terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Muro pintado



Não caro visitante/leitor, não se trata de uma parede pintada com ocre amarelo, que foi muito utilizado nesta região e muito menos de tinta plástica, a que veio substituir os ocres.

A coloração apresentada tem a ver com uma infestação de pequenos líquenes, que constituem para poder viver a associação permanente de duas plantas, um fungo e uma alga.

Os líquenes, que podem viver centenas de anos, têm uma acção erosiva sobre a pedra.

O muro é feito de pedra solta e relativamente bem construído pois apresenta-se direito e com poucas saliências.

A foto foi tirada por mim em 2009 num monte da freguesia de Alcoutim.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O São João no Pereiro

Dos três santos populares era sem dúvida o mais festejado na freguesia e ainda hoje não passa despercebido às gentes da aldeia que dele se lembram e festejam em moldes naturalmente diferentes daqueles que ocorreram até meados do século passado.

A tradição atribui a S. João ser um santo casamenteiro (tal como S. António), sedutor e prazenteiro, protector dos amores lícitos e ilícitos!

É festejado no dia 24 de Junho, mais propriamente na noite de 23 para vinte e quatro.

É tempo do solstício de Verão. É a noite dos amores que estimula comportamentos sensuais e sedutores. O fogo, as ervas e a água têm nessa noite virtude. O fogo fertiliza, a água purifica e renova. (1) Era por isso que as moças se juntavam, fazendo levantar um mastro junto das suas casas que era revestido de mentrastros, loendros, murtas, juncos e outras plantas de preferência aromáticas.

Para isso juntavam-se com os moços indo ao campo colhê-las o que se fazia também em relação ao alecrim, sendo este destinado à fogueira.

O mastro (poste) tinha como peça principal a charola que se situava ao cimo, na sua extremidade, com estrutura geralmente de cana, decorada com papel de cores vivas, conforme a habilidade do autor. Fios partindo do topo eram enfeitados com bandeirinhas de papel de seda de várias cores.

Estas despesas eram suportadas por um peditório feito nas vizinhanças, até porque existiam outros mastros e cada um pretendia ser o mais bonito, proporcionando melhor festa.

A indispensável fogueira aqui era sempre de alecrim, enquanto noutras zonas, à falta deste, era utilizado o rosmaninho (localmente rasmono, em vez de rosmano).

Saltar à fogueira, acreditava-se que facilitava a fertilidade. As ervas queimadas defumavam as casas purificando e esconjurando de coisas más.

As rodas, dançando e cantando igualmente não faltavam.

As sortes advinhatórias respeitantes ao amor e ao casamento proliferavam.

Chamuscavam-se três alcachofras na fogueira e espetavam-se em terra. Se uma delas estivesse espigada, no outro dia, pela manhã, significava que os amores eram correspondidos.

A sorte das favas consistia em passar nove vezes três miolos de fava pela fogueira. Pelava-se uma totalmente, a outra ficava-se pelo meio e a terceira intacta. Punham-se debaixo do travesseiro. Quando se acordava procurava-se com a mão uma e a encontrada significava o grau de fortuna do futuro companheiro, sendo a intacta a que representava o mais abastado.

Outras raparigas tentavam saber o nome do futuro marido atirando para a fogueira uma pequena moeda. No outro dia quando aparecesse um pobre pedindo, davam-lha perguntando ao mesmo tempo como se chama. Era esse o nome daquele que iria casar consigo.

[Parte cimeira de mastro nos dias de hoje. Foto JV, 2009]
Antes do sol nascer ia-se buscar água a sete poços com que se levavam e bebiam pois era água com virtude.

Outros tinham mais fé em pôr alecrim de molho, apanhando a cacimba da noite e lavando-se pela manhã com essa água que consideravam purificante.

É do pouco que ainda se pratica pelas pessoas mais idosas.

E a água continua metida nestas sortes e adivinhações. Passava-se uma bacia com água nove vezes pela fogueira e derretia-se para dentro dela uma vela procurando-se depois interpretar a figura formada relacionada com a actividade do futuro namorado.

Com o mesmo ritual outras utilizavam a clara de um ovo.

Havia quem procurasse reflectir a sua imagem numa bacia com água.

Os moços não deixavam de ir ao banho, em conjunto, na manhã de S. João, ora na Ribeira do Vascão, ora na da Foupana.

Apesar de tudo continua-se a festejar o S. João na aldeia do Pereiro mas em moldes actualizados que pouco têm a ver, como é natural, com o passado.

NOTA
(1)–Tempos de Solstícios, Aurélio Lopes, Edição de O Mirante, 1998.


Pequena nota

Extraído do nosso trabalho, "A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) – Do passado ao presente", Edição da J.F. do Pereiro, 2007, p 199 a 202.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Galachos, Galaxos ou ainda Galaxes!



Este pequeno monte da freguesia de Vaqueiros e próximo da Ribeira de Odeleite sempre nos tem levantado dúvidas quanto à maneira de escrever e ainda mais quanto à explicação do seu topónimo, que ao conhecer-se ajudaria certamente a optar pela grafia.

Em 1758, nas Memórias Paroquiais, o pároco da freguesia que respondeu ao questionário escreveu Galachos, enquanto Silva Lopes na sua Corografia do Algarve (1841) grafou Galaxos.

