sábado, 30 de julho de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações VIII





Escreve


Daniel Teixeira



A FILHA DO CHICO ARTUR

Alcaria Alta e toda a parte nordeste do Algarve, de uma forma geral, era e é, penso eu, por mais flores que se coloquem em ajeitamento do cabaz, um meio extremamente pobre…e era pobre até para os mais ricos (se é que este termo se pode utilizar).
No estudo – que já aqui referi em crónicas anteriores – comparando a zona raiana de Portugal com a zona vizinha de Espanha, para além da divisão da propriedade ser abissalmente diferente, para além dos pólos populacionais serem eles também abissalmente mais numerosos e maiores em Espanha havia também estatísticas sobre gado. Este era em maior quantidade por exploração em Espanha mas sobretudo no que interessa agora com maior e diferente variedade nas espécies.

O número do gado de pastoreio pode representar duas coisas: de um lado uma maior ou menor riqueza das culturas de solo espontâneas ou não ou inversamente a falta de concentração numérica por exploração e logo a inviabilidade ou dificuldade em ter gado de estábulo, ainda que com apoio do pastoreio mesmo sendo o solo rico.

Os nordestinos algarvios tinham, nesse estudo, um número desproporcionado de gado de pastoreio na sua relação com o gado de estábulo, sobretudo ovelhas e muito longe depois vinham as cabras.

Os rebanhos de ovelhas, ou mistos de ovelhas e cabras que eu conheci atingiam por vezes várias centenas de cabeças. Contudo eram rebanhos associados na sua maior parte: quer dizer havia por exemplo 300 cabeças de três ou quatro donos que dividiam entre si a responsabilidade de pagar ao pastor (que por vezes ele mesmo tinha as suas cabeças no conjunto). O gado porcino, de estábulo e pequeno pastoreio sobretudo de bolotas, era em número residual e pelo que sei era sobretudo de exploração familiar para engorda caseira.

[Rebanho de ovelhas com o seu pastor. Foto JV, 2009]

Ora, um dia, e vindo dos lados da serra de Tavira, e quando eu me deslocava para uma hortinha que tínhamos algures para os lados do Ribeirão, vi uma vez passar um rebanho de porcos para aí com mil cabeças, talvez. Todos sensivelmente do mesmo tamanho – e logo da mesma idade – iam para a Feira de São Marcos, conduzidos por um único pastor e dois cães. O homem ia nas calmas, os cães ao seu lado e ele a meio da cabeça e de olho na frente e nos guias do rebanho.

Olhava para trás, de quando em vez dava um assobio a marcar a sua presença e lá iam eles os porquinhos, em fila compassada, com semi-trote nas perninhas. Durante o tempo que levaram a passar por mim, sensivelmente meia hora, nem uma única vez o pastor ou os cães tiveram de intervir o que me fez ficar a reflectir sobre a diferença entre estes porcos e aqueles que eu e meus amigos filhos de lavradores levávamos a pastar até à Ribeira da Foupana.

Nós ficávamos literalmente de bofes de fora até chegar ao sítio do poiso nosso e porcino, tínhamos de saltar barrancos e cercados, voltar atrás buscar alguns atrasados, proteger as zonas de cultivo, enfim: pensei que bom era que os «nossos» porcos enfileirassem assim como aquele ordenado rebanho pelo menos 30 vezes maior que o nosso.

Pastávamos cerca de 30 indisciplinadas cabeças, marrões e parideiras, seus descendentes de semi – mama e candidatos aos postos dos pais ou não. Eram, na caminhada, uns baldas os nossos porcos. Se não se dissesse que os porcos (e os animais em geral) não pensam nem têm emoções, diria que eles se sentiam livres e gozavam a sua liberdade.

Levavam a maior parte dos dias nos pocilgos, ganindo desalmadamente com fome…a sua função era reproduzirem-se e recebiam como alimento o correspondente à sua utilidade imediata. Não havia nem vontade nem dinheiro que permitisse uma fuga humanitária que metesse um pouco mais de papa nas gamelas…era aquilo a que se chama de vida de cão aplicada a porcos.

[Feira de S. Marcos no Pereiro, 2011. Foto de JV]

Sempre vi por lá, por aquela região toda, uma cultura mental não propriamente resultante de escassez no limite mas sobretudo de calculada contenção: os tempos tinham ensinado que os objectivos pretendidos eram cumpridos assim, daquela maneira, e logo…não se ia mais longe.

Os porcos de engorda, quase imobilizados em espaços pequenos, comiam e dormiam e engordavam por vezes não muito: o falhanço ou a glória do maior ou menor peso era atribuído à qualidade do porco, à sorte na escolha, ao calor do verão mas nunca à falha alimentar.

