sábado, 29 de janeiro de 2011

Festejando o S. Martinho em 2010

Faz parte das minhas tradições festejar o São Martinho com a abertura de água-pé, uma bebida que muito aprecio quando efectivamente é água-pé, com graduação à volta 6/7 graus e não vinho. Tem de constituir a água do pé mas que naturalmente tivesse sido mal espremido para assim conter algum mosto.

O lugar de fermentação deve ser fresco e não conter qualquer outro produto que não seja este a fim da fermentação não ser influenciada por cheiros e odores estranhos.

Apesar de um percalço ocorrido durante a fermentação, a que escapou estava como é habitual, bem cozida e com bom paladar.





A acompanhar-nos, tivemos o grande prazer de ter um casal Amigo, amizade que a escrita proporcionou.

A água-pé foi aberta no dia 11 de Novembro pelas 10 da noite, cozeram-se as castanhas e bebemos uns “canecos”. Um jarro deu para p três! Afinal bebemos pouco!

Esta postagem é dedicada àqueles dois bons amigos, entrados na idade (o que não parece) mas jovens de espírito, ou não se tratasse de um poeta!

Aqui lhe deixamos um grande abraço com votos de boa saúde.

Como pequena nota complementar dizemos que AGUA-PÉ ALCOUTIM LIVRE é das postagens mais visitadas neste blogue.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Recortilha




Estas duas peças não são originárias de Alcoutim. A de cima, em metal (amarelo) é largamente centenária e sofreu uma pequena reparação, pelo menos, há mais de sessenta anos. Hoje constitui para mim uma relíquia e é uma peça de museu. Ainda que o orifício onde gira a roda dentada esteja já um pouco largo devido ao uso, caso haja necessidade ainda está funcional.

O outro exemplar, em oposição, é dos nossos dias e um misto de madeira torneada (cabo) e metal branco.

Entre estes dois modelos existe outro que era o mais vulgar e todo em madeira trabalhada ao torno, incluindo a roda.

Eram vulgarmente designadas por “cartilhas” destinando-se ao corte da massa estendida, desenhando assim as peças para fritar.

Em tempos mais recuados, nem todas as casas tinham esta peça, que além de ser relativamente cara para muitas bolsas, também não se encontrava a vender com facilidade.

Quem não as tinha, não deixava de fazer filhós por causa disso ,pois cortava a massa com uma faca e tinha o problema resolvido.

O problema de hoje não se prende com a recortilha, ao alcance de qualquer bolsa, mas sim com o fazer a massa, que os jovens na grande maioria não deseja aprender, sendo mais fácil comprar as filhós na pastelaria da esquina.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Fernandilho, mais um antropónimo que deu origem ao topónimo



Já aparece referido nas Memórias Paroquiais de 1758 com 7 vizinhos, o que na altura constituía um número médio da freguesia.

Situa-se próximo da margem direita da Ribeira de Odeleite, passando-lhe a nova estrada entre o “monte” e a ribeira. Por sua vez a povoação que tem dois acessos, é atravessada por um barranco que vai desaguar à Ribeira de Odeleite.

Pertence à freguesia de Vaqueiros mas até à reforma administrativa (1836) pertencia ao termo de Tavira.

Situa-se a 40 km de Alcoutim, sede do concelho e a cerca de 10 da sede da freguesia a que pertence.(1) Quem estiver na aldeia de Vaqueiros tomará a E.M.- 506.

O ramal Bentos – Fernandilho, Taipas e outros foram postos a concurso em princípios de 1992.

A povoação recebeu a energia eléctrica em 12 de Dezembro de 1984 (2)

Em 1995 foi aberto um caminho rural com início nesta estrada, na distância de 3 km e que chegou à zona do Barranco da Laje. (3)

Este topónimo único no país é segundo José Pedro Machado um diminutivo de Fernando (4). Parece revelar influência castelhana local (5). Quem foi o tal Fernandilho ou Fernandinho que terá dado origem à pequena povoação é que não será fácil saber.

Fernandinho há vários espalhados pelo país, tal como Fernando e o patronímico Fernandes.

Em 1995 é instalado o telefone público (6) e um ano depois tem lugar o painel de caixas do correio (7).

