domingo, 5 de fevereiro de 2012

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - XX




Escreve


Daniel Teixeira



O RELEVO DAS PESSOAS EM ALCARIA ALTA



Este tema pelo seu título pode prestar-se a alguma consideração prévia menos apropriada mas no fundo o que eu pretendo é descrever aquelas pessoas que conheci e que, por uma razão ou outra, por vezes não muito, se fizeram realçar num Monte onde de uma forma geral os níveis de sociabilidade eram parelhos.

Ser rico, e a riqueza é bem relativa aqui, ou ser pobre, e a pobreza é também bem relativa aqui, não tinha uma divisão por estratos acentuada: as pessoas respeitavam-se entre si na sua aparente riqueza ou na sua aparente pobreza e mesmo os então serviçais que ainda conheci eram considerados de uma forma geral como família e protegidos na sua medida quando eram «poucochinhos» (quer dizer eram excessivamente ingénuos ao ponto de aflorarem a oligofrenia moderada).

As excepções, quer dizer, os destaques da normalidade, serão assim vistas em dois planos: o destacado é aquele que da lei da morte se liberta nem sempre por obras valorosas e algumas vezes destaca-se precisamente por não ter feito de facto obra, naquele sentido construtivo e produtivo a que a sociedade moderna nos habituou.

Temos uma colaboradora nossa, Arlete Deretti Fernandes, que é de Florianópolis, Estado de Santa Catarina, Brasil que ainda recentemente apresentou uma história de mendigo vagabundo bastante considerado pelas populações residentes nos sítios por onde parava cujo epitáfio verbal terá sido dito da seguinte forma: «Fulano, faleceu sem nada ter feito nem de bem nem de mal ao longo da vida.» Convenhamos que é difícil conseguir este equilíbrio comportamental ao longo de uma vida e ser notado, precisamente por não se ter feito notar.

Em Alcaria Alta havia muitas pessoas que numa outra medida que não a da vagabundagem entrariam dentro desta definição: nunca fizeram nada de mal e o bem que fizeram foi terem vivido na sua medida. Em certo sentido passaram pela vida mais do que a vida passou por elas. Sem menosprezo para ninguém, é claro, governaram a sua vida sem se fazerem notar. Plantaram aquilo que colheram e mesmo que episodicamente precisassem de ajuda dos seus vizinhos nomeadamente em ração para os animais isso era tomado como absolutamente normal na medida em que mais tarde ou mais cedo o vizinho ajudante acabaria por necessitar de uma ajuda também.

Ora um escritor de época relataria o que escrevo como sendo um bucolismo onde só falta o cantar dos passarinhos e o marulhar das fontes e riachos. Não é bem assim: embora sempre os citadinos tenham achado estranho que os serrenhos não trabalhassem à hora do calor (desde as 11 horas às 3/4 da tarde sensivelmente) nunca terão pensado provavelmente em perguntar qual o resto do horário de trabalho. A manhã era de 4/5 horas e a tarde prolongava-se até ao anoitecer (9 -10 horas no verão).

Pois bem, esta relativa pobreza do pouco comum dava um realce maior ao incomum: é tudo uma questão do diferencial existente nas plataformas de actuação e do acesso a elas. Por outro lado, e no prolongamento deste princípio, poderemos também ver a inversa, ou seja, havendo uma plataforma baixa comum muito do que poderia ter sido mais elevado no incomum pode ter sido absorvido precisamente pela ausência de resposta à altura pelo comum. Acho que é razoável pensar-se assim...

Já aqui falei do Chico Artur e da sua durante anos isolada produção de porcos brancos e do alegado cruzamento entre porcos e javalis (que continuo a considerar barrete). Não devo ter falado ainda do Ti Zé Pereira, um competente organizador de sistemas de rega por alcatruzes, frustrado pela escassez de profundidade da água no poço. Tinha uma instalação completa numa horta, com corredores de água em telha invertida, um alcatruz de manivela, terreno bem cuidado e bastamente plantado, mas não tinha água que bastasse para utilização do sistema. Todos os anos, pelo menos durante 3/4 anos ouvíamos os estouros da dinamite numa de «ou vai ou racha».

