terça-feira, 19 de julho de 2011

Canga para bovinos



Depois de termos referido com as informações que nos foram possíveis, a canga de bestas, vamos falar hoje da destinada aos bois.

São muito diferentes tanto no formato como na matéria utilizada. Enquanto a das bestas é de ferro e de arcos bem acentuados, esta não passa de um tronco de árvore que o homem do campo viu com um feitio que se pudesse adaptar aos animais. Corta-o e procede ao seu ajustamento.

A que a fotografia apresenta é bem demonstrativa disso, notando-se contudo, a falta dos 4 canzis, ainda que lá se encontrem as suas entradas, paus entre os quais se mete o pescoço do boi. A fixação aos cornos dos animais era feita através de correias fabricadas de pele de boi sem ser curtida.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Lendas, contos e poesia



Com um formato de 14,5X21 cm e 149 páginas, engloba lendas, contos e poesia, como o título indica.

Apresenta logo no início a reprodução do primeiro mapa que conheço do concelho de Alcoutim, editado com sentido turístico.

Foi obra da Câmara Municipal presidida por Luís Cunha e publicado, se a memória não me atraiçoa, em 1968. Contém vários erros de que o nosso Amigo se penitenciava mas numa altura em que já não era possível a sua rectificação pois nesses tempos as coisas decorriam de uma maneira muito diferente das de hoje. De qualquer maneira foi dado o primeiro passo que consideramos importante e numa época em que não havia dinheiro para nada começando depois a haver dinheiro para muita coisa, incluindo o supérfluo.

O trabalho com ilustrações a preto e branco e capa a cores procura dar a conhecer e a preservar algumas estórias e lendas muitas das quais transmitidas através dos tempos apresentando naturalmente uma interpretação pessoal.

António Mestre teve a amabilidade de nos oferecer um exemplar do seu trabalho.

sábado, 16 de julho de 2011

Aldeia do Surf





Escreve


José Miguel Nunes




(PUBLICADO NO JORNAL PENICHE ONLINE EM 5 DE JULHO DE 2011)



Este ano fui à CONVENÇÃO SOU DE PENICHE, iniciativa organizada pela Câmara Municipal de Peniche.

Depois de cinco edições, foi a primeira vez que participei nesta iniciativa, vamos ver se não será a última. O sentimento com que de lá saí, e à semelhança de outras iniciativas do mesmo género a que já assisti, foi de alguma frustração, ou seja, na sua essência a ideia é bastante interessante, mas depois em termos práticos esse interesse desvanece-se, e estou a referir-me obviamente só à apresentação da ALDEIA DO SURF, que foi aquela a que assisti com mais atenção.

O projecto Aldeia do Surf, foi uma apresentação repartida entre a Câmara Municipal de Peniche e a Rip Curl Portugal, primeiro através do arquitecto municipal responsável pelo projecto, e numa segunda fase pelo responsável da Rip Curl. Achei uma apresentação demasiado generalista, com pouco foco. Não posso dizer que tenha saído de lá muito mais esclarecido do que quando entrei, mas talvez isso seja um problema meu.

Do que consegui retirar da explicação, fiquei a saber que este projecto pretende implementar-se em terrenos municipais na zona próxima ao CAR Surf, o que basicamente quer dizer, a reestruturação do Parque de Campismo Municipal, a possível reconversão do espaço hoje conhecido como Sportágua, e a construção de uma “megastore” da Rip Curl em terrenos próximos, é isto em termos muito gerais, porque a apresentação também o foi, a Aldeia do Surf. Para já é um projecto que na minha perspectiva pode ser muito interessante.

Vamos então tentar esmiuçar, dentro do possível, um pouco mais esta Aldeia do Surf.
Em primeiro lugar o nome Aldeia do Surf, que nas palavras do Sr. Presidente da Câmara poderá sofrer alteração, na minha opinião não valerá a pena, esta é uma excelente designação.

[Peniche. Sportágua. Foto JV, 2011]

Segundo, a reestruturação do Parque de Campismo Municipal. Era inevitável, com ou
sem Aldeia do Surf. Do que me pude aperceber, e aliás foi mencionado no decorrer da apresentação, pretende seguir uma linha muito próxima do existente na Ericeira, concordo, apesar de achar que há sempre lugar à inovação e à diferenciação. A oferta de alojamento e o aumento em termos de qualidade que proporcionará esta reconversão é sem dúvida importante (e esta é, ainda nas palavras do Sr. Presidente, uma das carências de Peniche, com a qual também concordo) para um projecto como este, no entanto na minha opinião não chega, pois os surfistas, ao contrário do que alguns ainda pensam e dizem, não procuram só este tipo de alojamentos, procuram também outros, nomeadamente hotéis, e existem dois ali bem perto, poderiam e deveriam também estes ser integrados nesta Aldeia do Surf com algum tipo de pareceria, que fosse de encontro aos desejos de maior conforto que alguns surfistas têm para as suas estadias, e que por outro lado abrisse o leque de futuros clientes a estas unidades hoteleiras.
Terceiro, Sportágua, bem quanto ao Sportágua não fiquei a saber nada de relevante, a não ser que se poderá pôr a hipótese de ser reconvertido e integrado na Aldeia do Surf. Também não é nada de extraordinário, pois é um espaço que tal como está obviamente não tem condições para continuar, é um espaço com potencialidades para poder ser aproveitado de uma outra forma, o conceito de “glamping” por exemplo seria bastante interessante e inovador integrado neste projecto e neste espaço.

