quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Há 78 anos em Alcoutim !



Já se passaram 78 anos sobre a data em que esta fotografia foi tirada pois teve lugar em Agosto de 1933.

Quem conhece bem o local verifica que foi tirada na muralha do Castelo de Alcoutim, virada para Sanlúcar do Guadiana, apanhando como fundo aquela povoação do país vizinho.

Eu só vim a nascer cinco anos depois da foto ter sido tirada e desconheço o seu autor.

Confesso que só reconhecia a D. Clarisse Cunha. Por informação recebida, das três senhoras, a do meio é D. Berta Cunha e a que está ao seu lado a jovem Ricardina Temudo falecida na flor da vida.

O reguila do miúdo que se metia por todos os cantos, “segundo dizem as más línguas” é nem mais nem menos o decano dos nossos colaboradores, o poeta e prosador José Temudo, então com três ou quatro anos.

São fotografias como esta que ajudam a fazer a história ilustrada de Alcoutim.

A foto foi-me cedida pela minha Amiga alcouteneja Doutora Marina Themudo, a quem agradecemos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A matação do porco

Pequena nota
No nosso trabalho publicado há 26 anos sobre Alcoutim e o seu concelho incluímos na 3ª Parte – Notas Etnográficas e Folclóricas o tema “A “matação” do Porco que desenvolvemos nas páginas 307 a 309.

Em 1990 tínhamos preparada uma segunda edição e esse tema, naturalmente sofreu alguns ajustamentos. Ao ser lido agora para publicarmos no ALCOUTIM LIVRE verificámos que era necessário um novo ajustamento procurando manter o fundamental daquilo que então escrevemos. Estas coisas são mesmo assim, conforme o tempo vai passando vamos aclarando muitas situações e encontrando mais explicações para determinados procedimentos e adquirindo novos conhecimentos através de pesquisas e leituras adequadas ou novas ou que desconhecíamos.

JV



Trigo no celeiro, um palmo de hortejo e um porco na salgadeira, dizia-se que era condição suficiente para que um alcoutenejo se encontrasse “feliz” sem preocupações de maior.

Hoje a situação é naturalmente muito diferente - houve grandes modificações na vida. Como todos, este dito popular tem um sentido verdadeiro e está condicionado à vida exclusivamente agro-pastoril, que então pautava no concelho de Alcoutim.

O porco é um animal precioso, todas as partes do seu corpo, mesmo as entranhas, são comestíveis. Por outro lado, em salmoira, pelo fumo e com o auxílio da própria banha, conserva-se bem. Hoje, Alcoutim tem energia eléctrica em todo o concelho e nas últimas “matações” alguns destes processos foram substituídos. Deixaram de salgar para meter nas arcas congeladoras.

Criação fácil e rápida, com aproveitamento de resíduos de toda a espécie. Outrora, consumiam os excedentes agrícolas e o período especial de engorda era feito também com produtos criados pelo agricultor. Hoje, como se sabe, imperam as farinhas apropriadas. No campo, já pouco ou nada se colhe.

A carne de porco constituía uma pedra importante na alimentação do alcoutenense. Era assim que todos os que tinham uma vida virada para o campo, e não só estes, engordavam o seu porquito para matar.

No mês de Dezembro ou de Janeiro, por serem os mais frios do ano e isso evitar que as carnes se estragassem, depois de cevados, é a altura própria para o abate, a que o alcoutenejo chamava “MATAÇÃO” e não matança e que constituía um dia de festa.

Para o efeito, faziam-se adequados convites que englobavam familiares, compadres, vizinhos e pessoas a quem se deviam favores ou se pretendia demonstrar amizade.

Enquanto uns só lá iam para comer, outros eram “requisitados” fundamentalmente para prestarem a ajuda indispensável, vindo a pagar do mesmo modo.

No dia aprazado, logo pela manhã, os homens experientes iam buscar o suíno que agarravam e deitavam sobre uma banca ou um caixote bem seguro. Atadas as mandíbulas com uma corda, para o animal não morder, vinha o “matador” (1) que espetava a faca bem afiada com um golpe ágil e certeiro que atingia o coração. Da vítima jorrava o sangue apanhado num alguidar, tacho ou qualquer outra vasilha onde se tinha colocado sal e vinagre e que se ia mexendo para não coalhar. É tarefa destinada às mulheres.

Por perto havia uma pequena mesa onde estavam copos e uma garrafa de aguardente para os homens se servirem como “mata-bicho”.



