quarta-feira, 14 de novembro de 2012

D. Pedro de Meneses, 1º Marquês de Vila Real e pai do 1º Conde de Alcoutim


Era filho de D. Fernando de Noronha, que devido ao casamento com D. Brites de Meneses, 2ª Condessa de Vila Real passou a usar Meneses.
 
Casou em Santo Tirso de Riba de Ave com D. Beatriz, filha do 2º Duque de Bragança a 6 de Agosto de 1462.

Por carta de D. Afonso V de 3de Junho de 1445 foi feito Conde de Vila Real, o 3º deste título e por deferência ao seu avô materno, do mesmo nome, o do ALEO, pelos serviços prestados, nomeadamente, no norte de África e em Ceuta de que foi o 1º Capitão durante 23 anos e onde faleceu. D. Fernando, seu pai que sucedeu ao sogro, capitaneou-a oito anos, tendo igualmente lá falecido.

Foi nomeado Capitão de Ceuta tal como tinham sido seu pai e avô, sendo-lhe dado também o governo da cidade como o exerceram os Infantes D. Henrique e D. Fernando podendo nomear para todos os ofícios da cidade. Foi-lhe facultado aunda poder deixar ou nomear a capitania a qualquer seu filho ou irmão, o que lhe foi confirmado em 16 de Janeiro de 1467.

A Duquesa de Bragança, D. Constança, sua tia, institui-o seu herdeiro.

Foi feito por D. João II Conde de Ourém por carta de 27 de Fevereiro de 1489 e a 1 de Março do mesmo ano elevado a 1º Marquês de Vila Real.

Foi Senhor de Almeida e de muitas terras principalmente na zona das Beiras e pensava possuir as ilhas Canárias que o Infante D. Fernando pretendeu comprar-lhe.

Foi alcaide-mor de Leiria.

Durante a batalha do Toro coube-lhe a missão de proteger D. Joana, a “Excelente Senhora”.

Assistiu ao juramento do Príncipe D. Miguel, primogénito de D. Manuel, no Mosteiro de S. Domingos de Benfica em 7 de Março, ano em que veio a morrer já velho na cidade de Lisboa.

Do casamento nasceram seis filhos, sendo cinco varões, a saber: D. Fernando de Meneses, primogénito, que sucedeu ao pai, sendo 2º Marquês de Vila Real e foi também 1º Conde de Alcoutim, D. António de Noronha, 1º Conde de Linhares (Título Antigo), D. Henrique de Meneses que casou com D. Maria de Meneses, D. Diogo de Noronha, Comendador-mor da Ordem de Cristo, D. João de Noronha, Prior de Santa Cruz de Coimbra e D. Joana de Noronha que casou com D. Afonso, 8º Condestável de Portugal.
 
Além destes, D. Pedro de Meneses teve mais sete filhos bastardos.

Morreu em 1499.
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publ. Alfa, II Volume, 1985
 
Nobreza de Portugal, Editorial Enciclopédia, Lisboa, 1960

Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses (Coord. Barroso da Fonte) Guimarães

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Zorzal

Ave de tamanho médio, escura, por vezes de tons bronzeados, purpúreos e amarelos, é mais conhecida por estorninho mas no concelho de Alcoutim é designada por zorzal, do árabe zurzal. Pertence à família dos esturnídeos.

Originário da Europa-Ásia foi depois introduzido na América do Norte, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia.

Aparece em bandos, por vezes dilatados, evoluindo em voos rápidos  com constantes mudanças de direcção.

É conhecido pela devastação que causa nos olivais.

Nidifica de uma maneira geral em regime colonial, em buracos e debaixo de telhas, aproveitando mesmo ninhos abandonados. As suas posturas vão de 4 a 6 ovos.

Enquanto o estorninho-malhado visita a Península Ibérica durante o Inverno, o preto mantem-se todo o ano.

