segunda-feira, 23 de maio de 2011

Carlos Vieira Dias, 3º sobrinho do 1º Homem que em Alcoutim deu Vivas à República!

[Carlos Vieira Dias em Alcoutim. Foto JV]

Ao entrar neste Mundo da Internet e na criação de blogues, estava longe de pensar na amplitude que isto iria tomar pois as ressonâncias que chegam são muitas e de várias partes do Mundo!

Posso afirmar que rara é a semana em que não recebo algo sobre o ALCOUTIM LIVRE: comentários, aplausos, pedidos de informação sobre familiares ou terras (montes) factos e até o fornecimento de dados que nos ajudam nesta tarefa.

Uma das primeiras solicitações vem curiosamente de Espanha em que alguém navegando na Internet à procura de dados genealógicos encontrou neste espaço
uma nota biográfica sobre um Vieira natural de Alcoutim. Como por via oral sabia que alguns dos seus ascendentes tinham passado por este concelho, lembrou-se de vir junto de mim e com alguns dados indagar se eu o podia ajudar no conhecimento dos seus ascendentes.

[Carlos Vieira, espanhol com um costado português e José Varzeano, junto ao Guadiana, em Alcoutim. Foto M.B.]

Acontece e porque para mim tinha sido uma pessoa a destacar, eu tinha alguns dados sobre um seu ascendente de linha colateral, nem mais nem menos do que um seu tio-bisavô.

Para o já meu Amigo Carlos Vieira Dias foi uma boa notícia que lhe dei e que de outra maneira não seria fácil obter.

Tive o prazer de lhe oferecer o meu livro “A Freguesia do Pereiro (do Concelho de Alcoutim) «do passado ao presente»”, Edição da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007 em que a págs. 81 refiro este seu antepassado.

Após troca de e-mails Carlos Vieira manifestou interesse em conhecer-me e eu respondi-lhe nos mesmos termos e prontificando-me a mostrar-lhe alguns dos locais de Alcoutim que pautaram a vida daquele seu familiar.

Após a conjugação de esforços o encontro deu-se no dia 30 de Abril último na Praça da República na Vila de Alcoutim, topónimo muito ligado àquele seu antepassado.

[Carlos Vieira e esposa junto à placa toponímica "Praça da República, em Alcoutim. Foto JV]

Almoçámos na vila. Mostrei-lhe onde o seu 3º tio deu aulas depois da Cheia Grande, ou seja na Capela de Sto. António. Rumámos depois ao Pereiro e a Martim Longo, aldeias que ficou conhecendo superficialmente já que o tempo era pouco e até estava chuvoso.

Notava-se que respirava satisfação por todos os poros como é compreensível. Não podía deixar de o levar à bonita freguesia de Vaqueiros e onde pôde observar, na estrada para o” monte “de Monchique, o “mar de cerros”, no dizer do geógrafo Orlando Ribeiro, que constitui a Serra do Caldeirão.

No dia seguinte voltámos a almoçar juntos e até provaram umas migas de que não desgostaram.

Aproveitámos para mais uma pequena volta.

Sabendo que Carlos Vieira é um apaixonado pela arqueologia, lamentei-lhe o facto de não possuir um “todo o terreno” para o levar aos “Menires do Lavajo”!

Fomos levá-lo, com a sua simpática esposa que o acompanhou, ao início do IC 27 para o regresso a Espanha, mais propriamente a Cádis, onde residem.

[No início do IC 27.Foto JV]

sábado, 21 de maio de 2011

O Celeiro de Alcoutim

Uma história vivida não tem tempo de calendário
– tem-no só no que se viveu.


(Vergílio Ferreira, escritor português (1916-1996)





Escreve


Gaspar Santos



[O antigo celeiro. Foto JV]

A produção e comércio de cereais no concelho, como hoje relembro, já me deviam ter ocupado. Foi neste comércio e neste Celeiro que comecei a trabalhar em 1945. Da sua prática e evolução, em grande parte por mim acompanhada, não datarei alguns factos. Falta tempo para essa pesquisa. O que recordarei, sem calendarizar, é apenas por memória.

O ano de 1932, sempre ouvi dizer, foi de tão grande colheita, que muito trigo se desperdiçou. Na Rua do Município, onde hoje é um bar, havia um local de armazenagem de trigo a granel, a escorrer pelas frinchas da porta, que algumas pessoas aproveitavam para as galinhas. Essa fartura era já, em parte, consequência da Campanha de Trigo. Uma produção tão grande que nunca mais voltaria a repetir-se.