Musgá-lo era a tarefa seguinte, isto é, queimá-lo com tojos apanhados nas redondezas e a que se lança com facilidade o fogo. Nos últimos tempos esta operação era feita com um maçarico.

Seguia-se o raspar do couro, trabalhosa operação feita com uma lata ou pedra, auxiliada por água bem quente oriunda das panelas, muitas vezes de zinco, que estavam ao “fogo”.

Procedia-se à extracção das unhas.

Em tempos antigos, o rabo era entregue aos moços que o comiam assado.

Tarefa para homem “especializado” era a abertura e desmancha do animal.



As tripas seguiam para o barranco mais próximo, que em tempo idos corriam bem, onde eram lavadas pelas mulheres. Viravam-nas com o auxílio de uma cana. Temperadas com rodelas de laranja para que tivessem melhor cheiro e paladar, iam servir para os enchidos.



Extraíam todas as vísceras a que se dava o destino adequado.

Uma balança de vara, tipo romano, era utilizada para determinar as arrobas e a que normalmente se seguiam alguns comentários relacionados com o peso.

Procedia-se à desmancha, carne magra para um lado, mantas de toucinho para o outro.

Os presuntos iam para a salgadeira, bem enterrados em sal grosso e sobre os quais se colocavam pedras suficientemente pesadas a fim de evitar que se estragassem. Meses depois, com a cura já feita, eram barrados com pimentão e pendurados.

Pelas duas ou três da tarde, chegava a hora da “fritada” ansiosamente esperada.

Nela entrava todo o tipo de carne, gorda ou magra, não esquecendo a cachola.

Temperava-se com alho pouco antes de estar concluída.



Depois deitava-se o sangue a que se tinha juntado vinagre e que se temperava agora é temperado com cominhos, louro e pimenta. Ficava assim preparado um outro tipo de comida a que chamam “moleja” e que é muito apreciada.

Havia quem deitasse algumas batatas na “fritada”.

Com a carne picada, faziam-se chouriços de carne, de sangue e belos “palaios” (paios).



Não faltava a “amassadura” de saboroso pão e o vinho “caseiro” regava o repasto contrabalançando o efeito da gordura, as gargantas sequiosas e os estômagos “agoniados”.

A “matação” do porco foi algo que começou a desaparecer mesmo antes das restrições impostas por lei.

Já serão bem poucos os porcos mortos anualmente no concelho. Primeiro, porque a vida agrícola está praticamente desapareci, segundo pelos que restam no concelho serem idosos e já não poderem desempenhar tais tarefas e terceiro os poucos novos existentes vão ao talho, compram e metem na arca.

NOTAS
(1) - Havia homens “especialistas” nesta arte que eram requisitados para o efeito, optando-se, obviamente pelos mais próximos.
(*) A reportagem fotográfica é de L.M.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O rodo mineiro

O rodo é um utensílio que serve principalmente para juntar qualquer coisa que se pretende recolher e isto em situações muito variáveis.

As matérias de que é feito são diferentes dependendo do fim a que se destinam.

O primeiro rodo de que me apercebi era todo em ferro e destinava-se a retirar das sarjetas as pedras e outros objectos que iam lá parar e ficavam retidos. Parece que ainda estou a ver o funcionário municipal, um velhote já curvo com uma espécie de camisa de chita aos quadrados azul e branco que tinha bordado a vermelho CMS identificando a Câmara para quem trabalhava.

Além do rodo trazia um cântaro de folha zincada para fazer a recolha da água nas bocas-de-incêndio a fim de proceder à limpeza das sarjetas, o que era feito com muita regularidade.

Depois vim a conhecer o rodo de madeira que aqui já apresentei e se destina a puxar a cinza nos fornos de cozer pão. Há o rodo para o sal nas marinhas e também o havia para recolha dos cereais nas eiras assim como os há para recolher o dinheiro nas mesas de jogo.

O que apresento tem uma configuração muito própria, é robusto e encontrei vários muito semelhantes na freguesia de Alcoutim, desconhecendo se existem nas outras do concelho.

Interroguei-me sempre quanto à sua utilização e só recentemente alguém referiu ser um rodo usado pelos mineiros para juntar o mineral, o que pesquisas posteriores confirmaram.

O exemplar fotografado, com mais de um século de existência, era efectivamente propriedade de um antigo mineiro, nascido em 1842 e que trabalhou na mina de S. Domingos.

Como desta zona trabalhou muita gente naquela mina, está aqui explicada a sua existência na freguesia de Alcoutim.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Monte dos Gagos, um caso semelhante aos montes alentejanos



Foi dos últimos montes que conheci no concelho, o que aconteceu em 2010, pois só recentemente foi activado e teve acesso por veículo automóvel.