O primeiro empreendedor no ramo animal a sério, mas dentro dos limites calculáveis pelo ambiente geral que conheci no monte foi o Chico Artur – natural do Pereiro e casado com a Ti Inácia. Sobre o seu envolvimento na produção animal e sobretudo na porcina e na porcino - javalinesca e de aviário falarei noutra altura. Tinha uma visão empresarial menos conservadora que os locais de nascimento em geral mas no seu final parece-me ter sido ultrapassado pelo peso da realidade. Um sonhador (?) talvez...
Tinham dois filhos cujos nomes não vou referir, mas vou lembrar uma miúda de oito/ dez anos, amorosa mesmo, de tez um pouco sardenta e cabelo louro que a minha mulher adorava. Tinha uma face linda e uns olhos azuis toldados por alguma melancolia já. Eram boas companheiras…conversaram bastante durante alguns anos quando lá íamos e a escola estava sempre presente como tema.

Sentadas no poial que bordava a fronteira da casa (loja, habitação e armazém numa só enfiada) ou sentadas no lance de escadas que dava acesso à loja lá as deixava eu e lá ia buscar a mulher passado tempo. Esperta ria-se da ignorância da minha mulher em relação às coisas do campo e acabavam rindo as duas.

A miúda dava de comer aos porcos e galinhas e ajudava na lida da casa e da mercearia / taberna. Como toda a gente deveria dizer, de fora do monte e mesmo a gente do monte, entre quem tinha ideia ou consciência das perspectivas de vida por lá, nós dizíamos também que era uma pena uma miúda assim estar condenada já àquela vida. Pelo que se via em termos de estudos permitidos dificilmente ela passaria da escola primária e era a antecipada visão daquela miúda, atrás de um balcão da mercearia e taberna, de lenço escuro enrolando os caracóis e chapéu na cabeça que quase aterrorizava.

O tempo passou, como passa sempre.

O filho do Chico Artur teve alguns problemas de saúde e calhou a ficar internado numa unidade onde a minha mulher trabalhava na altura. Um dia ele recebeu uma visita: a irmã.

Esta imediatamente reconheceu a minha mulher e voltaram a conversar. Conversaram muito de novo. Não era fácil o caso do irmão, sabia eu já e sabia ela também. Tudo se iria arranjar, disseram entre si...mas não se arranjou. Há coisas que se compõem e coisas que não se compõem. Ela, a miudinha sardenta e loura conhecia uma outra face da medalha da vida.

«Está quase igual ao que era lá…trabalha na Suíça. Muito fina no trato, de brinquinhos pequeninos e cordãozinho de ouro discreto…está uma senhora, uma verdadeira senhora ainda menina. Está quase igual…fiquei tão contente!».
Eu também...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

No Pinhão



A Câmara Escura de hoje vai recuar setenta anos no tempo. Representa um grupo de Senhoras que então viviam em Alcoutim devido à profissão dos esposos.

Notam-se D. Cecília Lopes Dias, esposa do Dr. João Francisco Dias e D. Marina Ramos Themudo, esposa do Secretário de Finanças de então, José Themudo. Sei que uma das outras Senhoras era a esposa do oficial que comandava a Secção da Guarda-Fiscal.

Entre as crianças e junto de sua mãe, o saudoso Fernando Lopes Dias que veio a presidir à Comissão Administrativa da Câmara Municipal após o 25 de Abril e ao colo da sua, Marina Ramos Themudo que veio a ser professora universitária na Universidade de Coimbra e que nos facultou com a sua amizade a fotografia. Bem-haja por isso.

Apesar das condições técnicas da altura serem ainda muito rudimentares, pode notar-se nitidamente o Guadiana e a sua margem.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A alfarrobeira, talvez a mais interessante árvore "algarvia"



A alfarrobeira (ceratonia siliqua L) é uma árvore originária da região mediterrânica que pode atingir 20 metros de altura.

Folhas persistentes e paripinuladas com folíolos ovalados de entre seis e dez e cujo fruto, a alfarroba, (do árabe Al.harruba) é uma vagem, primeiro verde e depois acastanhada e que pode atingir 25 cm de comprimento.

Pensa-se que foi trazida pelos gregos da Ásia Menor e teria sido introduzida em Portugal pelos árabes, assim como o teriam feito em Espanha e no norte de África.

A alfarrobeira que gosta de áreas secas e soalheiras dá-se no sul do país, nomeadamente no Algarve e zonas confinantes do sul do Baixo-Alentejo.

A parte mais valiosa do fruto é a semente que se utiliza na indústria farmacêutica, alimentar e cosmética.
A polpa tem sido essencialmente utilizada na alimentação animal e a sua farinha é usada como antidiarreico.
Ultimamente utiliza-se como substituta do cacau no fabrico de chocolate. São conhecidos actualmente os saborosos licores a que dão origem.
A sua destilação origina aguardente.
A floração dá-se entre Fevereiro e Abril e a apanha entre Agosto e Setembro.

Naturalmente que esta árvore também existe no concelho de Alcoutim, penso que em maior número nas freguesias de Alcoutim e de Vaqueiros, mas em todo o concelho se encontram e algumas com portes consideráveis, principalmente nas proximidades do Guadiana.

