sábado, 8 de dezembro de 2012

Recordando!




Escreve

M Dias

Ela veio do Sul e está em Lisboa há poucos dias. Não cabe em si de contente por estar pela 1ª vez a experimentar a liberdade de estar longe dos pais, entregue a si própria. Usa vestido de linha direita, curto, a condizer com o tom da pele bronzeada, os olhos esverdeados, e o cabelo castanho claro atado em rabo-de-cavalo.

 Estávamos em 1968 num fim de tarde agradável de finais de Setembro. Junta-se a um grupo de colegas e decidem ir lanchar a uma pastelaria. Muita algazarra, alegria, risos, tropelias.

Experimenta beber um martini e fumar um cigarrito. Fumar era chique e não se gosta de fazer má figura! Saiu acompanhada dos colegas e passados poucos minutos, o efeito do cigarro e do martini aumenta a euforia!

Ri desalmadamente e ao caminhar pelo passeio ouve a repetição das suas gargalhadas. Eco? Imitação? Pára, escuta, fica intrigada, mas continua o caminho com os colegas que entretanto se divertiam à sua custa.

As gargalhadas continuavam a ser imitadas e aí, de novo intrigada, virava-se na direção do som. Já não estou a achar piada a isto!

Mais risadas dos colegas e assim se fez o caminho até a casa.

Mas, no dia seguinte, ainda intrigada com tal situação, volta à mesma rua e surpreende-se com o que a espera. Um jovem que lhe acenava da varanda de onde lhe parecia vir o som no dia anterior, pergunta-lhe: Hoje não vens da festa? E sem esperar resposta , imita, na perfeição as suas gargalhadas .
Este episódio repetiu-se durante alguns dias. Deu em Namoro. Vivia-se a época dos revolucionários Beatles, dos românticos ADAMO, CHARLES AZNAVOUR, TON JONES, e os ultra românticos Cantores brasileiros. Dançava-se nas matinés do Clube Ferroviário, Da Lareira, Do Ad Lib e tantos outros., ao som de canções como Domingo à Tarde de NELSON NED, do CALHAMBEQUE de ROBERTO CARLOS e outros do género.

Mas os tempos, de grandes receios, de ignorância, de muito secretismo e muita censura, assustavam-nos. As cartas recebidas dos pais vinham repletas de conselhos e precauções!

É preciso estudar! O namoro fica para depois.

Os desentendimentos com o namorado que no início a encantava começaram a ser demasiado frequentes e o namoro termina!

Termina o namoro e começa a perseguição que se torna insuportável! O jovem afável e afectuoso, transforma-se.

Ao fim de muitas e variadas peripécias, consegue afastá-lo do seu quotidiano.

Passaram 25 anos e acontece casualmente o reencontro. Mas este foi um reencontro completamente inesperado e surpreendentemente chocante! O seu ex-namorado, um jovem fisicamente robusto, atlético e muito bonito, surge agora desfigurado.

Sequelas terríveis da guerra, para onde foi para cumprir o seu dever patriótico, não o deixaram prosseguir a vida, conforme os seus sonhos de há 25 anos atrás.

Agora, o nosso abraço, foi longo e molhado. De lágrimas. De tristeza,” alegria”e ternura.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Prato de cerâmica


 
Esta peça arqueológica encontrada em escavações no Castelo de Alcoutim, em campanha de 1991 / 92, é muitas vezes apresentada como logótipo dessa área de interesse.

Tem de diâmetro 25,2 cm e 7,4 de altura, dada como do séc. XIV / XV e de produção sevilhana.

O centro é ocupado por uma figura quimérica de esfinge com corpo de leão, patas a terminar em grandes garras e cabeça feminina com turbante.

A demarcação do diâmetro do bordo e do fundo é feita através de traços horizontais concêntricos, simples ou duplos, seguidos de sanefas com motivos ondulantes.

Estes dados técnicos foram obtidos no Guia do Núcleo de Arqueologia, Edição da Câmara Municipal de Alcoutim, 2003.
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O dia em que fui "arquiteto" (Mais rápido do que na Lusófona!)



Escreve

Amílcar Felício



Miguel Relvas chegou certo dia atrasado a uma aula do 1º ano na Faculdade. Entreabriu delicadamente a porta e pediu ao Professor para entrar: “Professor dá Licença?”. O Professor respondeu: “Está Licenciado!”. Pelo que se diz por aí, o homem levou aquilo à risca e não voltou a por os pés na Universidade, considerando-se Licenciado a partir dali.

Esta piada que correu meio mundo e que nos fez rir à gargalhada em tempos recentes para esquecermos as agruras da vida, fez-me lembrar um pequeno troço da minha vida na juventude que vou partilhar convosco, num certo dia em que também eu fui “Arquiteto”. Uma das vantagens da idade – isto também não pode ser só desvantagens caramba! -- é termos muitas estórias para contar e eu até fui “Arquiteto”, imaginem! Apesar de o ter sido apenas por um só dia e com contornos menos escabrosos penso eu de que... mas já lá vamos.

