sábado, 31 de dezembro de 2011

Alcoutim Livre entra de férias



É verdade, após três anos e quarenta e cinco dias, o BLOGUE ALCOUTIM LIVRE vai entrar num período de férias que pensamos serem merecidas.

As postagens feitas até hoje, umas mais curtas outras mais longas, só a título excepcional, são meras conversas e para a sua organização foram necessárias variadíssimas pesquisas em papel, on line e orais, nem sempre com os sucessos que desejávamos.

Percorreram-se muitas centenas de quilómetros em veículo próprio e até aproveitando o facto para mostrar a alguns alcoutenejos o ALCOUTIM PROFUNDO que de outra maneira não lhe seria fácil. Tiraram-se milhares de fotografias ainda que por vezes falte sempre a mais adequada.

Se é verdade que alguns dos temas estão esgotados, como acontece por exemplo com os montes do concelho, pois já escrevemos sobre todos eles ou os templos, outros há que têm muito que explorar.

O número de visitantes / leitores esteve sempre em ritmo ascendente, o que prova o manifesto interesse que tem demonstrado, como periodicamente temos feito notar através de depoimentos que nos foram chegando ao longo dos tempos.

Essa circunstância, actualmente, está a diminuir sobre este aspecto mas aparecem outros de índole diferente a que sempre respondemos procurando contudo satisfazer os pedidos que nos formulam, o que nem sempre é possível.

Recebemos recentemente do Brasil um pedido no sentido de descobrirmos num alfarrabista a existência de determinado livro. Fizemos as nossas tentativas que foram coroadas de êxito indicando à interessada onde se encontrava para o poder adquirir.

A única alusão negativa e que aqui foi publicada na íntegra, também chegou até porque fazia falta para separar as águas e é originária, como então referimos, do Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Alcoutim e que foi assinada por Ana Lúcia Gonçalves, jornalista segundo me informam. Tenho muitas dúvidas que tivesse sido ela a escrever o texto. É a velha estória das pressões dos “poderosos”, aqui e em qualquer parte do Mundo.



Necessitamos de pôr o local de trabalho com alguma ordem e iremos dedicar o tempo a fazê-lo.

Esperamos, contudo, voltar um dia.

Às centenas de visitantes que diariamente procuravam o ALCOUTIM LIVRE o nosso profundo agradecimento. Só com a sua ajuda foi possível continuar o trabalho que nos tem dado gosto realizar.

Aos amigos e colaboradores vai o nosso agradecimento pelo valioso contributo dado e que muito enriqueceu este trabalho. Continuem a organizar os seus textos.

Entrar de férias em 1 de Janeiro é marcante e a esta postagem corresponde precisamente o nº 1000.

Com as saudações do,

JOSÉ VARZEANO

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Castelo de Sanlúcar do Guadiana através dos tempos

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA,Nº 93, DE JANEIRO DE 2008, P. 19)

[O Castelo de Sanlúcar visto do caminho do Brejo. Foto JV, 2010]

D. Sancho II, o 4º rei de Portugal, depois de conquistar Mértola em 1238 e ter descido pelo vale do Guadiana, conquistando igualmente Aiamonte, (1238) fez entrega dos territórios conquistado, em 16 de Janeiro de 1239, à Ordem de Santiago, tendo criado, para defesa da zona, fortalezas nos pontos estratégicos de ambas as margens do rio.

Crêem alguns que foi o caso da fortaleza existente na colina que domina completamente Sanlúcar e o Guadiana. (1)

Com o rodar dos tempos, a fortaleza medieval entrou em completa ruína e foi abandonada por falta de condições.

Na Guerra da Independência de Portugal, o Conde Jerónimo Ró, Mestre de Campo General, responsável pela defesa da zona, constrói um Forte, que foi designado por de São Jerónimo, junto da Igreja paroquial, tendo sido para o efeito demolidas muitas casas. Com o desenrolar da guerra verificou que a fortificação era insuficiente para prestar uma oposição forte aos portugueses, pelo que decidiu construir um castelo que como não podia deixar de ser tinha por lugar a referida colina dominante, aproveitando os alicerces ainda existentes. Passa-se isto em 1642 (2) quando a luta estava mais acesa.

[Antigo brasão de Sanlúcar]

É tradição que quando o castelo se estava construindo, os portugueses realizaram um assalto provocando muitas vítimas. (3)

As obras foram custeadas pelos habitantes de Sanlúcar e que transportaram os materiais para a sua construção.

