena nota

Mais um interessante episódio que através da pena deste nosso colaborador podemos apreciar.
Conheci bem o Sr. António um caçador inveterado.
Em 1967/68 um homem apareceu junto da janela da repartição onde eu trabalhava e a minha colega de trabalho, olhando para uma canastra que o homem trazia, abriu o porta-moedas, tirou uma moeda de que fez entrega.
Chamou-me perguntando se eu não queria ver. Cheguei-me à janela e perante o meu espanto vejo dentro da mesma, tapada por forte rede, uns tantos raposinhos, muito vivos, de orelha bem arrebitada.
Nunca tinha visto tal coisa e o homem lá seguiu o seu trajecto. Foi então que perguntei o que é que andava fazendo e foi-me explicado aquilo que o autor aqui refere e que eu desconhecia completamente.
Ora este caçador que tinha desenvolvido a sua acção nas covas do Cerro da Mina, aqui referidas, era nem mais nem menos este Sr. António, que todos conheciam por António “Pandeireta”.
A última vez que o vi, e já não o via há uns bons anos, foi por altura de umas Festas da Vila sendo ele que me reconheceu primeiro e recordei o episódio que na altura tanto me admirou.

JV

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A cabaça


Este interessante fruto de uma das variadíssimas espécies de abóbora e designada por cabaceira, tem uma forma que faz lembrar o algarismo “8”.

Que eu saiba e pelo menos em Portugal, só tinha uma utilização, depois de seca e devidamente preparada usava-se para o transporte de líquidos, nomeadamente água ou vinho.

Depois de seca, no local do pé, era cortada, formando um pequeno orifício pelo qual se ia retirando com paciência o seu conteúdo onde avultavam as sementes, sensivelmente rectangulares. É um trabalho de paciência mas que não deixa de ser interessante efectuar, existindo várias técnicas para o fazer, conforme o uso de cada região, já que era vasilha usada do norte ao sul do país.



Junto do orifício de entrada e saída do líquido, que se arrolhava, fazia-se um outro mais pequeno, quadrangular que era tapado com um pauzinho facetado, normalmente de esteva. Destinava-se, quando se afrouxava, à entrada do ar o que permitia mais facilmente a saída do líquido.

Uma corda de sisal atava-a com segurança e por seu intermédio o homem colocava-a à cintura, transportando-a assim para onde se dirigisse

Podendo transportar grande parte de líquidos, era usada principalmente para a água e menos frequentemente para vinho.



Ainda que o formato tenha a base que indicámos, existem exemplares muito diferentes.

Como deixaram de ser usadas, praticamente ninguém as semeia.

Muito recentemente pediram-me sementes pois há muito que as procuravam e não as encontravam.

Uso-as como objecto decorativo, envernizando-as. Servem também para explicar aos jovens a utilização que tiveram.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Foi na Palmeira ...





Escreve

José Miguel Nunes




Há muito que não escrevia sobre Alcoutim, apesar de pensar nisso, mas é difícil. Ao ler o artigo “A Escola ... e o que vem a reboque”, da autoria do Sr. José Temudo, recordei eu também os meus primeiros anos de escola, mais precisamente na escola da Palmeira, onde frequentei a antiga segunda e terceira classes.

Não me lembro já quantos alunos éramos, poucos, talvez uns nove ou dez no máximo, os únicos nomes de que me lembro são os da Ilda, Isabel, Henrique, António e o irmão Carlos, acho que era assim que se chamava, e é só.

A escola da Palmeira ficava situada à entrada do “monte”, do lado direito, no sentido de quem chega. Era um edifício pequeno, com um hall de entrada e uma única sala. A professora, era a minha mãe, que dava as classes todas, duas coisas impensáveis hoje em dia, ser aluno da mãe, e a professora leccionar os anos todos na mesma sala ao mesmo tempo.

[Na escola da Palmeira, ano lectivo de 1977/78. O autor do texto é o do meio no primeiro plano e o Henrique o da esquerda, no segundo. Foto JV]

A recordação mais viva que tenho daquele tempo, para além do episódio que tentarei descrever mais à frente, é o de irmos brincar para o pequeno riacho que passa lá em baixo, apanhar rãs e claro, fazer-lhes as judiarias próprias de miúdos daquela idade.
O Henrique era mais velho do que eu, aliás eram todos mais velhos do que eu, mas o Henrique já andava se não me engano na quarta classe, e de vez em quando dava-me uns carolos, talvez mais do que só “de vez em quando”, e eu, que nunca fui muito de me queixar aos meus pais, virava-me para ele e dizia-lhe: “qualquer dia pagas-mas”, ao que ele muito maior do que eu, naturalmente ria-se, e aproveitava para “molhar a sopa” outra vez.

