quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Taipas, dois montes em zona montanhosa

O caminho mais curto, por estrada, entre estes dois montes e Alcoutim, sede do concelho a que pertencem, é de 43 km e isto tomando em consideração que já não é necessário passar por Martim Longo e Vaqueiros, como acontecia antes da construção da estrada nº 508 que englobou a feitura da ponte sobre a Ribeira da Foupana e depois com a 505 com a qual entroncou.

Depois de passarmos por Malfrade vamos encontrar ao Montinho da Revelada a estrada oriunda de Vaqueiros, a 506. À ponte dos Bentos, sobre a Ribeira de Odeleite, tomamos a direcção de Fernandilho e uns quilómetros andados vamos encontrar estes dois aglomerados populacionais que se situam possivelmente na zona mais montanhosa do concelho.

A eles também podemos chegar através do C.M. 1049 das Madeiras que daqui para a frente e depois de atravessarmos a ribeira de Odeleite através de um pontão, por um caminho muito íngreme, nos leva ao despovoado monte do Galego e cerca de 2 km andados a estes montes.

Ao aproximarmo-nos da povoação por este lado, começam a aparecer sinais de comunidade como hortas, tanques, casa circular ou velho moinho aproveitado para arrecadação. Os terrenos nas redondezas apresentam-se limpos o que significa que ainda há alguma vitalidade.

[O maior monte, visto do norte. Foto JV]

Próximo da povoação, a estrada já está alcatroada. À nossa esquerda, numa elevação, encavalitam-se as habitações da pequena povoação. A placa toponímica que aparece não faz a distinção entre os dois montes. A curta distância, depois de um entroncamento e do outro lado da estrada, situa-se o outro monte.

Encontrámos um painel de 15 caixas de correio instalado em 1996 (1), que pode levar a concluir que existiam outros tantos fogos habitados.

Encontra-se a 13 km de Vaqueiros, sede da freguesia. Os montes mais próximos são Alcarias a 3,5 km, Fernandilho a 4,5 e Alcaria a 6.

As Memórias Paroquiais de 1758 já referem as Taipas e são-lhe atribuídos 10 vizinhos, número aproximado ao seu vizinho de Alcarias com 11 e só ultrapassado por Zambujal (31), Alcaria Queimada (21), Pão Duro (18) e Preguiças (17). Todos os outros tinham menos vizinhos.

Em 1839, Silva Lopes não indica o número dos seus fogos e no censo de 1991 são-lhe atribuídos 44 habitantes o que para o zona e época era um número considerável. Dez anos depois, ou seja, no censo seguinte, tinha baixado para 34, pelo que hoje rondarão duas dezenas.

[O outro monte, vista geral. Foto de JV]

O fornecimento de energia eléctrica foi inaugurado em 19 de Dezembro de 1984 (2) e a pavimentação da estrada desde a ponte dos Bentos tinha ocorrido em 1992 (3), sofrendo novo revestimento em 2004 (4). O telefone chegou em 1995. (5)

Depois da instalação de fontanários (2001) a água foi levada ao domicílio em 2004. (6)

Os arruamentos foram beneficiados em 2006. (7)

Existe uma Zona de Caça Associativa.(8)

O topónimo é frequente no país, principalmente no sul, onde existe em Silves, Monchique, Portimão e Ourique. O singular é próprio do norte. Terá o sentido de parede feita de barro e pequenas pedras suportadas por enxaiméis, técnica que os árabes nos deixaram e muito usada nestas zonas, foi devido a esse tipo de construção que ruíram muitas casas em Alcoutim a quando da chamada “Cheia Grande” ocorrida em 1876.

Se não estiver aqui a razão do topónimo, poderá estar na feitura de tapumes.

O Cerro do Castelo das Taipas deve ter constituído um núcleo de habitat relacionado com a exploração dos recursos mineiros e a actividade pastoril. No local foi recolhido um machado de pedra polida, na posse de um dos habitantes do monte, um fragmento de cerâmica e vários de mós de vaivém. (9)
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NOTAS
(1) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 4 de Dezembro de 1996, p. 12
(2) - Jornal do Algarve de 27 de Dezembro de 1984
(3) - Boletim Municipal, nº 10 de Abril de 1992
(4) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 11 de Janeiro de 2005, p. 11
(5) - Alcoutim, Revista Municipal nº 1 de Maio/Junho de 1995
(6) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 11 de Janeiro de 2004, p. 9
(7) – Alcoutim, Revista Municipal nº 13, de Dezembro de 2006, p. 13
(8) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 10 de Dezembro de 2003, p. 27
(9) – “O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, em Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, p.539.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O comércio da laranja em Alcoutim