Tem planta irregular com quatro torres e uma porta virada ao norte. Está edificado a 137 metros de altura, é de linhas simples e característica do período do Renascimento. (4)

O castelo era utilizado pela população local e a que se estendia pelos lugares circunvizinhos, como refúgio, tanto para defesa da acção bélica dos portugueses, como no caso de inundações provocadas pelo rio Guadiana. (5)

O Conde Schomberg, Governador das Armas no Alentejo, dispôs-se a atacar este castelo onde recolheu toda a população, deixando o povoado deserto, o que fez com três mil infantes e mil e duzentos cavalos.

A artilharia pouca mossa causou às tropas portuguesas e o Governador da Praça mandou dizer que queria render-se o que foi aceite por Schomberg, deixando sair a guarnição a caminho de Aiamonte. O castelo foi ocupado no dia 29 de Maio de 1666, ficando a governá-lo António Tavares Pina que resistiu à tentativa de reconquista efectuada por cento e vinte infantes e cem cavalos vindos de Aiamonte. (6)

Voltou a desempenhar papel importante na Guerra da Sucessão de Espanha (1704/1713).(7)

Em meados do século XIX era considerado como tendo bons apetrechos de guerra, com um obus e dois canhões de calibre 46, tendo um destacamento de artilheiros e tropas de linha. (8)

[Pormenor do Castelo de São Marcos. Foto JV, 2010]

O monumento encontrava-se em estado de degradação, foi-lhe construída contudo uma estrada de acesso.

São Marcos deu o nome ao castelo que tem na sua frente, em Portugal, uma ribeira que desagua junto a Alcoutim que tem o mesmo nome. Haverá alguma relação entre os dois factos?

Visitámos o castelo a primeira vez que fomos a Sanlúcar, isto em Maio de 1967 e nunca mais lá voltámos!

Além da visita apressada, aproveitámos para fazer uma fotografia sobre Alcoutim que ainda hoje possuímos.

Consta que está a ser objecto de escavações arqueológicas que certamente irão esclarecer algumas situações.


NOTAS

(1) História de Sanlúcar do Guadiana (dactilografado)
(2)”Sanlúcar de Guadiana – uma terra com 700 anos”, in Jornal do Algarve de 7 de Setembro de 2000.
(3) Este dado tradicional foi-nos transmitido cerca de 1971 por um jovem oficial que comandava a guarda civil local, de que não posso precisar o nome, que era de origem de famílias portuguesas da zona de Castelo Branco, como na altura nos referiu.
(4) Guia Bilingue – Alcoutim / Sanlúcar, Turismo, História e Cultura Raiana, Edição ATAS, 2006, pág. 61.
(5) Huelva en el sic.XV – Tierra de Señores – II Gibraleon – Tierras de Realengo – Poblaciones com castillo – 6 – Sanlúcar de Guadiana.
(6) História do Portugal Restaurado, Conde da Ericeira, Vol. VI.
(7) Ayamonte Geografia e Historia, Maria Luísa Díaz Santos, 1990.
(8) Diccionario Geográfico-Estadistico-Historico de España y sus posesiones de ultramar, Pascual Madoz, Madrid, 1845-1850.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Caracóis

[Retirado com a devida vénia de kristininhanacozinha.blogspot.com]

Estes gastrópodes terrestres, univalves de concha em forma aspiralada, respirando por pulmões, distribuem-se por todo o país.

São animais hermafroditas, cada um possui os dois sexos mas precisam de um parceiro para se reproduzirem.

Os caracóis não têm audição e têm o tacto e o olfacto muito desenvolvidos.

Enquanto o tacto está mais desenvolvido nas antenas menores, nas maiores situam-se os olhos com visão deficiente.

São herbívoros, alimentando-se de diversos tipos de plantas. Existem, contudo, algumas espécies, poucas, que se alimentam de minhocas ou de outros caracóis.

O seu habitat preferido é um solo húmido mas não encharcado, escondem-se durante o dia e com a humidade da noite saem para desenvolver a sua actividade.

Reproduzem-se quatro vezes por ano e a gestação dura cerca de 16 dias, a postura é feita a cerca de 8 cm de profundidade em lugar húmido cavando o local apropriado com a cabeça. O número de ovos depende das espécies e poderá ir de 100 a 300.