Quarto, mega loja da Rip Curl. Ao que pude apurar, apostará na qualidade, pretendendo ser uma das melhores da marca na Europa, com variadíssimos espaços para além da loja em si, incluindo uma escola de surf. Se é importante, sim, acho que é, é sempre importante este tipo de infra-estruturas, mas é preciso ter alguma atenção. Não devemos esquecer que este tipo de empresas, e fruto das novas técnicas/tecnologias de mercado empregam muito poucas pessoas, não caíamos no erro de nos deslumbrarmos com o tamanho físico do projecto, facilitando mundos e fundos, que depois são muito desproporcionados relativamente às contrapartidas. Logicamente que não podemos falar só em empregos directos, seria no mínimo demagógico se o fizéssemos, mas tomando este caso como exemplo, a Rip Curl que está em Peniche há mais de vinte anos, emprega neste momento pouco mais de uma dezena de pessoas, e dessas apenas cerca de 28% são de Peniche. Se a nova mega loja empregar três vezes mais pessoas, e continuar na mesma proporção que tem actualmente, isto quer dizer que a criação de emprego para pessoas de Peniche se cifrará em cerca de oito postos de trabalho, o que na minha opinião é manifestamente pouco. Há sem dúvida aqui mais qualquer coisa a negociar com a Rip Curl.

[Peniche, Parque de Campismo. Foto JV, 2011]

É verdade que a Rip Curl com o seu campeonato do World Tour em Peniche trouxe uma visibilidade enorme à terra, e que essa visibilidade se traduzirá inevitavelmente num aumento de turistas, é verdade que a Rip Curl nos últimos três anos já investiu em Peniche (leia-se, quase na totalidade Rip Curl Pro Portugal) cerca de três milhões de euros, mas também é verdade que o retorno foi essencialmente para a marca, e isto porque a qualidade das ondas de Peniche permitiu que o campeonato fosse um sucesso, é verdade que é extremamente importante que a Rip Curl continue em Peniche, mas também é verdade que é importante que a Rip Curl tenha a noção que pode ser muito mais “solidária” no apoio que pode prestar em diversas áreas para que o surf possa ser muito mais sustentável e transformar-se na mais-valia que realmente pode ser na precária economia local.

Em jeito de conclusão, acho que a Aldeia do Surf, como já disse anteriormente, é
realmente um projecto muito interessante, no entanto é preciso ter muita atenção aos pormenores, tendo sempre muito presente que o activo que são as ondas de Peniche, e muito particularmente a onda dos Supertubos têm muito valor, tanto para a Rip Curl, como para outra marca qualquer que tenha o seu “core business” nesta área, e é isto que temos de potenciar na negociação das contrapartidas, o valor das nossas ondas.
O patamar negocial agora já é outro, bem diferente daquele de há três anos atrás.

Conhecidos já nós somos, o nível e a qualidade das nossas ondas já todos sabem qual é, essa parte está feita, agora precisamos de estabilizar e credibilizar o surf e todo o negócio que o envolve com apoios sustentáveis em várias áreas de intervenção.

Não podemos aceitar como contrapartida de construção de um imóvel em terrenos municipais (± 2.400m2) apenas mais ou menos dinheiro para a realização de um campeonato, que mais ano menos ano até pode rumar a outras paragens, pois essa decisão não está unicamente dependente da Rip Curl,... e mesmo que estivesse.

Se queremos realmente que o surf traga algo de muito positivo para o crescimento económico de Peniche, temos de ser mais incisivos e duros na negociação com aqueles que maior partido tiram do nosso património natural, que são as ondas, canalizando as contrapartidas para algo sustentável, de modo a que no futuro tenhamos uma rede bem montada de infra-estruturas, que nos permitam ficar cada vez menos dependentes das variações negociais próprias dos grandes grupos empresariais.

Podemos e devemos ter como base importante de trabalho aquilo que de bom já foi feito noutros lugares, mas por favor, inovemos e marquemos a diferença, esta Aldeia do Surf pode e deve ser diferente, esta Aldeia do Surf pode e deve ter a nossa marca. Já agora, e a título de remate, porque não mesmo uma aldeia, com ruas e casas em madeira, um parque de campismo (mais pequeno) lá no meio, os hotéis, zona de “glamping”, mega loja de surf, o CAR Surf, e quem sabe, mercearia, lojas de aluguer e arranjo de pranchas, … e por aí fora.