Tive conhecimento da existência deste monte por volta de 1970 quando ao consultar vários Anuários Comerciais dos princípios do século passado me apareceu GAGOS como povoação da freguesia de Martim Longo, o que, entretanto, veio a desaparecer em números mais recentes que consultei na altura e que penso, o último ser referente ao ano de 1966.

Julgo que isso aconteceu por ter deixado de ter moradores.

Quando comecei a pesquisar nos registos paroquiais de meados do século XIX do concelho de Alcoutim existentes no Arquivo Distrital de Faro, começo a encontrar movimento neste monte no que respeita a baptismos (nascimentos) e óbitos e mesmo casamentos.

Como exemplo direi que em 18 de Setembro de 1840 nasceu neste monte Mariana, filha de Domingos dos Santos e de Júlia da Conceição, aqui moradores, neta paterna de Joaquim dos Santos e de Joaquina Maria, dos Castelhanos e materna de Manuel Martins e Custódia Martins, dos Gagos.

Como a criança estivesse em riscos de vida, foi baptizada por Ana da Palma daquele monte que veio a ser sua madrinha quando se lavrou o assento na matriz de Martim Longo em 24 daquele mês.

Em 1758 (Memórias Paroquiais) aparece referido como Monte da dos Gagos mas o pároco de Martim Longo que respondeu ao questionário só indicou o número de vizinhos no seu conjunto e segundo os analistas tê-lo-ia feito de maneira incorrecta.

Gago que funciona para definir quem tem defeito na fala, depois de ter sido utilizado como alcunha acabou muitas vezes por ser anexado ao próprio nome tornando-se assim num antropónimo. Possivelmente foi o que aqui aconteceu. O “monte” que parece ter tido sempre a característica de monte alentejano teria pertencido à família dos Gagos e daí a designação.

Quem vem de Alcoutim ao aproximar-se de Martim Longo encontra à direita a indicação de Monte dos Gagos e no lado oposto, ou seja à esquerda, a indicação de Penteadeiros.


A Companhia das Ervas de Martim Longo explorou um terreno nas proximidades deste monte para a plantação de algumas das espécies. (1)

Sei que a sociedade recebeu 700 contos de prémio para apoio da actividade (2) mas que penso hoje já não existir, pelo menos nunca mais li qualquer referência à mesma.

O monte que tem um único fogo, e nem sempre habitado, nele funcionou um restaurante, presentemente fechado.

Tem energia eléctrica e furo artesiano da responsabilidade do proprietário.

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NOTAS
(1) – “Mulheres de Martinlongo cultivam plantas medicinais”, João dos Reis, Correio da Manhã de 12 de Março de 1994, p.12
(2) – “Entrega de Prémios de Jovens Agricultores do Concurso/92”, Correio do Ribatejo de 8 de Março de 1992.

domingo, 13 de novembro de 2011

Casamentos na Freguesia de Alcoutim em 1839

[Igreja Matrz - Des. JV]
Ainda só dispusemos de oportunidade para pesquisar os assentos de casamento da freguesia de Alcoutim e gostaríamos de os pôr em paralelo com o que se passou nas restantes freguesias, mas por agora não possuímos esses elementos.

Só se efectuaram 13, pouco mais de um por mês, em média. O maior número teve lugar no mês de Maio [4] seguido de Fevereiro com [3] e de Janeiro com [2]. Nos meses de Março, Julho, Outubro, Novembro e Dezembro não se realizou qualquer acto deste tipo e nos restantes meses apenas um teve lugar.

O que consideramos diminuto em relação ao ano de 1839, hoje e na mesma freguesia seria um número muito elevado. São os tempos...

Dos 26 nubentes 23 eram da freguesia, 1 da do Pereiro e dois de Sanlúcar do Guadiana. Pelos nomes deviam ser portugueses a residir naquela povoação e que quiseram vir casar ao seu país. Resta saber se por lá ficaram, como aconteceu a muitos ou se regressaram.

Dos nomes dos nubentes destacam-se 8 Marias, 5 Manueis, 4 Antónios, 2 Josés e duas Domingas, completando o leque com Francisco, Bárbara, Inês, Joaquim e Isabel.

Domingas e Bárbara, nomes não muito vulgares noutras zonas continuando a existir por estas bandas como os alcoutenejos sabem.

