segunda-feira, 19 de março de 2012

D. Miguel Luís de Meneses, 1º Conde de Valadares, neto do 5º Conde de Alcoutim, do mesmo nome

D. Miguel Luís de Meneses era filho de D. Carlos de Noronha, Comendador de Marvão na Ordem de Avis e presidente da Mesa da Consciência e Ordens, um dos Conjurados e de D. Antónia de Meneses, filha legitimada de D. Miguel Luís de Meneses, 5º Conde de Alcoutim, seu avô materno a quem foi buscar o nome.

Nasceu em 1638, por isso, dois anos antes da Restauração.

O título criado pelo rei D. Pedro II de Portugal, por carta régia de 20 de Junho de 1702, o que veio a pôr cobro a uma longa questão jurídica encetada por D. Carlos de Noronha.

Foi acordado que ficaria pertencente do novo condado certas rendas em Leiria, sucedendo nos bens da Casa de Vila Real doadas a sua mãe pelo avô e sendo comendador de São João da Castanheira, São Gião de Montenegro e da Granja de Alpiarte, na Ordem de Cristo.

Casou aos 16 anos com D. Madalena de Lencastre e Abranches, filha herdeira de D. Álvaro de Abranches da Câmara que foi conselheiro de Estado e Governador de Armas da Província do Minho e Beira e de sua mulher D. Maria de Lencastre, filha do 4º Barão de Alvito, D. João Lobo.

Deste matrimónio nasceram seis filhos, sendo o primogénito D. Carlos de Noronha, tal como o avô, herdou o título e veio a ser assim o 2º Conde de Valadares. D. Álvaro de Abranches, nascido a 7 de Junho de 1661, foi um dos seus filhos que mais se notabilizou. Entre outros cargos, exerceu o lugar de Bispo de Leiria não tendo aceite o de Arcebispo de Évora com que D. João V o pretendeu distinguir.

No séc. XVII, o Palácio de Valadares em Lisboa estava na sua posse habitando-o com a esposa desde o casamento, tendo aí falecido em 1 de Fevereiro aos 76 anos, foi sepultado no jazigo de família no vizinho Convento do Carmo.

Neste palácio continuaram a viver os Condes de Valadares até 1755, ano em que sofreu os efeitos do terramoto e teve de ser reconstruído, obra mandada realizar pelo 6º Conde e concluída em 1785.

___________________________________________

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História.

Wikipédia, a enciclopédia livre

http://www.geneall.net

http://www.monumentos.pt

domingo, 18 de março de 2012

Grade



Este tosco aparelho era constituído por dois troncos de cerca de um metro de comprimento ligados por duas barras de ferro e que eram embutidos por cavilhas de ferro pontiagudas, a que chamavam dentes e com algum espaço entre eles.

Era puxado por bois ou machos, destinando-se a gradar a terra ou seja esterroar ou aplanar a mesma depois de lavrada.

O presente exemplar é bem antigo e rudimentar. Havia-os de diversos tamanhos, conforme as necessidades dos utilizadores.

Reparar que a peça dianteira tem uma configuração um pouco abaulada ao contrário da outra e isto acontece para que qualquer empecilho seja deitado para os lados com mais facilidade.

Com a evolução, estas peças passaram a ser todas em ferro e os tractores substituíram os animais.

Naturalmente que os poucos objectos deste tipo existentes no concelho constituem verdadeiras peças de museu, o que não existe no concelho de Alcoutim.

sábado, 17 de março de 2012

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - XXIII




Escreve


Daniel Teixeira




VOLUNTARISMO E IMPOSIÇÃO

Alcaria Alta era e sempre foi uma grande terra, um grande Monte que conseguia conciliar uma população relativamente alta (na proporção) com alguma tranquilidade e muito poucos conflitos.
Havia sempre, como em todos os lados, penso, pessoas que tinham uma noção não muito exacta sobre aquilo que era conviver por lá visto na perspectiva ética cimentado nos costumes mais antigos e por vezes outras tinham alguma escassez de ética quase natural que não tinha nada a ver com conflitos de interpretação geracional mas sim com a tal falta de chá em pequenino.

Os poucos conflitos que conheço sendo de quase somenos importância têm sobretudo a ver com relações de vizinhança mal digeridas o que por vezes tinha também a ver com a difusa demarcação de territórios. De uma forma geral, e conheço isso por razões profissionais, os maiores destruidores da unidade familiar alargada, na minha modesta opinião - é claro - são os divórcios e as heranças.

Deixemos a sociedade moderna e o espartilhamento relacional que a habitação empilhada e o distanciamento métrico favorece, muitas vezes como desculpa, mesmo, teremos de reconhecer, metendo neste caso eu mesmo a mão na minha poluída consciência neste aspecto.

Ora e feita esta minha mea culpa e entendendo que os divórcios não eram abundantes no meu tempo de criança e jovem no campo, resta-nos as heranças que normalmente são discutidas ao milímetro quadrado em qualquer parte do mundo. De facto era aborrecido - penso eu que seja lógico pensar-se - que um longínquo sobrinho cuja existência até se desconhecia venha a obter parte numa coisa para cuja construção e ou consolidação e ou manutenção nunca mexeu uma palha.

E esses rumorejares aconteciam, ficavam, deixavam as pessoas indispostas, por vezes repetitivamente revoltadas, enfim...penso que seja fácil entender: já é mais difícil ter de ouvir bater sempre na mesma pedra, isso sim..., ser naturalmente simpático e ouvir, e ouvir, e ouvir e não ter coragem de dizer que já vamos na audição do centésimo relato.