Volto a dizer, este projecto da Aldeia do Surf parece-me realmente muito interessante, mas mais interessante ficará se for diferente e inovador.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Demografia na Freguesia de Martim Longo em 1865

Pequena nota
Após termos analisado o que obtivemos através de pesquisa efectuada em documentos oficiais sobre o que aconteceu a nível demográfico na freguesia de Alcoutim em 1865 e que aqui já publicámos, tivemos curiosidade em saber o que se passou na freguesia de Martim Longo no mesmo período.
Aqui vos deixamos os elementos obtidos vistos por um prisma necessariamente não coincidente.

JV

[Martim Longo. Antiga Rua Direita, actual Antero Cabral]

Durante o ano de 1865 nasceram 78 crianças na freguesia de Martim Longo, enquanto faleceram 40, obtendo-se assim uma maioria para os nascimentos de 38, o que representa uma percentagem muito considerável.

Podemos anotar que nasceram 43 do sexo masculino sendo consequentemente 35 do feminino.

No espaço físico da freguesia só não houve nascimentos em Diogo Dias, Casa Nova do Pereirão, Pereirão e ainda na Arrizada. Todos os outros núcleos populacionais tiveram movimento, incluindo o há muito desabitado monte dos Relvais, onde nasceu Manuel, filho de José Lopes, lavrador e de Maria Rosa.

Estatisticamente verificámos que foi na aldeia que aconteceram mais nascimentos (21), seguindo-se o monte do Pessegueiro (10), Barrada (8), Santa Justa (6) e Castelhanos (5) o que confirma a importância que foram mantendo a nível local.

Não podemos deixar de referir o facto de que no já desabitado monte do Silgado durante o ano em análise nasceram (4) crianças, (o que começa a ser difícil acontecer em todo o concelho) acontecendo o mesmo em Monte Argil que está quase na mesmo situação habitacional. São por isso montes em que a desertificação já fez o seu trabalho e que se está a estender aos vizinhos.

Voltamo-nos agora para os óbitos onde naturalmente na aldeia aconteceu o maior número (10), seguido novamente do Pessegueiro (8), de Santa Justa (4) e de Pêro Dias e Lutão com (3).

Nos montes de Pêro Dias (-2), Lutão (-1), Gagos (-1) e Diogo Dias (-1) os óbitos foram superiores aos nascimentos.

Dos 40 óbitos registados, 15 foram de indivíduos até aos sete anos pelo que a mortalidade infantil era muito elevada, 37,5%.

Sem tomarmos em consideração os dados destes últimos, verifica-se que os homens faleceram com uma média de 64 anos e as mulheres com pouco mais de 46.

A nível de profissões que encontrámos referidas nos assentos, aparecem em maior número as ligadas ao cultivo da terra como lavradores e jornaleiros. Registamos também o “pastor de gado”, os vários oleiros de que a aldeia era fértil, sapateiros, alfaiates, ferreiros, pedreiros, albardeiros, um lojista (comerciante com loja) e quatro “molineiros”, todos de nome Rodrigues, Álvaro e Silvestre no Azinhal, José na Barrada e David no Pessegueiro. Será coincidência ou serão todos da mesma família?

Nunca nos tinha aparecido tal palavra nem escrita nem falada, mas não era difícil relacioná-la com moinho, molinhar que significa entre outras coisas moer aos poucos e a miúdo, pôr o moinho a funcionar.

Como sinónimo de moleiro encontrámo-lo no dialecto mirandês. Em espanhol é molinero.

É nítida, como acontece a tantas outras no concelho de Alcoutim, a influência da língua do país vizinho.

Para terminar apresentamos um quadro resumo do movimento operado.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Alcoutim perdeu um poeta

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 15 DE SETEMBRO DE 1994)



O nosso modesto trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (…) 1984, contou com a preciosa colaboração de dois poetas populares que nos confidenciaram a sua poesia.

João Madeira finou-se em 1987 com oitenta e dois anos e nessa altura fizemos publicar nestas páginas meia dúzia de palavras em sua homenagem.

Na sexta-feira passada, dia 2, o telefone tocou e voz embargada e soluçante de “velha” e comum amiga dava-nos a triste notícia do passamento do outro poeta e nosso querido amigo, Leonel Mariani Lorador que usava o pseudónimo de Luneta.

Leonel Lorador iniciou a sua vida como actor de teatro popular, percorrendo vilas e aldeias do sul do País. Tentou depois a carreira na capital onde não conseguiu singrar por falta de apoio e da sua maneira de ser.

Leonel era um idealista que nunca abdicou dos princípios que considerava básicos na formação do indivíduo.

Alheio ao “material” preferia alimentar-se das ideias.

Vimo-lo pela última vez há cerca de um ano e já se encontrava debilitado pela pertinaz doença que o veio a vitimar. Dificuldades de visão obrigavam-no ao uso de uma lente para ler o jornal. No nosso fugaz encontro não podia faltar a poesia, dizendo-nos alguns dos seus últimos poemas.

Todas as crianças tinham no seu coração sensível um lugar muito especial.

Data de 19 de Outubro de 1984 esta quadra muito simples. Sei que sou pessimista / Eu sei que nada sou / Eu sei que tenho vista / Mas não sei p`ra onde vou.

