terça-feira, 18 de outubro de 2011

Talher - Garfos

Iremos referir hoje neste espaço de etnografia o utensílio de mesa que acaba por ser uma espécie de pequenino forcado, de uma maneira geral, com quatro dentes e um cabo que se usa para segurar no prato o que se corta e para levar à boca alimentos sólidos.

Apresentamos oito exemplares da nossa pequena colecção. Os três primeiros, que nos ofereceram em Alcoutim, são os mais antigos que conhecemos e que ainda vimos em uso nalgumas casas, pois havia elementos do agregado familiar que os não trocavam a qualquer outro, pois consideravam-no muito mais eficiente na sua acção.

Eram de ferro e não havia dois iguais, visto tratar-se de um trabalho totalmente artesanal.

Pensamos que os ferreiros espalhados pelo concelho os fariam, já que também eram eles que faziam os próprios pregos e tudo o que fosse necessário para a vida de então.

Os dois seguintes são de alumínio. Enquanto o primeiro é de uso comum, o segundo tem a missão de transportar peças ou quantidades maiores nomeadamente para travessas, pratos ou pelanganas.

Tanto no primeiro caso como neste, os cabos são da mesma substância, notando-se nos de alumínio uma tentativa de embelezamento dos mesmos.

Eram muito mais leves, mais higiénicos, menos trabalhosos na sua limpeza, mas menos eficientes no trabalho e partindo-se com facilidade.

Os três últimos já são da conhecida cutelaria de Guimarães, sendo os dentes em ferro, já de fabrico em série. Os cabos de madeira ou corno, notando-se assim uma evolução muito acentuada. Reparar que as três peças têm formatos diferentes. Têm uma maior elegância e eram acompanhados das respectivas facas de decoração semelhante e onde já era gravado a origem do fabrico.

Do talher que hoje usamos com naturalidade, colher, faca e garfo, este foi o último a aparecer, dado que na Idade Média o garfo era substituído pelos dedos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Estórias do Surf - "LEFT CITY"





Escreve


José Miguel Nunes


[O autor surfando em 1989]

Estaríamos nos finais dos anos oitenta, pois eu já fazia surf há pelo menos quatro ou cinco anos. O surf nesse dia era na Marques Neves, uma onda muito boa quando as condições de vento e“swell” se conjugam na perfeição.

O surf estava muito bom, com direitas compridas a atravessar toda a baia de pedra, vento “off-shore” fraquinho, o que fazia com que as ondas se apresentassem “glass”. Já não me lembro quem estava na água, seríamos aí uma dezena, entre eles estava o meu amigo Leopoldo, “shaper” local que me fez muitas e boas pranchas.

Numa altura em que os dois fizemos uma onda um a seguir ao outro, acabámos por nos encontrar no “inside” bem lá ao fundo até onde as ondas nos levavam, quando ele me desafia a ir apanhar umas na esquerda lá mais em baixo, a que chamamos de “Left City”, onde não estava ninguém. Fiquei um bocado indeciso, pois nunca tinha surfado lá, e naquele dia as ondas rondavam o metro e meio de altura, com a maré vazia, não me estava a sentir muito confortável, mas ele insistiu e lá fomos nós…

Left City é uma onda tubular, para a esquerda, faz lembrar os Supertubos, mas a rebentar em cima de um fundo de pedra raso. Mal chegámos ao pico, o Leo apanhou logo uma onda, e fez o respectivo tubo, volta para o pico e eu ainda não me tinha estreado. Elas passavam por mim, e eu nada, os “drops” estavam atrasados, com a água cristalina, via-se o fundo todo bem pertinho… de pedra.

