sábado, 20 de agosto de 2011

A lenda da Herdade de Cachopo e a Herdade da Alcaria Alta da Serra





Escreve


Gonçalo Roiz Vilão


[Alcaria Alta da Serra]

“Ora conta-se sobre a herdade de Cachopo (actualmente é uma aldeia, uma freguesia do concelho de Tavira), que existia lá uma grande porção de terra que não tinha (aparentemente não tinha) dono. E que durante a guerra liberal entre D. Miguel e D. Pedro, essa terra foi dividida pela população, e consta que foi D. Miguel após ter pernoitado nessa aldeia que cavalgou no seu cavalo e onde cavalgou, marcou os terrenos que eram para ser divididos pelas pessoas, ou seja, constitui assim a chamada herdade de Cachopo, que ainda hoje existe e que tem associada esta lenda. Essa herdade de Cachopo hoje em dia está toda dividida, foi ao longo de cento e vinte, cento e trinta anos dividida após esta data, após a revolução liberal mais ou menos por volta de 1834 e foi ao longo depois de cento e vinte, cento e trinta anos dividida pelas pessoas, conforme o que havia sido estabelecido pelo rei.”

Esta lenda encontra-se registada n AA. VV., Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas), Faro, recolhida no ano de 2006 sendo a sua colectora Ana Raquel Silva junto do informante Marco António Barão , de Estoi no Concelho de Faro, é contada de forma similar também na Zona de Cachopo por diversos habitantes. Assim proponho uma rápida viagem aos factos históricos que poderão explicar a sua origem:
As Ordenanças foram regulamentadas no ano de 1570 e persistiram até meados do século XIX, mais concretamente até ao ano de 1835, em que foram extintas. A freguesia de Cachopo até esta época era parte integrante do concelho de Alcoutim sendo uma das freguesias do mesmo. A capitania -mor do concelho tinha a sua sede na Vila e, durante estes séculos, partilharam o poder diversas famílias por todo o termo de Alcoutim na qualidade de capitães, alferes e sargentos de ordenanças: os Vilão, Os Henriques, os Martins Mangas, Os Aragão, os Brito Magro, os Rodrigues, Rodrigues Cavaco, os Teixeira e os Rodrigues Teixeira, os Mestre Guerreiro, os Gomes Delgado, os Afonso Mestre, os Costa Afonso, os Fernandes…



As ligações e os casamentos entre estas famílias eram a forma de consolidar o poder, o prestígio, o dinheiro e sobretudo as terras.

Assim no início do século XVIII, o capitão Baltazar Sueyro Vilão, casado com Catarina Mestra e residentes nos Vicentes do Pereiro, iniciaram com o casamento de sua filha, Catarina Mestra Vilão, com o capitão João Rodrigues Cavaco da Alcaria Alta da Serra, uma linha de uniões entre os Palma Vilão e os Rodrigues que perdurou até aos anos sessenta do século XX. No período quente das guerras entre liberais e absolutistas, Alcaria Alta da Serra veio a ser ocupada por grupos de guerrilhas, tomando a família Rodrigues como refém. Hoje, neste local, pode-se ainda visitar o que os actuais donos chamam “do Fortim dos Guerrilhas”. Catarina Bárbara Rodrigues, minha quarta avó, teria cerca de vinte anos quando viveu estes acontecimentos. Veio a casar com Manuel da Palma Vilão, da freguesia de Giões, persistindo até hoje muitas histórias orais destes acontecimentos na família.



Voltemos à lenda de Cachopo e ao seu cruzamento com a realidade: Os Rodrigues Cavaco, que no século XIX deixaram de utilizar o apelido Cavaco, possuíam uma das maiores herdades do Concelho de Alcoutim com cerca de três mil hectares, reduzindo-se hoje a mil hectares devido a continuas partilhas pelos herdeiros. A propriedade estendia-se para oeste, de Cachopo à Feiteira, para este, até às Casas Baixas e Vale D`Odre e para Sul confinava com a Ribeira de Odeleite. A sede da mesma era o monte da Alcaria Alta onde só residiu a família Rodrigues até à morte de D. Rita Rodrigues, que faleceu sem filhos. No início do século passado, o seu marido Rafael voltou a casar e passou a propriedade para seus descendentes.

