domingo, 17 de abril de 2011

Centenário do alcoutenejo, José Gaspar Patrocínio





Escreve


Gaspar Santos





Tive a honra de receber um amável convite do meu primo Zé Gaspar para participar na festa dos seus 101 anos que se perfazem hoje dia 17 de Abril. Este primo irmão de meu Pai reside no Lar de Alcoutim há mais de 20 anos. De inicio, acompanhado de sua mulher que entretanto faleceu. A festa do seu centenário esteve aprazada para se realizar no ano que passou, não se tendo realizado devido a acontecimentos imprevistos.

Motivos de força maior para me reter em Lisboa impedem, com muita pena minha, de comparecer a esta sua festa. É um dos primos mais novos do meu Pai. Talvez por isso, sempre gostei muito dele, pois havia uma maior proximidade etária e uma estima recíproca. Não esqueço as atenções que dele sempre recebi. Sobretudo quando eu estava na tropa, várias vezes me convidou para almoçar na sua casa na Rua Gonçalves Crespo. Era mesmo juntinho ao Hospital Miguel Bombarda, onde nessa data se encontrava internado o Romão, tocador de acordeão da freguesia do Pereiro, que mantinha uma espécie de namoro platónico com uma empregada da casa de meu primo.

Nasceu em Alcoutim em 1910, ano da implantação da República, filho de Gaspar Francisco Peres e de Maria da Felicidade. Muito novo, com 14 anos, começou a trabalhar nos escritórios do irmão Manuel Gaspar Patrocínio um industrial de conservas de sucesso em Portimão. Desse irmão costumava comentar: “foi ele que me acabou de criar”. Depois, já como guarda-livros serviu o Grémio da Lavoura de Moura e Barrancos. Casou mais tarde e, empregou-se em Lisboa numa Empresa Rodoviária de Transportes, que muito carvão e cal transportou e retornou com enxofre, quase no fim da laboração da Mina de São Domingos.

É uma pessoa que mantém uma boa disposição, grande lucidez e espírito crítico, qualidades que sempre possuiu. Era muito activo e tinha muito boa capacidade de memória que faziam dele um bom contador de episódios por si vividos. Recordo uma inteligente observação que me fez quando o visitei em Fevereiro: - “ Não sei, mas preocupa-me a economia do País, em especial do Algarve, por estar tudo dependente do turismo. Então e a agricultura não é a base de tudo? Se há uma guerra, cataclismo, ou dificuldades financeiras no estrangeiro, de repente o turismo pode sofrer grande quebra, e o que vai ser de nós?”.

E esta outra observação a seu respeito: “ aqui estou com esta idade, mas não me sinto mal. Não tomo medicamentos, nem para a tensão arterial nem para dormir. Não me dói nada. Canso-me um pouco se ando demais e tenho falta de forças nas pernas. Podia ir mais vezes à Vila tomar um café e ler o jornal, como fazia dantes, mas não me apetece ir.”

Também não quero deixar de referir um desabafo seu das saudades que tinha duma açorda com bastante azeite. Não perdeu o seu gosto tradicional e apurado pelos pratos da sua infância!

Quero deixar esta nota. Regozijar-me e felicitá-lo por ter atingido tão linda idade e com tanta saúde e desejar que não faltem as oportunidades de nos abraçarmos muitas mais vezes e com a boa disposição e saúde de sempre. Não poderei comparecer, mas na hora estarei com ele em espírito e beberei uma taça de champanhe em sua intenção.




Pequena nota

É com imenso prazer que o ALCOUTIM LIVRE se associa aos 101 anos do alcoutenejo, Sr. José Gaspar do Patrocínio, festejado hoje no Lar de Alcoutim.
Que seja do meu conhecimento já são três os “centenários” que lá têm lugar, o que é significativo.
Segundo o que refere no texto o nosso colaborador Gaspar Santos, seu familiar, o primo encontra-se de boa saúde, não toma medicamentos nem mesmo para a tensão arterial!
Esperamos e desejamos-lhe mais uns bons anos de vida.
Não esquecemos que de idade já bem avançada não deixava de assistir às Assembleias Municipais para poder estar a par da vida política do seu concelho natal, um dos poucos que o fazia.
As nossas felicitações pelo acontecimento.


JV

quinta-feira, 14 de abril de 2011

As Ruas e as Praças da Vila de Alcoutim e a sua toponímia

[Praça da República, 1969]

O traçado medieval da vila organizava-se com base em dois espaços, o largo ou praça onde se situava o poder administrativo e adstritos (Paços do Concelho, Pelourinho, Cadeia, Casa do Capitão-Mor, Repartições Públicas, acompanhado naturalmente do comércio de maior impacto) e onde desembocavam as duas vias principais, a direita da Porta de Tavira e a direita da Porta de Mértola e a “ribeira”, o outro espaço junto ao Guadiana onde se efectuavam as trocas comerciais de mão a mão, onde se recebia o que se necessitava e expedia o que se produzia. Aí se encontrava o poder fiscal aduaneiro, a residência do grande Senhor (o Conde) e mesmo dois templos religiosos. É esta a estrutura geral da vila medieval cuja rede se teceu através de pequenas ruelas ligando os pontos já referidos.


[Rua da Misericórdia, 1988. Foto JV]
Nos meados do século XIX encontrámos referência às ruas Direita, onde D. Ana Xavier tem um lagar de azeite cujas águas sujas corriam pela rua e era preciso evitar, fazendo-as passar pelos Trases, a Rua do Quebra-Costas e a Rua da Corredoura, onde Vitoriano da Palma das Cortes Pereiras pede um bocadinho de terreno para fazer um quintal junto às casas que possui. (1)

O Largo do Pinhão, que ainda hoje pode ser identificado pelos moradores mais antigos, já era referido assim naquela altura.

