quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Andebol em Alcoutim!



É verdade, andebol em Alcoutim e há 61 anos!

A nível de Grupo Desportivo de Alcoutim desde 1967 não me consta que tenha sido modalidade desportiva praticada e depois da criação da Escola C+S também não tenho conhecimento que isso tivesse acontecido.

Esta foto, que me foi cedida pelo meu colaborador e amigo Gaspar Santos, é datada com “Recordação do dia 13 de Setembro de 1950 e referente à equipa vencedora.

Julgo que foi tirada no Campo da Fonte Primeira junto à Ribeira da Cadavais, como parece indicar o canavial que se vê ao fundo.

Os jovens de então aproveitaram o dia da Feira de Alcoutim para confraternizarem e praticarem desporto.

Foi nestas alturas que a juventude se movimentou para tentar animar a Feira de Vila que já se encontrava em pleno declínio introduzindo a “festa”. A verdade é que a feira só existe no papel e que se extinguiu completamente. No concelho, quem quer ir à Feira vai ao S. Marcos e não sei até quando durará.

Foram os poucos estudantes da época que teriam aprendido as regras do jogo praticando-o em liceus ou colégios e que o ensinaram aos jovens locais. Os jogos eram disputados entre equipas formadas na ocasião, como se fazia com o futebol, ora escolho eu, ora encolhes tu, muda aos cinco e acaba aos dez!

Isto é uma sugestão minha que não deve andar muito distante da realidade.

Oe elementos estão todos identificados. De pé, da esquerda para a direita, Gaspar Santos, José Afonso, Fernando Dias (fal.), José Martinho e José Cavaco Peres. No primeiro plano e pela mesmo ordem, Mário Baptista, João Mestre (fal.) e Lázaro (fal.)

Mais um documento para a história de Alcoutim.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O gasómetro



Na minha meninice que não ocorreu no concelho de Alcoutim, lembro-me deste utilitário candeeiro ser utilizado à noite nas feiras da minha cidade por boleiras ou doceiras e pelas vendedeiras de pevides, tremoços, alfarrobas torradas, amendoins, rebuçados, nógado, “pilritos” de mel, etc. Nunca me esqueci do cheiro característico que exalavam.

Este rudimentar aparelho de iluminação que funcionava com acetileno pela acção da água sobre o carboneto de cálcio (carbite) era muito utilizado pelos mineiros.

O gás produzido era conduzido por um tubo ou mangueira que se encontrava na parte da frente do capacete do mineiro.

Em relação a Alcoutim, eu só sabia que este candeeiro se utilizava (ou utilizou) na pesca ao candeio e onde entrava a fisga.

Para poder completar o assunto tive que recorrer ao nosso amigo e colaborador Eng. Gaspar Santos, a quem pus algumas hipóteses, às quais respondeu com a lisura e eficiência que lhe são peculiares.

Nas festas de Alcoutim também as doceiras chegaram a utilizara tais gasómetros para exercer a sua actividade e lembra-se bem de nos primeiros anos um indivíduo dos montes do rio montar um barraco para vender uns copos, que era iluminado com candeeiros de acetileno.

Os poucos veículos de tracção animal,à noite, mostravam a sua presença precisamente por este sistema rudimentar de iluminação.

Este candeeiro veio a ser substituído pela ainda utilizada lanterna a petróleo que já referi neste espaço.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Republicanas quase Desconhecidas- Lançamento na Vila do Cadaval

[A Vila do Cadaval. Foto JV, 2011.12.17]

No passado sábado, dia 17, desloquei-me à Vila do Cadaval para assistir ao lançamento desta obra na excelente Biblioteca Municipal.

Isso aconteceu devido ao alerta lançado e convite formulado pela autora, Mestre em História, Fina d `Armada.

Apesar dos inconvenientes pessoais emergentes na altura, não podia deixar de assistir a tal evento e de conhecer pessoalmente a grande historiadora que é a Dra. Fina d `Armada.

Tanto ela como eu fomos dos primeiros a chegar e identificámo-nos imediatamente, acertámos em cheio.