[Acesso ao monte. Escola há muito desactivada. Foto JV]

Contudo alguns dos mais fortes embates tiveram lugar após o 25 de Abril não propriamente por razões políticas mas dada a relativa e inesperada liberdade que houve dificuldade em gerir. Um mundo novo parece ter-se aberto e qual artesões confrontados repentinamente com novas tecnologias o pessoal acabou por se ver um bocado à nora.

O voluntarismo institucional, máquinas do exército para arranjar caminhos, por exemplo, foi bem aceite e neste caso cabe perguntar (esta minha curiosidade intelectual ainda me vai «matar» um dia) cabe perguntar, dizia eu, se neste composto voluntário institucional não terá contado para a imediata aceitação o facto de haver neste composto também alguma imposição implícita.

Na verdade e pelos recontos que obtive tudo foi feito «pela tropa», «foram eles que arranjaram», «chegaram aqui um dia com as máquinas e em três dias endireitaram aquele caminho todo», etc. etc. - a tal de democrática consulta popular talvez fosse um processo demasiado lento para a urgência militar, neste caso, pelo que o facto consumado acabou por funcionar. Não vi mas calculo que os mirones das obras fossem todos os habitantes disponíveis no Monte. No entanto o voluntarismo local não teve a mesma sorte daí que eu me tenha lembrado de falar atrás do factor impositivo.

Por exemplo, o Rossio de Alcaria Alta, que era um descampado que começava em termos métricos a seguir á Escola Primária para quem entra no Monte pelo lado de cima e se estendia quase em redondo até à taberna da Ti Inácia contornando para a esquerda junto às pocilgas da minha «avó» Assunção (e depois também as do Chico Artur) que ficavam junto à Portela de Santa Justa, subindo depois um pouco no sentido contrário até onde agora está (penso eu) um poço com roda de puxar, tinha um afundamento ligeiro no terreno sensivelmente a meio do seu circulo, afundamento esse que ia desaguar quando chovia junto ao poço já na entrada da zona da Valdégua, que até tinha agora as rochas arrumadas e calcadas pela tropa.

Ora o Ti Zé Luís, um agricultor comerciante e vice-versa, que fornecia linhas, agulhas, elásticos e material do género mesmo em sua casa e que de quando em vez fazia surtidas pelos montes com o macho aparelhado e encaixado nas laterais à comerciante era tido como sendo simpatizante comunista.

Ora, por aquilo que me apercebi em Alcaria Alta para algumas pessoas bastava ter barba comprida para se ser apelidado de comunista. Eu safava-me com a minha barbicha a meio caminho e talvez porque fosse «bom moço demais» para ser isso...não sei. Acho também porque lá eu nunca cresci e que mesmo de barbas, casado e depois pai de filhas ainda me viam de calções curtinhos e botas cardadas chutando as pedras.

Bem, o Ti Zé Luís tinha «contra» si pelo menos um factor: tinha trabalhado ao que me constou na Mina de S. Domingos e de lá «saíam todos comunizados». Até um tio indirecto meu que era das Velhas e que também tinha andado a penar debaixo de terra «era comunista», mas neste acertavam eles sem saber porque embora não percebesse nada de política o PC ou coligações tinham nele um voto certo.

[Antigo poço do monte. Foto JV]

Pois, o certo ou errado «comuna» do Monte resolveu um dia fazer uma coisa que até tinha bastante jeito que era uma vala de escoamento a meio do Rossio, que no Inverno tinha de ser contornado na sua enchente. O homem meteu o seu trabalho, meteu o seu macho a puxar o arado, teve o trabalho de escavar em complemento sem ajuda de ninguém (e sem mirones, pelos vistos) e acabou por levar um arraso verdadeiramente desmotivador de qualquer exercício cívico.

A minha prima queixou-se que tinha de ir deitar a minha Tia Zabelinha e tinha de atravessar o Rossio à noite e que podia partir uma perna, outros queixaram-se por causa dos animais que tinham de contornar a vala e a hipótese de fazer pontões ou meter manilhas de cobertura para passagens estava fora de causa (financeira e técnica).

Breve...parece que o estou a ver de mãos na cintura a olhar o trabalho completado com aquele olhar de satisfação próprio de quem acaba de cultivar um mortiço baldio ao mesmo tempo que o vejo irritado com a críticas.

Houve mais outra operação de voluntariado deste tipo realizada já por um grupo local de cinco ou seis homens mas essa acabou por ser levada no gozo. Eles diziam que tinham feito uma estrada de Alcaria Alta até Santa Justa, cabendo a este lado a ida até ao ribeirão e ao lado de Santa Justa o caminho inverso até ao Ribeirão na sua margem: quando chegaram quase ao fim viram que os dois caminhos (chamados de estrada) não encaixavam por uma centena de metros: um foi muito para a esquerda e/ou o outro foi muito para a direita pelo que vá de fazer uma curva de emergência.

Acontece que eu tive oportunidade de percorrer essa «estrada» anos depois e para além das pedras a bordejar o «traçado» fiquei com a sensação de que o conceito de estrada se tinha ficado por aí...para mim terá ficado o gesto e o voluntarismo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

A Igreja Paroquial de Sanlúcar do Guadiana

[Fachada do templo. Foto JV, 1986]



A igreja paroquial de Nª Sª das Flores ou de Maria SS das Flores representa a património histórico-artístico da povoação.