A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol 21 indica Galachos. O site da Câmara Municipal de Alcoutim opta por Galaxos, (1) enquanto o da Junta de Freguesia de Vaqueiros apresenta com “X” no mapa da freguesia e com “CH” no texto! (2)

No nosso trabalho editado em 1985, (3) escrevemos Galachos.

José Pedro Machado escreveu:- top.Alcoutim - Referência a pessoas do local genericamente conhecidas pelo apel. ou pela alc. de Galacho? De galo? Nunca li ou ouvi no concelho tal nome, a não ser em relação à pequena povoação ou à que lhe fica próximo e ainda mais pequena e daí a adopção do diminutivo. Se é derivado de galo, penso que deve ser escrito com ch.

No Novo Dicionário Corográfico (...) que habitualmente consultamos, só encontrámos este Galachos, também com “ch” pelo que será único no país.

No Google Earth encontrámos Galaxes para aquilo que designamos por Galachos e Galachos para o que conhecemos por Galachinhos.

Em recentíssimo folheto propagandístico da responsabilidade da Câmara Municipal (4)
no mapa do concelho também assim aparece designado.

Como se vê, existe bastante confusão sobre o assunto.

Há uma importante família originária de Espanha, segundo penso, que se espalhou por diferentes partes do Mundo, como Portugal, Brasil e Argentina, pelo menos. No Ribatejo estiveram em Constância, Santarém, onde ainda conheci uma senhora, e Vila Franca de Xira mas não me consta que tivessem passado por terras de Alcoutim.

Tanto os Galachos como os Galachinhos situam-se muito próximo da Ribeira de Odeleite, em cujas margens o homem podia tirar o seu sustento, já que são terrenos produtivos ao contrário das serranias próximas.

[Um aspecto da povoação. Foto JV, 2010]

O monte dos Galachos situa-se a cerca de 34 km da sede do concelho e a 12 de Vaqueiros, sede da freguesia. Os Galachinhos há uns anos desabitados distam 700 metros dos Galachos, cada um na sua margem da ribeira.

As Memórias Paroquiais, que só referem o maior, atribuem-lhe 4 vizinhos, o que estava equiparado à grande maioria dos montes da freguesia, enquanto Silva Lopes em 1839 lhe atribui cinco fogos.

Até 1985 o isolamento de todos os “montes” da freguesia de Vaqueiros era praticamente total. As deslocações eram feitas a pé ou em animais de carga e sela.

À vila ia-se só para as obrigações fiscais, saindo de madrugada e chegando alta noite! Estes povos não tinham direitos, só tinham obrigações.

A escola mais próxima, a da Várzea, que presumo ter sido construída entre meados da década de 60 e da seguinte, do século passado não podia receber as crianças dos Galachos, pois no Inverno a ribeira não dava passagem e por isso frequentavam a escola do Zambujal.

Só em 1985 as coisas começam a mudar e é feita a terraplanagem e obras de arte na estrada municipal 508, no lanço da ribeira de Odeleite (Galachos) à estrada municipal 505. O alcatroamento da estrada e dos pequenos ramais foi adjudicado em Dezembro de 1991, sendo a ponte posta a concurso no ano seguinte (5) e ficando concluída em Julho de 1993. (6). Atravessamo-la. É uma ponte moderna, bem concebida, larga, com três elegantes pilares.

No monte foi inaugurado no dia 19 de Setembro de 1985 um telefone público quando ainda não beneficiava de energia eléctrica. (7)

Em 1992 foi aberto um furo para distribuição de água à população através de fontanários (8) e três anos depois viu as ruas pavimentadas. (9)

[Parque de merendas. Foto JV, 2010]

Em 2005 junto da estrada foi construído um parque de merendas à sombra de algumas árvores para o efeito plantadas. (10)

Tanto no censo populacional de 1991 como no de 2001 não encontrámos referência ao seu número de habitantes, pelo que, sendo 10 ou inferior, foram contabilizados nos isolados, contudo, em Setembro de 1999 afirma-se que tem seis fogos e dez habitantes. (11)

Perto da povoação, num pequeno cerro localiza-se um povoado com vestígios de ocupação islâmica. Recolheram-se fragmentos de telhas, cerâmica comum, bordos de pequenas panelas e vária cerâmica vidrada e de cor melada. (12)

Como se verifica, as terras férteis junto à ribeira não passaram despercebidas àquele povo.

[Ponte dos Galachos sobre a Ribeira de Odeleite. Foto JV, 2010]

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Notas

(1)– http://www.cm-alcoutim.pt
(2)— http://www.jf-vaqueiros.pt
(3)– Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), p. 393
(4)– Alcoutim O Algarve Natural
(5)- Boletim Municipal nº 10, de Abril de 1992
(6)- Jornal do Algarve de 16 de Setembro de 1993.
(7)- Jornal do Algarve de 26 de Setembro de 1985.
(8)- Boletim Municipal, nº 10 de Abril de 1992.
(9)- Alcoutim - Revista da C.M.A., nº 1 de Maio/Junho de 1995.
(10)– Alcoutim, Revista Municipal nº 12, de Dezembro de 2005, p 15.
(11)– http://www.in-loco.pt
(12)– “O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, in Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, p. 145

sábado, 25 de dezembro de 2010

Doçaria de Natal




Filhós da massa dos coscorões e filhós de rosa são dois dos doces tradicionais que se confeccionam em Portugal principalmente na época natalícia.