A Campanha do Trigo que o Estado Novo começou em 1929 destinava-se a alargar as áreas de cultivo, aumentar a produção e aproximar o nosso país da auto-suficiência em cereais, que se chegou a atingir e até se ultrapassou, a ponto de o nosso mercado interno (as moagens) não terem capacidade de escoamento e de pagamento.

Nas áreas serranas do Algarve, como o concelho de Alcoutim, as autoridades desejavam aumentar o aproveitamento das terras, embora se soubesse à partida da sua baixa produtividade. Sabe-se hoje que acabou por ser uma campanha desastrosa, pois mais tarde resultou em grande quebra da produção. Por um lado, por falta da regeneração dos solos, devido a sementeiras sem tempo de pousio suficiente; e por outro, à redução das áreas de semeadura, pois a terra, sem revestimento de árvores e arbustos e sujeita a anos sucessivos a ser arranhada pelos arados, foi arrastada pelas chuvas ficando muita rocha estéril à superfície.

Nas planuras alentejanas, onde a produtividade é elevada e não tem aqueles problemas de erosão, a renúncia à campanha teve outros motivos: nos primeiros anos com excesso de produção as moagens não escoavam o trigo e portanto não pagavam o que se colhia; mais tarde, os preços garantidos não acompanharam os custos de produção, e deixou de ser compensador produzir.

[Seara de trigo]

Para orientar e disciplinar o comércio de cereais (trigo, milho, cevada e centeio) foi criada em 1933 a FNPT, Federação Nacional dos Produtores de Trigo, com o exclusivo desse comércio. Em Alcoutim, poucos anos depois a FNPT construiu um celeiro e iniciou actividade. Eram seus empregados Sebastião Quaresma, José Teixeira e José Vicente Romana.

Quando as coisas começaram a correr mal a F.N.P.T. mandou José António Duarte Moura gerir aquela Delegação e averiguar sobre o mau funcionamento e sobre as queixas que muitos produtores de trigo apresentavam. Foi durante a gestão bastante competente deste funcionário, mais tarde Inspector, que foi admitido Leopoldo Vicente Martins. Após a saída de Duarte Moura para outras tarefas veio Abel Fernandes Saraiva gerir a Delegação da F.N.P.T. durante mais alguns anos. E, daí para diante o funcionamento deste serviço confundiu-se com a vida do Leopoldo.

No início da década de 40 foi criado o Grémio da Lavoura de Castro Marim, Alcoutim e Vila Real de Santo António, com sede em Castro Marim que passou a assegurar o serviço da F.N.P.T com carácter de exclusividade: compra, armazenagem e venda de trigo, cevada e milho.

O Grémio da Lavoura tinha ainda outros rendimentos que não eram só os que auferia da Federação. Recebia quotas dos sócios, a que eram obrigados todos os proprietários de terras pagando imposto predial rústico superior a cem escudos anuais. Tinha resultados da venda de adubos, fungicidas, pesticidas e ferramentas agrícolas, charruas e suas peças de desgaste; venda de batatas de semente, rações para gado e sêmeas; e, ainda, percentagem nos prémios dos seguros de incêndios nas searas.
Desde o início do Grémio e até à morte ocorrida no princípio dos anos 70, Leopoldo foi encarregado do Grémio em Alcoutim, continuando as tarefas que executara na F.N.P.T. Durante alguns períodos de férias de Leopoldo e também após a sua morte o trabalho foi assumido por José Bento, casado com a D. Nascimento que enquanto solteira habitava na Casa dos Condes.

Segundos na hierarquia da Casa da Lavoura de Alcoutim (delegação do Grémio) foram sucessivamente José Barão, João Francisco Mestre, António Assunção Valério, Gaspar Santos, Manuel Pedro Rodrigues, António Antunes, Maria Angelina. Para além destes “segundos” havia sempre mais um jovem que colaborava, sem remuneração ou que recebia uma pequena gratificação. É justo hoje recordar que muitos dos jovens que passaram pelo celeiro obtiveram conhecimentos e disciplina de trabalho e de horários que lhes foram muito úteis nas suas vidas.

[Antiga eira há muito desactivada. Foto JV]

Além destes havia sempre dois homens que tinham o “exclusivo” das pequenas cargas e descargas, embora não fossem empregados do Grémio. Quando o trigo entrava e eles o descarregavam eram pagos pelo produtor desde que este não o quisesse descarregar.

