quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Festas de Alcoutim / 2011 - Texto escrito e lido pelo nosso colaborador no dia do Município (09.09.2011)





GASPAR SANTOS


[Espanholas dançando as sevilhanas nas Festas de 2011. Foto G.S.]

Agradeço o convite para falar sobre as Festas de Alcoutim. Aceitei, pois elas mobilizaram muito a minha geração e nelas participei. E, sobretudo, aceitei por ser um prazer e uma honra falar com os meus conterrâneos. Trago apenas apontamentos de memória. Deixo para outros o estudo apurado destas festas. Elas são de carácter não religioso e hoje as mais antigas do Algarve.

Alcoutim tinha então muitos jovens com alguma escolaridade, mas faltavam saídas profissionais e, sentiam, sem ainda prever a grande desertificação que ameaça hoje o nosso concelho.

Víamos a feira anual definhar. Coincidia com um arremedo de festa que se limitava a um baile com acordeonista na sociedade e a uma venda de rifas no velho bazar. Por outro lado dávamos conta da grandeza do médico cirurgião Dr. João Francisco Dias entalado num pequeno hospital que hoje nem serviria para um centro de saúde. Era preciso fazer qualquer coisa que rasgasse horizontes, que pusesse “Alcoutim no mapa” como hoje se diz.

Queríamos fazer divertimento, uma feira significativa e sonhávamos fazer um grande hospital com o produto de uma grande festa. Era utopia dirão hoje. Mas aquela geração romanticamente deitou mãos à obra.

A história das festas acompanha a história do Grupo Desportivo de Alcoutim. Por isso, as primeiras tiveram uma forte componente desportiva. Nós fazíamos tudo. Organizávamos, montávamos a festa, éramos os atletas e os espectadores. O apoio vinha apenas de pessoas anónimas.

A preparação demorava meses. Começávamos por enviar uma circular a todos os alcoutenejos e amigos de Alcoutim que moravam fora. Pedia-se um donativo para as festas, convocando a sua generosidade para a construção do hospital. Na primeira festa essa circular foi redigida pelo Dr. João Francisco Dias. Depois, já mais próximo das festas, grupos de 3 ou 4 jovens percorriam os montes angariando fundos. Éramos bem recebidos e lá vinha o donativo quase sempre em trigo que depois se vendia ao celeiro.

Os objectos doados convertiam-se em rifas que jovens raparigas vendiam na quermesse. As entradas, o aluguer das mesas e cadeiras, e o bar ajudavam a financiar as festas.
Lembro-me da primeira festa. Uma semana inteira. Por fim a exaustão. Aprendemos. No ano seguinte reduziu-se a actividade desportiva. O grande entusiasta era o saudoso Fernando Dias, adepto da Académica de Coimbra conhecedor das várias modalidades. A primeira festa foi o nosso laboratório. Nela se ensaiaram e testaram as ideias. As festas seguintes melhoraram.

Cabe aqui recordar os mais entusiastas, entre outros: João Dias, Rui Simão, José Francisco Rita, e o mais velho e sereno Manuel Alfredo Afonso chamado a líder para o Grupo Desportivo.

Tínhamos alguns, entre nós, como o Carlos Brito ou o José Cavaco Peres que estudavam na cidade, eram conhecedores de modalidades que muitos de nós nunca viramos praticar, como andebol de 7 e voleibol, e por isso ajudaram na preparação de outros jovens.

Nessa semana, tivemos andebol de 7 e voleibol, várias corridas, corta mato, futebol, travessia a nado do Guadiana e pau de sebo. Fizemos um torneio de tiro aos pombos, aliás com pouco brilho, pois os pombos cansados, dormentes por terem passado muitas horas fechados, só voavam após a abertura da gaiola quando enxotados. A experiência fez-nos evoluir para tiro aos pratos nas festas seguintes.

Fazíamos o programa e editávamos os cartazes de promoção, após ajustar a colaboração de músicos de que se tornou habitual a Orquestra José Francisco de Vila Real. O pirotécnico Gomes da Costa de S. Brás de Alportel deu um brilho especial e raro, com o fogo aquático e o fogo preso no cais com peças rotativas, além de sublinhar a alvorada com foguetes e morteiros e o início e final de cada passo do programa com morteiros.

No dia da festa montávamos todas as estruturas, a quermesse, o palco etc. A Câmara Municipal apenas nos emprestava algumas cadeiras e mesas.

Não havia distribuição de electricidade, pelo que a iluminação do recinto das festas e a alimentação eléctrica da aparelhagem de som se realizava com um gerador alugado.
Para se realizar a noite festiva na esplanada do cais pedia-se autorização às entidades portuárias e à Câmara Municipal. Depois ocupávamos tudo. Até as instalações sanitárias passavam a servir de bar e arrecadação de bebidas e comidas.
À noite era o baile, só interrompido para actuação de artista convidado (cantor ou acordeonista) ou para o fogo-de-artifício.

Nossos vizinhos de S. Lucar vinham, aproveitando a abertura da fronteira. Davam à Vila uma alegria e um colorido cosmopolita não habitual, tanto com as suas cantorias como com exibição espontânea de sevilhanas.

Das primeiras festas, realizadas com o esforço que hoje nem se imagina, vou contar alguns episódios:
- Na véspera da corrida de corta mato convidamos um jovem, entre outros, que corria bem, para participar. Ele perguntou: e como corto o mato?
A que o Fernando Dias, brincalhão, respondeu: trazes uma faca. Ele apresentou-se no dia seguinte de facalhão para cortar o mato.

- Noutra noite eram artistas convidados: a consagrada Eugénia Lima e um jovem acordeonista de nome Fernando em começo de carreira, mas que foi muito mais aplaudido. Eugénia Lima não gostou e no fim da actuação exigiu ser paga imediatamente. Ficamos embaraçados. Então um desconhecido passou de imediato um cheque assumindo a responsabilidade!
***
A primeira grande festa foi de facto em 1951, a partir da qual se faz a sua contagem oficial. Foi aquela em que tivemos apoios oficiais e deixou de estar apenas nas mãos dos mais novos.

Em que ano se realizou, de facto, a primeira festa? Em 1949. O Grupo Desportivo acabado de nascer quis mostrar obra. Deixo aqui uma pista para que se faça justiça aos pioneiros:
José Francisco Rita, primo do Francisco Pedro, mostrou-me um dossier com todas as circulares e programas, pouco antes de ter falecido em Odemira onde morava. E ele, documentado, também não concordava com a contagem oficial. Se a família dele ainda tiver o dossier e o ceder podemos recolher muito material de esclarecimento. Há muitas pessoas vivas, como o Manuel Justo que dizem o mesmo que nós.