Em 1867 (2) encontrámos referidas as seguintes ruas: Portas de Mértola, Portas de Tavira, Misericórdia, Direita, (?) Lagares e Sto. António.

Interessante é a designação da zona rústica do “jogo da bola” que como é óbvio nada tem com o actual futebol, mas sim com os jogos de então, que além deste incluía entre outros a pela e a conca. Em 1876 (3) informa-se que “o delinquente acha-se junto à horta do jogo da bola”. Em 1877, (4) num ofício dirigido ao Governador Civil, informa-se que a numeração de todas as casas de habitação e das susceptíveis de serem habitadas foi concluída (...) no prazo designado (...) e procedeu-se à cobrança dos números mas a maior parte só se prontificou a pagar o número correspondente à casa que habitavam, recusando-se a pagar os mais, porque dizem que foi assim feito no concelho de Castro Marim.

[Rua Dr. João Dias, antiga Rua Direita das Portas de Tavira. Foto cedida por A.F.]
No “Livro de Inventário dos Bens da Paróquia de Alcoutim - 1878”,encontrámos a Rua da Corredoura em substituição da Rua Portas de Mértola, além das de Nª Sª da Conceição, da Igreja, os Largos do Castelo e também da Igreja.
Em 1880 (5) as ruas e vielas da vila achavam-se imundas, principalmente a rua da Conceição e as vielas do Esteiro.

Na Sessão da Câmara de 23 de Novembro de 1882 o presidente, Manuel António Torres disse que na vila não existiam já os dísticos de nomes das ruas e mesmo alguns que existiam em que os nomes, com que antigamente se denominavam, deviam ser substituídos, como são os das ruas de Portas de Mértola e de Tavira, por não existirem já tais Portas.

Lembrou que a Câmara se encarregasse da revisão dos nomes das ruas pondo novos àquelas que entendesse conveniente. A Edilidade acabou por encarregá-lo de tal missão apresentando a sua proposta oportunamente.

[Rua 25 de Abril (antiga Rua Oliveira salazar). Foto JV, 1973]
Um mês depois (6) apresenta o seguinte quadro que veio a ser aprovado: A Rua de Sto. António passa para Rua Conselheiro José de Beires, (7) Rua Direita para Rua D. Luiz I, Rua Portas de Tavira para Rua D. Maria Pia, Rua das Portas de Mértola para Rua da Corredoura, Rua da Igreja para Rua D. Fernando e Rua dos Lagares para Rua do Guadiana.

A rua que corre da Praça Pública para a Praça de Sto. António passará a designar-se por 7 de Dezembro e a Travessa que corre para esta, Travessa Nova.

A Praça Pública denominar-se-á Praça D. Afonso IV.

Mantêm as designações as ruas da Conceição, Misericórdia e Olaria Velha e as Travessas da Igreja, Conceição e da Cadeia, Largos do Castelo e da Igreja e a Praça de Sto. António.

[Rua D. Sancho II, 2010. Foto JV]
Aparece também a designação rústica de Fonte Primeira hoje desaparecida com a praia fluvial.

Apesar das alterações oficiais sofridas é frequente o aparecimento em documentação diversa de nomes antigos e tradicionais, como acontece com a Rua do Quebra-Costas onde Joaquim José Delicioso está fazendo um prédio. (Sessão de 23.06.1883).

Em 1886 um Edital de 11 de Março faz público que a Câmara deliberou chamar à Rua do Quebra Costas, Rua Nova, à do Esteiro, Rua das Alegrias (?) e à da Olaria Velha, Rua do Sol.

Em 1894 continuam a aparecer as designações de Rua Direita e Rua do Poço dos Lagares.

Com a implantação da República procedeu-se à actualização toponímica (8). Assim, a Praça D. Afonso IV passou a denominar-se Praça da República o que ainda se mantém, a Rua D. Luiz I tomou o nome de Miguel Bombarda, a de D. Maria Pia, Marquês de Pombal e a Rua Conselheiro José de Beires, Rua Teófilo Braga.

[Rua de Nª Sª da Conceição. Foto JV, 2010]
Em 1928 a Rua de Sto. António passa a chamar-se de João de Deus por proposta de Guerreiro Gascon.

Além dos nomes já referidos, a matriz predial urbana (1934?) referia as ruas do Cemitério, do Poço Novo, Boa Vista, das Flores, do Quartel e do Esteiro.

A actualização toponímica volta a ser feita em 1950, aparecendo então e novamente Rua Portas de Mértola, substituindo assim a Rua da Corredoura, de D. Sancho II, das Portas do Rio, Oliveira Salazar, Av. Duarte Pacheco, do Município, D. Fernando, Pedro Nunes, Nuno Álvares Pereira, Marechal Carmona e Travessa Portas do Rio. Foi, naturalmente, a actualização feita pelos homens do Estado Novo que foram recuperar alguns nomes históricos e introduziram os dos seus ídolos, como Salazar, Carmona e não se esquecendo do algarvio Duarte Pacheco.

[Rua Nuno Álvares Pereira (antiga Rua do Quebra-Costas). Foto JV, 2010]
Após o falecimento do Dr. João Francisco Dias é dado o seu nome à que tinha de Miguel Bombarda e em 1984 é homenageado o Prof. Trindade e Lima figurando o seu nome numa das ruas da vila.

A placa toponímica que ostentava o nome de Oliveira Salazar foi substituída por 25 de Abril, logo após aquela Revolução.