Leonel Mariani amava a natureza e é ela que consome a maioria da sua poesia.

Não sendo alcoutenejo pelo nascimento, era.o pelo coração e a poesia que lhe dedicou mostra-o claramente.

Finou-se no passado dia 30, com oitenta anos, em Lisboa, onde ficou sepultado.
Aqui desfolho, sobre a sua tumba, as pétalas da minha saudade.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Casa Nova, entre tantas do País, a da freguesia de Vaqueiros



Entre as muitas dezenas existentes no País, tanto no singular como no plural e não referindo outras formas compostas, há a Casa Nova da freguesia de Vaqueiros, concelho de Alcoutim.

Além de Portugal, é frequente na Galiza e no Brasil.

A origem e significado são evidentes e o problema reside na altura foram construídas a casa ou as casas (novas).

Esta Casa Nova já existia em 1758 pois é nesses termos que as Memórias Paroquiais a referem e na altura com dois vizinhos, havendo por isso, duas construções habitadas e que na altura a povoação era assim designada como hoje acontece. Esta Casa Nova tem mais de 250 anos.

Saber quando foi construída a casa que deu nome ao lugar é que não é fácil, pelo menos para nós.

Fica actualmente à beira da estrada municipal nº 505 e a pouca distância da linha divisória com a freguesia do Pereiro, pois a povoação seguinte, Soudes, que lhe fica a 1700 metros, já pertence àquela freguesia. Pouco depois entra-se na freguesia de Odeleite, concelho de Castro Marim sendo a primeira povoação a alcançar Furnazinhas, a 7 km.

O troço Casa Nova - Preguiça estava em execução e, 2001. (1)

A pequena povoação dispõe-se do lado esquerdo da estrada para quem vem no sentido Oeste / Este.

A placa toponímica, que a identificava quando a visitámos, estava muito velha e pouco perceptível.

Em 2009 foi construída a pequena estação elevatória de água. (2)

Segundo mapa inserido em documento municipal, em 2007 a água era distribuída por fontanários. (3)

Possuía lavadouro público, reconstruído em 2005 (4) e um local para recolha de passageiros devidamente protegido.

Painel de três caixas de correio pelo que os habitantes rondarão a meia dúzia.

Tem hoje (2011) 5 habitantes.

Dista da sede de freguesia 11 km e 27 da vila de Alcoutim, sede do concelho a que pertence.

NOTAS

(1) – Alcoutim, Revista Municipal nº 8, de Setembro de 2001, p 2
(2) - Alcoutim, Revista Municipal, nº 16, de Março de 2010, p 13
(3) - Alcoutim, Revista Municipal nº 14, de Janeiro de 2008, p 14
(4) – Alcoutim, Revista Municipal nº 12 de Dezembro de 2005, p 16

terça-feira, 12 de julho de 2011

A amêndoa, a riqueza perdida



O alcoutinense começou a sentir necessidade de tornar os terrenos mais rendíveis e ao mesmo tempo que se ia afastando dos gados e libertando da necessidade premente de semear hoje para comer amanhã, dedicou-se à amendoeira, semeando-a nos lugares onde tinha havido trigo e outros cereais, começando assim a aparecer extensos amendoais.

A invasão da plantação dos arvoredos algarvios, amendoeira, figueira e alfarrobeira, dá-se na primeira metade do século passado, constituindo o principal cuidado dos lavradores do vale do Guadiana, com especial incidência na freguesia de Alcoutim.

Nos anos vinte o concelho já figurava como produtor de figos e amêndoas. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira já indica a amêndoa como principal produção do concelho. As freguesias de Alcoutim e Vaqueiros, por esta ordem, eram as mais produtivas.

Estes arvoredos, plantados no xisto, têm em relação aos do litoral não só um ritmo de desenvolvimento muito mais lento, como um porte adulto bastante menor, donde deriva uma baixa produção unitária.

Em 1923, Alcoutim produzia 50 toneladas de amêndoa, ocupando o 7º lugar no Algarve.

Ao contrário do que sucede com a zona do litoral, plana ou pouco acidentada e onde a temperatura raras vezes desce a valores baixos, aqui o terreno é bastante acidentado, as baixas temperaturas observadas e as geadas frequentes tornam contingente a frutificação da grande maioria das castas.

Para uma melhor produção é necessário que se utilizem castas muito resistentes ou de floração bastante mais tardia e se escolham as exposições convenientes para as árvores.(1)

Oriunda da Ásia segundo uns, do Norte de África segundo outros, foi introduzida em Portugal pelos Árabes.



Frei João de S. José (2) refere-se à amêndoa do seguinte modo:-”A amêndoa no Algarve, é boa fazenda porque não requer algum adúbio (amanho), não apodrece com a chuva nem se toma de bicho, nem tem seu dono com ela mais gasto que varejá-la, quando ela mesmo por si se abre e despe a casca, na amendoeira”.

Quase tudo o que o frade refere tem plena aplicação nos nossos dias.

