sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Um grande agricultor - António Monteiro Robalo





Escreve

Gaspar Santos





Na Vila de Alcoutim, nos anos 30, 40 e 50 do século passado, o Senhor Robalo era o maior agricultor, entre várias dezenas. As terras que cultivava em dedicação exclusiva, não eram suas. Era rendeiro.

Tinha sucesso, embora fosse criticado por outros agricultores por usar técnicas de cultivo despachadas, consideradas pouco cuidadas. Eles sachavam e cavavam os milhos ou batateiras várias vezes para revolver a terra e matar a erva e assim aumentar produção. Robalo tinha mais que fazer e dedicava esse tempo a outras tarefas mais rentáveis, não estando a fazer muitas “festinhas” às plantas. Se a produção não era tão grande, a palha, o feno e as pastagens residuais também davam jeito para alimentar o gado.

Enquanto outros sachavam o milho, quando atingia alguns centímetros, ele gradeava o terreno semeado. A grade era uma estrutura rectangular em que dois dos lados eram barrotes de madeira com pontas de ferro pregueadas. Quando puxada pelas bestas servia para arranhar a terra e partir os torrões maiores. Destruía muita erva, é verdade, e também muitos pés, o que, porém, não prejudicava a seara, pois o semeador tivera a preocupação de semear o milho com maior densidade. Depois, era só regar o milho pelo pé com regueiras a partir da nora puxada por muares.

[Margens da Ribeira de Cadavais. Foto JV]

Havia anos em que na parte mais baixa da Hortinha, junto da casa, semeava trigo rijo e a cheia da ribeira ou do rio inundava a seara e as laranjeiras até à copa. Nessa altura para o prejuízo ser menor esperava que o terreno secasse, para então, em alternativa, semear milho. E não havia seguro para cobrir isto!

Ele era um homem alto e de desembaraço impressionante. Uma vez, ele ainda era vivo, vi num filme, uma cena que mo trouxe à lembrança: - um emigrante Inglês ou Irlandês toma posse duma terra no Texas. Enquanto a mulher, de saia muito comprida cozia uns feijões com carne seca, ele, com gestos largos, pregando as tábuas com um martelo, fazia uma vedação de madeira, limitando a propriedade, com uma incrível velocidade. Eu disse para comigo: é um “senhor Robalo”!

Recordo dois empregados seus: António Emílio já falecido e o Manuel Noronha, barbeiro actual em Alcoutim, dois exemplos de bons trabalhadores que ele ajudou a formar e que sem dificuldade transitaram para outros ofícios.

Atesta do seu êxito social, integrar em 1952 a Comissão de Festas de Alcoutim. Uma Comissão de Honra “dos engravatados” na feliz expressão de Amílcar Felício. Ele que nunca usava gravata (!), salvo em momentos muito especiais, foi um dos escolhidos por ser muito respeitado.

Este homem era natural da Região Oeste, com um falar peculiar que se distinguia do nosso; quando comprava um selo, não pedia um selo, pedia uma estampilha! Teve um percurso profissional muito específico. Começa por ser escriturário nas Minas de Aljustrel. Mas, como ele dizia, não “cabia” no acanhado espaço do escritório e necessitava de ar livre para se realizar. Torna-se agricultor!

Casou com Laura Brito, operadora de telégrafo de Morse dos CTT. E resolve acompanhar sua mulher à medida que ela vai sendo promovida e muda de local de trabalho. É assim que vai, com o filho Mário nascido em 1921 em Aljustrel, para o Pomarão onde nasceu a filha Ivone.

Instalam-se em Alcoutim no final dos anos 20 quando a mulher foi transferida para chefe dos CTT por morte do senhor Freitas. Aqui arrendou terras para cultivar, como já fizera no Pomarão. Moravam no antigo edifício dos CTT na Rua D. Sancho II, nas instalações destinadas a residência da chefe.

Não me lembro de ter visto a mulher do senhor Robalo, pois faleceu muito nova. Sei por ouvir dizer que, enquanto ele era magro ela era mais forte.

[Comandante Robalo ] O filho Mário de Brito Monteiro Robalo fez a instrução primária em Alcoutim. Mais tarde teve uma brilhante carreira militar. Foi um dos primeiros dois pára-quedistas, juntamente com o capitão Martins Videira. Em 1962, como major, foi nomeado comandante do Regimento de Caçadores Pára-quedistas, criado no ano anterior, e onde se manteve até 1971. Passou à reserva por doença no posto de coronel. Depois, ainda se licenciou em direito, tendo falecido em 1990.