São árvores que se destacam pelo seu volume, configuração da copa e pela oferta de excelentes e sadias sombras.

Ainda que normalmente altas, varejam-se facilmente com uma cana pois o fruto é relativamente volumoso e quando maduro cai ao mais leve toque. Apanham-se bem pela mesma razão.

O seu desenvolvimento é lento mas seguro e é considerável a sua longevidade.

Como tem raiz aprumada, de espigão, como diz o povo, não é fácil de transplantar como acontece por exemplo à oliveira, mesmo já bem adulta.

Nascendo espontaneamente aqui no concelho, o homem enxerta-a de borbulha, mas segundo tenho sido informado, requer alguma perícia e conhecimento pois não pegam com facilidade.

Em meados do século passado alguns agricultores começaram a fazer viveiros, enchendo sacos de plástico com estrume bem curtido e onde introduziam uma semente inchada devido a ter sido posta de molho. Esta acção era feita para acelerar a germinação.

Não são árvores que requeiram grande poda.

Em 1962 a Herdade da Malhada situada na freguesia de Vaqueiros é considerada a maior do concelho, dos seus 289 hectares, 60 constituindo a maior parte, era de alfarrobal.
Na recente florestação do concelho, árvores próprias da região como a alfarrobeira e a azinheira foram preteridas em relação ao pinheiro por este ter um desenvolvimento muito mais rápido mas certamente com os inconvenientes próprios causados pela menor adaptação à região.

Nos últimos anos o fruto valorizou imenso pelo que é dos poucos frutos que ainda se apanha,
mas mesmo assim muitos ficam nas árvores e quando caem são aproveitados pelos animais selvagens ou pelo gado.

Além da região mediterrânica as alfarrobeiras dão-se no Egipto, no Sudoeste dos Estados Unidos, no Hawai, na Austrália e ainda na África do Sul.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Arrizada, pequena povoação de topónimo curioso



Outro pequeno “monte” que faz parte da freguesia de Martim Longo e que se situa a 40 km da sede do concelho a que pertence.

Fica próximo da estrada nº 124 e no sentido Norte/Sul do seu lado esquerdo e a que se chega através de um pequeno troço de estrada asfaltada de 800 metros, que recebeu reparação em 2006. (1)

O topónimo apresenta-se muito confuso. Começa pela escrita. Enquanto uns o escrevem com um Z, nomeadamente a Câmara Municipal, outros grafam-no com S como se faz no Novo Dicionário Corográfico de Portugal, de A.C. Amaral Frazão, 1981.

Não encontrámos nada escrito sobre o assunto. Arrizar é termo náutico ou seja, atar com os rizes, meter nos rizes, segurar com cordas e não nos parece que tenha aqui qualquer sentido. Admitimos que a sua origem poderá estar em risa (espanhol) que o alcoutenejo muito utiliza em substituição de riso. Dar risada, segundo o Dicionário do Falar Algarvio (2) é expressão algarvia que significa: dar festa, dar vontade de rir, dar risa.

Se a origem for esta, parece-nos que o topónimo deveria ser escrito com S.

Nas Memórias Paroquiais (1758), o pároco de Martim Longo escreveu Monte da Rizada.

Em 1960 alcançou o máximo da população, 43 habitantes, descendo na década seguinte para 25 e 23 em 1981.

Os elementos que possuímos para 1991 atribuem-lhe 24 habitantes. Actualmente serão cerca de metade, caminhando, como a maioria do concelho para a extinção.

A electrificação ocorreu em 1985, na mesma altura dos seus vizinhos do Barroso e das Mestras. (3)

Possuiu distribuição de água por fontanários que foram suprimidos em 2004 para a mesma ser levada aos domicílios.(4)

Os arruamentos foram pavimentados em 1993. (5)

As crianças, quando existiam, frequentavam a escola de Corte Serranos, distante 2,5 km.

Martim Longo fica-lhe a 10 km de distância,


NOTAS
(1) – Alcoutim, Revista Municipal nº 13 de Dezembro de 2006, p. 15
(2) - 2ª Edição, 1996, Eduardo Brazão Gonçalves.
(3) - Jornal do Algarve de 5 de Dezembro de 1985.
(4) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 11 de Janeiro de 2005, p 9
(5) - Boletim Municipal nº 12 de Abril de 1993

terça-feira, 26 de julho de 2011

Festa no Zambujal (Vaqueiros)



Apresentamos hoje a todos os possíveis interessados o programa do XIII ALMOÇO DOS NATURAIS E AMIGOS DO ZAMBUJAL que vai ter lugar, SÁBADO, 6 DE AGOSTO DE 2011 e numa organização da ASSOCIAÇÃO AMIGOS DO ZAMBUJAL.

O programa mostra-se variado e irá certamente originar um convívio agradável entre naturais e visitantes.