O seu poder de ingestão de álcool, devido a uma enzima que produz, permite-lhe ingerir em grandes quantidades uma série de frutos e bagas que tendem a fermentar a partir de certo nível de maturação.

De carne escura e rija, é alvo do alcance dos caçadores que o abate.
 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Há 40 anos no Cerro da Castanha



 
O Cerro da Castanha, cujo nome aprendemos com os “velhos” alcoutenejos, foi o local tecnicamente escolhido para instalar a primeira antena que possibilitou ver com alguma qualidade televisão na vila de Alcoutim.

Já aqui nos referimos a esse facto em post de 2008.11.13 e com o título de Posto Retransmissor da RTP.

Enquanto hoje o poder autárquico tem dinheiro para “tudo” e largas dezenas de funcionários, então a Câmara não tinha dinheiro para “nada”, valendo-lhe o Imposto de Prestação de Trabalho para manter meia dúzia de funcionários e a porta aberta. É a diferença entre Democracia e a Ditadura.

Não nos consta que a Câmara tivesse entrado com alguma verba para tal, até porque não a tinha. Foi o povo que teve de se mobilizar, fê-lo com dinheiro e horas de trabalho e isto só foi possível pela acção do alcoutenejo Virgílio Rosa, tenente da Marinha.

Devido àquela instalação deslocámo-nos lá várias vezes, pois alargou-se o caminho que dava possibilidades ao nosso carrito de lá chegar. Ficámos completamente deslumbrados pela paisagem que de lá se desfrutava. Aproveitámos, na altura, para fazer várias fotografias com o nosso “caixote”, algumas das quais temos “postado” neste espaço.

Só via naquele local um miradouro minimamente apresentável que possuísse uma placa indicativa de tal no caminho que lhe dá acesso e no cimo um pequeno largo, uns canteiros com plantas xerófilas delimitativos, alguma sombra e um ou dois bancos. Pequeno arranjo no caminho.

Chegámos a abordar na imprensa regional o assunto, sem qualquer resultado positivo, como ainda hoje é habitual.

O Miradouro do Cerro da Castanha passou a ser local onde levava as pessoas que nos visitavam e mostrámo-lo a muitos alcoutenejos que o desconheciam completamente como aconteceu com os que a foto apresenta.

A antena, segundo nos informaram, foi transferida para o cerro da Grandaça no sentido de servir os “montes do rio”, desconhecendo se ainda está em actividade.

Nunca mais fomos ao Cerro da Castanha!

domingo, 11 de novembro de 2012

Favas com casca guisadas com azeite


 
É dos pratos que conheci em Alcoutim um dos que mais aprecio. Nunca o vi confeccionado em qualquer outra parte.

Tenho contado a estória várias vezes. Quando estava hospedado na chamada Pensão Marreiros na vila de Alcoutim, perguntaram-me se gostava de favas. Disse que sim e muito. Ainda sou do tempo em que me ensinaram que se tem de gostar de tudo, umas gostamos mais outras menos, mas nunca se diz que não se gosta.
 
Quando me apresentaram o prato, fiquei um pouco confuso, pois as favas tinham sido cozinhadas com a casca. Aqui para nós que ninguém nos lê, aquilo parecia comida para animais e não para pessoas!

Comecei por escolher os miolos, mas às tantas optei por uma casca que não me soube nada mal, insisti e comi tudo, já não me lembro, mas possivelmente repeti. A partir daí, venham favas com casca!

Tenho de dizer que estas favas têm de ser bem tenras, o que dificilmente se encontra nos mercados. Isto destina-se mais às pessoas que as têm da sua lavra e as podem apanhar no princípio, pois quando estão mais feitas (maduras) já não se devem fazer desta maneira.

Praticamente tiram-se-lhe só as pontas. O guisado é feito em azeite e as ervas aromáticas são o grande segredo. Leva coentros, hortelã, folha de alho e folha de cebola que eu prefiro fazer em pequenos molhos atados com linha branca. Como variante pode deitar-se uns bagos de arroz.