O João Baltazar é, em certo sentido, um caso com algumas semelhanças neste plano da falta de resposta neste caso não da natureza mas da «sociedade comum». Era um engenhocas, com se costuma dizer: criou a primeira e única destilaria em Alcaria Alta para produção de aguardente de figo mas teve de fechar a «loja» por falta de clientela. O pessoal bem ia ali assistir ao processo de destilação, fazer a prova, dar uns dedos de conversa, mas comprar deve ter sido caso esporádico: deve dizer-se que o álcool não fazia parte dos hábitos de consumo local nem a aguardente de figo do consumo geral, acrescente-se: a aguardente de figo ainda hoje (30 anos depois pelo menos) está longe de se implantar no mercado.

O vinho caseiro, por mim mais conhecido como sendo sumo de uva engarrafado com vestígios de fermentação (quando a garrafa começava a querer fazer saltar a rolha estava bom e era vinho) era de uso por quem produzia, de castas claramente desconhecidas e a esmo: sobrava uva fazia-se «vinho». Era uso beberem-se pequenas quantidades para não subir à cabeça: por mim, e por aquilo que fui aprendendo depois, podia-se à vontade beber um garrafão de 5 litros que o resultado seria igual. Mas era da praxe dizer-se que «dava porrada» numa gentileza para com o produtor.

[Velho alambique de JB Guerreiro. Retirado com a devida vénia de http://alcariaalta.blogspot.com]

E era assim, tudo era assim, sempre foi que eu me lembre, e penso (é lógico) que não terá sido só em Alcaria Alta: houve realmente muita coisa que faltou, não sei exactamente o quê, que suprisse a escassez e a depreciação das produções de cereais e fornecesse alternativas e isto em devido tempo, antes de deixar que o processo de pauperização progressiva se instalasse: quanto menos independente o meio maior a evolução da dependência.

Um dia alguém pensará nisto com conta peso e medida...

sábado, 4 de fevereiro de 2012

D. Manuel de Ataíde, 3º Conde de Castanheira, neto do 2º Conde de Alcoutim

Pequena nota

Depois de uma série de textos que publicámos na imprensa regional, em livro ou neste espaço, encontrámos motivos para voltar ao assunto.

Já referimos em conjunto ou separadamente os netos dos 1º Condes de Alcoutim, iremos hoje referir um dos seus bisnetos para o qual nada encontrámos para referir no campo das armas ou das letras. Parece-nos que foi uma figura relativamente apagada e que viveu dos pergaminhos que recebeu dos seus antecessores.

JV

D. Manuel de Ataíde era filho de D. António de Ataíde, 2º Conde de Castanheira e de D. Bárbara de Lara filha de D. Pedro de Meneses, 2º Conde de Alcoutim, possivelmente dos 6 deste título o que deixou maiores referências a nível cultural e de armas, entre outras.

O título foi-lhe confirmado em 12 de Março de 1603 por Filipe II.

Casou com D. Maria de Noronha filha de D. Diogo de Sousa, Capitão de Sofala, governador do Algarve e General da Armada, acompanhou a África D. Sebastião e pertenceu ao Conselho de Estado e de sua mulher, D. Catarina de Atouguia.

Enviuvando casou com a sobrinha D. Guiomar de Vilhena, filha de sua irmã D. Ana de Ataíde, não tendo havido geração desta ligação.

Tinham como irmãos D. António de Ataíde, 1º Conde de Castro Daire, D. Jorge de Ataíde, Governador de Ceuta (sempre Ceuta nos horizontes dos Meneses) e três irmãs, D. Leonor, Joana e Juliana que foram freiras no Mosteiro de Castanheira fundado pela família.

Foi detentor dos senhorios e morgados, bem como do título da Casa de Castanheira.

Foi Senhor da Vila de Povos e Cheleiros e Comendador de Longroiva.

