quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Triângulo



Outro utensílio de ferro que caiu em desuso e que era utilizado quando se “fazia fogo de lenha”, para usar uma expressão local muito utilizada.

Até quem não sabia o que era um triângulo assim o designava, pois foi o nome que lhe transmitiram os mais velhos.

Qualquer objecto com a forma de triângulo (figura geométrica de três ângulos) pode receber esta designação, como acontece por exemplo aos ferrinhos, instrumento musical que também é conhecido por triângulo. Existe uma constelação boreal que pelas mesmas razões tem esse nome.

O “triângulo” de que estamos a falar é de ferro e equilátero, ou seja, tem os três lados iguais. Em cada vértice tem um “pé” normalmente de 8 a 10 cm de altura.

O triângulo fazia sempre companhia à trempe, pois ambos se utilizavam no fogo de lenha, ora nas chaminés ora na casa do fogo, o que era mais vulgar, saindo o fumo pelas frestas das telhas de canudo.

Servia para aquecimento de pequenos utensílios e também para assar peixe ou carne, pois a grelha assentava sobre ele apanhando o calor das brasas.

O exemplar da imagem é um modelo antigo e que foi muito utilizado como se deduz do desgasre apresentado.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Monte Novo do Pereirão, o "monte" do moinho


[Vista geral do pequeno aglomerado. Foto JV, 2011]

Situa-se na cumeada do Pereirão a que foi buscar o nome, como fez o Pereirão, possivelmente o mais antigo e relacionado com uma herdade que pertenceu aos Condes de Alcoutim, a Casa Nova (do Pereirão) que terá vindo a seguir e o mais recente, daí o topónimo Monte Novo que igualmente foi buscar o nome da cumeada, PEREIRÃO.

Situa-se próximo da estrada asfaltada que atravessa toda esta zona da freguesia de Martim Longo, tendo por perto os Zorrinhos de Cima, o Monte da Estrada e o Monte das Mestras.

Devia ter sido electrificado quando foram os montes vizinhos e nota-se uma parabólica no telhado de um dos edifícios. Existe um furo municipal que fornece água ao domicílio.

É bem visível a horta que fornece os indispensáveis vegetais na alimentação.



[Moinho do Pereirão, o único em condições de funcionar, no concelho. Foto JV, 2011]

O monte é constituído apenas por dois fogos, quatro habitantes, dois casais, um em cada fogo, e nele vive o moleiro do único moinho de vento que ainda funciona no concelho de Alcoutim, o designado moinho do Pereirão, ainda que o moleiro e proprietário não exerça a profissão a tempo inteiro, constando-me mesmo que só produz farinha para o seu consumo.

Tanto o monte como o moinho encontram-se bem cuidados como demonstram as fotografias apresentadas que são recentíssimas (Agosto de 2011).

Do moinho podemos usufruir uma excelente vista.

RECTIFICÇÃO
Acabámos de receber o seguinte e-mail que pretende rectificar erro cometido neste texto. Sempre que possível recorremos a elementos escritos sobre a matéria, o que raramente acontece e muitas vezes recorremos a informações orais sempre susceptíveis de inexactidões.
Agradecemos sempre estas informações no sentido de melhorar a exactidão do texto e solicitamos sempre informações coplementares para o seu acrescentamento que uma vez feito terá sempre a indicação da origem.

O que ALCOUTIM LIVRE precisa é de colaboração, nem sempre conseguida por variados motivos.

Convidamos assim a Gracinda Guerreiro que conhece certamente muito bem os Zorrinhos de Cima, o que não acontece connosco, a escrever um texto sobre o monte que publicaríamos aqui com muito gosto e sem qualquer problema.

Com os nossos agradecimentos.

JV

Boa noite!
Eu Gracinda Guerreiro filha do moleiro e proprietário do moinho do Pereirão o senhor Herminio Guerreiro que mora nos Zorrinhos de Cima e não no monte do Pereirão com foi publicado, os casais que moram lá nada têm a ver com o moinho.
Muito obrigado

Gracinda Guerreiro

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Coentro


(Retirado com a devida vénia de http://www.dicasdecozinha,com.br)

Admito que seja a planta aromática mais utilizada no concelho de Alcoutim, onde ninguém passa sem ter uma leirinha de coentros!

É provável que seja originária da bacia do Mediterrâneo e que possa estender-se pelo Cáucaso. É já conhecida por gregos e romanos que a utilizavam na culinária e em bebidas.

Começou a espalhar-se pela Europa e América acabando por difundir-se por todo o Mundo principalmente pela Ásia.

O coentro (Coriandrum sativum, Lin ) é planta anual de que existem várias espécies, cultiva-se em Portugal, nomeadamente no sul, onde é muito utilizada como condimento alimentar.

As folhas são verdes e recortadas e as flores pequenas e brancas, sendo a semente redonda e de cor bege.