É dada como construída no século XVI e Duarte de Armas já a representa no seu Livro das Fortalezas dos princípios daquele século.

Como se pode verificar, na fachada do templo já se pode observar uma configuração muito próxima da actual, falta-lhe apenas a parte cimeira em pedraria que suporta os sinos.

[A igreja vista por Duarte de Armas no século XVI]

Possivelmente, esta parte foi concluída em meados do século XVIII.

A igreja possui valiosas pinturas da escola franco-florentina.

A sua padroeira é a Virgem de La Rábida, cuja imagem barroca, esculpida no século XVII, foi restaurada recentemente (1980) pelo artista León Ortega.

É-lhe dedicada uma festa anual, que tem lugar no fim de semana seguinte ao Domingo de Páscoa, com uma duração de quatro dias, fazem-se procissões pelas ruas da povoação sendo levada a imagem no andor aos ombros dos seus vizinhos e escoltada por jovens dançarinos envergando trajos típicos. É hábito os alcoutenejos associarem-se a tais festejos.

Está situada numa posição elevada e rodeada de escadarias.

A porta principal é de arco perfeito. Por cima, o campanário em pedra à vista com dois patamares, o primeiro com duas aberturas, tendo cada uma o seu sino e no superior mais estreito com uma abertura e um sino. Devido à posição relativamente segura, é costume as cegonhas aproveitarem o local para fazer ninho, o que acontece igualmente em Alcoutim na Ermida de Nª S. da Conceição.

As grandes janelas dão boa luminosidade às três naves e quatro tramos de arcos redondos.

À entrada e à esquerda encontra-se a pia baptismal de granito.

Por cima da porta principal e em posição mais elevada situa-se o coro.
O púlpito é de ferro e de forma hexagonal.

No altar-mor a Imagem da Padroeira, bonita e bem conservada. Cúpula semicircular.

O chão é forrado de mosaicos pretos e brancos entrecruzados.

Servia-a um cura vigário de concurso e provisão ordinária, isto pelo menos em meados do século XIX.

[Interior do templo]

Junto a esta igreja o Conde Jerónimo Ró, comandante desta fronteira, na altura das Guerras da Restauração, construiu um forte para se poder opor aos ataques oriundos de Alcoutim, mas como tal não assegurou a defesa ambicionada construiu ou restaurou o Castelo de S. Marcos que acabou por ser ocupado por Schomberg em 1665.

Após as pazes e o regresso dos sanluquenhos, uma das tarefas foi tentar recuperar os cinco altares que tinham sido levados e que estavam espalhados por vários locais.

Conseguiram recuperar o altar-mor da igreja que se encontrava em Mértola, pagando 2000 reais de resgate. Para que isto acontecesse, naturais desta povoação tiverem que se deslocar várias vezes a Lisboa.

No período salazarista era o relógio desta igreja que fornecia horas a Alcoutim já que o relógio municipal localizado na Igreja de Nª Sª da Conceição não funcionava, estava caduco e não havia dinheiro para outro. Isso só veio a acontecer depois do 25 de Abril de 1974.
_____________________________________

Livro das Fortalezas, Duarte de Armas, Fac-simile do MS.. 159 da Casa Forte do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Introdução de Manuel da Silva Castelo Branco, 2ª Edição, Lisboa 1997.

Diccionario Geográfico-Estadistico-Histórico de España y sus posesiones de Ultramar, por Pascual Madoz, Madrid, 1845-1850)

História de Sanlúcar de Guadiana (dactilografado)

Wikipédia, a enciclopédia livre

http://virgendelarabida.es/

“Especial Sanlúcar” in Jornal do Algarve de 7 de Dezembro de 2000

quinta-feira, 15 de março de 2012

Estatística - Mês de Fevereiro de 2012




1º - SÉRGIO PICA (2010.04.28) – 46

2º - A CHARRUA (2011.05.26) – 43

3º - REENTRADA – A DIFERENÇA (2012.02.01) - 37

4º - DOÇARIA DE NATAL - (2010.12.25) – 35

5º - ALDEIA DO SURF - (2011.07.16) – 27

6º - CRÓNICAS E FICÇÕES SOLTAS – ALCOUTIM – RECORDAÇÕES – (2012.02.05) – 22

7º - PESSEGUEIRO, O “MONTE” MAIS DINÂMICO DO - (2011.12.07) - 17

8º - DUARTE MOURA, UMA PERSONALIDADE – (2011.02.17) - 17

9º -BANDA DE ALCOUTIM (1873) – (2012.02.07) – 16

10º - AFONSO VICENTE FOI UM GRANDE MONTE DA FREGUESIA DE – (2012.02.22) – 16


Ainda que um pouco tardiamente, devido a factos conhecidos pelos nossos visitantes / leitores, vamos apresentar hoje o top ten referente ao mês de Fevereiro último.

Isto de estatísticas valem o que valem, mas são sempre um ponto de apoio para alvitrar qualquer coisa.

Surpreendentemente, SÉRGIO PICA, uma nota biográfica que organizámos sobre um alcoutenejo que já não está entre nós e publicada neste espaço em 28 de Abril de 2010, ocupa o 1º lugar o que penso não ser a primeira vez que acontece. A razão porque tal acontece é que não sei explicar.