Quando o trigo saía o transporte até ao camião era pago pelo Grémio. Trabalharam assim Lazaro Martins e Alfredo de Horta; Depois Alfredo de Horta e Joaquim Adriano; e depois Alfredo de Horta e o filho António de Horta.

Depois de Leopoldo ter falecido, José Bento passou a garantir os serviços apenas dois ou três dias por semana, até ao encerramento definitivo do celeiro que ocorreu em 1976. O celeiro foi depois vendido a um particular, não tendo ainda hoje utilização visível.

O concelho de Alcoutim tinha até meados dos anos 70 do século passado auto-suficiência de trigo, pois os produtores vendiam ao celeiro a produção que excedia o seu consumo. Por sua vez o celeiro além de abastecer as moagens de Pereiro e Martinlongo no concelho de Alcoutim, vendia ainda para fora, sendo o cereal transportado por camionetas ou por navio a partir do cais para as moagens de Emídio Lima de Mértola, Moagem de Cacela, Araújo Ribeiro em Tavira, para os Moinhos de Santa Iria de Azóia, Manutenção Militar em Lisboa, Massas Leão de Santarém etc.

Na compra como na venda o trigo tinha um preço que incluía 1$50 de subsídio de cultura, mais uma parcela tabelada entre cerca de 1$20 e 1$70 salvo erro, que variava com o mês em que era transaccionado (para remunerar a armazenagem) e com a sua qualidade medida pelo peso por hectolitro ou peso específico, que era obtido pela pesagem rigorosa de um litro de trigo recolhido de amostra aleatória.

Além da compra e venda de cereais, a etapa de armazenagem dava trabalho e preocupações no acompanhamento da saúde do cereal armazenado, pela simples observação da presença de gorgulho e traça e/ou pela tomada de temperaturas. Esta tomada era feita segundo uma apertada quadrícula horizontal e pelo menos a três profundidades do granel, para detecção de fermentações.

A traça e o gorgulho tratavam-se com a desinfecção do trigo injectando no granel tetracloreto de carbono, enquanto para as temperaturas altas indiciadoras de fermentações bastava dar a volta ao cereal, arejando-o para secagem da humidade e retirar eventualmente algum cereal com bolor. Um desleixo em práticas destas podia estragar toneladas de trigo.

[Cartaz de Companha do trigo]

Havia ainda um fenómeno curioso, mas normal, na armazenagem, devido à humidade: vendia-se mais trigo do que se comprava e isso era previsto superiormente, com elevado grau de probabilidade. É que o trigo acompanha e incorpora a humidade do ar. A compra ocorria no verão com o ar seco e a venda no inverno e primavera quando o ar é húmido.

O Grémio da Lavoura de Castro Marim, Alcoutim e Vila Real de Santo António ainda existe em Castro Marim, sendo, segundo penso, a única excepção em Portugal. É uma entidade privada cujos proprietários decidiram manter o antigo nome.

Tenho a convicção de que se exagerou extinguindo completamente a campanha do trigo, na enxurrada do fim do corporativismo e do fim do monopólio da comercialização dos cereais. A total liberalização da importação de cereais vigora a partir de 1 de Janeiro de 1990, com um ano de antecipação relativamente às exigências da adesão à CEE. Pensou-se que era mais barato comprar o trigo fora do que cultivá-lo no país.

Depois, ainda se deu mais um novo contributo para o abandono da nossa agricultura, ao incentivar a redução das pessoas nelas ocupadas. Quem tiver boa memória ainda se lembra de muitas vezes ouvir na TV “entendidos” dizerem: - temos mais de 35% de pessoas na agricultura, é preciso só ter 5 a 15%. A reacção ao incentivo foi também exagerada, com o abandono dos campos e agora muitos dos produtos que comemos (e não são só os cereais) vêm do estrangeiro, como se já não bastasse os combustíveis para nos endividar.


Hoje volta a falar-se no problema alimentar: Que se importa quase tudo! E que temos os campos abandonados! E quem fala agora são os mesmos “entendidos”. Até já ouvimos o responsável pelo comércio externo a sugerir constituirmos uma reserva alimentar – uma espécie de banco alimentar geral.

No concelho de Alcoutim a produtividade dos cereais é pequena. Sobretudo nas zonas mais montanhosas das freguesias de Alcoutim e Vaqueiros ao semear cereais iríamos aumentar a erosão reduzindo a área disponível, mas nas outras freguesias a cultura de cereais devia ter-se continuado a estimular. Não se tinham abandonado os campos e semear trigo, cevada, centeio e aveia teria sido aposta a contrariar a desertificação e como fomentador da pastorícia e, consequentemente dos lacticínios e da carne.