NOTAS
(1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 23 de Março de 1849.
(2) - Livro das Rendas dos Prédios e Juros Pertencentes à Fazenda Nacional, termo de abertura de 13 de Março de 1867.
[Rua Trindade e Lima. Foto JV]
(3) - Of. nº75 de 10 de Novembro de 1876.
(4) - Of. nº 148, de 12 de Setembro de 1877
(5) - Of. nº123 de 18 de Setembro de 1880.
(6) - Acta da Sessão da C.M.A. de 28 de Dezembro de 1882.
(7) - Foi por duas vezes Governador Civil do Distrito de Faro, de 1869-1870 e de 1871 a 1877.
(8) - "Coisas Alcoutenejas - A Implantação da República" ,José Varzeano, Magazine do Jornal do Algarve de 27 de Julho de 1995.

Pequena nota
Este texto foi extraído da 2ª Edição de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (subsídios para uma monografia), em preparação, não se encontrando actualizado com as últimas designações que comportam principalmente a parte nova da vila.
JV

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Pêro Dias, pequeno "monte" nas proximidades de Martim Longo

[O monte do Pêro Dias visto da estrada de terra batida. Foto JV]

Penso que seja um dos “montes” mais próximos da aldeia de Martim Longo, sede de freguesia a que pertence e de que dista 3,7 km, situando-se a 33 da vila de Alcoutim, sede de concelho.

Esta pequena povoação foi das últimas a possuir um acesso condigno, o que só veio a conseguir em 2002 (1) e que constituiu o CM nº 1038 asfaltado e que tem uma pequena obra de arte sobre o barranco Grande.

Além deste acesso há outro de terra batida que parte da EN 124 à esquerda após a Barrada e no sentido norte/sul.

Tem outro caminho que não conheço e se dirige à ribeira da Foupana que lhe fica próximo.

Foi construída uma passagem submersível sobre a ribeira e que serve o caminho para Pão Duro da freguesia de Vaqueiros. (2)

[Estrada de Pero Dias. "Ponte" sobre o barranco Grande. Foto JV]

Os característicos cerros que correm como ondas e definem o Nordeste algarvio podem observar-se dos locais mais altos e chamam a atenção.

Numa das últimas vezes que por ali passei (1997) à saída e em direcção a Martim Longo, num sítio baixo, por onde passa um barranco, vi um pequeno hortejo trabalhado por um casal que já passou a meia-idade.

Ainda era possível ver uma ou duas searas.

Como pequena referência histórica posso dizer que em Maio de 1844 pairou sobre esta região uma horrível trovoada que devastou as searas. (3)

Como era norma nestas pequenas povoações um ou outro lavrador era o centro de gravitação de toda a população. Hipoteticamente teriam sido os ascendentes longínquos destes lavradores que teriam dado origem à pequena povoação, mas isto só no campo das suposições, viso desconhecer documentação que o justifique.

Com funções comunitárias existiam dois fornos de cozer pão. Ainda que ambos se mantenham já não têm essa função que foi extremamente importante na primeira metade do século passado. O “forno de cima”, sem telheiro, ainda que de pé, está necessitado de obras de conservação afim de não desaparecer. O “de baixo”, com telheiro, foi recuperado e está em condições de funcionamento.

[O recuperado "forno de baixo". Foto cedida por A.A.]

Sendo muitas as famílias a utilizá-los, havia necessidade de se fazer uma marcação prévia e que todos respeitavam. Quem pretendia cozer no dia seguinte colocava à porta do forno um feixe de lenha.

Encontrei nos anos setenta do século passado um sistema idêntico nos Guerreiros do Rio, com a diferença de a marca ser constituída por um ramo de esteva sobre o qual se colocava uma pedra.

Como o poço velho já era insuficiente para abastecer a necessidade da população e tendo em consideração a existência de muitos animais indispensáveis a toda uma vida agrícola, animais de carga, sela e de tracção, houve falta de se abrir um novo, o que terá acontecido, segundo informação recebida, na década de vinte do século passado. Tenho conhecimento através de documentação consultada que na década de 30 com a Comissão Administrativa da Câmara a ser presidida pelo professor Trindade e Lima que foram abertos muitos poços em todo o concelho com pequenos subsídios municipais e principalmente com a disponibilidade das populações.

Naturalmente que começou a ser conhecido pelo poço Novo que produzia e produz, segundo o nosso informador, água em abundância e de excelente qualidade, acreditando o povo nas suas qualidades terapêuticas.

Está apetrechado de bomba elevatória.

Conforme informação, trata-se de uma pequena obra de engenharia hidráulica, baseada no princípio dos vasos comunicantes e feita por artesãos locais.

[Vista aérea de Pêro Dias. Foto cedida por A.A.]

Quando as pessoas enchem as vasilhas perde-se alguma água, a mesma cai numa espécie de bacia situada num plano mais elevado, segue um percurso em forma de “U” e desliza num canal que antigamente era de telhas sobrepostas situado sobre um muro, desaguando num tanque onde os animais bebiam. Não havia desperdícios!

Em 1998 a água começou a ser distribuída por fontanários (4) e em 2003 foi levada aos domicílios.(5)

A electrificação só chegou em 1984. (5) A pavimentação dos arruamentos foi adjudicada em sessão da Câmara de 22 de Julho de 1992 e o telefone chegou em 1995. (7)

Em 2005 e possivelmente por causa da abertura de valas para colocação de tubagem devido ao transporte de água ao domicílio o pavimento das ruas é reposto. (8)

Quanto ao topónimo, é por demais evidente que tem origem no antropónimo, a complexidade está em saber quem foi o Pêro Dias. Certamente pessoa importante em haveres e regalias que lhe pudessem estar associadas.

Em relação a Diogo Dias encontrei uma pessoa com alguma importância no concelho no século XVI, quanto a Pêro isso não aconteceu.

[Outro aspecto aéreo da povoação. Foto cedida por A.A.]