A CHARRUA ocupa a segunda posição e tem sido uma das dez postagens mais procuradas desde sempre, talvez por alguma minúcia que apresenta. Lembramo-nos ter recebido na altura alguns e-mails, mesmo da vizinha Espanha, no sentido de prestarmos certos esclarecimentos, o que fizemos com gosto e dentro das nossas possibilidades.

A 3ª posição é ocupada pelo nosso artigo de reabertura que tem o título de REENTRADA – A DIFERENÇA, que é bem elucidativo da nossa perspectiva das coisas e onde nunca conseguimos misturar azeite com vinagre.

A DOÇARIA DE NATAL que ultimamente tem sido muito procurado, ocupa a posição seguinte, sendo a 5ª, ALDEIA DO SURF, de autoria do nosso colaborador José Miguel Nunes, algarvio pelo nascimento e que tem algumas das suas raízes no concelho de Alcoutim. Não nos deixa de admirar a sua procura já que não é um assunto relacionado com o nordeste algarvio, mas nem por isso deixa de merecer interesse.

Seguidamente, aparece-nos CRÓNICAS E FICÇÕES SOLTAS (2012.02.05) do nosso colaborador Daniel Teixeira que vem desenvolvendo esta temática rebobinando a sua privilegiada memória e oferecendo-nos quadros de um Alcoutim já distante que marcou a sua infância e adolescência. São testemunhos que fazem parte da história alcouteneja.

PESSEGUEIRO, O “MONTE” MAIS DINÂMICO DO - (2011.12.07) - já nos habituou a ser dos mais procurados, justificando assim, a posição que ocupa e de que nada nos admira.

O mesmo não acontece com o lugar ocupado por DUARTE MOURA, UMA PERSONALIDADE – (2011.02.17) que apesar de já ter sido publicado há um ano, aparece aqui em posição de evidência, o que significa que a abordagem que fizemos se justifica plenamente.

Aparece-nos de seguida a BANDA DE ALCOUTIM (1873) – (2012.02.07) incluída na nossa rubrica Câmara Escura. Justifica-se plenamente o lugar ocupado, visto tratar-se da fotografia mais antiga que até agora publicámos e com grande significado para a cultura alcoutenense.

Na última posição surge AFONSO VICENTE FOI UM GRANDE MONTE DA FREGUESIA DE... – (2012.02.22) um dos vários artigos que temos vindo a publicar sobre este monte.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Vida no campo quando no campo havia vida




Um conto de

José Temudo


[Quadro de Charles Emile Jacques]
1

A "estorieta" que vou contar-vos é velha de mais de setenta anos. Tomei conhecimento dela, de forma indirecta, através de pessoa de família, que a ouvira a alguém que, por sua vez, a tinha ouvido a..............e por aí fora. E, por isso, não garanto que a "estorieta" se tenha passado realmente tal como a vou contar." Quem conta um conto....", e eu próprio não estarei isento de cair na tentação de lhe "acrescentar um ponto."

2

Uma qualquer história, e também esta "estorieta", passa-se num tempo e num lugar, tem protagonistas e uma acção.

Já situei a época em que decorreu esta muito breve "estorieta", entre meados dos anos trinta e meados dos anos quarenta do século passado. Portugal era, então, um País essencialmente agrícola, pouco alfabetizado, muito religioso e também muito atrasado relativamente aos países europeus mais desenvolvidos. O interior do País, designadamente as aldeias, viviam no século ou nos séculos anteriores, como se o tempo, isto é, o progresso lhes tivesse passado ao lado.

As aldeias, em vez de estradas, tinham maus caminhos, só transitáveis a pé, a cavalo ou por carros e carroças puxados por cavalgaduras ou por bois; desconheciam a energia eléctrica e as suas aplicações domésticas; não dispunham de água canalizada, embora desfrutassem de água boa brotada de nascentes; os aldeãos não tinham livros, não liam jornais, e o mais certo é que nem sequer tivessem ouvido falar de rádios. Apenas conheciam a Bíblia e as suas histórias pela leitura que o snr Reitor delas fazia mostrando os caminhos " para viver com alegria e morrer com esperança."

Alimentavam-se, quase exclusivamente, com o que a terra dava, depois de trabalhada arduamente, e com a carne do porco que matavam no Inverno e que, depois de salgado e defumado, ia dando para o consumo do ano inteiro; em caso de doença ou em dia de festa, matavam uma galinha da sua própria criação.

Os mais afortunados, uma pequena minoria, tinham uma ou duas vacas para os trabalhos agrícolas, um pequeno rebanho de ovelhas ou de cabras, e um cavalo ou um macho ou um burro para transporte pessoal.

Era da venda dos borregos, dos cabritos e dos vitelos, do leite e dos queijos por eles produzidos que aforravam algum dinheiro que lhes servia para pagamento das contribuições, para comprar roupa e calçado, para pagamento de jornais ou salários e para guardar algum no colchão, para o que desse ou viesse. Para eles, os bancos não contavam, nem para pedir dinheiro emprestado, nem para depositar as economias. Eles lá tinham as suas razões!

Os menos afortunados constituíam a maioria da população rural. Eram proprietários de pequenas parcelas de terreno, eram rendeiros de propriedades pertencentes a algum senhor da Vila ou da Cidade. Viviam acima da linha de pobreza, segundo os padrões da época, mas, para isso, trabalhavam "como moiros", de sol a sol.

