quarta-feira, 7 de março de 2012

O futuro agrícola de Alcoutim




Escreve


Gaspar Santos



[Douro Património Mundial. Foto GS, 2010.
Como gostaríamos de ver os serros de Alcoutim.]


Sou um alcoutenejo de nascimento e de coração. Não possuo qualquer parcela de terra onde possa experimentar aquilo em que acredito.

Começo recordando as palavras com que Daniel Teixeira terminava a sua colaboração neste blogue no dia 5 de Fevereiro de 2012:

E era assim, tudo era assim, sempre foi que eu me lembre, e penso (é lógico) que não terá sido só em Alcaria Alta: houve realmente muita coisa que faltou, não sei exactamente o quê, que suprisse a escassez e a depreciação das produções de cereais e fornecesse alternativas e isto em devido tempo, antes de deixar que o processo de pauperização progressiva se instalasse: quanto menos independente o meio maior a evolução da dependência: Um dia alguém pensará nisto com conta peso e medida...

É exactamente para reflectir sobre a dramática desertificação humana e abandono das terras em todo o concelho que hoje escrevo. A desertificação, na verdade, dá-se por redução da população, enquanto, pelo contrário, a cobertura vegetal dos terrenos até aumentou, quer pelo avanço da floresta natural quer pelo cultivo do pinheiro.

No Jornal O Público de 2 de Fevereiro de 2012 dizia Pedro Lomba: “ O Estado interferiu activamente: …. Inúmeros governos a partir do cavaquismo foram incitando ao abandono dos campos. A Política Agrícola Comum, a transformação da nossa economia numa economia de serviços e os juros bonificados liquidaram o país da TV rural….O Estado que acabou com a Agricultura recomenda que voltemos aos campos.”

Sempre tenho dito e escrito que nunca aceitei que se tenha deixado abandonar os campos, mas não tinha a solução de como evitá-lo. E, por isso, agora concordo absolutamente com a ideia de que se deve voltar a cultivar os campos. Inclusive penso que com o empobrecimento que aí vem é bem capaz de induzir muitas pessoas a terem que recorrer à agricultura.

A produção local de alimentos é necessária e fundamental e indispensável para garantir alguma independência que nos evite surpresas, caso haja quebra de abastecimento ou encarecimento do preço daquilo que importamos.

Entre outros benefícios, a nossa dívida externa reduzia se produzirmos alimentos em vez de os comprarmos ao estrangeiro. Sempre era algum dinheiro que não saía…como já me aconteceu em Alcoutim, comprar batatas-doces importadas dos Estados Unidos da América.

Já nos basta que a gasolina, o gasóleo e o gás natural sejam o nosso principal sorvedouro de divisas.

Tenho a convicção de que o grande recurso de Alcoutim e que precisa de voltar a ser explorado é a terra, para que os proprietários satisfaçam os impostos sem ser à custa do dinheiro ganho noutra actividade.

Isto sempre me intrigou: como era possível ter um meio de produção, como é a terra, abandonada, sem produzir e, mesmo assim, conseguir pagar os impostos? Não estou a ver outro tipo de empresa que faça este milagre. Uma camionagem satisfazer impostos e não transportar pessoas; uma tipografia fechada e a pagar impostos; ou um restaurante pagar impostos e ter a porta fechada, sem atender clientes!

Mas também há, é verdade, quem não consiga este milagre, mesmo explorando a terra. Assim foi o caso que se deu no início dos anos 60 do século passado. Os proprietários não puderam pagar os impostos e os terrenos com 19.600 hectares que se avistam a norte da Vila de Alcoutim foram vendidos em hasta pública com uma base de licitação de cerca de 600 contos. Na sequência da compra deste terreno pelo Senhor Barata e do uso que lhes deu, este é um caso que se pode citar como um mau exemplo da sua utilização posterior. Ele arroteou aquela terra, fez socalcos e plantação de árvores, que não foram as mais indicadas, por serem muito consumidoras da água, muito escassa nestas terras.

Para além de outras ocupações do recurso terra, duas culturas me parecem as mais rentáveis e ao alcance de um pequeno investimento. São os figos de tuneira e, sobretudo, a vinha. Mas o incremento da alfarrobeira e do olival também não serão para esquecer, além da pastorícia.

Mas tudo isto está na mente e nas mãos dos proprietários das terras. Da sua vontade e da sua iniciativa. Sem o seu querer, a sua adesão, e sem trabalho, nada se conseguirá.

Em Portugal há muitos exemplos do sucesso da vinha. Cito dois, ambos graças ao trabalho e à tenacidade e perseverança dos homens: As vinhas do Douro, hoje Património da Humanidade; e as vinhas da Ilha do Pico nos Açores.

[Tuneira em flor.Foto JV]
No Pessegueiro o Senhor Mário Nunes é uma pessoa entendida na cultura e utilização do figo de tuneira que ele entende ser uma cultura importante com futuro a explorar.

A vinha, para uva de mesa ou para fazer vinho, em todo o nosso concelho tem condições excepcionais para o seu cultivo. O vinho é bom e tem elevada graduação até para um vinho espirituoso. O vinho do concelho de Alcoutim, com dois ou três anos de envelhecimento, converte-se num vinho licoroso que faz lembrar o vinho da Ilha do Pico.

[A vinha continua a ser uma hipótese. Foto JV]

O investimento não é elevado para a sua plantação e é reproduzido em poucos anos. Para os produtores mais exigentes não será mau recorrer a um enólogo por si ou por iniciativa das entidades oficiais do Ministério da Agricultura, para que lhe recomende a casta ou qualidade da uva mais conveniente para o objectivo em vista.

terça-feira, 6 de março de 2012

Afonso Vicente foi um grande monte da freguesia de Alcoutim [6]

USOS E COSTUMES

AS JANEIRAS

As “Janeiras” são um canto popular de peditório, acompanhado muitas vezes de instrumentos musicais, alguns rudimentares e cantavam-se na véspera de ano novo e na véspera do dia de Reis.

Enquanto no sotavento algarvio são conhecidas por “charolas”, na serra designam-nas pelo seu nome mais vulgar “Janeiras”, certamente por terem lugar nesse mês.

Conforme as regiões são conhecidas além destas duas designações, por “Cantar os Reis” ou as “Boas – Festas”.

Estes cantares tradicionais têm origem remotíssima, havendo mesmo quem os considere anteriores ao cristianismo.

Em tempos recuados teriam tido alguma expressão, mas hoje, quando aparecem não passam de uma tentativa de recriação ajustada aos novos tempos.

Nos inícios dos anos 60 do século passado ainda eram muito utilizadas na Beira-Alta, onde tomei contacto com elas, já que nunca conheci tal na minha região natal.

Os cantadores embuçados por causa do frio batiam à porta e quando perguntavam quem era, os de fora diziam:

- Quer que cante ou que reze?

Quando optavam pela reza, ela saía pelas almas dos defuntos daquela casa.

Se se cantava usavam-se versos alusivos e em honra dos visados, sendo a grande parte transmitida de geração em geração e onde só os nomes mudavam. Não se deixava de pedir a chouriça e um copo de caseiro.

Tenho conhecimento que em 1987 um grupo de janeireiros de Afonso Vicente se deslocou às Cortes Pereiras e uma das casas escolhidas para o canto foi a do Sr. Mestre, que respondeu dentro da sua casa com a seguinte quadra:

Vivo no monte das Cortes Pereiras
Mas sou natural de Afonso Vicente
Levantei-me da minha cama
Para dar de esmola a esta gente.




AS MAIAS

Até meados do século passado, esta festa profano-religiosa, que terá sido herdada dos romanos, era muito praticada em todo o Algarve.

Foi muito praticada neste “monte” tendo sido a senhora minha sogra, que aqui nasceu, que me a referiu e descreveu, o que utilizei para abordar esse tema no meu livro, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985.

Escolhiam uma casa espaçosa onde no 1º de Maio armavam um trono e colocavam uma boneca vestida de branco e ornamentada com jóias e fitas, além das numerosas flores e ramagens silvestres que colhiam nos campos.