Estão aqui representadas duas regiões, o Bairro Ribatejano e a Serra Algarvia, pelo menos foi nestas regiões que aprendi a fazê-los, primeiro os “fritos da massa dos coscorões” que as minhas raízes trouxeram do Alto-Alentejo, depois as filhós de rosa que conheci na Serra Algarvia, mais propriamente no concelho de Alcoutim.

Quanto aos primeiros, a massa é preparada com farinha e gemas de ovos a que se junta água, azeite (quente), aguardente, sumo de laranja e uma pitada de sal. Depois de bem amassada fica algum tempo a repousar.

Vai-se cortando a massa aos pedaços e estende-se muito bem com um rolo. A seguir trabalha a recortilha conforme o gosto e imaginação do executor.

É a altura de ter o óleo quente para se irem fritando e ao mesmo tempo polvilhando de açúcar e canela segundo o paladar.

O polme para as filhós de rosa (rosa vem do aspecto que apresentam) é feito com farinha, ovos inteiros, água e uma pitada de sal. É de confecção rápida através de uma pequena batedeira.

É necessário a existência de uma forma de ferro, pelo menos só as conheço desse material, mas que já não eram fáceis de adquirir há quarenta anos, altura em que adquiri a minha. Eram peças só cravadas e daí alguma dificuldade em as executar. Tem a forma de um cilindro sem bases e o seu interior é preenchido por dois rectângulos que se cruzam simetricamente e se ajustam às paredes. Do ponto de encontro dos rectângulos sai um pequeno varão que tem argola na ponta.

Esta peça depois de servir não se deve lavar e ser apenas enrolada num pequeno pano, conservando-se assim untada com o óleo onde serviu.

A forma depois de quente no óleo é molhada no polme, sem que este a cubra totalmente fazendo com que uma pequena camada se agarre às suas paredes. Depois é colocá-la no óleo quente e com pequenos movimentos provocar que a massa se solte da forma e se frite.

Tem que haver aqui a noção de equilíbrio, pois a forma não pode estar demasiado quente, nem fria, para que tudo possa resultar. Se a massa se começa a pegar à forma, é uma complicação e o trabalho torna-se difícil de executar mas quem tem experiência resolve sempre os problemas caso surjam.

Depois de fritas põe-se mel a “arfelar”, isto é, junta-se-lhe um pouco de água e leva-se ao lume. Quando começa a ferver vão-se passando as filhós rapidamente e colocando-as depois num alguidar.

Os alguidares vidrados têm quarenta anos e foram comprados por mim na Praça da República em Alcoutim a um vendedor do Redondo.

O arroz-doce não o sei fazer, mas vai ser feito e bem com uma receita de minha avó paterna, oriunda da região de Coimbra. Nunca comi melhor!

Existe mais de uma dezena de licores à escolha (ginja, alfarroba, tangerina, poejo, ameixa, limão, folha da figueira, romã, erva-luísa, hortelã, morango, funcho, etc.), igualmente da minha confecção para acompanhar os doces.

É assim, quanto a doçaria que um casal passa esta época, numa junção de usos e costumes, respeitando as suas origens, neste caso, Alcoutim e Santarém.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

BOAS FESTAS



SÃO OS VOTOS PARA TODOS OS VISITANTES/LEITORES DO



FEITO POR PESSOAS QUE EFECTIVAMENTE GOSTAM DE ALCOUTIM E DO SEU CONCELHO E APENAS A TROCO DESSA CIRCUNSTÂNCIA.

JV

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Apesar do frio, hoje vou abanhar-me à Ribeira!






Escreve


Amílcar Felício




[Ribeira de Cadavais. Pego das Portas. Foto JV]

Nos nossos dias em Alcoutim, toda a gente tem água corrente em casa e boas casas de banho naturalmente. Mas nem sempre foi assim. Por contraditório que pareça com tanta água no rio e na ribeira, a verdade é que em nossas casas até à década de sessenta aquele líquido sempre foi um bem escasso. Na realidade eram os aguadeiros como o Ti Zé Brandão ou o Ti Xico Barão que pelas manhãzinhas iam resolvendo o problema de cada família. Ou então eram as próprias mulheres e moçoilas que pela tardinha em rancho e amena cavaqueira, lá iam cantando ou falando dos seus namoricos com o cântaro ou a enfusa de barro à cabeça ou ao quadril, buscar o precioso líquido ao Pocinho ou ao Poço das Figueiras.

Vasculho esses tempos no baú das minhas memórias e ainda me lembro de ver Alcoutim transformado na década de sessenta num autêntico buraco, por causa do saneamento básico. Lembro ainda a provocação que alguns faziam insistentemente ao amigo António do Brejo naquela época: “Oh amigo António, por que é que o amigo não vai também abrir umas valas para ganhar uns tostões” (?), perguntavam-lhe os “conselheiros”, ao que ele respondia sempre ao seu melhor estilo e no mesmo tom cínico e amigável dos provocadores: mas óh amigo (!) se eu não perdi ali nada, para que é que eu vou para ali a fazer figura de parvo de rabo p´ró ar a abrir buracos?

Os banhos tiveram sempre um papel importante na vida dos povos, com altos e baixos no Ocidente é certo, mas sem oscilações de maior no Oriente. Basta referir o conhecido banho turco herdado posteriormente pelo árabes. Assim, desde purificador da alma há 5000 anos no Egipto chegando a tomar-se 2 e 3 banhos por dia, a promotor de vida saudável e de educação da juventude há 3000 anos na antiga Grécia com a construção de banhos públicos, o banho atingiria o seu apogeu com os romanos e as suas famosas termas, que influenciados pela cultura grega, transformariam o banho num ritual público de convívio, de negócio e de luxúria, verdadeiros resorts dos nossos dias com massagens, sauna, restaurantes, jardins etc.