Procedeu-se à reparação do lavadouro público com a colocação de novos tanques. (8)

[Outro aspecto do "monte" do Fernandilho. Foto JV, 2010]

A construção de um aqueduto para regularização das águas teve lugar em 2002. (9)

Em 2004 é colocada água ao domicílio, (10) ainda que não exista o indispensável saneamento básico.

A construção do parque de merendas tem lugar em 2005 tal como a recuperação do antigo poço público. (11) Os arruamentos são melhorados no ano seguinte. (12)

Foi inaugurada em 15 de Julho de 2006, nesta povoação, a Cooperativa Agrícola de Rega que abrange os “montes” de Fernandilho, Taipas, Alcarias e Bentos e que contava na altura com 40 associados e que tem como principal objectivo a construção de uma barragem, possibilitando assim a rega de terrenos agrícolas. (13) Entretanto está a construir-se um açude com uma capacidade de retenção de 1500 m3 de água.

Em 1991 o Censo Populacional atribui-lhe 46 habitantes e dez anos depois, são 41. Hoje, pouco passarão de trinta.
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NOTAS
(1) – Google Earth
(2) - Jornal do Algarve de 27 de Dezembro de 1984.
(3) – Alcoutim, Revista Municipal nº 1, Maio/Junho de 1995
(4) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte/Confluência, II Vol. p. 634
(5) – Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. 21, p. 160
(6) – Alcoutim, Revista Municipal nº 1, Maio/Junho de 1995
(7) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 4 de Dezembro de 1996, p. 12.
(8) – Alcoutim Revista Municipal, nº 8 de Setembro de 2001, p. 13
(9) – Alcoutim, Revista Municipal nº 9 de Dezembro de 2002, p. 8
(10) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 11 de Janeiro de 2005, p. 9
(11) – Alcoutim, Revista Municipal nº 12 de Dezembro de 2005, pp 15 e 16.
(12) – Alcoutim, Revista Municipal nº 13, de Dezembro de 2006, p. 13
(13) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 15 de Julho de 2009, p. 16

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

D. Pedro de Meneses, 2º Conde de Alcoutim, homem culto e requintado

Pequena nota
O presente escrito é uma adaptação, com pequenas alterações, do artigo que publicámos no Jornal do Baixo Guadiana, nº 85, de Maio de 2007 e que tinha por título:-“ D. Pedro de Meneses, 2º Conde de Alcoutim – um bom patrono para a Escola Básica Integrada local” já que os dados que referimos sobre a figura, para mim são quase os mesmos que hoje possuo.
Certamente que os responsáveis entenderam que a hipótese apresentada não reunia condições para tal, continuando à espera que surja efectivamente um nome que mereça tal distinção, o que poderá não levar muito tempo a encontrar.
A título puramente informativo podemos dizer que desde Maio até hoje a postagem “D. Fernando de Meneses, 1º Conde de Alcoutim (3 de Abril de 2009)” é a grande distância de todas as outras, a mais procurada no ALCOUTIM LIVRE. Porquê, não sei.

JV

Dos seis fidalgos que usaram o título de Conde de Alcoutim, parece-nos ser este o que no âmbito nacional atingiu maior projecção, já que é considerado uma pessoa com boa formação em todos os aspectos que na época eram importantes e próprios de uma figura de prestígio.

Os genealogistas e historiadores dão-no como tendo nascido provavelmente em Ceuta em 1487 (em 16 de Abril a sua mãe encontrava-se em Alcoutim) e falecido em Santarém em 1543, por isso, com cerca de cinquenta e seis anos.

Além de 2º Conde de Alcoutim, era 5º de Vila Real, e 3º Marquês do mesmo título, 2º Conde de Valença, 5º Capitão de Ceuta e Alcaide-mor de Leiria.

À Casa de Vila Real pertencia a tença da Judiaria de Alcoutim.

Entre muitas outras, foi Senhor das vilas de Valença, Caminha, Valadares, Almeida, Alcoentre, Chão de Couce, Pousaflores, Maçãs de D. Maria, Vagos, Azurara e Pindelo.
Toma o título de Conde de Alcoutim em 1499 quando lhe falece o avô, por isso, com cerca de doze anos e é com essa idade que dá uma lição pública de Retórica na Universidade de Lisboa.