Novo “set” entra e o Leo arranca novamente, outro tubo. Volta para o pico, e eu continuava em branco, a coisa não estava a correr bem. Diz-me ele: “atão” Zé, tão altas ondas…”, fiquei um pouco embaraçado, estavam altas ondas, só nós dois, e eu nada… Entra novo “set”, começámos a remar, e o Leo não parava de dizer: vai nessa, vai nessa, alta onda… não tinha outro remédio, tinha de ir… logo se via no que dava… arranquei bem posicionado, “drop” atrasado, bottom, e mete lá para dentro, tubo até ao fim, alta onda, vim a remar para o pico aos gritos: alta onda, alta onda…

Ganhei confiança, a partir daí não houve “set” em que não arrancasse numa, eu e ele claro. Foi um dia de surf inesquecível com muitos tubos, talvez um dos melhores dias de surf que tive.

Surfei mais algumas vezes, não muitas, em Left City, mas nunca mais lá apanhei ondas assim, esta surfada inesquecível devo a ao meu amigo Leopoldo… thanks Leo.

domingo, 16 de outubro de 2011

Alcaria, pequeno e antigo lugar da freguesia de Vaqueiros

[Aspecto do interior do "monte". Foto JV, 2011]

É um dos pequenos montes que faz parte desta freguesia, revelando o seu topónimo antiguidade, do período árabe. Apesar disso, não aparece especificado nas Memórias Paroquiais (1758). Admito que na altura tivesse outro nome ou que fosse englobado nas Alcarias e por ficar mais afastado passasse a ser designado por Alcaria.

O documento encontra-se repassado de tinta pelo que a leitura se torna difícil. Além de aparecer um monte designado de Corte, aparece outro que não consigo fazer a sua leitura.

O acesso à pequena povoação é feito hoje por estradas asfaltadas. O Barranco fica-lhe a 800 metros e as Casas a 1200. As Alcarias distam 1700 metros e o Cerro 2, 5 km ainda que por caminho de terra batida seja muito perto.

[Casas junto à estrada. Foto JV, 2011]

A sede de freguesia, Vaqueiros, está a 12 km e a do concelho, Alcoutim, a 42 e isto sem passar pela aldeia de Vaqueiros. Curiosamente a cidade de Vila Real de Santo António fica-lhe a 38 km, por isso, mais próximo.

[Antigo poço e lavadouro público. Foto JV, 2011]

O topónimo provém do árabe al qariâ, “ que significa pequena povoação, aldeia. (1)

A energia eléctrica chegou no dia 4 de Dezembro de 1985 (2) ao mesmo tempo dos seus vizinhos do Barranco, Casas e Cerro.

Os arruamentos foram pavimentados, tal como no Barranco, Cerro, Preguiça e Cabaços em 1993 (3).

[Caixas do correio, placard e caixotes de recolha de lixo. Foto JV, 2011]

O pequeno painel de caixas do correio foi colocado em 1996. (4)

Possui placard informativo e recolha de lixo.

Em 2002 já a água tinha sido levada ao domicílio. (5)

Existe um edifício relativamente recente à beira da estrada e um pouco mais abaixo, um poço com bomba elevatória com lavadouro anexo.

Os restantes fogos, que não chegam aos dedos de uma mão, ficam no outro lado da estrada numa pequena elevação com boa vista.

Conta actualmente, Agosto de 2011, com 4 habitantes.
___________________

NOTAS
(1) - Vocabulário Português de Origem Árabe, José Pedro Machado, 1991
(2) – Jornal do Algarve de 5 de Dezembro de 1985.
(3) - Boletim Municipal nº 12 de Abril/1993
(4) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, p 12
(5) – Alcoutim, Revista Municipal nº 9 de Dezembro de 2002, p 7

sábado, 15 de outubro de 2011

Poejo


É outra das plantas herbáceas aromáticas que o alcoutenejo usa como condimento na alimentação e igualmente como mezinha caseira para determinadas situações.

É conhecida em todo o Mediterrâneo e Ásia Ocidental com usos muito variados principalmente pelas suas propriedades medicinais.