Optou-se mais tarde pela florestação de pinhal. Está por provar se foi a melhor opção!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sopas de peixe muge



Apresentamos hoje na rubrica gastronomia / culinária um dos pratos mais típicos e apreciado dos alcoutenejos.

Aquilo que foi extremamente praticado pelas povoações ribeirinhas do majestoso Guadiana e zonas circunvizinhas de âmbito alargado, acabou por cair em desuso pela falta de venda deste peixe do rio, outrora comerciado diariamente, pelo menos até meados do século passado.

Na nossa estada recente em Alcoutim, sempre muito preenchida por inúmeros afazeres e a que nos vimos obrigado a deixar para uma próxima oportunidade, algo que tínhamos imaginado pois não podemos acorrer a tudo como desejávamos, tivemos oportunidade de comprar peixe muge no “monte” após a garantia que tinha sido pescado no Guadiana, já que o outro não nos interessa.

Se o peixe o justificar, ou seja estiver em condições, iremos confeccionar umas sopas, coisa que só conheci em Alcoutim, de que minha sogra era exímia executante, o que transmitiu à filha e que eu igualmente vim a aprender, ainda que as feitas por ela tivessem um sabor especial.

Escamado e amanhado o peixe, que também é conhecido por fataça (no Ribatejo) e tainha quando pescado no mar ou na foz dos rios, verifiquei que se encontrava em condições de ser cozinhado.

O seu corte deve ser feito em postas relativamente largas, com cerca de dois dedos de largura, como a foto apresenta. É indispensável a presença das cabeças pois reforçam o paladar.



Deverá ser previamente salgado com umas pedrinhas de sal no sentido de enrijar.

Cortam-se umas rodelas de batata da espessura de cerca de um dedo. Cortam-se pequenas fatias de pão tipo caseiro, de preferência com alguma dureza.

Faz-se um refogado em azeite com alho bem picado, cebola, salsa, louro, tomate e um pouco de pimento. Quem gostar pode pôr piripiri.

Após o refogado estar pronto acrescenta-se com água suficiente para cozer as batatas e o peixe e embeber as sopas de pão.

Primeiro deitam-se as batatas e quando estiverem quase cozidas é a altura de deitar o peixe que leva dois, três minutos a cozer pois deve ficar rijinho.

Pouco antes de apagar o fogão polvilha-se com os orégãos indispensáveis.

Numa pelangana ou tigela alta e larga acondicionam-se as sopas de pão sobre as quais se deita o conteúdo do tacho, absorvendo as sopas parte do molho como se pode ver na primeira foto.

Um copo de vinho caseiro (biológico) e uma “azeitona maçanilha de água” completam o repasto.

Há quem utilize como planta aromática o poejo ou a hortelã da ribeira.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O grande êxodo dos finais dos anos 50 princípios dos anos 60




Escreve



Amílcar Felício




Alcoutim fervilhava de gente na primeira metade do século passado, chegando o Concelho a atingir o seu pico na década de cinquenta com quase 11000 habitantes, gerando-se naturalmente um grande dinamismo em todo o Concelho que alimentava por sua vez, toda uma rede de serviços e comércio bastante significativa para a grandeza da Vila, com a existência inclusive de pequenas indústrias com uma razoável capacidade de produção como o Lagar, a Forja ou a Moagem no Pereiro e algumas importantes oficinas principalmente de sapataria, carpintaria e latoaria. Curiosamente, ainda continuavam em actividade alguns Moinhos de Vento em plena década de sessenta imagine-se!

[Moinho da Pateira. Foto JV, 2011]

Os Montes mais próximos como a Corte da Seda, a Corte do Tabelião, o Marmeleiro, as Cortes Pereiras, a Afonso Vicente, os Balurcos ou os Montes do Rio à semelhança dos outros Montes do Concelho, abarrotavam de gente e até aquelas pequenas casas de campo nos arredores da Vila como o Rossio do Ti Gato, a Eira Branca, o Ti Robalo, o Brejo, o Alcaçarinho e o Enxoval estavam totalmente ocupadas por famílias de caseiros ou de rendeiros em plena laboração. Os postos da Guarda-Fiscal funcionavam em pleno quer até Mértola, quer até Vila Real de Santo António com cerca de 6 unidades por Quartel.