No fim da escala social, havia um outro grupo de aldeãos que, de seu, só possuíam a força de trabalho e o casebre onde habitavam. Viviam ou como jornaleiros, ganhando jorna a jorna, e nem sempre havia trabalho, ou prestando serviço permanente aos mais abastados, como criados ou como pastores.

3

Tendo já falado do tempo e do espaço, falarei agora dos protagonistas e da acção.

Maria e José eram dois adolescentes, sensivelmente da mesma idade, ambos nascidos em casebres, ambos filhos da má fortuna. Teriam quinze ou dezasseis anos, ao tempo em que decorreu esta "estorieta". Ela, já uma mulherzinha, de corpo grácil; ele, de boa estatura física, com buço visível, mas sem qualquer pelo de barba a despontar na cara. Tinham nascido em aldeias vizinhas e tinham frequentado a escola da freguesia, donde saíram mal tinham aprendido a ler, a escrever e a contar, para irem servir como pastores ao serviço de lavradores abastados. Com a saída de casa, era menos uma boca à mesa, sempre carenciada.

A partir daí, passaram a encontrar-se, guardando os rebanhos, nos terrenos baldios usufruídos em regime comunitário pelos lavradores das duas aldeias. E, assim, foram crescendo, saudáveis e de bem com a vida. A comida e a roupa eram encargo dos patrões e o resto........fosse o que Deus quisesse! Ele aprendera a tocar flauta que um pastor mais velho, lhe fizera e o ensinara a tocar. Ela gostava de o ouvir tocar e, por vezes, acompanhava-o, cantarolando, que, para isso, tinha jeito e gosto.

Naturalmente, ao longo dos anos, foram nascendo e crescendo neles sentimentos de grande afectividade e de uma cada vez maior intimidade. Também, no decurso desse tempo, foram reparando na alternância das estações, na renovação cíclica dos pastos, na luta violenta entre os machos na disputa das fêmeas com cio, no nascimento das crias, no seu crescimento e como se tornavam machos e fêmeas adultos, tudo se repetindo, num ciclo que parecia não ter fim.

4

Era um dia de Primavera luminoso e quente. Os terrenos do baldio mostravam-se bem cobertos de erva verdejante e de arbustos cheios de flores. As ovelhas, pastando, moviam-se tranquilas, vagarosamente. A Maria e o José, juntos, acompanhavam esse movimento, calado. Foi ela que quebrou o silêncio:

" Ao passarmos por aquela moita, tu não vais derrubar-me..........vais, Zé?"

" Não, respondeu ele, sem convicção. Tu ias gritar....não ias, Maria? ", vacilou ele, entre o receio e a esperança.

" Deste cá com uma gritadeira! replicou ela, de modo zombeteiro. E, sem mais, conversa, tomou-lhe a mão, levando-o em direcção à moita. Para ser mais preciso, para o lado escondido da moita

5

Saindo de um leve e agradável entorpecimento dos sentidos e de uma não menos leve sonolência, foram tomando consciência de modo gradual, das badaladas dos sinos da Igreja, muito distantes, muito diluídas, muito suaves, muito doces, que penetraram neles como um bálsamo, como música celestial. E, de novo, se abraçaram, amando-se, carinhosamente.

6

Creio (eu sou um pouco dado à fantasia), que a música que a Maria e o Zé ouviram mais não foi do que um hino de exaltação ou a sagração do seu amor jovem, simples e tão natural, como tudo o que eles observavam à sua volta, na Mãe Natureza.

FIM

terça-feira, 13 de março de 2012

Afonso Vicente foi um grande monte da freguesia de Alcoutim [7]

PLANTAS SILVESTRES E O SEU USO

Noutros tempos, que nada têm a ver com o que hoje acontece, o alcoutenejo e a grande maioria do povo português tinha de aproveitar ao máximo os poucos recursos de que dispunha, incluindo o aproveitamento das plantas espontâneas.

O uso ia desde a alimentação às mezinhas, passando pelo precioso auxílio que davam em determinadas tarefas.

As celgas ou acelgas utilizadas, tanto as “mansas” como as “bravas”, sendo assim distinguidas pelos alcoutenejos nos “jantares” de grão ou de feijão. Os alhos “areios” como aqui designam os alhos-porros ou arelhos são muito apreciados, utilizando o caule e a rama em guisados com tiras de toucinho e outros condimentos.

As beldroegas são uma verdura que faz parte igualmente dos “jantares”, comendo-se cozidas.

Das leitugas quando tenras fazem-se saladas.

Os poejos são uma planta espontânea que os Afonso-vicentinos ainda muito utilizam em açordas e em pratos de peixe, devido ao seu gosto activo e agradável.

No que respeita a mezinhas, o estramónio (figueira do diabo) depois de secas as folhas serviam para fazer cigarros que fumados faziam bem à asma.

O calafite utilizava-se nos inchaços e a erva da rocha, que se cria nos rochedos junto do Guadiana, era utilizada em chá contra a obstipação.

As raízes das “alabroitas” (abrótea ou gamão, do espanhol gamón) cortadas às rodelas eram utilizadas para tirar impigens quando sobre elas se colocavam durante algum tempo.

O chá de salva ainda é muito utilizado por estas paragens para dispor bem o estômago.

Muitas mais plantas são usadas como mezinhas enquanto outras se perderam com o decorrer dos tempos.

A louça sempre teve necessidade de ser lavada e o esfregão aqui era representado pela mariola em verde.