Um dia, depois de levar mais uns cascudos do Henrique, deixei-o virar-me as costas e afastar-se, não disse nada, ele seguiu o seu caminho, descendo o morro até à estrada para ir para casa, e eu fiquei cá em cima. Agarrei numa pedra, e com toda a força que tinha lancei-a na sua direcção, ainda hoje tenho pontaria, mesmo em cheio na cabeça, “já mas pagaste”, pensei eu.

O pior foi que o resultado, não foi bem aquele que eu estava à espera, e fiz-lhe um buraco de todo o tamanho na cabeça, de tal forma que a minha mãe teve de agarrar nele e levá-lo ao hospital de Alcoutim para ser visto, pois a coisa estava mesmo feia, mas antes de ir disse-me: quando voltar logo conversamos. Fiquei aflito, primeiro pelo que tinha feito, mas acho que mais com a conversa que teria de ter.
Quando voltaram, chegou inevitavelmente a hora da tal conversa…, bem, esta resumiu-se a uma sova daquelas que nunca mais esqueci, provavelmente merecida, no entanto do Henrique não me lembro de nunca mais levar carolos.

A quarta classe já não a fiz na Palmeira, pois no ano seguinte mudámo-nos para o Cadaval, e assim a minha mãe deixou também de ser a minha professora. O Henrique nunca mais o vi, mas gostaria de um dia voltar a ver, possivelmente ainda se lembrará do dia em que lhe parti a cabeça.


Pequena nota
Lembro-me bem de toda esta “estória”, excepto dos “carolos”, de que só agora tive conhecimento pois o rapaz foi sempre ensinado a não ser “queixinhas” e a resolver os seus problemas. Resolveu um, mas criou outro!
O Henrique, que nunca mais vi é, segundo me informaram agente policial e certamente também não teria esquecido este acontecimento.
Nunca foi do nosso agrado o rapaz ser aluno da mãe mas na altura era a única hipótese que considerámos viável.

JV

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Velhas, pequeno "monte" da Freguesia de Giões

Pequena Nota
Para terminar o périplo pela freguesia de Giões, resta-me referir o “monte” das Velhas.
O primeiro que abordei foi o de Clarines e fi-lo na revista STILUS.
Neste espaço comecei por fazê-lo em relação a Alcaria Alta, depois Marim e por último Farelos.
Atendendo a que desapareceram há muito Cacelinha e Mingordo (moinho gordo) Minhova e Carrascal que eram referidos em meados do século XIX e que se tratavam praticamente de um ou dois fogos e que é dos nossos dias o abandono do Viçoso que em 1976 ainda tinha onze habitantes, resta-nos o “montes” das Velhas que com Marim são os menos habitados da freguesia
.

[Vista parcial. Entrada do "monte". Foto JV, 2009]

Tomando como ponto de partida a sede do concelho e percorrendo a EN nº 122-1 às Quatro Estadas tomamos a nº 124. Após oito quilómetros percorridos chegamos à aldeia do Pereiro e depois de passarmos por dois entroncamentos, um à direita e outro à esquerda vamos encontrar novamente um à direita que tem a indicação de Velhas – 1 Km.

A estrada estreita e asfaltada, cujo troço é identificado com o nº 1046, desenvolve-se quase sem curvas ainda que as rectas sejam em vários planos. À sua esquerda segue o traçado telefónico cuja colocação do primeiro telefone público teve lugar em 1988, ocorrendo também no mesmo dia a inauguração do fornecimento de água por intermédio de fontanários o que deu origem a grande festa em que participaram o Presidente da Câmara, Cavaco Afonso, o Director Regional das Telecomunicações do Sul, o Chefe da Área de Telecomunicações de Faro e outras Entidades. (1)

Esta estrada foi repavimentada em 1996. (2)

Conhecemos este monte em 1976 onde chegámos através do velho caminho. Nesta altura e fazendo fé numa estatística efectuada pelo Centro de Saúde de Alcoutim tinha cinquenta habitantes.