Falta referir que o apuramento financeiro para a construção do hospital era de poucos milhares de escudos que se depositavam na Caixa Geral Depósitos.
Isto é o que de mais importante se me oferece dizer.

Para todos os que participaram e já partiram, a nossa saudade. Para os outros, eu diria como o Chico Buarque: “Foi bonita a festa, pá…”

G. S.
Dia do Município, 09 de Setembro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O orégão



É juntamente com os coentros a planta aromática mais utilizada na culinária alcouteneja.

Planta herbácea, da família das Labiadas, que existe espontânea em Portugal e é também conhecida por ouregão.

Planta nativa da zona mediterrânica e da Ásia apresenta muitas espécies, sendo todas aromáticas. Erva perene, cuja altura pode variar de 30 a 80 cm. Planta herbácea, com raízes na forma de caules subterrâneos (rizomas). Bastante ramificado, produz folhas pequenas, ovais e pecioladas. As flores são pequenas e normalmente brancas, aparecendo no início do Verão até meados do Outono. Há regiões no Brasil, onde a planta vive vários anos sem nunca produzir flores.

[Orégãos secos]
As folhas são utilizadas frescas ou secas e pelo sabor que transmitem. Para a secagem, que convém fazer –se à sombra ,os pés devem ser colhidos antes de florirem para assim reterem todos os seus aromas.

No concelho de Alcoutim os orégãos são utilizados na confecção de caldeiradas de peixe muge, em saladas de tomate e pepino, nos gaspachos e nas tradicionais “sopas” nomeadamente nas de tomate. São indispensáveis nos caracóis.

As azeitonas britadas ou de água não passam sem o tempero dos orégãos.

Em Portugal só no centro e sul do país é utilizado pois é quase desconhecido nas regiões nortenhas.

Ainda que no centro do país ele apareça espontaneamente, já no concelho de Alcoutim isso não acontece, pois é cuidadosamente semeado e tratado nas pequenas hortas.

Muito utilizado na culinária italiana e grega, é também aplicado na espanhola, francesa e mexicana.

Ainda que lhe sejam reconhecidas propriedades medicinais, não conhecemos a sua utilização com esse sentido no concelho de Alcoutim.

Em Alcoutim geralmente é designado por orégano, termo que só encontrámos como sinónimo de orégão no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa- Verbo, 2001 e com uso no Brasil e que igualmente aparece no Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa,(Mirador) 5ª Edição, 1981. Todos os outros que consultámos são omissos quanto a este vocábulo que igualmente se encontra na língua espanhola.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O "monte" do Marmeleiro - o lugarejo mais próximo da Vila de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nºs 94, 95 e 96, respectivamente de Fevereiro, Março e Abril de 2008 e pp 21, 20 e 24)

[A entrada do "monte" com nova placa toponímica. Foto JV]

Entre os elementos que procuramos reunir para podermos apresentar as pequenas povoações, aqui conhecidas por montes (já o pároco da freguesia de Giões, respondendo ao inquérito de 1758, escrevia:- as mais aldeias a que chamam cá montes(...) e que se espalham pela Cumeada do Pereirão, mais propriamente no concelho de Alcoutim, fazem parte os da sua localização por onde normalmente começamos e neste caso a partir da vila.

Saímos pela estrada nº 122-1 que vai contornando os cerros para os poder vencer mais facilmente. Enquanto que do lado esquerdo a estratificação nos mostra através do corte as camadas de xisto, do lado direito o vale é profundo. Para trás e à esquerda, ficou o desvio para a chamada estrada marginal (E.M. 507).

Cerca de dois quilómetros andados, encontramo-nos na Volta Grande, curva bem pronunciada da qual se desfruta bom panorama, principalmente na época da floração das amendoeiras. A estrada continua a subir. Vão aparecendo à sua beira alguns eucaliptos e agora, pela primeira vez, duas alfarrobeiras. Estamos a cerca de três mil metros da vila, na designada Portela Alta. Até aqui foi sempre a subir, agora desce-se pela primeira vez. A seguir a uma pequena recta, sucedem-se as curvas e contra curvas, mas agora em terrenos planos. Uma recta mais extensa, deixa-nos ver ao longe a placa que nos indica à esquerda o desvio para este monte que fica à distância de um quilómetro. No local, um refúgio para os passageiros de transportes públicos.

[Vista geral da povoação. Foto JV, 2005]

A estrada asfaltada que agora tomamos (E.M. 1058) estreita e sinalizada foi, penso, que das primeiras e únicas construídas antes do 25 de Abril. À esquerda fica um montinho, constituído por um único fogo. As curvas sucedem-se até que de repente aparece a povoação encavalitada numa pequena elevação como era aconselhável para defesa e observação. No vale bem pronunciado, um laranjal.

A placa toponímica que o identifica, na altura, quase não se percebia.

Abordaremos agora o topónimo que aparece cinco vezes no dicionário que para o efeito habitualmente consultamos (1) e que possui outros com a mesma origem, como Marmeleira, Marmelal e Marmelo.

José Pedro Machado (2) apresenta-o como representado dezassete vezes.
As causas determinantes no aparecimento dos topónimos são variadíssimas, mas grande parte está relacionada com aspectos geográficos, da flora e da fauna, de antroponímia e de instituições.

Neste caso tem, como é por demais evidente, um sentido vegetal; resta-nos saber qual foi a particularidade para a sua aplicação: - porte, idade, produção, raridade ou defeito, são hipóteses.

O marmeleiro é um arbusto ou árvore da família das rosáceas, de folha caduca e flor rosada, cultivada na Europa meridional, mas de origem asiática e cujo fruto, o marmelo, é comestível. (3)

Com a romãzeira, constituía dos frutos mais vulgares na margem do Guadiana, desempenhando a importante função da manutenção das margens, suportando o seu raizame as enxurradas própria do rio.

Continuando na toponímia, quero aqui referir alguns topónimos constantes da matriz predial rústica da zona, que têm algo para dizer. Reguengo é um deles. As terras reguengueiras eram as que pertenciam ao rei. No arquivo histórico da Misericórdia de Alcoutim, por volta de 1970, encontrámos documento em que se dizia que o rei doava à Santa Casa os bens que lhe pertenciam no termo de Alcoutim. Por mais que procurássemos e apesar de sabermos que existia uma relação anexa, não a conseguimos encontrar, nem nada que nos levasse, na altura, a localizá-los. Se a memória não nos atraiçoa a tal distância, tratava-se de um documento avulso escrito pelo provedor, Manuel António Torres. Possivelmente já terá desaparecido com as limpezas que periodicamente são feitas, principalmente quando se muda de gestores. Hoje, penso que a identificação poderá estar, se ainda for possível fazê-lo, nos foros que a Santa Casa cobrava até à sua abolição ocorrida após o 25 de Abril.