A marcela (macela) além do seu uso medicinal, quando seca era utilizada para atiçar o fogo, conforme expressão local.
A cinza originada pela queima do loendro, a que chamam “lexia”, por analogia possivelmente com lixívia, servia para desencardir a roupa através de uma barrela. Por outro lado, as varas de loendro eram indispensáveis na feitura de caniços.

Até a casca (pele) da amêndoa tinha utilidade. Servia para limpar os “amarelos”, como por exemplo as barras e maçanetas existentes em algumas camas de ferro. Por outro lado, a casca propriamente dita quando lançada no fogo, constituía uma boa fonte de calor.

Uma vez no campo, o homem ao precisar de atar alguma coisa, recorria ao travisco ou trovisco, colhendo uma vara à qual tirava a pele que assim substituía a corda, nem sempre fácil de obter. Era com travisco que atavam os enxertos por garfo de oliveira em zambujeiro.

As vassouras eram feitas de tamujo em verde ou em seco, para varrer as “arramadas” e as de mata-pulga serviam nas eiras.

A esteva era utilizada, pela sua rijeza, para fazer agulhas para coser sacos e também para os espichos nos alguidares de barro, que recebiam o azeite com a água-
O funcho temperava os figos secos dando-lhe um paladar agradável.
A cana tem variadíssimas aplicações, desde os caniços dos telhados, hoje quase acabados, até à cestaria indispensável para toda a actividade do homem do campo. O plástico veio substituir muitos destes utensílios.

As famílias não deixavam de possuir os seus canaviais nos lugares propícios ou seja, junto de rios, ribeiras e barrancos. A cana era indispensável na vida quotidiana desta gente.

O tojo era próprio para chamuscar os porcos depois de abatidos.


(CONTINUA)

segunda-feira, 12 de março de 2012

O sismo de 1969 na Vila de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nº 72 DE MARÇO DE 2006)

As recentes lembranças, através de jornais, livros, entrevistas e conferências da passagem dos dois séculos e meio sobre o Grande Terramoto de 1 de Novembro de 1755, fez-me lembrar do Sismo de 1969, pelo qual passei.

Como não me consta que algo tivesse sido descrito na imprensa, a não ser o facto de ele se ter feito sentir na pequena vila raiana, sem consequências de maior, talvez não seja descabido referir o que se passou na vila de Alcoutim no afastado dia 28 de Fevereiro de 1969.

Eu estava lá!

Dormia tranquilamente, como acontece a todos os jovens, no 1º andar da designada pensão Marreiros, situada na antiga residência do Padre António José Madeira de Freitas, por ele mandada construir em 1875 junto da igreja Matriz, no local onde esteve o passal e desaparecida por volta de 1977.

O tremer foi tanto que me fez acordar. Tive a noção do que estava a acontecer mas resolvi (!) olhar para o tecto e esperar que ele caísse! Dou entretanto pela saída espavorida de dois hóspedes acidentais e que desceram as escadas num ápice. Eram dois funcionários do Instituto Nacional de Estatística que procediam a um inquérito no concelho.

Como o tecto não caiu, voltei-me para o outro lado e adormeci.

No outro dia, lá fui para o meu posto de trabalho e é então que me dizem que a Praça da República se encheu de gente oriunda das ruas medievais da vila e que se encontrava, em trajes menores, cobertos por xailes, casacos e sobretudos enfiados à pressa e que iam comentando o acontecimento.

O guarda-fiscal que estava de serviço ao cais, informava da rápida e profunda alteração das águas do Guadiana, antecedida pela entrada espavorida dos roazes, que faziam ouvir o seu assoprar.

Os proprietários começaram a verificar o estado das suas casas, algumas das quais tinham ficado afectadas, como por exemplo aquela em que vivíamos e que apresentava algumas rachas.

Mais notório e que me lembre, por serem edifícios maiores e públicos, refiro fendas importantes na muralha do castelo, do lado esquerdo de quem entra pela porta principal. Um ano depois sofre reparação, na qual trabalhou o meu bom amigo, Sr. António Pedro Domingos (vulgo Brandão) que vive na vila e em cujo trabalho sofreu um acidente que o levou ao internamento no hospital da Santa Casa da Misericórdia de Loulé.

[Muralha do Castelo vista do Pinhão, 2009. Foto JV]

A Capela de Nª Sª da Conceição igualmente ficou danificada, merecendo algum reparo.

O velho edifício que foi residência do capitão-mor e onde funcionaram os serviços de Finanças e ainda funciona o posto da G.N.R., também ficou afectado, abrindo o canto livre do edifício, grande brecha. A quando da sua reparação, que foi demorada, desabou parte da parede junto ao telhado que só por sorte não causou vítimas. Os trabalhos obrigaram à mudança provisória das instalações.

Mais coisas de menor importância se teriam passado na vila e no concelho.
Existem muitas pessoas na vila que viveram este acontecimento como eu, ou por outra, cada um à sua maneira e que poderão recordar mais qualquer facto.
Aqui deixo este breve apontamento sobre um facto que já acaba por fazer parte da história da vila de Alcoutim.
Se não ficasse escrito, esboroava-se com o decorrer dos anos.

domingo, 11 de março de 2012

Dr. Tito de Bourbon e Noronha, um médico que passou por Alcoutim no século XIX

Nasceu em Lisboa, na Calçada da Estrela a 1 de Fevereiro de 1862, recebendo sacramento do baptismo na Igreja da Lapa.