Estávamos nos meados da década de sessenta do século passado. Tinha desistido do curso que o meu pai me tinha “encomendado”/destinado, pois naquele tempo os filhos das minorias com posses para estudar, nasciam desde logo Engenheiros ou Doutores. A mim tinha-me saído na rifa ser Engenheiro Electrotécnico não sei bem porquê e logo eu que até tinha medo de ligar um interruptor. Possivelmente por se tratar de uma profissão muito prestigiada à época. Naturalmente que sairia daqui mais um Engenheiro Hidráulico de olhos verdes, como eram considerados jocosamente alguns Engenheiros na altura!

Assim logo que tomei consciência aonde me estava a meter e caí em mim, tarde e a más horas diga-se de passagem – em pleno exame de aptidão para Engenharia na Faculdade de Ciências – preenchi o cabeçalho do ponto e ao fim de 5 minutos, com muito espanto do Professor estava de saída. “Então o Senhor já acabou” (?) pergunta-me ele admirado. “De uma vez por todas Professor”, respondi-lhe eu saindo porta fora.

Optei por outras áreas mais apetitosas para o meu paladar, embora ainda muito em embrião na altura imaginem, apesar de estarmos na 2ª metade da década de sessenta. A “pecaminosa” Sociologia no IES -- Instituto de Estudos Sociais – actual ISCTE (Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa) que Salazar combateria com todas as suas energias pela sua “perigosidade”de levar as pessoas a pensar e a questionar-se, embora com o pretexto aparente de que teria que haver racionalização de recursos, uma vez que já existia algo semelhante, o ISCPU -- Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina – formatado por Adriano Moreira e que mais não fazia do que fabricar Quadros Administrativos Coloniais. Que eu saiba tivemos pelo menos dois conterrâneos, dois bons amigos infelizmente já falecidos, formados nesta Universidade.

O IES lutava então afanosamente com lutas por vezes bastante rijas, pelo seu estatuto de Escola Superior que na realidade tinha mas que Salazar lhe negava. Era orientado na altura pelo pai da Sociologia Portuguesa e ainda hoje considerado o maior Sociólogo Português de sempre -- o Dr. Adérito Sedas Nunes -- e por um naipe de Professores extraordinários que com ele colaboravam e de que destaco Mário Murteira em Economia, que foi Ministro dos Assuntos Sociais no 1º Governo Provisório e Jorge Miranda em Direito Público e Internacional, considerado um dos pais da Constituição de Abril. Adérito Sedas Nunes viria a integrar mais tarde o governo de Maria de Lurdes Pintassilgo, com a pasta da Ciência e da Cultura.

Senti-me assim obrigado por dever de consciência a informar os meus pais de que ia pescar para outras águas e começar a trabalhar, mas que continuaria a estudar por minha conta e risco pois iria fazer outras opções mais do meu agrado. Claro que com o bom senso dos pais a que só mais tarde acabamos por dar valor, no dia seguinte tinha o “velho” em Lisboa para me convencer do disparate que ia fazer. Mas era tarde e estava decidido, pois quando me convencia da justeza de determinado facto era teimoso como a burra do meu avô Alfredo.
 
A Arquitetura & Similares também me eram matérias simpáticas e assim comecei a trabalhar na sala de desenho da Repartição de Jardins da Câmara Municipal de Lisboa, que tutelava todos os Jardins de Lisboa incluindo o Parque de Monsanto embora com alguma autonomia. Era desenhador “tarefeiro”, uma espécie de “recibo verde” sem recibo dos nossos dias, embora houvesse muita insistência das chefias para que eu entrasse para o quadro a que sempre resisti, por não sentir o “apelo e o espírito de missão” do Funcionalismo Público tal como existia na altura. Ganhava 1750$00 o que já era um excelente ordenado naqueles tempos.

Tratava-se de uma Repartição que para lá de largas dezenas de administrativos, era composta na parte técnica por um Engenheiro Agrónomo Chefe da Repartição, por 4 Engenheiros Subalternos também eles Agrónomos naturalmente, por cerca de 5 ou 6 desenhadores e diversas Secções de Jardineiros com umas dezenas se não centenas de trabalhadores espalhados por essa Lisboa fora, cujo Chefe ia a despacho todos os dias à Sede.

Ao fim de pouco mais de um ano e apesar de “tarefeiro” já tinha sido promovido a Chefe da Sala de Desenho, por desistência do Chefe – o meu amigo Esteves -- que entretanto tinha optado pelo sector privado depois de muitas hesitações e de se ter aconselhado comigo, apesar de ser um puto na altura com 18 ou 19 anos. O Esteves era um homem do “reviralho” com quem tinha muita empatia de cerca de 35 anos, casado e já com filhos. Visitaria Alcoutim de quem ficaria encantado. Com as voltas e reviravoltas da vida nunca mais nos voltaríamos a encontrar.