[Casa típica. Foto JV, 2005]

Outra zona próxima do Marmeleiro chama-nos a atenção pelo seu nome. Trata-se da Toscana. Terá vindo dessa região, hoje incluída na Itália, gente que subindo o rio, por aqui se fixou? Mais para o norte e igualmente próximo do Guadiana e já no concelho de Mértola existe o monte dos Lombardos que poderá ter a mesma interpretação no que respeita à Lombardia.

Alcaçarinho, diminutivo de Alcácer, do árabe al- qaçar(4) e por último o Vale de Condes com o seu barranco que deita as águas, na época invernosa, no Guadiana., zona onde se encontram vestígios de um templo conhecido pelo povo por igrejinha, do período romano - visigótico, perto do qual se localiza uma necrópole com seis sepulturas identificadas. (5)

Este topónimo tem a ver com os Condes de Alcoutim que foram senhores de grande número de bens no concelho, nos quais se incluíam muitas herdades e esta zona toda lhes teria pertencido. Esses bens, depois de terem passado para a posse da Casa do Infantado depois do último conde ter entrado na conjura contra D. João IV, pelo que foi degolado no Rossio, em Lisboa, vieram a ser adquiridos pela burguesia local, durante o liberalismo, quando a referida Casa foi extinta por Decreto de 18 de Março de 1834.

O antiquíssimo caminho que vindo de Tavira chegava a Alcoutim, atravessava a serra, desembocando na Porta de Tavira, passava bem perto deste monte e ainda encontramos vestígios dele. Nos anos sessenta do século passado, as pessoas deste monte que se deslocavam a pé à vila, ou vice-versa, o que era habitual, utilizavam-no sempre. Era à vila que recorriam para comprar o açúcar, o café, arroz, massa, fósforos e pouco mais, pois o restante era da sua produção. Por outro lado, a exímia doceira da vila, Ti Ana Brandoa, ia a este monte frequentemente, mesmo depois de avançada idade, onde adquiria amêndoa para confeccionar o seu incomparável nógado, pois os produtores da vila ofereciam-lhe normalmente algumas dificuldades, a nível de preço e quantidades.

Sempre ouvi dizer e é verdade, o Marmeleiro foi sempre um monte pequeno.

Em 1839, Silva Lopes (6) atribui-lhe apenas quinze fogos, o que certamente albergaria mais de sessenta habitantes, sendo o menor da freguesia de Alcoutim. Em 1876 tinha, segundo elementos do Centro de Saúde de Alcoutim, vinte e seis habitantes. No Censo populacional de 1991, o número já tinha descido para vinte, existindo igual quantidade de edifícios. Em média e se os elementos estiverem correctos, de trinta em trinta anos construiu-se uma habitação.

[Uma rua da povoação. Foto JV, 2005]

A população actual não chega à dezena, valendo contudo a permanência acidental de alguns dos seus filhos que apesar de estarem fixados por outras paragens, não deixaram de recuperar as casas que herdaram dos pais, dando-lhes melhores condições e que ocupam quando lhes é possível.

O monte resume-se a uma rua e nele encontrámos casas fechadas, revestidas de azulejos, as portas e janelas de alumínio dão nas vistas, sabendo contudo que existem casas recuperadas dentro das características tradicionais, sem descurar, como não podia deixar de ser, das indispensáveis comodidades. Houve mesmo quem tivesse recuperado o vão nas largas paredes, aqui muitas vezes designado por pilheira. Era uma maneira muito típica de arranjar lugar para colocar tigelas, pelanganas e outras (poucas) peças utilizadas, sem o recurso a móveis. Em todo o concelho, ainda é possível ver muitas nas casas antigas, mas nunca ou raramente aproveitáveis nos restauros.

Referimos a existência de um algar, cavado na rocha, sobre o qual se construiu uma habitação. As águas dos telhados são conduzidas para lá, de uma maneira original, servindo assim de reservatório do precioso líquido. As pessoas idosas atribuem-lhe grande antiguidade. (7)

Nunca existiu aqui qualquer estabelecimento comercial visto o reduzido número de habitantes não o justificar.

Depois do fornecimento de energia eléctrica, teve água distribuída por fontanários cuja estação elevatória está datada de 1988 e os arruamentos foram pavimentados. O telefone e a caixa do correio, se ainda existe, são regalias com cerca de trinta anos.

Recentemente (2002) forneceu-se água ao domicílio, colocando-se uma bomba de desinfecção mas... sem se criar o competente esgoto. (8)

À entrada do monte o forno comunitário, com alpendre, mas de construção relativamente recente – não se trata de um daqueles e há-os no concelho, de que ninguém se lembra de quando foram construídos.

A pastorícia foi sempre uma actividade importante na vida dos marmeleirenses, a par da cerealicultura.

Sabemos que em 1771 e seguintes, manifestavam o seu gado, constituído por cabras, chibatos, ovelhas, carneiros, borregos e ainda com muita frequência, reses (gado bovino), Gregório Gonçalves, Diogo Gonçalves, Manuel Gonçalves, José Dias (9), António Martins Corvo e Romão Vaz. (10)

[Ouro aspecto da entrada do "monte". Foto JV, 2005]

Em sessão de Câmara, realizada em 22 de Dezembro de 1843, com a presença dos principais cidadãos da freguesia, na Real Capela de Nª Sª da Conceição, com o objectivo de resolver o problema dos enterramentos, tendo-se acordado por unanimidade fazer um cemitério no sítio de S. Sebastião, o Marmeleiro fez-se representar por José Madeira. (11)

O mesmo indivíduo, já viúvo, em 1852 faz parte dos quarenta maiores contribuintes que hão-de eleger a Comissão para eleição de deputados.

O lugar de Juiz Eleito da freguesia de Alcoutim, em 1858, era desempenhado por José Pereira, igualmente desta pequena povoação.

O mesmo cidadão, quando era vereador da Câmara pede verbalmente que a mesma lhe concedesse no rossio do monte, próximo do caminho que vem para a vila e junto à cerca de José Galrito, do mesmo monte, oito metros de terreno para fazer uma casa, o que a Câmara lhe concedeu sem prejuízo dos habitantes do dito monte. (12)

A Cheia Grande (1876) também atingiu as propriedades (várzeas) dos seus habitantes e da relação apresentada dos prejuízos causados constam os nomes de José Pereira, que sozinho apresentou mais prejuízos do que todos os restantes juntos, Manuel Dias, Francisco Martins, José Galrito, António Dias, Augusto Dias e Manuel Agostinho.