Estas pequenas festarolas que se vão realizando por todo o concelho são uma tentativa de alguns dos seus filhos ainda que fisicamente ausentes procurarem, pelo menos num dia do ano revitalizarem os seus montes numa tentativa de manter uma pequena chama de vida.

Enquanto nalguns esses encontros anuais já se extinguiram, noutros a perseverança dos seus naturais vai-os mantendo. Até quando?

O Zambujal foi sempre um dos mais importantes montes da freguesia de Vaqueiros e mesmo do concelho de Alcoutim

Aproveitamos para agradecer o convite formulado.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

50 000 VISITAS !



Mais uma meta alcançada.

Chegámos hoje às 50 MIL VISITAS um número que para nós não supúnhamos obter em tão curto espaço de tempo, ou seja 3 Anos, 1 Mês e 2 Dias.

As últimas 10 mil visitas foram as mais rápidas de obter pois passaram-se apenas 3 meses e 28 dias, o que originou uma média diária de 84,74 (visitas) pelo que o gráfico continuou a subir.

Em referência às anteriores 10 mil, houve um aumento diário de 5,38 já que a média anterior tinha sido de 79,36.

Mais cinco visitas / dia é um aumento considerável.

Desde o início, a média diária cifra-se agora em 43,97.

O número de “postagens” com esta perfaz 846 pelo que a média desde o início é de 0,74 / Dia.

O número de países que nos visitaram é de 80, mais nove dos que o tinham feito quando alcançámos as 40 mil.

Portugal ocupa um pouco mais de 80% e é significativa a percentagem do Brasil (13,3), E.U.A (1,9) e da França com (0,9) tendo ultrapassado recentemente a Espanha.

Os cinco TEMAS mais movimentados são os seguintes: Câmara Escura (81), Etnografia (79), Escaparate (68), Ecos da Imprensa (55) e Especiais (47).

O rumo que traçámos continua a ser seguido sem qualquer alteração de fundo e assim se irá manter até à sua extinção

O ALCOUTIM LIVRE É CADA VEZ MAIS CONHECIDO E VISITADO.

Continuamos a defender o que escrevemos na nossa primeira “postagem”:

A minha principal preocupação é tornar esta vila e este paupérrimo concelho mais conhecido no que respeita ao passado, mas nunca descurando o presente porque ser pobre, não é defeito e os pobres, no sentido económico, podem ser ricos em muitas outras áreas. Por outro lado é preciso defender as suas “riquezas” muitas vezes adulteradas e colocadas em plano secundário, por interesses economicistas ou por pura e simples ignorância!

Nunca é demais ter uma palavra de agradecimento para os visitantes / leitores pela sua constância nas visitas, pelo interesse algumas vezes manifestado e pela divulgação que têm feito do mesmo.

Sem eles, não existia o ALCOUTIM LIVRE.

Juntamos um gráfico explicativo.


domingo, 24 de julho de 2011

Relações de trabalho no Alcoutim de antigamente...





Escreve



Amílcar Felício




Logo que os homens se sedentarizaram desde tempos imemoriais, que se sentiram atraídos para fazer trocas de bens para satisfação das suas necessidades básicas. Na realidade a alteração do modo de vida dos homens de nómadas para sedentários, levaria ao desenvolvimento da agricultura o que permitiu a criação de excedentes que proporcionavam aquelas trocas.

Naqueles tempos e sem qualquer equivalência de valor, quem tinha excesso de caça trocava com quem tinha excesso de peixe, de milho ou de outro produto qualquer – era o chamado escambo – mas naturalmente que por vezes acontecia que quem tinha peixe a mais e não precisava de caça ou de outros produtos no momento, tal circunstância impedia qualquer tipo de transação ou de troca.

Assim, foi crescendo a necessidade da existência de um bem ou de alguns bens que pela sua utilidade geral e durabilidade interessassem a todos, independentemente das suas necessidades de momento. Estava-se ainda longe do vil metal – o dinheiro – e assim surgiu o gado principalmente o bovino e o sal, que passaram a constituir os primeiros tipos de moeda/mercadoria e que permitiriam aos homens fazer todo o género de trocas em qualquer momento.

Aqueles excedentes proporcionados pelo desenvolvimento da agricultura, criariam por arrasto a necessidade da responsabilização de uns tantos elementos da comunidade quer para a guarda dos bens excedentários, quer para a defesa do próprio grupo. Contudo, com este simples gesto os homens estavam a por em marcha a criação do próprio Estado com toda a complexidade de que se reveste hoje. Naturalmente de que ao longo dos séculos, o Estado acabaria por se transformar não só no defensor dos bens da comunidade, como também no defensor dos interesses e das ideias de quem lhe pagava: os donos dos bens.



E se reflectirmos um pouco mais, verificaremos que o Estado foi assumindo uma tal importância em todas as áreas, que se tornaria com o correr dos tempos no principal aparelho ideológico dos valores daquelas classes, construindo uma autêntica teia de influências que percorrem a sociedade até às entranhas, fazendo passar aqueles interesses particulares pelos interesses mais gerais de toda a comunidade.