A filha Ivone de Brito Monteiro Robalo também frequentou a escola em Alcoutim. Foi enfermeira no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, atingindo o grau de enfermeira-chefe.

Quem tomava conta do governo da casa era uma empregada de nome Emília, natural do Baixo Alentejo. Ti Emília da “Horta” era uma figura típica, pessoa bem-disposta, que do seu posto atrás do muro da casa dava sempre o seu dedo de conversa e de saudação simpática a quem passava no caminho do Poço das Figueiras, aproveitando para pôr em dia as notícias. Sendo também aqui que vendia alguns produtos da terra.

Esta empregada no início dos anos 50 trouxe dois sobrinhos adolescentes, o Manuel Noronha e sua irmã Maria de Lurdes para colaborar nos trabalhos, o que fizeram com mérito. Estes constituíram famílias e ainda residem na freguesia de Alcoutim.

Dois terrenos eram a sua principal ocupação: a várzea entre o Poço Novo e o Poço das Figueiras, onde existia a casa onde passou a residir; e a Fonte da Serra, à direita do antigo caminho donde se avistam as passadeiras das Cortes (Pereiras) sobre a ribeira de Cadavais, onde tinha as suas instalações pecuárias, armazém de alfaias agrícolas, cereais e alimentos para o gado e a eira para debulha de cereais, favas, grão-de-bico e tremoços.

Além de trigo e milho cujos excedentes vendia à Federação de Trigos, colhia e vendia, azeitonas, amêndoas, figos, alfarrobas, batatas e produtos hortícolas e produzia bastante leite de vaca. Vendia ainda a produção pecuária de porcos, ovelhas e cabritos. Era também um grande produtor de laranjas e outros citrinos. Na sua residência a empregada vendia muitos produtos hortícolas, batatas, leite e até caixinhas com amoras.

Recordo-me de algumas vezes, por 10 centavos (um tostão) a empregada permitir que os miúdos fossemos “encher a barriga” de amoras subindo à amoreira para as colher e ficar todos pintados de azul.

Recordo outro episódio. As laranjas caídas serviam de alimento às vacas leiteiras. Um dia uma vaca enorme e que dava muito leite morreu engasgada com uma laranja mais pequena. O Senhor Robalo com um misto de raiva e desgosto não comeu nem deixou que comessem a carne. Aproveitar a carne não o consolava nada, e assim, respeitou normas sanitárias. Mandou fazer uma grande cova e enterrar os restos mortais do animal. No entanto, os “coveiros”, mal ele se afastou ainda conseguiram tirar uns bons bifes, que comeram no mais completo recato para ele não se inteirar.

Comprou ainda, para residir, uma casa enorme na Rua D. Sancho II que restaurou lentamente ao longo de vários anos. Creio até que foram os filhos a terminar a sua restauração. Serviu as instalações da Casa do Povo, sendo vendida mais tarde ao João Batista.

Hoje fala-se muito de crise. Será excesso de produção? De facto vêem-se muitos campos não cultivados por não ser rentável (?) explorar. Não faltam alimentos na Europa, mas eles faltam em muitas partes do mundo. Há jornais até que dizem que não há capacidade para alimentar hoje toda a população mundial. Outros referem um estudo da FAO que diz ter o mundo capacidade para alimentar 10 mil milhões de habitantes, que será a população em 2050; e que por falta de distribuição, há alimentos estragados sem serem consumidos, enquanto há zonas de escassez. É, por isso, muito vantajoso que haja produção local para garantir um pouco melhor essa distribuição.

Vale por isso recordar este homem e a sua produção local. Ele pode ainda hoje exemplificar como foi possível ter uma vida plena e economicamente desafogada, criar e educar bem os filhos; trabalhar muito e dar emprego a pessoas, praticar uma agricultura só com a força animal, sem ser subsidiada e sem seguros que cobrissem os riscos de cheia.

O que não faria hoje o Senhor Robalo com tractores?

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Papas com conquilhas


Apresentamos hoje nesta rubrica um prato que nunca provámos e que é muito típico do concelho de Alcoutim tendo apreciadores, nos quais não me incluo.

É um prato extremamente simples, trata-se apenas de farinha de milho cozida em água a que se junta como gordura a banha de porco e naturalmente, uma pitada de sal.