Contudo, os banhos públicos entrariam em franco declínio depois da queda do Império Romano e tornar-se-iam até fonte de pecado na idade média tendo sido proibidos pela Igreja, com o argumento “cientifico” de que a água para lá de amolecer a alma, dilatava os poros da pele por aonde entravam as doenças. Posteriormente com o iluminismo nos séculos XVII e XVIII deu-se um certo revigoramento do hábito do banho, considerando-se inclusive que a falta de higiene teria sido uma das razões da propagação de diversas pestes na idade média. Os banhos popularizar-se-iam posteriormente no Ocidente já quase nos meados do século XX, instituindo-se o hábito de se tomar banho aos sábados. Nos nossos dias contudo, ganhou foros de autêntico Senhor estando muito ligado à higiene diária, mas o que é facto é de que começa a ser posto em causa novamente.

Mas nos anos cinquenta e sessenta os alcoutenejos não íam para a Ribeira apenas para nadar. A gente ia abanhar-se na Ribeira. Eu sempre entendi este conceito alcoutenejo do abanhar-se não como uma fórmula do actual 2x1 (dois em um) tão publicitado por muitos produtos dos nossos dias, mas seguramente para aí de uns 4x1 (quatro em um), pois para além do exercício físico, da aprendizagem da natação e do convívio social, servia muitas vezes também para a higiene corporal. Transformávamos aquela Ribeira numa autêntica terma romana! Mas como os tempos não param, a velha Ribeira actualmente caíu em desuso e agora triste, suja e abandonada, foi destronada por um velho e enrugado Pego travestido de praia, a chamada Praia do Pego Fundo, embora para mim sempre que a vejo, continue a ser sempre a minha Rainha.

[Eucalipto da boca da Ribeira. Foto JV, 2010] Puxo a memória atrás e recordo o ritual das 5 horas da tarde por altura das marés vivas. Eram as mães, as tias, as primas, as irmãs que qual banho romano, ali se juntavam em magote por baixo das passadeiras, pois até aos 10 ou 12 anos era por ali a Escola de Natação da miudagem de Alcoutim. Naturalmente que as Senhoras e as Meninas também aproveitavam o momento para um pouco de exercício e uma lavagem mais a preceito, dentro das suas combinações que eram os fatos de banho femininos da época e que depois de molhadas e coladas aos corpos, mais pareciam belas estátuas ambulantes que muitas vezes despertavam os nossos olhares marotos e adolescentes.

Havia sempre um “professor” mais velho naturalmente, que no meu caso foi o meu compadre António da Teresa, ou um familiar mais responsável que com as mãos no nosso peito nos ía dando as aulas de natação e assim ensinando a flutuar: vá bate os pés com força... mexe os braços agora... agora bate os pés e os braços ao mesmo tempo... até que uma vez por outra nos largavam até sentirmos que podíamos flutuar sozinhos. Já numa fase mais adiantada do “curso” ajudavam-nos a manter-nos à tona apenas com a mão por baixo do queixo, o que dava uma autonomia quase completa ao aprendiz de nadador e a autoconfiança necessária. Chegávamos assim ao final do “curso”. Havia também quem utilizasse o método da corda e que se punha na margem da Ribeira sempre atento com a corda na mão, para o caso de acontecer alguma percalço e assim puxar rapidamente o aprendiz de nadador.

Depois já com alguma experiência, passava-se então para o Esteiro da Tia Libânia junto ao eucalipto até aos 14 ou 15 anos e só depois nos era atribuído o salvo conduto para os banhos no Guadiana, pois o Guadiana impunha respeito a todos, quer pela sua imensidão relativamente à Ribeira e à profundidade que nós nem sabíamos aonde acabava, quer possivelmente também pela frequência das mortes por afogamento que aconteciam na altura. Assim, só nos atrevíamos a enfrentá-lo cara a cara já depois de uma certa tarimba na Ribeira. Para se fazer uma ideia da respeitabilidade que nos merecia o Guadiana, basta referir que até aos meus 13 ou 14 anos, para mim Alcoutim acabava precisamente aonde começava a Praça. A partir dali era zona proibida tipo Vietname, aonde eu religiosamente nunca punha os pés.

[Ribeira de Cadavais. Antigo Pego Fundo. Foto JV, 1989]

Mas era na ribeira ou no rio que muitos alcoutenejos aproveitavam para dar para além de umas braçadas, uma lavagem mais a preceito. De resto era mais um tirar da ramela no dia-a-dia. Ainda me lembro em miúdo de ouvir a minha vizinha Gertrudes, esposa do Ti Zé Emídio comentando entre as mulheres: “ai mulheres, quando tomo banho os primeiros 15 dias sinto-me tão bem”! Em minha casa era a minha mãe a generala quem determinava a altura dos banhos. Dizia ela para o meu avô quando era chegado o momento: “vá lá Ti António Joaquim que está na altura de pensar em tomar banho”! “Mas tu endoideceste mulher (!), respondia ele sempre azedo, ainda do último eu não me enxuguei”! Certa manhã o meu amigo Zé “Patarroxa” filho do Lázaro e da Ana, soube que o professor Amaral tinha ido de urgência a Faro sem ter tido oportunidade de informar o pessoal a tempo, apanhando-nos assim desprevenidos. Esgalgado, corre aflito a minha casa gritando pela minha mãe: “Dª Belmiiiiira (!), Dª Belmiiiiira (!), diga ao seu Amílcar para não lavar a cara, que hoje não há escola”! Era assim naqueles tempos. Mas parece que os alcoutenejos não estavam errados de todo, sabem?