No conjunto da Repartição de Jardins existiria naqueles dois ou três anos que por lá andei, seguramente duas a três vezes mais de funcionários do que as necessidades requeriam na altura. Às vezes ponho-me a pensar se há quase 50 anos já era assim, o que não será este polvo chamado Função Pública nos nossos dias, em excesso de pessoal? O cancro tem muitos anos e dizem as más línguas que teria sido um dos estratagemas que Salazar utilizou bem como o incentivo à emigração, para esvaziar a pressão social que já se fazia sentir e impedir o desenvolvimento da indústria e a afirmação do seu inimigo figadal de quem tinha pânico -- a classe operária -- mantendo “ad aeternum” o seu Portugal dócil, paroquial e campónio no mau sentido, de que tanto gostava.

O Engenheiro Chefe era um alentejano enorme e já maduro – o Cavalo Branco – como era conhecido por todos, pelos seus fartos cabelos brancos à Cunhal e tinha sido o introdutor da Oliveira Alentejana nos Jardins de Lisboa. Trazia assim um bocadinho do seu Alentejo para a Capital para matar saudades, perante a chacota pública na altura, que achavam aquilo um disparate paisagístico. O homem tinha alguma sensibilidade e chegávamos a estar a falar mais de uma hora sobre a beleza da Oliveira e a estética do seu tronco.

Mais tarde nas nossas paródias da tropa recordar-me-ia bastante dos seus longos discursos sobre a Oliveira, quando ouvia um castiço de um colega dissertar com graça nas horas de lazer quase 2 horas de seguida sobre o Pano de Tenda, terminando ao fim daquele tempo: “por último, já me esquecia de vos dizer que isto também serve para fazer uma Tenda...” O que é facto é que hoje não há recanto nem Jardim de Lisboa que não possua uma Oliveira tornando-se numa presença banal. Tinha sido também o pai da célebre Rotunda do Relógio junto do Aeroporto, muito criticada também e se a memória não me falha do Relógio de Sol na chamada Praça do Império, hoje completamente degradado penso eu. Chegaria também a visitar Alcoutim que muito o impressionaria pela sua extraordinária beleza.

Para se ter uma ideia os 4 Engenheiros Subalternos pertencentes a famílias conhecidas da nossa praça de que não vou mencionar nomes, entravam a maior parte dos dias às 17.00 horas e a hora de saída era salvo erro às 17.30 horas. Iam picar o ponto claro. O único que entrava entre as 9.00 e as 10.00 horas era o Engenheiro Chefe, para despachar os diversos assuntos e saía quase sempre depois da hora. O trabalho que os Engenheiros Subalternos faziam era muito parecido com quase nada. Eu era um puto atrevido, cuja formação não ia além de alguns conhecimentos em Geometria Descritiva, o que me permitia fazer umas plantas e uns alçados a que lhe juntava uma boa dose de imaginação, de improviso e de “desenrascanço” à boa maneira portuguesa.

Lembro-me de uma vez ter confrontado um dos Engenheiros Subalternos mais espertote e atrevido, que se ia pavonear para a sala de desenho naquela meia hora que por lá andava, dizendo-lhe: para mim um Engenheiro que venha para a Câmara ou é um grande nababo ou um grande tachista! Recordo-me de ele ter respondido à minha insolência juvenil: “sabe que eu gosto muito de um bom tacho!” Okapa, já entendi... assim fico mais descansado Engenheiro, respondi-lhe. Ainda me deu uns trabalhinhos por fora certamente para poder confirmar a sua competência, nomeadamente o Jardim de Inverno do antigo Casino do Estoril.

Mas de certo modo convenhamos de que eles tinham razão. De facto todos os Engenheiros Subalternos eram Engenheiros Agrónomos e ao contrário do Engenheiro Chefe tinham um curso complementar de Arquitetura Paisagista ministrado no próprio Instituto de Agronomia, pois não existia na altura Arquitetura Paisagista como curso independente. Que diferença para os nossos dias caramba aonde existem centenas e centenas de cursos superiores, quase faltando apenas o Curso Superior de Pilha Galinhas, embora haja para aí às carradas Catedráticos na matéria capazes de fundar uma Universidade ao nível das melhores... Só o Engenheiro Chefe possuía apenas o curso de Engenheiro Agrónomo, o que o limitaria bastante suponho, em tudo o que se relacionasse com Paisagismo.