Dos cinco filhos que teve do 1º casamento sobreviveu-lhe D. João de Ataíde que lhe sucedeu no título e na Casa, sendo, por isso, o 4º Conde de Castanheira.

Interessante a sentença desfavorável que perdeu em demanda com Francisco Correia, devido à restituição de um dote.

"SENTENÇA EM FAVOR DO SENHOR FRANCISCO CORREIA CONTRA O CONDE DA CASTANHEIRA D. MANUEL DE ATAÍDE E SEUS FILHOS PROFERIDA NA CAUSA EM QUE PEDIAM A RESTITUIÇÃO DO DOTE DA SENHORA D. BRANCA DE VILHENA QUE CASOU COM O SENHOR MANUEL CORREIA, DE QUE FICOU ABSOLUTO DE PAGAR PELA VILA DE BELAS POR SER CABEÇA DE MORGADO INSTITUÍDO PELO SENHOR RODRIGO AFONSO E SEU FILHO O SENHOR PEDRO CORREIA"

Naturalmente que esta casa condal estava afecta ao poderio dos Filipes.

Este título tem a ver com o lugar de Castanheira, hoje vila de Castanheira, entretanto do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira.

Nos séculos XII e XIII Castanheira fazia parte do termo de Povos. Sendo o título de vila concedido por D. Afonso V, por carta de 1452.

O foral novo foi concedido em 1510 e os séculos XV e XVI foram marcados pelo poder dos Ataíde.

O título de Conde de Castanheira foi outorgado por D. João III por carta de 1 de Maio de 1532.

O concelho de Castanheira, entretanto criado, extinguiu-se em 1837, tendo sido o pelourinho (símbolo do poder municipal) apeado em 1845.

Voltou a ser vila em 1985.

_______________________________________

História Genealogica da Casa Real Portugueza, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, 1927

Wikipédia, a enciclopédia livre

http://www.gneall.net

Portugal – Dicionário histórico, Edição José Romano Torres, 1904-1015 – transcrito por Manuel Amaral.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Afonso Vicente foi um grande "monte" da freguesia de Alcoutim [1]

Nota prévia
Esta nota monográfica sobre o “monte” de Afonso Vicente, irá ser até hoje a mais desenvolvida, não pela importância da povoação mas sim por um melhor conhecimento do meio, já que tem sido a ele que recorro desde 1987 para o meu período de férias, quando me encontrava no activo e depois de 1996 na situação de reformado.
Isto nada tem a ver com qualquer imaginária menos consideração pelos restantes e são todos os do concelho que já abordei neste espaço ou na imprensa regional.
Porque se trata de um texto relativamente longo irá ser publicado em várias” postagens”e intercaladamente para não se tornar fastidioso para os leitores.
A ordem de publicação será a mais lógica no meu ponto de vista.
Espero que os leitores compreendam as razões da diferença de abordagem, principalmente os naturais, os que têm raízes ou são moradores nas outras povoações.


JV


Dedicatória
À minha mulher companheira de quase 42 anos, que sem o saber nem o procurar me tornou apaixonado desta região e que no dizer do nosso Amigo e colaborador Daniel Teixeira casei com ela e com Alcoutim.
JV

SITUAÇÃO


[Vista aérea do "monte" em 2004]

Esta pequena povoação, aqui designada por “monte”, situa-se na parte norte da freguesia de Alcoutim. Hoje tem acesso alcatroado com 550 metros troço derivado da EM nº.507.que da estrada nacional nº 122 nos leva à Vila sede de concelho e com seguimento junto ao rio ligando com o concelho de Castro Marim.