Alcoutim era auto-suficiente pelo menos para as necessidades da altura. Desde alfaiates a costureiras, barbeiros e sapateiros, carpinteiros e pedreiros, ferradores e ferreiros, latoeiros e caiadores, camponeses e assalariados, taberneiros, merceeiros e vendedores ambulantes de tudo e mais alguma coisa pois até ourives e cauteleiros ali iam todas as semanas, padeiros e boleiras, aguadeiros e lavadeiras, talhantes e pescadores, barqueiros e contrabandistas, pregoeiros, capadores e amoladores, ceifeiros e enxertadores, pastores e fabricantes de queijo e almece, leiteiros e apicultores, cardadores e tosquiadores, tecedeiras, carteiros e guarda-fios etc., etc., etc., existia de tudo um pouco para as necessidades de então.

Com a Grande Crise Nacional como pano de fundo que germinava desde os finais dos anos cinquenta com as Eleições Presidenciais e que arrastaria grandes sectores da população e até alguns sectores progressistas católicos descontentes com o regime e que se acentuaria nos princípios da década de sessenta e com a conjugação de uma série de factores próprios como veremos mais adiante, Alcoutim não resistiria a tamanho terramoto afundando-se na sua própria crise, com o êxodo de famílias inteiras ou na sua quase totalidade, ou para Lisboa aonde preenchiam os lugares deixados vagos pelo grande surto de emigração crescente ou para o Baixo Algarve aonde o Turismo começava a despontar. Em 1960 o Concelho de Alcoutim pouco passaria já dos 9000 habitantes.

Assisti ao início daquela debandada geral com um nó na garganta. Estávamos nos princípios da década de sessenta. Daqueles que comigo tinham crescido e brincado como irmãos, pertencentes às famílias mais populares e mais numerosas de Alcoutim, já nem rasto havia. Basta referir as grandes famílias alcoutenejas com 8, 9 ou 10 elementos que zarparam definitivamente como os “Pandaretas”, os “Estragados” do Ti Carrolino, os Lázaros para não referir outras de igual tamanho e das quais sempre ia ficando um ou outro progenitor e uma ou outra filha como os Barões, os Eliseus, os “Afonsos Costa”, a família da Dª Maria Tomásia, a família do Sr. António do Vinagre “o Enterrador” etc., e que sempre iam marcando presença.

[Rossio da Vila. Foto JV, 1974]

Pareciam bandos de cegonhas que no final de cada Verão partiam depois de nidificarem, com a diferença de que nunca mais voltavam. A minha geração implodia em plena adolescência, mantendo-se apenas de um modo geral as classes mais desafogadas cujos filhos ou as filhas andavam a estudar mas voltavam sempre nas férias e que politicamente poderemos caracterizar como pequena burguesia e um ou outro da média burguesia e que continuariam com os seus primitivos remos a remar contra a maré, quando o barco o que precisava era de um motor para andar para a frente.

De facto a célebre Campanha do Trigo lançada por Salazar em 1929/30 com a erosão e o empobrecimento cada vez maior das terras, já de si muito pobres, devido ao seu cultivo intensivo segundo os estudiosos, começava a dar os seus frutos com terrenos cada vez mais fracos e aonde a produtividade nos melhores anos já não passava das “7 sementes” como diziam os camponeses se a memória não me falha. Se bem me lembro de alguns desabafos que ouvia aos camponeses desencantados fazendo o balanço das suas colheitas, uns diziam que “este ano não tive mais que 5 sementes”, outros diziam “eu ainda tive 6 sementes”, isto é, seis vezes mais do que aquilo que tinham semeado.

Na realidade um Guadiana cada vez com menos recursos associado ao colapso completo de uma agricultura tradicional, arrastaria consigo toda uma série de actividades e dinâmicas que ela própria alimentava. A chegada cada vez mais espaçada de grandes barcos de adubo à Vila e de todo a azáfama que por ali se gerava na descarga e na carga posterior para os diversos Montes, diminuía a olhos vistos. O próprio Guadiana cada dia que passava ficava mais calmo e já nem parecia o mesmo, pois os barcos à vela começavam a rarear também e os de pesca já tinham sido mais numerosos. As Minas de São Domingos por outro lado já tinham tido melhores dias, diminuindo drasticamente o tráfego dos barcos de minério de grande calado que faziam a alegria da pequenada à sua passagem e que empregavam também gente do Concelho naturalmente. Mantinha-se o velho Gasolina com as suas viagens regulares entre Mértola e Vila Real de Santo António e que sempre o iam animando um pouco. A Forja, o Lagar e a Moagem entravam também em declínio e o movimento de camiões ou carroças para o Celeiro também começava a abrandar. Por arrasto alguns comerciantes começavam a desistir. Por outro lado a inexistência de um núcleo de empreendedores capaz de reverter esta situação e um Aparelho de Estado esclerosado e insensível a esta sangria, eram um somatório de factores de peso que se conjugavam dramaticamente proporcionando a debandada geral.