Quando a farinha começar a engrossar, juntam-se as conquilhas previamente depuradas.

A conquilha é um molusco bivalve muito frequente na costa algarvia e que era levada pelos “marujos” através do Guadiana para a serra juntamente com a sardinha, os charros e as cavalinhas.

Em tempos recuados, dos quais os mais idosos do concelho se lembram, a farinha de milho era obtida por intermédio das “molinetas” ou “molnetas”, duas pequenas mós accionadas manualmente e em que a de cima era a andadeira. A farinha saía um pouco grossa. Estas mós parecem ter sido introduzidas na região pelos romanos.

É um prato também usado no litoral algarvio, mas aí toma a designação de xarém, termo que era completamente desconhecido no concelho de Alcoutim, como nos informam os idosos da região.

O ideal é confeccioná-las num tacho de barro e se for ao lume de lenha, melhor.

Existem mais variedades de papas no que respeita ao acompanhamento.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - XVII

Pequena nota
Daniel Teixeira tem-nos presenteado com um conjunto de crónicas interessantíssimas que nos retratam a vida dos “montes” do concelho de Alcoutim na segunda metade do século passado. É o único que o faz em relação a esta área geográfica, já que os outros colaboradores que recorrem à memória o fazem com base na vila onde nasceram e tiveram as suas vivências.
É por estas e outras que o ALCOUTIM LIVRE se torna tão abrangente e é cada vez mais procurado por quem gosta de saber a verdade sobre Alcoutim e o seu concelho.
Obrigado Daniel Teixeira por este valioso contributo.


JV





Escreve


Daniel Teixeira




MEMÓRIAS DE BURROS E NÃO SÓ

Uma parte da minha vida foi passada com burros, com esses nem sempre simpáticos animais mas para os quais se guarda sempre um cantinho privilegiado nas nossas memórias. Dormia muitas vezes com o meu avô na arramada, na parte do palheiro próximo e salvo erro em dezenas de noites que lá passei em todos os anos só uma vez vi um burro «deitado» de joelhos porque sempre que acordava durante a noite os via de pé, sempre remoendo a palha na manjedoura, o que me levava a acreditar que os burros não dormiam.

O Jerico, esse meu paciente amigo suportava todas as minhas traquinices cavaleirescas com aquela paciência que só os burros têm. Queria eu à força que ele atingisse o galope e a velocidade de um cavalo no curto trajecto que nos levava da porta da casa da minha avó até a arramada. Sempre se recusou a fazer isso e ainda bem.

Quando montei uma égua pela primeira vez compreendi como era difícil ter mão nesses nervosos animais logo á primeira: em dias de trabalho usava-se até mesmo para os cavalos uma coisa que agora considero repreensível que eram as serrilhas nos cabrestos para funcionar como desmotivador do desabrochar nervoso do animal.

Umas vezes dava largas à arreata (rédeas era só terminologia para domingos e feriados) e ela entrava em trote; em resposta acabava por apertar demais e ela empinava. Mas nunca caí de cima de um animal o que por aqueles lados, com o pedregoso e o inclinado dos terrenos poderia ter sérias consequências.

O meu tio Afonso, já aqui referido numa crónica, GNR de cavalo, percorrendo montes e vales até à reforma, deu um tombo de uma mula espantada e ficou mesmo mal apesar de o terreno onde caiu ser um terreno de passagem constante e relativamente nivelado.

Contava-se por lá também, curiosamente nas proximidades do mesmo sitio em que o meu tio Afonso foi deitado abaixo pela mula, que o senhor Antonico, irmão da senhora Antonica, esposa do senhor V., tinha deixado cair dos seus braços e de cima do cavalo uma criança de colo que logo ali tinha ficado. Insistira com a mãe do bebé que queria pegar-lhe ao colo... Não se falaria nisso se não houvesse na história uma ponta de verdade embora o assunto não fosse muito falado: a capacidade daquela pobre gente em esquecer as coisas era de facto enorme.

[Cada vez se vê menos esta tarefa - ir pôr o burro a pastar. Foto JV. 2003]

Nunca me foi referido, por exemplo, por ninguém no monte, inclusivamente pelos familiares, a existência de um outro filho ou irmão naquela família que eu conhecia relativamente bem e com a qual me relacionava com relativa frequência. Só soube a história anos depois quando começámos a receber em Faro a visita de um simpático senhor que era de Alcaria Alta acompanhado da sua esposa. Trabalhava numa companhia aérea e tinha avião grátis pelo que desde a abertura do aeroporto e desde a sua reforma visitar-nos era um dos seus passatempos.