As folhas que exalam um cheiro característico são utilizadas na culinária, principalmente em pratos de carne com destaque para o porco e o borrego, enquanto a semente é mais destinada à confecção de certos produtos farmacêuticos.

Ainda que sejam os alentejanos os maiores utilizadores desta planta, sendo uma das atracções da sua gastronomia, os algarvios, principalmente os da Serra e os ribatejanos também praticam o seu uso.

É anti-séptico e calmante. As suas sementes são um excelente digestivo quando mastigadas depois da refeição. Alivia vómitos e flatulência, estimulando o apetite.

É utilizada igualmente na culinária na região norte do Brasil, na Índia e no mundo árabe.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

As minhas quatro moedas






Um conto de


José Temudo





O que pretendo contar-vos hoje, é uma “estória”... sonhada.

Mas entendamo-nos já sobre o que é uma “estória sonhada”. Ela não é filha da minha imaginação, não é mais um produto da minha capacidade inventiva, É uma “estória” real, que aconteceu, ainda que vivida dentro de um sonho, no reino imaterial dos sonhos, onde a magia é rainha absoluta e caprichosa, por vezes, generosa, mas, não raramente, perversa e cruel.

Dito isto, passo então a contar-vos a minha “estória”, isto é, o meu sonho. Prestem, pois, a vossa atenção.

Como é meu costume, vou andando de cabeça baixa, olhos postos no chão, dois metros à frente dos meus passos. O caminho, de pé posto, é estreito e sinuoso, e vai por entre estevas, rosmaninho e alecrim. De súbito, paro. O meu olhar fixa-se no que me parece ser uma moeda. Aproximo-me e fico sem dúvidas. É mesmo uma linda moeda. Que jeito me dá!, pensei. Meti-a ao bolso e continuei a andar. Uns passos mais adiante, paro de novo: quase coladas uma à outra, mais duas moedas! E a minha fortuna não ficou por aqui, pois, à medida que ia caminhando, fui encontrando mais moedas, cada vez em maior número. Já de bolsos cheios, a abarrotar de moedas, no próprio sonho, fui assaltado por mais por mais do que justificada dúvida: “Não estarei eu a sonhar?” A dúvida, contudo, dissipa-se depressa. Apalpo as moedas, chocalho-as, ouço-as, sinto o seu peso nos bolsos. Afastada a dúvida, instalou-se a curiosidade: “se não é sonho, como explicar todas estas moedas como que semeadas ao longo do caminho?” A resposta a esta pergunta veio rápida, aceitável: “Alguém, antes de mim, terá passado por aqui, carregando às costas um saco de moedas: o saco ter-se-á rompido e foi largando moedas a conta gotas, sem que quem carregava o saco desse por isso. E continuei a andar. Mas, agora, sem apanhar mais moedas, pois os bolsos já estavam cheios. À medida que ia andando, ficava cada vez mais claro para mim que já não era o dinheiro, nem sequer a mera curiosidade que animavam os meus passos. Eu caminhava movido por uma vontade que não era a minha, por um poder que não me permitia que voltasse para trás, sequer que parasse, era uma força determinada que me queria levar a um qualquer lugar. E foi o que aconteceu, depois de ter andado não sei durante quanto tempo. Depois, deixei de sentir que estava a ser como que empurrado. Parei. Então, à minha frente, a três ou quatro metros de distância, os meus olhos viram, maravilhados, não uma, não duas, não apenas muitas, mas um monte deslumbrante de reluzentes moedas de prata, novinhas em folha! Eu era todo olhos! Fascinado, ou enfeitiçado ou hipnotizado ou sei lá como. Aproximei-me lentamente do monte de moedas. Maquinalmente, as minhas mãos deslizaram, em jeito de afago, sobre a superfície daquele prodígio. Depois, lentamente, mas com determinação, e sentindo nisso um prazer que, pouco a pouco, me foi percorrendo o corpo todo, enterrei-lhe as mãos até aos cotovelos. E, então, num repente, com frenesi, como se tivesse enlouquecido, fui atirando as moedas ao ar, com as duas mãos, às braçadas. Desafiando a lei da gravidade, as moedas não caíam, permaneciam no ar, revoluteando, cintilando, formando sobre mim como que um céu em miniatura. O que a aconteceu até este momento excedia tudo o que eu pudesse imaginar. Mas, o que eu via agora, a meus pés, excedia não só a minha imaginação, como a minha própria capacidade de sonhar. Quatro moedas de ouro, diferentes no tamanho, iguaizinhas na cor e no brilho, ali estavam, no chão, ao alcance das minhas mãos. Os meus olhos já não podiam abrir-se mais, o meu encantamento não podia ser maior! Quando me baixei para as apanhar, eu não me sentia rico nem por um só momento me passou pela mente o que eu podia comprar com tal fortuna. Sentia-me, isso sim, eufórico, imensamente feliz, só por poder olhá-las, tê-las na minha mão, saber que eram minhas! A emoção era tanta e tão intensa, que era demais para uma pessoa só. Eu tinha que a partilhar com alguém, pois corria o risco iminente..... de uma explosão de alegria! E foi o que fiz, correndo, saltando, galgando, quase voando, sobre montes e vales, até que cheguei junto a quem queria mostrar o meu pequeno mas tão querido tesouro.
- “Olhe”, disse eu, abrindo a mão. “Acaso, já alguma vez viu quatro moedas mais brilhantes, mais lindas do que estas minhas?”
- “Não”, respondeu esse alguém, “ de facto, nunca vi moedas de que gostasse tanto como das tuas! Mas falas-me de quatro moedas; na realidade só vejo três na tua mão.”
- “São quatro”, reafirmei, confiante; e aproximei, ainda mais, a minha mão ao meu interlocutor.
- “Veja bem”, disse-lhe,” são quatro.”
- “Custa-me contrariar-te”, respondeu,” mas continuo a ver somente três moedas na mão que me estendes. Não terás a moeda que não vejo, na tua outra mão ou mesmo num dos teus bolsos?”
Sem querer acreditar no que estava ouvindo, pois eu tinha a certeza que eram quatro as moedas que eu trouxera na minha mão cuidadosamente fechada, baixei os olhos, ainda brilhantes de alegria, sobre a mão aberta que as expunha. O coração caiu-me aos pés! Como era isto possível? Sem compreender o que se tinha passado, sem atinar com uma resposta, com a mente em perfeita paralisação, ainda assim olhei para a outra mão e virei do avesso os bolsos. Nada! A minha alegria que era tanta que ameaçara rebentar comigo, tal como um balão rebenta com excesso de ar, deu lugar à mais extrema tristeza; o meu entusiasmo, que me fizera correr, saltar, galgar montanhas, quase voar, que brilhava nos meus olhos como o fogo vivo de uma lareira, apagava-se e agora não era mais do que as cinzas frias do mais angustiante desânimo. E foi assim, com a alma destroçada, com o pensamento paralisado e com o coração oprimido pela mais cruel amargura que, sem saber o que fazia, foi assim, dizia, que fui subindo, penosamente, o íngreme caminho que me levou ao cimo de uma montanha, mesmo à linha de separação das vertentes. Aí chegado, esgotadas que estavam as minhas forças, deixei-me cair entre dois dos inúmeros pedregulhos que, vistos à distância, lembram os dentes de uma serra. E aí fiquei, imóvel, frio, sem um único pensamento, sem nada ver, sem nada ouvir, fechado sobre a minha própria dor – feito uma pedra entre as outras pedras.