Efectivamente, existe actualmente um forte movimento nos Estados Unidos contra o banho diário, dizendo-se que até fará mal à saúde e defendendo os seus activistas de que só tomam banho quando lhes apetece. Vocês querem lá ver que os alcoutenejos dos anos cinquenta e sessenta é que tinham razão?

VOTOS DE BOAS FESTAS PARA TODOS OS ALCOUTENEJOS E LEITORES DO ALCOUTIM LIVRE E UM BOM BANHO DE CHAMPANHE PARA 2011 PARA AQUECERMOS A ALMA!!! VALHA-NOS AO MENOS ISSO!!!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Blusa espartilhada



Blusa espartilhada ou será casaco, os meus conhecimentos na área são diminutos, pelo que não me permitem efectuar uma identificação clara.

Claro é que a peça de vestuário feminina foi usada por uma alcouteneja nascida em 1842 e se a tivesse começado a usar com quarenta anos concluiríamos que teria cerca de 130 de existência.

O preto e o castanho são as cores utilizadas e dão-nos a ideia de ser uma peça de uso cerimonial.

Chamam-nos a atenção as várias rendas usadas tal como o farto uso dos colchetes que proporcionavam o ajustamento.

São peças como esta que podem ajudar os interessados na matéria a reproduzir com verdade os trajes nos agrupamentos folclóricos, o que nem sempre acontece, pelo contrário.

Isto para só falar no vestuário, pois a nível de danças talvez as coisas sejam mais complicadas.

Um agrupamento folclórico não é o mesmo que um rancho carnavalesco, onde tudo é permitido e não são as palmas que fazem um grupo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Menina o "Pássaro Arreliador Sabichão" e o que mais adiante se contará...



Esta interessante história para crianças foi escrita pela alcouteneja Marina Ramos Themudo, ilustrada e montada por Clélia do Carmo Cruz Bastos, ambas Professoras na situação de aposentadas.

Com uma escrita de alto sentido didáctico é ilustrada por sete magníficos quadros desenhados com arte e sensibilidade.

Possui, e se isto já não fosse pouco, a circunstância de ter sido escrita especialmente para a minha neta, que é convidada para ser co-autora, pois ficou-lhe reservado o trabalho de pintura, que por enquanto ainda não é possível executar pela falta de firmeza na mão devido à sua tenra idade.

Na estória com base em diálogos entre a Menina e o “Pássaro Arreliador Sabichão” não deixam de entrar os avós, procurando-se transmitir algo real dos três figurantes, de tal maneira que a Menina, quando a avó lhe leu a estória e chegou ao quadro que representa o avô com a neta ao colo num cenário familiar, disse logo:- Olha, pareço eu ao colo do meu avô!



As vinte e quatro páginas que compõem o livro, estão ligadas em fole, sendo só a última fixa.

A estória tem por base O MUNDO MÁGICO DOS AFECTOS numa tentativa de ajudar a Menina a tornar-se uma grande e admirável pessoa.

Apesar dos seus quatro anos, a Maria conhece bem o título da estória e até grande parte do seu conteúdo, além de saber o nome da autora, como à mesma já o demonstrou em conversa telefónica.

Em nome da minha neta, no da avó e no meu só consigo dizer, BEM-HAJA, minha Querida Amiga.

JV

domingo, 19 de dezembro de 2010

Por ser o dia que é - Um contarelo de Natal

Dedicatória

Aos meus netos Clara, Ana, Nuno e João

Dedico este contarelo


Natal de 2001








Escreve

José Temudo






A noite caíra célere sobre a cidade-terrivelmente fria, escura, profunda, densamente pontilhada de brilhantes estrelas.

O comércio fechara e as pessoas recolheram pressurosas a casa. Nas ruas, não ficou vivalma.

Seguindo uma tradição multissecular, as famílias iam celebrar, uma vez mais, no aconchego dos lares, em paz e com alegria, o nascimento de Jesus.

Debaixo da ponte que une as duas partes da velha cidade, num dos arcos assente na margem direita do rio, um mendigo, sentado no chão, com os braços em volta das pernas flectidas, aquecia-se ao calor de uma fogueira. A luz ténue e vacilante das chamas não permitia ver se o homem era novo ou velho, magro ou gordo, alto ou baixo. Permitia ver, isso sim, que estava andrajosamente vestido; que a calvície o despojara de boa parte do cabelo; e que a barba, negra e volumosa, lhe encobria o rosto de que só se salvavam os olhos brilhantes e o nariz batatudo. O homem, quieto e de olhos fitos nas chamas da fogueira, recordava o que lhe tinha acontecido umas horas antes.

Nas traseiras de um edifício de apartamentos, ele procurava, num contentor de lixo, colocado junto da cozinha de um restaurante, restos de comida para matar a fome. Uma mulher que estava à porta da cozinha, interpelou-o, em tom firme, com alguma aspereza:

- “Que está você a procurar aí? Feche já o contentor. “Depois, olhando-o de alto a baixo, disse-lhe:

“Espere aí. Eu venho já.” E entrou na cozinha.