Da família das labiadas (Mentha pulegium – Lineu) cresce espontaneamente nos lugares húmidos e inundados do sul de Portugal ou junto de pequenos cursos fluviais onde pode ser encontrada entre outros tipos de plantas.

De folhas verdes lanceoladas, levemente serrilhadas, caules erectos, quadrangulares com muitas ramificações dispostas opostamente. Flor roxa.

O poejo é muito utilizado na culinária alentejana, na confecção de variadíssimos pratos, tirando partido do agradável gosto que esta planta proporciona.

O alcoutenejo utiliza-o sobretudo na confecção de açordas (macerado) substituindo muitas vezes os coentros ainda que apareça também noutros pratos e saladas.

A nível medicinal foi sempre e é muito utilizado contra as constipações e como expectorante. Ultimamente conheci alcoutenejos que o utilizavam em chá para controlar o colesterol.

Noutras zonas é tomado como calmante, contra as insónias, bronquite, asma, dores reumáticas, acidez do estômago, enjoo e contra a formação de gases intestinais.

O termo pulegium deriva da palavra latina pulex (pulga) e deve-se ao antigo costume de queimar poejo no interior das casas para repelir estes insectos.

Alivia a dor quando aplicado sobre a picada de insectos.

No Sul do país utilizam-no para a preparação, depois de seco, de um apreciável licor com cor esverdeada.

O apresentado na foto foi feito no concelho de Alcoutim com poejos lá criados e a aguardente é ribatejana.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

APROFIP - Associação de Produtores de Figo da Índia de Portugal

Pequena nota
Recebemos desta Associação o seguinte texto que publicamos com muito gosto e vontade de divulgar uma associação” sui generis”. Pela nossa parte nunca conhecemos outra do tipo no concelho e dar a conheça-la, como já temos feito, aos visitantes / leitores do Alcoutim Livre, constitui um dever.

O ALCOUTIM LIVRE está desde a primeira hora aberto a todos os pedidos que tenham por fim melhorar o concelho e a todos aqueles que desejem expressar a sua opinião por mais diferente que seja da nossa, desde que estejam plenamente identificados e não sejam ofensivos ou caluniadores de quem quer que seja.

JV



Caro Sr. José Varzeano,
Com os melhores cumprimentos.

Venho solicitar que, se possível, seja publicada no blog Alcoutim Livre, a divulgação de Pré-Registo para sócios fundadores da APROFIP – Associação de Produtores de Figo-da-India de Portugal.

A meu pedido e já por mais de uma vez, teve a amabilidade de publicar artigos e informações relacionadas com assuntos de interesse para o concelho de Alcoutim e cujos objectivos se norteiam sempre por contribuir com humildade para o desenvolvimento económico da região e suas comunidades.

É com esse espírito, que ouso pedir-lhe de novo a divulgação desta campanha para a angariação de aderentes à APROFIP a qual pretende, num futuro próximo, apresentar um dossier às entidades competentes, fazendo-as acreditar, com sustentada fundamentação que, a plantação ordenada da Figueira-da-Índia e explorada industrialmente, tem potencialidades para constituir um factor de desenvolvimento no concelho de Alcoutim e noutras partes do território Nacional.

A razão deste meu pedido de divulgação tem como principal objectivo, sensibilizar as populações do concelho de Alcoutim e outros concelhos da região, onde o Figo-da-India encontra aptidões excepcionais para o seu desenvolvimento.

O pré-registo para sócio fundador desta Associação termina logo que atinja a inscrição nº 300 (neste momento e decorridas apenas 3 semanas, já contamos com largas dezenas de inscritos) e todos os sócios fundadores beneficiarão do pagamento de uma jóia de menor valor, em relação aos inscritos posteriormente os quais não irão ter o estatuto de sócios fundadores da APROFIP.