Comprova-se com a existência de uma carta de emprazamento sobre a Herdade da Alcaria Alta passada a Baltazar Rodrigues Cavaco pela Rainha D. Maria , datada de 1780, referindo-se a mesma carta a uma outra datada de 1700 a favor de do Capitão João Rodrigues Cavaco, seu avô , também do monte da Alcaria Alta da Freguesia de Cachopo.

A existência da Herdade da Alcaria Alta, como pertencente à casa da Infantado, conforme se prova no documento da qual se anexa cópia do original, bem como as diferentes histórias/lendas sobre os guerrilhas que se contam sobre este local e a referida família,, tal como a justificação da posse de tão grande quantidade de terras da extinta Casa do Infantado, justificam e corroboram a lenda acima descrita.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Alcoutim no pódio!

É verdade caro visitante leitor, pelo menos é o que informa o estudo publicado no Jornal de Negócios e que nos fizeram chegar à mão.

Tomando em consideração o número de funcionários da Câmara e o de habitantes no respectivo concelho (dados provisórios do Censo de 2011), o concelho de Alcoutim ocupa o 3º lugar a nível nacional!

Atendendo a que o número de funcionários é de 178 e o número de habitantes 2895 (2011) a média por 1000 habitantes é de 61,5.

Tivemos curiosidade em conhecer os números das zonas adjacentes, mais propriamente do Baixo-Guadiana onde o concelho está inserido.

Obtivemos os seguintes números:

MÉRTOLA – 287, – 7289 = 39,4

ALCOUTIM – 178, – 2895 = 61,5

CASTRO MARIM – 153, - 6719 = 22,8

V.R.STO ANTÓNIO – 495, - 19 473 = 25,4


Como se verifica, a Câmara Municipal de Alcoutim ocupa o 1º lugar bem destacado.

Foram estes os resultados a que o estudo chegou tendo para o efeito tomado em consideração determinados parâmetros.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Casas, um "monte" altaneiro!

[Monte das Casas. Foto de JV, 1988]

Ao atravessarmos a ponte sobre a Ribeira de Odedeite, conhecida por ponte dos Bentos pois é esta a povoação mais próxima e oriundos da aldeia de Vaqueiros, temos duas opções: ou tomamos a direita a caminho do Fernandilho ou seguimos a esquerda que nos indica Casas, Cabaços e Alcarias. É esta que vamos seguir.

A estrada vai subindo a fim de vencer os cerros ao fundo dos quais continua a correr a ribeira de Odeleite. Aparecem de um lado e do outro caminhos rurais e uma ou outra amendoeira.

Depois da subida pode-se avistar nitidamente o monte dos Bentos que ficou para trás.

Aparece-nos um cruzamento que nos indica as Alcarias para a direita e para a esquerda a Preguiça. É perto deste cruzamento que se situa numa pequena elevação o monte que procuramos, o Monte das Casas ou simplesmente Casas. Situa-se a cerca de 4 km dos Bentos. Ficam-lhe próximo o Cerro (1,1 km), Alcaria (1,2 km) e um pouco mais afastadas as Alcarias (2,6 km).

O acesso faz-se por um desvio que quando o percorremos era de terra batida e hoje está asfaltado.

Apesar de ser um “monte” pequeno demonstrava, quando o visitámos (1989) alguma vida agrícola já que nas redondezas existem terrenos limpos.

Não aparece referido com este nome nas Memórias Paroquiais, 1758 mas pensamos que estaria em formação pois existia com uma situação semelhante uma Casa (Nova) que poderá indicar o núcleo a partir do qual de formou.

O topónimo não oferece grandes dificuldades. Trata-se do plural do substantivo feminino casa e que é vulgar em Portugal e na Galiza.

Simples encontrei referidos dez, incluindo este e umas dezenas composto ou seus derivados.

A chegada da energia eléctrica teve lugar em 4 de Dezembro de 1985 (1) e constituiu o grande melhoramento já que a partir dela tudo se torna mais simples.

Em 1993 os arruamentos são pavimentados. (2)

A água depois de ser distribuída por fontanários é levada ao domicílio em 2003. (3)

O poço público foi reparado em 2004. (4)

O painel de quatro caixas de correio foi instalado em 1996 (5) pelo que na altura deviam ser quatro o número de fogos habitados.