Existem muitas espécies de caracóis e de tamanhos variados.

Depois desta pequena introdução iremos referir o que nos interessa no aspecto gastronómico, visto ser esse facto que nos moveu.

O povo costuma dizer que o caracol é o marisco do homem do interior por não ter o mar próximo.

Na Europa consta-nos que são os portugueses e franceses os seus maiores apreciadores, mas em Portugal esse facto não era uniforme em todo o país, já que na Beira ninguém concebia comer-se tal produto. Digo isto porque em 1960 fiz lá uma “caracolada” e só consegui que uma pessoa me acompanhasse.

Hoje na Internet encontramos as mais variadas receitas, os caracóis dão para tudo. Cada qual vai acrescentando-lhe mais qualquer coisa, para uns, beneficiando, para outros degradando.

Ribatejanos, alentejanos e algarvios são os portugueses mais apreciadores deste molusco.

Iremos referir aqui por alto a receita de Mestre Carlos um algarvio do litoral que se fixou em Alcoutim.

Os caracóis depois de convenientemente lavados em várias águas eram cozidos com alhos esmagados com a pele, batatas miúdas com a pele, piripiri, sal e orégãos que não podiam faltar. Utilizavam-se de preferência os troncos.

Tão simples como isto.

Hoje, possivelmente, ninguém os faz desta maneira, metem-lhe caldos compactos disto e daquilo ou outras coisas, mas não foi assim que os comemos em Alcoutim.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O 2012


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Andebol em Alcoutim!



É verdade, andebol em Alcoutim e há 61 anos!

A nível de Grupo Desportivo de Alcoutim desde 1967 não me consta que tenha sido modalidade desportiva praticada e depois da criação da Escola C+S também não tenho conhecimento que isso tivesse acontecido.

Esta foto, que me foi cedida pelo meu colaborador e amigo Gaspar Santos, é datada com “Recordação do dia 13 de Setembro de 1950 e referente à equipa vencedora.

Julgo que foi tirada no Campo da Fonte Primeira junto à Ribeira da Cadavais, como parece indicar o canavial que se vê ao fundo.

Os jovens de então aproveitaram o dia da Feira de Alcoutim para confraternizarem e praticarem desporto.

Foi nestas alturas que a juventude se movimentou para tentar animar a Feira de Vila que já se encontrava em pleno declínio introduzindo a “festa”. A verdade é que a feira só existe no papel e que se extinguiu completamente. No concelho, quem quer ir à Feira vai ao S. Marcos e não sei até quando durará.

Foram os poucos estudantes da época que teriam aprendido as regras do jogo praticando-o em liceus ou colégios e que o ensinaram aos jovens locais. Os jogos eram disputados entre equipas formadas na ocasião, como se fazia com o futebol, ora escolho eu, ora encolhes tu, muda aos cinco e acaba aos dez!

Isto é uma sugestão minha que não deve andar muito distante da realidade.

Oe elementos estão todos identificados. De pé, da esquerda para a direita, Gaspar Santos, José Afonso, Fernando Dias (fal.), José Martinho e José Cavaco Peres. No primeiro plano e pela mesmo ordem, Mário Baptista, João Mestre (fal.) e Lázaro (fal.)

Mais um documento para a história de Alcoutim.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O gasómetro



Na minha meninice que não ocorreu no concelho de Alcoutim, lembro-me deste utilitário candeeiro ser utilizado à noite nas feiras da minha cidade por boleiras ou doceiras e pelas vendedeiras de pevides, tremoços, alfarrobas torradas, amendoins, rebuçados, nógado, “pilritos” de mel, etc. Nunca me esqueci do cheiro característico que exalavam.

Este rudimentar aparelho de iluminação que funcionava com acetileno pela acção da água sobre o carboneto de cálcio (carbite) era muito utilizado pelos mineiros.

O gás produzido era conduzido por um tubo ou mangueira que se encontrava na parte da frente do capacete do mineiro.

Em relação a Alcoutim, eu só sabia que este candeeiro se utilizava (ou utilizou) na pesca ao candeio e onde entrava a fisga.

Para poder completar o assunto tive que recorrer ao nosso amigo e colaborador Eng. Gaspar Santos, a quem pus algumas hipóteses, às quais respondeu com a lisura e eficiência que lhe são peculiares.