Se a morte do Dr. João Dias nos meados da década de cinquenta já tinha constituído um duro golpe ao difícil dinamismo que o Concelho e a Vila iam conseguindo, a conjugação de todos aqueles factores constituiriam um grande desafio que Alcoutim não tinha forças para enfrentar. Alcoutim dos anos cinquenta, Alcoutim da solidariedade e dos serões familiares entre os vizinhos à roda da braseira nas noites rigorosas de Inverno e de amenas cavaqueiras e cantares alentejanos nos poiais das casas nas noites cálidas de Verão, desmoronava-se socialmente. Alcoutim sociedade fechada sobre si própria que inventava a sua própria cultura e formas de diversão, desaparecia um bocadinho todos os dias.

[Uma rua da aldeia de Martim Longo. Foto JV]

Faça-se justiça às gentes de Martim Longo que tentavam teimosamente não desistir, o que sempre me deu que pensar pelo seu empreendedorismo, revelando um inconformismo e uma capacidade de imaginação invejável e que Alcoutim nunca acompanhou. Lembro-me de ouvir contar em miúdo de que quando o preço da amêndoa caiu a pique e que pouco seduzia os proprietários a fazer a sua colheita e o amanho e a poda dos amendoais, eles terem inventado uma máquina de partir amêndoas e passarem a vender o miolo muito mais valorizado, compensando assim a baixa de preço. Lembro-me também do pequeno Zé Rosa, dez réis de gente cheios de iniciativa empresarial ainda um jovem com vinte e poucos anos, embora 5 ou 6 anos mais velho do que eu, (foi muitas vezes o guarda-redes da nossa equipa de futebol, o Grupo 1º de Dezembro de Alcoutim: deveria ter sido uma das primeiras “transferências” nacionais e acho que lhe chamávamos o Zé Rato pela sua elasticidade!) ainda um simples funcionário de base camarário (não sei precisar se chegou a pertencer aos quadros da Câmara) mas já a congeminar naquele tempo ideias para o futuro, salvo erro uma oficina de bicicletas na altura. Era um homem fascinado pelo Remexido e foi a ele que ouvi pela primeira vez falar naquele guerrilheiro miguelista. Hoje parece que é o 2º empregador do Concelho a seguir à Câmara, com uma estratégia bastante interessante assente na valorização das “nossas próprias coisas” e com locais de venda próprios por esse país fora, para resistir a tempos tão difíceis e aos tubarões que tudo querem abocanhar.

Terá sido aquele Remexido que espalhou para aquelas bandas estas sementes de inconformismo e de insubmissão? Vá-se lá saber as razões do fenómeno... O que é certo é que provavelmente terá sido das poucas aldeias em Portugal a possuir GNR desde a 1ª metade do séc. XX devido aos desacatos constantes e aos jogos ilícitos que se prolongavam pela noite dentro segundo se dizia, mas ao mesmo tempo indiciador de um núcleo populacional importante, activo e dinâmico. Lembro-me de se contar que mesmo depois da chegada da GNR e com a consequente proibição dos jogos, eles com grande imaginação inventavam outros, continuando a jogatana à luz do dia e até mesmo nas barbas da GNR: cada um cuspia para o chão e aonde a primeira mosca pousasse estava encontrado o ganhador da aposta!

Alcoutim pelo contrário baixava os braços e perante aquele descalabro só a pequena burguesia comercial tentava sobreviver naqueles tempos sem grandes inovações, como referi anteriormente e mais um ou outro artesão como sapateiros, latoeiros, carpinteiros etc., assim como um ou outro núcleo de pescadores e uma ou outra casa de campo embora cada vez mais desfalcadas, pois que os mancebos à medida que a tropa ia chegando lá iam às “sortes” despedindo-se depois da Vila nesse mesmo dia com os seus cantares tradicionais, fazendo uma roda abraçados nos pontos estratégicos e assim partiam mais uns quantos para nunca mais voltar... Era uma tradição de despedida que tinha raízes no dia das “sortes” e que cumpriam religiosamente. Para estes mancebos de origem camponesa a sua partida era normalmente mais tardia por razões óbvias, pois era neles que assentava a economia da casa e era a tropa o seu trampolim para o salto que dariam sem regresso. Contudo nas famílias camponesas ficariam sempre para lá dos progenitores mais agarrados à terra naturalmente, uma ou outra filha à espera de que “aparecesse” um Guarda-Fiscal jeitoso para partirem depois elas também. Foram os grandes resistentes da década de sessenta sem dúvida. Resistiriam todos afinal só mais uma década. Em 1970 já não chegavam sequer a 7000 almas no Concelho e em 1980 já seriam só 5622 habitantes não parando de se agravar este descalabro.