Pequena nota
Mais um importante apontamento que o nosso colaborador Gaspar Santos traz a este espaço, recordando e interrogando-se sobre algo que teve importância na economia alcouteneja e que parece ter desaparecido completamente.
Ainda em finais dos anos 60 do século passado a laranja alcouteneja era o sustentáculo de algumas famílias da vila.
Os laranjais ocupavam as margens da parte terminal da Ribeira de Cadavais, estendendo-se depois pela margem direita do Guadiana, a norte da Vila.
Eram muito sumarentas e doces, procuradas pelos comerciantes do ramo vindos do litoral algarvio que como diz o nosso colaborador as compravam na árvore.
Era de tal maneira que por vezes os filhos da terra, principalmente os que estavam fora, pretendiam adquiri-las e já não as encontravam.
Hoje os laranjais estão praticamente abandonados. Não conheço as razões para que isto tivesse acontecido mas também não é difícil imaginá-las.
Se nós não defendemos o que é nosso, quem o há-de defender?


JV




Escreve

Gaspar Santos


[Velhos laranjais na parte cimeira das margens da Ribeira de Cadavais. Foto JV]

Quem vem de fora, em noite sem vento, na época da Páscoa, passadas as Cortes Pereiras, sente o vale da Ribeira de Cadavais. O ar, que é sempre agradável, de múltiplos cheiros, tem agora o suave e ao mesmo tempo intenso aroma da flor de laranjeira. Mas não é só o cheiro da flor o mérito destas laranjas. Também, quando madura, é sumarenta, de casca fina, sem caroços, saborosa como não há outra e assim é reconhecida por todos que as provam.

Alcoutim tem muita laranja. E dela já teve outrora um bom rendimento. Quando estava em flor, negociantes de Moncarapacho compravam-na ainda na árvore. Depois, em Dezembro, Janeiro e Fevereiro enchiam grandes cabazes de ripas de madeira e, de barco até ao comboio, ou de camioneta, levavam-na para o Mercado da Ribeira em Lisboa. Um cunhado meu a quem há anos dei uma dúzia delas dizendo: - “come que são as laranjas melhores do mundo!” Dias depois ele me respondeu: “as melhores do mundo não sei, não conheço todas, mas que são muito boas, são”.

[Laranjais próximo da foz da Ribeira de Cadavais. Foto JV]

E hoje perdem-se. Por razões que são com certeza várias, os negociantes de fora deixaram de procurar estas laranjas. E em Alcoutim temos muita produção e muitas pessoas a produzi-las o que torna muito reduzida a sua procura local. Uns meus familiares que no ano passado estiveram uns dias em Alcoutim, no início de Março, pediram num restaurante um copo de sumo de laranja e a resposta foi que não tinham, não faziam tal coisa… apesar de se avistarem a apodrecer nos campos. Admiramo-nos como ainda as cultivam, quando se comem tão poucas. Mas isto diz-nos que ainda não há crise ou pelo menos que ainda não chegou aqui a moda do sumo. Quando for oportuno não é difícil nem caro que o Quiosque ou alguns restaurantes comprem e façam funcionar um espremedor eléctrico de laranjas e… já se tem o sumo todo que se quiser.

Por outro lado, temos no país o nosso “progresso” que até parece de novo-rico. Endividamo-nos ao estrangeiro com importações excessivas, algumas escusadas, desnecessárias. Comemos laranja espanhola, do Brasil e de África do Sul; melão de Espanha e do Brasil, sumo de laranja (por sinal muito saboroso) da Califórnia E.U.A., espargos do Peru (América latina). Batata de Espanha e de França. E, até já vi vender em Alcoutim batata-doce dos Estados Unidos da América. Nos cereais como nos frutos secos, o Algarve de exportador passou a importador. São os figos e as amêndoas da Argélia e da Turquia. Nem sei mesmo se alguma alfarroba não vem também de fora e se os tradicionais bolos de amêndoa ainda são feitos com alguma amêndoa portuguesa. E os cereais então, são quase todos importados. Como se já não bastasse termos que importar todos os combustíveis que os automóveis consomem.

Em parte são consequências do abandono da nossa agricultura. Por um lado incentivou-se muita gente a afastar-se do campo, porque sendo muitos os agricultores, isso configurava um mundo atrasado. Por outro lado os preços das produções deixaram de ser compensadores. Há mesmo outros frutos que se perdem nas árvores por não pagarem a sua colheita.