Localiza-se numa pequena elevação. Encontra-se a 8,5 km da sede do concelho e tem como povoação mais próxima as Cortes Pereiras que se situam a 3 km. A vila de Mértola está a 31 km e a cidade de Vila Real de Santo António um pouco mais distante, a 44 km. (1)

Do lado nascente, passa-lhe junto o Barranco do Rabilongo que conforme os sítios por onde corre vai adquirindo os seus nomes, como é o caso do Arroja Cus, Lapa e depois Medronhais. Do lado oposto ou seja ao poente encontramos o Barranco do Poço que depois se junta ao da Medronheira, indo desaguar num de muito maiores dimensões que é o Barranco do Tamejoso. (2)

Estes pequenos cursos de água, que normalmente só correm no Inverno, são subsidiários da Ribeira do Vascão.

O Barranco do Tamejoso fica com alguns pegos no Verão como acontece com o da Quebrada, próximo de Santa Marta, o dos Penedos, frente à Machada e mais abaixo o do Caldeirão e ainda o da Voltinha do Ti André. São utilizados para o gado beber, nomeadamente o dos Penedos.

DESCRIÇÃO

De tipo concentrado, as habitações entrechocavam-se com ramadas e palheiros, hoje quase desaparecidos. O branco da cal contrasta com o escuro de xistos e grauvaques.

Em meados do século passado, as casas tinham todas telhados de uma ou de duas águas e telha de canudo e imperavam os caniços. Muitas possuíam poiais e pilheiras, portas de madeira com postigo. Eram poucas as que tinham janelas.

Em 1987 com um filho da terra já avançado na idade, identificámos 76 edifícios de habitação, incluindo os que se encontravam degradados mas que tinham sido habitados.

Naturalmente, não havia nem há ordenamento na construção, até porque casas novas de raiz só conheço duas. As outras são reconstruções e algumas realizaram-se totalmente aproveitando o número da matriz. A disposição dos edifícios forma uma meia elipse.

Eram tudo edifícios de rés-do-chão mas presentemente já existem dois de dois pisos.

Em 1990 ainda localizei 22 fornos de cozer pão, muitos deles, derruídos pelo tempo, pois nessa altura já ninguém cozia e se o faziam era em situações muito especiais.

Este monte é, segundo penso, o de maior número de edifícios a nível individual, dos que se situam entre a ribeira de Cadavais e a do Vascão.

NOTAS
(1)-Google Earth
(2)-Este hidrónimo deve derivar de tamuje, do espanhol tamujo, espécie de sanguinheiro, planta ramnácea também chamada zangrinheiro, sanguinho e sandim. Crescem nas regiões quentes e têm por tipo o ramo. Eram utilizadas para fazer vassouras, em verde ou seco e destinavam-se a varrer as “arramadas”.

(CONTINUA)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Estatísticas - Movimento do mês de Dezembro



1º - PESSEGUEIRO, O “MONTE” MAIS DINÂMICO DO CONCELHO – (2011.12.07) – 260

2º - DOÇARIA DE NATAL – (2010.12.25) – 80

3º - O “MONTE” DO MARMELEIRO – O LUGAREJO MAIS PRÓXIMO... – (2011.09.20) – 72

4º - FORMA DE FILHÓS DE ROSA – (2011.01.02) – 57

5º - BARRADA, POVOAÇÃO DINÂMICA À BEIRA DA ESTRADA – (2009.08.28) - 41

6º - A MATAÇÃO DO PORCO (2011.08.26) – 18

7º - JANTAR DE GRÃO OU DE FEIJÃO – (2011.02.06) – 15

8º - A CHARRUA (2011.05.26) - 15

9º - AS RIBEIRADAS E A PESCA AO REMOLHÃO – (2011.12.10) – 14

10º - DESCRIÇÃO DA VILA DE ALCOUTIM ATRAVÉS DOS TEMPOS – (2009.10.01) – 14



Devido às férias, o top ten do mês de Dezembro sai mais atrasado.

Iremos abordar o assunto dentro dos parâmetros habituais.

Repetentes do mês anterior, apenas dois, que continuaram numa posição cimeira, O “monte” do Marmeleiro – o lugarejo mais próximo... que da 2ª posição passou para a 3ª e a Forma de filhós de rosa que da 3ª passa para a 4ª.