Enquanto esperava, o mendigo ouviu a seguinte conversa:

- “Está lá fora um pobre vasculhando no contentor. Vou dar-lhe uns restos do almoço.”

-“Não, Maria, não lhe vais dar nada. Não quero ver mendigos à volta do restaurante. Se há coisas de que os clientes não gostam de ver enquanto comem é a cara de famintos de olhos postos nas garfadas de comida que levam à boca. Já te esqueceste disso? Corre com ele”.



-“Eu não esqueci, Zé. Mas é por ser o dia que é. Parte-se-me o coração ver o desgraçado a vasculhar no lixo, em busca sabe-se lá do quê, podendo eu dar-lhe uns restos limpos de comida que sobraram do almoço.”

O homem ficou calado por um breve momento, como que a pensar. Depois disse:

-“Bem. Dá-lhe lá os restos. Um dia não são dias. Mas, deixa-lhe ficar bem claro que não quero voltar a vê-lo por aqui a rondar o restaurante”,

Passados alguns minutos, a mulher voltou com um saco na mão.

-“Pegue”, disse ela entregando-lhe o saco. “Dá-lhe para comer agora e para logo à noite, à ...” – Ela ia dizer “à ceia”, mas o pudor travou-lhe a língua. E quando ele se preparava para lhe agradecer, a mulher despediu-o, já com um toque de brandura na voz:

-“Pronto, pronto; agora vá-se embora... por favor.”

Foi o que ele fez, sem hesitar. Tão depressa quanto lhe permitiam as enfraquecidas pernas entorpecidas pelo frio intenso que o penetrava, sem dó nem piedade, desceu a rua até ao rio e abrigou-se num dos arcos da ponte, exactamente aquele onde se encontrava agora. Com dificuldade, porque os dedos estavam engaranhados, desfez um nó que a mulher dera nas asas do saco. Dentro, desafiando a sua fome nunca antes saciada, estavam três pequenos tabuleiros cheios de comida boa, limpa, cheirosa. Havia, ainda, meia garrafa de vinho, dois bijous e, embrulhado num guardanapo de papel, uma rabanada. Em tudo aquilo, na esmola em si mesma e no modo como lhe tinha sido dada, havia um toque de respeito a que não estava habituado. Com os olhos rasos de lágrimas, pensando na mulher do restaurante, murmurou:

-“Que as mãos nunca lhe doam!”

Mas a fome não se compadece com emoções, nem o mendigo tem horas ou maneiras para comer. Servindo-se das mãos, atirou-se à comida com sofreguidão e só parou quando o estômago ficou cheio, a estoirar. Nos tabuleiros, ainda ficara comida bastante para mais tarde, quando a fome voltasse. E ela voltaria, disso tinha ele a certeza.

Era isto que ele recordava, absorto, com os olhos fitos nas chamas da fogueira, quando a sua atenção foi desviada para um ponto, para além da zona iluminada pelo lume, onde lhe pareceu ouvir o esmagamento de ervas secas, como se alguém se estivesse arrastando, muito vagarosamente, na sua direcção. E era exactamente isso que estava a acontecer. Primeiro, ao nível do chão, surgiram dois pequeninos farolins, brilhando intensamente. Depois, centímetro após centímetro, como se estivesse a nascer da noite, foi emergindo na claridade, um pequeno cão. O rabo caído entre as patas, a barriga a roçar o chão, as orelhas, atentas, bem espetadas no ar, os olhos fitos no homem e a lentidão com que se deslocava para junto da fogueira, eram sinais bem visíveis do medo que o animal sentia. E parou completamente, quando o mendigo, com voz colérica, lhe gritou, com o braço estendido, na direcção do escuro:

-“Embora daqui! Já!”



O cão parou, é certo, mas não arredou pata. Era sempre o medo que tinha de ser maltratado. Mas maiores ainda, eram o frio e a fome que o atormentavam e que mal podia suportar. Por isso, gania, humilde e submisso, como a querer dizer: “bate-me, mas não me escorraces, que morro de frio!” O mendigo não se compadeceu com a situação do desgraçado animal, que era, bem vistas as coisas, em tudo semelhante à sua. De má catadura, pegou num tição grosso, pesado e a arder vivamente e preparava-se, já de braço no ar, para o arremeter contra o indefeso animal, quando irrompeu pela mente, como um eco reboando pelas quebradas duma montanha, a voz da mulher do restaurante, tentando demover a intransigência do marido: “... é por ser o dia que é. Parte-se-me o coração ver o desgraçado...” A lembrança destas palavras teve o condão de impedir que o gesto maldoso fosse levado até ao fim. Nos olhos do mendigo, iluminados pelo lume, as chamas da ira apagaram-se rapidamente e o tição foi lançado para a fogueira. O cão percebeu a mudança: sossegou e, de orelhas pendidas, deixou de ganir. A partir deste momento, a situação era outra, bem diferente. Mendigo e cão continuaram a olhar um para o outro. O cão, aguardando um gesto amistoso do mendigo que lhe permitisse aproximar-se dele. O mendigo, observando o cão, tentando perceber a sua presença ali. Via bem que era um animal de estimação, de raça apurada. Pequeno, de pernas curtas e com pés de cómoda. O pelo era comprido, a cor alternando o branco com manchas castanhas, de várias tonalidades. A cauda, larga e comprida, fazia lembrar um espanador. O focinho era curto, os olhos grandes, redondos. Era um animal muito bonito, a despeito de alguma sujidade que se lhe notava no pelo comprido e ondulado. O mendigo observava e ia falando com os seus botões: “é evidente que, ao contrário de mim, que andei sempre aos trambolhões, que da vida só recebi miséria e maus tratos, este bicho já conheceu melhores dias. Com toda a probabilidade, nasceu num canil de luxo e, ainda por desmamar, foi vendido a alguém necessitado de companhia, talvez um reformado que vivia sozinho. Foi criado sem que nada lhe faltasse, nem comida, nem conforto, nem carinho.” Depois, falando mesmo para o cão, perguntou:

