sábado, 23 de julho de 2011

Poço dos Lagares ou Novo


[Cópia (pormenor) do livro de Duarte de Amas, Séc. XVI]

No Livro das Fortalezas de Duarte de Armas (Século XVI), na vista de Alcoutim tirada da banda do sul, pode ver-se um poço nas proximidades da capela de São Sebastião (hoje Capela do Cemitério), numa posição no vale que nos parece ser a do Poço dos Lagares. Se assim for, como pensamos, é bem velhinho. É claro que o cemitério só aparece séculos depois.

Em 1850 já existia com a primeira designação visto Manuel Roiz, desta vila, pedir licença para cercar um pequeno terreno dele e contíguo ao cercadinho de Pedro José Roiz, o que foi indeferido. (1)

Em 1889 já é conhecido pelo poço Novo e é decidido mandar aprofundá-lo, pelo menos, meio metro. (2)

Na toponímia existiu a Rua dos Lagares onde se situa a Casa dos Pobres e ainda há a Rua do Poço Novo.

Após a construção do cemitério nunca mais foi muito procurado.

Ao caminhar para os 500 anos de existência, acabou por ser “assassinado”.

NOTAS
(1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 20 de Fevereiro de 1850.
(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 19 de Agosto de 1889.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Residência do Capitão-mor



Quem alguma vez foi à Vila de Alcoutim não lhe passava despercebido tal edifício, tanto pela localização como pela imponência ou ainda pela utilização que teve durante cerca de um século, pois nele funcionaram a Repartição de Finanças e a Tesouraria da Fazenda Pública do concelho e mais tarde o posto da GNR.

Presumo que tivesse sido construído no século XVIII / XIX. Foi a Sra. D. Belmira Lopes Teixeira que vivia no prédio contíguo e não sei se lá não teria nascido que me contou, vai para quarenta e cinco anos, a estória do prédio que metia um capitão-mor de ordenanças que viria a ser assassinado pelos guerrilhas junto ao Monte de Afonso Vicente, onde foi levantado um calvário, local ainda hoje conhecido pela Portela da Cruz.

O pai ou o avô desta Senhora acabou por comprar parte dos bens deixados pelo assassinado que era originário da cidade de Tavira, de nome Aragão.

Edifício de dois pisos, impunha-se pela volumetria, telhado de quatro águas de telha de canudo, largas paredes, bem delineadas e equilibradas aberturas, trabalhos de argamassa, ainda que já adulterados e vistosas sacadas de ferro forjado, certamente obra de artesãos locais, encimadas nos vértices por pináculos de madeira.

Não havia outra na vila que se lhe comparasse, nem mesmo a chamada “Casa dos Condes” com um estilo diferente.

Ainda o conheci como propriedade particular, arrendado ao município mas nunca vi o proprietário que vivia numa cidade do litoral algarvio.

Recebia na altura uma ninharia de renda e acabou por vendê-lo por meio dúzia de tostões à Câmara Municipal, penso que isso aconteceu na presidência de Luís Cunha.

UMA RÉPLICA NUNCA FOI OU SERÁ UM RESTAURO, UMA RÉPLICA É UMA MENTIRA ESCONDIDA.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações VII





Escreve


Daniel Teixeira


O MEU PRIMO CALVO



Não vou dizer qual o nome dele até porque o meu primo já faleceu e embora a(s) sua(s) histórias e as histórias passadas com ele sejam interessantes acho que não justifica estar aqui a desvendar - nomeando o personagem - uma coisa, a calvície, que ele tão laboriosamente escondeu ao longo dos anos. Vou contar apenas um aspecto, hoje...penso continuar com histórias diferentes tendo-o como autor ou contador.
De reparar, desde logo, que o defino como calvo porque na verdade dentro de todo o seu saber, que tinha algum, e o seu sentido de humor, que tinha muito, é este o aspecto que mais me lembro dele no sentido de ter procurado sempre e não ter encontrado até hoje uma explicação plausível para tal trauma que em certas circunstâncias acabava até por ser paradoxal.

Internado no Hospital de Vila Real de Sto António (numa altura em que ainda lá havia hospital é claro) devido a doença cardíaca que acabou por o levar, após ter aguentado durante alguns anos (poucos) um AVC bastante forte que lhe retirou a capacidade de falar , o meu primo, mesmo no seu estado, tendo-lhe sido retirada a peruca pelo pessoal de saúde, acabou por optar por colocar um lenço quase em estilo feminino em volta da cabeça...para tapar a calvície.