[Dra. Sofia Quintino]

Depois das indispensáveis apresentações entre os presentes, realizou-se a cerimónia da plantação de um carvalho, após a qual Fina d `Armada, tendo a seu lado um sobrinho neto da cadavalense republicana, Dra. Sofia Quintino (1878-1964) das primeiras médicas do país, fez a explicação filosófico-religiosa com clareza e erudição do que representava a árvore.

[Plantado o carvalho e o mesmo depoios de plantado. Foto JV]
Usou igualmente da palavra o representante da família da republicana que se estava a homenagear. Ainda que não a tivesse conhecido, recebeu sobre ela várias informações de carácter familiar que divulgou e agradeceu ao mesmo tempo à Dra. Fina d `Armada circunstâncias que desconhecia completamente.

Foram convidados os presentes a colaborar na plantação com a colocação simbólica de um pouco de terra junto ao pé, o que também fiz.

[Fina d `Armada usando da palavra. Foto JV]

Seguidamente teve lugar o lançamento local do livro Republicanas quase Desconhecidas e que já tive o prazer de apresentar na minha rubrica Escaparate.

Uma singularidade que não passou despercebida e que não me lembro de encontrar em qualquer outra parte – a “Mesa” era constituída por quatro mulheres – A Vice-presidente da Câmara Municipal do Cadaval que naturalmente abriu a sessão, a representante da Editora Temas e Debates – Circulo dos Leitores, que falou a seguir, a apresentação do trabalho, coube à Dra. Tânia Camilo.

[A Vice-Presidente da Câmara abrindo a sessão. Foto JV]

Finalmente tive a oportunidade de ouvir a autora do trabalho que escalpelizou a matéria com o à vontade de quem a conhece minuciosamente e com a grande vantagem de utilizar termos muito acessíveis.

Dissecando o trabalho, notava-se o gosto com que o fazia, procurando transmitir uma importante mensagem.

Ouvida atentamente pela assistência, cujo número como é habitual em qualquer outra parte, pecava por não encher o auditório e lá se ouviu a expressão de “poucos mas bons” que se justifica plenamente.


[A Dra. Fina d`Armada explicando o seu trabalho. Foto JV]

Seguiu-se a sessão de autógrafos a que me associei, adquirindo um exemplar para oferecer a um amigo.

Segundo informação recebida, há disponibilidade para efectuar mais lançamentos, primordialmente nas terras de origem das “quase” desconhecidas que Fina d `Armada trouxe ao conhecimento público como grandes republicanas.

A minha ida ao Cadaval, além do prazer descrito, possibilitou-me voltar a um concelho onde exerci a minha profissão cerca de ano e meio, e igualmente minha mulher trabalhou dois anos, aí o meu filho fez a 4ª classe e iniciou o Ciclo Preparatório.

Cadaval é uma vila que ficou no meu coração e onde fui muito bem recebido.

Fiquei, juntamente com minha mulher, satisfeito por constatar o seu desenvolvimento, está hoje, pelo menos o triplo do que era.

Apesar de mais de trinta anos passados ainda me foi possível reconhecer duas pessoas.

Que o Cadaval continue a progredir são os nossos desejos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Lembranças... Saudades...




Poeta


José Temudo








AO COLEGA, AMIGO E CRIADOR DO ALCOUTIM LIVRE, AOS QUE NELE COLABORAM, ÀS RESPECTIVAS FAMÍLIAS, E A TODOS OS QUE TÊM A PACIÊNCIA DE ME LEREM, DESEJO UM NATAL FELIZ E UM ANO NOVO TÃO BOM QUANTO POSSÍVEL.

José Temudo

domingo, 18 de dezembro de 2011

Vicissitudes nas ligações fronteiriças Alcoutim / Sanlúcar

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA nº 88, DE AGOSTO DE 2007)

[Barca de passagem. Desenho de JV, 1993]

A ligação entre os povos é indispensável às suas vivências e ao seu progresso, mas situações políticas e de saúde, por exemplo, dão origem à rotura da ligação, motivando o encerramento temporário ou definitivo da fronteira.