Importa referir que nesta fase de pré-registo não haverá lugar a qualquer pagamento, este registo servirá apenas para a atribuição de nº de associado e poderão sempre desistir se, quando for apresentado o programa de acção da APROFIP, não se reverem nos objectivos propostos. Pessoalmente tenho a certeza que isso não irá acontecer, porque os benefícios para os associados serão esmagadoramente superiores a qualquer jóia.

Qualquer informação que julguem necessárias e a ficha de inscrição devem ser solicitadas pelo e-mail:

nunes_mario@sapo.pt

Com as melhores saudações APROFIP

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Os netos dos 1ºs Condes de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nº 75 DE MAIO DE 2005)

À Antónia Maria
pelo interesse manifestado


A criação do condado de Alcoutim teve origem numa carta de D. Manuel I datada de 15 de Novembro de 1496, segundo Anselmo Braamcamp Freire, Vol. III de Brasões da Sala de Sintra.
A outorga do título nobiliário teve por base o casamento de D. Fernando de Meneses, filho do 1º Marquês de Vila Real, com D. Maria Freire de Andrade, filha de João Freire de Andrade, Senhor de Alcoutim.

Depois da curiosidade de “conhecer” os pais, passámos aos filhos (1) e agora aos netos.

Nas procuras que efectuámos obtivemos alguns dados com os quais organizámos este pequeno escrito, ficando aquém do que desejávamos.

Dos filhos que o casal gerou, D. Leonor de Noronha não casou e do casamento de D. Nuno Álvares de Noronha, sepultado em Ceuta de que foi governador, com D. Maria de Noronha (Vila Nova), não houve geração.

Do filho primogénito, D. Pedro de Meneses, nascido em Ceuta ou em Santarém, segundo outros e que foi o 2º Conde e proveniente do casamento com D. Brites (ou Beatriz) de Lara, nasceram quatro filhos, sendo dois varões. Ambos vieram a ser Condes de Alcoutim, D. Miguel de Meneses, o 3º, que sucedeu a seu pai e D. Manuel, seu irmão que lhe sucedeu por falta de filhos provenientes da sua união com D. Filipa de Lencastre.

D. Juliana de Lara veio a casar com D. João de Lencastre, 1º Duque de Aveiro. Este D. João de Lencastre esteve preso por se ter oposto ao casamento do Infante D. Fernando, filho de D. Manuel I, com D. Guiomar Coutinho, pois afirmava que há muito a desposara clandestinamente.


O casamento com D. Juliana, realizado em 1547, foi proposto por D. Manuel I e dele nasceu o 2º Duque, D. Jorge de Lencastre que morreu com D. Sebastião na batalha de Alcácer Quibir.
A outra filha de D. Pedro de Meneses, foi D. Bárbara de Lara que casou por volta de 1555 com D. António de Ataíde, 2º Conde da Castanheira que foi Senhor de Castanheira, Povos e Cheleiros e alcaide - mor de Colares. D. Bárbara, é segundo casamento do Conde, tendo o Conde de Alcoutim, D. Miguel de Meneses vendido a D. António de Ataíde certos bens que constituíram o dote de sua irmã.

De D. João de Noronha, que não casou, proveio D. Antão de Noronha que veio a ser grande guerreiro e navegador, governador de Ormuz e 9º Vice-Rei da Índia (1564-1568). No seu governo, a cidade de Damão sofreu grande ataque que foi repelido com heroicidade e no seu tempo foi tomada Mangalor, tendo-se procedido à sua reconstrução.

Regressando ao reino em 1569, morre na costa de Moçambique.

Tinha casado com D. Inês de Castro (Feira) e de que não houve filhos.

O outro filho de D. João de Noronha, foi André de Noronha que foi prelado. Estudou em Coimbra e doutorou-se em Cânones. Reitor da Universidade de Coimbra, era deão da capela do príncipe D. João, filho de D. João III. É nomeado por Paulo IV, bispo de Portalegre em 1560, funções que exerce até 1581, ano em que Filipe II de Espanha o apresenta em Placência onde vem a morrer em 1586 mas trasladado por disposição testamentária para a Igreja de Sto. António, na cidade de Portalegre onde tinha fundado o convento de S. Francisco.