Ficava assim armada a Maia, que era visitada por toda a população do monte e que ia tecendo os seus comentários comparando-a com outras de anos anteriores ou do seu tempo, o nosso tempo é sempre o melhor!

Nessa casa se cantava e dançava por vezes ao toque de uma “flaita” de beiços e por vezes fazia-se uma “função” (comia e bebia-se) passando-se um dia divertido.

No dia 3, que chamavam de Bela (Vera) Cruz, substituía-se a boneca por uma cruz coberta de ramagens e flores, continuando a dança com a qual se rematava a festa.

Segundo informação recolhida de quem a ela assistiu, a última Festa da Maia, aqui realizada, teve lugar em casa do Ti André em 1940.

[Casa, hoje restaurada em que teve lugar a última "Maia". Foto JV]


Pinho Leal descreve as Festas das Maias que viu no Algarve, nomeadamente em Tavira, Castro Marim e Vila Real de Santo António e que apresentavam aspectos diferentes ainda que a base fosse a mesma. (1)

Estas Festas que em terras maiores chegavam a causar desacatos pelas rivalidades, tiveram um período em que foram proibidas.

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(1) – Portugal Antigo e Moderno – Dicionário - ... Lisboa 1875, Vol. 5. pág. 37


SANTOS POPULARES

[Des. de J.V.] Os três Santos Populares, Sto. António, São João e São. Pedro também eram aqui festejados, armando-se para o efeito um grande mastro no Terreiro do monte, largo relativamente amplo e ideal para estes festejos.

O mastro era constituído por um pau comprido que se fixava aprumadamente no chão e se revestia de ramagens (murta, loendro, mentrastros e outras) e flores. Na parte superior do mastro situava-se a charola feita normalmente de cana e conforme a habilidade dos “artistas”. A decoração fazia-se com papel de seda de várias cores e fitas rematando a mesma, de uma maneira geral, com uma bandeira no topo.

Não faltava a fogueira de alecrim para se saltar. Cantava e dançava-se em bailes de roda e mais tarde ao toque de gaitas ou foles.

Depois havia a prática de sortes, queimando-se alcachofras, deitando-se moedas de pouco valor no fogo, recolhendo na noite de S. João, antes do nascer do sol, água de nove poços que bebiam e nela se lavavam, pois era considerada virtuosa. Virtude semelhante oferecia a água onde se punham de molho raminhos de alecrim, deixando-a ao relento.

Estas sortes tinham por base a saúde e o amor.

Naturalmente que tudo isto desapareceu com o decorrer dos tempos.


“PEDIR OS SANTOS”

É como por aqui se designava este velho costume que vem de tempos imemoriais.

Tinha lugar no dia de Todos os Santos, ou seja, 1 de Novembro. Diz-se que em Portugal esse hábito desenvolveu-se a partir do Terramoto de 1 de Novembro de 1755, onde homens e mulheres batiam às portas das casas que ainda se encontravam de pé pedindo uma esmola por Todos-os-Santos.

Diz-se que esse hábito passou depois para as crianças.

Três jovens de Afonso Vicente e na casa dos cinquenta disseram-me que ainda pediram os santos e davam-lhe ervilhanas, marmelos e romãs, tudo produtos então produzidos localmente.


NOVENAS

As novenas são práticas ou exercícios de devoção que se realizam durante nove dias seguidos e daí o nome. Tem a sua origem na tradição católica.

Essa tradição começou entre a ascensão de Jesus ao céu e a descida do Espírito Santo, ao passarem-se nove dias. A comunidade cristã teria ficado reunida em torno de Maria, de algumas mulheres e dos Apóstolos , por este período. Teve assim lugar a primeira novena cristã.

As novenas realizam-se com vários objectivos e em Alcoutim, povo que vivia da agricultura, eram feitas para pedir que chovesse para as sementeiras se desenvolverem ou pelo contrário, se chovia muito, para as não estragar.

Certamente, que eram realizadas em vários montes do concelho, mas só tenho conhecimento da sua realização no Monte de Clarines e no de Afonso Vicente e também na vila, na Capela de Sto. António e organizadas pela devota D. Clarisse Cunha, aqui com um sentido que desconheço.

No mau ano agrícola de 1942, a falta de água foi tanta que os afonso-vicentinos organizaram-se para implorar a ajuda Divina e ao cair da tarde, em procissão, dirigiram-se a sete lugares do povoação que estavam na direcção dos seguintes templos: NªSª da Conceição (vila), São Martinho (Cortes Pereiras), Sta. Marta (Santa Marta), São Marcos (Pereiro) Espírito Santo e Mesquita, concelho de Mértola e Nª Sª dos Mártires (Castro Marim).

[Ruinas da Capela de Santa Marta. Foto de JV, 1990]


Implorava-se assim: Senhor Divino Deus Meu, mandai-nos água por misericórdia. Bendito Louvado Seja o SS Sacramento da Eucaristia. O fruto é do Ventre Sagrado da Virgem Puríssima Santa Maria. (1)

Mais tarde, as promotoras das novenas eram, segundo informação oral recebida, Ti Lucrécia, Catarina Inês, Maria Rosária e Maria José Isidoro, tudo gente que não conheci.

A mesma informadora, ainda jovem, afirma que a última que se realizou no monte foi em 1968.


OS BAILES

Até meados do século passado realizavam-se com frequência bailes que eram organizados por jovens do monte.

Nos anos30 vinham moços da freguesia do Espírito Santo, que confina com a de Alcoutim, nomeadamente do monte da Mesquita,então com mais população do que a própria aldeia do Espírito Santo (antiga aldeia dos Crespos).

Os bailes eram de roda, cantando-se, por influência daqueles, à alentejana. Ficava um par no meio da roda que ia sendo substituído por outro conforme era puxado e isto dependendo do cumprimento de regras.

Durante longos anos, a ligação de alentejanos desta zona a afonso-vicentinas e vice-versa foi um facto de que ainda existem vários exemplos. Aliás, o monte de Afonso Vicente, em todos os aspectos esteve sempre mais ligado a Mértola do que a Vila Real de Santo António.

As casas mais usadas para a realização de bailes eram as de Maria Martins, Maria Joaquina Santos e Florência Gomes.

Dizem-nos que por vezes tinham lugar dois bailes na mesma noite!

Nos períodos de descanso das danças era hábito entrar-se a versejar ao despique e isto motivado por galanteios mal sucedidos ou nos seus primórdios.

Foi-me possível recolher um desses despiques que ocorreu há dezenas de anos.

Sou do monte de Tacões
Eu não nego a geração,
Eu chamo-me Maria Dionísia,
Manuel Mestre é meu irmão

Sou da Serra, sou Serrenha
Eu não nego a geração
Eu não sou como a menina
Que é de lá e diz que não.

Vai à merda, vai à merda
Mas não digas a ninguém
Que é para saberes sozinho
O gosto que a merda tem.

As cantiguinhas de merda
Só saem de uma moça louca
Hei-de um dia ir à merda
Para lhe encher a boca.


(CONTINUA)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Dª. Antónia de Meneses, filha natural do 5º Conde de Alcoutim, D. Luís de Meneses

[Paço da Casa de Vila Real, em Leiria (desaparecido). Des. de A. Haupt (1886)]

Quando aqui apresentámos a pequena nota biográfica de D. Miguel Luís de Meneses, referimos, muito superficialmente, a figura de sua filha.

Dª Antónia nasceu em Ceuta quando seu pai era Capitão Geral e Governador da Praça, sendo filha de D. Maria Xuar ou Soaja, senhora nobre e castelhana pelo nascimento, filha de Tomé Lamberto, um cavaleiro de Ceuta e à qual o Duque de Caminha dava 30 000reis de tença no almoxarifado da sua vila de Alcoutim.

Afirma-se que a teria recebido clandestinamente.

Ainda que tivesse casado duas vezes, não deixou filhos desses consórcios, nomeando o título de Duque em seu sobrinho D. Miguel, filho do seu irmão D. Luís de Noronha e Meneses que veio a ser o 6º e último Conde de Alcoutim tendo pretendido que o mesmo casasse com sua filha D. Antónia o que não veio a acontecer. Isto parece ter levado a um corte de relações entre os irmãos ou seja o 1º Duque de Caminha e o 6º Conde de Alcoutim.