Filho de Tito Augusto Duarte de Noronha, engenheiro, escritor, bibliófilo, sócio da Academia Real das Ciências e de D. Leonor Lizarda Pinto Coelho de Azevedo Tovar de Bourbon e Noronha, morgada de Avanca.

Passou os primeiros anos de vida na Vila de Ovar em casa solarenga que sua mãe herdou.

Aí aprendeu as primeiras letras ministradas por austero professor.

Vai, entretanto, para o Porto com os pais. Matriculam-no no Colégio de Nª Sª da Glória em 1871 e nele se conservou até final do curso liceal em 1879. Nos dois últimos anos do liceu começa a leccionar em casas particulares para ir ganhando algum dinheiro já que em casa eram seis filhos. Lecciona também no colégio onde estudara.

Em 1879 matricula-se no 1º ano do curso preparatório da Academia Politécnica, curso de três anos e em 1880 na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, terminando o curso em 1885 com a defesa da tese “As águas do Porto”.

Devido ao vencimento considerado relativamente elevado, concorre ao lugar de médico de Alcoutim onde é colocado, realizando a viagem entre Mértola e Alcoutim via fluvial, é recebido no cais pelo Presidente de então, Manuel António Torres.

Aqui se conserva cerca de um mês e onde tudo faltava, segundo afirma. Pede a demissão do lugar concorrendo para Arruda dos Vinhos sendo aí colocado e toma posse em 8 de Setembro de 1885. Por alvará do Governo Civil de Lisboa foi, entretanto nomeado subdelegado de saúde do mesmo concelho.

Aqui exerce cerca de 46 anos a sua profissão, até à aposentação, que se verificou por limite de idade em 1931.

Tem intervenção em 301 partos, tratando alguns milhares de cabeças lesadas por agressão, algumas com fracturas de crânio que os cacetes arrudenses são rijos e pesados e vibrados de cima para baixo encontram sempre primeiro a cabeça, além de ajustar algumas costelas ou braços fracturados pelos mesmos motivos.

Recebeu da Direcção-Geral de Saúde um atestado de louvor, exerceu o lugar de Delegado de Saúde e foi publicada no Diário do Governo uma Portaria em que é louvado pelo Ministro do Interior devido esforço e dedicação com que desempenhou as funções de médico Sanitário.

Casou no Porto com D. Leonor Sousa Maia, havendo deste matrimónio um filho.
Um dos seus netos, Tito de Sousa Noronha, licenciou-se em medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa e foi médico nos Hospitais Civis de Lisboa.

Percorria todo o concelho a cavalo, de carruagem ou a pé por montes e serras, sempre diligente, abandonando as refeições, as festas, o teatro ou as touradas a que assistia para socorrer os seus doentes, muitas vezes mesmo com sacrifício da própria bolsa.

Dava sempre a sua colaboração às organizações locais.

Foi colaborador assíduo do semanário vila-franquense Vida Ribatejana, de revistas e boletins. Abordou memórias, etnografia, história e arqueologia. Escreveu contos e novelas.

Cultivou igualmente a música e o teatro, tendo sido autor de uma peça que foi levada à cena em Vila Franca de Xira.

Tito de Noronha era um narrador irónico, recorrendo frequentemente a metáforas.

Faleceu em Lisboa em 1946, por isso com 85 anos de idade e ficou sepultado no cemitério de Arruda dos Vinhos.

O seu nome faz parte da toponímia da vila que serviu quase uma vida inteira.

____________________________________

“História de Arruda – História do Ribatejo – A autobiografia de um dos seus maiores no século XX, o Dr. Tito de Bourbon e Noronha”, Dr. Fernando Portela Gomes, in Vida Ribatejana, Edição Especial Comemorativa do 8º Centanário da Conquista do Ribatejo e da Estremadura aos Mouros, 1947.

Memórias de um João Semana – Crónicas – Tito de Bourbon e Noronha, Arruda dos Vinhos, 2006

http://www.cm-arruda.pt

sábado, 10 de março de 2012

Peniche, a Capital do Campeonato






Escreve


José Miguel Nunes






Chegámos a Dezembro, último mês do ano. É normalmente a altura de pensarmos um pouco sobre o que se passou durante o ano, e chegar a algumas conclusões, é da praxe.
Então vamos lá, e começo já pela primeira conclusão a que cheguei: Peniche não é a Capital da Onda, Peniche é a CAPITAL DO CAMPEONATO.

Já por diversas vezes o disse, e está escrito, para que não haja confusões do tipo: não foi bem isso que disse, foi mais isto ou foi mais aquilo, assim, está escrito, não há dúvidas. Em minha opinião, a estratégia de Peniche Capital da Onda está completamente errada do ponto de vista da sustentabilidade de Peniche como destino turístico de surf, assentando unicamente no retorno imediato e de projeção mediática de uma ou duas entidades, de uma ou duas pessoas.

No passado mês de Novembro, como sabem, e aqui foi divulgado, decorreu na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (ESM), mais um Congresso Internacional de Turismo. Pela primeira vez houve duas comunicações que tinham o surf como objeto de estudo, e muito particularmente o surf em Peniche, e uma das conclusões que esse estudo revelou, é que é importantíssimo haver um AMBIENTE E CULTURA DO SURF para que Peniche seja sustentável em termos de turismo de surf. Já agora, só um parênteses para dizer que a sala onde ocorreram estas comunicações estava completamente cheia.