De facto desde o Ensino aonde se começa a ensinar a cartilha, aos Meios de Comunicação Social criadores e propagandistas de falsos símbolos e ídolos tipo Sonho Americano (american way of life), aos Tribunais que julgam e condenam os prevaricadores, ao Exército e às Polícias que garantem a manutenção do sistema ou àqueles que prometem uma vida de felicidade e abastança no além, para os que sofrem cá na terra etc., etc., etc., é um nunca mais acabar de tentáculos que como um verdadeiro polvo abraçam e sufocam toda a comunidade.

Na realidade naquele processo de trocas primitivas e de funções várias que os diversos elementos da comunidade iam exercendo, os diferentes interesses em causa foram-se cristalizando e os homens foram-se dividindo, acabando uma boa parte da comunidade com o passar dos séculos por ficar sem nada para trocar a não ser a sua força de trabalho e assim, passaram a ser considerados eles próprios também uma mercadoria.



Era o início da escravatura. Vendiam-se as terras juntamente com os escravos, pois faziam parte do património. Contudo, num longo processo de muitas centenas senão milhares de anos a partir das grandes revoltas dos últimos séculos antes de Cristo, os escravos iniciariam a sua luta pela libertação completa do jugo dos Senhores e com o evoluir dos tempos os seus descendentes, socialmente já homens livres mas economicamente ainda dominados, foram trocando o único bem que tinham herdado – a sua força de trabalho – por um salário.

Se referimos este passado da alvorada da humanidade é porque aquelas duas moedas/mercadorias – o gado e o sal -- marcariam definitivamente todo o nosso arsenal de conceitos até aos nossos dias. Paga-se a quem trabalha com um salário, isto é nem mais nem menos do que simbolicamente com sal, pois o conceito de salário tem origem precisamente na palavra sal. Assim como a palavra gado que vem do latim pecus viria a dar conceitos como pecúnia/pecuniário (dinheiro), ou peculium (gado miúdo tipo ovelha) que viria a dar pecúlio, ou capital que vem de capita ou seja cabeça (de gado).

Ao fim destes milénios todos, claro que o Senhor Estado se tornou num velho gordo a rebentar pelas costuras, debochado e sem qualquer tipo de preconceitos pois já nem se encontra às escondidas com a sua Bela e Alta Finança, mas já se apresentam descaradamente de braço dado e à luz do dia. Basta referir essa Troika Financeira que anda por aí e que põe e dispõe como quer e lhe apetece, às Fundações e Institutos Públicos que nascem como cogumelos para os amigos do Poder, às diversas Empresas Públicas super-deficitárias ou às desastrosas Parcerias Público-Privadas, ao escabroso regabofe do BPN com ex-ministros de antigos governos e à Nacionalização do Buraco Financeiro pelo governo de então etc., etc., etc.

Ou então verifiquemos por curiosidade esse casamento Estado/Finança, analisando o momento actual e o corrupio de ex-ministros e ministros dos governos mais recentes – uns que partem outros que chegam – para as (ou das) grandes empresas ou grupos financeiros de referência nacionais e internacionais, para não mencionar as dezenas de tristes casos praticados pelos Senhores do Estado a que fomos assistindo ao longo destes anos por esse país fora. Enfim, de quatro em quatro anos lá se vão zangando as comadres e lá vamos sabendo mais umas quantas verdades, mas a realidade é que por lá vão continuando ora umas ora outras, sempre para bem do Povo e de Portugal claro.

Mas... já chega de falar de sucata e voltemos aos nossos homens da antiguidade. Estes pelo menos já não nos dão problemas!
Com a descoberta do metal, dar-se-ia um passo de gigante nas relações/transações entre os homens por apresentar enormes vantagens nas trocas e assim, foram substituídos como moeda/mercadoria quer o gado, quer o sal. Inicialmente o metal foi usado como moeda de troca no seu estado natural, principalmente o ouro e a prata.


Foram os gregos quem corporizou o conceito de moeda, dando-lhe a forma de moedas cunhadas com as características que têm hoje. As primeiras moedas cunhadas surgiram efectivamente no século VII a.C. na Grécia em ouro e em prata. Foi na Grécia também – berço da democracia e da civilização actual – os primeiros que compreenderam as fraquezas da natureza humana contrapondo aos poderes oligárquicos vigentes até então e com tendência a corromperem-se, o mais amplo poder do povo, constituindo dos poucos momentos da história do homem aonde se chegou a praticar a democracia directa apesar de algumas limitações culturais da época, visto que estavam excluídos de tais direitos as mulheres, os escravos e os estrangeiros. E isto há quase 3 milénios atrás imagine-se!