O acompanhamento é feito com peixe frito, preferindo neste caso o do rio.

Há anos, tive a oportunidade de confeccionar este prato para duas amigas que não o conheciam. Andámos apanhando as favas e já tinha previamente preparado o peixe, neste caso, barbo que as minhas visitas também não conheciam. Posso dizer e não se tratou de uma questão de delicadeza que gostaram muito do prato.

sábado, 10 de novembro de 2012

Já chegámos às 100 000 VISITAS!


 
Estalam os foguetes no ar em dia de festa! Ontem, dia 9 o ALCOUTIM LIVRE atingiu um número de visitas que quando foi criado não estava nos seus horizontes alcançar. Eles aí estão após 4 anos e 5 meses de existência.

Os foguetes estalaram no nosso imaginário. Eles aí estão!
 

 Dissemos quando alcançámos as 90 MIL que o A L poderia ter chegado ao topo do seu movimento, pois pela primeira vez, desde a sua existência, os números tinham estabilizado, ainda que tivesse havido um pequeno decréscimo no movimento com uma quebra de 1,22/ dia.

Para provar que estávamos errados aqui estão os números.

As últimas 10 MIL visitas foram obtidas em 2 meses e 16 dias, o que deu uma média diária de 131,57.

Na avaliação anterior, ou seja, entre as 80 e 90 MIL, o número foi alcançado em 3 meses e 1 dia o que proporcionou uma média diária de 109,89.

Significa isto que em relação à avaliação anterior houve um aumento de 21,68/DIA o que é bem significativo.

Se é verdade que o dinamismo do ALCOUTIM LIVRE não esmoreceu, pelo contrário, talvez se tivesse reforçado, com uma acentuada mudança nas temáticas e com manutenção das antigas dentro da sua possibilidade. Não é menos verdade que o número de visitantes atraídos aumentaram consideravelmente, dando origem ao número de visitas que apresentamos.

Nestes números é importante o contributo dado pelo BRASIL de que temos visitas diárias na ordem das três dezenas e os Estados Unidas da América e a França, que raramente falham.

Neste período visitaram-nos mais duas bandeiras, Mónaco e Gibraltar, totalizando 106.

Até ontem, o ALCOUTIM LIVRE efectuou 1263 mensagens, totalizando 5 742 páginas A/4, encontrando-se no 18º volume.

Este trabalho versátil, sério e em prol de Alcoutim e do seu concelho é realizado por uma equipa de que nos calhou ser o coordenador já que nos coube lançar o projecto. Os milhares de páginas produzidos abarcam variadíssimas temáticas, desde a história, estórias, lendas, usos, tradições, actividades, notas monográficas e biográficas, toponímia, etnografia, associações, fauna, flora, monumentos, guerras, poesia, memórias, bizarrias e muito mais.
 
Conseguimos uma equipa de colaboradores muito diferenciada nas abordagens e principalmente na maneira de escrever e de ver as coisas. Já obtivemos a figura feminina que nos faltava. Não nos cansamos de enaltecer, porque é justo, o valioso trabalho dos colaboradores, sem os quais o ALCOUTIM LIVRE perdia muito do seu interesse e tornava-se monocórdio, ainda que os assuntos abordados fossem muito diversos.

Possivelmente, sem eles o ALCOUTIM LIVRE já não existiria.

Para um projecto destes fazia falta a presença de uma ou duas pessoas que vivessem no concelho de Alcoutim e que, por isso, estivessem em cima dos acontecimentos e que nos pudessem ajudar com precisão no esclarecimento de uma ou outra situação.

As tentativas foram várias, mas nunca conseguimos obter o sim, quem conhece bem Alcoutim sabe perfeitamente porque é que isso aconteceu. Limitámo-nos a dizer: compreendemos muito bem. NÃO É FÁCIL SER LIVRE!