Mas hoje, na TV e nos jornais já vemos alguns daqueles que nos quiseram convencer das vantagens do abandono da agricultura a querem-nos “desconvencer” disso e apregoam agora os benefícios do regresso à agricultura, para sermos um bocado mais auto-suficientes. Há mesmo quem aconselhe a fazer uma reserva alimentar preventiva. É bem verdade que no mundo, à medida que alguns países mais carenciados vão tendo acesso a alimentos, eles vão começar a escassear e no futuro teremos que voltar a aproveitar todas as terras, mesmo as que hoje se encontram incultas por serem pouco produtivas.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Mantas de lã

Irá ser pouco o que vamos dizer sobre o assunto pois os conhecimentos são reduzidos sobre a matéria.

Podemos dividir as mantas de lã em dois grandes grupos: as que se destinam ao trabalho e que aqui já referimos (mantas premedeiras) e as de agasalho ou «graves» que se destinam às camas, são as mais trabalhosas e valiosas.

Dentro destas divisões não existe uniformidade de padrões. No primeiro grupo, que era utilizado por maiorais e camponeses utilizavam três cores, as naturais da lã, ou seja branco, castanho-escuro e beije.

No segundo grupo, que é aquele que pretendemos referir, a variedade de decoração era maior com a utilização de figuras geométricas como quadradinhos, rectângulos compridos (fuzis), losangos e círculos, a que se juntavam «espigas».

Eram utilizadas as cores naturais da lã: branco, castanho escuro (preto) e beije, Muitas vezes tinham barras onde as cores eram mais variadas, como azul, verde e vermelho, estas em pequenas aplicações.

Apresentamos pormenores de três mantas. A primeira tem o branco por cor dominante, sendo decorada com duas barras onde predominam as espigas e os fuzis e com riqueza pela variedade e harmonia das cores.

Calculo-a como peça centenária e não conheço semelhante.





A outra, igualmente muito bonita, tem por base o azul que contrasta com o branco em desenhos geométricos igualmente harmoniosos.

Esta saiu do tear de D. Senhorinha Gonçalves e das suas mãos experientes e habilidosas. Adquirimo-la numa feira de artesanato e consideramo-la uma interessante peça.





A 3ª e última que apresentamos é de idade próxima da 1ª.

Aqui o fundo é beije, as barras bem coloridas como a primeira e o padrão geral de configuração próximo da 2ª.

Estas mantas são conhecidas por mantas alentejanas pois eram confeccionadas nomeadamente no Baixo-Alentejo mas esta arte estendia-se à Serra do Algarve e a todo o concelho de Alcoutim, ainda que na freguesia de Giões tivesse maior expressão.





As duas mantas que apresentamos tendo por bases losangos e barras são conhecidas por “montanhac” e que no concelho de Alcoutim ouvimos designar por “montanhecas”.

Parece que o tipo decorativo destas mantas teria tido origem nos berberes do norte de África.

A valoração destas mantas era grande e ainda o é, apesar dos motivos serem diferentes.

Daí uma avó as ter oferecido a uma das netas, atendendo ao valor que elas representavam.

Como a avó nasceu em 1874 é fácil calcular que as peças são centenárias.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Peter o inglês que veio para ficar...

Pequena nota
Nunca falámos com Peter ainda que quando nos cruzávamos havia sempre um aceno de cabeça como saudação.
Com a passagem dos anos, tornou-se uma pessoa carismática de Alcoutim, não tenho sobre isso a menor dúvida.
A quando do seu falecimento fizemos referência ao facto na nossa rubrica "Viagens sem Regresso" com os poucos elementos que dispúnhamos, mas entendíamos que era necessário escrever mais alguma coisa.
Como sabíamos que a nossa amiga, Dra. Alexandra Gradim cimentou uma amizade com Peter Francis, convidámo-la a escrever esse texto.
É isso que temos o prazer de apresentar aos nossos leitores agradecendo à Dra. Alexandra Gradim o seu contributo.


JV





Escreve

Alexandra Gradim




Se estivesse entre nós, Peter completaria hoje 77 anos. Os nossos destinos de pára-quedistas em Alcoutim (designação dada pelos alcoutenejos, àqueles que assentam “arraiais” na sua terra) cruzaram-se no seu barco Golden Miller, aportado no cais fluvial, por entre o entusiasmo infantil de duas dezenas de criaturas que procuravam comunicar na sua língua.

[O barco Golden Miller no cais de Alcoutim, que serviu de residência a Peter durante os anos 90 e inícios do novo século XXI.]

Este exercício lectivo ocorrido em inícios de 1993, cerca de um ano após a sua chegada à vila, foi o despoletar de uma longa e enriquecedora amizade partilhada em redor da arqueologia, da paixão por Alcoutim, do desvendar do Guadiana e dos gostos particulares de cada um que, claro está, por vezes convergiam e outras se descobriam.