Como se vê nesta e noutras circunstâncias, a população dividia-se em poucas famílias, sendo notório a dos Dias e a dos Gonçalves.

O capitão de Ordenanças, José Dias Justo, é escrivão da Santa Casa da Misericórdia em 1774/75 e em 1796/97. Outro capitão era Manuel Gonçalves, casado com D. Maria Pereira, faz o seu testamento em 1842 desejando ser sepultado na Igreja da Misericórdia.

[O "montinho" um pouco afastado mas fazendo parte da povoação. Foto JV, 2005]

Em Dezembro de 1893, Maria dos Ramos foi presa pelo crime de ferimentos na pessoa de José Madeira, solteiro, seu vizinho.

Leite de Vasconcelos recolheu nas proximidades um machado de pedra polida que depositou no Museu Etnográfico de Lisboa. (13)
Para terminar e por ser uma actividade nova, diremos que a Marmelcaça (Zona de Caça Turística) tem a sua sede nos arredores deste monte, ocupando uma zona cinegética onde se encontram perdizes, lebres, coelhos e javalis.


NOTAS

(1) – Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto – 1981
(2) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Edição Horizonte/ Confluência, 1993.
(3) – Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, (2 volumes), Academia das Ciências de Lisboa- Verbo , 2001
(4) – Vocabulário Português de Origem Árabe, José Pedro Machado, Editorial Notícias, 1991
(5) – “O Algarve Oriental Durante a Ocupação Islâmica” , Helena Catarino, in Al Ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6 Vol I , 1997/98.
(6) – Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, 2 Volumes, Algarve em Foco Editora, Faro, 1988.
(7) – Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), José Varzeano, Edição Câmara Municipal de Alcoutim, Rio Maior, 1985.
(8) - Alcoutim – Revista da Câmara Municipal de Alcoutim, nº 9 , Dezembro , 2002
(9) – Sabia escrever. Era 5º avô de meu filho.
(10) – Tomo de Manifestoz da Camera dos Gadoz, iniciado em 1771 (?)
(11) – Livro de Actas da Câmara Municipal de Alcoutim.
(12) – Acta de 30 de Janeiro daquele ano.
(13) -“ Objectos Arqueológicos de Alcoutim”, in O Arch. Port., Lisboa, Vol. XXIV, 1919.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Procissão em Honra de Nª Sª de Fátima



A nossa Câmara Escura de hoje vai voltar a este evento religioso que teve lugar na Vila de Alcoutim em 23 de Fevereiro de 1947, conforme consta no verso da fotografia que nos foi enviada pelo visitante assíduo deste espaço, o nosso amigo Carlos Barão.

Poucos dias depois a dita fotografia e outras da mesma cerimónia foram-nos gentilmente enviadas pelo também nosso amigo José Madeira Serafim, que assim e por este meio as disponibiliza.

A foto foi tirada à saída da Capela de Nª Sª da Conceição e a imagem esteve presente na missa campal desse dia realizada no cais da vila.

Aqui ficam mais estes elementos sobre acontecimentos passados há 54 anos.

Os nossos agradecimentos aos colaboradores.

Futuramente a Câmara Escura apresentará mais fotos deste acontecimento.

sábado, 17 de setembro de 2011

A cavadeira



Há muito que andávamos para abordar este utensílio agrícola que só conhecemos em Alcoutim e que dá pelo nome de cavadeira.

Ainda que qualquer cidadão saiba que “cavadeira” será algo para “cavar”, a verdade é que não conhecíamos o objecto pelo que a curiosidade levou-nos a procurá-lo.

Na nossa região de origem e noutra por onde já tínhamos passado nunca ouvimos falar em tal e daí a nossa admiração.

As fotos apresentam dois tipos de cavadeiras já desactivadas e sem cabo que teria sido possivelmente de zambujeiro ou de oliveira, pois eram os mais usados nesta região.

A primeira, para nós, parecia-nos uma espécie de picareta e a segunda um sacho. A explicação veio logo a seguir tendo-nos sido explicado que o ferro da cavadeira comporta duas partes com aplicações distintas: enquanto a “pá” (mais estreita ou mais larga como a foto apresenta) se destina a cavar, a parte de cima e ligada ao “olho”é em forma de machado e destina-se a cortar o mato que aqui sempre foi abundante.

Como se compreende trata-se de um utensílio agrícola concebido para as necessidades locais e por isso desconhecido de outras regiões com características diferentes.

Para completar o trabalho havia agora que procurar, nomeadamente em dicionários de vários tipos o que constava sobre a palavra.

Não consta, entre outros, do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa – Verbo, 2001 e do Dicionário da Língua Portuguesa “Editora”, Porto, 5ª Edição, 1977.

Encontramo-la como palavra usada no Brasil. O Dicionário Prático Ilustrado (Dir. de Jaime de Séguier) Edição de Lello & Irmão, Porto, 1972, apresenta a seguinte definição: – Instrumento agrícola para cavar terra ou juntar ervas que se cortam.

Entre outras definições e também ligado ao Brasil, o Dicionário Domingos Barreira, 4ª Edição, 1984, explica: enxada que se usa para a pesca nos rios.

Continuando a referir a palavra como de uso brasileiro, o Lello Universal – Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro, Porto, 1975, indica: Instrumento agrícola para cavar a terra ou juntar ervas cortadas. Nome comum de diversas espécies de aves da família das galbúlidas.

Para terminar consultámos o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa – Mirador – que refere: Instrumento para cavar terra ou juntar ervas mondadas. Enxada usada em pesca fluvial, etc

Não deixámos de consultar o Dicionário do falar Algarvio, Eduardo Brazão Gonçalves, 1988,que é omisso quanto ao termo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Relatório de 1867 sobre Alcoutim

Pequena nota
Nós não conhecíamos o curioso e interessante relatório que o nosso Amigo e colaborador Roiz Vilão nos traz hoje ao conhecimento ainda que soubessemos da visita do Governador Civil visto ela ser referida em actas da Câmara.
Vale como documento histórico e dá-nos uma perspectiva do ambiente concelhio na época e que para nós não constitui surpresa devido ao conhecimento que fomos adquirindo ao longo dos tempos com pesquisas efectuadas.
Na nossa modesta opinião, podemos e devemos fazer uma comparação com os dias de hoje e tirar conclusões.
Obrigado Gonçalo Vilão por nos ter dado a conhecer tal documento.