Devido a tais circunstâncias, deixou valiosos bens a sua filha, nos quais se incluíam, entre outros, os chamados “Bens de Leiria”.

A legitimação de D. Antónia pelo pai é feita por carta de 3 de Abril de 1634.

Filipe III faz mercê ao Duque de Caminha de poder nomear administrador das Comendas de Alpiarte e de S. Julião de Monte Negro, ambas da Ordem de Cristo, o seu genro D. Carlos de Noronha.

D. Carlos de Noronha, sendo filho terceiro, matriculou-se na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra (1590) tendo-se licenciado com elevada classificação. Foi-lhe concedida, para o efeito, por Filipe I uma tença anual enquanto frequentasse a Universidade. Entretanto passa de moço-fidalgo a fidalgo-escudeiro.

Havia-a colocado no Mosteiro de Almoster (Santarém) onde foi criada e de onde saiu para o pai a casar com o seu terceiro primo, já viúvo, D. Carlos de Noronha, (trineto por varonia do 1º Marquês de Vila Real) que foi Comendador de Marvão. Quando foi legitimada estava no Mosteiro de Santa Ana na cidade de Leiria.

Em 18 de Agosto de 1637 morre o 1º Duque de Caminha e em 21 de Setembro do ano seguinte nasce-lhe o neto D. Miguel Luís de Meneses a quem foi posto o nome do avô e que era filho de Dª Antónia de Meneses e de seu marido D. Carlos de Noronha.

D. Carlos de Noronha opôs-se judicialmente à sucessão da Casa de Vila Real invocando os seus direitos e de sua mulher, o que não teria acontecido se Dª Antónia tivesse casado com o primo e que daria lugar a ser 2ª Duquesa de Caminha.

Sendo D. Carlos considerado um reputado jurista, o processo foi-se arrastando e Filipe III não reconheceu D. Luís de Noronha como legítimo sucessor da Casa de Vila Real, ainda que fosse membro do Conselho de Estado e igualmente do concelho de Guerra (1639).

Por outro lado, a D. Miguel de Noronha não se passou carta de título de Duque de Caminha, tendo já morrido o seu tio, apesar de assim o dispor o alvará de 12 de Maio de 1635, por oposição de D. Carlos de Noronha.

Ainda que D. Carlos de Noronha tenha sido um dos conjurados, pelo que veio a exercer o lugar de Presidente da Mesa da Consciência e Ordens, Conselheiro de Estado e por inerência do cargo a Conselheiro de Guerra,a verdade é que D. João IV reconheceu D. Luís de Noronha com os títulos que pretendia e confirmou-lhe os cargos de Conselheiro de Estado e por inerência o de Conselheiro de Guerra.

Atente-se também ao facto de os incriminados terem sido julgados em tribunal próprio, precisamente o da Mesa da Consciência e Ordens.

[A chamada Casa dos Condes em Alcoutim. Foto JV]

Quanto a D. Miguel de Noronha foi-lhe dado tratamento e lugar de Duque de Caminha que lhe foi passado por carta de 14 de Maio de 1641.

Parece haver sérias dúvidas quanto à culpabilidade de D. Luís e de D. Miguel de Noronha.

Atendendo a que os bens dos nobres degolados, por terem sido considerados conspiradores, foram confiscados pelo Rei, o conflito passa agora a ser entre a Coroa e D. Carlos de Noronha que manteve o libelo até à sua morte ocorrida em 1647.

A verdade é que a Coroa depois de sentenciar a questão entrou em negociações com D. Carlos de Noronha para que desistisse da demanda sobre a sucessão da Casa de Vila Real, oferecendo-lhe, além do mais, o título de Conde de Alcoutim, com 10.000 cruzados de renda nos bens da mesma, que não foi aceite.

Isto talvez signifique que a Coroa se sentia sem a verdade total, pois se assim fosse não procuraria o acordo.

Esta questão que durou sessenta anos e que foi mantida pelo filho primogénito, D. Miguel Luís de Meneses, que recebeu por Mercê de D.Pedro II o título de Conde de Valadares em 1702 e onde lhe foi reconhecida oficialmente a sua natureza de bens de Morgado patrimonial, nos quais estavam incluídos os bens de Leiria.

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A Casa de Vila Real e a Conspiração de 1641 contra D. João IV, Mafalda de Noronha Wagner, Edições Colibri, 2007.

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, Vol II.

Chancelaria de Filipe III, Livº de Perdões e Legitimações.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações Alfa, 1985.

Nobreza de Portugal, Editorial Enciclopédia, Lisboa, 1960.

domingo, 4 de março de 2012

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - XXII




Escreve


Daniel Teixeira




PÃO NOSSO DE CADA DIA

Em Alcaria Alta e penso que nos Montes todos pelo menos do Concelho havia uma largo consumo de pão. Hoje em dia com as manutenções de linhas estreitas de senhoras e senhores, os controles de colesterol e algumas doenças que requerem consumos reduzidos de gorduras e hidratos de carbono, o montanheiro típico, de raiz, não se safava mesmo.

Não me lembro exactamente quantos fornos haviam no Monte mas eram muitos na sua relação com a população sendo alguns deles semi-privados: na Portelinha, por exemplo, morava uma só família, todos meus primos e tios avós, com todas as suas ramificações e tinham um forno que era praticamente deles: no Além, por aquilo que me lembro (ia lá pouco) havia três; na Praça havia dois: a minha Tia Bia que morava na Praça tinha um forno no quintal o que faz três pelo menos. No Castelo havia dois mais dois (privados estes últimos). Enfim, em média talvez houvesse um forno por três / quatro famílias o que fazia com que estivessem inactivos muito tempo, mesmo os mais utilizados.

Os pastores, por exemplo, talvez os maiores consumidores de pão na proporção da sua alimentação total, mesmo os não assalariados, chegavam ao Monte, carregavam dois ou três pães, uma mão cheia larga de azeitonas, um naco de presunto, por vezes algum tomate rijo mas para consumo rápido, algum grão e partiam de novo tratar das ovelhas presas durante esse tempo em curral. Por isso havia muitos currais aparentemente abandonados mas que serviam de pouso temporário para estas ocasiões.

Não raras vezes ia-se levar um «jantar» e abastecimento de pão ao pastor quando se tinha conhecimento de que ele andava por ali (ali quer dizer a uns cinco, seis quilómetros de terra a bater) com o gado. Mas isso era uma vez ou duas por acaso.

Sempre me perguntei como conseguia aquela gente viver durante um mês ou dois, dependendo, apenas de pão, azeitonas e presunto. Claro que sempre contei com algum gamanço inofensivo nas hortas mas também achava que só poderiam ser frutos de consumo rápido também e que não implicassem cozinha mais elaborada. Fazer um jantar do grão seco que levavam por uso provavelmente centenário implicava proximidade ou acesso a água limpa, colocar de molho uma noite e depois cozer, como é claro.

[Pão caseiro acabado de cozer. Foto JV]

Por achar estranho essa capacidade de sobrevivência não estranhava já que um semi - patrão de uma prima minha (nunca percebi muito bem aquela relação) fosse aquilo a que se chama uma frieira a comer quando lhe calhava poder comer em casa da minha prima, nos seus intervalos rápidos.

Aquele homem, pequenininho, rebentava com uma panelada de couve e grão ou feijão em grande velocidade.
Tinha no entanto um problema relativamente grave ele: pastoreando ovelhas suas e de um outro sócio no rebanho, ovelhas marcadas com tinta no dorso, só as ovelhas do sócio tinham problemas graves ao ponto de morrerem ou terem de ser abatidas lá pelos montes. Os «acidentes» das ovelhas do sócio sucederam-se três ou quatro vezes até que um dos filhos deste resolveu dar-lhe uns «miraculosos» sopapos que acabaram de vez com a maldição que pesava sobre as ovelhas do pai.