Enquanto o povo diz que Diogo e Pêro eram irmãos e quando herdaram os avultados bens cada um ficou no seu “monte”, o que não tem o mínimo de fundamento visto por essas alturas só herdar o primogénito, outros pretendem que Diogo e Pêro Dias eram dois irmãos navegadores que viram os seus feitos na descoberta de novos mundos ser premiados pelo rei português com a oferta de terras distantes e inóspitas paragens que hoje pertencem ao concelho algarvio de Alcoutim. (9)

Pêro é forma antiga de Pedro que se manteve como topónimo, pelo menos em vinte e nove povoações, em situação composta como aqui acontece.

Apesar de ser indicado por Pêro Dias, em 1758 o padre da freguesia, que preencheu o questionário daquilo que ficou conhecido por Memórias Paroquiais, escreveu PEDRO Dias e não Pêro Dias.

Em Julho de 2010 naturais e residentes reuniram-se no 1º Almoço-Convívio que decorreu com muita animação e que juntou cerca de 150 pessoas.

Para terminar apresento um gráfico populacional onde se verifica uma queda abrupta de população a partir de 1960.




NOTAS
(1) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 9 de Dezembro de 2002, p. 5
(2) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 5 de Novembro de 1997
(3) – Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 3 de Novembro de 1844.
(4) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 6 de Janeiro de 1999, p. 11
(5) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 10 de Dezembro de 2003, p 6
(6) – “Alcoutim em luta contra o isolamento”, Jornal do Algarve de 20 de Janeiro de 1984.
(7) - Alcoutim, Revista Municipal nº 1 de Maio – Junho de 1995
(8) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 12 de Dezembro de 2005, p.11
(9) – “ Histórias e Simpatias no Nordeste Algarvio - De Pêro Dias ao Pão Duro”, Elisabete Rodrigues, Diário de Notícias de 11 de Maio de 1996.


Pequena nota

Esta é a primeira nota monográfica que organizo com a colaboração de um natural da povoação que a isso se prestou e daí haver um maior desenvolvimento. Trata-se do Sr. António Augusto da Palma Afonso a quem agradeço as informações prestadas.

Tenho tido, contudo, um Amigo que conhece bem a sua freguesia e a quem de vez em quando recorro para tirar uma ou outra dúvida ou solicitar algum esclarecimento, o que presta sempre de boa vontade.

JV

terça-feira, 12 de abril de 2011

Passeio ao campo


A Câmara Escura de hoje volta à figura humana e é de meados do século passado. Trata-se de um passeio ao campo onde devia ter decorrido uma almoçarada, como provam os utensílios que as senhoras têm na mão, a propósito de qualquer acontecimento que desejavam comemorar, anos de alguém ou algum dia santificado.

Naturalmente que uns já partiram mas outros ainda se vão movimentando bem.

Dos dezassete reconhecemos nove e em posição central expelindo alegria, lá está a D. Mariana, para os amigos Marianita.

Talvez a pessoa mais idosa seja a D. Ana da Costa, vulgo Ti Ana da Costa, natural do Monte de Afonso Vicente, é a segunda do lado esquerdo e de óculos escuros.

A apresentação desta fotografia tem a finalidade de os alcoutenejos “menos jovens” poderem recordar, foi-nos cedida pelo nosso apreciado colaborador, Amílcar Felício, o que muito agradecemos.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Os Montes do Nordeste Algarvio


Com um formato de 16X23,5, é composto por 218 páginas ilustradas por várias fotografias a preto e branco e por interessantíssimos desenhos que retratam aspectos da vida real das gentes do Nordeste Algarvio.

Além disso, apresenta gráficos e mapas demonstrativos de assuntos que se abordam.

O estudo, de autoria de Cristiana Bastos, tem chancela de Edições Cosmos, Lisboa, 1993 e está incluído em «Portugal e o Mundo Português», colecção dirigida por Vitorino Magalhães Godinho.

O trabalho centraliza-se muito na Freguesia de Martim Longo, concelho de Alcoutim, tendo servido como principal fonte de pesquisa o Arquivo Histórico Paroquial.

A Serra Algarvia é abordada nos seus vários aspectos com as influências do Algarve (Litoral) e do Alentejo que lhe fica a norte.

É um trabalho indispensável para quem deseje conhecer esta zona do país, nomeadamente o concelho de Alcoutim.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Feijão careto com atum


Só soube o que era feijão careto quando cheguei a Alcoutim!

Depois de o conhecer por feijão-frade e feijão de duas caras, na Beira-Alta vim a conhecer-lhe outro nome, feijão miúdo e por intermédio de um minhoto tomei conhecimento que na sua terra lhe chamavam feijão galego. É uma das características da nossa língua, vários nomes para uma única coisa! São os regionalismos.

Não digo que este prato seja típico da serra algarvia ou do concelho de Alcoutim, mas a verdade é que é muito utilizado.

Foi-me servido pela primeira vez em Novembro de 1967 no “monte” de Afonso Vicente quando o ramal de acesso, a electricidade e a água ao domicílio eram uma miragem. Tinha de se comer o que se conseguia levar e não havia como conservá-los.

A diferença para mim tinha a ver com o nome do feijão e com o acompanhamento, atum de conserva, pois estava habituado em vez de atum, acompanhar com carapaus fritos.

Salsa e cebola bem picadas, as indispensáveis rodelas de ovo cozido e o tempero de azeite e vinagre já eu conhecia e penso serem utilizados em todo o país.

É prato que aprecio mas espaçado no tempo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Almofada



Nesta rubrica algo procurada pelos visitantes / leitores que por vezes nos contactam para obter algum esclarecimento, nem sempre possível de dar, apresentamos hoje uma almofada gémea das duas que apresentámos na postagem de 24 de Julho de 2010.

Não nos vamos repetir nas considerações que então fizemos das duas anteriores a não ser que devem de ter sido feitas por volta de 1925 e no monte de Afonso Vicente.

Esta é da mesma configuração de uma das outras, os produtos utilizados os mesmos, a ilustração é que naturalmente é diferente.