Temos algumas indicações dessa situação que vêm do último quartel do século XIX.
Por comunicação de 3 de Julho de 1875, a autoridade sanitária de Sanlúcar informa que “aquela povoação vai fechar os portos com esta vila” cerca das doze horas do dia seguinte.

Felizmente, escreve o Administrador do concelho de Alcoutim, pelas seis da tarde do dia 5 já a fronteira estava aberta. (1)

Tratava-se certamente de um caso de peste, pretendendo assim evitar o contágio.

Em 1884 o Administrador do Concelho oficia ao Alcaide Constitucional de S. Lucar do Guadiana informando que desde a altura em que receba esta comunicação, ficam cortadas as comunicações e encerrados os portos dessa com esta nação no que toca aos limites deste concelho.

Apresenta como razão, o achar-se declarado sujo de cólera desde o dia 20 do corrente o porto de Huelva e suspeitos os demais portos desde Cádiz a Ayamonte, acrescentando que está cumprindo ordens superiores. (2)

O cordão sanitário que se organizou na margem do Guadiana e em relação ao território alcoutenejo foi levantado em 1 de Agosto seguinte. (3)
A fronteira veio a ser reaberta em 21 de Janeiro de 1885. (4)
Poucos meses depois, mais precisamente em 15 de Junho, o Administrador do Concelho informa o Alcaide de S. Lucar que ao pôr do sol desse dia ficam interrompidas as comunicações entre as duas povoações e isto para cumprimento de ordens superiores, como não podia deixar de ser. (5) Não apanhámos na documentação consultada a sua reabertura.

Passaram-se cerca de cinco anos para se verificar outro encerramento da fronteira, o que aconteceu em 1890 devido a ter-se desenvolvido em Espanha as epidemias de cólera e febre-amarela. Encerraram os portos às seis da tarde do dia 22 de Junho. (6) Entretanto a situação normalizou-se.

Em 1893, devido ao convénio assinado entre os dois países fica livre a ligação entre as duas povoações, deixando por isso de haver a barca de passagem que vem pelo menos do tempo do foral manuelino a Alcoutim, de 20 de Março de 1520, com capítulo próprio intitulado “BARQUA” que estipulava preços e condições.

O Administrador do Concelho responde ao Governador Civil nos seguintes termos:

Sobre o 1º e 2º ponto constante da mesma circular, tendo em vista as disposições contidas nos tratados e convénios ali citados, cumpre-me informar a V. Eª que não encontro conveniente ficar inteiramente livre a navegação do Rio Guadiana e sim para comodidade dos povos de Portugal e Hespanha, a sustentação de barcos de passagem, sendo este serviço explorado por municípios e ayuntamientos e no caso de abolição dos referidos barcos, sou de parecer que as Câmaras devem ser indemnizadas por quem de direito dever.
Relativamente ao 3º ponto declaro que continuando a existência dos barcos actuais, convém estipular que o rendimento público o haja em este e outro reino.


A verdade é que a barca de passagem para Sanlúcar, nos termos em que existia foi extinta, tendo sido o último arrematante da mesma, José Domingos Rodrigues no período de 1893/94, o que fez por 15$020 réis. (7)

O Administrador do concelho, em 1893 oficia ao Governador Civil nos seguintes remos: …parecendo-ne haver qualquer disposição na Lei que autoriza o nosso facultativo a exercer a sua clínica em Espanha, venho consultar V.Exª sobre o ofício que acabo de receber do Alcaide de S. Lucar do Guadiana e no caso afirmativo, rogo se digne esclarecer-me sobre o assunto para poder responder àquela autoridade.