Tantos anos depois, e eu já com alguma capacidade de discernimento, fui somando, depois que me foi contada pela minha mãe a história, a ideia de que ele insistia daquela forma em mostrar que estava bem e que tudo estava ou deveria estar esquecido sem o referir embora não demonstrasse qualquer vontade de regressar à sua terra de origem nem em visita. Considerara -se morto para o Monte e o Monte morrera para ele.

Contada que me foi a história pela minha mãe, e tendo em conta que as minhas memórias têm um fio de curso que francamente desconheço acho que foi a parte do cavalo que referirei á frente que me fez relacionar este evento com o que foi dito atrás.

[Último burro de Afonso Vicente. Só pasta. Foto JV, 2005]

Aquele senhor simpático, uma jóia de pessoa, como se costuma dizer, com uma esposa igualmente humilde no trato e simpática, tinha, muitos, muitos anos antes, sido um género de terror do Monte. Aqui é preciso colocar as coisas em perspectiva: ele era miúdo, tinha alguma tendência para roubar e certamente que as coisas foram tratadas e vistas da forma a que estamos habituados também nos nossos tempos. Muita coisa lhe terá sido atribuída que ele não terá feito, certamente, e os empolamentos são sempre feitos pelo diz que disse.

Por aquilo que minha mãe contou ele foi «preso» no Monte porque foi apanhado a roubar um maço de tabaco, isto é claro depois de outras façanhas da mesma índole ou valor aproximado lhe terem sido atribuídas como será lógico. Aqui a importância do detalhe fez-me ficar a saber uma coisa que nem calculava sobre a polícia dos Montes: quem detinha a autoridade para a detenção era o habitante do Monte presente que mais recentemente tivesse acabado a tropa.

Era aquilo a que hoje se chama de detenção civil devidamente hierarquizada. Não sei até que ponto essa pessoa era responsável pela segurança do detido até chegada da GNR mas é de supor ter havido alguma violência e humilhação porque me lembro que a minha mãe referia com algum ênfase: «que ele, quando o montaram algemado na garupa do cavalo do GNR tinha levantado os dois braços no ar e tinha gritado que se viria vingar um dia e que os seus olhos tinham ficado raiados de sangue com uma vermelhidão luminosa.»

[Monte da Preguiça onde um "velho" agricultor não dispensa o precioso auxílio do burro. Foto JV, 2011]

Passada a parte com seguramente farta imaginação e bastante atavismo próprio da altura (talvez primeira metade do século XX) vim a saber também que ele utilizava uma cana com uma agulha de coser na ponta para picar e puxar os maços de tabaco pelo postigo do barbeiro, que vendia também tabaco, o que não deixa de ser imaginativo passe o humor perante circunstâncias que diabolizaram o então miúdo e o levaram a uma instituição em Lisboa que acabou por fazer dele um homem com mais recursos académicos e profissionais do que todos aqueles que o desprezaram um dia.

O facto de ele nos visitar deve ter começado por ser para ele uma acção custosa da primeira vez mas o grau de compreensão da minha mãe era suficientemente largo, embora eu notasse sempre que havia implícita nas conversas dele como que um pedido de desculpas pelo seu passado, quando na minha opinião quem lhe devia fortes desculpas era o próprio Monte, e que isso era coisa que parecia roer-lhe ainda a memória e que não conseguia esquecer. Havia ainda nele um desejo escondido e pouco manifesto de saber coisas do Monte e eu via-lhe o brilho nos olhos quando por aí se passava nas conversas.

Este, ao contrário do pessoal do Monte, que mais facilmente esquecia as coisas, as arquivava mesmo, não conseguia talvez 50/60 anos depois libertar-se dessa memória.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Miradouro em Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 19 DE AGOSTO DE 1977)





Escreve


Hilário Ventura



[Foto que acompanhou o artigo]

Miradouros são, salvo melhor opinião, pontos elevados que a natureza criou e em relação aos quais e pelos quais o homem tem predilecção especial.

São locais onde o ser humano pode entrar em êxtase e criar as condições interiores necessárias a uma aproximação mais íntima com Deus ou, se preferirem, com o obreiro das montanhas e dos vales, dos rios e dos oceanos, das nuvens e das estrelas, do sol e da lua.