Outra curiosidade, que os números e os nomes apresentam, é que entre os nubentes não existe ninguém da vila! O maior número vai para Cortes Pereiras [8]. Balurcos com [5], Laranjeiras [3], Afonso Vicente [2], Sanlúcar [2] como já dissemos e [1] para cada uma das seguintes povoações, Palmeira, Corte da Seda, Vascão, Corte Tabelião e Tacões perfazem o número restante.

Pelos números apresentados já se verifica a importância populacional de dois pólos, Cortes Pereiras e Balurcos.

[D. Maria II]
Outra curiosidade que retirámos da pesquisa efectuada é o facto de no dia 1 de Maio se terem realizado dois casamentos. Manuel Dias do Balurco de Cima casou com Maria Henriques das Laranjeiras e um irmão desta, Manuel Henriques casou com Domingas Afonso, do Balurco de Cima e irmã de Manuel Dias.

Ainda hoje essas coisas acontecem mas não deixa de ser curioso.

Este período era politicamente muito instável no país com revoluções e contra revoluções permanentes. Governava então D. Maria II.

Todos estes nubentes deveriam ter ouvido falar de Remechido que passou por estes sítios com os seus homens o qual veio a ser executado na cidade de Faro em 1838.

Foi celebrante dos actos o Padre Encomendado António José de Freitas (tio) (1796-1872) que era natural de Alcoutim e sepultado no cemitério da vila.

sábado, 12 de novembro de 2011

Amigos de Alcoutim querem que o concelho progrida

Pequena nota
Deste grupo de alcoutenejos faziam parte entre outros os alcoutenejos Eng. Gaspar Santos, nosso Prezado Amigo e Colaborador e o Dr. Álvaro Fernandes, infelizmente já falecido e foram os dois que fizeram a entrega do documento no jornal.
JV


(O SÉCULO DE 14 DE OUTUBRO DE 1974)



(*)[Alcoutim e Sanlúcar vistos de Espanha]


Substituição do grémio da lavoura por outra entidade, com atribuições mais vastas; arborização de vasta área; emparcelamento de terras; criação de infraestruturais viárias, eléctricas, de águas, de esgotos e de turismo; abertura da fronteira com a Espanha na sede do concelho (como aconteceu até 1936) – eis os pontos de uma proposta para reestruturação do concelho de Alcoutim, elaborada por um grupo de naturais e amigos desta vila.

No documento, que nos foi entregue por uma delegação, lê-se:

"A população do concelho é actualmente pouco superior a 6 000 habitantes, quando era de 15 000 em 1950, antes do surto da emigração interna e externa. A base económica actual é o remanescente de uma agricultura e pecuária arcaicas, ajudada pela colheita de amêndoas, alfarrobas e laranjas. Há meio século teve uma pecuária e produção de ovos intensa, havendo mesmo um tipo de bovinos oriundo daqui. Até 1936, havia mercados, em que participavam criadores espanhóis. Os seus terrenos pauperizaram ou foram erodidos, vítimas da “Campanha do Trigo” lançada cerca de 1933, e para a qual lhe escasseavam as condições. A estrutura agrária é de pequenas explorações familiares, com as propriedades muito divididas e dispersas. Nem há grandes propriedades, nem há hoje um assalariato rural muito numeroso como já existiu: emigrou."

Os amigos de Alcoutim, aludem ao facto de se não tratar de "uma agricultura capitalizada", tendo-se atrasado, por esse motivo "tecnicamente e na iniciativa, que se poderia ter aproveitado arborizando". Acrescentam:

"As aptidões económicas, que não estão aproveitadas, mas que se sabe existirem, prendem-se naturalmente com a agricultura e a pastorícia, bem como ao turismo (a paisagem natural das margens do rio é surpreendente e óptima para a pesca e a caça).

Dentro das aptidões, sobressaem, como possíveis de desenvolvimento económico e criação de emprego, a arborização, com amendoeira e alfarrobeira, pereiras e outras espécies adaptáveis e a pecuária e indústrias que se lhes ligam, como os apreciados queijos. Mas para lançar algumas iniciativas, para que não progrida a desertificação de uma vasta zona, quer de espécies vegetais, quer de espécie humana, é necessário criar-se uma entidade dinamizadora "(...)

A terminar, diz-se serem as sugestões válidas para toda a serra algarvia e até para enorme área do Baixo-Alentejo.

Apela-se para o apoio dos poderes centrais dada a falta de capitais privados e da iniciativa e por outro lado, atendendo ao exíguo orçamento das câmaras municipais.


(*) - Era esta a zincogravura que o jornal possuía para ilustrar algo que se escrevesse sobre Alcoutim.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Chegámos às 60 000 !