Segundo informação recebida tem actualmente (2011) 3 habitantes


NOTAS
(1) – Jornal do Algarve de 5 de Dezembro de 1985
(2) – Boletim Municipal nº 12, de Abril de 1993
(3) – Alcoutim, Revista Municipal nº 10 de Dezembro de 2003, p 6
(4) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 11 de Janeiro de 2005, p 14
(5) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, p 12

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações IX






Escreve


Daniel Teixeira






INÉRCIA CONGÉNITA

Conforme tenho referido, penso que desde sempre, o Monte de Alcaria Alta e o pessoal que lá vivia (e vive ainda algum), de uma forma bem geral era possuidor de uma inércia confrangedora.

Em certo sentido acho que as pessoas trabalhavam porque era hábito trabalhar, em primeiro lugar, sabiam lamentar-se ou alegrar-se pela pobreza ou pela riqueza das colheitas mas tudo ficava no desgosto ou na alegria quase entre portas e tudo demorava muito pouco tempo. Sempre pensei isso em miúdo, fui pensando e as razões para pensar isso foram-se mantendo durante muitos anos.

Mais tarde, através da minha própria evolução pessoal, da experiência de vida que fui adquirindo, dos conhecimentos de ordem intelectual que fui coleccionando, acabei por verificar que talvez estivéssemos perante um caso de esgotamento, de uma convicção de que tudo tinha sido tentado já e que a minha ignorância do passado e das tentativas feitas antes de eu as saber, porque não tinha ainda nascido ou porque não tinha ainda idade para saber, era uma hipótese plausível.

Calhou a ler, por acaso no Arquivo Distrital aqui de Faro, um livro e depois mais do Professor Gomes Guerreiro, primeiro Reitor da Universidade do Algarve, e conhecedor de mérito da realidade algarvia. Em 1945 já ele fazia medições pluviométrias e poucos anos depois debruçava-se sobre a erosão na serra de Tavira. O Rio Gilão é uma desgraça em termos de assoreamento, como todos sabem: pois ele em 1954 propunha já uma solução minimizadora do impacto das chuvas: que os regos da lavoura se fizessem na forma de barreira contra o arrastamento. Já não penso agora que a inércia seja exclusiva de Alcaria Alta e do Nordeste Algarvio pelo que em face do sabido em Tavira duvido também que muita gente tenha seguido o conselho.•

Na verdade era para mim então impossível conceber que se trabalhasse sempre da mesma forma, ou com pequeníssimas alterações, que não se lutasse para modificar alguma coisa, enfim...que o correr dos dias fosse assim...trabalhar de sol a sol em troca sempre do mesmo deflacionado ganho.

Um dia ou dois, talvez com os meus dez anos, procurei ajudar a seu pedido o meu avô a aprofundar um poço rasteiro: tirámos pedras, algumas lajes bem pesadas, todas à mão é claro e sem ajuda de ferramentas. Nem um martelo daqueles grandes e um escopro, que bem poderiam servir para reduzir o tamanho das lajes o meu avô levou...era assim mesmo e ali ficámos, de manhã à noite, até sem uma pá, usando os baldes de zinco para arrastar pedras e água e fazer monte à entrada do poço, deixar escorrer o minguado liquido de regresso e depois afastar um pouco, não muito, as mesmas pedras.

[Poço típico da região de Alcoutim. Foto JV]

As mais pequenas, e situando-se o poço no final de uma encosta e encostado a um barranco, logo que chovesse mais acabariam por regressar ao sítio donde as tínhamos tirado, isso parecia-me evidente, mas...•

E não era por falta de conhecimento dos instrumentos que assim acontecia: o meu avô tinha trabalhado na construção de troços da via férrea no Algarve e na estrada de Castro Marim a Balurcos, quando era ainda jovem. Tinha uma vivência bem recheada, com uma episódica vida de contrabandista, era negociante de panelas a troco, enfim...não era propriamente alguém que não devesse saber que as coisas não são feitas assim mas fazia-as.