O capitão Peter Francis Carey, o peculiar inglês que chegou a Alcoutim não como mero turista de passagem, mas que por aqui foi ficando, intrigou sem dúvida os habitantes da vila que, no entanto, o foram paulatinamente aceitando como mais um dos seus residentes. Este foi aliás o sentimento que me foi transmitido, desde aquela primeira experiência com a população mais jovem de Alcoutim e continuadamente, depois, sempre que o tema surgia naturalmente em qualquer conversa de circunstância.

O facto de Peter se recusar a falar outro idioma que não fosse o seu, dificultava, naturalmente, o contacto com os demais. Limitava-se a comunicar num dialecto próprio, à base de pouco mais do que monossílabos portugueses misturados com um inglês gutural, que compunha com alguns gestos que entendia serem suficientes para transmitir o restritamente necessário à sua sobrevivência. A sua simpatia e sorriso sincero, aliado ao facto de todos nós o imaginarmos em fato vermelho e a distribuir presentes por aí, tratavam do resto e ajudaram sem dúvida a que fosse frequente, ao longo dos anos, eu escutar por parte da população palavras que denotavam uma espontânea preocupação que só as pequenas comunidades devotam a um dos seus.

[Peter no seu barco Golden Miller (fotos cedidas pela sua filha Claire).]

No entanto poucos saberiam ao certo, o que o trouxe até Alcoutim, o que o fez persistir em ficar ou porque decidiu adoptar esta terra como o seu derradeiro pouso. Menos ainda conheceriam o seu humor mordaz, a sua habilidade para os trabalhos em madeira ou o seu gosto pela música clássica! Esta sua paixão levava-o a improvisar brilhantemente um violino numa serra de madeira. Recordo divertida a forma como arrancava prodigiosamente à contorcida lâmina os mesmos sons agudos e melodiosos do instrumento, do qual apenas se reconhecia o arco que utilizava.

Uniu-nos provavelmente o mesmo espírito curioso que cada um, à sua maneira, orientava para a área de investigação que mais lhe interessava. A dele era sem dúvida o Titanic. Esta quimera levou-o a reunir uma considerável documentação, extraída em infindáveis horas de pesquisa em bibliotecas da Inglaterra e Holanda à qual juntou a conseguida através da troca de correspondência que mantinha com outros investigadores e curiosos do tema. Chegou mesmo a publicar em boletins da especialidade.

O seu espírito de lobo do mar, adquirido pelo entranhar de cinco décadas na marinha mercante, impuseram lhe o culto de um certo isolamento, bem mais aparente do que real, pois era um excelente conversador, culto e surpreendentemente conhecedor de áreas tão diversas como pintura, mecânica, arqueologia, biologia ou arquitectura, entre outras.

Foi a incumbência de um serviço que o direccionou rumo a Alcoutim, foram as insondáveis incongruências do destino que o amarraram ao Guadiana e lhe entranharam cada vez mais profundamente a convicção de que a vila de Alcoutim seria a sua derradeira morada! Assim sucedeu no início de um Outono de má memória, em que a dele se inscreveu como a do primeiro inglês a ser sepultado no actual cemitério da vila.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Ensino Primário na aldeia de Vaqueiros



No concelho de Alcoutim, a aldeia de Vaqueiros foi a última sede de freguesia para quem foi pedida uma escola, o que aconteceu em 1860.

Num relatório elaborado nos primeiros dias de Fevereiro de 1876, pelo Administrador do Concelho, José João Viegas Teixeira, natural da aldeia, diz-se que a casa da escola pertence à Fábrica (da Igreja) e tem as seguintes medidas:- 4,42 m de comprimento, 2,70 m de largura e de altura 2,50. Tem falta de soalho, pouca luz e é de telha vã. No dia da visita foi frequentada por onze alunos e três alunas. Era regida pelo professor temporário, Francisco de Sousa Valente. Em 1874 era professor da mesma escola Ernesto Ribeiro Mendes.

Em 1880 o Presidente da Junta de Paróquia é informado que é “única e exclusivamente da escolha da Junta de Paróquia” o local para a escola, tendo, contudo, em consideração o mais próprio para a construção da casa, podendo ser, se as condições forem boas, na casa onde a mesma escola já se acha. (1)

Nesta altura, o professor de instrução primária é nomeado para servir por mais três anos. (2)

Em 1887 a Câmara diz que devido à “fria concorrência de alunos” a escola podia ser mista em dias alternados.