Sei, por leituras que tenho feito, que o adorno capilar é desde há cerca de 5 mil anos um elemento importante para a auto-estima das pessoas e chega a funcionar até como indicador sexual...mas, sejamos honestos...perante uma evidência e uma irreversibilidade há que viver o melhor possível com o que se tem...não é por acaso que o chamado «capachinho» é por vezes gozado...o cantor Carlos do Carmo andou anos com capachinho até ter chegado à conclusão que estava a ser ridículo (nas suas próprias palavras). Bem, mas voltando ao meu primo que não cantava fados...

Diga-se, em abono da verdade, que no caso dele não era uma simples e modesta falta de cabelo, umas entradas, ou mesmo um cocuruto desguarnecido: o arraso feito pela natureza ao seu cabelo, provavelmente resultado de alguma medicação tomada ou de alguma doença tinha-lhe apenas deixado umas farripas junto às orelhas e na parte baixa anterior do crânio, uma verdadeira razia, verdade seja dita. Era um homem relativamente novo na altura que o conheci, talvez com 30/40 anos e trazia já consigo este problema quando se casou com uma prima irmã da minha mãe.

Agora que o tempo passou calculo o problema que terá sido para ele confessar, em período de namoro, a sua quase ausência capilar craniana. Pelos vistos a minha prima, fazendo parte do ramo «desportista» de família, terá ido para casa, após a despedida, rir perdidamente, não pelo facto do seu futuro marido ser careca mas, tal como eu, por ele dar uma importância quase doentia a isso. Acho que ele levou as duas irmãs em socorro e suporte no dia da confissão...

Eu não sabia de nada, durante muito tempo não dei por nada: aliás, acho que só fui confrontado verdadeiramente com isso na tal primeira visita que lhe fiz no Hospital de Vila Real, embora já soubesse por via da minha mãe. Só que não pensava que a coisa fosse tão grave, quer dizer, que o complexo tivesse aquelas características.
Na verdade, íamos à pesca, à lapa, com água até à cintura e lá estava ele de chapéu na cabeça calcando a peruca: sentávamo-nos à mesa e lá ficava ele de chapéu na cabeça, embrenhava-se nos troncos para apanhar alfarroba, amêndoas ou azeitonas e...chapéu sempre. Um dia apanhei-o a dormir numa eira, era a hora da calma e vi a rapidez com que ele, ainda estremunhado, jogou a mão ao chapéu com peruca inclusa. Nem deu tempo para eu ver...o que eu vi foi um golpe de rins para encontrar o chapéu que tinha caído durante a soneca e acabei por pedir desculpa por o ter assustado como pensei que tinha feito.

Fora isso e mesmo com isso era um excelente homem, com um sentido de humor notável, bom contador de anedotas, sapateiro de profissão acabei por lhe guardar algum rancor temporário por me ter lixado umas botas que eu adorava, simplesmente. Eram daqueles botins afunilados na ponta, uma compra da moda, botas de andar suave, tacões ruidosos, afiveladas e naquela altura quase dormia com elas, passe a expressão.
Tive um acidente com uma pedra ao jogar um pontapé numa imaginária bola e para além de ter ficado com os dedos doídos acabei por descoser um niquinho na ponta da bota direita. Não há problema...o primo é sapateiro, ele passa aí uns fios, mete um bocado de cola (naquele tempo a cola tudo era feita de farinha) e está resolvido o assunto...pensei.

Mas pensei mal...o olhar minucioso do técnico torceu o nariz e fez aquele olhar que só se vê actualmente em mecânicos de automóvel «amigos» : um olhar único, uma expressão de quem está muito, mas mesmo muito para além de nós em termos de conhecimento: breve, ele viu o problema em toda a sua abrangência...aquela bota não era uma bota descosida, era um universo a desmoronar...por isso nada de pontos e cola só...a bota nunca ficaria boa e a durar...deixasse eu que ele tratava. E tratou, grátis como sempre por ser para mim...