Temos nela representado um cesto com asa de meter no braço, foi bordada com linha verde e com ponto pé de flor, se nos recordamos de o ver ensinar a nossa mãe a meninas de seis/sete anos que mostrassem interesse em aprender, mas muito distante do local em que esta foi confeccionada.

As ramagens são da mesma cor do cesto (a cor das linhas devia ser muito limitada) e avultam três flores (ou serão laranjas?) cor de laranja.

Tal como nas outras, é magnífica a ingenuidade do trabalho.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Crónicas e ficções - Alcoutim - Recordações V





Escreve

Daniel Teixeira



Alcoutim a crença e a realidade
Saber se Alcoutim como Concelho desaparece ou continua eis a questão.




O amigo José Varzeano na sua última introdução ao meu texto aqui publicado em número anterior (ver aqui no Raizonline e aqui no Alcoutim Livre) não me pareceu muito crente na possibilidade de Alcoutim vir a ser uma «mera» Freguesia (como referi - do Concelho de Castro Marim) o que aliás se compreende e se aceita. Para mim, embora tenha tido oportunidade de ler alguns estudos - não sobre este aspecto em concreto, note-se - mas porque por razões relacionadas com a comunicação social regional que frequentava na altura tive de me «bater» com longos textos e estudos na então CCR para além de outros obtidos por altura de eleições junto do STAPE, tenho no entanto uma outra perspectiva.

Não tive muito tempo para procurar textos de apoio sobre esta temática, até porque me convinha recomeçar esses estudos de novo e não aproveitar senão em termos comparativos aqueles que obtive há cerca de 10 anos, mas lembro-me bem que um dos fenómenos que eu analisei, nessa altura, foi o que chamei de «factor refluxo».

Este factor (que deve ter um outro termo técnico mais apropriado) referia-se à saturação dos centros urbanos mais atractivos e por um regresso populacional para uma periferia que na altura situei num raio de 15 Kms do centro embora esse «refluxo» não tivesse como actores os mesmos que dessa periferia migraram.
O fenómeno é quase lógico e visível a olho nu - quer dizer sem estudo. O próprio José Varzeano refere que Castro Marim (Concelho) está a servir de dormitório de Vila Real de Sto António (Concelho), o que se coaduna com aquilo que refiro acima, sendo esse um dos primeiros passos para uma fixação mais efectiva. Os números que obtive na altura abrangiam um universo estatístico de cerca de 20 anos e eram sobretudo notáveis no Barlavento Algarvio e nos centros turísticos em geral (Barlavento e Sotavento).

O Concelho de Vila Real de Sto António tem uma concentração populacional grande na relação com o seu espaço físico e o Concelho de Castro Marim tem um espaço territorial relativamente elevado (tal como o Concelho de Alcoutim) na sua relação com a população.

Como se sabe - e espero não levantar polémicas desnecessárias naquilo que considero ser uma questão que é sempre polémica e que mete muito amor à camisola - a Vila Pombalina viveu desde a sua fundação pelo Marquês de Pombal por razões fiscais relacionadas com a pesca (as cabanas dos pescadores de Monte Gordo foram simplesmente mandadas queimar pelo Marquês), em seguida as conservas e posteriormente com o minério da Mina de S. Domingos também: uma actividade está acabada (a mina) e as outras atravessam as ruas da amargura.

Para o primeiro plano (o da mina de S. Domingos) a ligação com Alcoutim era lógica e feita com base na via fluvial (Rio Guadiana). Ora essas ligações obtidas em termos administrativos em função dos portos (cais de embarque) perde relevância nos tempos modernos, não só pelo seu deperecimento natural em termos de importância como também pela criação de vias terrestres alternativas.

Ainda fiz várias vezes a viagem de barco entre Vila Real de Sto António e Alcoutim sobretudo devido aos males da(s) alternativa(s) pela estrada da serra (Faro - Cachopo -Martinlongo) e mesmo pela estrada de Vila Real - Alcoutim /4 estradas/Balurcos - Martinlongo. Pensar-se hoje em termos de tráfego mercantil por via fluvial é reconhecido como quase absurdo embora estejam em estudo projectos de navegabilidade do Rio Guadiana ao que acredito tudo visto numa perspectiva mais turística que outra (amizade Portugal - Espanha etc. ).

Ora tudo isto para dizer que em termos práticos não existem a meu ver razões para que Alcoutim se ligue ao Concelho de Vila Real de Sto António com o qual não tem afinidade territorial (e as outras afinidades estão em deperecimento e nunca foram antes senão comodidades administrativas). Por outro lado parece-me também um facto que Alcoutim e Castro Marim em conjunto atingem um volume territorial enorme sem desenvolvimento populacional que justifique tal espaço havendo a meu ver também algum absurdo na distribuição geográfica do Concelho de Vila Real de Sto António.

Mas esta questão ou estas questões nada têm a ver com as especificidades locais e parece-me claro que o Concelho de Alcoutim é uma excelente mescla Algarve / Alentejo e por isso mesmo paradigmático embora não só por isso.



Pequena nota

Desta vez a “Pequena nota”vem no fim depois de ler atentamente as opiniões alicerçadas em estudo do Amigo Daniel Teixeira.

Ainda que ele possa ter toda a razão do Mundo continuo a pensar não por qualquer estudo que tenha feito ou consultado sobre o assunto, talvez por algum conhecimento que tenha sobre as mexidas administrativas ocorridas ao longo dos anos ou talvez por alguma sensibilidade e aqui não incluo nada de sentimentalismos.

Enquanto por cá andar, Alcoutim continua a ser o mesmo com os seus defeitos e virtudes.

Eu já não vou ver as alterações político-administrativas que um dia terão lugar.