São pontos de encontro que preparam ainda para voos mais altos. . São o elo de ligação entre a força bruta da matéria e a serenidade absoluta.

São ainda, e em última análise, pensões e hotéis onde se prepara e serve manjares que vão alimentar o ego psíquico ou espiritual.

O concelho de Alcoutim não possui homens que saibam e queiram alimentar-se destas iguarias tão benéficas contra certas doenças e, por isso, não compreendem nem sentem o seu significado. Falar deste pão, que é simultaneamente remédio eficaz contra alguns dos males que os afligem, é pregar no deserto ou, na melhor das hipóteses, ser tido por lunático, no sentido mais pejorativo do termo. Contudo, essa riqueza é real e altamente benéfica para os que dela se sabem. Podem e querem aproveitar.

Vivemos demasiado os problemas mesquinhos e anquilosantes da matéria para nos darmos conta dessa outra riqueza imensa que tanto bem-estar psico-somático nos traz. Somos um povo em letargia e fazemos questão de não nos divorciarmos deste estado cataléptico em que nos encontramos e no qual acabamos por nos sentir como peixe na água. Não concebemos tal despertar porque os músculos elevadores das nossas pálpebras, com que a natureza também nos dotou, de há muito se encontram em atrofia permanente.

O que conta hoje no homem envelhecido desta terra – que para as belezas do espírito, para as zonas elevadas do Belo e do Amor, não chegou a nascer – é a esperteza do macaco, a ferocidade do leão e a hediondice do porco.

Mesa e latrina, eis aquilo que fisiologicamente é imprescindível.

Fugir ou voluntariamente afastar-se desta dualidade orgânica, é ser visionista, lunático e imbecil , sem objectividade para os problemas concretos, e soluções concretas da vida real do homem, como matéria e enquanto matéria. Não ser terra-a-terra é ser anti-progressista e antidemocrático: é ser contra um Portugal rico e próspero. É, em suma, ser digno de todos os homens menos do de homem. Caduca ilusão!

Isto é, duma forma muito sucinta, aquilo que é e pensa o homem deste concelho, presentemente. Todavia, convém lembrar que o é põe herança radicada através de gerações e gerações.

Entrados que somos no último quartel do século XX, onde as viagens no espaço sideral são uma afirmação e uma realidade científica, onde o cérebro humano se dá ao luxo de descansar à sombra da bananeira só porque ligou o computador electrónico, é “quase” uma aberração da natureza, este contraste.

Nas “provetas” e “tubos de ensaio” do “laboratório” da Comissão Regional de Turismo do Algarve, onde os “reagentes” costumam ser eficazes nos processos de análise e de síntese do marco, do dólar, do franco e outros, poderia e deveria proceder-se, quanto antes a um aturado e sério exame de viabilidade de construção de um miradouro – e não só – em Alcoutim, onde existe local excelente e onde a tão propalada descentralização turística iria , por certo, encontrar ambiente propício para uma desejada e necessária expansão fiduciária.

Para os que andam sempre, ou quase sempre, em viagem alimentar, deixai-vos vir até aqui depois, descansar uns momentos. Deixai-os vir aqui bater as suas chapas e admirar este Guadiana tão esquecido e abandonado turisticamente. Deixai-os ser mensageiros de um abraço de etrna saudade para os seus irmãos Sena, Reno, Tamisa, Danúbio, Volga e tantos outros. Com certeza que eles irão ficar muito contentes por receber notícias deste seu irmão adormecido com o tesouro encantado.

E vós, senhores “analistas”, ireis dormir, descansados e ter sonhos cor-de-rosa. Sonhos maravilhosos que só são possíveis para quem se deita com a consciência do dever cumprido, depois de aturado exame de consciência, em relação a cada dia que passa.

Assim seja!!!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Passeio pedestre - Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011



A Associação Amigos do Zambujal e Organizações Talefe vão organizar no próximo dia 8 de Dezembro, Feriado Nacional um passeio que tem por título “Por trilhos de outrora, passadas largas, na companhia das histórias do contrabandista e dos guardas-fiscais...”

Com encontro no Balurco de Baixo, EN 122, CAFÉ NIKO pelas 9 horas o percurso é de 15 km (com possibilidades variantes de 5 e 8). Estórias e Realidades. Locais emblemáticos. Um reviver o passado.