JV





Escreve


Gonçalo Roiz Vilão




[Vista parcial da Vila de Alcoutim em 1993. Foto de JV]

As pesquisas que tantas vezes fazemos em livros antigos que ficam perdidos no tempo e nas estantes poeirentas que a aldeia global tende a ostracizar, levam-nos a reflectir sobre o que esquecemos ou podemos aprender com o passado e ao rebuscá-los no tempo trazem-nos ao pesquisar, a concreta certeza que as problemáticas vivenciais que hoje atravessam as nossas vidas essas… já foram velhas. Contudo, passados que foram mais de 150 anos, o nosso concelho felizmente evoluiu, senão vejamos um relatório de Ayres Guedes Coutinho Garrido – Governador Civil do Distrito Administrativo de Faro, datado de 1867, sobre Alcoutim (1):

Este relatório acerca do Concelho de Alcoutim enquadrava-se na portaria publicada em 1866 que obrigava os Governadores Civis a visitar todos os concelhos do reino, vejamos o que relata o de então:

“N'este concelho, cuja cabeça tem apenas 90 fogos, achando-os cm grande decadencia, como o mostram as muitas casas deshabitadas e até desmoronadas que n'ella se encontram, a administração municipal é tal qual pôde esperar-se de uma camara, cujos vereadores são quasi todos analphabetos, sendo quem ali dirige tudo o escrivão da camara, que o é tambem da administração do concelho e da fazenda, e dando-se a circumstancia de ser o presidente alem de sub-delegado do procurador regio, escripturario de fazenda, e n'esta qualidade subordinado ao escrivão da mesma camara
D'aqui pôde inferir-se qual seja a falta de pessoal habilitado para os cargos publicos n'este concelho, cuja conservação só poderá justifiear-se pelo isolamento em que se acha n'um angulo do districto a oito leguas de distancia das povoações mais proximas, que são Castro Marim e Villa Real de Santo Antonio.
A casa da camara acha-se em deploravel estado e especialmente os telhados, e assim as casas da administração, do tribunal, prisões publicas, as calçadas das ruas, o caes junto do Guadiana, cmfim tudo o que se acha a cargo da camara d'este concelho.
A sua despeza obrigatoria é de 2:6910685 réis, alem da divida passiva, que é de réis 1:1925110, achando-se por cobrar, pelo desleixo da mesma camara e da administração dividas activas, na importancia de réis 1:620,975 réis de repartição (que é de 35 por cento) de todos os annos decorridos de 1816 em diante.
Não ha no concelho uma botica, nem um unico facultativo, e comquanto a camara creasse ultimamente um partido de 4000000 réis para medico e outro de 70;5000 réis para um boticario, nem se acham providos, nem ainda abriram concurso, porque não têem no orçamento meios para fazer face a estas despezas, nem se acham mui dispostos a vota-los, apesar das minhas ordens, e das recommendações que lhes fiz no acto da visita, porque não estão convencidos da necessidade de os haver no concelho, vivendo mui satisfeitos com os curandeiros com que se tratam.
O cemiterio da vila é tolerável, assim como os das freguezias do Pereiro e Vaqueiros: o de Giões está incompleto e o de Martim Longo mal situado por estar dentro da povoação. Deixei sobre estes e outros assumptos os provimentos necessarios, e tomei nota para instar e promover por todos os meios ao meu alcance as obras, melhoramentos e adopção das providencias que este concelho reclama; não confiando comtudo no feliz resultado de minhas diligencias, por isso que da parte dos habitantes e das respectivas corporações administrativas e auctoridades locaes se não encontra ali a menor cooperação ou auxilio.
Convencidos de que pela situação do concelho não pode ellc ser suprimido, entendem que a autoridade superior so conforma por necessidade com deixa-los viver a seu modo, e contam ir assim disfructando as vantagens inherentes ao serviço dos cargos que occupam, sendo para os que assim os servem que só, e por esse motivo, aproveita a existencia do concelho.
A escripturação da contabilidade municipal não se faz nos termos das iustrucções de 17 de novembro de 1849, havendo somente o livro da receita e despeza diaria, o qual todavia achei regular.
Estão approvadas as contas das juntas de parochia, umas até 1861 e outras até 1865; as da camara porém só estão julgadas até 1850-1851, sendo em virtude de ordens minhas que já se têem recebido as contas de alguns dos annos seguintes, faltando todavia ainda a maior parte, que sem cessar reclamo.”

(1)Collecção dos Rellatórios Visitas feitas aos distritos pelos respectivos Governadores Civis em virtude da Portaria de 1866; Lisboa, Imprensa Nacional, 1868.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Festa e Feira de Alcoutim / 2011






Reportagem

de


Gaspar Santos




Realizou-se este ano mais uma Festa como se tem verificado sem interrupção desde 1949, o ano a seguir à criação do Grupo Desportivo de Alcoutim. Ficamos satisfeitos por termos sido convidados a falar no Dia do Município sobre as primeiras festas.

Sexta-feira 9 de Setembro foi o Dia do Município e primeiro dia destas festas organizadas pela Câmara Municipal. O Sábado foi o dia de Espanha e Domingo e último dia de Festa, o dia da Juventude.

O Dia do Município começou com Arruada e Hastear da Bandeira na Praça da República, a que se seguiu a colocação de ramo de flores junto do busto do Dr. João Francisco Dias e recolhimento com fundo musical por banda.

Às 10 horas realizou-se a sessão comemorativa do Aniversário das Festas de Alcoutim na qual Fernando Estêvão Dias fez a apresentação da brochura “As Grandiosas Festas de Alcoutim”, uma recolha da documentação possível que historia estas festas.

Reconheceu haver algumas dúvidas estando abertos a colaborações que as esclareçam.
A seguir falou o colaborador deste blogue sobre as primeiras festas situando o seu início em 1949 e que terão levado um forte incremento quando em 1951 se lhe juntou o apoio da Câmara e em 1952 se constituiu uma comissão de honra com as pessoas de maior destaque; José Serafim sobre as festas dos anos 1960; Carlos Brito sobre o futuro de Alcoutim e a formação de lóbi iniciado por si, escritor Mário Zambujal e Professora Teresa Rita Lopes. Mário Zambujal defendeu que se esta é uma terra que tem fibra para realizar umas festas desta grandeza mais de 60 anos, então é por que “Alcoutim vale a pena”. Acrescentou que o ambiente limpo e a tranquilidade que aqui se tem não deve ser obtida à custa da desertificação do território.