Logo abaixo, a cerca de 50 metros, uma irmã da minha avó tinha o seu quinhão de terra também, e antes dela havia uma faixa curta, também de alto a baixo, para aí com 20 / 30 metros de largura por 100/150 de altura / comprimento, esta sem qualquer poço, que era de uma outra irmã da minha avó que vivia em Santa Justa. O poço da Ti Zabelinha, quase paredes meias com o Ribeirão, era farto de água: o marido dela, GNR ainda na altura, tinha conseguido os meios para o aprofundar, talvez para aí uns 20 metros.

Tínhamos autorização para nos servirmos da água à vontade, mesmo que o meu Tio Afonso fosse um bocado «torcido» como se dizia por lá: nem um terreno, o da minha Tia Marianita nem o da minha Tia Zabelinha eram cultivados: havia umas parreiras que se alimentavam sozinhas do precioso líquido e o resto lá estava: era muito longe, de facto. Só não era longe para nós porque fazia mesmo falta para o remedeio da casa.

E ali estivemos nós, a escavar à mão um poço, com água em relativa abundância e sem utilização a 50 metros. Ali tínhamos nós de trabalhar regando as casolas parcimoniosamente e uma vez ou duas, por acaso, lá íamos buscar dois baldes de água cada um ao outro poço. Como «pagamento» deitávamos meia dúzia de baldes de água numa laranjeira que nem no ano 5 mil daria fruta de jeito.

Não há muito tempo um primo meu, herdeiro dessa faixa de terra que foi da minha Tia Zabelinha telefonou-me: queria comprar a «minha» parte para acrescentar na métrica da reserva de caça. Com a minha outra prima herdeira da tal faixa situada a seguir à nossa também já tinha falado: isso dava-lhe direito a não sei quantas cabeças de caça.

Dissemos-lhe ambos que sim, que até de borla poderia ficar com elas (isso não dissemos mesmo mas pensámos). Já passou um ano quase e nunca mais obtivemos resposta. A inércia por esgotamento foi substituída pela inércia por comodidade.

E tanta perdiz que lá havia, tanta perdiz que se levantava nas margens daquele ribeirão...tanta lebre e tanto coelho que por lá passavam em corrida distraídos quase à nossa frente.




terça-feira, 16 de agosto de 2011

PENICHE SURF NEWS



Desde 27 de Julho último que se encontra à disposição dos cibernautas o espaço que tem por título Peniche Surf News em que o responsável, o nosso colaborador José Miguel Nunes aborda a temática de alguns desportos radicais, nomeadamente do Surf e nos seus mais variados aspectos: história, estórias, opiniões, informações sobre o estado das ondas, notícias, resultados de provas, etc.

Refere também alguns eventos de carácter geral a ter lugar no concelho de Peniche.

Ainda que já esteja referido no espaço deste blogue que a isso se destina, não queremos deixar de o referir num “post” até porque segundo a informação que nos é destinada os artigos aqui publicados por este colaborador e sobre esta temática são frequentemente visitados por habituais visitantes / leitores do ALCOUTIM LIVRE, e outros, segundo pensamos pela faixa etária mais jovem, como é natural.Segundo informação procurada, sabemos que durante o período de 18 de Julho a 16 de Agosto (1 mês) o texto Aldeia do Surf, de 16.07.2011) foi o mais procurado (27 vezes).

Esperamos e desejamos que seja um espaço aberto, livre, necessariamente friccionante
quanto baste para defesa de pontos de vista, responsável, mas nunca SERVIL.

Esperamos igualmente que venha a constituir mais uma achega em prol e defesa do SURF PENICHEIRO.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Festa em Honra de Nª Sª da Conceição, na Corte Tabelião

[Aspecto da povoação. Foto JV, 2011]

Decorreu ontem na pequena povoação de Corte Tabelião, freguesia e concelho de Alcoutim mais uma “Festa em Honra de Nª Sª da Conceição” que tem tido realização de há uns anos a esta parte.

Tem como ponto mais importante a realização de um almoço comunitário que junta os filhos da terra que se espalham pelo país.

Como não podia deixar de ser realizam-se manifestações religiosas. Tem lugar uma procissão e uma missa campal.

As actividades lúdicas/populares foram as seguintes:

Exibiu-se a Tuna Juvenil da Junta de Freguesia de Vila Real de Santo António tendo actuado seguidamente o Rancho Folclórico de Santa Catarina.