Nas festas de Alcoutim também as doceiras chegaram a utilizara tais gasómetros para exercer a sua actividade e lembra-se bem de nos primeiros anos um indivíduo dos montes do rio montar um barraco para vender uns copos, que era iluminado com candeeiros de acetileno.

Os poucos veículos de tracção animal,à noite, mostravam a sua presença precisamente por este sistema rudimentar de iluminação.

Este candeeiro veio a ser substituído pela ainda utilizada lanterna a petróleo que já referi neste espaço.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Republicanas quase Desconhecidas- Lançamento na Vila do Cadaval

[A Vila do Cadaval. Foto JV, 2011.12.17]

No passado sábado, dia 17, desloquei-me à Vila do Cadaval para assistir ao lançamento desta obra na excelente Biblioteca Municipal.

Isso aconteceu devido ao alerta lançado e convite formulado pela autora, Mestre em História, Fina d `Armada.

Apesar dos inconvenientes pessoais emergentes na altura, não podia deixar de assistir a tal evento e de conhecer pessoalmente a grande historiadora que é a Dra. Fina d `Armada.

Tanto ela como eu fomos dos primeiros a chegar e identificámo-nos imediatamente, acertámos em cheio.




[Dra. Sofia Quintino]

Depois das indispensáveis apresentações entre os presentes, realizou-se a cerimónia da plantação de um carvalho, após a qual Fina d `Armada, tendo a seu lado um sobrinho neto da cadavalense republicana, Dra. Sofia Quintino (1878-1964) das primeiras médicas do país, fez a explicação filosófico-religiosa com clareza e erudição do que representava a árvore.

[Plantado o carvalho e o mesmo depoios de plantado. Foto JV]
Usou igualmente da palavra o representante da família da republicana que se estava a homenagear. Ainda que não a tivesse conhecido, recebeu sobre ela várias informações de carácter familiar que divulgou e agradeceu ao mesmo tempo à Dra. Fina d `Armada circunstâncias que desconhecia completamente.

Foram convidados os presentes a colaborar na plantação com a colocação simbólica de um pouco de terra junto ao pé, o que também fiz.

[Fina d `Armada usando da palavra. Foto JV]

Seguidamente teve lugar o lançamento local do livro Republicanas quase Desconhecidas e que já tive o prazer de apresentar na minha rubrica Escaparate.

Uma singularidade que não passou despercebida e que não me lembro de encontrar em qualquer outra parte – a “Mesa” era constituída por quatro mulheres – A Vice-presidente da Câmara Municipal do Cadaval que naturalmente abriu a sessão, a representante da Editora Temas e Debates – Circulo dos Leitores, que falou a seguir, a apresentação do trabalho, coube à Dra. Tânia Camilo.

[A Vice-Presidente da Câmara abrindo a sessão. Foto JV]

Finalmente tive a oportunidade de ouvir a autora do trabalho que escalpelizou a matéria com o à vontade de quem a conhece minuciosamente e com a grande vantagem de utilizar termos muito acessíveis.

Dissecando o trabalho, notava-se o gosto com que o fazia, procurando transmitir uma importante mensagem.

Ouvida atentamente pela assistência, cujo número como é habitual em qualquer outra parte, pecava por não encher o auditório e lá se ouviu a expressão de “poucos mas bons” que se justifica plenamente.


[A Dra. Fina d`Armada explicando o seu trabalho. Foto JV]

Seguiu-se a sessão de autógrafos a que me associei, adquirindo um exemplar para oferecer a um amigo.

Segundo informação recebida, há disponibilidade para efectuar mais lançamentos, primordialmente nas terras de origem das “quase” desconhecidas que Fina d `Armada trouxe ao conhecimento público como grandes republicanas.

A minha ida ao Cadaval, além do prazer descrito, possibilitou-me voltar a um concelho onde exerci a minha profissão cerca de ano e meio, e igualmente minha mulher trabalhou dois anos, aí o meu filho fez a 4ª classe e iniciou o Ciclo Preparatório.

Cadaval é uma vila que ficou no meu coração e onde fui muito bem recebido.

Fiquei, juntamente com minha mulher, satisfeito por constatar o seu desenvolvimento, está hoje, pelo menos o triplo do que era.

Apesar de mais de trinta anos passados ainda me foi possível reconhecer duas pessoas.

Que o Cadaval continue a progredir são os nossos desejos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Lembranças... Saudades...