As amêndoas poderão classificar-se em três grandes grupos: as cocas, cuja casca é extremamente mole, as molares, que oferecem pouca resistência e as durázias, que custam a partir.

O miolo é mais ou menos doce ou então amargo. Este último é destinado ao fabrico de licores. As castas existentes são em grande número.

O alcoutinense semeou os seus amendoais de uma maneira muito primitiva, já que não tinha auxílios monetários e técnicos para o fazer melhor.

O burro abria o rego e a amêndoa ia caindo – foi assim que as sementeiras se fizeram!
O nascimento e desenvolvimento dependiam da natureza do terreno e da sua exposição, ainda que seja árvore de fácil adaptação.

Apesar de o poder fazer antes, o alcoutenejo lá para os quatro, cinco anos e quando a árvore já tinha um porte razoável, cortava-a na época própria (quando a árvore está a descansar) a uma altura de cerca de um metro e vinte. A “rebentação” dá-se com vigor e então fazia-se a enxertia de canudo, sistema extremamente fácil, rápido e eficiente. Escolhe-se a casta desejada e procura-se a pranta (planta), os ramos novos que dão casca, isto é, a parte interior, a “madeira”, já está suficientemente rija para que, depois de dois cortes circulares na pele (casca) na qual se encontre um “olho”, se extraia sem rachar um canudo, após um movimento rotativo.

Junto da árvore que se quer enxertar, escolhe-se um rebento cujo interior (madeira) se ajuste ao canudo. Esgaça-se então e antes de introduzir o canudo que deve ficar bem ajustado à madeira, é levemente cuspido para assim colar mais facilmente. Depois, apara-se o enxerto, isto é, cortam-se as pontas que não são necessárias.

Em cada pé (árvore), colocam-se dois ou três canudos em posição que possam formar uma boa copa.



Um ou dois meses depois é indispensável ir limpar os enxertos que consiste em ir matar (cortar) os rebentos bravos que naturalmente se desenvolvem mais do que os mansos e se não forem eliminados acabam por matar estes, já que lhe roubam a seiva.

Esta operação de limpeza faz-se as vezes que forem necessárias mas é preciso ter o cuidado de deixar alguns bravos que permitam uma melhor respiração da árvore.

É por vezes surpreendente o tamanho adquirido pelos ramos novos que num espaço de três meses atingem o comprimento de braços de homem, chegando a partir devido ao peso, perdendo-se assim.

A amendoeira, como já dizia Frei João, não necessita de muitos cuidados. Depois de árvore feita, uma limpeza e lavoura de tempos a tempos chegam-lhe.

A apanha faz-se de meados de Agosto a meados de Setembro, dependendo das condições climatéricas do ano e da mão-de-obra.

Manhã bem cedo, para aproveitar a fresquidão, homens e mulheres deslocam-se aos amendoais, onde as mulheres varejam as árvores com canas, fazendo cair os frutos mais resistentes. Era hábito provar sempre o fruto e se fosse amargo colocava-se uma pedra no tronco, marca suficiente para se fazer o corte para enxertia.

Aos homens cabe ensacar as amêndoas e transportá-las nos burros aos toscos armazéns que possuem perto das suas habitações. Fazem tantas carreiras quanto as necessárias. Quando o calor começa a apertar, regressa tudo a casa para almoçar e por vezes dormir a folga, após a qual se continua o trabalho, agora procedendo à pelagem daquelas que por qualquer razão não deixaram cair a pele.

Após a pelagem, põem-se ao sol um ou dois dias, e a seguir são ensacadas.

Pesadas ainda muitas vezes com balanças romanas, são vendidas às arrobas aos intermediários das redondezas.



Durante algumas décadas constituíram o principal rendimento do agricultor local para depois terem caído em preços irrisórios, estando o arvoredo completamente abandonado e acumulando as árvores em cima dois e três anos de produção!

A madeira da amendoeira, que é rija e oleosa, faz boas brasas para aquecimento.

O povo referia-se à amendoeira nesta quadra tradicional recolhida por Leite de Vasconcellos.


Adês, vila de Alcoutim
Cercada de amendoêras
Onde o mê amor passêa
Todas as quintas-fêras.


Hoje, já ninguém apanha uma amêndoa. Constitui uma riqueza perdida.


NOTAS

(1) – “Notas sobre as amendoeiras”, Boletim da Junta de Província do Algarve, 1940.
(2) - Corografia do Reino do Algarve , 1577.
(3) – Elucidário, Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Porto, 1965.

[Texto extraído da 2ª Edição de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), em preparação].

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Demografia na Freguesia de Alcoutim em 1865

[Igreja Matriz. Foto JV, 2009]
Desta vez foi a freguesia de Alcoutim o alvo da nossa atenção.

Fomos verificar os baptismos, 81, sendo 2 de crianças nascidas fora da freguesia, uma na vila de Olhão e outra no monte de Corte Serranos, freguesia de Martim Longo.

Quanto aos óbitos o seu número foi de 69. Verifica-se assim que nasceram mais 10 do que morreram.