[Tuna Juvenil de Vila Real de Santo António. Foto JV]

[Rancho Folclórico de Santa Catarina. Foto JV]

Há noite decorreu, como é habitual, um animado baile abrilhantado por acordeonista da região e onde se notavam dançarinos de uma faixa etária relativamente elevada.

Estas são manifestações habituais e normais em eventos desta natureza mas para nós é importante referir outras que não conhecemos em qualquer outra festa concelhia, um “Museu” de Artefactos Antigos em lugar exíguo e rotulados como foi possível e que de ano para ano tem melhorado nalguns aspectos.

[Exposição de Ervas Aromáticas e seus derivados. Foto JV]

Havia igualmente uma mostra de Ervas Aromáticas e alguns dos seus derivados o que considerámos de muito interesse e compreendendo os condicionalismos impostos por vários factores.

[Os resistentes. Foto JV]

Para terminar diremos que a última criança a nascer na povoação, aconteceu em 1964 e encontrava-se presente com os seus 47 anos, acompanhada de outros familiares, incluindo a mãe.


domingo, 14 de agosto de 2011

A palavra sexta à noite



No passado dia 12 fomos assistir a mais uma “a palavra sexta à noite”do pouco que conhecemos a nível cultural no concelho de Alcoutim e da responsabilidade de Cristina Ahrens e Carlos Barão, esforçados funcionários da designada “Casa dos Condes” na vila de Alcoutim.

O pequeno evento cultural obedecia ao tema O HAREM DO SULTÃO ASSÉM e iniciou-se por volta das 21,45 h.

O pátio estava bem decorado com motivos apropriados e onde se sentia algum misticismo próprio do que pretendia invocar.

[Um aspecto da assistência. Foto JV]

O pátio estava completamente cheio representando várias camadas etárias.

Não me passou despercebido o painel (cópia fotográfica) dos azulejos que “descobri” na Capela de Nª Sª da Conceição, antes de 1974 e que estavam cobertos por uma camada de cal e que mais tarde foram recuperados incluindo o seu restauro.

Com música de fundo representativa do Mundo Árabe o “Sultão” apresentou-se com o seu séquito que tentava reproduzir em trajes e movimentos aquele “Mundo”.

Foi feita a presentação individual incluindo as suas origens onde não faltou a de “Alcatiã”.

[Francisco Brás. Foto JV]

Seguiu-se um recital de poesia com a indicação dos autores dos poemas e onde não faltou a nota biográfica para a situação no tempo e no espaço.

Notar que foram ditos em português e mesmo em árabe cuja pronúncia me pareceu própria daquela língua.

[Lurdes. Foto JV]

Os poemas ditos representavam a época clássica antiga e depois para estabelecer a diferença a época moderna com conceitos e temáticas diferentes.

Mais uma vez os actores amadores Lurdes e Armando, pontificaram.

["Arabista" Armando. Foto JV]

Houve a possibilidade ainda de provar gastronomia própria daquela área, incluindo um chá de hortelã.

A noite cultural terminou com a troca de impressões entre os presentes

O trabalho de encenação e apresentação esteve a cargo do TEA, Teatro Experimental de Alcoutim, da responsabilidade de Francisco Brás.

Aqui deixamos o nosso aplauso aos organizadores com o desejo de que continuem este trabalho tão meritório.



sábado, 13 de agosto de 2011

As "boleiras" de Alcoutim

Pequena nota
Apresentamos hoje aos nossos visitantes / leitores um pequeno texto que publicámos num periódico regional onde então colaborávamos. Foi escrito há 34 anos. Não são dois dias!
O texto vai como foi publicado, a ilustração é que é de agora. Naqueles tempos publicar uma foto era complicado, o que hoje está extremamente facilitado.
Alguns dos que o irão ler ainda não eram nascidos e outros não tiveram conhecimento dele.

JV

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 25 DE FEVEREIRO DE 1977)

Entre as actividades de Alcoutim, uma houve, caracteristicamente feminina (e não só) que, pelos menos nos fins do século passado e começos do actual, ocupou lugar de destaque e que, praticamente se limitava à vila. Em contrapartida, outras eram próprias de determinada freguesia ou zona e na vila não se faziam sentir.