Os políticos, desde a Reforma de Mouzinho da Silveira, têm-se limitado a um ou outro remendo aqui e ali. Poucos têm sido os concelhos criados, mesmo depois do 25 de Abril.

O que se vê constantemente é a elevação de aldeias a vilas e de vilas a cidades. Algumas eram boas vilas e transformaram-se em fracas cidades, mas o povo (algum) gosta disto e os políticos vão apoiando estas acções, ficando as importantes para trás.

E o assunto é de tal maneira que algumas cidades funcionam administrativamente como se fossem aldeias e isto não deixa de ser caricato. Não é preciso dar exemplos pois todos os conhecemos.

Eu sei que é necessário o cumprimento de vários parâmetros para a obtenção desses títulos honoríficos e certamente que Alcoutim e mais algumas sedes de concelho do pais, se fosse hoje, nunca seriam vilas, mas a verdade é que o são de pleno direito e que não vai ser fácil a algumas deixar de o ser devido a situações muito específicas que forçosamente têm de entrar em consideração, constituindo assim excepções à regra e como o povo bem diz, não há regra sem excepção.

Por outro lado, a aldeia de Martim Longo ainda não obteve a categoria de vila possivelmente por não possuir os parâmetros exigidos.

O que acontece é que as pequenas e pobres vilas sede de concelho espalhadas pelo país não querem perder essa condição mas em contrapartida os concelhos ricos e de áreas incomparavelmente inferiores não têm o mínimo de interesse em anexar esses concelhos onde não se cria riqueza, obrigando as novas autarquias a uma divisão dos seus rendimentos.

Os políticos parece que começaram a mexer nas juntas de freguesia, órgãos de uma importância relativa e que não vai influir muito n a vida dos cidadãos mas mesmo assim a divergência entre os grandes partidos e os pequenos já é notória.

Eu penso que quando os políticos forem obrigados e mexer na Administração, a modificação tem de ser muito acentuada e possivelmente com órgãos autárquicos de dimensões e funções diferentes das actuais, talvez próximo do que acontece em Espanha.

Continuo convicto que se o concelho de Alcoutim vier a ser extinto e isso não me choca,
a anexação será a Vila Real de Santo António juntamente com Castro Marim. Não fazem os três actuais concelhos parte da mesma Comarca com sede em Vila Real?

Por outro lado, a tendência fiscal é para a concentração e a informática é uma poderosa arma que poderá resolver as mais diferentes tarefas à distância (e já resolve muitas). Quando saber informática na área da utilização significar o mesmo que significou no passado o saber ler e escrever tudo muda de figura.

Caro Daniel Teixeira é bom termos opiniões diferentes e este espaço ALCOUTIM LIVRE foi criado mesmo para isso e está aberto a quem as quiser debater, como nós fazemos.

Um abraço.


JV

terça-feira, 5 de abril de 2011

O cemitério da Freguesia do Pereiro

[Cemitério da Freguesia do Pereiro. Foto JV, 2006]

Quando se erguiam igrejas, começavam a enterrar-se no interior dos templos os cristãos de mais alta condição local, social e monetária, ficando o povo no adro que rodeava o templo.

Advindo daí perigos para a saúde pública, começa a fazer-se uma campanha contra os enterros nas igrejas até que em 1835 é publicado o decreto proibindo os enterramentos em tais locais o que veio a originar a revolta popular da Maria da Fonte, manobrada por políticos que exploravam a falta de conhecimento do povo e o pouco senso de alguns párocos.

Esta situação dos enterramentos veio a pouco e pouco a ser resolvida mas entrou bem pelo século XIX.

O Regulamento de Saúde Pública de 3 de Setembro de 1868 deu-lhe a última machadada.

É bem cedo que a municipalidade alcouteneja se preocupa com a criação de cemitérios públicos, pois em sessão de 26 de Julho de 1836 é deliberado oficiar às Juntas de Paróquia do concelho para que de 16 de Agosto em diante começassem a obra dos cemitérios, visto ser o tempo mais próprio.

Além do choque psicológico que os menos preparados sentiam, reagindo negativamente perante a mudança, os cofres das Juntas não possuíam fundos suficientes para tal.

Em 1840 a Câmara volta a insistir mas os resultados positivos não aparecem.

Como aconteceu na maior parte dos casos, também aqui o cemitério não se afastou muito do lugar sagrado. Junto à igreja, tiveram que cumprir as obrigações legais, vedaram o local por muros altos, capela, casa mortuária e largo portão de acesso.

[Portão do cemitério da freguesia do pereiro. Foto JV, 2006]

O portão de ferro, virado para o adro da igreja, foi colocado a enquadrar trabalho de argamassa e alvenaria.

Uma interessante cruz de ferro forjado, tal como a da igreja, certamente de feitura local (em 1844 havia pelo menos um mestre ferreiro na aldeia) ostenta a era de 1863 que deve ser a do ano da sua fundação.

Em 1864 (1) foi apresentado na Sessão da Câmara um requerimento da Junta de Paróquia do Pereiro expondo a conveniência de ultimar a obra do cemitério e de fazer alguns reparos no telhado da sua igreja (...) que a Câmara autorize por Postura uma derrama de cinquenta mil réis para as despesas que há a fazer, o que veio a ser autorizado.

A Junta de Freguesia sente-se na necessidade de lançar uma “finta” para fazer face ao pagamento do coveiro (2) que dois anos depois apresenta um requerimento à Junta pedindo aumento de ordenado. Não dispondo esta de recursos para o efeito, convoca dois cidadãos de cada monte e aldeia para serem ouvidos acerca do ordenado que o coveiro pede. Ponderado o assunto foi aprovado por todos que se lançasse a cada fogo da freguesia a “finta” de cinquenta centavos a pagar durante o mês de Janeiro de cada ano. (3)

Em 1937 fazem-se as seguintes actualizações de preços:- os jazigos passam para cinco escudos (trabalho do coveiro), as sepulturas de adulto para vinte e a de menores para dez. Estas verbas eram divididas em partes iguais pela Junta e pelo coveiro.