Almoço para associados – 5 €, não associados – 10 €.

Inscrições - aamigoszambujal@gmail.com ou TM 962194 394.

APROVEITE PARA CONHECER A REALIDADE DE OUTROS TEMPOS E PASSAR UM DIA INESQUECÍVEL.

domingo, 20 de novembro de 2011

O Outono - 2 (Poema)





Poeta


José Temudo





sábado, 19 de novembro de 2011

Algarve volta a mobilizar-se contra a fome

Pequena nota
É com todo o interesse que o ALCOUTIM LIVRE aceitou o pedido de divulgação do Banco Alimentar Contra a Fome (BACF).
Este pequeno espaço estará sempre ao dispor para divulgação da realização de actividades deste tipo.
Apesar das dificuldades que a grande maioria do povo português passa, é sempre possivel partilhar algo com alguém que mais precisa.


JV



A última recolha de alimentos deste ano do Banco Alimentar Contra a Fome (BACF) vai realizar-se nos próximos dias 26 e 27 de Novembro.

A fome é uma realidade que tem crescido um pouco por todo o nosso país e à qual os Portugueses não têm ficado indiferentes. O Banco Alimentar Contra a Fome é uma grande prova de que temos uma sociedade generosa e solidária que se supera mesmo nos momentos mais difíceis como aquele que agora atravessamos. Lembre-se que apenas na zona do Algarve foram mobilizados 2.000 voluntários e angariadas 189 toneladas de produtos alimentares na última campanha de recolha. Bens que foram distribuídos sob a forma de refeições e cabazes a cerca de 16.000 pessoas com carências alimentares comprovadas e através de 75 Instituições de Solidariedade Social previamente selecionadas para o efeito e supervisionadas pelo BACF.

“Graças à sua ajuda há cada vez mais sorrisos” é o lema e a mensagem da campanha nacional deste ano, que traduz, de uma forma simples, o sentido mais puro deste apelo à solidariedade dos Portugueses. Para participar nesta campanha, basta aceitar um saco do Banco Alimentar e nele colocar bens alimentares, essencialmente não perecíveis, tais como leite, conservas, azeite, açúcar, farinha, bolachas, massas e óleo e entregá-lo a um dos voluntários presentes nas cadeias de supermercados aderentes à recolha ou, em alternativa, efectuar uma doação online através do sítio: http://www.alimenteestaideia.net

Outra forma de estar presente nesta campanha é ajudando na recolha das contribuições feitas nos supermercados. Para ser voluntário poderá contactar o Banco pelo endereço ba.algarve@bancoalimentar.pt; voluntariosba@gmail.com ou pelos telm. 916526884 ou telf. 289 872 426.

Sobre a Atividade do Banco Alimentar Contra Fome

A atividade dos Bancos Alimentares Contra a Fome prolonga-se ao longo de todo o ano. Para além das campanhas de recolha em supermercados, organizadas duas vezes por ano, os Bancos Alimentares Contra a Fome recebem diariamente excedentes alimentares doados pela indústria agro-alimentar, agricultores, cadeias de distribuição e operadores dos mercados abastecedores. São assim recuperados produtos alimentares que, de outro modo, teriam como destino provável a destruição. Estes excedentes são recolhidos localmente e a nível nacional no estrito respeito pelas normas de higiene e de segurança alimentar. Deste modo, para além de combaterem de forma eficaz as carências alimentares, os Bancos Alimentares Contra a Fome lutam contra uma lógica de desperdício e de consumismo, apanágio das sociedades atuais.

Para mais informações contactar

Sede: escritório.ba@gmail.com
Urb. Stº António do Alto Lote 72 C/V 8005-101
Tel. 289 872426

Relações Públicas: Susana Guerreiro/email rpbacfalg@gmail.com / telm. 919574921

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Invasão de Junot no Algarve



Mais uma obra indispensável em qualquer biblioteca, pelo menos no Algarve. Que seja do meu conhecimento não existe na chamada biblioteca da Casa dos Condes, em Alcoutim, o que segundo o meu ponto de vista é uma falha.

A edição é de 1941 e há muito que se encontrava esgotada.

Consegui encontrá-la para uma consulta rápida em finais da década de 70 do século passado, numa biblioteca de Faro. Ainda que a leitura tivesse sido rápida e só de algumas páginas, por absoluta falta de tempo, mesmo assim fiz uma pequena citação a pág. 365 do meu livro, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985.