[Vila Real de Sto. António. Praça marquês de Pombal. Foto JV, 2011]

Meteu a bota na forma, levou dois ou três dias de volta dela e entregou-ma com um sorriso de satisfação: era um bom trabalho, perfeito mesmo, luzidias vinham as duas como que saídas da fábrica: só que a que ele arranjara trazia a ponta redonda, tipo bota cardada. A outra mantinha a ponta em bico...só tinha sido engraxada. Acho que não se deve chorar por estas coisas...ao fim e ao cabo esta vida são dois dias...mas interiormente consegui conjugar um agradecimento com uma enxurrada de lágrimas.
Perdi a botas afuniladas, únicas, umas botas que quase faziam parte de mim...No dia em que ele faleceu, eu e um outro primo meu, fomos fazer-lhe uma visita a Vila Real ainda. Parecia estar melhor...falámos alguma coisa, nós, ele sorria e ria...pediu-me por gestos para lhe levantar o almofadão atrás das costas: respirava melhor assim - e fez os gestos todos: apalpou no peito, respirou fundo. No dia seguinte recebemos a notícia de que ele tinha falecido meia hora depois de o deixarmos.

O meu companheiro de viagem a Vila Real, supersticioso e homem de benzeduras aventou-me dias depois que «se a gente não o tivesse ido visitar se calhar ele não morria já.»

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A figueira, uma referência do Algarve



A figueira dá-se bem em terras áridas mas onde haja sol.

Foi da melhor “fazenda” que o algarvio do litoral teve e alcançou determinada expressão económica no concelho de Alcoutim durante alguns anos onde foi árvore de certa preferência.

O figo algarvio sempre teve grande nome, principalmente seco.

Os figos poderão dividir-se em dois grandes grupos, os brancos e os pretos ou “pintos”.

Comem-se frescos ou secos e com eles fabrica-se também aguardente.

O primeiro figo a aparecer é o lampo sendo a primeira camada pelo São João e só se come fresco. Em meados de Agosto amadurecem os que se conservam pela secagem.

Reconhece-se o momento em que se devem colher pela inclinação que toma o fruto pois que o figo que até então se mantinha numa posição sensivelmente horizontal, inclina-se quando está maduro.

A figueira é uma árvore que pouco sofre com as variações atmosféricas, mas o seu fruto pode ser destruído pelas chuvas. Por outro lado, requer algum cuidado, sendo indispensável a cava para a sua manutenção. Reproduz-se por estaca e enxertia de borbulha.

A apanha do figo efectua-se de meados de Agosto a meados de Setembro, o que corresponde à da amêndoa e da alfarroba. Varejam-se igualmente com canas e põem-se ao sol a secar em caniços ou “passeiras” feitas de palha de centeio ou junco.

Punha-se água a ferver em tachos grandes de zinco onde se deitava funcho. Os figos secos acamavam-se numa canastra e assim entravam e saíam quantas as vezes necessárias no caldeiro quando a água fervia.



Após os escaldões escorrem-se, armazenando-se em caixotes, arcas ou canastras. Entre as várias camadas põe-se funcho e ervas doces. Sobre a última assenta pesada pedra para que os figos fiquem bem acamados e não se estraguem.

O figo seco era muito utilizado como alimento, principalmente quando se saía para o campo. Os de inferior qualidade davam-se às bestas.

À época da secagem chamavam os mouros, alacil. (1)

As margens do Guadiana eram o local privilegiado para a plantação de figueiras e havia exemplares de grande porte. Hoje ninguém planta uma.
.

Nota
(1) – Elucidário, Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Porto, 1965, p.289

terça-feira, 19 de julho de 2011

Canga para bovinos



Depois de termos referido com as informações que nos foram possíveis, a canga de bestas, vamos falar hoje da destinada aos bois.

São muito diferentes tanto no formato como na matéria utilizada. Enquanto a das bestas é de ferro e de arcos bem acentuados, esta não passa de um tronco de árvore que o homem do campo viu com um feitio que se pudesse adaptar aos animais. Corta-o e procede ao seu ajustamento.

A que a fotografia apresenta é bem demonstrativa disso, notando-se contudo, a falta dos 4 canzis, ainda que lá se encontrem as suas entradas, paus entre os quais se mete o pescoço do boi. A fixação aos cornos dos animais era feita através de correias fabricadas de pele de boi sem ser curtida.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Lendas, contos e poesia



Com um formato de 14,5X21 cm e 149 páginas, engloba lendas, contos e poesia, como o título indica.