Praticamente verificou-se movimento em todas as povoações da freguesia, ainda que em algumas só se tivessem ocorrido nascimentos (Cercado, Montinho das Laranjeiras, Balurco de Cima, Torneiro e Corte das Donas), enquanto noutras, (Deserto e Casa Velha só se verificaram óbitos.

O maior número de nascimentos aconteceu nas Cortes Pereiras (8) e isto sem contar com os verificados no S. Martinho (4), que é sempre apresentado como independente das Cortes Pereiras, por razões que fundamentámos em outras ocasiões.

Com 7 aparecem depois a Vila, Álamo, Guerreiros do Rio e Cerro. Se tomarmos em consideração que nas Laranjeiras nasceram 5 e no Montinho 1, verificamos que os “montes do rio” totalizam 20, o que demonstra um número razoável de habitantes sustentado com base no Guadiana a nível de pesca, transportes e riqueza agrícola das suas margens.

Em relação aos óbitos, é a Vila que encabeça com 15, apresentando assim uma diferença negativa de 8. Seguem-se em número de mortos as Cortes Pereiras com 12, Palmeira com 7, Álamo e Afonso Vicente com 4 cada.

Os dados obtidos podem-nos sugerir diversos olhares e isto conforme a disposição que na altura da observação tivermos.

[Apesar dos anos passados esta rua continua a existir em Alcoutim]

Atendendo a que nos aparece a designação toponímica de algumas artérias da vila, verificamos que na Rua Portas de Tavira, hoje desdobrada em Rua Dr. João Dias e Rua D. Sancho II, faleceram 6 indivíduos, enquanto na Rua da Conceição aconteceu o mesmo a 4 e nas Ruas da Boavista, da Igreja (actual 25 de Abril) e da Corredoura (actual Portas de Mértola) faleceu 1 em cada.

A supremacia da rua direita das Portas de Tavira como principal rua do velho burgo mais uma vez aqui aparece evidenciada apesar da porta há muito já não existir.

Verificaram-se 3 mortes “extramuros” da vila como nos termos lavrados se refere: uma no Rossio, outra nos Premideiros (hoje Premedeiros) de Cima e outra ocorrida às 6 da tarde do dia 21 de Junho “no moinho de vento, extramuros desta vila” e que já abordámos noutra entrada.

[Portão do cemitério. Foto JV, 2009]
Dos óbitos, 42% dizem respeito a indivíduos até aos 7 anos, o que representa um número bastante considerável. Sem tomar em conta estes, a média obtida por falecimento foi de 47,95 anos, o que nos tempos de hoje consideramos uns jovens.

O falecimento mais idoso teve lugar nas “Casas Brancas” (actual Casa Branca) na pessoa de Manuel Gomes Relógio aos 95 anos casado com Gertrudes Luísa, tendo deixado 6 filhos.

No monte da Casa Velha que presumimos ser próximo do Montinho das Laranjeiras e dizemos isto porque entre o Marmeleiro e o Torneiro existiu outro pequeno monte com a mesma designação, verificaram-se três óbitos em 1865.

Igualmente não nos passou despercebida a referência a expostos que iremos sintetizar.

Tendo sido encontrado à porta de Manuel Cotta, no monte de Corte Serranos, uma criança do sexo masculino a quem foi dado o nome de Francisco Caraciolo, veio a falecer com seis meses quando estava a cargo de Fortunata Rosa que vivia na Rua da Boavista, na vila de Alcoutim.

A outra criança do sexo masculino e que foi exposta na roda da vila, foi dado o nome de Miguel dos Anjos. Veio a falecer com cerca de um ano quando estava a cargo de Genoveva Maria.

Outro exposto, que veio a receber o nome de Tomé, teve lugar em Afonso Vicente e ficou a cargo de Felícia Martins à porta da qual teria sido deixado, segundo presumimos por falta de outra indicação.

Igualmente veio a falecer na vila de Alcoutim em casa de seus pais adoptivos, Luísa Maria, com cinco anos, que tinha sido exposta na Roda de Ayamonte.

Também enjeitada na Roda de Ayamonte, Gertrudes Eugénia falece com 6 anos em casa de seus pais adoptivos na Rua Portas de Tavira.

Igualmente se faz notar Manuel Conceição falecido em Santa Marta, com 73 anos, viúvo de Domingas Marta e que deixou treze filhos.

A nível de profissões além dos lavradores e jornaleiros em maior número, aparecem maiorais.

Relacionados com o rio, barqueiros e marítimos.

Ferradores, ferreiros e albardeiros, actividades ligadas aos animais de trabalho.

Alfaiates e pedreiros, sempre indispensáveis e até aparece um oleiro na vila, sinal de que nessa altura haveria ainda alguma olaria. Outras apareceram, mas foram estas que considerámos mais representativas da época.