Até parece que a Europa mais conservadora com epicentro na Alemanha nunca mais lhes perdoaria a ousadia apesar de tanto tempo passado, sofisticando-lhe os produtos que eles próprios tinham criado com tanta imaginação para facilitar as relações entre os homens e fazendo o seu ajuste de contas alguns milénios depois, dando-lhes a beber o veneno -- agora muito mais refinado -- que eles próprios tinham inventado. Ironia do destino!

Finalmente na Idade Média era costume guardarem-se os valores nos ourives que negociavam ouro e prata passando este, certo tipo de prova escrita daquela operação ou seja um recibo. Estes recibos passaram a ser usados como formas de pagamento. Estava descoberta a nota ou seja o papel/moeda.

Vem toda esta longa conversa a propósito de sociedades aonde a circulação de dinheiro é escassa e nas formas que os homens foram inventando e usando nas suas relações/transações. Em Alcoutim dos anos 40/50 e 60 o dinheiro era um bem escasso e pouco circulava na altura. Lembro-me de alguns camponeses pagarem as suas dívidas do ano na mercearia apenas depois da venda das colheitas. Verdade seja dita que a inflação era uma doença inexistente na época e assim eram permitidos créditos de quase um ano.

De facto havia relações de trabalho muito estranhas naqueles tempos em Alcoutim e as formas de pagamento tinham muitas vezes certas especificidades também. Vejam só: era habitual pagar-se a quem apanhava a azeitona, a alfarroba mas principalmente a amêndoa ao quarto (penso que ainda se chegou a pagar ao quinto), depois ao terço e por último já se pagava a meias. Isto quer dizer que um quarto, um terço ou metade da produção era paga em produto àqueles a quem se tivesse contratado a apanha respectiva. E a percentagem ia variando e aumentando para os jornaleiros na medida em que a oferta de mão-de-obra ia diminuindo com o correr dos tempos, crescendo naturalmente a parte dos apanhadores/jornaleiros até se chegar a metade para cada uma das partes. E note-se que se tratava de pagamento a jornaleiros e não a caseiros ou rendeiros o que já seria mais compreensível.

Mas aquela relação de pagamento não se ficaria por ali. De facto quando a lei da oferta e da procura entraram francamente em ruptura com menos mão-de-obra disponível, inverteu-se o processo, começando o proprietário por receber primeiro ao terço, depois ao quarto e agora naturalmente já ninguém recebe nada, pois ninguém já apanha o que quer que seja, exceptuando uma ou outra azeitona claro. Era a lógica do sistema a funcionar em pleno, embora paga em géneros. Contudo, se analisarmos este tipo de pagamento concluiremos que era bastante cínico, pois criava a falsa ilusão de que todos eram proprietários e assim, quanto mais depressa se apanhasse a amêndoa ou a azeitona mais rendia o dia! Ficava contente o jornaleiro que ganhava mais, ficava descansado o patrão que não se preocupava com a produtividade no trabalho.


Desculpem-me lá os meus queridos conterrâneos, mas sempre estive convencido de que em Alcoutim nunca abundou muita iniciativa empresarial no sentido de fazer novas coisas, conceber novas actividades, abrir novos horizontes etc., etc., etc. Claro de que não posso colocar o rabinho de fora e terei que me penitenciar também, pois nunca fiz nada em Alcoutim. Afinal de contas sou um alcoutenejo de “puro sangue”, mas isto não invalida que não tenhamos uma opinião crítica sobre nós próprios.

Pelo contrário, existia uma imaginação prodigiosa para criar mais valias, que não se ficava atrás do Champalimaud mais refinado da época. O princípio do sistema estava bem assimilado não há dúvida, faltava apenas dar o 2º passo: criar novas actividades. Analisemos só este requinte quando aquela forma de pagamento em produto referido anteriormente, começava a dar raia em desfavor do proprietário. Este baralhava de novo os dados do problema inventando inovadoras propostas e confundindo completamente o comum dos mortais: o proprietário “dava” as suas colheitas a quem contratasse a apanha e “comprava” posteriormente ao jornaleiro por exemplo a amêndoa já descascada a 1 escudo o quilo se bem me lembro! Extraordinário refinamento que o capitalismo mais evoluído só lá chegaria com algo semelhante em termos de prática massiva nos anos sessenta: o pagamento à peça!

Trás-os-Montes e as Beiras são duas regiões que me parecem estrutural e socialmente muito semelhantes a Alcoutim. Por isso procurei indagar junto de alguns beirões e transmontanos amigos conhecedores da vida nos anos 50/60 naquelas regiões, mas que se mostraram completamente desconhecedores destas relações de trabalho que se praticavam em Alcoutim nos anos 40/50 e 60 do século passado.