Mas este é um caso esporádico, mesmo, não me constam mais histórias destas, e esta dos sopapos teve lugar num oportuno e sigiloso encurralamento perto do pocilgo da minha avó: achei estranho que na pacatez do Monte houvesse daquilo mas depois do Z.V. me explicar as razões da sessão de boxe sem resposta que eu surpreendi sem querer acabei por entender e calar. Ficou só entre os dois e meio (eu não morava lá pelo que me conto pela metade): o Ti G. terá acidentalmente caído mal e os orgulhos de todos ficaram preservados e a sociedade no pastoreio acabou por ser desfeita dois anos mais tarde.

[Velho forno desactivado em Alcaria Alta. Foto JV]

Não foi este episódio isolado que eu conheci nem sequer o facto de os pastores terem uma alimentação tão parca que me levou a deixar de pensar ser a vida de pastor uma vida quase ideal. Sem ninguém a chatear, ainda me vejo, eu, as minhas ovelhas (mesmo que não fossem minhas) os cães e a imensidão dos montes para andar. Era até capaz de arranjar uma flauta de cana para entreter os ouvidos, sei lá...e ganhar assim o meu pão cada dia.

sábado, 3 de março de 2012

Estatísticas - Mês de Janeiro de 2012



1º - PESSEGUEIRO, O “MONTE” MAIS DINÂMICO DO CONCELHO DE... (2011.07.12) – 39

2º - INVERNO VEM... (POEMA) – (2011.01.24) – 34

3º - PÊRO DIAS, PEQUENO “MONTE” NAS PROXIMIDADES DE MART... (2011.04.13) – 30

4º - A TREMPE - (2011.09.04) – 26

5º - TIGELAS DE LOUÇA – (2009.09.04) – 21

6º - REPUBLICANAS QUASE DESCONHECIDAS – LANÇAMENTO NA VIL... – (2011.11.20) – 18

7º CELGAS OU ACELGAS – (2011.05.31) – 17

8º - A CAPELA DE STA. JUSTA – (2010.06.06) – 17

9º - A CHARRUA – (2011.05.16) – 17

10º - FESTA EM HONRA DE Nª Sª DA CONCEIÇÃO NA CORT... (2011.08.15) – 16


Ainda que estivéssemos de férias, não quisemos deixar passar o mês sem conhecermos a procura que o AL teve e saber quais as postagens mais solicitadas.

Naturalmente que as visitas foram muitíssimo menos, em números redondos, caiu para cerca de metade ou seja 51/dia.

Sabemos que temos vários visitantes que o fazem diariamente e que por isso tomaram conhecimento de todos os assuntos abordados.

O mais procurado foi PESSEGUEIRO, O “MONTE” MAIS DINÂMICO DO CONCELHO DE... o que nada nos admirou, pois trata-se da postagem mais procurada desde sempre e que em Dezembro último igualmente ocupou o 1º lugar.

A 2ª posição é ocupada por um poema do nosso colaborador José Temudo e que tem por título INVERNO VEM... Não é fácil este tipo de escrita obter uma posição cimeira, o que prova a sensibilidade dos nossos visitantes / leitores e o valor do poeta que consegue atrair os leitores.

PÊRO DIAS, PEQUENO “MONTE” NAS PROXIMIDADES DE MART..., ainda que se trate de um pequeno monte tem tido uma procura acentuada, mostrando assim o interesse que este tema tem merecido dos nossos leitores.

A Etnografia é outra rubrica muito procurada, assim a simples TREMPE aparece na 4ª posição e na 5ª as TIGELAS DE LOUÇA. A CHARRUA que tem merecido a atenção nos nossos leitores e que tem aparecido várias vezes no top ten ocupa a 9ª posição.

REPUBLICANAS QUASE DESCONHECIDAS – LANÇAMENTO NA VIL..., um interessante livro proveniente de investigação histórica também ocupou um lugar de destaque (6ª posição).

CELGAS OU ACELGAS ocupa o lugar seguinte e representa a utilização de plantas espontâneas na alimentação dos povos rurais.

A nível de templos, A CAPELA DE STA. JUSTA continua a merecer as frequentes visitas dos nossos leitores.

Fecha o top ten FESTA EM HONRA DE Nª Sª DA CONCEIÇÃO NA CORTE TABELIÃO, um pequeno monte quase desabitado.

Aqui têm os nossos visitantes / leitores, para a análise que desejarem, os dados referentes ao mês de férias do ALCOUTIM LIVRE.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O pastor ou "maioral"

[Maioral Chico e a "Esquisita". Foto JV] Por esta zona é na maior parte das vezes designado por “maioral das ovelhas” ou “maioral das cabras”, conforme os animais que guarda.

Tentámos recolher dados sobre esta figura da região, que segundo afirmam, ocupou lugar de primazia no meio rural.

Ainda que o seu modo de vida seja o mesmo do Minho ao Algarve, o pastor da Serra da Estrela, por exemplo, será diferente do pastor da Serra Algarvia, mais propriamente o alcoutinense, pois tem que se enquadrar, forçosamente, no meio ambiente.

Pastor e patrão concertavam-se no dia de S.Pedro, nas feiras da região que se realizavam em 29 de Junho, por invocação daquele santo: Odeleite, S.Pedro de Sólis e Vaqueiros (notar que este topónimo reflecte característica pastoril e a matriz tem por orago S. Pedro).

Contrato anual era o único (!) dia livre do pastor.(1)

Podemos resumir as linhas base desses contratos verbais mas que valiam, tanto como se tivessem a presença de um “tabelião de notas”:

[Maioral Chico com as suas ovelhas. Foto JV]

1 - O pastor podia levar consigo, por cada dez ovelhas do patrão, uma sua que passava a pertencer ao rebanho. O conjunto das suas ovelhas constituía o pegulhal.
2 - Recebia anualmente uma certa quantia que pouco mais passava de um simbolismo.

3 - Direito a toda a alimentação, sendo uma das refeições substancial.

4 -. Vestuário - uma muda composta por botas, chapéu, casaco, colete, calças, ceroulas, camisa e uma manta de lã.

5. - Direito à ganhoa, a melhor borrega das ovelhas do patrão, escolhida pelo pastor.

6 - Direito a um dia de leite por semana e referente a todas as ovelhas. Nos outros dias, as suas davam leite para o patrão.

7. - Além de toda a lã de suas ovelhas, recebia uma arroba pelas do patrão.

8 .- Direito de 15 a 20 alqueires de trigo, sendo o alqueire igual a vinte litros.

9 - A si destinada, o patrão fazia uma “folha” de um ou dois alqueires de trigo, mas o trabalho de ceifa já tinha de ser feito por conta do pastor, normalmente realizado pela mulher, filhos ou outros familiares.

Eis pois, em traços gerais, os termos que norteavam o contrato pastor/patrão.

O pastor usava pelica e safões (localmente ceifões) de lã, adquiridos por ele.

Eram ajudados pelo zagal, rapazola pago pelo patrão a um escudo diário (na altura) e que além da alimentação, tinha direito a umas solas nas botas. Ficou bem conhecida na zona a maneira como um lavrador dos arrabaldes da vila mandou pôr solas nas botas do zagal, fazendo substituir as cardas por outros objectos mais duráveis... e próprios de outros seres vivos!

[Maioral com o seu gado. Foto JV]

O outro auxílio, não menos valioso, era prestado pelos cães e ainda hoje existem por aqui muitos exemplares “Serra de Aire” a que localmente chamam “cão-macaco”, que têm características muito próprias para estas funções.

No Inverno, época mais trabalhosa, o patrão também ajudava, já que o auxílio se tornava indispensável.

Em Março, os borregos eram desmamados e ficavam mais ao cuidado do zagal.

Além do inseparável cajado e da amiga naifa, o pastor ou maioral transportava a marmita, mochila por ele feita de pele de cabra e onde levava os alimentos, um corno de boi para o azeite e vinagre e o barquino, recipiente de pele de chibo, igualmente da sua confecção e onde transportava a água potável.