Apresenta logo no início a reprodução do primeiro mapa que conheço do concelho de Alcoutim, editado com sentido turístico.

Foi obra da Câmara Municipal presidida por Luís Cunha e publicado, se a memória não me atraiçoa, em 1968. Contém vários erros de que o nosso Amigo se penitenciava mas numa altura em que já não era possível a sua rectificação pois nesses tempos as coisas decorriam de uma maneira muito diferente das de hoje. De qualquer maneira foi dado o primeiro passo que consideramos importante e numa época em que não havia dinheiro para nada começando depois a haver dinheiro para muita coisa, incluindo o supérfluo.

O trabalho com ilustrações a preto e branco e capa a cores procura dar a conhecer e a preservar algumas estórias e lendas muitas das quais transmitidas através dos tempos apresentando naturalmente uma interpretação pessoal.

António Mestre teve a amabilidade de nos oferecer um exemplar do seu trabalho.

sábado, 16 de julho de 2011

Aldeia do Surf





Escreve


José Miguel Nunes




(PUBLICADO NO JORNAL PENICHE ONLINE EM 5 DE JULHO DE 2011)



Este ano fui à CONVENÇÃO SOU DE PENICHE, iniciativa organizada pela Câmara Municipal de Peniche.

Depois de cinco edições, foi a primeira vez que participei nesta iniciativa, vamos ver se não será a última. O sentimento com que de lá saí, e à semelhança de outras iniciativas do mesmo género a que já assisti, foi de alguma frustração, ou seja, na sua essência a ideia é bastante interessante, mas depois em termos práticos esse interesse desvanece-se, e estou a referir-me obviamente só à apresentação da ALDEIA DO SURF, que foi aquela a que assisti com mais atenção.

O projecto Aldeia do Surf, foi uma apresentação repartida entre a Câmara Municipal de Peniche e a Rip Curl Portugal, primeiro através do arquitecto municipal responsável pelo projecto, e numa segunda fase pelo responsável da Rip Curl. Achei uma apresentação demasiado generalista, com pouco foco. Não posso dizer que tenha saído de lá muito mais esclarecido do que quando entrei, mas talvez isso seja um problema meu.

Do que consegui retirar da explicação, fiquei a saber que este projecto pretende implementar-se em terrenos municipais na zona próxima ao CAR Surf, o que basicamente quer dizer, a reestruturação do Parque de Campismo Municipal, a possível reconversão do espaço hoje conhecido como Sportágua, e a construção de uma “megastore” da Rip Curl em terrenos próximos, é isto em termos muito gerais, porque a apresentação também o foi, a Aldeia do Surf. Para já é um projecto que na minha perspectiva pode ser muito interessante.

Vamos então tentar esmiuçar, dentro do possível, um pouco mais esta Aldeia do Surf.
Em primeiro lugar o nome Aldeia do Surf, que nas palavras do Sr. Presidente da Câmara poderá sofrer alteração, na minha opinião não valerá a pena, esta é uma excelente designação.

[Peniche. Sportágua. Foto JV, 2011]

Segundo, a reestruturação do Parque de Campismo Municipal. Era inevitável, com ou
sem Aldeia do Surf. Do que me pude aperceber, e aliás foi mencionado no decorrer da apresentação, pretende seguir uma linha muito próxima do existente na Ericeira, concordo, apesar de achar que há sempre lugar à inovação e à diferenciação. A oferta de alojamento e o aumento em termos de qualidade que proporcionará esta reconversão é sem dúvida importante (e esta é, ainda nas palavras do Sr. Presidente, uma das carências de Peniche, com a qual também concordo) para um projecto como este, no entanto na minha opinião não chega, pois os surfistas, ao contrário do que alguns ainda pensam e dizem, não procuram só este tipo de alojamentos, procuram também outros, nomeadamente hotéis, e existem dois ali bem perto, poderiam e deveriam também estes ser integrados nesta Aldeia do Surf com algum tipo de pareceria, que fosse de encontro aos desejos de maior conforto que alguns surfistas têm para as suas estadias, e que por outro lado abrisse o leque de futuros clientes a estas unidades hoteleiras.
Terceiro, Sportágua, bem quanto ao Sportágua não fiquei a saber nada de relevante, a não ser que se poderá pôr a hipótese de ser reconvertido e integrado na Aldeia do Surf. Também não é nada de extraordinário, pois é um espaço que tal como está obviamente não tem condições para continuar, é um espaço com potencialidades para poder ser aproveitado de uma outra forma, o conceito de “glamping” por exemplo seria bastante interessante e inovador integrado neste projecto e neste espaço.