Claro que com as tricas existentes na Função Pública, o Chefe para não dar parte de fraco passava por cima dos Engenheiros Subalternos – nem se falavam -- e vinha ter comigo que lhe apresentava os Projetos depois de alguma discussão, assinando ele depois e toca a andar que se faz tarde. Fizemos obra que possivelmente ainda alguma coisa resistirá ao tempo, como uma grande remodelação do Jardim da Estrela com um ribeiro artificial de água corrente numa das encostas junto à Biblioteca, a Estufa Quente junto à Estufa Fria, o prolongamento da parte superior do Parque Eduardo VII e dezenas de remodelações por esses Jardins de Lisboa.

Lembro-me também de termos realizado o levantamento e os desenhos de centenas de Marcos Fontanários – pequenas relíquias esculturais – perdidas por essa Lisboa e de que não existia nada em arquivo. É interessante assinalar também em plena década de sessenta a existência de algumas preocupações ambientalistas, como um quadro entalhado num enorme meio tronco de madeira com uma mensagem tocante de que não recordo o autor, em prol da árvore e do seu papel na vida do homem e que foi colocado na maior parte dos Jardins de Lisboa. Provavelmente que estas preocupações ambientalistas seriam fruto de alguns contactos existentes na altura entre a Repartição e o Instituto de Agronomia, aonde pontificava o Arquiteto Ribeiro Teles “o papá” do ambientalismo português.

O “Cavalo Branco” relacionava-se com quase toda a Fina Flor do Entulho da Linha de Cascais, pelo que era uma fonte permanente de trabalhos extras na remodelação de Jardins Particulares. Lembro-me de lhes levar uma exorbitância na altura, pois cobrava a 200 escudos à hora o que naquele tempo era uma pequena fortuna. Como possuía um bocadinho do espírito de Zé do Telhado, para compensar fazia à borla alguns Projetos de casas clandestinas em Tires para alguns “almeidas” (trabalhadores camarários do lixo) e amigos que por lá moravam, pois trata-se de uma zona que se desenvolveu quase na clandestinidade absoluta.

Já agora a talhe de foice e para conhecimento da maior parte dos nossos leitores certamente, estas pequenas casas de habitação populares eram feitas durante a noite calculem para fugir à lei e às licenças. Abriam-se os roços para os alicerces e entulhavam-se ao nascer do dia. Depois das fundações preparadas levantavam-se as paredes à pressa sempre durante a noite e colocava-se o telhado às três pancadas, o que já não permitia por lei a sua demolição apesar de clandestinas. Mais tarde haveria tempo para reforçar paredes, trabalhar com calma os interiores e tudo o mais que fosse necessário. Assim cresceu Tires que pertence a uma das maiores freguesias do país e assim se ia resolvendo naqueles tempos, o problema de habitação daqueles que vinham do campo para a cidade.

Certo dia o “Cavalo Branco” chamou-me ao seu escritório e pergunta-me com ar solene: “quando é que você tem um sábado disponível para irmos a Alcobaça, para estudarmos um projeto de remodelação do Jardim do Mosteiro, pois fui convidado pelos Conservadores para lhes apresentarmos um projeto?” E lá combinámos determinado sábado. Almoçámos no Restaurante Mónaco na marginal, na altura talvez o restaurante mais chique da Linha de Cascais pois esta gente trata-se bem. Hoje completamente degradado, até mete dó e serve de Parque de Diversão da 3ª Idade que ali são “armazenados” aos fins-de-semana.

Depois de um belo repasto lá partimos direitos a Alcobaça. A cinco quilómetros do Mosteiro o Engenheiro Chefe para o carro e diz-me com alguma apreensão: “penso que já o vou conhecendo, mas vou ter que o apresentar aos Conservadores como Arquiteto, tanto mais que lhes disse que levava o “meu Arquiteto” senão eles não nos levam a sério, o que é que acha?” Nesta altura do campeonato o que é que quer que lhe diga, mas olhe que não sou eu que estou a mentir Engenheiro, respondi-lhe! “Não se preocupe com isso que eu assumo toda a responsabilidade e o que é preciso é fazermos o Projeto, pois temos competência para isso!”.
 
E lá entrámos no Mosteiro naturalmente um pouco constrangidos. Depois da apresentação do “Arquiteto” acabadinho de formar há menos de cinco quilómetros atrás, por ali andámos com os Conservadores no treco treco e no ”Arquiteto” para aqui, “Arquiteto” para ali e lá íamos sugerindo ou ouvindo as ideias dos Conservadores, tomando notas, rectificando medidas etc., etc., etc. Cá por dentro só pensava: isto já não se pode confiar em ninguém caramba, pois com papas e bolos se enganam os tolos! O que é facto é que apresentámos um belo Projeto que acabaria por ser executado, mesmo com um “Arquiteto” faz de contas. De facto era um Jardim extraordinário, com um rio a passar lá dentro a meio do Jardim e aonde os Monges pescavam na Idade Média dizia-se, o que só por si apelava à imaginação. Nunca mais lá voltei e já lá vão quase 50 anos. Naturalmente “reformei-me” de seguida pois tinha atingido o topo da carreira. E nunca mais exerci a profissão de Arquiteto juro-vos...