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas em 2006 seriam apenas 3272 habitantes no Concelho, com a agravante de mais de 40% terem mais de 65 anos de idade e de ser o Concelho do Algarve com o mais alto índice de envelhecimento, a uma grande distância dos outros! Que novidade nos irá revelar o Censo de 2011? Não deverão ser nada boas! Vamos lá ver se o FBI, perdão o FMI, não vai querer acabar com este nosso Concelho. Ao que isto chegou! Referi anteriormente o nosso Grupo de Futebol 1º de Dezembro: que saudades dos homens de 1640...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Brincando na estrada!



A Câmara Escura de hoje é preenchida com mais uma fotografia cedida gentilmente pelo nosso colaborador, Amílcar Felício.

Representa nos anos 60 um grupo de jovens alcoutenejos brincando na EN 122-1 e por aqui se constata a pouca ou quase nula circulação que a estrada tinha pois dava tempo suficiente para se fazer uma roda que admito fosse para o velho jogo, “aqui vai o lenço, aqui fica o lenço”.

Nesta altura eu ainda não conhecia a vila, andava por terras distantes, lá pela Beira-Alta, mas penso reconhecer o jovem de gravata e as duas moças que estão ao seu lado direito.

Os restantes figurantes passam-me ao lado.

Admito igualmente que o automóvel estacionado seja o “carocha” que conheci na vila e que pertencia ao Sr. Valente.

Na altura em que cheguei à Vila, só existiam cinco!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Esperança (Poema)

Pequena Nota
O nosso colaborador poeta/prosador, após um pequeno achaque volta ao nosso convívio debruçando-se sobre uma palavra que encerra infinitas opções e que está sempre no imaginário de todo o cidadão.
Todos nós podemos enquadrar este poema nas nossas “esperanças” incluindo a do tempo presente.

JV








Poeta

José Temudo







ESPERANÇA

PALAVRA BRANDA, DOCE, LINDA!

SENTIMENTO DE ALGUÉM

QUE ESPERA UMA MUDANÇA,

UMA GRAÇA, UM FILHO, UM BEM,

E, SOBRETUDO E AINDA,

UMA OUTRA VIDA PARA ALÉM

DAQUELA IMPERFEITA QUE TEM.

OFERTA DIVINA

NA “BOCETA” BEM GUARDADA,

AINDA QUE PEQUENINA,

É O QUE RESTA A QUEM,

SUA VIDA ESBANJADA,

JÁ NADA MAIS TEM!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

As "costas"



A “iguaria” que apresentamos hoje e ligada à culinária/doçaria tem um nome que os dicionários que consultei não trazem com este sentido e deve tratar-se de um regionalismo próprio do Sul do país, das zonas do Baixo-Alentejo e Serra do Algarve.

As costas eram feitas quando se cozia a “amassadura” da semana e que se efectuava por toda o concelho de Alcoutim até meados do século passado pois era a única maneira de se obter o precioso alimento (pão), base da alimentação destas gentes.

Depois de se amassar o pão, retirava-se uma pequena quantidade de massa que se voltava a amassar adicionando-se uma gordura, azeite ou banha conforme o gosto e disponibilidade económica. Com a gordura tornava-a massa mais tenra, juntando-se-lhe um pouco de farinha ficava mais consistente e própria para tomar uma forma parecida com a que a foto apresenta.

Coziam-se ao mesmo tempo que o pão e eram muito utilizadas para acompanhar o “café preto”.

Era esta a forma original de fazer “costas” que com o decorrer dos tempos foi sofrendo inovações, acompanhando a melhoria de condições económicas. Começou por juntar-se um pouco de açúcar e mesmo mel, tão próprio desta região. Hoje já lhe juntam variadíssimos paladares.

As costas que a foto apresenta não são “caseiras” mas sim semi-industriais, notando-se bem que existe diferença entre a que está ao centro e as que a rodeiam pois as mais claras têm um pouco mais de açúcar.

Todas as padarias regionais vendem este produto que é muito do agrado deste povo e acabam por ser todas diferentes umas das outras, havendo compradores para todas.