O 1º do mês anterior e com grande vantagem sobre os restantes, caiu abruptamente, sendo agora ocupado com uma diferença bastante superior por Pessegueiro, o monte mais dinâmico do concelho. Este resultado vem a confirmar o título que apresentámos, já que nenhum dos outros montes e mesmo aldeias motivou um número tão elevado de visitantes nos termos que temos vindo a referir.

A Doçaria de Natal, na 2ª posição, parece justificar-se devido à época que na altura se atravessou.

Desta vez o top ten apresenta três montes, o que não é fácil de acontecer, dois de Martim Longo e um de Alcoutim.

Referente aos anos, 2011 está representando com 7, 2010 com 1 e 2009 com 2.

Dos nossos colaboradores está representado Amílcar Felício com o seu texto As ribeiradas e a pesca ao remolhão e na 9ª posição.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Reentrada - a diferença

Ao reiniciar a actividade do ALCOUTIM LIVRE, após um mês de férias, havia necessidade de escolher um tema para abrir.

Durante o período de descanso, chegaram-nos através de e-mail algumas manifestações sobre tal circunstância, mas não tantas como se possa pensar.

Poderá isso ter várias explicações, desde o aspecto cansativo que o mesmo teria provocado em grande parte aos visitantes / leitores até ao facto de se ter anunciado o intuito de voltar, ainda que não fosse indicado qualquer prazo.

A postagem nº 1000, com esse testemunho foi colada aos primeiros minutos do dia 31 de Dezembro e no minuto 20 recebi um e-mail que tinha por título ALCOUTIM LIVRE, SEMPRE!

... José Varzeano. Fico-lhe (e tb aos demais colaboradores) grato pela atenção dedicada a Alcoutim e suas gentes. Espero que retome os postais o mais rapidamente possível. Com toda a consideração, agradecido,... ...

Trinta palavras chegaram para manifestar a sua gratidão.

Até aqui pensamos ser tudo normal; acontece, contudo, que a mesma pessoa foi a primeira a manifestar-se logo nos primeiros dias da existência do blogue e fê-lo nos seguintes termos, como já demos a público: Felicito-o pelo seu blogue que mão amiga de Alcoutim me fez chegar, tanto por ser uma voz dessa terra tão antiga e sempre tão pobre e esquecida, como pelo real prazer que retiro da sua escrita e do seu testemunho.
E continua: Alcoutenejo (nascido em … … há 53 anos, (hoje terá 56 / 57) daí saí com a idade de meses) lembro sempre esse “sertão” e vou tentando seguir, embora de longe, o seu dia a dia.
O seu blogue vai passar a ser, claro, meio precioso e privilegiado de saber novas de toda essa região.
Agradeço-lhe antecipadamente, por isso e faço votos para prosseguir no seu trabalho.

... ...

Já não é muito vulgar ser o primeiro nas duas ocasiões, mas ainda há mais:- o referido leitor, segundo cremos, assíduo, não o conhecemos, ainda que tenhamos trocado e-mail sobre Alcoutim e o seu concelho, sempre que a oportunidade se nos deparou.

Mas não ficamos por aqui. O que liga este alcoutenejo à terra onde nasceu, ele que saiu daqui de tenra idade, acompanhando os pais, que procuravam melhores condições de vida?

São estes alcoutenejos que muito admiramos, apesar de afastados estão sempre bem perto, enquanto outros que estão perto, notam-se distantes.

Não é o único caso que conhecemos, existem mais e não só em Alcoutim, mas em todas as terras do país.



A única coisa que receberam foi o ter aqui nascido. Em contrapartida preocupam-se com ela, com o seu desenvolvimento, não escondendo que são de cá naturais, até o fazendo com orgulho. São daquele economicamente paupérrimo concelho da serra do Caldeirão, mas que nem por isso deixa de ter as suas virtudes.

A diferença é muito simples: ENQUANTO UNS SERVEM ALCOUTIM OUTROS SERVEM-SE DE ALCOUTIM e isto acontece em qualquer parte do MUNDO relativamente a cada terra de naturalidade.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Alcoutim Livre entra de férias



É verdade, após três anos e quarenta e cinco dias, o BLOGUE ALCOUTIM LIVRE vai entrar num período de férias que pensamos serem merecidas.