Aos dezassete e com a presença do Rei D. Manuel, pronunciou em latim a oração solene da abertura da Universidade de Lisboa.

Foi discípulo do humanista siciliano, Cataldo Parísio Sículo, que o exalta como modelo de fidalgo renascentista. Foi igualmente aluno de Simão Vaz.

É considerado um insigne latinista tanto em prosa com em verso.

De 1512 a 1527 foi capitão e governador de Ceuta, funções que desempenha com valor militar.
Casa em Dezembro de 1519 com a sua prima D. Brites de Lara, filha do Condestável de Portugal, D. Afonso, filho bastardo do Duque de Viseu, D. Diogo e da Marquesa de Vila Hermosa, sobrinho de D. Manuel I e de sua mulher D. Joana de Noronha.

Deste casamento nasceram cinco filhos, vindo a ser o primogénito o 3º Conde e o secundogénito, 4º , por falta de descendência do irmão. D. Joana de Lara veio a ser pelo casamento, Duquesa de Aveiro; D. Bárbara de Lara, Condessa de Castanheira e D. Maria de Lara foi freira no Convento de Santa Clara, de Santarém.

D. Pedro de Meneses é apresentado como destro e generoso para com os adversários no jogo das canas, toureiro hábil, matando de uma estocada certeira. Bom dançarino, cantor e tocador de harpa. É assim que o define Cataldo Sículo.

Em 1524 e devido ao falecimento de seu pai ocorrido em Almeirim, já possui o título de Marquês.



Em 1526, sai de Lisboa à frente da embaixada que irá entregar a Infanta D. Isabel, irmã do Rei D. João III, a seu marido o Imperador Carlos V da Alemanha ou Carlos I de Espanha.

Esperava receber o título de Duque, o que não veio a acontecer.

[Monumento na Cidade de Ceuta a D. Pedro de Meneses, ascendente dos Condes de Alcoutim]

Em 1534 já se encontrava restaurada a Ermida de Nª Sª da Conceição, na vila de Alcoutim, o que foi feito pelos moradores com o auxílio do 3º Marquês de Vila Real com a dádiva de sessenta e três mil reais. No interior do templo, lá estava a divisa “aleo”.

Igualmente não passa despercebida a mesma divisa em brasão que encima o portal da igreja matriz da vila de Alcoutim.

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BIBLIOGRAFIA

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Vol. II, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História

Enciclopédia Verbo-Luso Brasileira de Cultura. – Edição Séc. XXI

Nobreza de Portugal e do Brasil, Edições Zarol

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Estudos sobre o Século XVI, Américo da Costa Ramalho, 2ª Edição, IN-CM, 1982

História do Ensino em Portugal, Rómulo de Carvalho

Azurara, Subsídios para a sua monografia, Bertino Guimarães, Eugénio Freitas e Serafim Neves, Porto, 1948.

“Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, 1987

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações Alfa, Vol. II, 1985.

Archivo Historico Portuguez, Anselmo Braamcamp Freire, Vol II, Lisboa, 1904.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Ensino Primário nas Cortes Pereiras

Antes do ensino primário oficial chegar às Cortes Pereiras, apareciam os chamados mestres de escola que procuravam transmitir o pouco que sabiam a troco de alguns escudos ou de produtos agrícolas, conforme as possibilidades de cada um e o contrato formulado.

Um velho amigo, (1) nascido em 1917 nas Cortes Pereiras e que fez exame da 4ª classe, deslocava-se diariamente à vila, onde estava matriculado na escola, tendo sido aluno do prof. Trindade e Lima.

Segundo me informou outro amigo de Afonso Vicente e há muito falecido, (2) já havia escola oficial nas Cortes Pereiras em 1929, visto ele ter passado do posto de Sta. Marta, que frequentava, para a escola das Cortes que, entretanto, tinha sido criada.