Muitas mais ilações se podem tirar da pesquisa feita. Depende dos olhos de cada um.

domingo, 10 de julho de 2011

Quinta-feira de Espiga



Apresentamos mais uma fotografia cedida para esta rubrica pelo nosso amigo e colaborador Amílcar Felício que além de o fazer com a sua prosa e poesia também o faz nesta área de igual importância.

Vem rotulada como passeio ao campo em dia de espiga e no ano de 1953. Já se passaram uns anitos e nessa altura ainda havia gente em Alcoutim!

O que menos interessa para os nossos visitantes / leitores são os nomes das pessoas. Será mais importante reparar na maneira de trajar, nas várias faixas etárias e nos notórios ramos de espiga que se vêem no regaço das jovens, uma das quais reconheço nitidamente e moradora na vila.

O Dia da Espiga é (era) celebrado no dia de Quinta-feira da Ascensão de Norte a Sul do País com algumas pequenas variações mas sempre com o mesmo sentido sagrado e com reminiscências de cultos pagãos.

É considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se devia trabalhar, pois nele, acreditava-se “que havia uma hora em que tudo parava, as águas dos ribeiros não corriam, o leite não coalhava e o pão não levedava”.

Pelo menos da parte da tarde ninguém trabalhava e iam aos campos colher as plantas para “o ramo da espiga” e onde não faltava a espiga de trigo, que simbolizava o pão, o malmequer, o ouro e a prata, a papoila o amor, o raminho de oliveira em flor o azeite, a luz e a paz, e a videira o vinho e a alegria. Estas eram as mais tradicionais, mas havia quem lhe juntasse outras.

Era tradição que o raminho fosse pendurado atrás da porta principal da casa para que nela pudesse existir tudo aquilo que os vários componentes simbolizavam e só se retirava no ano seguinte com a substituição de um novo.

Era normal almoçar ou merendar no campo nesse dia.

Tudo isto hoje não passa de uma recordação já longínqua e que os jovens desconhecem de uma maneira geral.

sábado, 9 de julho de 2011

Crónicas Soltas - A huskvarna

Pequena nota

Apresentamos hoje mais um texto do nosso amigo e colaborador Daniel Teixeira que descreve com realismo e sabor picaresco as suas vivências em Alcaria Alta, monte da freguesia de Giões, concelho de Alcoutim, em meados do século passado.
Nessa altura, ainda a aldeia fervilhava de gente. Hoje está quase desabitada!


JV

(Publicado no Jornal Raizonline nº 106, de Fevereiro de 2011)







Escreve


Daniel Teixeira





Lembranças, recordações, saudades...são só as boas.
Tenho já falado por várias vezes nisto, aliás falo sempre nisto, desta forma, quando me refiro ao passado. Aquela parte do passado que nós vamos buscar nas nossas recordações é na sua larga parte o bom naco do tempo, a parte idílica, a parte melhor, o presunto, o cozido de couve, o arroz doce, ou mesmo as «nuvens» ou «sonhos» ou as filhoses, as empanadilhas com batata doce, o bom pão saído do forno e comido, logo ali, partido aos bocados com as mãos e mergulhado num prato de esmalte florido e decorado com mais um fundo de azeite bem verdinho e sal grosso.

Que belo momento meu deus, este do pão, que belo tempo, que bela lembrança, que coisa simples e que ideia nova que os montanheiros foram buscar: viver no simples, com meios simples e fazer deles, desses meios simples, dessas coisas simples, valorosos momentos: lembro-me bem do largo sorriso da minha mulher, citadina de gema, quando foi confrontada com esta inusitada merenda e este inusitado momento.•
Sentada nas pedras soltas da cerca - ela que ainda hoje tem medo das então abundantes lagartixas - e mandando também às urtigas os receios com a manutenção da «linha», era vê-la a molhar o pão e a rir como uma criança crescida. Pão quente com azeite e sal: quem se lembraria disso?

Pois...eles, os montanheiros, as mulheres dos montanheiros trouxeram esse momento desde o tempo dos seus avós e bisavós e mais que se lhe segue para trás : passavam homens e mulheres vindos das hortas chocalhando as asas dos baldes e a Ti Chica, a mulher do «tiro e queda», via o seu pão cozido a desaparecer mas não se importava: ela tinha tempo, com três filhas e meia dúzia de hortas para regar, marido sempre ausente no pastoreio, tinha tempo...naquele tempo ela tinha tempo. Hoje, já não (!)...ou tem todo o tempo do mundo.

A última vez que a vi, passados não muito largos anos, andava com um andarilho arrastando-se pela casa e era tão diferente, tão diferente, a Ti Chica, a mulher do «tiro e queda» ... O tempo é de facto um cavalo, como dizia o meu Tio Zé Teixeira, expressão que na altura e agora se compreende bem e talvez melhor por aqueles lados...pelos lados da serra. Anda muito depressa, o tempo, tão depressa que nem o vemos. Mas ele passa mesmo e deixa rastos bem vincados na terra e muito mais ainda nas pessoas.