O sonho acabou aqui. Acordei tolhido de frio, angustiado, o rosto banhado de lágrimas. A meu lado, a vossa avó Amélia, encolhida e gelada, chorava, de forma aflitiva. Tal como eu, estava a viver um terrível pesadelo. Acordei-a carinhosamente, aconchegando-a entre os meus braços. E assim ficámos, despertos, sem falar, recordando com dorida e infinita saudade aquela pequenina moeda, igualzinha às outras, mas que tilintava de forma diferente.


[Vila do Conde]

FIM

domingo, 23 de outubro de 2011

Os meus onze anos de Festas de Alcoutim

[Retirado com a devida vénia de http://alcariaalta.blogspot.com]

Depois de ter deixado passar todo o badalar dos ditos 60 ANOS das Festas de Alcoutim, pouco interessa que sejam 61, 62 ou 63 e que algum eco teve neste espaço, penso ser a altura de dizer alguma coisa sobre o assunto, sobretudo, durante o período de 1967/77.

Ainda que já tenha abordado especificamente muitos assuntos referentes a todo o concelho em livro, na imprensa regional e principalmente neste espaço, nunca abordei o tema das Festas de Alcoutim, a não ser numa leve referência a pp 117 e 118 do meu trabalho, Alcoutim – Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985.

Fi-lo através da informação oral transmitida, que como se sabe é muito falível. Se até a escrita por vezes o é, como já tenho verificado, pois por vezes falam-se em alhos e escrevem-se bugalhos!

Pouco depois da publicação daquele livro, recebi uma carta do alcoutenejo Eng. Gaspar Santos onde além de me agradecer o trabalho desenvolvido teve a amabilidade de apontar com minúcia algumas falhas por ele notadas, o que anotei e muito lhe agradeci. Foi dos únicos alcoutenejos que o fizeram. O maior volume de mensagens (escritas) recebidas é de não alcoutenenses.

É nesta altura que sou alertado pelo Amigo Gaspar Santos para o facto das Festas de Alcoutim terem sido criadas pelos jovens que constituíam o Grupo Desportivo de Alcoutim liderado por Fernando Lopes Dias.

Quando me foi possível consultar a pouca documentação do Grupo Desportivo e que veio a dar origem à publicação de um pequeno opúsculo, encontrei efectivamente dados claros que confirmam o que aquele amigo nos tinha informado.

Se chegar a sair uma nova edição daquele meu trabalho, a rectificação está há muito feita.