As postagens feitas até hoje, umas mais curtas outras mais longas, só a título excepcional, são meras conversas e para a sua organização foram necessárias variadíssimas pesquisas em papel, on line e orais, nem sempre com os sucessos que desejávamos.

Percorreram-se muitas centenas de quilómetros em veículo próprio e até aproveitando o facto para mostrar a alguns alcoutenejos o ALCOUTIM PROFUNDO que de outra maneira não lhe seria fácil. Tiraram-se milhares de fotografias ainda que por vezes falte sempre a mais adequada.

Se é verdade que alguns dos temas estão esgotados, como acontece por exemplo com os montes do concelho, pois já escrevemos sobre todos eles ou os templos, outros há que têm muito que explorar.

O número de visitantes / leitores esteve sempre em ritmo ascendente, o que prova o manifesto interesse que tem demonstrado, como periodicamente temos feito notar através de depoimentos que nos foram chegando ao longo dos tempos.

Essa circunstância, actualmente, está a diminuir sobre este aspecto mas aparecem outros de índole diferente a que sempre respondemos procurando contudo satisfazer os pedidos que nos formulam, o que nem sempre é possível.

Recebemos recentemente do Brasil um pedido no sentido de descobrirmos num alfarrabista a existência de determinado livro. Fizemos as nossas tentativas que foram coroadas de êxito indicando à interessada onde se encontrava para o poder adquirir.

A única alusão negativa e que aqui foi publicada na íntegra, também chegou até porque fazia falta para separar as águas e é originária, como então referimos, do Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Alcoutim e que foi assinada por Ana Lúcia Gonçalves, jornalista segundo me informam. Tenho muitas dúvidas que tivesse sido ela a escrever o texto. É a velha estória das pressões dos “poderosos”, aqui e em qualquer parte do Mundo.



Necessitamos de pôr o local de trabalho com alguma ordem e iremos dedicar o tempo a fazê-lo.

Esperamos, contudo, voltar um dia.

Às centenas de visitantes que diariamente procuravam o ALCOUTIM LIVRE o nosso profundo agradecimento. Só com a sua ajuda foi possível continuar o trabalho que nos tem dado gosto realizar.

Aos amigos e colaboradores vai o nosso agradecimento pelo valioso contributo dado e que muito enriqueceu este trabalho. Continuem a organizar os seus textos.

Entrar de férias em 1 de Janeiro é marcante e a esta postagem corresponde precisamente o nº 1000.

Com as saudações do,

JOSÉ VARZEANO

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Castelo de Sanlúcar do Guadiana através dos tempos

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA,Nº 93, DE JANEIRO DE 2008, P. 19)

[O Castelo de Sanlúcar visto do caminho do Brejo. Foto JV, 2010]

D. Sancho II, o 4º rei de Portugal, depois de conquistar Mértola em 1238 e ter descido pelo vale do Guadiana, conquistando igualmente Aiamonte, (1238) fez entrega dos territórios conquistado, em 16 de Janeiro de 1239, à Ordem de Santiago, tendo criado, para defesa da zona, fortalezas nos pontos estratégicos de ambas as margens do rio.

Crêem alguns que foi o caso da fortaleza existente na colina que domina completamente Sanlúcar e o Guadiana. (1)

Com o rodar dos tempos, a fortaleza medieval entrou em completa ruína e foi abandonada por falta de condições.

Na Guerra da Independência de Portugal, o Conde Jerónimo Ró, Mestre de Campo General, responsável pela defesa da zona, constrói um Forte, que foi designado por de São Jerónimo, junto da Igreja paroquial, tendo sido para o efeito demolidas muitas casas. Com o desenrolar da guerra verificou que a fortificação era insuficiente para prestar uma oposição forte aos portugueses, pelo que decidiu construir um castelo que como não podia deixar de ser tinha por lugar a referida colina dominante, aproveitando os alicerces ainda existentes. Passa-se isto em 1642 (2) quando a luta estava mais acesa.