A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular – 1808 – 1814) constituiu a tese de licenciatura de Alberto Iria em Ciências Histórico ou Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e foi editada pelo autor em Lisboa no ano de 1941 e segundo parece sem qualquer auxílio económico de qualquer entidade, já que não se alude a tal.

A edição que tive o gosto de adquirir é fac-similada da primeira edição, enriquecida com vários testemunhos sobre o autor, tendo uma tiragem de 500 exemplares e é da responsabilidade de Livro Aberto, Editores Livreiros Lda. 2700-193 – Amadora, 2004.

Adquiri-o na Livraria Letra Livre, Calçada do Combro 139, 1200-113-Lisboa.

O livro comporta 476 páginas de 17,5X24 e mais 70 de homenagem ao autor e que antecedem o trabalho.

Já o acabei de ler e agora fiquei com uma noção mais aproximada do que se passou no Algarve em tal período.

Encontrei mais umas tantas referências a Alcoutim, onde, o Juiz de Fora era partidário dos franceses.

Tive o prazer de conhecer e falar duas ou três vezes com o Dr. Alberto Iria que teve a amabilidade de me oferecer com dedicatória um dos seus trabalhos. Trocámos também alguma correspondência que guardo com todo o interesse. Era uma pessoa de grande simplicidade, tive ocasião de escrever sobre ele meia dúzia de palavras mo Jornal do Algarve quando faleceu e onde então eu colaborava.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Há 78 anos em Alcoutim !



Já se passaram 78 anos sobre a data em que esta fotografia foi tirada pois teve lugar em Agosto de 1933.

Quem conhece bem o local verifica que foi tirada na muralha do Castelo de Alcoutim, virada para Sanlúcar do Guadiana, apanhando como fundo aquela povoação do país vizinho.

Eu só vim a nascer cinco anos depois da foto ter sido tirada e desconheço o seu autor.

Confesso que só reconhecia a D. Clarisse Cunha. Por informação recebida, das três senhoras, a do meio é D. Berta Cunha e a que está ao seu lado a jovem Ricardina Temudo falecida na flor da vida.

O reguila do miúdo que se metia por todos os cantos, “segundo dizem as más línguas” é nem mais nem menos o decano dos nossos colaboradores, o poeta e prosador José Temudo, então com três ou quatro anos.

São fotografias como esta que ajudam a fazer a história ilustrada de Alcoutim.

A foto foi-me cedida pela minha Amiga alcouteneja Doutora Marina Themudo, a quem agradecemos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A matação do porco

Pequena nota
No nosso trabalho publicado há 26 anos sobre Alcoutim e o seu concelho incluímos na 3ª Parte – Notas Etnográficas e Folclóricas o tema “A “matação” do Porco que desenvolvemos nas páginas 307 a 309.

Em 1990 tínhamos preparada uma segunda edição e esse tema, naturalmente sofreu alguns ajustamentos. Ao ser lido agora para publicarmos no ALCOUTIM LIVRE verificámos que era necessário um novo ajustamento procurando manter o fundamental daquilo que então escrevemos. Estas coisas são mesmo assim, conforme o tempo vai passando vamos aclarando muitas situações e encontrando mais explicações para determinados procedimentos e adquirindo novos conhecimentos através de pesquisas e leituras adequadas ou novas ou que desconhecíamos.

JV



Trigo no celeiro, um palmo de hortejo e um porco na salgadeira, dizia-se que era condição suficiente para que um alcoutenejo se encontrasse “feliz” sem preocupações de maior.

Hoje a situação é naturalmente muito diferente - houve grandes modificações na vida. Como todos, este dito popular tem um sentido verdadeiro e está condicionado à vida exclusivamente agro-pastoril, que então pautava no concelho de Alcoutim.

O porco é um animal precioso, todas as partes do seu corpo, mesmo as entranhas, são comestíveis. Por outro lado, em salmoira, pelo fumo e com o auxílio da própria banha, conserva-se bem. Hoje, Alcoutim tem energia eléctrica em todo o concelho e nas últimas “matações” alguns destes processos foram substituídos. Deixaram de salgar para meter nas arcas congeladoras.

Criação fácil e rápida, com aproveitamento de resíduos de toda a espécie. Outrora, consumiam os excedentes agrícolas e o período especial de engorda era feito também com produtos criados pelo agricultor. Hoje, como se sabe, imperam as farinhas apropriadas. No campo, já pouco ou nada se colhe.