Do casamento de D. Afonso de Noronha, 5º Vice-Rei da Índia, com D. Maria de Eça, nasceram cinco filhos, a saber:

D. Fernando de Noronha que casou duas vezes, a primeira com Maria de Vilhena e a segunda com Antónia de Mendonça Coutinho, não havendo filhos de qualquer dos consórcios.

Depois de ter servido em África com seu pai, acompanhou-o à Índia. Em 1551 recebeu o comando da esquadra do Estreito, com a qual derrotou o almirante turco Ali Schebuly.
Voltou a África como governador de Ceuta, por apresentação de seu primo, o Marquês de Vila Real. Por vezes é designado por D. Fernando de Meneses.

O segundo filho foi D. Miguel de Noronha que casou com D. Joana de Vilhena.

Esteve com D. Sebastião, de cujo Conselho de Estado fazia parte, na batalha de Alcácer Quibir, comandando um terço, constituído por camponeses que foi destroçado pela artilharia do inimigo, acabando por ficar prisioneiro. Com mais quatro fidalgos é nomeado para ir a Lisboa reunir a elevada quantia do resgate colectivo de oitenta portugueses de linhagem, cativos naquela batalha.

[Casa em Alcoutim que a tradição aponta como tendo sido Condal. Foto JV]

Depois do resgate foi capitão-governador de Ceuta e aposentador-mor de Filipe I.

O terceiro filho foi D. João de Eça que seguiu a vida religiosa, tendo sido cónego em Ceuta. Sempre Ceuta na vida dos Condes de Alcoutim!

D. Jorge de Noronha, que casou com D. Isabel de Mendonça, penso que foi um dos fidalgos que aceitou o suborno de Filipe II de Espanha, tal com seu primo, D. Manuel de Meneses, 5º Marquês de Vila Real e 4º Conde de Alcoutim. Também não tiveram geração.

O último filho do 5º Vice-Rei da Índia foi D. Catarina de Eça que deve ter nascido por volta de 1550, tendo falecido jovem, em Évora, mas já casada com D. Rodrigo de Melo que foi Conde de Tentugal e 2º Marquês de Ferreira. Deste casamento nasceu D. Francisco de Melo que morreu de tenra idade.

O último neto dos primeiros condes de Alcoutim foi Gaspar Velho, filho de D. Maria de Meneses, filha que só agora “encontrámos” e de Álvaro Velho, vindo a casar com Maria Rodrigues de Bermonda.

Eis o que nos foi possível reunir sobre os doze netos de D. Fernando de Meneses e de D. Maria Freire de Andrade, primeiros condes de Alcoutim.

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(1) Foram publicados no Jornal Escrito da AJEA (Associação de Jornalistas e Escritores do Algarve), nºs 64,65 e 66, de Junho, Julho e Agosto de 2004, os seguintes artigos, pela ordem indicada:
Figuras Alcoutenejas – João Freire de Andrade (Senhor de Alcoutim); Figuras Alcoutenejas – D. Maria Freire de Andrade, 1ª Condessa de Alcoutim e Os Filhos NORONHA da 1ª Condessa de Alcoutim.



BIBLIOGRAFIA

Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, 2ª Edição, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa
Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações Alfa, 1982
História de Portugal, dirigida por José Hermano Saraiva, 2º Vol. Publicações Alfa, 1983
LELLO UNIVERSAL - Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro , Lello & Irmão , Porto, 1975
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
Nobreza de Portugal e do Brasil, Edições Zairol Lda, Lisboa, 2000

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Álvaro de Alcoutim - Álvaro Gomes de Gouveia - Sargento-mor de Alcoutim






Escreve


Gonçalo Roiz Vilão





Perdidos na bruma da história ficam nomes e personalidades que ao lermos e pesquisarmos num livro que tantos já esqueceram, ressuscitam do baú do tempo e tomam novas formas. Ao rebuscá-los no tempo em que foram verdadeiramente singulares , fazem-nos hoje, perceber a pequenez das nossas vidas, quando nos julgamos heróis de uma época que consideramos ser a verdadeira, esquecendo-nos que este é o nosso tempo e eles foram de um outro igualmente importante e que de alguma forma construíram o nosso.