Não posso deixar de referir que houve gestões do G.D.A. em que não se lavrou uma única acta! Possivelmente passaram-se coisas boas ou más, mas a verdade é que não ficaram escritas para os vindouros.

Uma das razões que me levou a nunca ter escrito nada específico sobre as Festas de Alcoutim foi o facto de não vislumbrar nada escrito sobre as mesmas.

Existia, e é mais uma informação fornecida por Gaspar Santos, um alcoutenejo que tinha toda a colecção de cartazes das festas, o que constituía por si um acervo importante para se fazer a sua história. Faleceu e possivelmente perdeu-se toda essa documentação.

Terá havido mais alguém que o tivesse feito? É possível, mas não acredito.

Será que existem coleccionados todos os cartazes da Feira do Artesanato, os seus participantes e a indicação de despesas e receitas? Possivelmente não. Depois, só se faz a estória com aquilo que as pessoas dizem e com as falhas que tudo isso acarreta.

Mais uma vez tal vai acontecer, pois vou falar de memória sobre os onze anos das Festas de Alcoutim a que assisti. É por isso uma opinião pessoal dos factos que vivi e que certamente outros da mesma época contarão de uma maneira diferente.

Cheguei a Alcoutim no dia 13 de Junho de 1967.

Em Agosto comecei a ouvir falar nas festas. Toda a gente falava nas festas e ouvia-se dizer que “este ano não se fazem”. Todos andavam tristes mas as pessoas importantes da terra não avançavam.

A juventude naturalmente fervia, queria as festas para se poder distrair já que durante todo o ano era a única hipótese de o fazer.

[José Ribeiros Vaz]
Lembro de aparecerem dois jovens, ambos aspirantes de finanças, qualquer deles ainda sem cumprirem o serviço militar que tiveram a coragem de pegar no assunto. Um, alcoutenejo, José Afonso Pereira Ribeiros Vaz, vitimado pela guerra colonial em Moçambique, junto ao lago Niassa, o outro o tavirense Joaquim Messias dos Santos.

As festas desse ano devem-se sem dúvida nenhuma a eles, que naturalmente tiveram a colaboração de todos os outros jovens que iam ajudando naquilo que podiam.

Ainda que a minha presença fosse recente não deixei de oferecer os meus préstimos no que pudesse ajudar.

A decoração do recinto até aí era feita à base das célebres bandeirinhas de papel de seda coladas em fio de sisal com cola de farinha. Além disso, cobriam-se os paus que seguram as lâmpadas e as bandeiras com vegetação como se fazia nos mastros. Não podiam faltar as folhas de palmeira que engalanavam o palco e as entradas. A casuarina, que já estava adulta, recebia também lâmpadas e bandeiras.

Era fundamentalmente isto que acontecia.

Propus então que podíamos melhorar a decoração com caixas de cartão (que esgotámos no comércio local – o meu amigo João Guerreiro despejou algumas para as podermos utilizar) com inscrições feitas através da retirada do cartão de letras cujo espaço era ocupado com papel “celofane” de várias cores. Lembro-me perfeitamente que entre outras fizemos cinco caixas com o nome das cinco freguesias que constituem o concelho.

É claro que em Alcoutim não havia tal papel o que ainda acontecerá hoje.

O cartaz com que se abre este escrito e que Lunaplena publicou no seu blogue, Alcaria Alta, um monte do nordeste algarvio é desse ano e da minha autoria. Só me lembrei dele quando o vi publicado. Bem-haja por isso a neta do João Baltazar Guerreiro, que nessa altura estava muito distante de nascer.

A única coisa que existia das Festas era um velho estrado que de ano para ano ia causando maior dificuldade em montar. Eu dizia que qualquer dia os artistas caíam e podiam ficar molestados.

As cadeiras de madeira eram alugadas em algures e constituía uma despesa apreciável para a chamada “Comissão”.

[Quermesse que veio a servir nas Festa de Alcoutim]

A velha quermesse saída das mãos habilidosas do Dr. Cunha foi montada em frente da capela de Sto. António onde tinha lugar marcado. Parece que estou a vê-la. Foi montada mais uns anos, não sei quantos, mas foi coisa tão característica das nossas festas que ali desapareceu completamente.

Lembro-me que actuou a grande orquestra “Alma Alentejana” de Portel. Igualmente recordo que não me deitei e fui abrir a repartição à hora devida. Tomem nota, não me embebedei e não tenho a certeza se tomei alguma bebida alcoólica. Nesta altura as coisas eram muito diferentes.

Nesse ano o peditório pelos montes já não teve lugar, pois a desertificação já tinha começado. Entretanto, deixaram-se de enviar as circulares que pretendiam o envio de alguma coisa para auxílio das mesmas. Nesse ano, se a memória não me falha, rendeu dois mil e tal escudos.