Pelas 18 horas de ontem o ALCOUTIM LIVRE alcançou as 60 MIL VISITAS, número irrisório para alguns blogues, mas muito significativo para nós. DEFENDEMOS O NOSSO ESPAÇO E NÃO NOS PRETENDEMOS CONFUNDIR COM NINGUÉM.

O número foi alcançado após 3 Anos, 3 Meses e 18 Dias de existência.

Estas últimas 10 mil visitas foram as mais rápidas de alcançar pois só foram necessários 3 meses e 16 dias.

A média diária neste período de tempo foi de 94,34 tendo ultrapassado a anterior em 9,6 o que é um aumento considerável.

A média diária, desde o início, passou para 49,87.

O número de postagens, que já vai em 954, teve neste período 108, o que representa praticamente uma por dia.

O número de países que nos visitaram é de 84, por isso, mais quatro do que no balanço anterior.

É importante o contributo vindo do Brasil pertencendo-lhe 13,7 % das visitas expressas.

Os cinco TEMAS mais movimentados são:- Câmara Escura (90), Etnografia (89), Escaparate (74), Ecos da Imprensa (61) e Geral (50).

Continuamos a ter o precioso contributo dos nossos colaboradores que com os seus textos diversificados arejam o conteúdo deste espaço.

Alerto para a circunstância de alguns temas se aproximarem do fim como acontece com os montes do concelho, quase concluído.

NADA NOS FARÁ MUDAR DE RUMO, PROCURANDO DAR A CONHECER COM VERDADE ESTE CONCELHO DO NORDESTE ALGARVIO, RECEBENDO EM TROCA APENAS E SÓ A SENSAÇÃO DO DEVER CUMPRIDO.

Não podemos terminar sem ter uma palavra de agradecimento para os nossos visitantes / leitores que acabam por ser o suporte indispensável deste espaço. Sem eles isto já teria acabado há muito.

Juntamos como é habitual um gráfico explicativo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

"Pecados" de antigamente...





Escreve

Amílcar Felício




[Rua Portas de Mértola. Foto JV]

Ia com ela ao poejo umas vezes ao Barranco da Amarela outras, ao Barranco do Poço das Figueiras. Às vezes até nos aventuravamos pela ribeira acima até quase ao Pego da Arvela, junto às velhas passadeiras das Cortes Pereiras.
Perguntava-me sempre antecipada e delicadamente, “então e quando é que queres ir com a vizinha ao poejo”? “Quando a vizinha Francelina quiser”, respondia-lhe eu quase sempre... E lá íamos nós de tempos a tempos apanhar aquela planta silvestre, tão apreciada pelo paladar alcoutenejo.

Esta prática de utilização de plantas silvestres na gastronomia alentejana e certamente por “contágio” na serra algarvia, remonta aos séculos XV e XVI aos tempos das grandes navegações, cujo principal produto de comercialização eram as especiarias. Claro que a imaginação popular como sempre, sem grandes posses para adquirir tais luxos só acessíveis às classes mais abastadas na altura, rapidamente se desenrascou inventando alternativas com a prata da casa que não lhe ficariam nada atrás, diga-se de passagem.

Esses condimentos populares inventados em tão boa hora, fazem nos nossos dias as delícias dos gostosos sabores da tradicional cozinha alentejana e da serra algarvia, à base das mais variadas plantas aromáticas tão abundantes no Alentejo.

Já agora por falar de imaginação, repare-se na quantidade de pratos tão diversificados que os alentejanos confeccionam só com o pão! São as migas, a açorda, o gaspacho, as sopas de tomate etc., é um nunca mais acabar de saborosos pratos tão diferenciados mas embrulhados com o mesmo produto. Lá diz o povo com razão que “a necessidade aguça o engenho” e que engenheiros que estes alentejanos me saíram!

[Rua da Misericórdia e o "monstro". Foto JV]
Ou então por curiosidade mencionemos a origem do prato típico alentejano -- a célebre “sopa de cação” -- numa zona de sequeiro já repararam? Tratava-se de facto nem mais nem menos de peixe sem valor comercial, que os pescadores no Algarve davam nos meados do séc. XX a quem ia vender peixe ao Alentejo e que estes distribuíam ou vendiam depois a baixo preço às famílias mais pobres. Assim nasceu mais um prato típico alentejano que ainda hoje constitui um cartão de visita!