Contra o que é hábito por estas paragens, a pequena povoação situa-se em local plano, notando à entrada algum arvoredo de porte razoável.

Curiosa a colocação de um sinal de proibição de circular a mais de 20 km/hora!

Imperavam as habitações de pedra e barro, caiadas e listadas com barras de cores. Poiais e pátios. Nas ruelas ainda se podem ver velhos fornos de cozer pão e fornalhas (pilheiras) tudo já desactivado mas que faziam parte do quotidiano de há cinquenta anos.

Duas ou três vivendas dão nas vistas e são produto de emigração.

Sabemos que em 1933 tinha sido concedido o subsídio de 260$00 pela Câmara ao povo deste “monte” para a abertura de um poço, tendo sido encarregado do trabalho, Manuel Gomes Lopes (3)

Em 1996 foi colocado um painel de caixas de correio. (4)

Em 1758 e segundo as Memórias Paroquiais já era um dos sete “montes” da freguesia e em 1839 num mapa anexo à sua Corografia, Silva Lopes chama-lhe DAS Velhas e atribui-lhe 13 fogos, enquanto Marim tem 6 e Clarines 20.

No Censo de 1991 são-lhe atribuídos 25 habitantes e 22 fogos, existindo ainda alguma actividade pastoril.

[Outro aspecto da povoação. Foto JV, 2009]
Em recente visita que efectuei (2009), informaram-me que teria 15 residentes.

Quando existiam crianças iam à escola dos Farelos.

Quanto ao topónimo ouve-se dizer com frequência monte das Velhas e A-das-Velhas. Pensamos que não erramos se dissermos que a fundação ou denominação deve de estar em idosas (irmãs, familiares, vizinhas?) que devido a qualquer situação especial (isolamento, riqueza, actividade, etc.) funcionou como marca, identificando o local.

Isto passou-se há tantos anos que já ninguém sabe explicar, não tendo o “facto” passado de pais para filhos como é tradicional.

Existe outra povoação com o mesmo nome no concelho de Monção, bem no norte do país.
_________________________________________

NOTAS
(1) - Boletim Municipal, nº 4 de Abril de 1989
(2) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, pág. 8
(3) - Acta da Sessão da C.M.A. de 12 de Outubro
(4) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, pág. 12

sábado, 5 de dezembro de 2009

A Escola ... e o que vem a reboque (2ªParte)

(...)
Uma segunda nota: disse que em Alcoutim não havia cinema. E não havia, mesmo.

Mas eu vi em Alcoutim uma sessão de cinema, a despeito de não haver luz eléctrica.

A sessão, levada a cabo por um exibidor ambulante, realizou-se num barracão ou celeiro velho que ficava no alto da Vila, a caminho da Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Quando entrámos no improvisado “cinema”, a aparelhagem já estava montada: na parede frontal à porta de entrada, estava colocado o “écran”, um pouco para lá dela, no seu enfiamento com o “écran”, estava suspensa uma bicicleta sobre dois pilares, que julgo seriam secções de um tronco suficientemente largo para dar estabilidade ao conjunto. A máquina de projectar já estava montada sobre o guiador da bicicleta.


[O gerador da energia!]

Quando a sala ficou cheia, fecharam a porta, ficámos às escuras, o exibidor começou a pedalar de uma forma regular e as imagens foram aparecendo no “écran”, maravilhando todos quantos assistiam. Lembro-me de ter visto desenhos animados e de me ter divertido muito com eles. É possível que tenha passado um qualquer outro filme, mas dele não guardo qualquer memória.

Perguntar-me-ão: não havendo energia eléctrica, como funcionava a máquina de projectar? Desta forma: à medida que o homem pedalava, a roda pedaleira fazia rolar o filme à frente da objectiva e as imagens eram projectadas para o “écran” pela luz do farolim que o dínamo da bicicleta alimentava.

Terceira nota: na década de trinta do século passado, havia uma única estrada, em macadame, que, se bem me lembro, saía da Vila pelas “Portas de Mértola” e a ligava, segundo julgo, à freguesia do Pereiro.