Referimo-nos ao fabrico, puramente artesanal de determinado tipo de bolos, que deu origem às típicas boleiras ou doceiras de Alcoutim, ainda hoje lembradas pelos frequentadores mais idosos dos mercados, feiras, festas e romarias das redondezas.

Enquanto as mulheres dos “montes” se desdobravam principalmente pela actividade caseira e pelo precioso e indispensável auxílio ao marido, nos trabalhos agrícolas, a alcouteneja, ainda que também o fizesse, dispersava-se, encontrando na vila outras fontes de trabalho que mais a ocupavam, isto devido a diversos factores socio-económicos.

Como e quando teria aparecido esta actividade na vilazinha do Algarve serrano, antiga praça forte, porto outrora importante no Guadiana? Assunto à margem das nossas modestas possibilidades, pois consideramo-lo próprio de especialistas, obriga-nos, contudo, a dizer algo que se pode relacionar com ele.

Há cerca de dez anos, um alcoutinense amigo, radicado em Faro, numa conversa “higiénica” informou-nos que outro filho desta vila, já venerando ancião, em passeios por bibliotecas, arquivos e alfarrabistas, lera algures o desterro de uma doceira da corte para aquela vila, cujo apelido ainda se mantinha por lá, na altura da consulta.

Curiosamente, a informação joga com dados, segundo os quais a vila teve o privilégio de ser couto para trinta criminosos, por concessão de D. Afonso V e de quarenta no cível, por D. Dinis, certamente quando lhe concedeu foral.

A confirmar o degredo, teria a especialista do ramo desenvolvido aqui a sua actividade, dando origem às conhecidas boleiras de Alcoutim?

De carácter tradicional, nada encontrámos, a não ser aquilo que nos indica uma certa antiguidade: veio de geração em geração, de mães para filhas.

AS TÉCNICAS DO FABRICO

As espécies confeccionadas, prendem-se aos produtos de origem local: farinha, amêndoa, mel, ovos e azeite. Com excepção do açúcar, tudo aqui existia, podemos dizer que com abundância.

Entre as especialidades, o nógado ocupou lugar de destaque. Massa dura, feita com amêndoas, misturadas com mel, ainda constitui apreciada doçaria, que poderia ser cartão de visita da vila, tão espoliada. Ainda aparece à venda mas, segundo nos informam sem as características que o tornaram conhecido e apreciado. Do conjunto, era o mais caro e vendia-se aos maços.

Os suspiros (claras e açúcar), e o pão-de-ló (gemas, farinha e açúcar) eram feitos sempre em conjunto, pois havia necessidade de aproveitar a totalidade dos ovos.

Os bolos de mel (farinha, mel e azeite) e os de amêndoa, conhecidos por bolos de raiva (amêndoa, ovos e açúcar), eram outras das espécies confeccionadas.

Completando o conjunto, faziam “pupias” ou “rosquilhas” e cavacas, bolos secos de farinha e açúcar.

Para os fabricos, juntavam-se as boleiras duas a duas. Funcionando uma como ajudante, só assim conseguiam dar conta do serviço. Uma vez acabado este, invertiam as posições.

Os variadíssimos fornos de pão, espalhados pela vila, serviam também para cozer bolos. Poucos restam, pois se não se fabrica pão, muito menos se coem bolos.

A actividade foi intensa e numa vila tão pequena existiam dezenas de boleiras, umas fazendo dela, praticamente o seu meio de vida e outras praticando-a com carácter acessório.

COMO FUNCIONAVA O NEGÓCIO

Uma tosca mesa de características regionais (baixa, pés delgados, tampo rectangular e pequeno), forrada a papel brando, servia de banca de venda, na qual, além das variedades já apontadas, colocavam a garrafa de aguardente e o licor de salsaparrilha, vendidos a copo.

Ao lado do “armazém”, estava a caixa, simples e interiormente forrada de papel branco, com os bolos arrumados por espécies.

O negócio, que em relação a outras actividades era mais rendoso, parece que se circunscrevia aos mercados mensais, no quarto domingo de cada mês, então muito concorridos à Feira Anual de três dias, à festa da Srª da Conceição, agora sem significado no que respeita a movimento de massas e aos bailes e outros folguedos da vila, então frequentes.