A minha vizinha Francelina passava o dia em casa à janela a ver quem passava, pois não tinha amigas e era considerada uma “pecadora” inveterada vítima de censura popular implacável, apenas porque gostava de beber o seu copinho de vinho. E não se pense que exagerava por aí além, pois a garrafinha que usava para se abastecer teria os seus 250 ml quanto muito. O único passeio de que desfrutava era comigo, ou ao Barranco da Amarela ou ao Barranco do Poço das Figueiras, para apanharmos poejos.

Mas uma mulher gostar de vinho naqueles tempos era obra do Diabo, um pecado mortal que marginalizava automaticamente quem praticasse tal sacrilégio. Fazia-me confusão tanta má língua das pessoas, certamente uma falsa maneira de fazerem sobressair as suas virtudes... O ostracismo a que era votada levava-me naturalmente a acarinha-la e a estender-lhe a mão e era comigo que ela vinha ter quando as coisas se complicavam mais.

Os tostões lá em casa dizia-se, tinham todos o destino contado para não alimentar “vícios”. Assim e nas alturas de crise à socapa lá lhe enchia a garrafinha na taberna do meu avô, dando-lhe o simples prazer de beber um copo. E como ela ficava feliz com tão pouco! Foi um segredo que ficaria guardado entre nós para a vida, até hoje claro. Mas se ela ainda por cá andasse, perdoava-me com certeza esta escorregadela. Como a vida era difícil...

Contudo, certo dia a vigilância apertou de tal maneira que nem eu tinha qualquer possibilidade de fazer o que quer que fosse. Até que ela se lembrou: “olha lá Amílcar, arranjei cinco tostões e vais à Venda do Sr. Simões comprar cinco tostões de vinho para a vizinha, mas não digas para quem é”! E lá fui eu sorrateiro à Venda do Sr. Simões fazer o recado.

Claro que os “habitues” acharam aquilo estranho “em casa de ferreiro espeto de pau” e ver-me ir comprar vinho a outra Venda levava água no bico e claro toca de apertar comigo, tens que dizer para quem é o vinho etc. e tal se não o Sr. Simões não te avia. E o Sr. Simões que era danado para a brincadeira (andou anos e anos a tentar convencer-me de que tinha uma árvore que dava rebuçados!) depressa anuiu ao desafio e tanto apertaram comigo que na minha ingenuidade dos 4 ou 5 anos lhes respondi: “a minha vizinha Francelina não quer que eu diga...” Acho que foi a única vez que me descaí...

A Tia Albertina também era considerada uma “proscrita” porque gostava de fumar a sua cachimbada às escondidas claro, por causa das más línguas...
Se nos perguntarmos hoje quem é que ainda não viu uma menina ou uma senhora, beber um copo ou fumar uma cigarrada num café ou numa explanada, com certeza que não há ninguém que não tivesse assistido a uma banalidade destas! Mas quantas meninas ou senhoras saberão dar o valor a este simples gesto de liberdade individual, sem o peso da censura popular terrível que existia naqueles tempos?
A volta que isto levou culturalmente no curto espaço de uma só vida...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A raça bovina Mertolenga

Na minha região de origem cedo conheci os cabrestos nas entradas de toiros e nas touradas. Na primeira a que me lembro de assistir, com o meu pai, actuava o jovem matador Manuel dos Santos.

E foi ao meu progenitor que ouvi pela primeira vez chamar aos cabrestos mertolengos.

Fui crescendo sem a designação nada me dizer. Isso só aconteceu quando li o artigo de Trindade e Lima e que aqui reproduzimos recentemente, no qual relacionava, naturalmente, “mertolengo” como originário de Mértola mas havia quem opinasse que a sua origem seria Alcoutim.

Nos anos que permaneci em Alcoutim nunca ouvi falar em tal. Entretanto, a criação de gado bovino foi diminuindo bastante e hoje é bem escassa.

O Eng. Agrónomo Bernardo Lima, (1873) considerado muito competente na área, diz que esta raça “alentejana” bem adaptada aos cerros e às magras pastagens que estes lhe oferecem, tornou-se rija para acarretos e lavra das terras magras dos cerros.

Por estas características os considera bons bois de cabresto. Dá-os como existindo no Baixo-Alentejo sem especificar Mértola, em Alcoutim e Martim Longo, aqui sim especificando.

[Retirado com a devida vénia de http:mertolenga.no.sapo.pt]

Parece que o mertolengo original seria “vermelho”, enquanto o do Baixo-Guadiana seria malhado (vermelho e branco). Com o cruzamento, a permanência genética forte da cor branca veio dar origem ao rosilho mil flores. A raça tem assim três variantes quanto à coloração: - o vermelho, o rosilho e o malhado. (1)

Segundo Eduardo Gomes Calado, são animais de pequena corporatura, vermelho - malhados ou salgados e que são muito apreciados pelas qualidades que possuem para os serviços agrícolas.