Até nos apetece dizer ou no mínimo pensar: pelas preocupações demonstradas pelo Engenheiro Chefe em impressionar e ganhar a confiança dos Conservadores do Mosteiro de Alcobaça, ao fim e ao cabo sempre tivemos um bocadinho de Relvas cá dentro de nós... Afinal de contas não mudámos muito desde o século passado!

Deus nos livre disso, digo eu que até nem sou católico!!!

VOTOS DE FESTAS FELIZES PARA TODOS OS ALCOUTENEJOS E LEITORES DO AL !!! (apesar da troika...)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

D. Pedro de Meneses, o do ALEO, bisavô do 1º Conde de Alcoutim

D. Pedro de Meneses. Monumento
em Ceuta.
D. Pedro de Meneses, 1º Conde de Vila Real teria nascido em Santarém (?), faleceu em Ceuta a 22 de Setembro de 1437 e jaz em magnífico mausoléu na Igreja da Graça em Santarém, depois deste sarcófago ter sido transferido da Capela dos Meneses no Convento de S. Francisco, na mesma cidade, para este templo onde igualmente repousam os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, em campa rasa.
Era filho de D. João Afonso Telo de Meneses, 1º Conde de Viana do Alentejo e de sua mulher Maior Portocarrero, 2ª Senhora de Vila Real. Era primo de D. Leonor de Teles, rainha de Portugal.

Casou com D. Margarida de Miranda, filha do Arcebispo de Braga, D. Martinho Afonso Pires de Charneca, de quem teve duas filhas, D. Brites de Meneses, 2ª Condessa de Vila Real e que casou com D. Fernando de Noronha, que para obter o título de 2º Conde de Vila Real passou a ser D. Fernando de Meneses e D. Leonor de Meneses que casou com D. Fernando II, Duque de Bragança e que conspirando contra D. João II veio a ser degolado em praça pública na cidade de Évora em 1483.

Casa segunda vez com D. Filipa Coutinho, que morreu a bordo quando se dirigia para Ceuta, filha de Gonçalo Vasques Coutinho, 2º Marechal de Portugal, de que não houve descendência.

O terceiro casamento teve lugar com D. Brites Coutinho, filha de Fernando Martins Coutinho, Senhor de Castelo Rodrigo.

Deste casamento nasceu D. Isabel Coutinho, Senhora de Mafra e de Enxara dos Cavaleiros.

Do 4º enlace matrimonial com D. Genebra Pessanha, filha de Carlos Pessanha, 6º Almirante de Portugal, também não houve descendência.

Extra conjugal, teve de Isabel Domingues, a Pixegueira, D. Duarte de Meneses, Conde de Viana, 1º Capitão de Alcácer-Ceguer e pai do Bispo de Évora, D. Garcia de Meneses.

Devido ao seu 4º casamento foi o 7º Almirante de Portugal.

Armas do 1º Conde de Vila Real
Como seu pai tivesse tomado o partido de D. João de Castela e veio a morrer nos arredores de Penela, em situação miserável, em princípios de 1384, foi com sua mãe para Castela.

Depois de assinada a paz, regressa a Portugal em 1411 e coloca-se ao serviço de D. João I. Faz parte da expedição a Ceuta, levando sete navios armados à sua custa, gastando grande parte dos seus cabedais.

Luta rijamente na tomada da cidade. Armado cavaleiro no campo da honra, assiste ao conselho que se realizou a seguir e que entre outras coisas procurava encontrar governador para a praça.

Após a esquiva de grandes Senhores, incluindo D. Nuno Álvares Pereira, D. Pedro de Meneses fez conhecer ao Infante D. Duarte a sua disposição para ocupar o lugar que acaba por lhe ser confiado.

No acto de investidura, D. João I entregou-lhe o pau a que então se abordava, por estar ferido numa perna, o ALÉU, e o depois conde de Vila Real jurou defender, só com aquele aléu, de todo o poder dos mouros, a praça que acabava de lhe ser confiada e o seu aléu ainda hoje se encontra na imagem de Santa Maria de África, que se venera naquela cidade.

D. Pedro de Meneses governou Ceuta durante vinte e dois anos, até à sua morte, que se verificou dentro dos seus muros (1437).

Diz Azurara, seu cronista, que durante dezasseis anos não despiu a sua cota de malha, rondando de noite e de dia. Define-o como perfeito guerreiro, valente, circunspecto e dotado de grande arte de prever os acontecimentos. Dá-o como homem de boa palavra e de cultura.