A encerrar a sessão falou o Dr. Francisco Amaral, presidente da Câmara Municipal, sobre as três personalidades que se distinguiram na vida de Alcoutim e que iam figurar na toponímia e convidou os presentes a assistir ao descerramento das respectivas placas toponímicas: Avenida Fernando Lopes Dias; Avenida Prof. José Maria Mendes Amaral e Praceta Manuel Serafim.

A seguir assistimos a um interessante desfile etnográfico constituído por Grupos de Balurcos, Pereiro e Martinlongo e ao grupo de Teatro experimental de Alcoutim.

Destas cerimónias, do espectáculo de Sevilhanas e parcialmente da Feira Anual que coincide há mais de 60 anos com as Festas temos algumas fotos.

Realizaram-se, como de costume, algumas provas desportivas:

Futebol – Grupo Desportivo de Alcoutim 2 – Sanlucar 8

Pau de Sebo : 1º Ivo Gastão; 2º Eurico

Travessia do Guadiana a nado:
Homens - 1º Duarte; 2º Miguel Bautista: 3º Ruben Fuentes
Senhoras - 1ª Ana Ruas; 2ª Joana Cunha; 3ª Jaiza Parada
Do concelho – 1º Pedro Vicente; 2º Hugo Carmo; 3º Ângela Teixeira
Veteranos – 1º Luís Ribeiro; 2º Hélder Peca
Sub 14 – 1º Pablo Herrera; 2º Jaiza Parada; 3º Pedro Vicente.


REPORTAGEM FOTOGRÁFICA DOS ACONTECIMENTOS

G.S.











quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Recordações - XI

Pequena nota
Neste texto de Daniel Teixeira está retratada com grande rigor uma época que conheci e vivi em Alcoutim. Era assim em Alcaria Alta, era assim em todos os montes do concelho e onde o “velho” problema da localização dos marcos sempre gerou controvérsias.
Mais uma importante “aguarela” do concelho de Alcoutim em meados do século passado.

JV






Escreve



Daniel Teixeira




AO CORRER DA PENA



As minhas memórias sobre a minha vida em Alcaria Alta estão de tal forma interligadas que me é sempre difícil construir um texto com princípio, meio e fim que se conjuguem. Na verdade temos de ter em atenção aquilo que se define normalmente como sendo a transversalidade, que em certo sentido é a contrária da linearidade, da obediente cronologia, da divisão em tempos continuados, da descrição do acontecido da hora tal à hora tal.

Se eu me lembrar das pessoas que nos visitavam sistematicamente quando íamos ao Monte terei de me lembrar das minhas primas do Monte das Velhas, que fica para os lados de Giões / Alcoutim e para o outro lado, de Vaqueiros, terei de me lembrar da minha prima Marquinhas que vinha infalivelmente de Santa Justa poucas horas depois de nós acordarmos no dia seguinte à chegada.

As primas do Monte das Velhas vinham em data incerta mas sempre também nos primeiros dias enquanto a Marquinhas parece que tinha um relógio cronometrado. A nossa ida nem sempre era certa nos dias e os contactos com Santa Justa não eram muito fáceis e pelo que me lembro telefones não havia naquele tempo por lá e mesmo que houvessem seriam exclusivamente utilizados para os casos mais graves e gastar dinheiro em chamadas telefónicas era questão que requeria uma demorada ponderação.

Mas lá vinha ela, de cesta na cabeça e dois cestos nas mãos, uma matulona rara por aqueles lados, para aí com 1,70 m de altura e corpo forte. Chegava de Santa Justa, talvez a 6 Kms dali, por caminhos desgraçados e parecia que vinha de um tranquilo passeio na baixa de uma cidade.

[Entrada do Monte das Velhas. Foto JV, 2009]

Gostávamos todos muito dela, aliás não me lembro de não gostar de alguém e mesmo o meu tio Afonso, o tal que foi da GNR, que já depois de reformado estava sempre presente, nunca me pareceu assim tão «torcido» como poderia imaginar.
Mantinha uma guerra quase secreta com a minha avó a que chamámos no gozo entre nós a «guerra dos marcos». Na zona do vale da égua (dizia-se valdégua) tínhamos mais outra horta dividida entre as duas irmãs, Ti Zabelinha e minha avó: ora era hábito dele avançar o marco de divisão da propriedade (uma laje encostada ao muro) para aí uns cinquenta centímetros o que levava literalmente a minha avó aos arames.
Entendia ele que a marca era ali, entendia a minha avó que era onde ela o punha e segundo ela onde sempre tinha estado: com tanta mudança, talvez uma vez por semana pelo menos, nem dava para ver o poiso mais constante do marco uma vez que ele não chegava a assentar no mesmo lugar ao ponto de deixar sinal de sol ou de ervas.

O Tio Afonso era também um matulão respeitável mas sempre me deu a impressão que ele fazia a troca do marco por gozo e para ver a minha avó irritada, uma vez que ela cada vez que tinha de mexer no marco se ia zangar com ele a casa, algumas vezes só passando de largo.

O meu tio Afonso acabou por ficar muito limitado na sua actividade porque deu um tombo de uma mula que se espantou com o reflexo de uns plásticos que cobriam o galinheiro em frente à venda da Ti Inácia. Habituado a andar a cavalo nas patrulhas não era de esperar tal acidente mas ele foi nitidamente apanhado de surpresa uma vez que todos os dias por ali passava.
Não chegou a ir ao médico mas levou o resto dos seus dias a queixar-se «das cadeiras» e a mover-se com dificuldade.

Uma vez que ele esteve pior e de cama pediu-me para o levar à casa de banho, que na altura era num quintal próximo de casa (depois os filhos fizeram uma mesmo com sanita) e lembro-me do seu olhar bem triste e de homem vencido a dizer-me: «uma pessoa nunca deveria estar doente ao ponto de não conseguir fazer isto sozinho». Era, de facto, uma humilhação para ele...compreendi perfeitamente.