Dois anos antes, foi informado superiormente que em Vaqueiros existiam em idade escolar cinquenta e oito crianças, sendo trinta e cinco do sexo masculino. Em grande parte não podem frequentar a escola pela sua extrema pobreza. (3)

Em 1914 é nomeada professora da escola masculina, Francisca Rosa Guerreiro, funções que, pelo menos, já tinha exercido no ano anterior e Isaura da Conceição Palma de nomeação interina na escola feminina. (4)

No ano de 1933, possivelmente a escola mista continuaria no mesmo local, já que se pagava de renda à Junta de Freguesia 216$00 anuais.

O último edifício escolar, de uma só sala e situado à esquerda de quem sai da aldeia, tomando o sentido Sul, tinha um logradouro apetrechado de baloiço e escorrega e foi construído na década de sessenta dos nossos dias.

Em 1990 a Câmara Municipal de Alcoutim manifesta-se contra o encerramento de várias escolas no concelho, entre as quais a desta aldeia, a do Zambujal e da Traviscosa, o que acontece devido ao número de alunos ser de 10 ou inferior e isto em conformidade com o decreto-lei nº 25/88 de 4 de Fevereiro.(5)
Os alunos existentes passaram a frequentar a escola de Martim Longo tendo sido integrados na Escola Básica Integrada daquela localidade.

Relacionado com este assunto, tenho dois factos a contar.

Em 1968, encontrando-me na vila, no exercício da minha profissão, fui visitado, como então era normal, pelos serviços de inspecção. Fiquei admirado quando o inspector me disse ser natural do concelho, freguesia de Vaqueiros.

Pela mesma altura, lendo a necrologia de um jornal diário que já não existe, deparei com a notícia do falecimento de um general, natural de Vaqueiros, o que também muito me admirou, já que o nome de família também não era conhecido por ali.

O “mistério” acabou por se deslindar - eram filhos de professoras do ensino primário que no exercício das suas funções tinham passado esporadicamente por ali.

NOTAS

(1) - Ofício nº 20 de 28 de Fevereiro de 1880 ao Presidente da Junta de Paróquia de Vaqueiros.
(2) - Ofício nº 175 de 21 de Dezembro do Professor da Escola de Vaqueiros
(3) - Ofício nº 151, de 26 de Setembro de 1885 ao Inspector da 10ª Circunscrição Escolar do Distrito de Faro.
(4) - Acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Julho de 1914
(5) – Boletim Municipal, nº 7 de Abril de 1990, p. 2

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Duarte Moura, uma personalidade

Até meados dos anos 70 do século passado passaram por Alcoutim muitos funcionários, principalmente com funções de chefia que ali eram colocados por promoção.

As regras de então obrigavam a um certo tempo de permanência após o qual era permitido pedir a transferência.

Aconteceu isso com funcionários de finanças, nomeadamente chefes de secção, tesoureiros da Fazenda Pública e aspirantes, verificando-se o mesmo com a chefia da Câmara Municipal, tal como os serviços de Registo Civil e Notariado no relativo aos conservadores-notários e mesmo ajudantes.

Comandantes da Secção da Guarda Fiscal, sargentos, cabos e muitos soldados vindos de todas as partes do país, principalmente do norte.

A esmagadora maioria, depois de cumprir o seu tempo, rodou para outras paragens, mesmo quando aí constituíram família.

Muitos deles nunca mais tiveram qualquer ligação com a Vila por onde passaram, com outros assim não aconteceu.

José António Duarte Moura, que presumo fosse oriundo do Alentejo, em 1939/40 esteve destacado em Alcoutim como responsável da Federação Nacional de Produtores de Trigo (FNPT), vulgo Celeiro, pois havia sinais de prática de irregularidades.

[Antigo edifício da FNPT (Celeiro) onde Duarte Moura exerceu funções e hoje degradado. Foto JV]

O nosso Amigo e Colaborador, Eng. Gaspar Santos, que iniciou naquele departamento ainda bem jovem a sua vida profissional, teve oportunidade de ouvir da boca do então responsável os maiores elogios feitos a Duarte Moura e leu alguns dos relatórios que ali estavam arquivados muito bem organizados e redigidos.

Gaspar Santos revela a grande consideração com que era tido na vila e até a utilização de alguns aparelhos que eram verdadeiras novidades para os alcoutenejos.

Vim a conhecer Duarte Moura numa festa de confraternização (15 de Junho de 1988) que então se fazia entre os alcoutenejos residentes na cintura industrial de Lisboa, teve lugar no Seixal e penso que extinta há uns anos por falta não sei de quem.