[Cabrada no Pereirão. Foto JV]


Fumava normalmente de cachimbo que fazia e nas horas de descanso, sentado em ponto estratégico, entretinha-se fazendo palhetos com a navalha, (lâminas de madeira para mexer as papas), pisadores (utilizados para fazer açordas e gaspachos), colheres de cabos trabalhados a seu gosto e rocas também decoradas.

O gado bebia uma vez por dia nos barrancos e ribeiras e o ovino pernoitava em redis móveis, pois havia necessidade de fazer uma estrumação equilibrada. Só as ovelhas forras (as que não foram lançadas ao carneiro) e as cabras recolhiam aos currais, situados, normalmente, em locais altos e cercados de muros de pedra solta e completamente destapados. Ainda hoje se podem ver muitos destes currais, estando, contudo, a maioria desmantelados.

O pastor, como nómada que é, pernoitava em pequena cabana e mais vulgarmente sob a cancela, uma pequena armação de forma mais ou menos rectangular, colocada de maneira que evitasse o vento e o protegesse, ainda que levemente, da chuva e da geada. Ao lado, o indispensável fogo crepitava.

Estes abrigos eram construídos de arbustos secos, palha ou feno.

Quando os rebanhos eram de gado caprino, o pastor tinha direito todos os dias ao leite das suas cabras.

A presença dos “cercados”, instituição que parece ser de origem mourisca (2), terrenos de melhor qualidade que eram aproveitados para a plantação de árvores e por vezes mimos hortícolas e que eram cercados por muros de pedra solta mais ou menos altos, vindo-lhe daí o nome, justificavam-se precisamente para protecção dos gados.

A ovinicultura e a caprinicultura são apontadas como hipóteses de aproveitamento do solo pobre da serra.

Hoje, as coisas já não se passam assim, existem modificações que os tempos trouxeram.

No concelho de Alcoutim ainda existe algum gado mas que é guardado pelo seu proprietário.

Já existem vedações próprias para manter o gado controlado em locais mais evoluídos, havendo mesmo bebedouros para os animais e não a ida do gado aos pegos mais próximos como acontecia antigamente.

Existe também o controlo feito através de um fio ligado a geradores de energia como uma bateria.

Hoje o guardador de gado, de uma maneira geral, dorme em sua casa, a não ser em casos muito especiais como acontece na época própria em que as ovelhas parem. Muitas vezes possui um velho veículo automóvel que ali foi colocado e que o acolhe quando necessário.


NOTAS

(1) – Estes contractos foram-me explicados principalmente pela senhora minha sogra, Isabel Costa, (1906-1977) natural de Afonso Vicente, freguesia e concelho de Alcoutim.
(2) - “Caminhos e Estradas são Suprema Aspiração da Gente de Vaqueiros “, Luís Cunha, Jornal do Algarve de 10 de Dezembro de 1973

quinta-feira, 1 de março de 2012

Lisboa - Paris por cinco contos de réis! [1]




Um conto de


Amílcar Felício



Palavras Necessárias:

Este conto é uma homenagem às centenas de milhar de desertores, uns mais conscientes outros menos conscientes que viveram aventuras semelhantes, algumas delas dignas de filme – heróis solitários e silenciosos que não procuravam nem glória, nem sequer notícia de Telejornal – e que ultrapassando os seus próprios medos com coragem, recusaram engrossar a máquina de guerra salazarista que contra os ventos da história, tinha lançado o Povo Português numa aventura sem sentido.

É também uma homenagem aos milhões de trabalhadores portugueses que trilharam com a alma destroçada os mesmos caminhos, em condições dramáticas a maior parte das vezes, em busca de uma vida com dignidade e que com a sua quota parte, foram criando condições para a realização do 25 de Abril e a possibilidade da construção de um Novo Portugal, de aonde já não fosse preciso emigrar.

A cáfila da quase generalidade dos politiqueiros que assumiria o poder desde então, revelaria contudo não estar à altura de tão nobres sacrifícios, conduzindo o país ao caos em que se encontra mergulhado nos nossos dias: uma verdadeira “sucata”!


AF

Pouco passaria das 13 horas naquele dia soalheiro mas friorento de Janeiro dos finais dos anos sessenta. Era a hora ideal para passar despercebido, no meio daquele bulício lisboeta de quem ia ou vinha para o almoço. Armando esperava no Largo de Alcântara em Lisboa junto aos carris do Caminho de Ferro pelo “passador” que não conhecia, mas de quem tinha algumas referências que lhe permitiriam reconhece-lo e que o iria levar para bem longe daqueles e daquilo que tinha constituído o seu mundo até então. Tinha a sensação de que estava a passar uma esponja no seu curto passado de vida e a enterra-lo definitivamente naquele preciso momento. Sentia que estava a começar uma nova vida a partir do nada, a partir do zero.
Era uma sensação estranha aquela, a de cortar radicalmente no mais profundo segredo do seu íntimo com os entes que lhe eram mais queridos e de deixar tudo para trás de um dia para o outro! Imaginava para os seus botões de que seria a mesma sensação que teria um moribundo nas últimas horas de vida, se ainda lhe restasse um pouco de lucidez. Vazio e escuridão salpicados por retalhos da vida, uns mais nítidos outros mais nebulosos e já meio esbatidos que já não faziam qualquer sentido recordar naquela altura, mas que persistiam em vir-lhe à memória...



Tinha sido mobilizado há cerca de duas semanas em rendição individual para o Quartel General da Guiné Bissau, precisamente 1 dia antes de passar a ficar livre definitivamente. Não tinha dúvidas de que aquilo era uma represália que aqueles malandros lhe estavam a fazer, pois pelas sucessivas conversas que mantivera com o Comandante de Batalhão, um simpático Major que o chamava ao gabinete a seguir às diversas participações de que tinha sido objecto, este lhe dizia sempre depois de acaloradas discussões: “óh homem estou completamente de acordo com as suas ideias e asseguro-lhe de que as participações vão ficar todas arquivadas aqui na minha gaveta (!), mas você tem que ter mais cuidado pois se eu for substituído eles estragam-lhe a vida e ainda são capazes de me chatear, pode ter a certeza...”

Assim perante esta nova realidade não hesitou e decidiu desertar, ideia que já tinha amadurecido há muito se tal cenário se lhe viesse a deparar! A primeira ideia que lhe ocorreu foi desertar na frente de batalha -- “teoria” muito defendida pelas forças vivas na altura que se opunham à guerra -- pois constituiria diziam, um factor de desmoralização para os que faziam a guerra e serviria de exemplo para que outros fizessem o mesmo. Mas depois de se informar e refletir um pouco sobre o assunto, concluiu que na Guiné era muito difícil de desertar na frente de batalha e depois de lá estar, mais não seria do que um parafuso na engrenagem da máquina de guerra: ou matas ou morres! Esta “tese” naturalmente, acabaria com o correr do tempo por ficar muito desacreditada e de ter cada vez menos seguidores...

Ocorreu-lhe num segundo momento fugir de avioneta para Argel que era considerada um baluarte contra a guerra colonial e contra Salazar, mas depois de contactar meio a brincar meio a sério um antigo colega de liceu e agora de tropa com brevet, ficou completamente cilindrado quando este lhe disse de que estava totalmente de acordo com a guerra nas colónias. Saiu-se airosamente deste percalço e para compor o ramalhete lá lhe foi dizendo: “estava a brincar contigo pá, afinal também és cá dos meus quem havia de dizer!”

Já não era a primeira vez que Armando levado pelas aparências neste teatro da vida aonde nem tudo o que parece é, apanhava com um balde de água fria daquele tamanho, pois ainda há poucas semanas quando abordara um dos fogosos Cabos “anti-militaristas” do seu pelotão para lhe propor que se desejasse -- dado o seu aparente “anti-militarismo” -- teria todas as condições para o colocar no estrangeiro, recebeu como resposta daquele militar: “tinha toda a consideração e respeito por si meu Aspirante, mas a partir deste momento perdi tudo o que sentia por si. Aqueles países pertencem-nos e temos que os defender a todo o custo meu Aspirante”! Armando veio a saber mais tarde tratar-se de um menino-família, filho de um industrial da Covilhã e que o seu “anti-militarismo” refletia apenas o facto de não lhe ter sido facultado mais tempo para acabar os estudos e apresentar-se na tropa como Oficial.