[Vista parcial do grande monte de Santa Justa. Foto JV, 2010]

A Marquinhas, a minha prima de Santa Justa, foi depois viver e trabalhar em Lisboa, junto com a irmã que já tinha partido anos antes. O primeiro emprego dela, pelo que sei, foi de vendedora de porta a porta da uma marca de electrodomésticos: ao fim de pouco tempo conhecia Lisboa de ponta a ponta e era raro utilizar o autocarro ou o eléctrico. Não importa qual rua de Lisboa se lhe perguntasse ela tinha a resposta pronta e mesmo tendo mudado de emprego manteve essa memória sempre.
Um dia alguém a encontrou tombada numa rua de Lisboa: tinha tido um derrame cerebral e já estava morta quando lhe acudiram. Fui ao seu funeral como fomos quase todos da família alargada.
Não perdi no entanto nunca a imagem daquela matulona sorridente a cruzar a porta da nossa casa no Monte.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Monte da Estrada, na margem de um dos braços da Ribeira da Foupana

[Monte da Estrada. Vista parcial. Foto JV, 2011]

Situa-se esta pequena povoação, habitada esporadicamente a cerca de 46 km de Alcoutim, sede do concelho a que pertence e a 17 de Martim Longo, sede de freguesia.

É a última povoação pertencente ao concelho por este lado, situa-se na margem esquerda da Ribeira da Foupana, melhor dizendo do braço que nasce nas proximidades da Corte de João Marques, freguesia de Ameixial, concelho de Loulé.

Sempre a descer desde a estrada asfaltada, a ela se chega pelo C.M. nº 1032 de terra batida.

Visitámo-la a primeira vez em 1997 e ainda que fosse habitada, não conseguimos ver ninguém.

Na ribeira, que no local tem um curso sinuoso e largo, foi construído em 1989 pela Câmara Municipal um pontão que possibilita o seu atravessamento por veículos automóveis e no qual se gastaram cerca de 3 000 contos. (1) O mesmo veio a beneficiar de reparação e ampliação em 2000. (2)

[Pontão na Ribeira da Foupana. Foto JV, 2011]

Tem energia eléctrica e distribuição de água por fontanários e hoje ainda é visível o antigo poço que dava água à população e apetrechado de bomba elevatória.

Em 1992 a Câmara adjudicou as obras de arruamentos em vários “montes”, nas quais se encontravam as deste.

Só em 1995 e também por interferência da autarquia se obteve o telefone fixo. (3)

A população era de 52 habitantes em 1911 mas em 1970 já tinha descido para 36. No censo de 1991 não sabemos, pois o seu número foi incluído nos fogos isolados, possivelmente não chegariam a uma dezena. Segundo nos consta, os dois últimos habitantes (permanentes) foram duas senhoras idosas que enviuvaram e foram recolhidas por familiares.

O topónimo Estrada é muito vulgar em Portugal e anotámos, isolado, cento e vinte casos e composto mais de meia centena.

Estrada provém do latim strata, que significa caminho calcetado.

Nas Memórias Paroquiais (1758) o pároco que respondeu ao questionário indica-o como Monte da Estrada, designando igualmente todas as outras povoações por “montes”excepto a sede de freguesia.

As povoações que lhe ficam mais próximas são os Zorrinhos de Cima a 3,5 km e as Mestras a 4,5. O “monte” dos Relvais que lhe ficava próximo deixou de ser habitado em meados do século passado, mas onde em 1865 ainda nascia uma criança, filho do casal de lavradores José Lopes e Maria Rosa. Também nesse ano e em 16 de Junho nasceu no Monte da Estrada, Manuel, filho dos lavradores Manuel Dias de Brito e de Maria Guerreiro. Neste mesmo ano falece com 76 anos, Manuel de Brito, viúvo, lavrador, pensamos que talvez fosse da mesma família do anteriormente referido e que deixou seis filhos.

Em 1999 foi descoberto o Tholos do Malhanito, monumento funerário constituído por um corredor de acesso e uma câmara, pertencente ao período Calcolítico (3000 – 2000 A.C.).

Posteriormente escavado sob a responsabilidade do Prof. Doutor João Cardoso da Universidade Aberta de Lisboa, foram encontrados dois enterramentos humanos de que restavam alguns ossos o que permite através do método do carbono 14 determinar a idade. Entre outros materiais foram encontradas duas contas de colar de grandes dimensões e um escopro de pedra polida, encontrando-se o monumento em bom estado de conservação. (4)

[Tholos do Malhanito]

Ainda que a pequena povoação possua casas ao gosto antigo e em ruínas, outras estão bem conservadas e é interessante notar-se a influência alentejana contrapondo-se à algarvia.

Existe uma Zona de Caça Turística. (5)

Não queremos deixar de referir um pequeno facto acontecido connosco por volta de 1990.

Encontrando-nos no exercício da nossa profissão, recebemos a visita de um amigo da área profissional que com ele traz um colega e que tinha gosto de nos apresentar pois era natural de Alcoutim.

Ficámos satisfeitos com tal surpresa dizendo e estando convictos que, se não o conhecíamos a ele, conheceríamos a família.

Puro engano.

O apresentado era efectivamente natural do concelho de Alcoutim, mas do Monte da Estrada!

Na altura e segundo nos informou, só uma ou duas vezes tinha ido à vila que quase não conhecia. Conseguimos encontrar, contudo, pessoas que ambos conhecíamos, como foi o caso do Senhor Mateus Martins Silva, saudoso amigo já desaparecido.

NOTAS

(1)- Boletim Municipal nº 5 de Set./89.
(2)- Alcoutim, Revista Municipal nº 7, Março/2000, p.12
(3)- Alcoutim, Revista Municipal nº 1 de Maio/Junho de 1995
(4)- Alcoutim, Revista Municipal, nº 9, Dezembro de 2002, p. 35.
(5)- Alcoutim, Revista Municipal nº 10, de Dezembro de 2003, p. 27

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Quando as Festas de Alcoutim tinham outro sabor...

Pequena nota
Esta crónica do nosso colaborador e amigo, Amílcar Felício, é oportuna e revejo-me em quase tudo que refere.
Já não assisti ao peditório pelos montes e também não me lembro da paliçada para evitar os “penetras”. O restante, é tudo dos meus dias.
É evidente que aquele tipo de “festas” desmoronou-se completamente com o 25 de Abril e com os balúrdios de dinheiro chegados ao município e utilizados onde davam ou dão jeito.
Para mim as festas acabaram por terem perdido o seu altruísmo e sentido popular.
Oh Amílcar, ambulância só conheci no meu tempo o táxi do Sr. Mateus!

JV





Escreve


Amílcar Felício



Se calhar estou a ficar velho do género “no meu tempo é que era bom”! Mas francamente acho que não... Cheguemos pelo menos a um consenso e convenhamos que no mínimo, as Festas de antigamente tinham um sabor “humano” diferente! Eram 30 dias de um Alcoutim solidário em que toda a Vila confraternizava e se empenhava como um só homem: rapazes e raparigas, homens e mulheres, velhos e crianças ninguém recusava uma mãozinha para a preparação das Festas que atraía gente de todo o Algarve, do baixo Alentejo e de todas as povoações espanholas próximas de Sanlúcar. Era também o ponto de reencontro por excelência, para aqueles mais ousados e com maior ambição que um dia tinham partido – embora nada semelhante à grande sangria que iria ocorrer a partir dos anos sessenta – à procura de uma vida, que Alcoutim não lhes podia proporcionar.