Não encontrámos o ofício oriundo de Espanha nem a resposta do Governador Civil mas sempre ouvi dizer na pequena vila raiana que o médico e o padre de qualquer dos lados estavam autorizados a deslocar-se ao país vizinho.
Nunca ninguém me mostrou ou indicou a disposição legal. Penso que o hábito e a tradição teriam acabado por fazer lei. (8)

NOTAS
(1) Of, nº 30 de 6 de Julho de 1875, do Administrador do Concelho.
(2) Of. Nº 131 de 26 de Julho de 1884 do Administrador do Concelho ao Alcaide Constitucional de S. Lucar do Guadiana.
(3) Of. Nº 137 de 2 de Agosto de 1884 do Administrador do Concelho ao Chefe da Delegação de Faro.
(4) Of. Nº 14 de 21 de Janeiro de 1885, do Administrador do Concelho ao Alcaide Constitucional de S. Lucar.
(5) Of. Nº 54 daquela data.
(6) Of. Nº 126 de 22 de Junho de 1890 do Administrador do Concelho ao Alcaide Constitucional
(7) “Coisas Alcoutenejas – A Barca de Passagem”, José Varzeano, in Jornal do Algarve – Magazine, de 27 de Janeiro de 1994.
(8) Saúde e Assistência em Alcoutim no séc.XIX, José Varzeano, Edição da C.M.Alcoutim, 1993.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - XIX





Escreve

Daniel Teixeira





O NATAL EM ALCARIA ALTA

Nunca passei um Natal no Monte de Alcaria Alta ou noutro do Concelho. Uma das poucas memórias que não posso ter, mesmo. Não sei como era o Natal no Monte e quando lá regressava, nos meus tempos de criança, era já quase final do ano seguinte pelo que a haver conversas para pôr em dia essas seriam seguramente outras mais recentes.

Facto é que também nunca vi brinquedos nas mãos dos miúdos de lá. Acho que nem eu os tinha ou levava para lá...não fazia parte nem das possibilidades nem dos nossos interesses na altura. Muito sinceramente nem sequer me lembro de ver por lá uma miúda a brincar com bonecas, coisa que seria a mais possível.

Lá pelos meus 12/14 anos começou a virar-se a vocação do Menino Jesus do sector da doçaria ligeira para outros caminhos (Pai Natal é coisa que nunca conheci naquele tempo como referência). O Paulito (em Faro) recebeu num Natal um stick de hoquéi devidamente decorado com as cores do Sporting, para jogar aquilo a que chamávamos hóquei em campo com os nossos sticks feitos a martelo e com martelo.

Era um pau comprido para agarrar, por vezes com o topo limado ou simplesmente lixado ou nada e duas peças de madeira em baixo com a devida angulação (mais de 90º a roçar os 100/120 graus) pregadas, quanto mais forte melhor. Era o nosso auto brinquedo.

O stick «amaricado» do Paulito durou pouco tempo mesmo: não resistiu às investidas dos defesas ou dos atacantes. Ainda se tentou remendá-lo com duas ripas na fractura mas não aceitava prego e fita adesiva ainda não havia e acabaria sempre por não resultar: os embates eram fortes e foi verdadeiramente um erro de cálculo do Menino Jesus ter oferecido aquilo ao Paulito.

De qualquer forma a única glória que ele nos trouxe foi o facto de ter inicialmente contribuído para o aumento das assistências, ter aumentado o leque de «clubes» adversários porque em termos de jogo jogado era um verdadeiro desastre. Mas foi interessante vê-lo durante o pouco tempo que durou. A bola por norma era uma pedra tão redonda quanto possível sem achatamento obrigatório.


[Presépio Algarvio]

Piões compravam-se com alguma facilidade e berlindes tinham duas fontes de chegada: a compra pura e simples e as garrafas de «sofrutos» que havia na altura. A invenção da carica veio estragar-nos a vida, neste plano.

Mas no Monte nada disto contava nem nada disto existia: as nossas brincadeiras não tinham qualquer brinquedo e embora de uma forma geral o direito a ter um canivete tivesse lugar logo cedo os recortes que se faziam nos paus de esteva ou de loendro eram sobretudo auxiliares do pouco trabalho que fazíamos e na grande parte do tempo para ter as mãos entretidas. Portanto por aquilo que deduzo o Natal no Monte seria a ceia, algumas filhoses e empanadilhas e pouco mais.