Havia uma estrada... e um único automóvel! O dono chamava-se Xavier e morava já não sei em que freguesia. A espaços, vinha à Vila. À entrada, anunciava-se dando dois “apalpões” à buzina, exterior ao automóvel, e vinha estacionar no terreiro, em frente às Escolas.

[Este automóvel ainda que antigo, é bem mais novo]

A sua vinda era sempre um acontecimento que juntava uma pequena multidão de curiosos à volta do carro. E a própria escola não ficava indiferente ao acontecimento, imune à curiosidade que afectava muitos alcoutenejos. E o professor, o snr. Trindade, apercebendo-se que a nossa atenção também já não estava com ele, mas lá fora, de onde vinha o roncar do motor do carro, as vozes dos curiosos e uma ou outra buzinadela, acabava por nos conceder um pequeno intervalo que, por via de regra, se transformava num longo e divertido recreio.

Um ou outro de nós, mais atrevido, saltava para os estribos do carro, dava uns “apalpões” na buzina e safava-se, correndo, “enxotado” ou pelo snr. Xavier ou por alguém mais responsável, na ausência daquele.

Cavando no passado, duro, quase impenetrável, à força de não ser remexido há muito, muito tempo, encontramos uma qualquer recordação, um facto, uma relação pessoal, por vezes, um só momento, não mais do que isso, seja agradável, seja doloroso.

E basta demorarmo-nos um pouco sobre o “objecto” encontrado e logo, como por magia, vão surgindo outros, sem que, aparentemente, haja entre eles uma ligação racional ou afectiva.

Evocando o meu primeiro ano escolar, falei do snr. Trindade, o meu professor, de D. Arminda, a professora da Escola Feminina. Falei dos “tiriteiros”, das pequenas e leves peças representadas por estudantes, em gozo de férias, num simulacro de teatro, de uma sessão de cinema num barracão, do automóvel do snr. Xavier. E na cauda interessante desse cortejo de “perdidos e achados”, vem um lindo aparelho de rádio, de caixa de madeira envernizada, alimentado por bateria. O feliz e invejado dono daquela preciosidade, única em todo o concelho, era o snr. Quaresma, que o mandou vir já não sei de onde. Mas lembro-me, perfeitamente, do “acto da inauguração”, a que não faltaram as pessoas gradas de Alcoutim. E eu entre elas, acompanhando os meus Pais.

[Este modelo de telefonia é dos anos 40, por isso mais novo]
Com alguma teatralidade, o snr, Quaresma tirou o pano que envolvia o aparelho, mexeu nos botões, sintonizou uma estação, regulou o som e, milagre! passou a ouvir-se a voz de um homem a falar, já não sei sobre o quê. Mas não me esqueço de ter andado à volta do aparelho para ver onde estava o homem cuja voz estávamos a ouvir.

No dia seguinte, não se falava de outro assunto em Alcoutim. Havia os maravilhados e os que não acreditavam que se pudesse ouvir em Alcoutim a voz de um homem que falava a partir de Lisboa, por mais alto que ele falasse!

Não trocemos da ignorância dos descrentes que assim falavam, pois, nos dias que correm, ainda há quem ponha em dúvida que o homem tenha ido e voltado da Lua em 1969.

Agora, sim, uma última nota, esta de carácter “social”.

Falei, acima, de D. Cecília, a esposa do distinto médico dr. Dias. Minha mãe, visita habitual de sua casa, tinha uma grande admiração por ela, pela sua esmerada educação e pela sua cativante simpatia. Era em sua casa que as senhoras de Alcoutim se reuniam, para conviver, para bordar, tricotar os fazer malhas, para jogar ao loto, a tostão! Para beber uma chávena de chá, para comer uma fatia de bolo, que nunca faltava. Assisti a uma dessas reuniões, contrariado, é certo, mas assisti.

Vila do Conde, 20 de Outubro de 2009.