Fixavam-se ao coveiro as seguintes obrigações:-
1º - Tratar do asseio do cemitério,
2º - Proibir a entrada de qualquer animal;
3º - Cumprir as ordens da Junta;
4º - Avisar a Junta de qualquer abuso que encontrasse;
5º - As sepulturas terem um metro e meio de profundidade e oitenta centímetros de largura;
6º - As ossadas vão para a carneira;
7º - No caso de ausência ou doença do coveiro as sepulturas que tiverem de se abrir são por conta do coveiro. (4)

Três quartos de século após a sua construção, (5) houve necessidade de o ampliar. O Presidente da Câmara, Prof. Trindade e Lima, submeteu à apreciação da vereação o projecto de ampliação do Eng. António Guerreiro de Brito, que foi aprovado por unanimidade, sendo solicitada a comparticipação do Estado.

Em 1967 o coveiro vencia cento e vinte escudos por mês e a compra do terreno de uma sepultura, custava mil escudos. (6)

Em 1969 construiu-se um bloco de nove catacumbas que custou oito mil, seiscentos e oitenta e cinco escudos. (7)

Actualmente o cemitério possui cerca de oitenta sepulturas e noventa catacumbas. Não faltam desde sempre os ciprestes que simbolizam a imortalidade.

No conjunto das sepulturas sobressai a da família de João Gomes Alves e que acompanhámos à sua última morada em 1976


NOTAS
(1) - Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 2 de Outubro de 1864
(2) - Acta da Sessão da Junta de Freguesia do Pereiro de 2 de Janeiro de 1919
(3) - Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 25 de Junho de 1938
(4) - Acta da Sessão da Junta de Freguesia do Pereiro de 29 de Março de 1937.
(5) - Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 25 de Junho de 1938
(6) - Acta da Sessão da Junta de Freguesia de Pereiro de 8 de Junho de 1967
(7) - Acta da Sessão da Junta de Freguesia do Pereiro de 28 de Agosto de 1969

N.B.
Extraído de A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», Junta de Freguesia do Pereiro, 2007, ps. 123 a 126.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Coisas Alcoutenejas - A casa da roda

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 30 DE DEZEMBRO DE 1993 – MAGAZINE)

No nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio… fizemos uma leve referência a este assunto.

Voltar a abordá-lo agora, significa que possuímos mais elementos. Além dos de ordem geral obtivemos os de carácter local e são esses efectivamente os que mais nos interessam.

Expostos para os mais literatos, enjeitados para o povo, eram as designações dadas àqueles que os progenitores abandonavam, neles se incluindo gentes de todas as camadas sociais, fazendo-o contudo por razões diferentes.

Vem de longe o hábito de abandonar os recém-nascidos.

Depois de várias fases começou a generalizar-se o abandono às portas das igrejas.

Os conventos possuíam rodas, espécie de cilindro giratório, aberto num lado e colocado verticalmente, a fim de receberem ali os objectos sem haver contacto directo com o exterior.

[Roda de Expostos. Des. de JV, 1993]
Sendo propício ao anonimato que se desejava, este engenho começou, a partir do século XVI, a ser utilizado para o abandono das crianças, o que se generalizou e veio a ser reconhecido em 1783, por D. Maria I. É ela que determina que “em todas as cidades e vilas do Reino” houvesse Casa da Roda, em lugar discreto para que aqueles que exponham crianças o pudessem fazer sem risco de serem reconhecidos.

Nenhum inquérito era feito para saber o nome dos pais, como se deduz do parágrafo anterior, mas a todo o momento estes podiam reclamar os filhos. Havia sempre um registo daquilo que acompanhava o enjeitado.

Esta medida oficial da criação de Casas da Roda teve o intuito de evitar o número crescente de infanticídios, o que veio a conseguir-se, subindo, como consequência o número de expostos.

Até aos sete anos os expostos eram entregues às amas, regressando nesta altura aos hospícios, onde permaneciam até aos doze, altura em que eram colocados a quem lhes pagasse melhor salário. Até atingiram os vinte e um anos continuavam sobre a protecção do juiz dos órfãos.

O Marquês de Pombal dedicou muito interesse a este assunto, procurando caminho profissional aos expostos, criando com Pina Manique a Casa Pia de Lisboa. (1)

Veremos agora o que podemos referir a nível local.

É de 1837 a primeira notícia que encontrámos e que diz assim: as amas dos expostos devem ter, além dos mil e duzentos réis por mês, no princípio do ano, enxoval completo para o exposto. (2)

Por estas alturas as despesas com os enjeitados pertenciam às Câmaras e nelas se incluíam, entre outras, as da Casa da Roda, rodeira e ama de leite.

Em 1841, reunida a Câmara é de opinião de que “carecendo o telhado da Casa da Roda desta vila de ser revolvido pelas muitas goteiras que já tem, tal despesa seja feita por conta da rodeira, visto que nenhum aluguel paga, devendo assim concorrer com esses pequenos reparos, ficando a cargo da Câmara os maiores”. (3)

[Antiga e desaparecida farmácia, propriedade municipal e onde funcionou a Casa da Roda. Des. de JV, 1993]

Na sessão da Câmara de 11 de Fevereiro de 1842, o Presidente disse que era necessário nomear nova ama de leite e que ele, levado pela necessidade, o havia feito interinamente a favor de Ana Baptista, desta vila, que julgava ser muito capaz não só por ter muito bom leite, mas também por ser actualmente rodeira.

A Câmara transformou a nomeação em definitiva.

Meses depois conclui-se que havia falta de amas de leite visto o ordenado não ser convidativo. Só obrigadas se conseguiam.