Couve havia, até demais para o meu gosto, e embora fosse saborosa pecava pela repetição e tinha entrada em quase todos os pratos. Bacalhau era raridade. A abóbora e o frade, cozidos com casca em fatias tipo melão, depois de limpas algumas agruras e rugosidades eram companheiros do grão, do feijão seco, das batatas. Acho que foram os montanheiros os inventores indirectos do caldo knorr pois que era sempre colocado um bocado de courato ou osso com uma nesga de carne em cada panela. Mas comia-se à farta, mesmo, nem que fosse uma simples açorda com pão, azeite, coentros, alhos esmagados a «murro» com a testa do pão e ovos escalfados.

Fiz acima a resenha dos brinquedos ou auxiliares da brincadeira citadina para tentar mostrar uma coisa que parece desde logo evidente: sem meios ou com poucos meios nós na cidade tínhamos brinquedos e coisas para brincar: no Monte havia alguns meios mas não havia a ideia para a sua realização; não fazia parte do ambiente envolvente.

Ia-se ao pássaro com ratoeiras e aqui cabe dizer que a biodiversidade não deve ter ficado muito prejudicada com a nossa actividade uma vez que se apanhavam dois, três pássaros, por vezes seis, em dias de sorte para nós e de azar para a passarada. Ficávamos por princípio na eira do senhor Vilão, logo à entrada do Monte, no lado esquerdo de quem vem de Giões, com bastante palha ainda não armazenada e alguma semente por um lado e por outro, fora e dentro da eira propriamente dita.

Escondíamo-nos no casarão em frente e ficávamos deitados de barriga para baixo em silêncio espreitando pelas largas frestas da porta. Os pássaros eram todos pequenos, cotovias sobretudo e pardais e tirar-lhes as penas era o nosso trabalho dentro do casarão cada vez que um caía. Depois, comê-los, dada a sua pouca quantidade era quase um ritual: foguinho de esteva, pau com bico para virar e nem sal era preciso. Era verdadeiramente delicioso...

Caçar com os galgos, proibidíssimo fora da época de caça e dentro dela era também uma das nossas «brincadeiras»: por vezes apanhávamos (apanhavam os cães) um coelho, lebres raramente. Esses vinham para casa, para serem cozinhados pelas mães ou avós e havia um outro ritual nisso em casa dos lavradores. Comíamos a «nossa» caça depois dos ganhões cearem e éramos os únicos à mesa...em certo sentido acho que o objectivo implícito neste ritual era fazer com que cada um de nós tivesse presente que a nossa ceia era um produto do nosso trabalho, do nosso esforço e que isso nos fazia mais homens.

Natal, pois, não fez parte das minhas experiências campesinas nem me lembro de ser dada grande importância a esse facto nem sequer no plano religioso. Provavelmente a Igreja em Giões faria o seu festejo litúrgico mas a parte chamada de profana não existia simplesmente pelo que me lembro e neste caso posso dizer que me lembro de tudo o que não me lembro.

Ora e a ser correcta a minha memória (se o não fosse teria certamente uma ideia) viver sem ter Natal e sem ter prendas será possível. O que me leva a pensar na avalanche de «espírito natalício» que abunda actualmente nas cidades. Festa da família também não haveria, seguindo este princípio, mas de facto pouca falta faria porque a família estava sempre presente mesmo estando ausente.

Quase todas as pessoas que foram referência campestre para mim já faleceram...e talvez por isso, ou mais por isso, raramente vou a Alcaria Alta...numa das minhas deslocações de dois ou três dias neste segundo período (pós quase 30's) cruzei-me com a senhora Antonica que foi mãe de dois dos meus grandes amigos de lá.

Lavradora, estava na altura a lavar roupa junto ao poço de uma horta o que nunca a vi fazer antes porque tinha sempre gente para o fazer. Estranhou que eu não a fosse visitar a casa quando ia ao Monte «eu que tantas vezes lá fui e tanto tempo por lá ficava» ...com os seus filhos, não acrescentou ela mas acrescentei eu a mim mesmo interiormente.