Existiram de facto naquelas regiões práticas comunitárias de entreajuda, naturalmente por se tratar de pequena propriedade, a que chamavam de “torna-jeira” ou “tornas” e que consistiam num “contracto pelo qual os jornaleiros se ajudavam mutuamente no trabalho da terra” (Grande Dicionário da Porto Editora). Fica a pergunta: serão genuinamente alcoutenejas ou algarvias no mínimo, algumas relações de trabalho que se praticaram em Alcoutim em meados do século passado?

sábado, 23 de julho de 2011

Poço dos Lagares ou Novo


[Cópia (pormenor) do livro de Duarte de Amas, Séc. XVI]

No Livro das Fortalezas de Duarte de Armas (Século XVI), na vista de Alcoutim tirada da banda do sul, pode ver-se um poço nas proximidades da capela de São Sebastião (hoje Capela do Cemitério), numa posição no vale que nos parece ser a do Poço dos Lagares. Se assim for, como pensamos, é bem velhinho. É claro que o cemitério só aparece séculos depois.

Em 1850 já existia com a primeira designação visto Manuel Roiz, desta vila, pedir licença para cercar um pequeno terreno dele e contíguo ao cercadinho de Pedro José Roiz, o que foi indeferido. (1)

Em 1889 já é conhecido pelo poço Novo e é decidido mandar aprofundá-lo, pelo menos, meio metro. (2)

Na toponímia existiu a Rua dos Lagares onde se situa a Casa dos Pobres e ainda há a Rua do Poço Novo.

Após a construção do cemitério nunca mais foi muito procurado.

Ao caminhar para os 500 anos de existência, acabou por ser “assassinado”.

NOTAS
(1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 20 de Fevereiro de 1850.
(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 19 de Agosto de 1889.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Residência do Capitão-mor



Quem alguma vez foi à Vila de Alcoutim não lhe passava despercebido tal edifício, tanto pela localização como pela imponência ou ainda pela utilização que teve durante cerca de um século, pois nele funcionaram a Repartição de Finanças e a Tesouraria da Fazenda Pública do concelho e mais tarde o posto da GNR.

Presumo que tivesse sido construído no século XVIII / XIX. Foi a Sra. D. Belmira Lopes Teixeira que vivia no prédio contíguo e não sei se lá não teria nascido que me contou, vai para quarenta e cinco anos, a estória do prédio que metia um capitão-mor de ordenanças que viria a ser assassinado pelos guerrilhas junto ao Monte de Afonso Vicente, onde foi levantado um calvário, local ainda hoje conhecido pela Portela da Cruz.

O pai ou o avô desta Senhora acabou por comprar parte dos bens deixados pelo assassinado que era originário da cidade de Tavira, de nome Aragão.

Edifício de dois pisos, impunha-se pela volumetria, telhado de quatro águas de telha de canudo, largas paredes, bem delineadas e equilibradas aberturas, trabalhos de argamassa, ainda que já adulterados e vistosas sacadas de ferro forjado, certamente obra de artesãos locais, encimadas nos vértices por pináculos de madeira.

Não havia outra na vila que se lhe comparasse, nem mesmo a chamada “Casa dos Condes” com um estilo diferente.

Ainda o conheci como propriedade particular, arrendado ao município mas nunca vi o proprietário que vivia numa cidade do litoral algarvio.

Recebia na altura uma ninharia de renda e acabou por vendê-lo por meio dúzia de tostões à Câmara Municipal, penso que isso aconteceu na presidência de Luís Cunha.

UMA RÉPLICA NUNCA FOI OU SERÁ UM RESTAURO, UMA RÉPLICA É UMA MENTIRA ESCONDIDA.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações VII





Escreve


Daniel Teixeira


O MEU PRIMO CALVO



Não vou dizer qual o nome dele até porque o meu primo já faleceu e embora a(s) sua(s) histórias e as histórias passadas com ele sejam interessantes acho que não justifica estar aqui a desvendar - nomeando o personagem - uma coisa, a calvície, que ele tão laboriosamente escondeu ao longo dos anos. Vou contar apenas um aspecto, hoje...penso continuar com histórias diferentes tendo-o como autor ou contador.
De reparar, desde logo, que o defino como calvo porque na verdade dentro de todo o seu saber, que tinha algum, e o seu sentido de humor, que tinha muito, é este o aspecto que mais me lembro dele no sentido de ter procurado sempre e não ter encontrado até hoje uma explicação plausível para tal trauma que em certas circunstâncias acabava até por ser paradoxal.

Internado no Hospital de Vila Real de Sto António (numa altura em que ainda lá havia hospital é claro) devido a doença cardíaca que acabou por o levar, após ter aguentado durante alguns anos (poucos) um AVC bastante forte que lhe retirou a capacidade de falar , o meu primo, mesmo no seu estado, tendo-lhe sido retirada a peruca pelo pessoal de saúde, acabou por optar por colocar um lenço quase em estilo feminino em volta da cabeça...para tapar a calvície.

Sei, por leituras que tenho feito, que o adorno capilar é desde há cerca de 5 mil anos um elemento importante para a auto-estima das pessoas e chega a funcionar até como indicador sexual...mas, sejamos honestos...perante uma evidência e uma irreversibilidade há que viver o melhor possível com o que se tem...não é por acaso que o chamado «capachinho» é por vezes gozado...o cantor Carlos do Carmo andou anos com capachinho até ter chegado à conclusão que estava a ser ridículo (nas suas próprias palavras). Bem, mas voltando ao meu primo que não cantava fados...