[Antigo brasão de Sanlúcar]

É tradição que quando o castelo se estava construindo, os portugueses realizaram um assalto provocando muitas vítimas. (3)

As obras foram custeadas pelos habitantes de Sanlúcar e que transportaram os materiais para a sua construção.

Tem planta irregular com quatro torres e uma porta virada ao norte. Está edificado a 137 metros de altura, é de linhas simples e característica do período do Renascimento. (4)

O castelo era utilizado pela população local e a que se estendia pelos lugares circunvizinhos, como refúgio, tanto para defesa da acção bélica dos portugueses, como no caso de inundações provocadas pelo rio Guadiana. (5)

O Conde Schomberg, Governador das Armas no Alentejo, dispôs-se a atacar este castelo onde recolheu toda a população, deixando o povoado deserto, o que fez com três mil infantes e mil e duzentos cavalos.

A artilharia pouca mossa causou às tropas portuguesas e o Governador da Praça mandou dizer que queria render-se o que foi aceite por Schomberg, deixando sair a guarnição a caminho de Aiamonte. O castelo foi ocupado no dia 29 de Maio de 1666, ficando a governá-lo António Tavares Pina que resistiu à tentativa de reconquista efectuada por cento e vinte infantes e cem cavalos vindos de Aiamonte. (6)

Voltou a desempenhar papel importante na Guerra da Sucessão de Espanha (1704/1713).(7)

Em meados do século XIX era considerado como tendo bons apetrechos de guerra, com um obus e dois canhões de calibre 46, tendo um destacamento de artilheiros e tropas de linha. (8)

[Pormenor do Castelo de São Marcos. Foto JV, 2010]

O monumento encontrava-se em estado de degradação, foi-lhe construída contudo uma estrada de acesso.

São Marcos deu o nome ao castelo que tem na sua frente, em Portugal, uma ribeira que desagua junto a Alcoutim que tem o mesmo nome. Haverá alguma relação entre os dois factos?

Visitámos o castelo a primeira vez que fomos a Sanlúcar, isto em Maio de 1967 e nunca mais lá voltámos!

Além da visita apressada, aproveitámos para fazer uma fotografia sobre Alcoutim que ainda hoje possuímos.

Consta que está a ser objecto de escavações arqueológicas que certamente irão esclarecer algumas situações.


NOTAS

(1) História de Sanlúcar do Guadiana (dactilografado)
(2)”Sanlúcar de Guadiana – uma terra com 700 anos”, in Jornal do Algarve de 7 de Setembro de 2000.
(3) Este dado tradicional foi-nos transmitido cerca de 1971 por um jovem oficial que comandava a guarda civil local, de que não posso precisar o nome, que era de origem de famílias portuguesas da zona de Castelo Branco, como na altura nos referiu.
(4) Guia Bilingue – Alcoutim / Sanlúcar, Turismo, História e Cultura Raiana, Edição ATAS, 2006, pág. 61.
(5) Huelva en el sic.XV – Tierra de Señores – II Gibraleon – Tierras de Realengo – Poblaciones com castillo – 6 – Sanlúcar de Guadiana.
(6) História do Portugal Restaurado, Conde da Ericeira, Vol. VI.
(7) Ayamonte Geografia e Historia, Maria Luísa Díaz Santos, 1990.
(8) Diccionario Geográfico-Estadistico-Historico de España y sus posesiones de ultramar, Pascual Madoz, Madrid, 1845-1850.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Caracóis

[Retirado com a devida vénia de kristininhanacozinha.blogspot.com]

Estes gastrópodes terrestres, univalves de concha em forma aspiralada, respirando por pulmões, distribuem-se por todo o país.

São animais hermafroditas, cada um possui os dois sexos mas precisam de um parceiro para se reproduzirem.

Os caracóis não têm audição e têm o tacto e o olfacto muito desenvolvidos.