As Meninas e as Senhoras dedicavam-se a fazer e a colar as bandeirinhas em centenas se não quilómetros de metros de corda, que ornamentavam a parte baixa da Vila e a enrolar os bilhetinhos para a Quermesse com um ou outro premiozito à mistura, resultado do Peditório que se fazia todos os anos e que naturalmente atraía os visitantes a comprar uma rifa. Organizavam também a própria Quermesse, assegurando a venda das rifas naqueles 3 dias.

Os Rapazes por seu lado faziam os habituais Peditórios, palmilhando dezenas e dezenas de quilómetros pelos Montes do Concelho e a verdade é que todos contribuíam com aquilo que podiam, principalmente com trigo e outros cereais, pois o dinheiro ainda era mais escasso do que nos nossos dias. Ainda me doem as costas... Deixávamos depois as sacas em casas conhecidas, pois os nossos meios de transporte eram bastante rudimentares. O Padre Moreira posteriormente fazia o favor de transportar toda aquela sacaria para a Vila. Era mais um carro que existia em Alcoutim na década de sessenta e que não mencionei por esquecimento na minha última crónica.

A última semana antes do início das Festas era dedicada aos enfeites em verdura de todo o Recinto e do Palco, com a construção de uma sebe em cana em todo o perímetro do Recinto o que impedia a entrada de penetras e o desfrutar do espectáculo à borla. E lá íamos nós dias a fio ora para a Lourinhã ora para o Alcaçarinho conforme o sentido da corrente da maré, transportando jangadas e jangadas de canas e verduras em cima das quais nos transportávamos como autênticos piratas, para as conduzir a bom porto até Alcoutim.

Assim, quem quisesse refrescar-se com uma cerveja no Recinto das Festas ou dar um pezinho de dança tinha que pagar a entrada. A rapaziada assegurava também a organização da Bilheteira e das Entradas, a exploração das Mesas e do Bar. Tudo revertia para a obtenção de fundos para a compra de uma Ambulância para o Hospital, nobre objectivo cujo custo na altura se a memória não me falha estava avaliado em 400 contos, ou sejam 2000 euros. E tudo se fazia com dedicação e amor à camisola e o facto é de que nunca se me constou que tivesse existido algum desvio de bens ou do dinheiro angariado, excepto uns zuns zuns de que alguém hierarquicamente superior em determinada altura tivesse usado o dinheiro temporariamente em actividades particulares, mas que posteriormente tudo teria sido reposto. Nunca cheguei a saber se a dita ambulância chegou a ser comprada...

[Festas da Vila em 1973. Foto JV]

Mas muitas vezes não nos limitávamos apenas a organizar simplesmente as Festas. Alguns anos, muitos de nós não só organizávamos o Circo para as Festas, como também fazíamos de “palhaços” ora com jogatanas de futebol principalmente com os espanhóis de Sanlúcar, ora participando na travessia do Guadiana e no concurso do Pau de Sebo, ora actuando no Rancho Folclórico de Alcoutim sob a batuta do Mestre João Ricardo, o mais importante agente cultural da época na Vila e tema já referido neste blogue por José Varzeano. Houve um ano até que tentámos organizar um grupo musical com alguns instrumentos concebidos por nós, como por exemplo um xilofone de garrafas. Mas as aptidões musicais eram fracas e o projecto morreu à nascença.

[Festas da Vila de 1998. Pau de sebo. Foto JV]

A baixa de Alcoutim naqueles 3 dias transformava-se num terreiro de Tendas e de Tendeiros, onde tudo aparecia para venda. Resquícios herdados naturalmente da original e secular Feira de Alcoutim e de que as Festas nunca abandonariam completamente, embora sem atingir a dimensão e a importância das Feiras da primeira metade do século XX, fundamentalmente à base de Gado Asinino, Cavalar e Muar no lugar da Fonte Primeira, hoje conhecida como praia do Pego Fundo. Naturalmente do que mais recordo dos meus tempos de menino era da doçaria desde o nógado aos suspiros, passando pela batata doce que como uma verdadeira Rainha surgia naqueles 3 dias para ser apreciada pelo paladar alcoutenejo, pouco habituado durante o ano aquelas iguarias.

Para o Comercio Local aqueles 3 dias eram um “ver se te avias” com aumentos de vendas significativos. Isso obrigava evidentemente a um reforço considerável de stockes, pois nuestros hermanos a sofrer ainda as consequências da guerra civil que tinham economicamente debilitado bastante o país, deslocavam-se de todas as povoações próximas de Sanlúcar como o Granado, os Castellejos etc., etc., etc., quer para as Festas, quer sobretudo para a compra de bens, atraídos pela qualidade do nosso café, da nossa corda e do nosso tabaco e assim, apesar da proibição de comercialização ainda existente, aproveitavam aquela ocasião para levar à socapa principalmente aqueles bens.

[Rancho de Alcoutim ensaiado por João Ricardo]

E era também uma salutar guerra entre comerciantes que já naqueles tempos disputavam a exclusividade dos melhores cafés, usando todo o seu engenho e arte para cativar “o caixeiro viajante” com os seus argumentos – há um ror de anos que não proferia o nome de tal profissão! - nobre profissão caída em desuso, pois quase todos subiram na vida e hoje são respeitáveis “gestores de clientes” ou “técnicos de vendas”, apesar de lá ir ainda subsistindo por aqui ou por ali algum antigo vendedor, mas já em vias de extinção, claro.

Aqueles “caixeiros viajantes” eram de facto uma figura marcante naqueles tempos e um verdadeiro correio das novidades e das notícias e de facto ficávamos sempre mais bem informados do que se passava por esse mundo fora, quebrando-se por momentos aquele isolamento em que Alcoutim vivia no seu dia-a-dia. Eram como se fossem da família e ainda conservo a memória de alguns, como se fossem parentes chegados de sangue. De facto comiam e às vezes até dormiam na casa dos clientes. Até chegávamos a organizar pequenos passeios para confraternizar, quando eles visitavam Alcoutim! Eram de facto tempos feitos de outro tempo e o tempo naquele tempo dava para tudo... e às vezes ainda sobrava tempo! Era um tempo com um sabor diferente não há dúvida, hoje é que não há tempo para nada!