[2ª lugar onde funcionou a escola, no Monte Longo. Foto JV, 2009]

Dizem-me que a escola teria começado a funcionar numas casas no Monte Longo que eram propriedade de António Gomes Alves e como este tivesse tido necessidade delas, cedeu uma divisão para a professora exercer o seu ministério, nas casas onde vivia e que recentemente foram restauradas, igualmente no Monte Longo. Exercia as funções a professora oficial, Maria José Correia.

Houve grandes confusões com esta nova mudança, pois tratando-se de uma casa agrícola havia movimento e os alunos não se concentravam, o lavrador António Gomes Alves resolveu oferecer o terreno necessário, se o povo assim quisesse, para construir uma escola onde o ensino pudesse ser praticado.

A população apoiou a ideia e com o dinheiro de uns e o trabalho de outros depressa puseram as quatro paredes de pé e que ficaram constituindo a escola por onde passaram gerações e gerações de cortes-pereirenses.

Na sua frente fizeram um pequeno pátio que constituía o recreio das crianças.

[Edifício construído pelo povo para funcionar a escola primária, hoje sede da Associação "Unidos do Monte". Foto JV, 2010]

Pelos elementos que me têm fornecido, esta escola deverá ter iniciado as suas funções em 1934 e nestes anos António Gomes Alves era vogal da comissão administrativa da Câmara Municipal de Alcoutim e foi-o por largos anos.

A professora Maria José Correia que exerceu o lugar por vários anos foi substituída pela professora Maria Celeste Martins que exercia essas funções pelo menos em 1954/1956. (3)

Em meados do século XX a população começa a descer com o abandono das terras e a procura de melhores condições de vida, primeiro com deslocações para a cintura industrial de Lisboa, principalmente na zona sul, depois para o litoral algarvio e mesmo para o estrangeiro, nomeadamente para a França e Alemanha.

As dezenas de crianças em idade escolar começam a descer a olhos vistos e é já numa situação de total declínio que se constrói o último edifício escolar. Este sim com um mínimo de condições para o efeito, até porque obedecia a um plano nacional.

Uma sala, casas de banho, uma cisterna,” hall” e amplo recreio, devidamente murado.

[O último edifício escolar, de modelo oficial e que funcionou nas Cortes Pereiras. Hoje foi adaptada a casa mortuária. Foto JV, 2010]

O número de alunos desceu tão consideravelmente que, cerca de 1980 a escola foi encerrada por falta de frequência. Os existentes começaram a ser transportados para a escola da aldeia do Pereiro, ajudando esta a manter-se por alguns anos ainda que poucos.



NOTAS
(1) – O nosso saudoso amigo, José Martins, vulgo José Coelho, que se fixou em Afonso Vicente.
(2) – António Patrício, vulgo António Pedro, que trabalhou muitos anos na extinta Junta Autónoma das Estradas, onde se aposentou.
(3) – Anuário Comercial.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Bom exemplar de galo



A Câmara Escura de hoje é em “homenagem” ao nosso colaborador e Amigo, Amílcar Felício, para lhe fazer crescer água na boca!

Nos anos 50/60 tal exemplar não teria escapado ao surripianço da malta e daria para grande trupe.

Foi criado num monte próximo da vila de Alcoutim e não em qualquer aviário, mas sim num galinheiro com condições sanitárias.

Ainda que no decorrer dos anos tivessem sido criados outros exemplares de tamanho aproximado, este que limpo ultrapassou os seis quilogramas, tinha, como a foto mostra, uma plumagem magnífica.

A sua alimentação foi constituída por farelos, trigo, folhas de couve e ervas da horta. Os caracóis constituíam um petisco especial e que motivava grande reboliço na capoeira.

Não o provei visto ter feito questão de ser destinado ao meu meeiro. Regalei-me com outro, um pouco mais pequeno e de cabidela, coisa que hoje raramente se come e quase ninguém conhece.

Amílcar, tenho muita pena, mas pelo meu lado, o galinheiro acabou por falta de assistência.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Presente envenenado



O monte de Afonso Vicente tem recebido vários “presentes”, desde o asfaltamento do troço de 550 metros que liga à povoação, passando pelo fornecimento da puríssima água da barragem de Odeleite até ao “magníssimo” edifício de 1º andar do Centro Cultural, Social e Recreativo, que se a memória não me falha, teria custado em dinheiro antigo, para uma melhor noção, 30 mil contos!