-“Que te terá acontecido para estares agora aqui? Deixa-me adivinhar: apanhaste a porta da casa aberta e resolveste dar uma volta para ver como era o mundo. Satisfeita a curiosidade, quiseste voltar a casa mas não atinaste com o caminho. Foi isso?

Esta explicação não lhe agradou, pois os cães não costumam perder-se: por isso, avançou com esta outra:

-“Ou então, morreu a pessoa com quem vivias; vieram os herdeiros, levaram a mobília e tudo o que encontraram com valor e a ti, que já não fazias falta a ninguém, puseram-te na rua.”

Esta segunda hipótese agradou-lhe mais que a primeira.

-“Foi isso”, disse, “levaram o que prestava e a ti, pumba, pontapé no cu e rua, que é casa de cães.”

Entretanto, a piedade fora abrindo caminho e apoderara-se já do coração do mendigo que agora resolveu partilhar com o cão a comida que ainda tinha. Tirou do saco um dos dois tabuleiros que restavam. Acicatado pelo cheiro da comida que lhe chegou às ventas, o cão, num ápice, postou-se junto do mendigo. Com o rabo a dar-a-dar, as orelhas espetadas, não tirava os olhos, redondos e bugalhudos, a rebrilhar de gula, do tabuleiro.

-“Isto é para ti, come!” disse-lhe o mendigo, despejando no chão uma boa parte da comida. Como seria de esperar, o cão não se fez rogado. Engoliu tudo, num repente. E voltou a ficar de olhos fitos no tabuleiro, como que a pedir a segunda dose.

E o mendigo, agora com relutância, fez-lhe a vontade.

-“Bem,” foi-lhe dizendo, enquanto deitava no chão um pouco mais de comida:

-“Para o tamanho que tens, parece-me que comes de mais.”

Depois, metendo o tabuleiro no saco, disse:
-“Agora, não comes mais. O que resta, fica para amanhã.”

Levantou-se e aventurou-se no escuro. O cão seguiu-o. Voltaram uns minutos depois. O mendigo sobraçava um pequeno molho de ramos secos com que avivou o lume. E voltaram aos lugares que antes ocupavam à volta da fogueira. O silêncio só era quebrado pelo crepitar do fogo consumindo os ramos secos.

As fogueiras sempre tiveram o condão de desatar a língua aos homens. E o mendigo não fugia à regra. Também ele sentiu a necessidade de falar. Há já quanto tempo as pessoas não falavam com ele? Ralhos e palavras duras de expulsão, ouvia muitas vezes, mas conversa, uma verdadeira conversa de agora dizes tu, agora digo eu, já nem se lembrava de ter tido alguma vez. É certo que o cão não falava, mas ouvia e alguma coisa havia de entender. Disso, não tinha dúvidas. E uma vez que acreditava nisso, falou assim:

-“Sendo certo que vais ficar comigo, gostaria de saber o teu nome, como eras chamado pela pessoas com quem vivias antes. Se eu puder sabê-lo, continuarei a utilizá-lo e tu serás, presume, mais feliz”.

O cão ao ouvi-lo falar mais brandamente agitou a cauda. E o mendigo continuou:

-“Não precisas de dizer que não sabes falar. Eu sei isso muito bem. Mas sei, também, que há muitas maneiras de matar pulgas. Oh se sei!” E riu-se, a bom rir, da graçola. Depois, retomou o fio à meada:

-“Vai ser assim: eu vou dizer nomes, nomes que as pessoas costumam dar aos cães de estimação, assim como tu. Tenho a certeza de que se tiver a sorte de dizer o teu, tu não deixarás de me dar sinal de que acertei. Entendido?”

O cão, de olhos fitos nele e de orelhas espetadas no ar, parecia estar a postos.

-“Então, vamos a isto”, disse o mendigo, que logo deu início à sondagem: dizia um nome e ficava, por um breve momento, observando o animal; depois, outro nome e nova observação. E assim foi dizendo todos os nomes que lhe vieram à cabeça: “Bolinhas”, “Lulu”, “Fly”, “Farçola”, “Fifi”, “Fredy”, “Jordy”, e outros mais. Mas o cão manteve-se impassível, nunca dando sinal de reconhecimento de qualquer deles. E o mendigo desistiu, conformado com o insucesso do seu expediente.

-“Bem”, disse para o cão, “perdeste o nome, mas eu vou dar-te um outro; verás que não perdes com a troca”.

Durante uns bons momentos, ficou calado, pensativo, buscando um nome adequado. Não tendo encontrado nenhum que lhe agradasse, tentou consolar o cão:

-“Olha”, disse; “bem vistas as coisas eu também não tenho nome. Tal como tu, também já tive um. Mas há já tanto tempo que ninguém o usa, que eu não viraria a cabeça se alguém me chamasse por ele.”