Quarto, mega loja da Rip Curl. Ao que pude apurar, apostará na qualidade, pretendendo ser uma das melhores da marca na Europa, com variadíssimos espaços para além da loja em si, incluindo uma escola de surf. Se é importante, sim, acho que é, é sempre importante este tipo de infra-estruturas, mas é preciso ter alguma atenção. Não devemos esquecer que este tipo de empresas, e fruto das novas técnicas/tecnologias de mercado empregam muito poucas pessoas, não caíamos no erro de nos deslumbrarmos com o tamanho físico do projecto, facilitando mundos e fundos, que depois são muito desproporcionados relativamente às contrapartidas. Logicamente que não podemos falar só em empregos directos, seria no mínimo demagógico se o fizéssemos, mas tomando este caso como exemplo, a Rip Curl que está em Peniche há mais de vinte anos, emprega neste momento pouco mais de uma dezena de pessoas, e dessas apenas cerca de 28% são de Peniche. Se a nova mega loja empregar três vezes mais pessoas, e continuar na mesma proporção que tem actualmente, isto quer dizer que a criação de emprego para pessoas de Peniche se cifrará em cerca de oito postos de trabalho, o que na minha opinião é manifestamente pouco. Há sem dúvida aqui mais qualquer coisa a negociar com a Rip Curl.

[Peniche, Parque de Campismo. Foto JV, 2011]

É verdade que a Rip Curl com o seu campeonato do World Tour em Peniche trouxe uma visibilidade enorme à terra, e que essa visibilidade se traduzirá inevitavelmente num aumento de turistas, é verdade que a Rip Curl nos últimos três anos já investiu em Peniche (leia-se, quase na totalidade Rip Curl Pro Portugal) cerca de três milhões de euros, mas também é verdade que o retorno foi essencialmente para a marca, e isto porque a qualidade das ondas de Peniche permitiu que o campeonato fosse um sucesso, é verdade que é extremamente importante que a Rip Curl continue em Peniche, mas também é verdade que é importante que a Rip Curl tenha a noção que pode ser muito mais “solidária” no apoio que pode prestar em diversas áreas para que o surf possa ser muito mais sustentável e transformar-se na mais-valia que realmente pode ser na precária economia local.

Em jeito de conclusão, acho que a Aldeia do Surf, como já disse anteriormente, é
realmente um projecto muito interessante, no entanto é preciso ter muita atenção aos pormenores, tendo sempre muito presente que o activo que são as ondas de Peniche, e muito particularmente a onda dos Supertubos têm muito valor, tanto para a Rip Curl, como para outra marca qualquer que tenha o seu “core business” nesta área, e é isto que temos de potenciar na negociação das contrapartidas, o valor das nossas ondas.
O patamar negocial agora já é outro, bem diferente daquele de há três anos atrás.

Conhecidos já nós somos, o nível e a qualidade das nossas ondas já todos sabem qual é, essa parte está feita, agora precisamos de estabilizar e credibilizar o surf e todo o negócio que o envolve com apoios sustentáveis em várias áreas de intervenção.

Não podemos aceitar como contrapartida de construção de um imóvel em terrenos municipais (± 2.400m2) apenas mais ou menos dinheiro para a realização de um campeonato, que mais ano menos ano até pode rumar a outras paragens, pois essa decisão não está unicamente dependente da Rip Curl,... e mesmo que estivesse.

Se queremos realmente que o surf traga algo de muito positivo para o crescimento económico de Peniche, temos de ser mais incisivos e duros na negociação com aqueles que maior partido tiram do nosso património natural, que são as ondas, canalizando as contrapartidas para algo sustentável, de modo a que no futuro tenhamos uma rede bem montada de infra-estruturas, que nos permitam ficar cada vez menos dependentes das variações negociais próprias dos grandes grupos empresariais.