Quando passar por estes lados não deixe de provar esta “iguaria” local e pode ser que lhe agrade.

domingo, 15 de maio de 2011

O podão


[Podão dos nossos dias. Foto JV]
É uma ferramenta de uso agrícola não muito vulgar no concelho de Alcoutim, ainda que a foto apresentada demonstra bem a sua antiguidade e até a maneira tosca do seu fabrico, possivelmente local.

Apetrechada de várias formas de corte, adaptadas às necessidades, tem um pequeno cabo de madeira que possibilita uma pega mais segura e necessária para o seu manejamento eficiente.

Como o nome indica servia para efectuar o corte de ramos desnecessários proporcionando uma estrutura equilibrada da árvore e consequentemente uma melhor produção.

sábado, 14 de maio de 2011

Mito da Sexta-Feira 13



Englobado em A PALAVRA SEXTA À NOITE e numa louvável iniciativa dos funcionários da CASA DOS CONDES, na VILA DE ALCOUTIM teve lugar na última sexta-feira 13, pelas 21.30 h um convívio aberto a todos os que quisessem participar e subordinado ao tema que o título da “postagem” apresenta.

Aproveitou-se assim a circunstância de o dia 13 coincidir com uma sexta-feira o que se tornava num dia “verdadeiramente aziago” segundo a crença popular.

Cristina Ahrens fez uma pequena introdução lendo alguns conceitos explicativos provenientes de ancestrais mitologias.

Seguiu-se a troca de conhecimentos de superstições e crendices pretendendo-se indicar as existentes localmente mas que depois de alargou a vários pontos do país conforme a origem dos interlocutores.

Como é natural o diálogo derivou para outras áreas.

Os participantes que seriam cerca de doze foram convidados a tomar um chá de “erva-luísa”, muito usado por estas paragens acompanhado de doçaria regional.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Natal

A festa do nascimento de Cristo é comemorada desde o século IV, no dia 25 de Dezembro, por decisão do papa Júlio I. (1)

Penso que este dia nunca foi muito significativo para as gentes alcoutenejas - nunca o senti enquanto tive contacto directo com as populações - e quando procurei recuar nos tempos e ouvir as pessoas mais idosas, a minha opinião manteve-se.

O Natal de hoje e apesar da situação do concelho em vários aspectos, principalmente no geográfico e económico, perdeu as características que tinha e pauta-se muito pela informação que chega através dos meios de comunicação social e dos próprios familiares que trazem “coisas” novas.

Do Natal antigo, já pouco ou nada se usa, persistindo contudo “coisas” na lembrança dos mais idosos.

É no mês de Dezembro que os alcoutenenses matam o “sovão”, porquito de engorda, hoje quase desaparecido e muitas vezes aproveitavam para o fazer no dia de Natal ou nas vésperas para assim terem a casa mais farta. Moleja servida com sopas de pão e grandes fritadas nas sertãs eram um regalo.

Pessoas saudosas dos antigos tempos e que a vida já não lhes permite criarem o “sovão”, compram-no para matar.

Na chaminé era colocado um grande madeiro (tronco avantajado de boa madeira para brasas) que pudesse chegar até ao dia de Reis. Era o “cepo do Natal” que protegia contra os malefícios. Havia mesmo quem guardasse o tição para voltar a arder em ocasião de perigo. (2)




Também havia o hábito de fazer searinhas para adornar o presépio.

Cerca de quinze dias antes do Natal colocavam-se em pequenos recipientes sementes de trigo ou de outro cereal ligeiramente húmidas. A germinação fazia-se com rapidez dando origem a uma espécie de tapete, uma seara em miniatura. Havia quem, com os seus resultados previsse as futuras colheitas do ano.

Ainda recentemente (1996) uma avó preparava para os netos verem no presépio, as searinhas do Natal que certamente não conheciam mas que se tratava de uma reminiscência dos seus natais de criança. No seu tempo de criança as searinhas eram colocadas num pequeno altar onde se encontrava a figura do menino e a presença de várias laranjas dispostas em patamar.

A missa do galo era etapa indispensável e a que assistia muita gente.

O regresso a casa dava origem à tradicional ceia de Natal.

Na doçaria imperavam os “fritos”, como as empanadilhas, filhós de joelhos e de canudo e bolinhóis. Faziam-se também nógado, estrelas de figo e amêndoa e bolos de figo.



NOTAS
(1) - Lello Universal - Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro , 1975.
(2) –“ Um Natal Algarvio”, Carlos Guerreiro, Magazine Regional, nº 0, de Dezembro de 1992.