Era injusto que só as mulheres da freguesia de Alcoutim fossem obrigadas a criar enjeitados e daqui em diante haviam de ser repartidos por todas as freguesias, segundo o número de fogos de cada uma, à razão de duzentos por exposto, competindo o primeiro que vier, à freguesia do Pereiro.

A título de curiosidade indicamos as rodeiras e amas de leite que identificámos:

1842 – Ana Baptista (rodeira e ama de leite)
1843 – Margarida Rita.
1845 – Inácia Maria, era mulher de Sebastião José de Freitas.
1845 – Pulquéria Maria Cavaca, de Santa Marta.
1849 – Sebastiana Orta, mulher de Francisco Maria Xavier d `Andrade, desta vila.
1853 – Idem.
1856 – Maria Eugénia, mulher de Joaquim Rodrigues, da vila.
1861 – Ana Ventura (deixou de o ser por padecer de moléstia)
1862 – Maria Joaquina.
1864 – Maria Joaquina

Em 1852 o Governador Civil recomenda à Câmara que lhe remeta relatório da administração dos expostos do concelho, acompanhado de mapas explicativos e dos esclarecimentos que se julguem necessários sobre o assunto e isto relativo ao ano de 1851.

O Presidente é de opinião que se insista no sentido de aumentar o ordenado das amas de criação (4). No caso de não ser autorizado, que em contrapartida se permita pagar à rodeira apenas 500 réis mensais, sendo o restante dividido pelas amas de criação. O pedido é feito nestes termos porque se considera o emprego de rodeira absolutamente desnecessário. (5)

Em 12 de Janeiro de 1858 uma pobre mulher da vila de Alcoutim deu à luz uma menina. Para ocultar a sua fragilidade, havia-a mandado expor em Sanlúcar, Reino de Hespanha, donde três dias depois havia sido recambiada e sendo apurado que era sua filha, o Administrador o Administrador lha havia mandado entregar.

Tendo três filhos de tenra idade provenientes do matrimónio e sem ter meios para os sustentar, via-se agora com mais a filha ilegítima pelo que pedia à Câmara que considerasse a filha como exposta e ela como ama de criação, o que veio a suceder, minorando os problemas desta pobre viúva.

Em 1 de Outubro de 1864, as rodas dos expostos em todos os concelhos em que haviam sido suprimidas, como era o caso de Alcoutim, são restabelecidas, havendo assim necessidade de nomear rodeira e ama de leite, o que veio a recair respectivamente em Ana Baptista (que já o era antes da supressão e Maria Joaquina, mulher de José Canelas. (6)

A situação não deveria ter durado muito tempo já que em 19 de Setembro de 1867 a edilidade debate-se com a circunstância de aparecerem expostos e não existir roda nem ama de leite.

Na circunstância a Câmara entrega o exposto a uma mulher que dele cuidasse enquanto não era remetido para Castro Marim. A Câmara resolveu que durante esses dias as mulheres que tivessem esse encargo venceriam 60 réis por dia.

Só treze anos passados obtivemos algumas referências sobre o assunto. Na noite de 12 de Janeiro de 1880 foi exposto um rapaz à porta de Manuel Madeira, desta vila. Depois de baptizado, foi conduzido ao hospício de Vila Real de Santo António no dia seguinte.
Às quatro horas da manhã de 23 de Outubro de 1883 é a vez de ser exposto à porta de José Vasco da Silva, desta vila, uma criança do sexo feminino.

O Presidente da Câmara, Manuel António Torres, em 1886, considera que dos diferentes ramos de serviço municipal, nenhum é mais espinhoso do que o dos expostos. (7)

Na sessão camarária de 12 de Abril de 1917 delibera-se pagar os salários às amas dos expostos, menores de dez anos.

De 1888 a 1898 encontrámos autos de arrematação da renda duma casa na rua do Castelo, chamada da Roda.

Ainda há poucos anos os mais velhos alcoutenejos sabiam localizar a Casa da Roda, ali mesmo ao lado da farmácia e mostravam, para justificar a sua afirmação tradicional, uma cavidade onde diziam que colocavam as crianças.

Já neste século, ainda havia quem se dedicasse ao transporte para Sanlúcar de alcoutinenses e não só, enjeitados. Dizem mesmo que no extinto mercado local se fazia negócio de tal tipo, aparecendo muitos negociantes da serra algarvia que, a coberto de outros, praticavam tal negócio. (8)

Segundo Casimiro Anica, um infatigável investigador algarvio, o Governo Ditatorial saído da Revolução de Maio de 1926, acabou de vez com as rodas. (9)

Terminaremos dizendo que a aldeia de Martim Longo também teve Casa da Roda e sabemos que em 1839 era rodeira, Joaquina Gertrudes, mulher de Baltazar Carrilho e ama de leite, Maria Joaquina Alho, mulher de Manuel Guita. Em 1842 já não existia.
Aqui fica mais esta pequena achega sobre o passado alcoutenejo.

NOTAS

(1)-Dicionário de História de Portugal, 6 vols. (dir. Joel Serrão), Livraria Figueirinhas, Porto, s/d.
(2)-Acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Abril der 1837.
(3)-Acta da Sessão da C.M.A. de 21 de Janeiro de 1841.
(4)-Ama de leite aparece substituído por ama de criação.
(5)-Acta da Sessão da C.M.A. de 25 de Março de 1852.
(6)-Acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Outubro de 1864.
(7)-Of. Nº 31, de 22.02.1896 (copiador) do Presidente da C.M.A. ao Presidente da Junta Geral do Distrito de Faro.
(8)-Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio…, José Varzeano, 1985, pág. 237.
(9)-“Expostos: A Roda”, in Jornal do Algarve de 16 de Março de 1989.