No último Natal, a carente população do monte foi, segundo me foi informado, presenteada com singelas ofertas, pelo que ficou muito reconhecida.

A melhor oferta está para chegar, a LINHA DE ALTA TENSÃO 400 KV, já delineada conforme o traçado a vermelho representa na foto e que irá passar bem junto da povoação.

Eu não percebo nada do assunto, só sei o que os jornais têm dito em situações semelhantes e o que é verdade é que ninguém quer isto a passar junto das suas habitações pelos malefícios que pode causar à saúde. Não sou engenheiro nem médico.

Para mim já pouco irá significar pois estou no ocaso da vida. Para os vindouros é que será pior, mas a verdade é que já não haverá jovens que queiram, não digo lá viver, mas passar férias. Depois disto, ninguém lá porá os pés.

Sabe-se que estas coisas têm de passar por algum lado, mas consta-me que se fosse por baixo da terra os hipotéticos malefícios seriam muito mais reduzidos.

É claro que os técnicos vão dizer que não há qualquer problema para a saúde mas em contrapartida aparecerão outros a dizer precisamente o contrário. Quem diz a verdade?

E depois disto apetece-me fazer duas perguntas:- Que contrapartidas a população vai receber por estar sujeita a tais riscos?

- Quem já levantou a voz contra esta situação? Nunca a ouvi (televisões e rádio) nem a li (Jornal do Algarve ou Jornal do Baixo Guadiana).

Continuará Alcoutim a ser o Algarve Natural ?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Os Paços do concelho de Alcoutim no Centenário da República



Este opúsculo de trinta e oito páginas de 20X20 cm em bom papel é edição da Câmara Municipal de Alcoutim em bom papel, está fortemente ilustrado e apresenta quatro assuntos distintos: “Os Paços do Concelho de Alcoutim – Apontamentos Históricos”, de autoria de Fernando Dias, Jorge Palma e Nelson Fernandes; “Remodelação do Edifício dos Paços do Concelho de Alcoutim” de Victor Brito; “A Implantação da República em Alcoutim”, de Aurélio Cabrita e Jorge Palma e finalmente “Os Presidentes da Câmara de Alcoutim, 1919 – 2010”, por Carlos Barão.

Sobre os Paços do Concelho publiquei no Jornal do Algarve/Magazine em 24 de Fevereiro de 1994 “Os Paços do Concelho – os actuais funcionam há 110 anos” e que já incluí neste blogue. Esta leitura trouxe-me algumas novidades principalmente as obtidas em fontes que não me foi possível consultar e que vieram enriquecer o meu conhecimento.

Sobre a “Remodelação do Edifício dos Paços do Concelho de Alcoutim”, é um assunto técnico, que me pôs a par das alterações a que vai ser sujeito.

Quanto à “Implantação da República em Alcoutim”, igualmente abordei o assunto nas páginas do Jornal do Algarve/Magazine, de 27 de Julho de 1995, sob o título “Coisas Alcoutenejas – A implantação da República”.

Por fim, tomei conhecimento que o painel dos Presidentes da Câmara (1919 – 2010) foi obra de Carlos Barão.

Agradeço a um dos autores a amabilidade que teve em oferecer-me um exemplar.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A rifa das laranjas na aldeia do Pereiro



Tive conhecimento deste costume, hoje completamente caído em desuso e que só os mais velhos recordarão, num “monte” da freguesia de Alcoutim, não haverá muitos anos.

Mas afinal o que é a rifa das laranjas?

Aquilo a que vulgarmente se chama a fruta era e é pobre na freguesia do Pereiro. Figos, marmelos, algumas romãs e uvas provenientes de “parrões”, eram o que se podia produzir nos lugares de melhor terreno e normalmente situados junto de ribeiras e barrancos.

O fruto proveniente do enxerto de um pereiro bravo e o dado pelas tunas (opúncias) constituíam as alternativas.

O homem, procura, entretanto criar frutos mais apetecíveis, mais finos, mais atractivos, pelo que, nos locais mais propícios, planta a sua laranjeira. Com redobrados cuidados consegue que se vá desenvolvendo e algumas conseguiram portes assinaláveis.