A carne de porco constituía uma pedra importante na alimentação do alcoutenense. Era assim que todos os que tinham uma vida virada para o campo, e não só estes, engordavam o seu porquito para matar.

No mês de Dezembro ou de Janeiro, por serem os mais frios do ano e isso evitar que as carnes se estragassem, depois de cevados, é a altura própria para o abate, a que o alcoutenejo chamava “MATAÇÃO” e não matança e que constituía um dia de festa.

Para o efeito, faziam-se adequados convites que englobavam familiares, compadres, vizinhos e pessoas a quem se deviam favores ou se pretendia demonstrar amizade.

Enquanto uns só lá iam para comer, outros eram “requisitados” fundamentalmente para prestarem a ajuda indispensável, vindo a pagar do mesmo modo.

No dia aprazado, logo pela manhã, os homens experientes iam buscar o suíno que agarravam e deitavam sobre uma banca ou um caixote bem seguro. Atadas as mandíbulas com uma corda, para o animal não morder, vinha o “matador” (1) que espetava a faca bem afiada com um golpe ágil e certeiro que atingia o coração. Da vítima jorrava o sangue apanhado num alguidar, tacho ou qualquer outra vasilha onde se tinha colocado sal e vinagre e que se ia mexendo para não coalhar. É tarefa destinada às mulheres.

Por perto havia uma pequena mesa onde estavam copos e uma garrafa de aguardente para os homens se servirem como “mata-bicho”.



Musgá-lo era a tarefa seguinte, isto é, queimá-lo com tojos apanhados nas redondezas e a que se lança com facilidade o fogo. Nos últimos tempos esta operação era feita com um maçarico.

Seguia-se o raspar do couro, trabalhosa operação feita com uma lata ou pedra, auxiliada por água bem quente oriunda das panelas, muitas vezes de zinco, que estavam ao “fogo”.

Procedia-se à extracção das unhas.

Em tempos antigos, o rabo era entregue aos moços que o comiam assado.

Tarefa para homem “especializado” era a abertura e desmancha do animal.



As tripas seguiam para o barranco mais próximo, que em tempo idos corriam bem, onde eram lavadas pelas mulheres. Viravam-nas com o auxílio de uma cana. Temperadas com rodelas de laranja para que tivessem melhor cheiro e paladar, iam servir para os enchidos.



Extraíam todas as vísceras a que se dava o destino adequado.

Uma balança de vara, tipo romano, era utilizada para determinar as arrobas e a que normalmente se seguiam alguns comentários relacionados com o peso.

Procedia-se à desmancha, carne magra para um lado, mantas de toucinho para o outro.

Os presuntos iam para a salgadeira, bem enterrados em sal grosso e sobre os quais se colocavam pedras suficientemente pesadas a fim de evitar que se estragassem. Meses depois, com a cura já feita, eram barrados com pimentão e pendurados.

Pelas duas ou três da tarde, chegava a hora da “fritada” ansiosamente esperada.

Nela entrava todo o tipo de carne, gorda ou magra, não esquecendo a cachola.

Temperava-se com alho pouco antes de estar concluída.



Depois deitava-se o sangue a que se tinha juntado vinagre e que se temperava agora é temperado com cominhos, louro e pimenta. Ficava assim preparado um outro tipo de comida a que chamam “moleja” e que é muito apreciada.

Havia quem deitasse algumas batatas na “fritada”.

Com a carne picada, faziam-se chouriços de carne, de sangue e belos “palaios” (paios).



Não faltava a “amassadura” de saboroso pão e o vinho “caseiro” regava o repasto contrabalançando o efeito da gordura, as gargantas sequiosas e os estômagos “agoniados”.

A “matação” do porco foi algo que começou a desaparecer mesmo antes das restrições impostas por lei.

Já serão bem poucos os porcos mortos anualmente no concelho. Primeiro, porque a vida agrícola está praticamente desapareci, segundo pelos que restam no concelho serem idosos e já não poderem desempenhar tais tarefas e terceiro os poucos novos existentes vão ao talho, compram e metem na arca.

NOTAS
(1) - Havia homens “especialistas” nesta arte que eram requisitados para o efeito, optando-se, obviamente pelos mais próximos.
(*) A reportagem fotográfica é de L.M.