Junta-se um quadro e um gráfico explicativo.

QUADRO DO MOVIMENTO
OPERADO
PERÍODO
NÚMERO / DIA
ATÉ 10 000
17,55
DE 10 000 a 20 000
54,94
DE 20 000 a 30 000
77,58
DE 30 000 a 40 000
79,36
DE 40 000 a 50 000
84,24
DE 50 000 a 60 000
94,34
DE 60 000 a 70 000
100,00
DE 70 000 a 80 000
111,11
DE 80 000 a 90 000
109,89
DE 90 000 a 100 000
131,57

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Cama de ferro de "cruz de altar"


 
Mais um modelo que foi muito usado no concelho de Alcoutim e de que restam alguns exemplares como é este o caso.

As peças principais ou seja a “cabeceira” e os “pés”, que são completamente iguais no tamanho e no feitio, são diferentes nos modelos que já apresentámos, pois a parte superior não termina em linha recta, existindo um abaulamento considerável na parte central e isto para a colocação do elemento mais significativo ou seja uma cruz de forma um pouco estiolada protegida por um arco de volta inteira que acompanha o abaulamento da peça e que sugere um altar. Talvez, por isso, este exemplar está pintado a “oiro” como acontece muitas vezes em igrejas e capelas, pelo menos nas antigas, já que as modernas obedecem a outra concepção.

Este modelo também é provido como outros de bolas de metal nas suas extremidades.

Além disso, o resguardo das duas peças principais é feito por barrinhas cilíndricas de ferro todas trabalhadas em curvas.

Pensamos que seria um modelo destinado a pessoas mais crentes e talvez, por isso, e alicerçando a nossa análise pode ver um terço colocado na cabeceira.

Este modelo bem preservado possui ainda a mais-valia de ter como coberta uma linda colcha regional de carapulo, possivelmente feita no concelho, o que já não é possível há muitos anos.

Mais uma peça que faz parte da riqueza etnográfica do concelho.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - XXXIX





Escreve

Daniel Teixeira




RESUMO CRÍTICO DO QUE TENHO ESCRITO NESTA RUBRICA

Depois do que escrevi na última crónica sobre a (in) evolução do conceito de vizinhança e embora reconheça que faz parte do meu ser tentar lutar na minha medida pela sua boa memória anterior, ainda que reconheça também a sua impraticabilidade no presente, gostaria de esclarecer alguns aspectos que no curto das crónicas nunca cabem.

Tenho feito parte de todo um conjunto de iniciativas e sites (até mesmo no facebook da moda) cujo objectivo, ainda que não confessado nem programado de antemão, pretende encontrar uma plataforma de entendimento entre o passado e o presente no que se refere a formas de estar e relacionamentos.

A antropologia cultural, que desde muito novo me cativa, é para mim mais do que a mera recolha de elementos e anotações sobre acontecimentos: para mim esta disciplina tem uma função socialmente importante se tivermos em conta que ela deve procurar funcionar como um elemento de conhecimento do passado e do presente que sejam ambos ao fim e ao cabo reconhecidos no mesmo campo expressivo. Quer isto dizer que não se faz antropologia (seja ela a cultural ou outra) que tenha como objectivo único ser um inventário estático do passado ou do presente.

Porque é que eu tenho de uma forma geral retratado as pessoas que conheci em Alcaria Alta, por exemplo, como pessoas que perderam batalhas? Nunca tem sido porque a culpa, a fundamental culpa seja delas, dessas pessoas. Retrato a situação que conheci no tempo em que a conheci e o tempo era de derrota. Falei de algumas tentativas quase todas ou mesmo todas frustradas em que alguns procuraram encontrar nesgas de esperança e confiaram nas suas ambições até que chegaram à altura em que não podiam confiar mais e que só a fé os fazia mover dado que os resultados eram já nulos.