Nota final

Prezados visitantes/leitores:
Quando “comentei” a primeira parte do artigo, penso que não vos enganei. O “cinema”, o “carro” e a “telefonia” constituem para mim três peças bem significativas do passado alcoutenejo.
Muito agradeço ao José Temudo mais esta contribuição para o conhecimento do passado relativamente recente de Alcoutim, tanto pelo seu conteúdo como pela maneira como o aborda e descreve.
Será que ainda é possível vir mais alguma coisa? Não será fácil mas é possível.
Com uma abraço do

JV

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A Escola ... e o que vem a reboque (1ªParte)

Pequena nota

Permitam-me os meus visitantes/leitores mais esta pequena nota que eu penso tem inteira justificação.
Sei quem esteja esperando mais colaboração deste nosso Colega de profissão e Amigo que nos tem brindado com a sua prosa e poesia de reconhecido valor e que, para quem se interessa por Alcoutim tem esse adicionante.
Não podemos esquecer que o descrito tem por cenário Alcoutim e há mais de setenta anos!
Quem nos podia fornecer estes quadros com tão belas pinceladas? Possivelmente só o José Temudo que está legando aos vindouros quadros demonstrativos do passado alcoutenejo.
Atendendo a que o artigo se tornava um pouco extenso, tomámos a liberdade de o dividir em duas partes, afirmando que se a primeira tem todo o interesse, a segunda apresenta dois factos bem marcantes do passado alcoutenejo.


JV


Escreve

José Temudo


Estava a quatro meses de completar oito anos quando entrei para a escola.

São poucas e imprecisas as recordações que guardo do início da minha vida escolar.

Por mais que me esforce, do saco roto da memória, só consigo tirar meia dúzia de insignificantes lembranças. Antes de qualquer outra, a do professor, o snr. Trindade, de quem o meu Pai dizia ser um homem culto, inteligente, escritor e poeta. E um homem bom!

[As antigas escolas]
Desnecessário será dizer que eu não tinha, então, condições para fazer uma tal apreciação.

Recordo-o, à janela da Escola, baixote, grosso de cintura, lunetas encavalitadas no nariz, com o livro de leitura na mão, esquecido do ditado que iniciara, olhando, enamorado, o rio, os barcos, as margens, S. Lúcar! Recordo-o, ainda, sentado à secretária e nós à sua volta, em semicírculo, aos sábados, na revisão da matéria dada durante a semana. Umas vezes, era ele a fazer as perguntas; outras vezes, cabia aos alunos interrogarem-se entre si. Quer num caso, quer no outro, uma resposta errada tinha sempre o mesmo castigo: uma palmatoada, mais ou menos forte, conforme era aplicada pelo professor ou por um colega. Às vezes, doíam mesmo. Tanto assim que, um dia, num acesso de raiva, sobrevinda, certamente, a uma palmatoada menos caridosa, roubei a palmatória e fui oferecê-la, generosamente, à Dona Arminda, a professora da Escola das raparigas.

[O Professor Trindade]
Como é de presumir, a palmatória foi devolvida ao meu professor, acompanhada da informação do nome do benfeitor que a tinha doado. Resultado: se me tinha doído antes, mais me ficou a doer depois. E o “sacaninha” aprendeu a lição: “não queiras para os outros, aquilo que não queres para ti!”

Se as recordações são poucas, as saudades são nenhumas. Aquele primeiro ano escolar foi para mim um tempo penoso, só suportável porque os meus companheiros de brincadeira também lá estavam. Aprendi a ler, a escrever e a contar, não muito bem e sem entusiasmo. S Escola roubava-me a liberdade e não acrescentava nada ao que, naquele tempo, me interessava: o peão, o berlinde, a bilharda, como eu os jogava bem!, o castelo, o campo, o rio, as armadilhas aos pássaros!

Alcoutim não tinha biblioteca, não tinha uma só livraria, os jornais ou não chegavam ou chegavam atrasados, jamais vi um livro ou outra qualquer publicação para crianças, não obstante a quantidade de livros que havia em casa de meus pais, ambos amantes da leitura. Para quê aprender a ler e a escrever? Ainda se houvesse em Alcoutim um cinema que passasse filmes de aventuras, legendados! Mas, não; os espectáculos que os alcoutenejos viam, e muito esporadicamente, eram realizados ao ar livre, no terreiro, em frente às Escolas, para entendimento dos quais eu não precisava de saber ler.

Os “artistas”, saltimbancos ou “tiriteiros” (creio ser corruptela de titeriteiros), nome por que, julgo, eram conhecidos em Alcoutim, eram pouco mais do que pedintes. Vinham em pequenos grupos, geralmente, de três pessoas: um homem, uma mulher e uma menina. Com frequência, traziam consigo um cão, mais raramente, um macaco. Executavam números de ilusionismo, de malabarismo, de contorcionismo e de equilibrismo. O cão caminhava sobre as patas traseiras, e o macaco dava saltos mortais. Amiúde, o homem também vomitava fogo.