O «tiro e queda», o marido da Ti Chica cujo nome real não me vem à memória tal a sua falta de ligação ao Monte, era pastor, daqueles pastores de grandes rebanhos, de centenas de cabeças. Durante os tempos que por lá andei ainda miúdo vi-o apenas uma vez, já de partida, calças repletas de remendos bem certinhos, como era uso, seifões de pele de ovelha acorreados na cintura e nas pernas, quatro ou cinco camisas e blusas «para não deixar entrar o calor» e o indispensável colete de bolsinhos elevados mostrando correntinhas de ferro presas nas botoeiras: canivete, bolsa de tabaco, isqueiro, carteirinha, tudo era preso à roupa por aqueles lados. Deixar cair alguma coisa era nunca mais a encontrar no meio das pedras, das ervas, do chão crestado ou enlameado, no emaranhado de estevas.

Corria as serras em busca de erva e uma ou duas vezes por ano ele e o rebanho acampavam em montes vizinhos de Alcaria Alta. Era quando ele vinha ao Monte e vinha ver a mulher: «dar o tiro» dizia-se por lá com ar de algum gozo.
Mas ele não tinha cara de merecer ser alcunhado, foi o que eu disse para mim quando o olhei bem: porte endireitado, ar sociável, quase contente por ver gente, pequenino mas ligeiro e rijo deu-me os bons dias sem nunca nos termos visto com um sorriso simpático e isso bastou - me para que ele ficasse a ser, para mim, ainda um miúdo a crescer na escola, um senhor, um senhor dos montes e das serras. Um navegador dos tempos secos, uma pessoa que vivia durante semanas de quase nada: pão, presunto, azeitonas, um ou outro tomate colhido numa horta ou a fruta raquítica daquelas paragens.

Talvez pescasse pensei...talvez em ratoeiras apanhasse coelhos, talvez, talvez...certo era para mim que ele não merecia ter aquela alcunha ou qualquer outra. «Tiro e queda»...mesmo que fosse: e era mesmo queda, depois do tiro.

Quer dizer a mulher ficava grávida ou pelo menos passados uns meses começava-se a notar a barriga na Ti Chica. Com pouco que falar para além de falar do trabalho estas coisas eram notadas, apontadas e maliciosamente faladas entre ela e as outras mulheres. «Ora...Ora!! Lá estão vocês!!» E ria a Ti Chica, como ela ria...
Teve «apenas» três filhas, contudo: a «fábrica» parou antes do tempo por causa daquelas coisas que acontecem às mulheres e só às mulheres depois de uma doença mais rebelde.•

Mais tarde, eu, casado de fresco, fiz centenas de fotografias daquele tempo e caso me tivesse esquecido de como era a Ti Chica e as suas filhas tinha sempre essa cábula: praticamente fotografava tudo o que mexia e o que não mexia; as hortas, apesar de pobres estavam bem decoradas de verdura, as árvores, mesmo as mais feias como as figueiras quase deitadas ou as alfarrobeiras, algumas centenárias, tinham sempre um pássaro ou alguma coisa que justificasse o clique.

Guardo essas fotografias todas num álbum: as moças da Ti Chica, de 14 / 15 anos, de jeans meia perna, tão bonitas que elas eram: uma de cabelos encaracolados louros, duas de cabelo castanho e ruivo. «Mal empregadas» naqueles montes, naquelas terras, regando hortas, indo ao poço, levando comida ao porco de engorda, tratando da lida da casa, cozendo roupa ou fazendo meia, vieram para a cidade...vejo uma de quando em vez: está tão velha cá como estaria lá apesar da relativa pouca idade.

Há tempos encontrei - ou fui antes encontrado - por um familiar da Ti Chica: trabalha num talho. Não me lembro dele lá mas lembro-me da mãe da Ti Chica e do padrasto de quem ele é sobrinho: a Ti Maria Joaquina, casada em segundas núpcias depois de enviuvar, de voz grossa, geria a casa: o marido já bastante mais velho que ela ainda percorria o monte apoiando-se num cajado. Moravam no Rossio...engraçado como uma Monte com tão pouca gente tinha tantos «bairros»: Era o Além, o Castelo, a Praça, a Portelinha e a Portela.

A Portelinha dava para sair para Santa Justa e lados de Vaqueiros; a Portela dava para sair para Giões, para Martinlongo por uma nesga de estrada e o resto a corta mato e mais que se encontrasse pelo caminho. O Além, o bairro do Além, era mesmo além, depois do Rossio. A Praça era mesmo uma praça, quer dizer um espaço empedrado vazio com uma fileira de casas só de um lado e duas outras em esquina. Por vezes aparecia a lógica: havia a Ti Mari Joaquina da Praça e a Ti Mari Joaquina do Rossio, esta a mãe da Ti Chica do Castelo.

Hoje nada mais por lá há: dizem-me que o Monte está mais arranjadinho, que os homens andaram a alcatroar as estradinhas e que roubaram a máquina de costura da minha avó: uma verdadeira antiguidade, uma relíquia, uma Huskvarna. Tac tac tac...tanta roupa que ela coseu, tanta costureira que ela ensinou...bem merece ter alguém que volte agora a cuidar dela.