Poeta


José Temudo








AO COLEGA, AMIGO E CRIADOR DO ALCOUTIM LIVRE, AOS QUE NELE COLABORAM, ÀS RESPECTIVAS FAMÍLIAS, E A TODOS OS QUE TÊM A PACIÊNCIA DE ME LEREM, DESEJO UM NATAL FELIZ E UM ANO NOVO TÃO BOM QUANTO POSSÍVEL.

José Temudo

domingo, 18 de dezembro de 2011

Vicissitudes nas ligações fronteiriças Alcoutim / Sanlúcar

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA nº 88, DE AGOSTO DE 2007)

[Barca de passagem. Desenho de JV, 1993]

A ligação entre os povos é indispensável às suas vivências e ao seu progresso, mas situações políticas e de saúde, por exemplo, dão origem à rotura da ligação, motivando o encerramento temporário ou definitivo da fronteira.

Temos algumas indicações dessa situação que vêm do último quartel do século XIX.
Por comunicação de 3 de Julho de 1875, a autoridade sanitária de Sanlúcar informa que “aquela povoação vai fechar os portos com esta vila” cerca das doze horas do dia seguinte.

Felizmente, escreve o Administrador do concelho de Alcoutim, pelas seis da tarde do dia 5 já a fronteira estava aberta. (1)

Tratava-se certamente de um caso de peste, pretendendo assim evitar o contágio.

Em 1884 o Administrador do Concelho oficia ao Alcaide Constitucional de S. Lucar do Guadiana informando que desde a altura em que receba esta comunicação, ficam cortadas as comunicações e encerrados os portos dessa com esta nação no que toca aos limites deste concelho.

Apresenta como razão, o achar-se declarado sujo de cólera desde o dia 20 do corrente o porto de Huelva e suspeitos os demais portos desde Cádiz a Ayamonte, acrescentando que está cumprindo ordens superiores. (2)

O cordão sanitário que se organizou na margem do Guadiana e em relação ao território alcoutenejo foi levantado em 1 de Agosto seguinte. (3)
A fronteira veio a ser reaberta em 21 de Janeiro de 1885. (4)
Poucos meses depois, mais precisamente em 15 de Junho, o Administrador do Concelho informa o Alcaide de S. Lucar que ao pôr do sol desse dia ficam interrompidas as comunicações entre as duas povoações e isto para cumprimento de ordens superiores, como não podia deixar de ser. (5) Não apanhámos na documentação consultada a sua reabertura.

Passaram-se cerca de cinco anos para se verificar outro encerramento da fronteira, o que aconteceu em 1890 devido a ter-se desenvolvido em Espanha as epidemias de cólera e febre-amarela. Encerraram os portos às seis da tarde do dia 22 de Junho. (6) Entretanto a situação normalizou-se.

Em 1893, devido ao convénio assinado entre os dois países fica livre a ligação entre as duas povoações, deixando por isso de haver a barca de passagem que vem pelo menos do tempo do foral manuelino a Alcoutim, de 20 de Março de 1520, com capítulo próprio intitulado “BARQUA” que estipulava preços e condições.

O Administrador do Concelho responde ao Governador Civil nos seguintes termos:

Sobre o 1º e 2º ponto constante da mesma circular, tendo em vista as disposições contidas nos tratados e convénios ali citados, cumpre-me informar a V. Eª que não encontro conveniente ficar inteiramente livre a navegação do Rio Guadiana e sim para comodidade dos povos de Portugal e Hespanha, a sustentação de barcos de passagem, sendo este serviço explorado por municípios e ayuntamientos e no caso de abolição dos referidos barcos, sou de parecer que as Câmaras devem ser indemnizadas por quem de direito dever.
Relativamente ao 3º ponto declaro que continuando a existência dos barcos actuais, convém estipular que o rendimento público o haja em este e outro reino.


A verdade é que a barca de passagem para Sanlúcar, nos termos em que existia foi extinta, tendo sido o último arrematante da mesma, José Domingos Rodrigues no período de 1893/94, o que fez por 15$020 réis. (7)

O Administrador do concelho, em 1893 oficia ao Governador Civil nos seguintes remos: …parecendo-ne haver qualquer disposição na Lei que autoriza o nosso facultativo a exercer a sua clínica em Espanha, venho consultar V.Exª sobre o ofício que acabo de receber do Alcaide de S. Lucar do Guadiana e no caso afirmativo, rogo se digne esclarecer-me sobre o assunto para poder responder àquela autoridade.