Depois de um ano de experiência, verifiquei determinadas anomalias que era necessário corrigir. A partir de 68 / 69 nunca mais houve qualquer eleição para a comissão de festas que auto se nomeava à falta de outros e isto aconteceu até 1977. Depois disso e após a fundação dos Bombeiros Voluntários, passou a ser organizada por esta Associação, cujo Comandante, João Manuel Rita Baptista, desde muito jovem foi um dos organizadores da festa.

Nunca pertenci a nenhuma Comissão de Festas dado que o tipo de organização não se coadunava com a minha maneira de estar, contudo, estive sempre disponível para ajudar naquilo em que pudesse ser útil.

José Madeira Serafim não o disse no seu discurso quando da última Festa, mas a verdade é que ele foi durante alguns anos a chave da organização das Festas agarrado a um telefone para fazer os contactos.

Entretanto, deixou de ter sentido falar-se na criação de um hospital de maiores dimensões, o que existia ia servindo para as necessidades locais.

[Festas de Alcoutim. Foto de JV, 1973]

Os poucos lucros que as festas iam dando tinham de servir de suporte para novas festas, pois se no segundo dia chovesse ia tudo por água abaixo e como se cumpririam os compromissos assumidos?

O problema das mesas e cadeiras, então de madeira, foi resolvido um ano com a sua aquisição o que sanou um grande problema e diminuiu os encargos. A sua arrecadação era a sacristia da capela de Sto. António e antes das festas, Francisco Barão procedia à colocação de algumas travessas partidas e a outros consertos, isto realizado na própria capela.

Num ano, que não posso precisar, mas talvez 1970 ou 71, tornei o palco com um aspecto diferente, dei-lhe a configuração de um castelo de porta ogival e onde não faltavam as ameias o que causou alguma sensação. Era feito à base de cartão prensado.

Em 1973 por minha sugestão foi realizada uma prova de perícia de motorizadas na Fonte Primeira. Criei os obstáculos, fiz o esquema e o Regulamento. Tenho um exemplar do impresso que foi feito sobre a prova mas não o consegui encontrar.

Lembro-me que eram os próprios concorrentes que accionavam o cronómetro ao iniciar a prova e o paravam quando a terminavam.

O vencedor foi António Guerreiro, natural da Corte da Seda.

Não assisti à prova como estava planeado, tive que receber nessa hora uma visita inesperada de um amigo, hoje falecido, que teve a amabilidade de passar por Alcoutim para me visitar. Mais tarde foi Director de Finanças de um distrito onde trabalhei.

[Palco das Festas de Alcoutim. Foto JV, 1998]

A minha última pequena ajuda para as Festas teve por fim resolver o grave problema do palco já degradado e que todos os anos constituía grande dor de cabeça para se montar e que ficava com segurança duvidosa.

Na parte de fora do cais do lado sul foram levantados nove pilares em tijolo, oito exteriores e um central de maiores dimensões que ficavam sensivelmente à altura da vedação do mesmo.

Foram mandados fazer em Martim Longo, já que em Alcoutim não havia quem o fizesse, quatro robustos estrados de forma rectangular que iam assentar sobre os pilares reunindo-se ao centro no pilar de maiores dimensões. Os estrados tinham furos verticais nas extremidades por onde passavam ferros que iam encaixar em aberturas justas e adequadas nos ditos pilares.

O trabalho de pedreiro, a que eu naturalmente assisti para dar a orientação, foi feito pelo saudoso pedreiro alcoutenejo, António Carlos Vicente, vulgo António Emílio.

O palco nunca mais deu problemas.

Por parte de muitas pessoas a grande preocupação era o cabeça de cartaz no segundo dia das festas e que chegava a provocar assanhadas discussões. Poderei dizer que as principais figuras artísticas daquele tempo passaram por aquele palco. Lembro-me, por exemplo de Carlos Alberto Moniz que nessa altura a filha mais velha era de colo, Duo Ouro Negro, Pedro Barroso...

Para terminar este depoimento, direi que nunca vi os “homens de gravata” para usar a terminologia do Amílcar Felício, metidos nestes trabalhos, mas sim jovens. Houve gente que fez a festa “montes” de anos, eram quase sempre os mesmos e alguns já não viviam em Alcoutim!

Não vou indicar nomes porque iria esquecer-me de algum.

Poderei acrescentar que paguei sempre o meu bilhete e a minha mesa como me competia.

Não tenham dúvidas, durante estes onze anos as FESTAS DE ALCOUTIM foram feitas pelos jovens, os “Senhores da Terra” não tinham nada com isso! O resto é conversa.

sábado, 22 de outubro de 2011

Alcoutim necessita de maiores atenções

Pequena nota
Até agora na rubrica Ecos da Imprensa com 59 "posts" só tinham sido publicados textos da nossa autoria e espalhados por vários órgãos da comunicação social.
Ao darmos uma volta pelos nossos recortes fomos encontrar este de que não consta a data de publicação mas que está dentro da data que apresentamos e que publicamos em homenagem ao nosso saudoso amigo JB Guerreiro como gostava de ser designado.
Acompanhamos o texto com a mesma fotografia apesar das naturais deficiências que apresenta visto ter sido tirada do recorte do jornal.
Não temos a certeza se o escrito é de JBG mas acreditamos que sim, pelo menos foi publicado sob a sua responsabilidade.
Com mais de 40 anos de publicação há coisas que pouco mudaram.
Permitam-me os leitores que dedique a sua publicação à neta Lunaplena.