Socorreu-se assim como último recurso, do seu velho amigo Coutinho para lhe arranjar um “passador”. O seu amigo Coutinho era um funcionário público na casa dos 50 anos, casado e com uma filhota de 4 ou 5 anos que era o enlevo da sua vida, mas que vivia constantemente sobressaltado: “óh Armando, dizia-lhe ele quando falavam, só me faz falta apanhar uma valente tareia da Pide para ver se perco o medo que tenho destes bandidos e que me atormenta noite e dia! Vivo em pânico 24 horas por dia acredite!”
Armando tinha ido a Alcoutim uns dias antes para se despedir quer da família, quer dos sítios aonde tinha passado uma infância feliz. Foi em Alcoutim que começou a ser perseguido por aquela estranha sensação de que se calhar, nunca mais voltaria àqueles lugares e despediu-se em silêncio com o coração destroçado, quer das gentes quer dos lugares que o tinham visto menino. Não sabia quando voltaria ou até mesmo se voltaria e perguntava-se a si próprio quantos daqueles de quem se estava a despedir agora, alguns deles já com mais de 70 anos e de que tanto gostava, nunca mais tornaria a abraçar? Aquele “último abraço”, aquela sensação de “última vez” era-lhe tremendamente dolorosa, mas não podia recuar! Para não atormentar os pais e a família com a aventura em que se ia meter, justificou aquela visita com a necessidade de pedir 5 contos ao pai -- 25.00€ na moeda actual – dando-lhe a entender que ainda teria possibilidade de se safar de ir para as colónias a troco de umas massas.

Os pais teriam tempo de saber tudo tintim por tintim sem sofrimento nem angústias, quando chegasse a Paris. Foi o que aconteceu mal chegou a Paris, telefonando à namorada que informou a irmã, deslocando-se as duas a Alcoutim para lhes contarem o sucedido. Os pais escusado será dizer, ficaram muito felizes e desanuviados com a decisão do filho! Sabiam que estava longe, não o viam mas ao menos estava vivo e isso é que era importante! Na realidade aqueles 5 contos era o preço da viagem Lisboa/Paris com alimentação e tudo incluído de que ele iria precisar provavelmente, pois tinha quase a certeza de que o Faustino -- um colega de tropa -- o acompanharia naquela aventura e os 5 contos que tinha recebido do Exército para o “enxoval” não dava para os dois.

E assim nesta lufa-lufa chegou o Dia D e ali estava Armando naquele gelado Largo de Alcântara meio perdido naquelas elucubrações, ruminando um turbilhão de memórias que não conseguia estancar e que lhe pareciam descabidas num momento daqueles. Queria-se afastar do seu passado e dos projetos de vida que já não faziam qualquer sentido apesar de estar na flor da idade, mas o passado por mais que tentasse vinha sempre cair-lhe em cima ainda com mais força. Até naquela hora solitária de despedida, ironia do destino, ainda se iria encontrar com uma sua prima que casualmente passava por ali, uma bela moçoila da Afonso Vicente e que lhe traria uma vez mais à memória um mundo de belas recordações. Estava difícil dar uma facada no passado que o perseguia até ao último instante. “Então primo e o que é que fazes por aqui”, perguntou-lhe ela finalmente depois de muita conversa sobre a vida, sobre Alcoutim? “Olha prima, estou à espera de um amigo que já não vejo há tempo para irmos almoçar”, respondeu-lhe ele e assim se despediram até qualquer dia... um dia que ele sabia que se tal viesse a acontecer seria longínquo.

[Um aspecto de Linda-a-Velha]

Esse amigo apareceu pouco depois. Era o Faustino, colega da tropa e a quem ele tinha ido convidar de surpresa a Santa Margarida 2 dias antes, depois de ter tudo organizado pois até o “passador” já estava em Linda-a-Velha em casa do amigo Coutinho, há quase 1 semana. Armando sabia que o Faustino apesar do seu vozeirão de trovão de locutor da Rádio Renascença, do seu anti-militarismo militante e de ser contra a guerra colonial, escondia uma falta de coragem tremenda que o impedia de dar o salto sozinho. Sabia também que o Faustino às vezes bebia o seu copito para esquecer as agruras da vida da tropa e nesse estado de espírito etéreo podia-se descuidar e assim era mais seguro usar o factor surpresa, para não lhe dar tempo a qualquer escorregadela que deitasse tudo a perder.

Foi o que aconteceu. Armando deslocou-se com um familiar a Santa Margarida 2 dias antes da partida para Paris a pretexto de se despedir de um amigo que ia para Angola. Logo que ali chegou mandou chamar Faustino que cheio de curiosidade por tão inesperada visita apareceu de imediato. Armando deu-lhe um abraço cúmplice e entre-dentes segredou-lhe ao ouvido: “tenho viagem marcada para Paris depois de amanhã e venho-te convidar se queres ir comigo, pois até já tenho o dinheiro também para a tua passagem”! A felicidade e a alegria jorravam dos olhos do Faustino! “Óh pá tu nunca me enganaste respondeu-lhe o Faustino, mas metes-te-me um grande susto no Porto quando fizemos o jantar de despedida e te pedi para ir contigo para o Quartel! Quando te perguntei por meias palavras se sempre ias para a Guiné e tu me respondeste: então queres que vá para Angola contigo (?) fiquei completamente desorientado... não fui capaz de te dizer mais nada e assim seguimos os dois em silêncio até ao Quartel, lembras-te? Vou já falar com o Comandante, dizer-lhe que a minha mãe está muito mal e ainda hoje vou para Lisboa para prepararmos as coisas e amanhã encontra-mo-nos no Vává”.

No outro dia encontraram-se no Café Vává como combinado e o Faustino achava importante fazer uma reunião com o colega e jornalista Carlos -- um “profissional” com tarimba na passagem da fronteira pela porta do cavalo e que naturalmente fazia estes “biscatos” por amor à camisola -- para trocarem uma última opinião e tomar uma decisão final. Grande Carlos que haveria de realizar anos mais tarde já na 2ª metade da década de setenta, umas belas crónicas de divulgação da Frente Polisário a partir do Sahara Ocidental, quebrando o manto de silêncio que ainda hoje continua sobre a luta do Povo Saharauí contra o Reino de Marrocos! Mas Carlos há muito que não fazia esse trajeto desconhecendo os esquemas de vigilância na altura e assim, decidiram ser mais seguro ir com o “passador” arranjado pelo amigo Coutinho. No entanto as dicas do Carlos seriam muito úteis na passagem de outras fronteiras para lá da França.

Mas o relógio não parava e a Hora H aproximava-se a todo o vapor ali para o Largo de Alcântara. Faustino chegaria impreterivelmente à hora combinada. Mal chegou, Armando e Faustino começaram a trocar dois dedos de conversa fiada entre duas fumaças bem puxadas, com o ar mais calmo e descontraído deste mundo que conseguiam teatralizar, para disfarçar a ansiedade e o nervosismo que os percorria de cima a baixo, quando apareceu o “passador” homem dos seus 40 anos, precisamente à hora marcada. Abriram as portas do carro, entraram, cumprimentaram-se, deram-lhe cada um cinco contos de réis -- preço ajustado pela viagem até Paris -- e assim se entregavam nas mãos de um desconhecido, que os iria conduzir na maior aventura das suas curtas vidas.

Mal sabiam eles o aventureiro que lhes tinha saído na rifa e os sobressaltos por que ainda haveriam de passar naquele dia e naquela madrugada. Mas isso fica para outra altura...

(CONTINUA)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Duas jovens



Apresentamos hoje na Câmara Escura uma foto cheia de passado e simbolismo.

Trata-se de uma fotografia dos anos 30 do século passado e que representa duas jovens, então estudantes no liceu de Faro.

Eram esbeltas e estavam na força da vida!