Não encontrámos o ofício oriundo de Espanha nem a resposta do Governador Civil mas sempre ouvi dizer na pequena vila raiana que o médico e o padre de qualquer dos lados estavam autorizados a deslocar-se ao país vizinho.
Nunca ninguém me mostrou ou indicou a disposição legal. Penso que o hábito e a tradição teriam acabado por fazer lei. (8)

NOTAS
(1) Of, nº 30 de 6 de Julho de 1875, do Administrador do Concelho.
(2) Of. Nº 131 de 26 de Julho de 1884 do Administrador do Concelho ao Alcaide Constitucional de S. Lucar do Guadiana.
(3) Of. Nº 137 de 2 de Agosto de 1884 do Administrador do Concelho ao Chefe da Delegação de Faro.
(4) Of. Nº 14 de 21 de Janeiro de 1885, do Administrador do Concelho ao Alcaide Constitucional de S. Lucar.
(5) Of. Nº 54 daquela data.
(6) Of. Nº 126 de 22 de Junho de 1890 do Administrador do Concelho ao Alcaide Constitucional
(7) “Coisas Alcoutenejas – A Barca de Passagem”, José Varzeano, in Jornal do Algarve – Magazine, de 27 de Janeiro de 1994.
(8) Saúde e Assistência em Alcoutim no séc.XIX, José Varzeano, Edição da C.M.Alcoutim, 1993.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - XIX





Escreve

Daniel Teixeira





O NATAL EM ALCARIA ALTA

Nunca passei um Natal no Monte de Alcaria Alta ou noutro do Concelho. Uma das poucas memórias que não posso ter, mesmo. Não sei como era o Natal no Monte e quando lá regressava, nos meus tempos de criança, era já quase final do ano seguinte pelo que a haver conversas para pôr em dia essas seriam seguramente outras mais recentes.

Facto é que também nunca vi brinquedos nas mãos dos miúdos de lá. Acho que nem eu os tinha ou levava para lá...não fazia parte nem das possibilidades nem dos nossos interesses na altura. Muito sinceramente nem sequer me lembro de ver por lá uma miúda a brincar com bonecas, coisa que seria a mais possível.

Lá pelos meus 12/14 anos começou a virar-se a vocação do Menino Jesus do sector da doçaria ligeira para outros caminhos (Pai Natal é coisa que nunca conheci naquele tempo como referência). O Paulito (em Faro) recebeu num Natal um stick de hoquéi devidamente decorado com as cores do Sporting, para jogar aquilo a que chamávamos hóquei em campo com os nossos sticks feitos a martelo e com martelo.

Era um pau comprido para agarrar, por vezes com o topo limado ou simplesmente lixado ou nada e duas peças de madeira em baixo com a devida angulação (mais de 90º a roçar os 100/120 graus) pregadas, quanto mais forte melhor. Era o nosso auto brinquedo.

O stick «amaricado» do Paulito durou pouco tempo mesmo: não resistiu às investidas dos defesas ou dos atacantes. Ainda se tentou remendá-lo com duas ripas na fractura mas não aceitava prego e fita adesiva ainda não havia e acabaria sempre por não resultar: os embates eram fortes e foi verdadeiramente um erro de cálculo do Menino Jesus ter oferecido aquilo ao Paulito.

De qualquer forma a única glória que ele nos trouxe foi o facto de ter inicialmente contribuído para o aumento das assistências, ter aumentado o leque de «clubes» adversários porque em termos de jogo jogado era um verdadeiro desastre. Mas foi interessante vê-lo durante o pouco tempo que durou. A bola por norma era uma pedra tão redonda quanto possível sem achatamento obrigatório.


[Presépio Algarvio]

Piões compravam-se com alguma facilidade e berlindes tinham duas fontes de chegada: a compra pura e simples e as garrafas de «sofrutos» que havia na altura. A invenção da carica veio estragar-nos a vida, neste plano.

Mas no Monte nada disto contava nem nada disto existia: as nossas brincadeiras não tinham qualquer brinquedo e embora de uma forma geral o direito a ter um canivete tivesse lugar logo cedo os recortes que se faziam nos paus de esteva ou de loendro eram sobretudo auxiliares do pouco trabalho que fazíamos e na grande parte do tempo para ter as mãos entretidas. Portanto por aquilo que deduzo o Natal no Monte seria a ceia, algumas filhoses e empanadilhas e pouco mais.