Na sua grande parte, tal como eu e os meus familiares, tivemos de partir e a tal nesga de oportunidade que foi negada àqueles que ficaram acabou por ter o seu lugar nas cidades, na emigração em geral, num outro lugar. O esgotamento dos meios locais foi-se esvaindo como água numa peneira.

O que eu procuro recordar é a luta, a capacidade de luta, que essas pessoas que foram ficando, ou as que regressaram depois de estadias mais ou menos prolongadas e se confrontaram com a necessidade de viverem um pouco melhor, mas nunca aquele viver bem que almejavam. E é essa capacidade de luta que faz falta agora neste mundo todo que é o nosso e que augura novas batalhas perdidas todos os dias.

Talvez o sacrifício e a capacidade de sofrer dos montanheiros deste período de que tenho falado seja, ao fim e ao cabo, uma escola para aqueles que por esse período não passaram e nem pensaram passar. Talvez este passado, tantas vezes olvidado e desprezado até, talvez ele venha a fazer mesmo falta porque neste momento, independentemente da dualidade campo - cidade, a capacidade de lutar, esta capacidade que eu conheci, vai seguramente fazer mais falta ainda.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Quando eu morrer




Poema
de
M Dias




Quando eu morrer,

Ponham-me asas de andorinha,

Quero voar muito alto,

Fazer volteio no ar,

Ver o mundo lá de cima,

E na primavera voltar!


Ver quem chora, quem sorri,

Quem festeja a minha ida,

Gosto de estar informada,

E ouvir os vivos dizer:

Como é que aquela não foi,

Naquela caixa comprida?


E com tanta admiração,

Divertir-me a experimentar,

Sensações do outro mundo.

De olhos fechados ver,

E sem fala, protestar!


Agora, vou vos deixar,

Com um sorriso trocista,

Gosto de representar,

E se querem que vos diga,

No outro mundo hei-de tentar,

O meu sonho de artista!


terça-feira, 6 de novembro de 2012

1755 TERRAMOTO no ALGARVE

 
Excelente edição que abrange todos ao parâmetros desde o texto passando pelas ilustrações, nomeadamente as fotográficas, esquematização, papel e encadernação.

De 237 páginas de 21X28 cm, tem textos assinados por Alexandre Costa, César Andrade, Clara Seabra, Luís Matias, Maria Ana Baptista e Sara Nunes, conforme a especialização dos assuntos.

Prefácios de António Rosa Mendes e Luís Mendes Victor.

É uma edição do Centro Ciência Viva do Algarve e para a qual mereceu variadíssimos patrocínios.

Apresenta-nos duas grandes divisões, O QUE NOS DIZ A HISTÓRIA, que se desenvolve em várias temáticas e A PERSPECTIVA DA CIÊNCIA com quatro grandes abordagens que por sua vez se vão dividindo.

Além da BIBLIOGRAFIA GERAL, apresenta um APÊNDICE DOCUMENTAL referindo As Memórias Paroquiais sobre o Algarve, sendo o concelho de Alcoutim dos menos sacrificados.

Numa edição datada de 1 de Novembro de 2005, teve uma tiragem de 2000 exemplares.

O exemplar foi-nos oferecido pelo Governo Civil de Faro.

É uma obra indispensável em qualquer biblioteca.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Um "Levantamento de Rancho" no Exército de Salazar


 
Escreve
 
Amílcar Felício
 
 
 
Estávamos em 1969 no auge da guerra colonial. Queriam fazer-nos viver a todo o custo num ambiente de guerra e para isso inventavam com requinte de tudo um pouco. Havia dias que passávamos uma manhã inteira debaixo de fogo real em campos de arame farpado, ou então divertiam-se a disparar-nos tiros de G3 a um palmo do nariz. Muitas noites enquanto dormíamos na foz do Rio Lisandro – local aonde era hábito pernoitar uma ou outra  vez – entretinham-se a rebentar granadas a 2 ou 3 metros de distância ao longo da noite, acompanhadas de rajadas de metralhadora.