Ambas foram vítimas da doença, na altura incurável e que atacava muito os jovens.

A que está sentada é Cristina Lopes, em memória da qual foi erguido, no cemitério de Alcoutim, o único jazigo lá existente e hoje apresentando alguma degradação.

Não a conhecemos, mas falámos muito dela com sua mãe, D. Belmira Lopes, que nos dedicou sempre a sua estima. Já no declínio da vida e quando íamos a Alcoutim não a deixávamos de visitar.

Todas as conversas que tínhamos iam habitualmente parar à sua única filha e encontrávamos sempre sobre um móvel, na “casa de entrada”, uma foto que ainda hoje nos parece estarmos a vê-la.

Constava que era a moça mais bonita da vila.

A outra jovem, vítima da mesma doença, não faleceu em Alcoutim e chamava-se Ricardina Temudo, era irmã do nosso Colega, Amigo e Colaborador, José Temudo.

Foto gentilmente cedida pela alcouteneja, nossa Amiga, Doutora Marina Ramos Themudo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Afonso Vicente foi um grande monte da freguesia de Alcoutim [5]

ACTIVIDADE DOS HABITANTES

AGRICULTURA

Não podia deixar de ter sido a actividade basilar das suas gentes, nomeadamente, a cultura cerealífera.

O trigo constituiu sempre a base da alimentação deste povo. Além dele, semeava-se o centeio, a cevada e a fava.

A arborização era quase nula, procurando-se transformar por enxertia os zambujeiros em oliveiras, pois o azeite era indispensável na sua alimentação. As árvores encontravam-se principalmente nas margens do Guadiana, onde a propriedade era muito dividida e altamente taxada pelo fisco.

Os amendoais apareceram muito depois.

Iremos, seguidamente, referir os principais trabalhos efectuados.

APANHA DA AMÊNDOA



No 3º quartel do século passado a amêndoa possibilitava aos já pouco trabalhadores agrícolas, principalmente para as mulheres, o vencer uns dias de jorna.

Quando os terrenos dos amendoais ficavam brandos através da humidade, o proprietário aproveitava para contratar mulheres para irem apanhar o “relvão” ou seja o mato novo, (esteva, xaragoaço (1) e outras plantas daninhas) que acabava de despontar, evitando assim a infestação dos terrenos.

O mês de Agosto era o destinado à apanha. As mulheres partiam em grupo ao raiar da manhã para os campos acompanhadas do proprietário que levava um ou dois animais de carga, conforme as circunstâncias.

Se algumas das amêndoas já se encontravam no chão, outras ainda se encontravam na árvore, pelo que tinham necessidade de serem varejadas, o que se fazia com uma cana.

Cada mulher levava uma cesta de cana para onde ia deitando as amêndoas que apanhava. Quando cheia era despejada para um saco feito de pano tecido num tear local e depois ia para sacas de linhagem que começaram a aparecer e que foram sendo substituídas por sacas de plástico normalmente originárias do transporte do adubo.

Quando havia carga suficiente para o animal, duas ou mais sacas, dependendo do seu tamanho e do animal que as irias transportar, o patrão ou o seu representante, quando este não podia fazer o trabalho, carregava o animal e lá ia a caminho do “monte” onde tinha o armazém.

Uma vez descarregada a carga voltava ao local da apanha onde se encontrava quase sempre amêndoas suficientes para um novo carrego.

Antes do almoço regressava todo o pessoal a casa para se alimentar e dormir a folga pela hora do calor. Depois desta dedicavam-se em casa do patrão a pelar as amêndoas que punham ao sol para ficarem bem secas. Depois eram novamente ensacadas e ficavam prontas para vender.

A venda dependia do mercado e sofria por vezes oscilações consideráveis. Nessa altura dizia-se que a amêndoa pagava bem a despesa dando ainda um lucro considerável.

Hoje nem dadas as querem apanhar! É a mudança dos tempos.

APANHA DA AZEITONA



Esta tarefa era realizada com fases semelhantes ao que acontecia com a amêndoa, ainda que haja, naturalmente, diferença, principalmente no que respeita à preparação da mesma, tendo por fim a feitura do azeite.

A época própria da apanha para o azeite realiza-se no mês de Novembro, havendo por vezes pequenas oscilações, tendo em conta o decorrer do ano, mais ou menos chuvoso, que influenciam a maturação do fruto.

A azeitona para conserva e para “britar” era a primeira a ser apanhada, sendo a maçanilha a preferida.

As apanhadeiras contratadas deslocavam-se com o patrão ou seu substituto nos mesmos moldes dos da amêndoa, com a diferença que devido à época saiam mais tarde, agasalhavam-se melhor e não vinham a casa almoçar o antigo “jantar”, quando havia ceia. A pouca duração dos dias a isso obrigava.


O varejar fazia-se igualmente com uma cana e debaixo da árvore colocavam-se panos (depois substituídos por redes de plástico apertadas) e que das cestas passavam para as sacas com as mesmas características das que transportavam as amêndoas.

Ao chegar a casa, a azeitona era deitada para grandes canastras e salgada a fim de se conservar. Após a safra, desenrolava-se a feitura do azeite.

Além das britadas, preparavam-se retalhadas, para água e as de sal, para as quais se escolhiam as azeitonas do tipo maçanilha roxa após amadurecerem.

APANHA DO FIGO



As figueiras hoje estão perdidas por falta de tratamento, mas em meados do século passado eram muito acarinhadas pelos alcoutenejos.

Depois de secos, os de melhor qualidade serviam para a alimentação das pessoas, principalmente, quando iam trabalhar para os campos e os piores destinavam-se ao alimento dos animais como bestas e porcos.

Era junto ao rio que existiam as melhores figueiras e na época da apanha (meados de Agosto e meados de Setembro) os proprietários com os familiares dirigiam-se para as várzeas do rio onde as figueiras eram mais abundantes e de maior porte. Levavam os porcos consigo para poderem aproveitar aqueles de pior qualidade e que iam ficando pelo chão.

Era tempo de calor. Comiam-se gaspachos e dormia-se numa cabana quando não ao relento.

Os figos eram varejados com uma cana e postos a secar num caniço ou passeira (palha de centeio ou junco).

Depois de secos eram transportados em sacos no dorso dos animais para o monte e a seguir serem escaldados e colocados às camadas em canastras, quando não se dispunha de arcas de castanho, o melhor sítio para os conservar juntando-se-lhe ervas doces e funcho.

Só depois da apanha dos figos e da sua secagem, a família regressava a casa onde alguém tinha ficado para tratar dos animais que ficarm e para cozer a amassadura semanal que ia alimentando toda a família.

N.B. – A cultura cerealífera já foi abordada neste espaço e em tema próprio pelo que nos escusamos de a repetir.

NAS VÁRZEAS



As várzeas do Guadiana são os terrenos mais ubérrimos do concelho de Alcoutim e como tal muito disputados e repartidos. A proximidade da água e os terrenos de aluvião, aqui designados por “fango” proporcionavam boas culturas.

As melhores oliveiras, muitas centenárias, encontravam-se por aqui, tal como as vinhas, as figueiras e mesmo na margem os marmeleiros e as romãzeiras que com o seu raizame suportavam as terras.

O milho, o feijão e outras leguminosas eram aqui semeadas, as abóboras (frades) desenvolviam-se com facilidade e atingiam grandes dimensões.

Mesmo distantes, não deixavam de ser convenientemente trabalhadas pelos seus proprietários, que assim faziam face a algumas das suas necessidades.

HORTEJOS



Situavam-se mais próximo das residências, junto a um barranco cuja margem era desbravada com o abate dos loendreiros, o aproveitamento da pouca terra existente que para seu suporte construíam paredes de pedra solta pretendendo, assim, defendê-los das barrancadas, como chamam à força das águas que trazem as chuvadas invernosas.

Construíam sempre um pequeno poço para poder efectuar a rega, muito doseada aos poucos produtos hortícolas que lá semeavam.

Batatas, alfaces, uma ou outra couve, uma leirinha de alhos, meia dúzia de tomateiras, como cá dizem, um ou outro pimenteiro e os indispensáveis coentros.