Os alcoutenejos divertiam-se com o espectáculo e, no fim, lá deixavam cair uns magros tostões no chapéu que a menina lhes estendia, desafiando a sua generosidade.

Antes de terminar esta evocação, quero acrescentar umas breves notas que julgo possam ter algum interesse.

A primeira respeita ao facto de não haver em Alcoutim um teatro, o que não obstava a que se realizassem, de quando em quando, pequenos espectáculos, que integravam cantigas, danças, declamação e representação de peças simples e não muito longas. Os “artistas” eram, na sua maioria, estudantes, em gozo de férias. Os ensaios das cantigas e das danças eram feitos em casa de D. Cecília Dias, que tinha piano e preparação musical. Os ensaios de declamação e de representação estavam a cargo do professor, snr. Trindade. Quem melhor do que um poeta o podia fazer?

[José Temudo em Alcoutim, antes de frequentar a escola]
A escolha e a confecção do roupeiro eram da responsabilidade de um grupo de senhoras, em que estava incluída a minha própria Mãe.

Estes espectáculos eram muito apreciados em Alcoutim e eram realizados numa casa que reunia as condições mínimas, ou nem essas, para o efeito. Como se diz, “quem não tem cão, caça com gato”.

Termino com uma confissão: sobre este agradável assunto, usando uma expressão em português de antanho, “eu falo de outiva”, por ouvir dizer, pois sobre ele não guardo memória “nadinha de nada”.

(continua)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Festa em Honra de Nª Sª da Conceição na Vila de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL ESCRITO Nº 25, DE SETEMBRO DE 2000, p. III, ENCARTE DO POSTAL DO ALGARVE DE "! DE SETEMBRO DE 2000)



A actual Capela de Nª Sª da Conceição, onde hoje funciona um núcleo museológico de Arte Sacra, é templo cujas origens se esboroam no recuar dos anos.

Teria sido no século XIV a primeira matriz com invocação de Santa Maria?

Depois de entrar em ruína, em 1534 já estava restaurada por acção dos moradores na vila e com o auxílio do Marquês de Vila Real, 2º Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses, que contribuiu com “sessenta e três mil reaes”. (1)

Apesar do culto de Nª Sª da Conceição já ser milenário, foi D. João IV que o incentivou pois viu no triunfo da Revolução de 1 de Dezembro de 1640, um favor da Imaculada. No oitavo dia da sua aclamação (8 de Dezembro), foi a festa de Nª Senhora da Conceição, a primeira a que assistiu, na Capela Real do Paço da Ribeira, em Lisboa.

Um decreto de 25 de Março de 1646 jurava Nª Senhora da Conceição como Padroeira do Reino, nas Cortes que tiveram lugar naquele ano. (2)

A partir da Restauração da Independência, operou-se a um novo restauro do templo e foi instituída a Confraria de Nossa Senhora da Conceição dos Soldados, já que o culto tinha um carácter patriótico. (3)

A Festa de Nª Senhora da Conceição, em Alcoutim, talvez venha desses tempos pois como terra de fronteira que é, esteve muito ligada a tais acontecimentos.

Todos os anos, no dia da Senhora, realizavam-se grandes festejos. Por esse facto, o primeiro feriado do concelho foi o dia 8 de Dezembro e que foi substituído por outro dia logo após o 25 de Abril.

A igreja era cuidadosamente ornamentada com flores e ramagens silvestres, trabalho da responsabilidade do ermitão.

Temos notícia que em 1744 o pregador foi Frei João de S. Diogo (3) e em 1799 o sermão coube a um padre de Mértola, Pedro Feliciano Nobre. (4)

Deslocavam-se aos festejos para colaborar, os padres de Giões, Martim Longo, Pereiro, Vaqueiros, Cachopo e Odeleite, além dos Curas de Sanlúcar que habitualmente estavam presentes.



Em 1851 a Câmara, já administradora da Capela, deliberou “que se dessem providências para ela se fazer com pompa e esplendor possível, vendendo-se para isso o trigo dos foros pelo preço corrente. (5)

Os anos foram passando e em 1874 a Câmara constata que os dinheiros foram desviados para o cofre especial das estradas, pelo que havia dificuldade em fazer a festa de Nª Sª da Conceição. (6)

Nas festividades de 1907 foi servido um bodo aos pobres que assistiram às cerimónias, no qual se gastaram dezasseis mil e quinhentos reis.