Nas provas de sobrevivência, depois de nos revistarem e ficarmos sem um tostão nas algibeiras, davam-nos cinicamente uma pequena tablete de chocolate para nos desenrascarmos durante quase uma semana pelos campos, montes e montanhas de Mafra. Algumas vezes atiravam-nos com baldes de fezes humanas em operações noturnas, obrigando-nos a andar dias inteiros sem poder mudar de farda. Outras vezes tínhamos que rastejar e atravessar na escuridão da noite estreitos aquedutos mal cheirosos, aonde mal cabíamos e aonde tinham colocado um mês antes, buchos e tripalhada de porco e de vaca podres quer no chão quer penduradas no tecto.

Para os que foram posteriormente mobilizados já no Porto, ainda estariam reservadas umas pequenas "férias" de 2 ou 3 semanas em Penamacor. Por sorte, entrei numa escala de rendição individual, pelo que não acompanhei os meus camaradas em Penamacor. Pelo que me relataram, aquelas semanas ultrapassariam tudo o que se possa imaginar em dureza, perigosidade e falta de dignidade a que tínhamos sido sujeitos em Mafra. Houve noites em que foram obrigados a rastejar por cima de cadáveres que iam buscar à morgue.

Era assim o dia-a-dia que aqueles senhores nos proporcionavam, no meio de um exercício físico diário duríssimo e perigoso que passava pelas descidas à corda nas abruptas escarpas da Ericeira junto ao mar ou a atirarmo-nos do Unimog a mais de 50 km à hora com uma G3 nas mãos. Às vezes a instrução roçava o massacre, continuando durante a noite a instrução do dia. Diziam os instrutores que no conjunto da recruta e da especialidade cada instruendo palmilhava cerca de 10.000 quilómetros. Em certas alturas havia corações que à meia-noite ainda batiam 120 pulsações. Neste cenário bélico e perigoso, naturalmente que chegaram a acontecer algumas mortes que foram cuidadosamente abafadas.
 
 Era um Batalhão de cerca de 800 almas. Metade na recruta e a outra metade um pouco mais adiantada e já na especialidade, mas pouca diferença faziam. Havia gente de todos os lados do Norte, do Sul, do Centro, das Ilhas. Amparávamo-nos e ajudávamo-nos uns aos outros para nos aguentarmos no balanço, criando um espírito de corpo enorme para enfrentar aquela gente fanática pela guerra. Fazia parte do meu pelotão o Zé, um alentejano de fraca figura, casado e que vivia atormentado pela separação conjugal a que a tropa o obrigava. Ia a correr para a terra todos os fins-de-semana que tínhamos livres apesar de não se aguentar nas canetas, sempre ansioso e preocupado com o que iria encontrar.

O Zé passava toda a semana cabisbaixo e receoso das consequências do seu afastamento de casa, não sei se por maneira de ser ou se existiriam razões para aquela sua insegurança. Era um homem atormentado, um treme treme cheio de fraquezas psicológicas. De facto viria a constatar mais tarde já como Oficial no Porto, que a tropa foi um drama que separou muitos casais, quando me incumbiam de ir por aquelas aldeias do Norte comunicar e dar os pêsames pela morte de mais um ou outro jovem na frente de batalha.

Tantas vezes que me aconteceu ao comunicar a minha missão e perguntar aonde morava a viúva, muitos dos aldeãos me retorquirem: “não valia a pena cá vir perder o seu tempo amigo, pois ela ainda antes dele morrer já tinha arranjado outro”. A tropa foi uma tragédia conjugal para muita gente, não tenham dúvidas.