JV


(PUBLICADO NO JORNAL DIÁRIO “O SÉCULO” PELO CORRESPONDENTE EM ALCOUTIM J.B.GUERREIRO EM DATA IMPPRECISA – 1970/71)


[JB Guerreiro]
ALCOUTIM – Tem este concelho uma população de cerca de 9000 habitantes, e o único médico que existia e prestava serviço de clínica geral, acabou por se retirar para outra localidade, onde com mais facilidade possa educar seus filhos, dando-lhe assim mais conforto.

Quanto ao ensino, ou melhor, à sua falta, é esse um dos factores mais importantes para ajudar o declínio da população, pois todas as pessoas , com ou sem condições, procuram instruir os seus filhos, notando-se este facto também na classe de funcionários e militares, os quais, em grande parte, recusam-se a permanecer aqui, desde que possam conseguir colocação em lugares onde existam estabelecimentos de ensino.

Solucionar-se-ia o problema com a criação de um ciclo preparatório e de um posto de Telescola , retendo-se esse pessoal na localidade por mais alguns anos.

[Alcoutim e Sanlúcar visto de Espanha. Foto de JBG (?)]

Por seu lado, pouco resta do pequeno comércio que em tempos existia, e o motivo deve-se somente às entidades responsáveis pela conclusão de uma estrada, a que apenas faltam construir cerca de 3 quilómetros, para que, assim deixe de ser beco como já se lhe chama.

Salienta-se, ainda, o encerramento da fronteira, a qual esteve aberta até à Guerra Civil de Espanha.

Por sua vez, são as paisagens do Guadiana, junto a Alcoutim, umas das mais belas do Algarve e pena é que ainda sejam desconhecidas do grande número de turistas que visitam esta província, e que as obras em curso, não se concluam.

Também por falta de um funcionário, a Estação dos Correios fecha, enquanto a única funcionária se desloca à Repartição de Finanças e Tesouraria da Fazenda Pública, a requerer selos, vales do correio e fazer entregas de fundos. O serviço de distribuição faz-se com grande atraso, pois o único carteiro-distribuidor, embora zeloso e rápido nos serviços, não consegue tratar dos serviços com a prontidão que se fazia quando eram dois funcionários. Os Correios Telecomunicações obrigam o mesmo carteiro a fazer a condução de malas num percurso de cerca de 150 metros a pé, com as malas às costas, diariamente. Aqueles serviço, passando a empresa privada, retiraram uma caixa receptora de correspondência na zona de comércio e das repartições, alegando terem de pagar mais uma hora diária ao carteiro. Existia um posto de telefone público naquela zona, mas foi, igualmente retirado, tudo isto com grandes prejuízos para o público e para o desenvolvimento da vila.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Visita da imagem de Nª Sª de Fátima à Vila de Alcoutim



Como tínhamos prometido, voltamos hoje às fotografias que documentam a visita efectuada pela imagem de Nª Sª de Fátima à Vila de Alcoutim e que teve lugar em 23 de Fevereiro de 1947, por isso, já lá vão 64 anos.

A última que apresentámos corresponde à saída da imagem da Igreja de Nª Sª da Conceição junto à porta manuelina. Esta, como bem se nota, é a saída do andor entrando no escadório de acesso.

É de realçar o branco das paredes, o arco decorativo que no seu vértice possui uma cruz e engloba a inscrição BENVIDA SEJAIS SENHORA DE FÁTIMA A outra decoração festiva é a tradicional, bandeirinhas de papel de seda e paus enramalhados.

A apresentação destas fotografias só é possível pela colaboração do alcoutenejo, José Madeira Serafim, que no-las cedeu para o efeito.

Iremos futuramente apresentar mais fotografias.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Os Guerreio da Comarca de Ourique



O livro que hoje apresentamos constitui um valioso trabalho de genealogia que tem por base, como o título indica “Os Guerreiro da Comarca de Ourique".

A edição é de Setembro de 2011, por isso, recentíssima.

De capa com encadernação cartonada e no formato de 18X27 cm tem novecentas e vinte páginas de bom papel. Ilustrações a preto e branco e a cores no que diz respeito aos brasões.

É seu autor Luís Soveral Varella e tem a chancela de PATRIMÓNIO & HISTÓRIA.

A edição é limitada a 500 exemplares.

Trabalho de folgo e minucioso comporta além do índice geral um de Imagens e outro Onomástico que constituem preciosos auxiliares nessas áreas.