Arranjei uma desculpa esfarrapada e a promessa de lá ir ainda antes de voltar à cidade. Nunca o fiz...manter memórias é por vezes um trabalho difícil que implica para mim também não destruir a imagem que se tem guardada...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Cozinha"

Apresento hoje um “prato” que nunca comi e que deve ter entrado em desuso mas nem por isso o deixarei de referir como “prato” típico dos alcoutenejos de então.


Já referi aqui os “jantares” e procurei caracterizá-los o melhor que sabia.


Irei fazer o mesmo em relação à “cozinha” tomando em consideração o que escrevi no meu trabalho A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», Edição da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007.


A “cozinha”, termo também usado no Alentejo como informa José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa, Vol. VI, página 404, Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983, é um prato quente que era utilizado principalmente à ceia quando os homens andavam a alqueivar a terra, pois era considerado um prato substancial constituído por feijão cozido, normalmente feijão careto (frade) com celgas ou alhos areios e temperados com azeite e excepcionalmente levava um pouco de chouriça preta.

Republicanas quase Desconhecidas



Com chancela Temas e Debates – Círculo dos Leitores, recebemos, no passado dia 20, este magnífico trabalho de investigação histórica de 403 páginas de 15X23,5 cm e convenientemente ilustrado.

Salta à vista o excelente trabalho gráfico que se apresenta sem exagero de ilustrações, de papel muito agradável, sem parangonas, mas com grande sentido de rigor e gosto técnico.

O trabalho é dividido em Quatro Partes:- Parte I – NOVOS ELEMENTOS SOBRE REPUBLICANAS; PARTE II – REPUBLICANAS NOVAS E ANTIGAS; - PARTE III. REPUBLICANAS REVELADAS e PARTE IV – CIDADES ENTRE CIDADÃOS

É um trabalho de folgo próprio de quem já deu ao País mais de uma dezena de obras individuais e de dezenas em co-autoria, além de mais de um milhar de artigos publicados em 28 periódicos.

Fina d`Armada é licenciada em História e Mestre em “Estudo sobre as mulheres” e foi equiparada a bolseira pelo Instituto Nacional de Investigação Científica (1977-1979).

Em 2005 recebeu o “Prémio Mulher Investigação Carolina Michaelis de Vasconcelos” com a sua obra Mulheres navegantes no tempo de Vasco da Gama.

Em 24 de Julho de 2010 foi a vez de a Câmara Municipal do concelho de Caminha condecorá-la com a Medalha de Mérito Dourada “por uma vida inteira dedicada às letras, às mulheres e à singularidade de fazer a diferença".

Este livro tem a particularidade de referir uma alcouteneja, Maria Arade ou Mª Eduarda Barjona de Freitas e são-lhe dedicadas 12 páginas que logo lemos ainda que a autora tivesse tido a amabilidade de no-las enviar muito antes da impressão do livro.

Só agora ficámos a conhecer devidamente esta alcouteneja, esta sim, nascida e baptizada em Alcoutim e de que nunca tínhamos ouvido falar em Alcoutim. Para nosso espanto encontrámo-la na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira quando procurávamos outros assuntos o que nos “obrigou” na altura a deslocar-nos ao Arquivo Distrital de Faro para consultar o seu assento de baptismo e confirmar aquilo que o assunto nos sugeria ser filha de um funcionário que por ali teria passado.

Fina d `Armada encontrou-nos na Net e assim foi possível prestar-lhe a nossa insignificante colaboração, dando alguns dados que possuíamos como duas fotos, ambas publicadas, uma da Igreja onde foi baptizada e outra com a placa toponímica numa artéria a que chamaram “rua”.

Possivelmente Maria Arade / Maria Eduarda nunca mais voltou a Alcoutim ainda que não tenhamos dados sobre o assunto mas na verdade é das únicas pessoas que constam da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e que consequentemente “põem Alcoutim no mapa”.Mas os espaços são efectivamente muito curtos e outros valores se “alevantam”.