Voltando ao ambiente e cultura do surf, quem chega a Peniche percebe perfeitamente que este atributo basilar para a sustentabilidade de um destino turístico com as características que se pretendem para Peniche não existe, pois nada há que ligue a terra ao surf. Mas isto leva-nos a outro problema: a perceção/avaliação que os residentes fazem relativamente a esta aposta no surf, e as suas implicações face à satisfação dos visitantes, que no caso de Peniche é bastante redutora, pois não havendo ambiente e cultura do surf, não há investimento nesse sentido, e não havendo investimento tendo como base o surf, obviamente não se gera o tal ambiente e cultura do surf, originando a insatisfação dos visitantes. Isto parece uma “pescadinha de rabo na boca”, mas a base deste problema tem essencialmente a ver com o seguinte, e também foi dito durante este congresso: para um destino turístico ser sustentável, primeiro tem que se criar a imagem do destino, e só depois criar uma marca associada a essa imagem, ora em Peniche, foi precisamente o contrário que aconteceu, primeiro criou-se a marca (Peniche Capital da Onda) e depois tentou-se criar a imagem que a sustentasse (baseada em pseudoestudos, feitos por paraquedistas do surf, que neste momento até já se encontram em paragens mais apetitosas, também já o escrevi).

Quando falo em retorno imediato e mediático, dou alguns exemplos: a Rip Curl tem organizado nos últimos três anos um campeonato que tem sido sistematicamente considerado um dos melhores do circuito, que bom para eles; a Rip Curl estima um retorno de 10 milhões de euros com um investimento de 1,6 milhões em cada campeonato, que bom para eles, o nosso Presidente é considerado o “coolest Mayor on tour”, que bom para ele, o nosso Presidente recebeu da Associação Nacional de Surfistas (ANS) o prémio de surfista do mês (Novembro), que bom para ele; o nosso Presidente foi um dos galardoados nos SurfTotal Awards na categoria do político que mais apoia o surf, que bom para ele.

Relativamente à terra em si, depois de três anos de campeonato, no que toca a infraestruturas de apoio e melhoramentos para a prática da modalidade de modo a que possa ser sustentável a nível de turismo, criando condições dignas para os locais e para quem nos visita, numa lógica de criação do tal ambiente e cultura do surf, continuamos na mesma em que estávamos antes de termos campeonato, sem tirar nem pôr, nada foi feito. Basta olhar para as condições de miséria em que se encontram as nossas praias e os seus acessos.

O Centro de Alto Rendimento (CAR), é a exceção neste marasmo de investimento em que nos encontramos há três anos a esta parte, mas atenção, o CAR está direcionado para o surf competição, não para o turismo.

Para terminar só mais duas coisinhas ainda relativamente à questão do que a esta má estratégia não conseguiu: Reserva Mundial de Surf… Ericeira, não chegou cá, e eram só uns quilómetros mais para norte, terá havido alguma estratégia para nos pôr fora disto?
World Surf Cities, rede que une locais em que o desporto tem, sem dúvida, uma grande expressão e é um importante elemento de desenvolvimento e crescimento local, impulsionando o desenvolvimento do turismo, entendendo o surf como gerador de negócios, riqueza e emprego, que recentemente foi criada em S. Sebastian, onde estão cidades como Durban (África do Sul), Hossegor (França), Newcastle (Austrália) e Santos (Brasil), entre outras. Quem lá está em representação de Portugal? … Ericeira, mais uma vez, terá havido alguma estratégia para nos pôr fora disto?

Isto leva-me a outra conclusão, os nossos amiguinhos no meio do surf são uns fixes, vêm todos para cá durante o campeonato, é só beijinhos e abraços, elogios às ondas, ao campeonato, à classe política local, … mas depois, naquilo que realmente interessa, e que pode trazer alguma mais-valia à terra em termos de desenvolvimento e sustentabilidade, Peniche!!!... não…, isso fica reservado para a Ericeira… são realmente uns “bacanos”, aliás sempre foram, não é só de agora (também já o escrevi).

Deve ser por estas e por outras que eu vejo pelo facebook de alguns deles mensagens de apoio provenientes de alguns de nós quando estes andam lá por fora nos campeonatos, é o nosso isto, é o nosso aquilo, força aí, etc, etc, etc… nada contra, pelo contrário, mas estranho, que o mesmo não aconteça nos facebook’s de alguns de nós quando representam por exemplo a seleção de Portugal, num campeonato do mundo de bodyboard.

Dever-se-ia ter apostado em algo sustentável e infraestruturas de base, pelo menos para que quem venha a seguir possa ter condições para continuar este caminho, não se correndo o risco de ser unicamente trilhado pelos atuais, criando a falsa sensação que são indispensáveis, talvez seja esse o objetivo, mas assim é difícil construir algo com sustentabilidade suficiente para pensar no longo prazo, de modo a que não se chegue ao chamado ponto de retorno.

Erro crasso, cometido na Capital da Onda, começou-se a fazer a casa pelo teto e não pelos alicerces, e é nisto, em minha opinião, que assenta a aposta no surf por parte da Câmara Municipal de Peniche, qual castelo de cartas, que se irá desmoronar ao primeiro vento mais forte, se não houver uma mudança de estratégia, … ainda vamos a tempo, … e sendo nós uma terra de nortadas… mais dia menos dia acontecerá, tornando infrutífero todo o tempo e dinheiro despendido.