Trabalho essencialmente de consulta, a sua leitura prende-nos a atenção.

Este livro é de particular interesse para Alcoutim pois tem referências à vila, Martim Longo, Vaqueiros, Giões e aos montes de Madeiras (indicado como monte dos Madeiras), Castelhanos, Tremelgo, Penteadeiros (o mesmo que monte das Pereiras), Lutão, Laborato, Monte Argil, Santa Justa, Monte dos Gagos, Barrada, Ravelada e Marim, estes de que dei conta.

Há dezenas de alcoutenejos referidos no trabalho, alguns dos quais tínhamos conhecimento da sua existência e até de lugares desempenhados mas, eram factos isolados e que agora em determinadas situações vimos esclarecidos.

São igualmente indicados descendentes actuais destes Guerreiro no concelho de Alcoutim.

Cedemos com muito gosto três fotografias da Casa do Capitão-mor (Diogo Mestre Guerreiro) que foram publicadas na página 623.

O trabalho pode ser adquirido através da editora.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações XIV




Escreve

Daniel Teixeira



OS ANIMAIS

Animais, em Alcaria Alta, por aquilo que fui entendendo, e talvez não fosse e não seria mesmo em termos lógicos diferente noutros sítios serrenhos, eram, os animais, medidos pelo seu grau de utilidade. O conceito de animal de estimação era dividido entre a ideia da utilidade do animal acrescentado pelos relatos das suas proezas ou manifestações da sua esperteza.

Por exemplo, a minha avó tinha cerca de uma dezena de gatos e por isso não havia ratos, nem lagartixas entradas pelas pedras e poiais, nem osgas esgueiradas pelas inúmeras frestas das casas, frestas estas que inventariaria começando logo em cima das nossas cabeças, na cobertura interior (hoje chama-se de forro), feita de canas atadas entre si, o chamado caniço.

Os gatos estavam na sua grande parte apenas presentes às horas das refeições roçando-se pelas nossas pernas e miavam e como eles miavam, era uma verdadeira des – sinfonia. Eram corridos mas voltavam logo: era praticamente impossível controlar todo aquele «rebanho». No inverno eram verdadeiros gatos borralheiros aquecendo-se perto das brasas e das cinzas. A maior parte das vezes íamos encontrá-los nas redondezas da casa, muitas vezes mesmo de barriga ao sol outras de mira paciente em algo que andasse por ali e lhes fornecesse algumas proteínas.

A minha avó gostava muito de uma gata, contudo, e contava dela uma proeza que deve conter alguma coisa de fábula evidente, mas vindo da minha avó, uma mulher rija e de poucos carinhos acaba por valer ainda mais: uma noite cansada de a ouvir miar (alguns tinham direito a dormir aos pés da cama) tinha-lhe jogado um sapato e gritado que «se tinha fome que fosse caçar». Deixou-se dormir e depois acordou com ruídos estranhos vindos do buraco na parede por onde os gatos entravam e saíam daquele quarto directamente para a rua. Levantou-se e foi dar com a gata arrastando uma lebre «tinha ido mesmo caçar, como ela lhe dissera!».

De acrescentar que por experiência própria sei que acontece por vezes encontrarem-se lebres que por uma razão ou outra não correm, deixando-se antes ficar escondidas atrás de ervas ou ramagens. Com os meus amigos «tínhamos» um cão pequenito que era especialista no farejo e que levantava a caça para os galgos que mais que uma vez abocanhou coelhos e lebres nestas situações e nem de outra forma poderia ser porque em corrida não dava para meia gaitada.

De quando em vez uma destas gatos apanhava a porta aberta ou o postigo e saltava para cima da mesa que normalmente apenas tinha miolos de pão e outras vezes um bocado de queijo ou de courato do presunto esquecido sobre o tampo. Não se comia propriamente na gaveta mas era de rápido regresso à gaveta aquilo que compunha um pequeno almoço (lá chamado de almoço) ou de um lanche (lá chamado de jantar).A refeição mais forte era a ceia, à hora do nosso jantar citadino. A comida para animais não era abundante porque não eram também abundantes os restos.

Ora um dia fui à pesca, à lapa, como lhe chamávamos, com o meu primo José Francisco. Tratava-se de meter as mãos nos buracos nas paredes à volta dos pegos e entre as pedras do fundo (as lapas) e apanhar à mão o que conseguíssemos. Normalmente apanhava-se bastante peixe nestas condições mas havia um senão que eram as cobras. Cobras de água não fazem qualquer mal mas eu sempre tive as minhas reticências e o tradicional nojo destes animais.