Depois das solenidades era costume servirem-se refrescos aos clérigos que tomavam parte. Refrescos em Dezembro?

A Festa de Nª Senhora da Conceição, de grande devoção destas gentes, tinha grande concorrência. Pagavam-se promessas e havia quem anualmente, da sua colheita, retirasse determinada quantidade de azeite para alumiar Nª Senhora.

Solenes procissões percorriam as principais ruas da vila e eram actos que não podiam faltar.

A Implantação da República provocou alguns choques, voltando depois à normalidade e com introdução de outras actividades de carácter pagão.

Em 1913 foi deliberado mandar celebrar a festa em honra de Nª Senhora da Conceição e encarregado de a organizar o Vice-Presidente, António Maria Dias (6) e no ano seguinte houve a mesma deliberação e com a condição de ser promovida com a devida pompa. (7)

[Procissão em 1996]

Havia um pequeno pavilhão onde funcionava uma quermesse. Ainda o conheci, muito velhinho. Era obra do Dr. José Pedro Cunha, projecto e execução. Facetado, penso que hexagonal, estava muito bem concebido e com montagem prática.

A Festa de Nª Senhora da Conceição entrou em declínio extinguindo-se praticamente. Foi então, no início dos anos cinquenta que apareceram as Festas da Vila que de certo modo pretenderam substituir aquelas.

Em onze anos de permanência na vila, assisti a uma procissão.

Em 1992 pretende-se recuperar a festa religiosa. Depois da celebração da missa na Capela, a imagem percorreu em procissão as principais artérias da vila, sendo acompanhada pela Banda dos Bombeiros Voluntários de Aljezur. (8)

A partir daquele ano as manifestações religiosas em honra de Nª Senhora da Conceição têm-se mantido.

NOTAS

(1) “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, MCMLXXXVII
(2) História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão, Vol. V, 1980
(3) Livro de Contas da Real Confraria da Nª Sª da Conceição, 1744.
(4) Livro de Contas da Real Confraria de Nª Sª da Conceição, 1875
(5) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 30 de Setembro de 1841
(6) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 15 de Novembro de 1874.
(7) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 6 de Novembro de 1913.
(8) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 26 de Novembro de 1914.
(9) Boletim Municipal, nº 12 de Abril de 1993.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

História de Portugal, V volume [1640-1750]


O V Volume da História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo abrange o período de A RESTAURAÇÃO E A MONARQUIA ABSOLUTA, tem 493 páginas e foi publicado em 1980.

Nele podemos encontrar duas referências a Alcoutim e que passamos a indicar.

Pág. 30
A Primeira campanha: a vitória do Montijo


No ano de 1642 houve um ataque ao Sotavento algarvio, com forte incidência nas praças de Alcoutim e Castro Marim, ambas lutando com falta de munições, mas o perigo foi conjurado.

Pág. 349
A população de 1668 a 1750


Alcoutim
Fogos…………………………………… 1518
Pessoas de comunhão……………3983
Só de confissão …………………….706


Na vasta bibliografia do autor podemos encontrar variadíssimos trabalhos referentes a este período.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Igreja Matriz de Vaqueiros



O simples mas gracioso templo, que tem por invocação S. Pedro, no dizer de Pinheiro e Rosa, (1) é mais antigo que a criação da freguesia, sem contudo dever recuar dos princípios do século XVI.

Silva Lopes (2) classifica-a como “mediana com três confrarias de certos rendimentos “ e Pinho Leal (3) como “Egreja ordinária e pobre”. O Dicionário "Portugal" (4) informa que “é pobre e nada tem de notável”.

Estas duas últimas referências baseadas uma na outra, como tudo indica, não correspondem de maneira nenhuma à realidade, como a seguir justificaremos.

Templo quinhentista, que estava quase concluído em 1565, (5) foi remodelado no século XVIII. (6) É daí que lhe vem o frontão da fachada principal e a torre sineira, principalmente a sua cobertura, de estilo barroco tardio. (7)

A frontaria é baixa e o frontão fantasiado com pináculos nos cantos e ao centro uma cruz de ferro forjado.