Podemos e devemos ter como base importante de trabalho aquilo que de bom já foi feito noutros lugares, mas por favor, inovemos e marquemos a diferença, esta Aldeia do Surf pode e deve ser diferente, esta Aldeia do Surf pode e deve ter a nossa marca. Já agora, e a título de remate, porque não mesmo uma aldeia, com ruas e casas em madeira, um parque de campismo (mais pequeno) lá no meio, os hotéis, zona de “glamping”, mega loja de surf, o CAR Surf, e quem sabe, mercearia, lojas de aluguer e arranjo de pranchas, … e por aí fora.

Volto a dizer, este projecto da Aldeia do Surf parece-me realmente muito interessante, mas mais interessante ficará se for diferente e inovador.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Demografia na Freguesia de Martim Longo em 1865

Pequena nota
Após termos analisado o que obtivemos através de pesquisa efectuada em documentos oficiais sobre o que aconteceu a nível demográfico na freguesia de Alcoutim em 1865 e que aqui já publicámos, tivemos curiosidade em saber o que se passou na freguesia de Martim Longo no mesmo período.
Aqui vos deixamos os elementos obtidos vistos por um prisma necessariamente não coincidente.

JV

[Martim Longo. Antiga Rua Direita, actual Antero Cabral]

Durante o ano de 1865 nasceram 78 crianças na freguesia de Martim Longo, enquanto faleceram 40, obtendo-se assim uma maioria para os nascimentos de 38, o que representa uma percentagem muito considerável.

Podemos anotar que nasceram 43 do sexo masculino sendo consequentemente 35 do feminino.

No espaço físico da freguesia só não houve nascimentos em Diogo Dias, Casa Nova do Pereirão, Pereirão e ainda na Arrizada. Todos os outros núcleos populacionais tiveram movimento, incluindo o há muito desabitado monte dos Relvais, onde nasceu Manuel, filho de José Lopes, lavrador e de Maria Rosa.

Estatisticamente verificámos que foi na aldeia que aconteceram mais nascimentos (21), seguindo-se o monte do Pessegueiro (10), Barrada (8), Santa Justa (6) e Castelhanos (5) o que confirma a importância que foram mantendo a nível local.

Não podemos deixar de referir o facto de que no já desabitado monte do Silgado durante o ano em análise nasceram (4) crianças, (o que começa a ser difícil acontecer em todo o concelho) acontecendo o mesmo em Monte Argil que está quase na mesmo situação habitacional. São por isso montes em que a desertificação já fez o seu trabalho e que se está a estender aos vizinhos.

Voltamo-nos agora para os óbitos onde naturalmente na aldeia aconteceu o maior número (10), seguido novamente do Pessegueiro (8), de Santa Justa (4) e de Pêro Dias e Lutão com (3).

Nos montes de Pêro Dias (-2), Lutão (-1), Gagos (-1) e Diogo Dias (-1) os óbitos foram superiores aos nascimentos.

Dos 40 óbitos registados, 15 foram de indivíduos até aos sete anos pelo que a mortalidade infantil era muito elevada, 37,5%.

Sem tomarmos em consideração os dados destes últimos, verifica-se que os homens faleceram com uma média de 64 anos e as mulheres com pouco mais de 46.

A nível de profissões que encontrámos referidas nos assentos, aparecem em maior número as ligadas ao cultivo da terra como lavradores e jornaleiros. Registamos também o “pastor de gado”, os vários oleiros de que a aldeia era fértil, sapateiros, alfaiates, ferreiros, pedreiros, albardeiros, um lojista (comerciante com loja) e quatro “molineiros”, todos de nome Rodrigues, Álvaro e Silvestre no Azinhal, José na Barrada e David no Pessegueiro. Será coincidência ou serão todos da mesma família?

Nunca nos tinha aparecido tal palavra nem escrita nem falada, mas não era difícil relacioná-la com moinho, molinhar que significa entre outras coisas moer aos poucos e a miúdo, pôr o moinho a funcionar.

Como sinónimo de moleiro encontrámo-lo no dialecto mirandês. Em espanhol é molinero.

É nítida, como acontece a tantas outras no concelho de Alcoutim, a influência da língua do país vizinho.

Para terminar apresentamos um quadro resumo do movimento operado.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Alcoutim perdeu um poeta

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 15 DE SETEMBRO DE 1994)



O nosso modesto trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (…) 1984, contou com a preciosa colaboração de dois poetas populares que nos confidenciaram a sua poesia.