Couve havia, até demais para o meu gosto, e embora fosse saborosa pecava pela repetição e tinha entrada em quase todos os pratos. Bacalhau era raridade. A abóbora e o frade, cozidos com casca em fatias tipo melão, depois de limpas algumas agruras e rugosidades eram companheiros do grão, do feijão seco, das batatas. Acho que foram os montanheiros os inventores indirectos do caldo knorr pois que era sempre colocado um bocado de courato ou osso com uma nesga de carne em cada panela. Mas comia-se à farta, mesmo, nem que fosse uma simples açorda com pão, azeite, coentros, alhos esmagados a «murro» com a testa do pão e ovos escalfados.

Fiz acima a resenha dos brinquedos ou auxiliares da brincadeira citadina para tentar mostrar uma coisa que parece desde logo evidente: sem meios ou com poucos meios nós na cidade tínhamos brinquedos e coisas para brincar: no Monte havia alguns meios mas não havia a ideia para a sua realização; não fazia parte do ambiente envolvente.

Ia-se ao pássaro com ratoeiras e aqui cabe dizer que a biodiversidade não deve ter ficado muito prejudicada com a nossa actividade uma vez que se apanhavam dois, três pássaros, por vezes seis, em dias de sorte para nós e de azar para a passarada. Ficávamos por princípio na eira do senhor Vilão, logo à entrada do Monte, no lado esquerdo de quem vem de Giões, com bastante palha ainda não armazenada e alguma semente por um lado e por outro, fora e dentro da eira propriamente dita.

Escondíamo-nos no casarão em frente e ficávamos deitados de barriga para baixo em silêncio espreitando pelas largas frestas da porta. Os pássaros eram todos pequenos, cotovias sobretudo e pardais e tirar-lhes as penas era o nosso trabalho dentro do casarão cada vez que um caía. Depois, comê-los, dada a sua pouca quantidade era quase um ritual: foguinho de esteva, pau com bico para virar e nem sal era preciso. Era verdadeiramente delicioso...

Caçar com os galgos, proibidíssimo fora da época de caça e dentro dela era também uma das nossas «brincadeiras»: por vezes apanhávamos (apanhavam os cães) um coelho, lebres raramente. Esses vinham para casa, para serem cozinhados pelas mães ou avós e havia um outro ritual nisso em casa dos lavradores. Comíamos a «nossa» caça depois dos ganhões cearem e éramos os únicos à mesa...em certo sentido acho que o objectivo implícito neste ritual era fazer com que cada um de nós tivesse presente que a nossa ceia era um produto do nosso trabalho, do nosso esforço e que isso nos fazia mais homens.

Natal, pois, não fez parte das minhas experiências campesinas nem me lembro de ser dada grande importância a esse facto nem sequer no plano religioso. Provavelmente a Igreja em Giões faria o seu festejo litúrgico mas a parte chamada de profana não existia simplesmente pelo que me lembro e neste caso posso dizer que me lembro de tudo o que não me lembro.

Ora e a ser correcta a minha memória (se o não fosse teria certamente uma ideia) viver sem ter Natal e sem ter prendas será possível. O que me leva a pensar na avalanche de «espírito natalício» que abunda actualmente nas cidades. Festa da família também não haveria, seguindo este princípio, mas de facto pouca falta faria porque a família estava sempre presente mesmo estando ausente.

Quase todas as pessoas que foram referência campestre para mim já faleceram...e talvez por isso, ou mais por isso, raramente vou a Alcaria Alta...numa das minhas deslocações de dois ou três dias neste segundo período (pós quase 30's) cruzei-me com a senhora Antonica que foi mãe de dois dos meus grandes amigos de lá.

Lavradora, estava na altura a lavar roupa junto ao poço de uma horta o que nunca a vi fazer antes porque tinha sempre gente para o fazer. Estranhou que eu não a fosse visitar a casa quando ia ao Monte «eu que tantas vezes lá fui e tanto tempo por lá ficava» ...com os seus filhos, não acrescentou ela mas acrescentei eu a mim mesmo interiormente.

Arranjei uma desculpa esfarrapada e a promessa de lá ir ainda antes de voltar à cidade. Nunca o fiz...manter memórias é por vezes um trabalho difícil que implica para mim também não destruir a imagem que se tem guardada...