Álvaro de Alcoutim foi herói, e foi-o na sua época. Ressuscito-o hoje através da palavra, por ser mais uma das muitas personagens que viveu e desempenhou funções no nosso concelho de Alcoutim. Não foi general, tão pouco príncipe, mas foi um bravo sargento na luta contra os castelhanos e na defesa da portugalidade. Álvaro Gomes de Gouveia descrito e conhecido também como Álvaro de Alcoutim poderá ter tido descendência até aos dias de hoje nos diferentes Gomes que existem pelo concelho, já que existem registos de filhos de um Álvaro Gomes nesta época e bem podem ser deste que teve a mercê de fidalgo cavaleiro em 1687.
Vejamos como é descrito em 1841 por Silva Lopes:


“ Natural de Portimão, filho de Manoel Ribeiro de Gouveia, fez relevantes serviços desde soldado até ao posto de sargento-mór e tenente do mestre de campo general no reino do Algarve. Embarcando no anno de 1654 em huma setia, que foi no alcance de hum bergantim de Mouros, e encontrando-se ao sahir da barra de Portimão com mais dous, que vinhão em seguimento de hum navio inglez, se comportou com valentia, causando aos inimigos bastante damno, com que se retirou. Acompanhou o terço do Algarve que passou ao AlêmTejo e se achou na campanha de OJivença em 16ó7, no sitio de Badajoz, e varias acções em que se distinguiu com muito valor , principalmente no rompimento das linhas de Elvas, sendo dos primeiros que avançou com toda a resolução. Reeolhendose com o terço ao Algarve esteve de guarnição 5 mezes em, Castro Marim, donde voltou ao Alêm-Tejo em 1662, ficando encarregado do governo de Veiros com a sua companhia; e depois se achou em vários encontros, uos quaes se portou com bravura, assim como no sitio que soffreo em Évora. Teve parte na batalha do Ameixial, na recuperação de Évora, tomada de Valença de Alcântara, e batalha de Montes Claros, nas quaes obrou acções de valor. Tornou ao Algarve e ocoupou o posto de sargento mor do castello de Alcoutim em que fez relevantes serviços sendo encarregado de varias obras de defesa, ainda com barcos que fez armar para guarda costa, hindo commandando a galeota que foi para a defesa delia, por cujos serviços, e era attenção aos de seu pai no cargo de ouvidor de Portimão nos annos de 1643 até 1665 teve a mercê do foro de fidalgo cavalleiro por alvará de 7 de Julho de 1687 (L. 2. das Mercês de D. Pedro II. f. 228).” (1)

(1) - Silva Lopes, João Baptista (1841); Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve; Tipografia da Academia Real de Ciências de Lisboa, Lisboa.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

1ª Comunhão?



Mais uma fotografia “histórica” que apresentamos na nossa Câmara Escura de hoje por amabilidade do nosso colaborador e amigo Amílcar Felício.

Não nos traz qualquer indicação mas não temos dúvidas que foi tirada na escadaria que dá acesso à Igreja Matriz de Alcoutim (O Salvador).

Admitimos que possa datar de 1955/60.

Sem dúvida que se trata de uma cerimónia de carácter religioso, possivelmente uma 1ª Comunhão.

Serão 26 pessoas as fotografadas.

As monitoras (catequistas) em número de 5, estão todas identificadas com relativa segurança.

Os rapazes, em menor número, dos 4 identificámos dois.

Quanto às meninas ter-se-ão reconhecido 8 com alguma dúvida.