Passou depois a estender-se pelo concelho, aos limítrofes, como Mértola, Castro Marim e Vila Real de Sto. António.

Assim, as boleiras não faltavam ao são Marcos, no Pereiro, a 25 de Abril, S. Pedro em Odeleite a 29 de Junho, Srª da Assunção em Giões, a 4 de Agosto, Srª dos Mártires em Castro Marim, a 15 de Agosto, Feira do Azinhal a 20 de Agosto, Festas de Monte Gordo e da Vila a 14 de Setembro, São Mateus em Mértola a 20 de Setembro e terminavam com a Feira da Praia, de 10 a 13 de Outubro, em Vila Real de Sto. António.
Além destes lugares de mercado, aproveitavam os “pagos” da Mina de São Domingos que se realizavam todos os dias 4 de cada mês. Eram normalmente mercados rendosos e havia boleiras que nunca os falhavam.
Quando o negócio corria mal e não vendiam tudo, iam pelas portas oferecendo a doçaria, por vezes mais barata. Com este processo salvavam muitas vezes o dia.
Dizem-nos algumas velhas boleiras que nas feiras e mercados que percorriam, não encontravam outras senão as de Alcoutim.

Típica actividade local, encontra-se praticamente extinta. Poucas mulheres sabem fazer o nógado, e, se o fazem, não conseguem dar-lhe aquelas características que o tornaram conhecido.

[Ti Ana Brandoa] A Srª Ana Bárbara Casegas, mais conhecida por Ti Ana Brandoa, apesar de ter passado há muito as oito décadas, teima em confeccionar o nógado, em que era exímia. Ainda na última festa da vila a vimos, sentada à sua banca.

Parece-nos que existe determinado “segredo” no fabrico desta especialidade. Se assim for, iremos perdê-lo? Deixará Alcoutim de poder contar com o seu típico nógado? Desejamos que isso não aconteça.

Não haverá quem esteja interessado na semi-industrialização nógado? Porque não?
Não encontramos por esse país fora especialidades regionais, algumas de menos valor, em tal situação?


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O último sorriso (Poema)





Poeta



José Temudo






quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Oh Marquês, eles já cá estão outra vez!



No nosso último trabalho publicado em livro, A Freguesia do Pereiro (do Concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», Edição da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007, não deixámos de colocar a p. 23 esta fotografia pois a figura chamou-nos logo a atenção quando conhecemos a aldeia do Pereiro e já se passaram 44 anos!

Parecia-nos que aquela figura não nos era estranha e depois de verificar que tinha no sopé e em letras maiúsculas M P foi fácil recordar uma das figuras mais importantes da nossa História, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699 – 1782), Marquês de Pombal.

Este edifício, segundo nos informaram, seria de finais do século XIX princípios do seguinte e na sua origem era de 1º andar.

Teria sido mandado construir por um conhecido comerciante do concelho que de Martim Longo se teria passado para o Pereiro, um homem conhecido pelas suas ideias bizarras e por demonstrações de ostentação e segundo nos consta e já foi referido neste blogue, pelo nosso colaborador José Temudo, o homem que possuiu e conduziu o primeiro automóvel em Alcoutim!

O edifício veio a ser comprado por Francisco da Palma, vulgo Chico Artur, já há muito falecido, que o transformou num só piso, mas mantendo em lugar de destaque o “Marquês de Pombal”. Tendo existido nas extremidades da fachada e como elementos decorativos uma espécie de fogaréu.

Depois de ter servido como casa comercial com alguma excentricidade, Francisco da Palma utilizou-o como armazém.

Após a sua morte, foi entrando em degradação, ruindo, segundo nos informam, o telhado e a peça do Marquês foi apeada e segundo se pensa guardada.

Nós que tivemos possibilidades de escrever a estória desta peça não o fizemos, o que lamentamos e hoje tudo é mais difícil pois vamos deixando partir quem conhecia melhor o assunto.

O “Marquês” não representa nenhuma obra de arte mas acaba por ser um motivo de referência da aldeia do Pereiro.
Não haverá uma saída para a reposição desta peça emblemática e em lugar de segurança?