E agora o que fazer aos apetecíveis frutos tornando o investimento rentável?

Nessas alturas não havia dinheiro disponível para comprar um quilo ou dois de laranjas! Mesmo quem o tivesse, faria um mau governo, para utilizar uma expressão local.

O que fazer então?

O proprietário, apanhando uma canastra de laranjas, promovia a sua “rifa”, isto é, fazia constar no povo que nesse dia haveria rifa de laranjas na sua casa ou na casa de fulano, muitas vezes numa casa comercial.

A notícia corria célere e à hora marcada juntavam-se os jogadores, que iam dos mais idosos aos adolescentes enviados por familiares.

O produtor de laranjas lá estava a um canto da casa, sentado na sua cadeira de tabua e tendo ao lado a canastra de laranjas.

Cada pretenso jogador comprava umas tantas. Ao iniciar-se a rifa, quem pretendesse entrar no jogo colocava no bolo a sua parte, isto é, uma laranja. Munido de um baralho de cartas, um dos jogadores, depois de previamente embaralhadas e partidas, dava três cartas a cada jogador e tirava o trunfo. Quem tivesse o maior trunfo, arrecadava a totalidade do bolo e nova jogatana se realizava, rodando naturalmente o jogador que dava as cartas. As laranjas iam desaparecendo e quem já não tinha, voltava a abastecer-se. Enquanto uns deixavam de jogar pois já tinham laranjas suficientes, outros iam aparecendo e tentando a sua sorte.

Com esta maneira simples, o produtor conseguia vender a produção, assegurando o seu rendimento.
Era assim a rifa das laranjas!

Nota
Extraído com adaptação de "A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente»", Edição da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007, p. 191

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Passatempos radicais dos anos cinquenta e sessenta...

Pequena nota
Mais umas memórias do nosso colaborador Amílcar Felício, “contadas” no seu estilo característico apreciado por muitos dos nossos leitores.
Esta prática da juventude naquela época era comum a todos os meios rurais, afinal como Alcoutim era, apesar de ser sede de concelho.
Sempre temos ouvido contar “estórias” destas por onde passámos, muitas delas com pormenores picarescos.
Nunca nos calhou entrar numa de galinhas mas fomos autor, em terras da Beira de um surripianço de chouriças que estavam no varão a curar. Eram três e metemo-las no bolso da gabardina. Depois da crítica que o grupo fez ao proprietário por não nos ter convidado a prová-las, foi por um de nós convidado a irmos provar as dele à sua casa.
Primeiro vieram umas tiras de bacalhau cru e temperado à maneira portuguesa (todos nós sabemos do que se trata) e só depois apareceram as chouriças.

- Estas são boas, mas as minhas são melhores, comentou o roubado.

A gargalhada foi geral.

Ah malandros que já me enganaram!

Isto passou-se há cinquenta anos!

Amílcar, tanto em Alcoutim como nos montes vizinhos já não é fácil encontrar galinácios. A habilidade já não pode ser posta à prova!

Nem muge há, fará galinhas!

Com um abraço do


JV





Escreve


Amílcar Felício




Alcoutim dos anos 50/60 do século passado era uma comunidade fechada sobre si própria e que se debruçava quase exclusivamente ou para o rio ou para Sanlúcar, o que ajudava a cimentar o crescimento de fortes laços por vezes quase familiares entre os alcoutenejos. Do Alcoutim daquela época quase nada sobrevive e convenhamos que os tempos e os afectos também já não são os mesmos. Hoje em dia Alcoutim tem outros horizontes e naturalmente, nasceram-lhe outros amores também: Algarve, Allgarve ou All´garve já nem sei como o baptizaram, Televisão, Computador, Internet etc., etc., etc. Dizia-me a minha Tia Mariana há dias quando lhe desejava Um Próspero 2011 (!) e lhe perguntava se a festa tinha sido rija em Alcoutim: Oh filho, não houve nada, foram todos lá p´ró Algarve...