As catequistas devem ser D. Clarisse Cunha (fal.), Maria dos Anjos Veríssimo (fal.) Maria de Lurdes Brito (fal.), Ivone Baptista e Maria Elvira.

Das meninas estarão: Ivete Rodrigues (fal.), Zulmira (fal.), Lisete, Maria da Encarnação, (vulgo Maria Angelina), Maria Bárbara (Baby), Maria Antónia, Maria da Ressurreição (Sação), Maria Matilde e Liete.

Dos rapazes identificaram-se José Serafim e Arnaldo Rodrigues (fal.).

Quem ajuda noutras identificações?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Floridas na Pedra


Complementa o título do livro – A Hidrografia do Vascão e a Serra do Caldeirão ou Mu – O Homem e o Meio.

Este interessante trabalho com 135 páginas no formato de 15X21 com variadíssimas fotos a cores, tal como a capa e contracapa.

O autor, alentejano pelo nascimento, foi advogado em Tavira e tive o prazer de o conhecer esporadicamente em Alcoutim, teve o cuidado de percorrer de perto sempre que lhe foi possível o trajecto da ribeira e dos seus principais afluentes desde a nascente até à foz, sendo auxiliado nessa tarefa pelas gentes próximas que lhe foram indicando os caminhos e a possibilidade de fazer os trajectos, divide o seu trabalho nos seguintes aspectos: “A Serra e a Hidrografia do Vascão”, “Moinhos e Moleiros”, “A População e os Núcleos Populacionais”, “Identidade Cultural nas Terras do Vascão”, “Actividades Económicas na Bacia do Vascão”, terminando com um” Inquérito à População”.

A abordagem desenvolve variadíssima temática.

É uma Edição da Associação IN LOCO – Outubro 1996.

domingo, 9 de outubro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações XIII






Escreve

Daniel Teixeira




O MEDO

Uma parte grande das minhas crónicas sobre os meus períodos anuais de estadia na minha infância e juventude - e depois como adulto já de forma esporádica - no Monte de Alcaria Alta têm sido na sua grande parte (ou quase todas mesmo) resultado do facto de ter conhecido o Blogue Alcoutim Livre dirigido pelo amigo que dá pelo pseudónimo de José Varzeano.

O José Varzeano por aquilo que entendo não sendo natural do Concelho de Alcoutim (é de Santarém) para Alcoutim foi trabalhar (seguramente na função pública), por lá casou e pela minha ideia casou em dois sentidos: com uma alcouteneja e com Alcoutim.

Não tenho grandes recordações assim mais antigas de Alcoutim (do meu tempo de jovem) e era mesmo uma terra que algumas vezes evitávamos por razões «técnicas» que posso explicar mais à frente. Por outro lado Alcoutim (Vila) por ser a sede do Concelho era a sede burocrática, a terra da papelada, dos impostos. A Guarda Fiscal facilitava a seu gosto a passagem para San Lucas (como dizíamos) sem passaporte, numa passagem de barco a remos. Nunca lá fui, eu, a San Lucas.

As razões «técnicas» que referi atrás que nos levavam a fugir de Alcoutim eram de ordem «buro – gástrico – emocional». Alcoutim ficava à direita do cruzamento dos Balurcos que era por onde a camioneta seguia vinda de Vila Real de Santo António e chegada aí fazia o caminho em direcção a Alcoutim que fica lá abaixo à beira do Rio Guadiana voltando ao mesmo lugar no seu regresso para seguir então em direcção a Martinlongo.

Nós apeávamo-nos mais à frente dos Balurcos na paragem de Alcaria Alta prosseguidos que eram os restantes 30 Kms sensivelmente que iam de Balurcos a Alcaria Alta - Paragem, esta já perto do cruzamento que levava a Giões.