Parou de falar enquanto deitava mais uns ramos secos na fogueira. Reavivado o lume, retomou a conversa:

-“Sabes como as pessoas me chamam? Queres mesmo saber? Pois eu digo-te. Chamam-me “Eh, tu aí”. É assim que as pessoas me chamam, os polícias e os outros. À força de assim ser chamado, habituei-me e agora, quando ouço “eh tu aí”, já sei que estão a falar comigo. Como vês, o nome não faz falta”.

O mendigo dizia isto, como se assim quisesse consolar o cão. Mas, bem no seu íntimo, sabia que não era assim, que o nome faz parte da nossa identidade, por vezes, da nossa própria personalidade.

E era por isso que continuava a olhar para o cão, como se buscasse inspiração para o baptizar. E foi o que aconteceu. Ao olhar para a cauda do animal, longa, larga, franjada, a ideia surgiu-lhe, iluminando-lhe o olhar, como um relâmpago no céu.

-“Já sei”, disse, a rir-se de contente, “vou chamar-te “Franjinhas”.

O cão ao ouvir “Franjinhas”, reagiu de imediato. Terá sentido que voltava aos bons tempos de conforto, da fartura e do carinho? Em menos tempo do que o diabo leva a esfregar um olho, o feliz animal estava com as patas dianteiras no peito do mendigo, procurando e conseguindo lamber-lhe o rosto, num frenesim que quase parecia loucura. O mendigo, surpreendido ao princípio, depressa compreendeu que, ao baptizá-lo, mais não tinha feito do que acertar em cheio, no verdadeiro nome do cão. Comovido, ele também, deixava-se lamber, enquanto, carinhosamente, passava as mãos pelo pêlo espesso e ondulado do animal. A pouco e pouco, foi-se esmorecendo esta exuberante manifestação de mútua alegria. Mas o cão já não voltou para o lugar que antes ocupava do outro lado da fogueira. Confiadamente, enroscou-se entre as pernas estendidas do mendigo que não se cansava de dizer e de repetir:

-“Franjinhas, heim? Quem havia de dizer!

Olhando, agora, para o Franjinhas, sentia que a solidão, a tristeza, a angústia e o medo que sempre o tinham acompanhado ao longo da sua desditosa vida, cediam o lugar na sua amargurada alma a uma réstia de paz, de alegria e de esperança. O Franjinhas seria o companheiro e o amigo leal e dedicado que o acompanharia fosse para onde fosse, que nunca o abandonaria acontecesse o que acontecesse. E assim pensando, adormeceu tranquilamente, em paz com o mundo e consigo mesmo.



Vindas do alto da cidade, quebrando o silêncio absoluto daquela noite desumanamente fria, soaram esbatidas e arrastadas, as doze badaladas da meia noite.

Dos quatro cantos da cidade, pequenos grupos de pessoas apressadas confluíam para a Capela do Asilo, a fim de participarem na tradicional Missa do Galo. Da boca do piedoso sacerdote, velhinho de muitos anos, esperavam ouvir a história enternecedora do Menino Deus, nascido nas palhinhas de um desprezível estábulo, que veio ao mundo para ensinar aos homens o único caminho que conduz e abre as portas do Céu – o Amor.

O contarelo acaba aqui. Espero que vos tenha agradado.

Para o ano, quem sabe? Talvez haja, ainda, um outro contarelo.

Natal de 2001.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Carlos Brito regressa ao forte de Peniche

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 9 DE JUNHO DE 1994)


Em 10 de Fevereiro de 1960, Carlos Brito deu entrada no Forte de Peniche com “algemas” da polícia política. Agora, trinta e tal anos depois, fá-lo para apresentar os poemas que ali compôs e reuniu em livro que intitulou Anotação dos Dias – Poemas da Prisão, em Edições Avante.

Foi assim que no passado dia 26, pelas 21,30 h no Salão Nobre daquele Forte e com a presença do Presidente da Câmara local, o Prof. Rogério Cação, fez a apresentação do livro, analisando-o sobre vários aspectos e dizendo alguns dos poemas.

O autor justificou a publicação só agora do trabalho com o sentido de ser uma pequena acha para manter viva a memória da ditadura derrubada e dos seus crimes que persistentes campanhas pretendem fazer esquecer, desejando que tais dias não voltem ao nosso país.

Os poemas escritos durante a “clausura” têm muitos deles, por base, pequenos “nadas” passados no “largo” que se avista da prisão política e que os penichenses designam por “Campo da Torre”. O poeta, rebuscando a sua sensibilidade, transmite muito do sentido político.

Carlos Brito, um alcoutenejo que só não nasceu em Alcoutim, também teve a sua vida ligada a Vila Real de Santo António e em jovem chegou a colaborar no Notícias do Algarve, o que veio a criar, por motivos políticos, problemas ao Director do semanário.



Um dos poemas, a que deu o nome, Alcoutim, representa a sua visão extremamente realista e afectiva da sua vila, rematando com:- Ficamos-te nós / Para voltar um dia. É uma faceta desconhecida de Carlos Brito, agora e em boa hora dada a público.

O lançamento terminou com a habitual “sessão de autógrafos” a que se seguiu um Porto de Honra.

As nossas felicitações com o desejo que não fique por aqui.