Diga-se, em abono da verdade, que no caso dele não era uma simples e modesta falta de cabelo, umas entradas, ou mesmo um cocuruto desguarnecido: o arraso feito pela natureza ao seu cabelo, provavelmente resultado de alguma medicação tomada ou de alguma doença tinha-lhe apenas deixado umas farripas junto às orelhas e na parte baixa anterior do crânio, uma verdadeira razia, verdade seja dita. Era um homem relativamente novo na altura que o conheci, talvez com 30/40 anos e trazia já consigo este problema quando se casou com uma prima irmã da minha mãe.

Agora que o tempo passou calculo o problema que terá sido para ele confessar, em período de namoro, a sua quase ausência capilar craniana. Pelos vistos a minha prima, fazendo parte do ramo «desportista» de família, terá ido para casa, após a despedida, rir perdidamente, não pelo facto do seu futuro marido ser careca mas, tal como eu, por ele dar uma importância quase doentia a isso. Acho que ele levou as duas irmãs em socorro e suporte no dia da confissão...

Eu não sabia de nada, durante muito tempo não dei por nada: aliás, acho que só fui confrontado verdadeiramente com isso na tal primeira visita que lhe fiz no Hospital de Vila Real, embora já soubesse por via da minha mãe. Só que não pensava que a coisa fosse tão grave, quer dizer, que o complexo tivesse aquelas características.
Na verdade, íamos à pesca, à lapa, com água até à cintura e lá estava ele de chapéu na cabeça calcando a peruca: sentávamo-nos à mesa e lá ficava ele de chapéu na cabeça, embrenhava-se nos troncos para apanhar alfarroba, amêndoas ou azeitonas e...chapéu sempre. Um dia apanhei-o a dormir numa eira, era a hora da calma e vi a rapidez com que ele, ainda estremunhado, jogou a mão ao chapéu com peruca inclusa. Nem deu tempo para eu ver...o que eu vi foi um golpe de rins para encontrar o chapéu que tinha caído durante a soneca e acabei por pedir desculpa por o ter assustado como pensei que tinha feito.

Fora isso e mesmo com isso era um excelente homem, com um sentido de humor notável, bom contador de anedotas, sapateiro de profissão acabei por lhe guardar algum rancor temporário por me ter lixado umas botas que eu adorava, simplesmente. Eram daqueles botins afunilados na ponta, uma compra da moda, botas de andar suave, tacões ruidosos, afiveladas e naquela altura quase dormia com elas, passe a expressão.
Tive um acidente com uma pedra ao jogar um pontapé numa imaginária bola e para além de ter ficado com os dedos doídos acabei por descoser um niquinho na ponta da bota direita. Não há problema...o primo é sapateiro, ele passa aí uns fios, mete um bocado de cola (naquele tempo a cola tudo era feita de farinha) e está resolvido o assunto...pensei.

Mas pensei mal...o olhar minucioso do técnico torceu o nariz e fez aquele olhar que só se vê actualmente em mecânicos de automóvel «amigos» : um olhar único, uma expressão de quem está muito, mas mesmo muito para além de nós em termos de conhecimento: breve, ele viu o problema em toda a sua abrangência...aquela bota não era uma bota descosida, era um universo a desmoronar...por isso nada de pontos e cola só...a bota nunca ficaria boa e a durar...deixasse eu que ele tratava. E tratou, grátis como sempre por ser para mim...

[Vila Real de Sto. António. Praça marquês de Pombal. Foto JV, 2011]

Meteu a bota na forma, levou dois ou três dias de volta dela e entregou-ma com um sorriso de satisfação: era um bom trabalho, perfeito mesmo, luzidias vinham as duas como que saídas da fábrica: só que a que ele arranjara trazia a ponta redonda, tipo bota cardada. A outra mantinha a ponta em bico...só tinha sido engraxada. Acho que não se deve chorar por estas coisas...ao fim e ao cabo esta vida são dois dias...mas interiormente consegui conjugar um agradecimento com uma enxurrada de lágrimas.
Perdi a botas afuniladas, únicas, umas botas que quase faziam parte de mim...No dia em que ele faleceu, eu e um outro primo meu, fomos fazer-lhe uma visita a Vila Real ainda. Parecia estar melhor...falámos alguma coisa, nós, ele sorria e ria...pediu-me por gestos para lhe levantar o almofadão atrás das costas: respirava melhor assim - e fez os gestos todos: apalpou no peito, respirou fundo. No dia seguinte recebemos a notícia de que ele tinha falecido meia hora depois de o deixarmos.

O meu companheiro de viagem a Vila Real, supersticioso e homem de benzeduras aventou-me dias depois que «se a gente não o tivesse ido visitar se calhar ele não morria já.»