Conhecem-se duas vindas ao Reino. Uma em 1424, sendo-lhe na altura concedida a mercê do título de Conde de Vila Real e a outra em 15 de Agosto de 1433 assistindo como alferes-mor à aclamação do rei D. Duarte.

D. Pedro de Meneses procurou assegurar ao filho bastardo, D. Duarte de Meneses, que muito admirava pelas excelentes qualidades de guerreiro, a capitania de Ceuta, o que não conseguiu, pois a isso se opôs a filha legítima, D. Brites, que casou com D. Fernando de Noronha, reclamando para ele o governo da cidade, o que veio efectivamente a obter após a morte de D. Pedro. Para que isso tivesse acontecido, contou com o apoio da rainha D. Leonor. Contudo, D. Duarte de Meneses foi o 1º Capitão e Governador de Alcácer-Ceguer, tendo perdido a vida defendendo a de D. Afonso V contra a moirama.

Os Meneses tiveram durante séculos uma forte ligação com Santarém onde possuíam os seus palácios.

Santarém. Pórtico do
 Convento de S. Francisco
Ainda que os restos mortais repousem em várias igrejas da cidade, tiveram o seu panteão na igreja do convento de S. Francisco. É natural, por isso, que alguns desejassem ser sepultados na terra que os viu nascer.

No século passado e como já dissemos, o magnífico túmulo foi transferido para a Igreja da Graça, fundada pelo 1º Conde de Ourém (Meneses).

D. Leonor, filha do primeiro matrimónio de D, Pedro e a quem este encarregou de cumprir as disposições testamentárias e de ordenar a sua sepultura, mandou construir um formoso mausoléu constituído por “artística arca de calcário, assente sobre o dorso planificado de oito leões, ornada com os escudos dos inumados”.

Na decoração flórica, não foi esquecida a palavra “aleo” que se repete trinta e cinco vezes.
 
Magnífico túmulo de D. Pedro de Meneses na Igreja da Graça em
Santarém. Desenho do pintor escalabitano Braz Ruivo.
 
Foi também D. Leonor que insistiu com Gomes Eanes de Azurara no sentido de este escrever a história de seu pai, o que veio a acontecer.

Foi, por isso, este grande Senhor que deu origem à existência de “ALEO” no brasão da vila de Alcoutim.

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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Nobreza de Portugal, dir. de A. Martins Zúquete, 1961

Santarém no Tempo, Virgílio Arruda, 1971

História de Portugal, J. Veríssimo Serrão

Dicionário Ilustrado de História de Portugal, Ed. Alfa, 1982

História e Monumentos de Santarém, Zeferino Sarmento, 1993.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Tabuleiro de esmalte



O esmalte é uma substância vítrea, colorida com óxidos metálicos, que aplicada em estado de fusão sobre loiça ou metais, solidifica, produzindo uma película brilhante e inalterável, é o significado que nos dá o Dicionário VERBO, da Língua Portuguesa, conforme o Novo Acordo Ortográfico, 2ª Edição, 2008.

Com o andar dos tempos, substituiu muitas peças de barro que se utilizavam no quotidiano, como tachos, panelas, sertãs, cafeteiras e muitas mais, com grande vantagem na durabilidade, leveza, limpeza e aspecto, sendo, contudo, e naturalmente muito mais cara. Por outro lado, a má qualidade e o uso provocavam com maior ou menor frequência o saltar de pequenas partes, locais que acabavam por enferrujar com os prejuízos que isso originava.

Nos princípios do século passado era um “luxo” ter um tabuleiro de esmalte, de rebordo rendilhado e alto para evitar que os objectos transportados caíssem, com pegas salientes e seguras, além do fundo com coloridas peças de fruta.

A peça que a fotografia apresenta não lhe faltará muito para ser centenária e já revela algumas falhas de esmalte.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações, XL



 
Escreve

Daniel Teixeira

 
 

 SEM QUASE NADA TER DITO MAS NÃO ESTÁ TUDO DITO

Já há algumas semanas que não preencho esta crónica que é um campo que me é bastante grato e compensador em termos memoriais. Lembro-me de muita coisa mais, mas algumas dessas coisas, sobretudo as que relatam episódios pouco elogiosos para terceiros têm mesmo de ficar na gaveta.

Não me sinto à vontade por vezes para ir além do politicamente correcto, mesmo que as personagens sejam camufladas por iniciais, mas há algumas histórias que não entrando num campo muito complexo em termos de memória dos falecidos acabam por aparecer-me como inofensivas em termos de acontecimento.

Por vezes, como será o caso nesta, têm aquele ridículo são, que vistas bem as coisas até podem ser encaradas no plano da falta de vocação para fazer ou não fazer dadas coisas, sendo certo que esta pessoa de que vou falar era um trabalhador exímio e esforçado na sua agricultura e bem sucedido em termos de posses.