Como animais de tracção, na charrua ou no arado, são óptimos, pois têm além da rijeza da unha, docilidade, poder muscular e vigor para aguentar as fadigas que lhes são exigidas no amanho das magras terras da serra.

De escassa produção leiteira, mas de carne de boa qualidade, eram e são procurados para enquadrar e conduzir os touros nas pastagens e nas praças tauromáquicas, sendo conhecidos por cabrestos.

As suas formas são harmoniosas, esqueleto fino e o contorno das aberturas naturais e mucosas de cor clara. Cornos finos brancos e escuros na ponta. Longevidade produtiva.

Enquanto os efectivos de pelagem vermelha e vermelha bragada se distribuem pelas bacias do Tejo e do Sado, os de pelagem malhada fixam-se principalmente na margem esquerda do Guadiana. (2)

NOTAS
(1) – htt://www.cnpc.org.br
(2) -“O Algarve Sob o Ponto de Vista Pecuário”, Eduardo Gomes Calado, Boletim da Junta de Província do Algarve, 1940.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Rip Curl Pro Peniche 2011... aos olhos de um surfista local





Escreve


José Miguel Nunes




Foto: CMP

Terminou mais um RIP CURL PRO PENICHE (Portugal), desculpem lá, mas eu gosto mais de lhe chamar assim.

Começa a ser difícil encontrar adjectivos que definam os campeonatos e as ondas em Peniche, foi o terceiro ano consecutivo em que o “Word Tour” passou por Peniche, e mais uma vez Supertubos mostrou toda a sua grandeza, apresentando-se verdadeiramente de gala durante toda a competição.

Foi incrível assistir a este campeonato, talvez o melhor dos três que por cá já se realizaram. Supertubos mostrou-se em toda a sua pujança, provando mais uma vez que não existe em Portugal mais nenhum local onde se possa realizar um campeonato desta magnitude com este nível de ondas, apesar disto criar uma certa azia a muita gente no meio do surf em Portugal.

Não encontro outro termo para definir esta etapa, a não ser… EXCELENTE, foi um “show” de tubos. Foram tubos para esquerda, para a direita, na maré vazia, na maré cheia… faltam-me as palavras para definir aquilo a que assisti durante estes três dias de competição.

Talvez o melhor é irmos mesmo aos números para percebermos melhor a qualidade do campeonato que tivemos. Em termos globais, durante cinquenta e um “heat’s” foram surfadas setecentas e noventa e três (793) ondas, das quais noventa e duas (92) foram classificadas como excelentes, cento e vinte e seis (126) como boas, setenta e cinco (75) como normais e cento e quarenta e duas (142) como fracas.

Vamos agora ver as estatísticas para as ondas que contaram para as classificações, ou seja, o conjunto de ondas que serviram para definir os “scores” de cada um dos atletas em cada um dos “heat’s”. Das duzentas e vinte e nove (229) ondas que contaram, oitenta e sete (87) foram excelentes, oitenta e duas (82) boas, trinta e três (33) normais e apenas vinte (20) foram classificadas como fracas. Em termos percentuais temos que, 74% das ondas foram classificadas de boas para cima, divididas em 38% para as excelentes e 36% para as boas, isto meus amigos, é a prova provada que a onda dos Supertubos em Peniche é de uma qualidade como poucas no mundo. Ainda a nível de curiosidade, a onda que fecha o “top 10” foi pontuada com um 9,77, sendo que as quatro primeiras são de nota máxima (10 pts).

Penso que estas estatísticas definem bem o que se passou durante este campeonato, e desafio desde já a apresentarem números de qualquer campeonato realizado em Portugal que se aproximem destes, inclusivamente aqueles que se realizaram na recém-galardoada Reserva Mundial de Surf (RMS).

Relativamente à estrutura montada na praia, considero que houve uma melhoria em relação ao ano anterior, e quero frisar especificamente o terem montado a área VIP fora do areal, bem como a montagem de duas bancadas em frente ao pico.

Chegou agora a altura de falar daquilo que não gostei, e como escrevi no primeiro editorial deste “site”, defenderei sempre o surf e os surfistas de Peniche, doa a quem doer…continuando, houve algumas coisas que já venho a não gostar desde o primeiro campeonato que aqui se realizou em 2009, e vou ser já muito directo, e dizer que acho uma vergonha a maneira como os surfistas locais são tratados pela organização deste evento, e obviamente refiro-me à Rip Curl, com a conivência da Câmara Municipal de Peniche, na pessoa do seu Presidente, António José Correia.