Eu e ele fomos convidados pela organização, no meu caso por intermédio do Sr. Eng. Gaspar Santos , para estarmos presentes, o que efectivamente aconteceu, tendo eu proferido uma pequena palestra, o que não foi possível a Duarte Moura por falta de condições de saúde, problema que o veio a vitimar algum tempo depois.

Foi para mim uma grande honra conhecer uma pessoa de tão fino trato, com postura própria de uma geração. Teve a amabilidade de me oferecer com autógrafo uma colectânea de contos que tinha sido acabada de publicar.

Esse trabalho reuniu treze contos, alguns distinguidos com 1ºs prémios e outras distinções em Jogos Florais a que se apresentaram nos anos 50 e 60 do século passado.

O trabalho comporta 123 páginas A/5, foi composto e impresso na Associação de Municípios do Distrito de Beja e numa edição de autor. Não é referido o ano da publicação mas deve ser de 1985/87.



Penso que a Câmara Municipal de Alcoutim teve conhecimento da publicação do trabalho visto Duarte Moura ter tido a amabilidade de enviar como oferta uns tantos exemplares.

Alguns dos contos retratam através do grande poder de observação e escrita bem elaborada as vivências alcoutenejas que não lhe passaram despercebidas, apesar de ter sido curto o tempo que passou em Alcoutim.

Porque considerei importante este trabalho para o conhecimento alcoutenejo, lembrei o Senhor Presidente da Câmara para o facto, sendo de todo o interesse que a Câmara Municipal viesse a adquirir um certo número de exemplares, ao preço de capa, para oportunas ofertas.

Consultado o autor respondeu nos seguintes termos:

... informo que o meu livro “Guadiana” não tem preço e solicito que o aceite como uma oferta a Alcoutim.

Os 500 exemplares que refere estão à Vossa ordem aqui em minha casa.... .

Motivos de saúde impedem-me de me deslocar a Alcoutim para os entregar pessoalmente.

...

A Câmara fez o obséquio de me enviar uma cópia da carta e foi ao revê-la que me lembrei de escrever este texto em HOMENAGEM A UM HOMEM DE GRANDE ESTATURA MORAL E INTELECTUAL.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Como aparece um topónimo



Os antigos habitantes das Cortes Pereiras, Vascão, Afonso Vicente, Santa Marta, Coito, assim como da vila e outras povoações circunvizinhas, nas suas caminhadas para a vila ou nas deslocações para trabalhos do campo através de pequenas carreteiras ou caminhos de pé posto, trilhados durante séculos por pessoas e animais de carga e sela, foram encontrando determinados pontos de referência para se poderem situar.

São aproveitados para tal, acidentes do terreno, a existência de água e outras circunstâncias.

O conhecimento ia naturalmente passando de pais para filhos, pelo que era uma linguagem que todos dominavam e utilizavam com frequência.

Não sendo oriundo da região, não aprendi com os familiares estes saberes, mas bem depressa se me aguçou a curiosidade e sem conhecer os locais fixei entre outros “a voltinha das noivas”, as “águas nascidias”, “a alfarrobeira” e “o carapeto” situados nos caminhos que serviam esta parte norte da freguesia de Alcoutim.

Entretanto, nos anos 60 do século passado, foi construída a estrada para servir o Monte do Sol, só tendo seguimento após o 25 de Abril, construindo-se a ponte sobre a Ribeira de Cadavais o que motivou a vila ter deixado de ser um beco sem saída, situação que veio a ser melhorada com a construção da estrada marginal.

Sendo assim, alguns pontos de referência deixaram de ter uso pois as estradas deixaram naturalmente alguns fora dos seus trajectos.

A alfarrobeira ficou-lhe próximo, pelo que, mesmo viajando de automóvel continua a ser referência.

Porque é que se dizia sem confusão por exemplo - começou a chover quando íamos à alfarrobeira - e toda a gente sabia onde era? Era e é a única existente por aquelas paragens.

Os terrenos por ali não devem ser propícios a tal cultura mas naquele local uma semente arranjou condições para germinar, contudo as sementes que foi criando nunca conseguiram vender as condições adversas que encontravam.

Há uns anos um incêndio no mato acabou por devorá-la mas isso não evitou que as pessoas mantivessem a mesma referência.

Quando isto aconteceu perguntei a uma octogenária se a alfarrobeira era muito velha. Respondeu-me que quando era “moça pequena” já tinha aquele tamanho.

Tempos depois começou a notar-se que a alfarrobeira tinha rebentado e em 2009 já tinha o aspecto que a foto apresenta.

Ali, aconteça o que acontecer, será sempre A ALFARROBEIRA mesmo que ela desapareça.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lavagem das mantas

Este uso ou costume ancestral, ainda que em moldes ajustados à vida actual, continua a praticar-se nesta freguesia e em todo o concelho de Alcoutim, embora o seja em número mais reduzido.