Mas houve uma altura em que as coisas ainda não lhe corriam muito bem e candidatou-se a fazer sortidas com o meu avô e seus companheiros na tarefa do contrabando para Espanha.

Já aqui disse que não se deve confundir o contrabando daqueles tempos com o outro, mais modernizado e em grosso, realizado sobretudo em portos ou em praias, que esse sim acabou por construir e consolidar algumas estruturas marginais que acabaram posteriormente por enveredar pela passagem de droga já nos anos 70/80.

A tentação do «muito dinheiro» foi demasiado forte para alguns e até certa altura no decorrer dos anos honestos pescadores foram tentados nessas operações. O contrabando do meu avô era de produtos alimentares, ovos, por exemplo, que faltavam em Espanha, petróleo que faltava cá, fósforos, não sei de de lá para cá ou vice versa e era praticamente uma troca fronteiriça com um lucro verdadeiramente reduzido mas que tapava os buracos dos rendimentos sazonais.

Faltará um dia fazer um balanço que pode ser embaraçador mas que em termos sociais teve o seu papel numa altura em que a escassez, resultado da guerra civil e não só, assolava a Espanha e no papel que este contrabando terá tido no relacionamento entre populações raianas e a meu ver de relativa pouca importância em termos tributários.

Mas isso é mesmo complicado estar a desenvolver, sendo certo que nos anos 60 do Sec. XX se criou uma mítica sobre o contrabandista que não lhe era de todo desfavorável, antes pelo contrário, havendo todo um manancial de canções da época retratando a vivencia e lamentando os perigos por eles corridos. De notar também que estas canções não fazem qualquer referência pouco elogiosa àqueles que eram os guardiões das fronteiras, na altura Guarda Fiscal.

Pois esta personagem que vou falar em dois episódios só foi ao contrabando uma vez e jurou para nunca mais: a guarda fiscal a cavalo deu-lhes uma corrida em osso e ele pouco experiente não soube acantonar-se mais longe do percurso da «lebre» (que levava atrás de si os guardas) acabando por ficar acoitado nas proximidades do sítio onde os guardas supunham estar a «lebre» (com um fardo de palha e sem contrabando nenhum é claro) que, indo no engodo, procuravam.

Deitou-se numa seara e ali ficou a tremelicar com medo que os guardas ouvissem, conforme ele dizia, o bater do seu coração. De esclarecer que só quem ouvia o coração dele a bater era ele mesmo, como é claro, mas como batia muito forte pensou que poderia propagar-se e ser audível aos ouvidos dos guardas. Quando os seus companheiros o foram buscar já de regresso da surtida ainda lá estava no mesmo sítio e ia morrendo de susto quando eles chegaram perto dele. Por isso acabou mesmo a sua baldada tentativa de ser contrabandista.

Um outro episódio deste personagem tem a ver com uma sua deslocação ao Hospital de Faro, ou ao médico especialista, não me lembro bem, altura em que a mulher lhe colocou num bolsinho da jaqueta um papelinho com a morada da minha mãe, para depois poder pedir indicações. Seguiu tudo á risca, saiu da camioneta numa paragem intermédia que ficava mais perto da nossa casa mas não encontrou o papel com a morada. Viemos a descobri-lo depois já em nossa casa dentro de um dos inúmeros bolsinhos da jaqueta.

Entretanto foi descendo a cidade a perguntar se alguém conhecia a pessoa a quem se dirigia. Por mera sorte eu saí do meu serviço e calhei a vê-lo, isto já a mais de um quilómetro da minha casa. «Mas aquele é o senhor M.V.» - disse para mim mesmo, pois não sabia que ele tinha aquela tarefa em Faro naquele dia. Parecia-me mesmo, mas como estava em traje de domingo tive dificuldade em acertar com ele logo à primeira.

Atrevi-me a ir perguntar e o homem abraçou-se a mim: estava desorientado e perdido e não sabia mesmo o que fazer. Ainda lhe disse que na pior das hipóteses sempre podia tomar a camioneta para o Monte outra vez mas nem disso ele se tinha lembrado. Tinha dinheiro bastante e enfim...só lhe faltava a ideia.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Um estrangeiro hóspede em Alcoutim no reinado de D. José. (*)


Pequena nota

Este artigo é a transcrição das folhas nº 32 a 34 do livro PORTUGAL, A Côrte e o País nos anos de 1765 a 1767, José Gorani (1740-1819), Tradução, Prefácio e notas por Castelo Branco Chaves. Editorial Ática, Lisboa, 1945, que li, já não me lembro onde e há mais de 35 anos, em qualquer biblioteca e de que fotocopiei estas páginas e mais algumas que me interessavam.

Não deixa de ser curiosa  a narrativa que faz, o conhecimento do passado alcoutenejo com um ou outro dado menos correcto e que foi buscar às fontes a que teve acesso.