É verdadeiramente vergonhoso o desprezo a que os surfistas locais são votados, não se esqueçam, aqueles que são os únicos que dão o melhor que têm (ondas) e nada recebem em troca, ao serem frequentemente escorraçados de todas as áreas da estrutura montada na praia, em detrimento dos meninos residentes mais a sul, que ostentam orgulhosamente pulseiras de todas as cores com entrada escancarada para todo e qualquer lugar, isto é no mínimo revoltante para quem dá uma onda como a dos Supertubos para realizarem uma das melhores etapas do circuito mundial. Não tenham medo que os surfistas locais não têm nenhuma doença contagiosa, não tenham medo que os surfistas locais também se sabem comportar nos eventos sociais, também somos educados, também temos estudos, também sabemos conversar sobre assuntos interessantes, não somos nenhum bando de marginais que por acaso fazemos surf durante todo o ano em Peniche.

Por falar em eventos sociais, já no ano passado o disse, e volto a dizê-lo este ano: não percebo qual a razão de a festa de lançamento de um evento realizado em Peniche ser feita em Lisboa, a uma centena de quilómetros de distância. Se não for pela mesma razão que no ano passado avancei, de que seria para poupar o “jet set” alfacinha a uma viagem cansativa, só vejo mais uma, talvez tenham algum receio que este bando de marginais surfistas e residentes nesta terra de pescadores criem algum tipo de embaraço a convivas tão ilustres.

Avancemos, e agora Sr. Presidente, vai ter de me ouvir, pois sei que sabe gerir magnificamente o momento mediático, e tiro-lhe o chapéu por isso, não foi com certeza por acaso que escolheu os “heat’s” onde o Tiago Pires e o Kelly Slater estavam a competir para falar aos microfones na praia, fê-lo e muito bem, só não gostei foi de na entrega de prémios agradecer e pedir uma salva de palmas (e eu também aplaudi) a todos os surfistas e de não ter acrescentado algo do género: “e agora peço uma salva de palmas para todos os surfistas de Peniche, pois são eles os verdadeiros donos destas ondas onde foi realizado este excelente campeonato”, tinha-lhe ficado bem.

O Centro de Alto Rendimento serviu este ano para a conferência de imprensa de apresentação do campeonato, mais uma vez muito bem. Só não percebi uma coisa, mas por que raio foi o Senhor Presidente dar o nome de um dos quartos ao Tiago “Saca” Pires? Desculpe que lhe diga, mas fazendo uma analogia com o futebol, isso é a mesma coisa que o Pinto da Costa dar o nome do Eusébio a uma bancada no dragão. Coincidência ou não, pois a azia às vezes tem destas coisas, belo agradecimento o dele, com aquele gesto lindíssimo para a praia no fim do primeiro “heat” em que competiu. Tinha tantos nomes dentro do surf penicheiro para escolher, dou-lhe só dois ou três exemplos: um campeão da europa em bodyboard, uma surfista local, que foi só a primeira surfista em Portugal, um surfista e “shaper”, infelizmente já desaparecido, e um visionário para a época, que foi o primeiro a ter uma marca de pranchas (Papoa Surfboards) e uma fábrica em Peniche, para além de mais alguns surfistas locais emblemáticos.

O facto de Peniche (cidade) ter passado mais uma vez ao lado deste campeonato, já nem vou comentar, pois as razões são precisamente as mesmas do mesmo ter acontecido nos outros anos, e se assim continua é porque não há vontade para o mudar.

Termino, dizendo apenas que mostrámos mais uma vez aquilo que as nossas ondas valem, e que neste momento já não há ninguém no seu perfeito juízo no meio do surf que as possa colocar em causa, aliás, opinião unânime entre os surfistas que competem no “World Tour”, e é essa verdadeiramente a opinião que conta, e que nos deixa cheios de orgulho.

Venha 2012 que os Supertubos e os surfistas locais cá estarão para os receber, novamente com a mesma qualidade e simpatia, como é apanágio desta magnifica terra de surfistas e pescadores.



Nota

RECTIFICAÇÃO
Existe uma rectificação que se impõe ao artigo em cima, e assumo desde já o erro quando referi que no CAR Surf não tinha sido atribuido nenhum nome a um surfista local, não é verdade, foi atribuido o nome do Silvano Lourenço a um dos quartos. Aqui fica o meu pedido de desculpas a quem de direito. No entanto isto não invalida tudo o resto a que me referi relativamente aos surfistas locais.