As mantas poder-se-ão dividir em dois grandes grupos, as mantas de retalho (trapos), destinadas à coberta da cama, tapetes e passadeiras e as de lã as mais variadas e valiosas.

Utilizando o preto, o castanho e o azul como cores, tinham decoração variada constituída por listas, barras, quadrados e outras figuras geométricas. Ouvi sempre falar muito nas “montanhecas”.

Estas mantas eram tecidas em teares rústicos que existiam por quase todos os montes da Serra Algarvia, o que igualmente acontecia na região vizinha do Baixo-Alentejo. Tudo acabou por volta de meados do século passado.

Se a riqueza era avaliada pela qualidade e extensão da terra possuída, para se merecer a designação de lavrador, além do mais era necessário possuir uma boa parelha de machos, bem tratados (gordos) e aparelhados.

Entre as mulheres, a disputa era feita com colchas e mantas, pelo número e sua confecção, tomando em consideração a decoração apresentada.

Se muitas das mantas se guardavam nas grandes arcas de castanho, outras naturalmente andavam em serviço pelo que se sujavam e consequentemente tinham de se lavar.

[Padrão de manta premedeira. Foto JV]

[Padrão de cobertor de lã. Foto JV]

A alcouteneja fazia-o anualmente, no Verão. Como eram peças grandes, escolhiam os pegos das ribeiras e dos barrancos mais próximos e que tivessem condições para a prática.

Vizinhas e familiares juntavam-se para o efeito pois havia necessidade de entre ajuda.

No dia combinado, saiam logo pela manhã com os animais carregados, não esquecendo o taleigo com o farnel. Os homens conduziam as bestas e as mulheres lá iam como podiam, umas a pé, outras a cavalo.

Nesta freguesia recorria-se naturalmente aos pegos das ribeiras do Vascão e da Foupana, aos do Barranco do Alcoutenejo, Ladrões e Malheiro, entre outros.

O sabão utilizado era feito pelas próprias mulheres e ainda que passassem o dia a trabalhar, era um dia diferente devido à confraternização.

As mantas eram estendidas nos restolhos próximos e devido à época de forte calor, secavam rapidamente.

Regressavam ao cair da tarde com todo o trabalho realizado.

Os poços dos montes começaram a ser apetrechados de bombas manuais elevatórias, por volta de 1965, nos locais mais populosos construíram-se lavadouros públicos, após 1975 a energia eléctrica começa a espalhar-se por todo o concelho e o fornecimento de água é feito através de fontanários, para depois o ser casa a casa, na quase totalidade ainda que sem rede de esgotos. Na freguesia, só a aldeia a possui.

A rede viária, então quase inexistente, começa a surgir e hoje chega-se a locais então impensáveis.

Apesar de tudo continuam a existir pereirenses que cumprem a tradição, mas agora o transporte já se realiza de veículo automóvel e há lugar a grande piquenique.

Existem mulheres que não admitem lavar mantas de qualquer outra maneira!

Nas casas antigas, ainda não é muito pacífica a divisão das mantas entre os herdeiros.




Pequena nota
Este texto foi retirado do meu livro “A Freguesia do Pereiro (do Concelho de Alcoutim) «do passado ao presente»”, Edição da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007.p. 171 a 173.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

As escadinhas da Rua da Parada

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nº 73 DE MARÇO DE 2006)

[A Rua de Nª Sª da Conceição com as escadinhas. Óleo de JV]

Ainda que aquilo que escrevo, como não podia deixar de ser, seja da minha inteira responsabilidade, traduz sempre a minha análise sobre as coisas.

Acontece algumas vezes que sou alertado para determinadas situações, muitas delas já por mim observadas e com as quais concordo, outras já assim não acontece por sensibilidades diferentes.

Quando há dilatados meses me foi dado reparar que por encanto tinham desaparecido completamente as velhas, conhecidas e toscas escadinhas, que o povo designava por Escadinhas da Rua da Parada, fiquei perplexo, não queria acreditar. Mas isto era a minha sensibilidade, podendo ser diferente da maioria dos alcoutenejos. Se isto se tivesse passado no norte do País, tudo seria diferente pois se o povo não tivesse gostado do seu banimento, de certeza se teria manifestado imediatamente, dizendo da sua justiça.

Ao sul, as reacções são diferentes, mais comedidas, preferem criticar aqui e ali e por vezes até com medo de serem ouvidas. Em alternativa, mesmo que não tenham gostado, cultivam o dito popular cala-te boca!