Quis a autora, além das referências feitas no trabalho que muito lhe agradecemos, oferecer-nos um exemplar com comovente dedicatória.

Bem haja por tudo, FINA D`ARMADA.

Muitos anos de vida para dar a público mais trabalhos deste elevado nível.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Demografia na Freguesia de Vaqueiros no ano de 1860



Já abordámos dados desta natureza e referentes a esta freguesia mas em relação ao ano de 1871.

Ainda que em moldes semelhantes não irão ser um decalque absoluto.

Estes referem-se a onze anos antes daqueles e apresentam movimentos menores.

Nasceram e receberam o sacramento do baptismo nesta freguesia 33 indivíduos, sendo 16 do sexo masculino e 17 do feminino pelo que ocorreram mais seis do que faleceram, representando assim um aumento de 10%.

Quanto a óbitos, os 27 ocorridos foram distribuídos 7 pelo masculino e 20 pelo feminino.

Não tomando em consideração para cálculo da média de idade os indivíduos falecidos até ao 7 anos, a média no sexo masculino foi de 46,5 anos e no feminino de 48,17 o que dá a média geral de 47,33.

As pessoas mais idosas que morreram foram um homem de 82 anos, de nome Manuel Lourenço, no Monte da Corte (?), viúvo de Francisca Maria e filho de Manuel Fernandes e de Maria Gomes. Aconteceu no dia 11 de Novembro. A outra foi uma mulher da mesma idade e no monte das Alcarias. Chamava-se Maria Gomes, era viúva de Manuel Pereira, filha de Manuel Gomes e de Inês Martins e faleceu no dia 17 de Setembro.

Os meses mais mortíferos foram os de Março e Setembro, ambos com cinco casos. Em contrapartida foi em Janeiro, Abril e Maio quando o número de nascimentos foi maior (5).
No monte das Madeiras nasceu uma neta do antigo Presidente da Câmara da Alcoutim em 1839, António Gonçalves e filha de seu filho Francisco Gonçalves.

Salvo raras excepções, foi celebrante destes actos o Prior de Vaqueiros, José Maria Reis.

Pela primeira vez encontrámos a numeração de casa na freguesia e foram indicadas cerca de meia dúzia, tanto na aldeia como nos montes, contudo, na maioria dos assentos o número da casa ficava em branco, certamente por desconhecimento. Isso devia ter acabado, pois no ano de 1871 já não aparece essa referência nos termos lavrados.

Para avaliação a nível de localidades apresentamos um quadro demonstrativo.

Por não ter havido movimento não aparecem referidos os seguintes montes: Vale da Rosa, Fortim, Cabaços, Cerro, Alcaria, Casas, Galachos, Montinho da Várzea, Casa Nova, Galego e Bemposta.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Missa campal



Como já tínhamos informado os nossos visitantes / leitores, faltava publicar duas fotos para completar a “reportagem” feita que o alcoutenejo, José Madeira Serafim, teve a sensibilidade de preservar e a amabilidade de no-la ceder possibilitando deste modo o seu acesso a quem visita o ALCOUTIMLIVRE.

É aqui no cais novo da vila que tem lugar a Missa Campal, até porque a Igreja Matriz de “O Salvador do Mundo” estava desactivada devido ao seu mau estado, realizando-se a liturgia normal na então já pequena Igreja da Misericórdia.

Estamos no dia 23 de Fevereiro de 1947.

Como dados que nos chamaram a atenção, além da imagem peregrina, um relativo número de fiéis, a desaparecida guarita da Guarda-Fiscal, uma bandeira de qualquer associação religiosa existente e por detrás dela uma mulher extremamente alta de que presurmirmos o sexo só pelo lenço na cabeça e pela saia.

Desconhecendo que possuimos tal fotografia, o nosso colaborador, em várias áreas, Amílcar Felicio, descobriu e enviou-nos em cima da problicação, a mesma foto.

O nosso abraço de agradecimento.