Como se não bastasse a Instrução duríssima a que nos sujeitavam, forneciam-nos ainda por cima uma alimentação miserável e insuficiente para as energias que despendíamos. Tínhamos a sorte de fazerem parte do nosso pelotão dois recrutas médicos, que por dever de ofício nos davam umas dicas na alimentação para compensar as lacunas da alimentação militar. Aconselhavam-nos a maior parte das vezes iogurtes e sandes de atum em conserva. Lembro-me de apesar de magro ter perdido quase 10 quilos em 3 meses, tais os esforços que nos eram impostos às vezes 24 horas por dia.

Mas tudo isto criava em nós um espírito de corpo e de unidade e entreajuda tremenda – nunca me senti tão igual entre iguais pois ali não havia diferenças -- a tal ponto que combinámos ir à luta para melhorar as nossas condições do dia-a-dia. Era um Batalhão forte e combativo que incorporava todos aqueles estudantes que tinham enfrentado o Américo Tomás em Coimbra em 1969 e que se tinham batido com a Polícia e com os seus cães, levando gatos para a Rua e colocando os cães em histeria, desorientando a própria Polícia. Tinham sido compulsivamente integrados na tropa naquela Incorporação.

Neste contexto, preparámos para certo dia um Levantamento de Rancho, para conseguir-mos alguma melhoria na alimentação. Tudo estava organizado para aquela hora de almoço. À volta das mesas em pé e em silêncio, todos esperávamos como sempre pelas ordens do Oficial de Rancho. O Oficial na sua habitual rotina lá dá a ordem sagrada: “Atenção Batalhão, sentido!” Toda a gente se pôs em sentido como sempre fazíamos. E lá continuou na sua lengalenga de sempre: “Atenção Batalhão, podem-se sentar!”. Mas aqui alto e para o baile, pois toda a gente fez de surdo como combinado. Eram 800 almas de pé e em sentido, num silêncio de cortar à faca que desobedeciam 100% à ordem do Oficial mantendo-se em sentido, pois ninguém se sentou.

O Oficial de Rancho embora aparentemente calmo ficou com um olhar que até parecia que deitava faíscas, pois constava-se que era a primeira vez que aquilo acontecia por ali, mas não disse nem uma palavra sequer. E lá continuava de corredor em corredor de mãos atrás das costas enfrentando os recrutas nos olhos, com olhos que fuzilavam. Estes por sua vez olhavam como quem olha para o infinito e não vê nada por perto. Foram seguramente mais de 10 minutos de um silêncio sepulcral aonde só se ouviam as passadas das botas do Oficial percorrendo corredor a corredor todo o Refeitório. De mãos atrás das costas lá ia ele aparentemente sereno, perscrutando ao pormenor cada recruta e escolhendo possivelmente a vítima que lhe parecesse mais fraca.

Já numa 2ª volta pelos corredores do Refeitório e sempre de mãos atrás das costas, quando passa ao pé do Zé saca agilmente da pistola e encosta-lha à testa com um olhar tresloucado e a voz transtornada e furibunda, ordenando-lhe aos gritos: “Senta-te e come ou morres!”. Oitocentas vozes em surdina gritam ao mesmo tempo: “Aguenta-te Zé!”. Mas o Zé não se aguentou. Traumatizado, com a pistola encostada à testa e a tremer como varas verdes, o Zé comeu tudo até ao fim.

Terminada a façanha o Oficial já mais empertigado e senhor de si próprio, respirando uma autoconfiança que ainda não se lhe tinha visto, enfrenta o Batalhão informando-o: “Aqui não houve Levantamento de Rancho nenhum! Vocês se quiserem comer comam, se não quiserem podem sair”. Era a lei do Exército da altura e era assim que ele limpava a sua Folha de Serviços, pois se houvesse nem que fosse um só soldado a comer, já não era considerado Levantamento de Rancho.

Claro que a seguir vieram as investigações, mas nunca chegaram a descobrir os cabecilhas. Era de facto um Grande Batalhão! Mas tinha valido a pena, pois melhoraram consideravelmente a alimentação nos dias seguintes...