É verdade que não tínhamos belas canoas para deslizar céleres no Guadiana nem extraordinárias instalações de Clubes Náuticos como as que existem actualmente, nem campos de futebol com relva natural ou artificial, nem motas de água ou “catamarans” para passeios ou para fazer a travessia para Sanlúcar. Também não tínhamos praias com todos os requisitos que constituíssem um pólo de atracção para turistas, nem nos passeávamos em bicicletas de corrida e ainda estávamos muito longe dos computadores que nos levassem à aventura por esse mundo fora etc., etc., etc.

[Centro Náutico de Alcoutim. Foto J.V.]

Não tínhamos nada destas coisas, hoje em dia tão comezinhas... mas a verdade é que com a lancha do Xico Balbino e com a Fonte Primeira desenrascávamo-nos à grande, limpando-lhe os tojos e marcando-lhe com cal as linhas de campo quando havia uma jogatana mais a sério. Inventávamos quase tudo à nossa medida e até nos sentíamos uns felizardos. Fico sempre a pensar para os meus botões quando vejo a juventude dos nossos dias usufruir daquela panóplia de entretenimentos: devem pensar que já não lhes falta mais nada... mas nem lhes passa pela cabeça o que perderam! Efectivamente, naqueles tempos acontecia como se diz vulgarmente "deitávamos os foguetes, fazíamos a festa e íamos apanhar as canas". Mas em contrapartida nessa criação conjunta cresciam cumplicidades, afectos e amizades que perdurariam pela vida fora e que compensariam de que maneira todas estas modernices. E querem acreditar que me sinto um milionário por ter vivido aqueles tempos e enchido a carteira e os bolsos de afectos?

Longe de mim qualquer tentativa de branquear tempos de uma profunda pobreza que grassava no seio de algumas famílias alcoutenejas nos anos cinquenta ou sessenta. Deixem-me lá fazer de poeta pela boca da Tia Ana mulher do Ti Justo carteiro, pois ela melhor do que eu, sentindo a morte por perto caracterizava em contraponto para a filha aqueles tempos terríveis, falando dos belos tempos que entretanto estava a viver já nos anos setenta: Ai filha, agora que o mundo está a ficar tão bonito é que eu vou morrer! Mal sabia ela que o outro mundo tão bonito que ela conhecia igualmente, o mundo dos afectos, das amizades desinteressadas e da solidariedade começava irremediavelmente a desmoronar-se para dar lugar quase exclusivamente ao Mundo das Coisas, do individualismo ou do salve-se quem puder da sociedade de consumo que vinha a caminho. Morreu feliz certamente, convencida de que os dois mundos iriam melhorar cada vez mais, não assistindo à desgraça dos tempos que estamos a voltar a viver ...

[Rua Portas de Mértola. Foto JV, 2010]

O dinheiro era um bem escasso de uma maneira geral e assim era preciso inventar tudo. E imaginação era o que não nos faltava felizmente. Um dos passatempos preferidos era a confraternização entre o pessoal à volta de uma galinha bem confeccionada, que ainda se tornava mais saborosa se tivesse sido gamada. Era a aventura radical do planeamento da "apanha" e do transporte do galináceo à socapa, era o trabalho conjunto da confecção e finalmente o petisco meio às escondidas, a confraternização e tudo o mais que se lhe seguia.

E era barato sabem: só precisávamos de pagar o vinho! O estratagema era quase sempre o mesmo para não deixar rasto. Torcíamos o pipo ao bicho ainda dentro do galinheiro pela calada da noite e levávamo-lo para casa e ao longo do dia seguinte atirava-se discretamente da varanda da minha avó – a Tia Catarina das Portas – para a varanda do Ti Simões ou do Ti Pereira (ainda não existia entre as duas varandas aquele elefante branco que lá "mora" agora!) que estavam feitos com o pessoal. O desgraçado do bicho nunca entrava pela porta principal, pois poderia dar nas vistas. Durante a tarde íamos depois entrando separadamente na Taberna para o arranjo da mesma, até nos juntarmos todos ao fim do dia para a patuscada. E o facto é de que só de tempos a tempos, é que se ouvia alguém queixar-se de que lhe tinha "fugido" uma galinha... O método era perfeito e funcionava às mil maravilhas. Depois de bem comidos e bem regados, os cantares alentejanos até escorregavam mais cristalinos pelas gargantas dos mais desafinados.