Pois bem, evitar ir a Alcoutim era uma operação que tinha uma relação forte com o facto de se fazer um intervalo no verdadeiro suplício que era percorrer aquelas estradas de autocarro naquele tempo. Chamavam-se camionetas e havia seguramente uma aposta dos concessionários dos percursos no sentido de mandarem para esses lados os chaços mais antigos e em piores condições que tivessem. O cheiro a gasóleo era praticamente insuportável ao qual se juntava algum cheiro a um vomitado quase inevitável mesmo que a chamada ao gregório fosse feita através das janelas.

[Transporte da época]

Não tenho vergonha de confessar que o desejo de ir à Serra era esbatido pelo medo da indisposição continuada ao fazer o percurso. Dois, três dias antes da partida já se faziam contas à vida e algumas «vacinas» eram efectuadas: estar cinco, dez minutos no terminal da Rodoviária, que era a céu aberto, perto da antiga alfandega, na altura, em Faro, era uma delas. Inspirava-se o máximo que se aguentava o monóxido de carbono e ao lado havia uma sorveteria que servia de consolo intervalar.

Bem se arranjavam mezinhas e todos os anos havia uma nova: a teoria do estômago/copo de água derramando embora fosse impraticável por impossibilidade de manter o «corpo - copo» direito durante o trajecto todo era no entanto bastante coerente e nestas coisas do enjoo, funcionava muito a «fé» na mezinha: uma colher de mel estabilizava, comer só coisas sólidas dificultava a expulsão forçada, enfim...bem se tomavam comprimidos, alguns ditos recém inventados, também, mas era infalível que ao despontar das primeiras curvas o pessoal começava a «olhar» pela janela com a cabeça bem de fora: homens, mulheres, crianças, poucos aguentavam a pedalada.
Ora o repouso nos Balurcos conseguia resolver não o que já se tinha consumido de energia estomacal e vertido mas dava uma folga e ainda nos safava de um verdadeiro emaranhado de estrada em curvas descendentes e depois ascendentes que nos levava e nos trazia de Alcoutim. Naquele tempo se houvesse um prémio para a pior estrada a percorrer eu dava-o ao percurso entre Balurcos e Alcoutim e fazia-o com todo o conhecimento de causa porque conhecia todas as outras, igualmente más, horríveis mesmo.

Durante todos os anos que fiz aquele percurso até sensivelmente aos 14 anos, nas suas diversas variantes possíveis: comboio até Vila Real de Santo António e camioneta depois; directamente de Faro a Martinlongo, comboio e depois barco no Guadiana e depois camioneta, boleia de carro familiar, nunca consegui ultrapassar esse problema. E de repente aconteceu: parou.

[Estrada para Alcaria Alta. Foto JV]

Penso que o facto das estradas terem visto as curvas «cortadas», as baias laterais alargadas e nos afastarem da visão das ribanceiras logo ali ao lado da janela terá contribuído para além da mudança de idade. Os autocarros velhos destinados àqueles percursos também deixaram de ser tão velhos e fanados, enfim...

Uma vez fiz esse percurso com uma tia minha, agora já falecida, teria eu para aí dez anos ou menos. A camioneta chegava à paragem de Alcaria Alta já pelas 22 horas, noite cerrada, grilos e ruídos mais que estranhos. A minha Tia tinha trazido quase uma casa inteira metida em cestos e talegas e optou pela caminhada por lances: levava-me com algumas coisas até um curral, depois a outro e outro, deixava-me lá ficar depois de me tranquilizar e voltava atrás buscar mais coisas as vezes que fossem necessárias.
O ruído da noite quando se tem medo é...assustador. Pelas minhas contas feitas agora em recordação devo ter sido tocado por centenas de bichos esquisitos, rastejado nos pés por cobras, lagartos, ouriços, lacraus.

Fui muito elogiado quando chegámos ao Monte...não tinha chorado nem uma vez. Agora acho que na altura com o medo que tive nem acção tive para isso...
A bênção Ti Bia!