Enquanto o tacto está mais desenvolvido nas antenas menores, nas maiores situam-se os olhos com visão deficiente.

São herbívoros, alimentando-se de diversos tipos de plantas. Existem, contudo, algumas espécies, poucas, que se alimentam de minhocas ou de outros caracóis.

O seu habitat preferido é um solo húmido mas não encharcado, escondem-se durante o dia e com a humidade da noite saem para desenvolver a sua actividade.

Reproduzem-se quatro vezes por ano e a gestação dura cerca de 16 dias, a postura é feita a cerca de 8 cm de profundidade em lugar húmido cavando o local apropriado com a cabeça. O número de ovos depende das espécies e poderá ir de 100 a 300.

Existem muitas espécies de caracóis e de tamanhos variados.

Depois desta pequena introdução iremos referir o que nos interessa no aspecto gastronómico, visto ser esse facto que nos moveu.

O povo costuma dizer que o caracol é o marisco do homem do interior por não ter o mar próximo.

Na Europa consta-nos que são os portugueses e franceses os seus maiores apreciadores, mas em Portugal esse facto não era uniforme em todo o país, já que na Beira ninguém concebia comer-se tal produto. Digo isto porque em 1960 fiz lá uma “caracolada” e só consegui que uma pessoa me acompanhasse.

Hoje na Internet encontramos as mais variadas receitas, os caracóis dão para tudo. Cada qual vai acrescentando-lhe mais qualquer coisa, para uns, beneficiando, para outros degradando.

Ribatejanos, alentejanos e algarvios são os portugueses mais apreciadores deste molusco.

Iremos referir aqui por alto a receita de Mestre Carlos um algarvio do litoral que se fixou em Alcoutim.

Os caracóis depois de convenientemente lavados em várias águas eram cozidos com alhos esmagados com a pele, batatas miúdas com a pele, piripiri, sal e orégãos que não podiam faltar. Utilizavam-se de preferência os troncos.

Tão simples como isto.

Hoje, possivelmente, ninguém os faz desta maneira, metem-lhe caldos compactos disto e daquilo ou outras coisas, mas não foi assim que os comemos em Alcoutim.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O 2012


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Andebol em Alcoutim!



É verdade, andebol em Alcoutim e há 61 anos!

A nível de Grupo Desportivo de Alcoutim desde 1967 não me consta que tenha sido modalidade desportiva praticada e depois da criação da Escola C+S também não tenho conhecimento que isso tivesse acontecido.

Esta foto, que me foi cedida pelo meu colaborador e amigo Gaspar Santos, é datada com “Recordação do dia 13 de Setembro de 1950 e referente à equipa vencedora.

Julgo que foi tirada no Campo da Fonte Primeira junto à Ribeira da Cadavais, como parece indicar o canavial que se vê ao fundo.

Os jovens de então aproveitaram o dia da Feira de Alcoutim para confraternizarem e praticarem desporto.

Foi nestas alturas que a juventude se movimentou para tentar animar a Feira de Vila que já se encontrava em pleno declínio introduzindo a “festa”. A verdade é que a feira só existe no papel e que se extinguiu completamente. No concelho, quem quer ir à Feira vai ao S. Marcos e não sei até quando durará.

Foram os poucos estudantes da época que teriam aprendido as regras do jogo praticando-o em liceus ou colégios e que o ensinaram aos jovens locais. Os jogos eram disputados entre equipas formadas na ocasião, como se fazia com o futebol, ora escolho eu, ora encolhes tu, muda aos cinco e acaba aos dez!

Isto é uma sugestão minha que não deve andar muito distante da realidade.

Oe elementos estão todos identificados. De pé, da esquerda para a direita, Gaspar Santos, José Afonso, Fernando Dias (fal.), José Martinho e José Cavaco Peres. No primeiro plano e pela mesmo ordem, Mário Baptista, João Mestre (fal.) e Lázaro (fal.)

Mais um documento para a história de Alcoutim.