João Madeira finou-se em 1987 com oitenta e dois anos e nessa altura fizemos publicar nestas páginas meia dúzia de palavras em sua homenagem.

Na sexta-feira passada, dia 2, o telefone tocou e voz embargada e soluçante de “velha” e comum amiga dava-nos a triste notícia do passamento do outro poeta e nosso querido amigo, Leonel Mariani Lorador que usava o pseudónimo de Luneta.

Leonel Lorador iniciou a sua vida como actor de teatro popular, percorrendo vilas e aldeias do sul do País. Tentou depois a carreira na capital onde não conseguiu singrar por falta de apoio e da sua maneira de ser.

Leonel era um idealista que nunca abdicou dos princípios que considerava básicos na formação do indivíduo.

Alheio ao “material” preferia alimentar-se das ideias.

Vimo-lo pela última vez há cerca de um ano e já se encontrava debilitado pela pertinaz doença que o veio a vitimar. Dificuldades de visão obrigavam-no ao uso de uma lente para ler o jornal. No nosso fugaz encontro não podia faltar a poesia, dizendo-nos alguns dos seus últimos poemas.

Todas as crianças tinham no seu coração sensível um lugar muito especial.

Data de 19 de Outubro de 1984 esta quadra muito simples. Sei que sou pessimista / Eu sei que nada sou / Eu sei que tenho vista / Mas não sei p`ra onde vou.

Leonel Mariani amava a natureza e é ela que consome a maioria da sua poesia.

Não sendo alcoutenejo pelo nascimento, era.o pelo coração e a poesia que lhe dedicou mostra-o claramente.

Finou-se no passado dia 30, com oitenta anos, em Lisboa, onde ficou sepultado.
Aqui desfolho, sobre a sua tumba, as pétalas da minha saudade.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Casa Nova, entre tantas do País, a da freguesia de Vaqueiros



Entre as muitas dezenas existentes no País, tanto no singular como no plural e não referindo outras formas compostas, há a Casa Nova da freguesia de Vaqueiros, concelho de Alcoutim.

Além de Portugal, é frequente na Galiza e no Brasil.

A origem e significado são evidentes e o problema reside na altura foram construídas a casa ou as casas (novas).

Esta Casa Nova já existia em 1758 pois é nesses termos que as Memórias Paroquiais a referem e na altura com dois vizinhos, havendo por isso, duas construções habitadas e que na altura a povoação era assim designada como hoje acontece. Esta Casa Nova tem mais de 250 anos.

Saber quando foi construída a casa que deu nome ao lugar é que não é fácil, pelo menos para nós.

Fica actualmente à beira da estrada municipal nº 505 e a pouca distância da linha divisória com a freguesia do Pereiro, pois a povoação seguinte, Soudes, que lhe fica a 1700 metros, já pertence àquela freguesia. Pouco depois entra-se na freguesia de Odeleite, concelho de Castro Marim sendo a primeira povoação a alcançar Furnazinhas, a 7 km.

O troço Casa Nova - Preguiça estava em execução e, 2001. (1)

A pequena povoação dispõe-se do lado esquerdo da estrada para quem vem no sentido Oeste / Este.

A placa toponímica, que a identificava quando a visitámos, estava muito velha e pouco perceptível.

Em 2009 foi construída a pequena estação elevatória de água. (2)

Segundo mapa inserido em documento municipal, em 2007 a água era distribuída por fontanários. (3)

Possuía lavadouro público, reconstruído em 2005 (4) e um local para recolha de passageiros devidamente protegido.

Painel de três caixas de correio pelo que os habitantes rondarão a meia dúzia.

Tem hoje (2011) 5 habitantes.

Dista da sede de freguesia 11 km e 27 da vila de Alcoutim, sede do concelho a que pertence.

NOTAS

(1) – Alcoutim, Revista Municipal nº 8, de Setembro de 2001, p 2
(2) - Alcoutim, Revista Municipal, nº 16, de Março de 2010, p 13
(3) - Alcoutim, Revista Municipal nº 14, de Janeiro de 2008, p 14
(4) – Alcoutim, Revista Municipal nº 12 de Dezembro de 2005, p 16