A porta, de arco quase ogival, é decorada com cabeças de anjos nas pilastras.

A torre sineira, à esquerda da fachada, fica à face da mesma e é de quatro olhais, cujos frontões acompanham a cornija do varandim, em cujos cantos se erguem fogaréus do mesmo tipo da cúpula, sobre a qual se situa um cata-vento figurando um galo, símbolo da vigilância e muito vulgar nas torres das igrejas.

A torre tem dois sinos. O maior, de 0,50 m por 0,95 de diâmetro, pesa 140 kg. Há nele uma cruz e a legenda: S. PEDRO ORA PRO NOBIS - ANNO DE 1779. Já não é o que fora posto em 1755, para o qual a confraria do Santíssimo despendera 2000 réis.

O menor, que mede 0,40 m por 0,46, pesa 70 kg. Além da cruz tem as seguintes inscrições: ESTE SINO MANDOV FAZER O Rº. Pe JOSÉ MARIA REIS - ANTÓNIO FERNANDES PAULO ANDADEV O FEZ EM 1860. (8)


Sobre a capela-mor também existem florões.

A porta lateral da fachada direita é igualmente quinhentista.

Pouca ruína teve do terramoto de 1755 pois apenas abriu algumas pequenas rachas na sacristia e campanário e essas ainda se não repararam pela pouca ruína que ameaçam, segundo refere a “Memória Paroquial”



É de uma só nave que dá acesso à capela-mor, mais estreita e de planta rectangular.

O retábulo do altar-mor, do século XVI, enquadra duas pinturas sobre tábua, da mesma época, figurando Sant ‘Ana e S. José. O arco que precede o altar da Senhora da Soledade está ornado com pinturas ao gosto do século XVIII. (6)

Cadeiral maneirista.

A imagem do padroeiro que apresenta um báculo na mão esquerda e uma chave na direita é pintada, dourada e estofada e encontra-se no nicho principal do retábulo da capela-mor. (9)

Na indumentária havia uma bolsa de corporais de seda branca bordada a ouro em relevo no anverso e a sedas matizadas no reverso, devendo tratar-se, segundo Pinheiro e Rosa, de peça do século XVIII.


Uma pequena custódia de prata lavrada e ostensório radiado que já existia em 1790 e um cálix do século XVIII, de prata dourada e relevada com motivos vegetais, sendo a ornamentação do pé e base toda em escudetes irregulares, constituem peças de ourivesaria a mencionar.
Existia um livro litúrgico datado de 1621. (1)

A Junta de Paróquia foi autorizada em 1860 a lançar uma derrama com o fim de fazer face à despesa com a fundição de um sino e a compra de um paramento roxo. (10)

Em 1884 a mesma Junta apresenta a Sua Majestade uma petição solicitando um subsídio para poder compor a Igreja Paroquial que se achava em ruínas. A Câmara Municipal que para o efeito a tinha de confirmar fá-lo atestando a veracidade do alegado. (11)

Em 1988 a Câmara Municipal mandou colocar um relógio na torre.

O templo situa-se num extremo da aldeia, tendo à saída do adro um escadório que nos leva ao largo principal.

Está inscrito na matriz predial com uma superfície coberta de 274 m2 e 600 de logradouro, que na última visita que lhe fiz, encontrava-se mal cuidado.

Tenho conhecimento que recentemente recebeu obras de restauro que não conheço.

NOTAS

(1)-“São Pedro na Arte Religiosa do Algarve”, Pinheiro e Rosa in Correio do Sul de 1 de Junho a 13 de Julho de 1967.
(2)-Corografia do Reino do Algarve.
(3)-Portugal Antigo e Moderno.
(4)-Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues.
(5)-Alcoutim - Algarve - Portugal (Brochura Turística), Francisco Ildefonso Lameira.
(6)-Tesouros Artísticos de Portugal , Selecções do Reader’ s Digest, 1976.
(7)-“Um olhar sobre as Igrejas de Alcoutim” (Folheto Turístico) Ed. C.M.A.
(8)-Vozes de Bronze , P. José António Pinheiro e Rosa,1946.
(9)-A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX , Manuel Rodrigues e Francisco Lameira,1985.
(10)-Acta da Sessão da C.M.A. de 8 de Agosto de 1860.
(11)-Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Agosto de 1884.