[Um pego da região. Foto JV, 2010]

Dias antes tinha também andado numa pescaria dessas com os meus amigos na ribeira e acabámos por apanhar uma gorda eiró que a mim pouco me parecia ter de eiró. Foi uma sensação de suspeita devido à grossura do bicho: as eirós que conhecia eram para o magrinho, esguias, escorregadias como tudo. Ora aquela estava isolada numa poça de água que acabámos por vazar à força de balde e era extraordinariamente grossa. Nunca pensei a 100% que fosse uma cobra mas também não fiquei convencido a 100% de que era um eiró pelo que me abstive no repasto optando sadiamente a meu ver por uma lata de conserva.
Eles bem me diziam que se fosse cobra não comiam, isso era evidente para eles, mas os conhecimentos deles e meus sobre a fauna aquática remavam para os dois sentidos: podia não ser cobra e podia ser cobra e eles não saberem exactamente. Fizeram a assada na maior e eu de latinha de conserva à frente. No mesmo dia foi nascendo em mim a convicção de que pesca à lapa não era definitivamente para mim...eu sempre pesquei é linha na minha cidade nos pontões e cais porque razão iria andar por ali a mexer em cobras ainda por cima para apanhar um peixe de que não gostava nada por causa da profusão de espinhas?

Na verdade e para quem não sabe o peixe de rio (muge) tem uma consistência espinal elevada por centímetro quadrado: é um frete comer aquele peixe. Ora a pescaria com o meu primo foi logo combinada por ele para um dia ou dois depois de eu ter visto eles comerem a eiró /cobra e não era uso baldarmo-nos a convites destes especialmente vindos do meu primo e sapateiro gratuito.

Para além disso a mulher dele, minha tia/prima, era uma jóia de pessoa sempre. Ainda vive e eu pouco lhe tenho falado ultimamente o que lamento sinceramente. Esteve doente em minha casa enquanto fazia tratamentos no Hospital de Faro a um problema hormonal mas não era de encostos e trabalhava em nossa casa tudo aquilo que havia a fazer. Quando a minha mãe se ausentava era a ela que recorríamos. Por várias razões o meu primo, que era natural do Zambujal, não tinha entrado bem na família alargada. Era respeitado sim mas relativamente pouco aceite.

Eu achava estranho essa falta de integração mas tenho a impressão que o sentido de humor dele não se ajustava muito à seriedade local acabando algumas vezes as fábulas dele por serem levadas a sério tal a convicção que metia nos relatos. Bem, isto para dizer que estava fora de causa uma recusa à pescaria. Pelo caminho pelo sim pelo não fui-lhe contando os eventos que tinha vivido dois dias antes, para já à beira do pego, lhe dizer que se a primeira coisa a entrar-me na mão fosse cobra parava logo ali a minha função. E foi isso que aconteceu...saiu cobra.

Sentei-me numa pedra enquanto assistia a uma afanosa pescaria porque o pego era farto. No dia a seguir e conforme combinado fui um pouco a contragosto para comer o peixe que ele tinha apanhado e fui então no local informado que peixe não havia, que um gato tinha conseguido chegar ao cesto elevado por corda atada a um barrote do tecto e tinha comido tudo. Nem foi preciso olhar bem para o olhar encolhido da minha tia para perceber tudo.

O homem dispunha sempre... e no fundo tinha toda a razão...mas podia sempre ter-me mandado recado sobre o «afoito gato» poupando-me a deslocação.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Talher - Garfos

Iremos referir hoje neste espaço de etnografia o utensílio de mesa que acaba por ser uma espécie de pequenino forcado, de uma maneira geral, com quatro dentes e um cabo que se usa para segurar no prato o que se corta e para levar à boca alimentos sólidos.

Apresentamos oito exemplares da nossa pequena colecção. Os três primeiros, que nos ofereceram em Alcoutim, são os mais antigos que conhecemos e que ainda vimos em uso nalgumas casas, pois havia elementos do agregado familiar que os não trocavam a qualquer outro, pois consideravam-no muito mais eficiente na sua acção.

Eram de ferro e não havia dois iguais, visto tratar-se de um trabalho totalmente artesanal.

Pensamos que os ferreiros espalhados pelo concelho os fariam, já que também eram eles que faziam os próprios pregos e tudo o que fosse necessário para a vida de então.

Os dois seguintes são de alumínio. Enquanto o primeiro é de uso comum, o segundo tem a missão de transportar peças ou quantidades maiores nomeadamente para travessas, pratos ou pelanganas.

Tanto no primeiro caso como neste, os cabos são da mesma substância, notando-se nos de alumínio uma tentativa de embelezamento dos mesmos.

Eram muito mais leves, mais higiénicos, menos trabalhosos na sua limpeza, mas menos eficientes no trabalho e partindo-se com facilidade.

Os três últimos já são da conhecida cutelaria de Guimarães, sendo os dentes em ferro, já de fabrico em série. Os cabos de madeira ou corno, notando-se assim uma evolução muito acentuada. Reparar que as três peças têm formatos diferentes. Têm uma maior elegância e eram acompanhados das respectivas facas de decoração semelhante e onde já era gravado a origem do fabrico.

Do talher que hoje usamos com naturalidade, colher, faca e garfo, este foi o último a aparecer, dado que na Idade Média o garfo era substituído pelos dedos.