Uma ou outra queixa escondida ou pouco explícita não fez ferver a minha opinião até que, em Agosto último, quando alguém que me acompanhava verificou que as escadinhas onde tinha brincado, onde aprendeu a elevar o pesito para vencer o degrau, já não estavam lá, perguntou-me, como se a culpa fosse minha, então destruíram as escadinhas que eu conheci toda a minha vida! ? Não posso acreditar, se por aqui já passava pouco, muito menos vou passar agora – penas que não se vêem, não se sentem, como diz o povo, com razão.

Quando esta troca de (más) impressões teve lugar, logo apareceu, talvez por ter ouvido a conversa, outra alcouteneja, esta que igualmente por ali nasceu e brincou e rondando já as oito décadas que apoiou as críticas abertas que estava ouvindo.

Comentavam as então utentes das escadinhas a circunstância de por “encanto” terem desaparecido. Fazíamos as nossas conjecturas numa tentativa de encontrar uma razão justificativa.

Porque seria? Haverá por aqui alguém que deseje passar com o seu veículo automóvel e assim o possa ter junto da residência ou em garagem? Se assim fosse, tinha acesso pela travessa de Nª Sª da Conceição!

Terá a ver com a recolha do lixo?

Será que desapareceu o grau de inclinação justificativo da existência das mesmas?

Pela nossa parte não encontramos justificação. O grau de inclinação não diminui, pelo contrário, aumentou. Os cubos de pedra que vieram de outras paragens têm faces mais regulares e depois de polidos, estamos convencidos, podem provocar quedas de consequências imprevistas.

Os responsáveis alcoutenejos de então, apesar da falta de técnicos, não tiveram dúvidas de ali mandarem construir aquelas escadinhas, com uma pequena inclinação e tudo isto para proteger de qualquer percalço, os seus utentes.

O xisto e o grauvaque utilizados naturalmente na vila pois são produtos locais, começaram a ser substituídos pelo mármore e pelo calcário!

Para as minhas interlocutoras, aquela já não é a sua rua!

Serão actuações como esta que defendem o seu património construído?
Sinceramente que NÃO.

[Local onde se encontravam as escadinhas na Rua de Nª Sª da Conceição. Foto JV, 2010]

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quem foi quem? 200 Algarvios do Século XX



Valioso e interessante trabalho de 510 páginas no formato de 16X24 cm de capa cartonada numa edição de Edições Colibri, Lisboa, 2000, com o Patrocínio da Delegação Regional da Cultura do Algarve e a que se juntaram as Câmaras Municipais de Tavira, Faro, Silves, Loulé, Monchique, Lagos, Portimão, S. Brás de Alportel, Alcoutim, Castro Marim, Vila Real de Santo António e Lagoa.

Como o título indica, divulga o conhecimento sobre 200 algarvios do século XX em notas biográficas e que abrange todos os concelho do Algarve, naturalmente com participações não homogéneas.

Nesta plêiade de Algarvios e só nascidos no Algarve não entram e bem aqueles que se afeiçoaram e fixaram na região, encontramos políticos, cientistas, artistas, militares, escritores, etc.

Dos concelhos menos representados, o que é natural, está Alcoutim com quatro representantes que a autora seleccionou dentro dos parâmetros que a nortearam.

Apresenta-nos um militar, o Brigadeiro Trindade e Lima, dois políticos, sendo um indicado com uma vertente dupla, Francisco do Rosário (republicano e empresário), enquanto Trindade e Lima é referido exclusivamente como Professor do Ensino Primário Oficial, ainda que tivesse sido politicamente presidente da Câmara e acérrimo defensor do chamado “Estado Novo”.

É interessante verificar que a quarta figura “seleccionada” é uma mulher, Maria Eduarda Brak Lamy Lopes Alves Barjona de Freitas que efectivamente nasceu em Alcoutim, mas pensamos que dificilmente terá conhecido a sua terra natal porque nasceu por acidente na vila sede de concelho onde seu pai exercia funções de Chefe da Alfândega local.

Tivesse conhecido ou não, a verdade é que é efectivamente uma alcouteneja, como tal tem de ser assim indicada.

Neste blogue já fizemos a sua apresentação com os elementos que dispúnhamos (Vide entrada de 13 de Julho de 2008).

O médico Dr. João Francisco Dias aparece logicamente como representante do concelho de Castro Marim pois nasceu na freguesia de Odeleite.

Na Bibliografia é referido o nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio, edição da Câmara Municipal de Alcoutim, 1985.

Falta-nos dizer que esta obra é de autoria de Glória Maria Marreiros, também ela algarvia pelo nascimento.