[O chamado "elefante branco". Foto JV, 2010]

Mas não se pense que a coisa era feita sem critério, pois efectivamente tínhamos uma costela da filosofia de vida do Zé do Telhado. Só nos abastecíamos nos galinheiros dos mais abastados ou dos mais forretas. Lembro-me entre tantos outros, do maior galo que nos passou pelo estreito e que tinha sido criado com todo o carinho pela Tia Custódia Peres, para quando o filho chegasse da guerra de África. Aquilo era um galão enorme como nunca tinha sido visto em Alcoutim. Chegou-nos a notícia do dito e isso espicaçou-nos a vontade de lhe deitar a mão. E assim fizemos...

[Rua Trindade e Lima. Foto JV, 2010]
Mas houve uma galinha que me caiu no goto de tão gostosa que estava. Estávamos em 1963 ou 64 e íamos fazer o Peditório para as Festas nos Montes das Laranjeiras. Os tostões nos bolsos estavam sempre à justa. Como é que vamos resolver o problema do almoço, perguntávamos uns aos outros? Porque é que a gente não vai roubar uma galinha sugeriu alguém e pede-se ao dono de uma das Taberna das Laranjeiras que conhecíamos e de que não me recordo do nome, para a preparar enquanto fazemos o Peditório? Dito e feito, decisão tomada. Faltava definir a vítima. Rapidamente chegámos a uma decisão por unanimidade: a vítima desta vez seria o Mário Batista.

O Mairinho homem prudente e avisado, tinha o seu galinheiro junto ao eucalipto do Quartel da Guarda Fiscal, pois ali ao pé da Autoridade aonde ele passava a maior parte do seu tempo por ser Guarda-Fiscal, sempre existia maior segurança. Simplesmente à 1 ou 2 horas da manhã pela calada da noite, não há segurança que resista e lá fomos nós sorrateiramente ao galinheiro do Mário, apanhar a melhor das galinhas. No dia seguinte pelas 7 horas da manhã quando o nosso grupo descia pela rua da Escorregadiça em direcção ao rio, com a galinha dentro de uma saca de serapilheira debaixo do braço, o Mairinho sempre brincalhão atira-me da varanda da sua casa uma bacia com água, que me passou mesmo ao lado e diz: "Ah malandro, quase que te apanho"! Oh Mário não me apanhaste ontem, hoje também não vai ser fácil, respondi-lhe perante a risada geral. Ele também se riu ingenuamente, engrossando a gargalhada geral.

[O eucalipto da "Guarda-Fiscal" ou do Pinhão. Foto JV, 2009]

À noite o Mairinho, raposa velha e sabidona como era, depois de já ter dado pela falta do galináceo foi sentar-se songa-monga como quem não quer a coisa ao meu lado, na muralha do rio. E lá começa com a sua converseta mole de mula sabida: "então o Peditório nos Montes do Rio correu bem Amílcar? Então e mais isto e mais aquilo etc. e tal", até que lá chegou aonde queria: "e aonde é que almoçaram Amílcar"? Olha Mário, respondo-lhe eu indo direito ao assunto, o Ti Zé Não Sei Quantos fez-nos uma galinha lá na Taberna que estava divinal! Nem te passa pela cabeça Mário, que boa que estava o raio da galinha! "Essa galinha... essa galinha..." diz o Mairinho meio desconfiado entre dentes... e por ali ficámos dizendo mais umas balelas mas sem grandes aprofundamentos.

Meu querido Mário a estas horas certamente também já terás gasto uns tostões num computador e aderido à Internet. Compreende-se: é a fruta dos tempos, é natural! Se tal tiver acontecido e passares os olhos por esta crónica, ficas desde já convidado para um almoço de um bom frango no churrasco e assim pagar-te uma dívida com quase 50 anos. Poderá até ser nas Laranjeiras que tem um belíssimo restaurante. Mas lá que me deu muito gozo ferrar-te o calote naquele dia, lá isso é que deu sim senhor! A propósito, será que ainda há galinhas em Alcoutim sem ser congeladas no Supermercado? Se houver digam qualquer coisa... às vezes apetece-me matar saudades daqueles tempos!