Quando a canícula apertava, ao cair da tarde, lá iam as moças com o caldeiro no braço regar as primícias, já que era trabalho que lhe estava destinado. Aproveitavam para trazer para casa algo que necessitavam e estivesse capaz de colher.

Os terrenos junto aos montes eram destinados a ferragiais indispensáveis para prender os animais que iam pastando.

Aqui tinha que se produzir, pois além de não haver dinheiro para comprar, não havia quem vendesse.

PASTORÍCIA



Esta actividade andou sempre ligada à cerealicultura, complementando-a ora como principal, ora como subsidiária, contudo, estranhamente, não encontrámos nos Registos de Arrolamento de Gados da Câmara Municipal, no século XVII, ninguém de Afonso Vicente, o que não é fácil de perceber, já que em todos os “montes” das proximidades houve vários manifestos.

Enquanto uns se dedicavam às cabras, outros faziam-no em relação aos ovinos e ainda outros ao gado vacum.

Em 1891 um natural e morador em Afonso Vicente, umas vezes designado por Francisco Afonso e outras Francisco Lourenço, é encarregado pelo então Administrador do Concelho de ir vender à Feira de Aljustrel gado constituído por mais de uma dezena de cabeças de gado vacum.(2)

De uma maneira geral todos tinham as suas cabeças, já que além do leite e da carne vendiam sempre exemplares, principalmente borregos, o que lhes possibilitava obter dinheiro para despesas indispensáveis. Algum café ou açúcar, os infalíveis impostos, as botas, caçoilas, tigelas e pelanganas, alguma sardinha e pouco mais. Alguns destes produtos, nomeadamente, as sardinhas e a louça de barro, eram trocados por ovos e trigo, isto até ao primeiro quartel do século passado.


Ainda são visíveis, espalhados pelos terrenos circunvizinhos, vários currais em pedra solta onde o gado era recolhido.

As transacções dos animais tinham lugar normalmente nas feiras de Garvão, Almodôvar ou Aljustrel. Que eram os melhores mercados da região e a distância vencida a pé.

Ainda hoje o “monte” possui um rebanho de cerca de uma centena de cabeças de gado ovino.

Quase todos criavam o seu porquito que engordavam com produtos que colhiam e onde não falta o figo de tuna que, segundo dizem, dava à carne um gosto especial.

Hoje no monte, já não há ninguém que mate porco! Já são poucos os pocilgos existentes.

Os mais abastados, os chamados “lavradores”, matavam mais do que um exemplar, pois as necessidades eram maiores.

N.B.A relação entre o pastor e o patrão, os proventos e obrigações irá ser publicada em tema próprio e de carácter geral em relação ao concelho.

COMÉRCIO


O dado mais antigo que conhecemos de uma actividade comercial, ainda que ela não fosse exercida no”monte” mas sim na vila, é o facto de Manuel Madeira ter arrematado na vila o corte de carnes verdes dependente de cinco cláusulas que aceitou e onde era fixado o número de cortes semanais e os preços que variáveis em diferentes épocas do ano. E isto teve lugar em 1844. (3)

Os seus habitantes nunca estiveram virados para esta actividade.

Existiram, no “monte”, duas vendas (tabernas), a mais antiga pertencente a José Dias, a outra propriedade de Diogo Mestre. Esta vendia também riscados e cabedais, pois na altura trabalhavam no “monte” dois sapateiros.

No primeiro quartel do século XX, era vulgar as mães mandarem as filhas à venda com dois ovos para trocar por petróleo. (4)

Havia também um vendedor ambulante de loja às costas. Vendia o que podia (riscados, linhas) aceitando muitas vezes ovos como moeda de troca. Igualmente um alfaiate exercia a sua profissão trabalhando, principalmente, aos dias em casa de quem solicitava a sua actividade.

Estas duas vendas extinguiram-se em meados do século passado.

Mais tarde apareceu outra do sr. Diamantino Afonso, igualmente sapateiro, que fechou em meados dos anos 70 do século passado, pois mudou residência para o concelho de Beja, onde ainda se encontra.

É muito velha esta quadra que se cantava com frequência nas vendas e que tem sido transmitida de geração em geração.

Viva o Venâncio da Palma,
José Dias, sapateiro
Manuel José de Marrocos, (5)
António da Costa, solteiro.

ARTESANATO



Além dos já indicados sapateiros, no século XIX exercia a actividade um albardeiro.

Como era tradicional, algumas tecedeiras, igualmente, exerciam a esta profissão subsidiária, sendo lembrada como a última, Maria Custódia Dias, que ainda conhecemos. Faziam coisas simples, como mantas de trapos, sacos e toalhas.

Fazer cestos e canastras era apanágio de quase todos os homens, tal como cadeiras de loendro e tecer os seus fundos com junça ou tabua. Fazia parte da cultura dos homens da região.

CONTRABANDO

Ainda que seja uma actividade ilegal não a queremos deixar de referir, já que foi própria de toda a zona raiana, onde Alcoutim se insere.

Se o concelho de Alcoutim, durante a existência de um século da Guarda Fiscal deu grande contributo no seu recrutamento e se é verdade que alguns afonso-vicentinos fizeram parte deste Corpo de Fiscalização, também não o deixa de ser no campo oposto e por vezes da mesma família.

Contrabandistas existiam em todos os “montes” da freguesia de Alcoutim e em muitos do seu concelho, onde nos locais mais afastados existiam “armazéns”.

Contrabandistas não eram só os que faziam o transporte das mercadorias, pois tinham por trás alguém com algum capital que era o investidor.

Documentado temos o caso do levantamento de um auto pelo Administrador do Concelho pelo crime de contrabando e fuga praticado do J.L. e outro de Afonso Vicente.

O auto foi remetido ao Delegado do Procurador Régio na Comarca de Tavira pelo ofício nº 95 de 30 de Setembro de 1874.

Um amigo de Afonso Vicente, não há muitos anos falecido, contou-nos algumas das peripécias de que passou por causa do contrabando, isto realizado no segundo quartel do século passado.

Muitas “estórias” de contrabando ainda se vão contando sobre homens desta povoação, algumas com recortes pouco ou mal definidos como aconteceu com Constâncio Costa desaparecido de maneira enigmática, o que deve de ter acontecido por circunstâncias políticas e não por contrabando como é vulgar ouvir.
____________________________________

NOTAS
(1) – Xaragoaço, de xara (esteva), do árabe xa ´ara.
(2) - Ofícios nºs 95 e 97 de 7 e 15 de Julho do Administrador do Concelho de Alcoutim.
(3) - Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 25 de Maio de 1844
(4) - Contado por minha tia Maria Catarina Costa que executou essa tarefa bastantes vezes.
(5) – Bisavô de meu filho.

(CONTINUA)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Rastrilho



Quando chegámos a Alcoutim ouvimos pelas primeira vez pronunciar, entre muitas outras, as palavras rast (r) ilho, cepilho ou garlopa cujos significados desconhecíamos completamente.

Fácil foi verificar que rastilho (como se diz em Alcoutim) para o alcoutenejo era o mesmo que para nós ancinho.

Procurando na meia dúzia de dicionários de que dispúnhamos acabámos por encontrar num só
(Dicionário da Língua Portuguesa, Fernando J. da Silva, Editorial Domingos Barreira, Porto, 4º Edição, 1984) um significado que se ajusta: - grade ou ancinho cujas pontas espicaçam e ao mesmo tempo limpam a terra.
Os outros omitem o termo e quando o trazem não tem este significado.

O exemplar representado na foto é muito antigo e foi-nos oferecido por um amigo que já não está entre nós, faltando-lhe colocar o cabo de madeira, habitualmente de zambujeiro.

Pensamos que será obra de um ferreiro dos vários espalhados pelo concelho, tendo havido uma forja no monte de S. Martinho (Cortes Pereiras).

Este utensílio agrícola serve para retirar da terra objectos de alguma dimensão que prejudicam a sementeira e ao mesmo tempo para aplanar o terreno para a mesma se poder efectuar em condições.