E o conhecimento da nossa história que bastou e tomando em consideração as suas palavras para vencer os “opositores”, se tudo isto se passou como descreve e se o texto não está eivado pela sua imaginação de homem fidalgo e culto.

Como era possível haver em Alcoutim ou nas suas redondezas tantos estudantes na Universidade de Coimbra? Seria possível?

Verdade seja que muito antes está documentada a presença de vários alcoutenejos na Universidade de Salamanca, entre os quais Afonso Gomes, Matriculado no 5º ano da Faculdade de Cânones (1594).

Irei ter oportunidade de voltar a José Gorani e aos estudantes de Alcoutim, tomando em consideração a mesma fonte que refere esta passagem por Alcoutim.

JV

O QUE ME ACONTECEU COM UNS ESTUDANTES DE COIMBRA (1)

O Guadiana. Foto JV
 
Este capítulo provar-nos-á que se os jovens portugueses das famílias abastadas por vezes se afastam do recto caminho, facilmente se emendam desde que lhes demonstrem o seu erro

Em 26 de Outubro não pudemos avançar muito e foi necessário um dia inteiro para subir apenas três léguas no Guadiana. Põe causa do mau tempo vimo-nos obrigados a atracar perto de um bosque afastado de qualquer localidade e onde não se via vivalma. Foi necessário ter paciência e dormir nas duras tábuas da embarcação, tendo para me cobrir apenas a minha capa de mau pano, mais pesada que quente. Felizmente que durante a noite não choveu, mas houve frio, pois nos encontrávamos entre o rio e montanhas.

Em 27 não caminhámos mais que quatro léguas até Alcoutim, onde atracámos pelas cinco horas da tarde. Ao fim de dois dias de embarcados pouco tínhamos avançado, pois apenas distávamos sete léguas de Castro Marim. Mas também, cumpre dizê-lo, se entrássemos em linha de conta com todas as sinuosidades e contornos do Guadiana, verificaríamos que havíamos percorrido onze a doze léguas.

Durante a noite que procedeu à nossa segunda jornada tivemos frio e, chegados que fomos a Alcoutim, deixei os barqueiros na embarcação, permitindo-me eles que fosse passar a noite na venda, depois de lhes haver prometido, o que rigorosamente cumpri, estar a bordo ao romper da manhã seguinte para continuarmos viagem até Mértola, onde contávamos chegar antes do meio-dia, porque o tempo levantara e o vento parecia-nos ser favorável, como de facto o foi.

Alcoutim é uma cidade, como inadvertidamente alguns geógrafos a classificam. Em 1765 este lugar não passava de um burgo aliás pouco importante, e não consta que depois o governo o tenha aumentado e elevado à categoria de cidade. Não possui indústria nem comércio. Pertence, cuido eu, ao Algarve, mas está na fronteira do Alentejo. Guarneciam-na cem soldados do regimento que estacionava em Castro Marim comandados  por um capitão de naturalidade inglesa e que habitava no castelo indefeso.

Castelo de Alcoutim, anos 80.
 
O rei D. Manuel havia erigido Alcoutim em condado no ano de 1503, para recompensar um dos seus capitães que, por feitos heróicos, de distinguira nas Índias. Em 1765 Alcoutim era um senhorio pertencente ao Infante D. Pedro, irmão do rei D. José I, então reinante, e que mais tarde também veio a ser rei, mas somente em título, pois a soberania pertencia a sua mulher.

D. Pedro III
Sem dúvida a venda de Alcoutim não era uma boa toca, mas, em comparação com as posadas espanholas, podia ser considerada hospedaria magnífica. Neste particular, em Portugal está-se melhor servido. Embora a cozinha das vendas portuguesas não seja bem apaladada, pois ali o vinagre a tudo tempera, pelo menos há que comer.

Entrando na venda, deparei com oito rapazes em que logo reconheci oito estudantes que regressavam a Coimbra para terminarem os seus estudos, pois todos andavam pelos dezassete, dezoito ou dezanove anos. Havia um outro, mais velho, e nono deste bando, um trangalhadanças aí pelos vinte e quatro anos que também marchava para Coimbra para ali receber a borla de doutor em leis, Eis o que imediatamente fiquei ciente, porque o que diziam desde logo mo revelou.

Estes nove personagem estavam à mesa tomando a sua refeição. Fiz servir a minha  na ponta oposta àquele onde eles abancavam e pus-me a comer com bom apetite, porque era novo também e porque depois de tão longa jornada tinha fome e necessidade de refazer as forças.

Comia tranquilamente quando estes jovens estouvados, fixando-me, se puseram a cochichar, a rir à minha custa e a falar inconvenientemente.

Vendo que a situação era desigual para lhes fazer alguma advertência, fingi não dar por o que se passava, continuando a comer o meu guisado. Fui, porém, mal compreendido e a minha atitude interpretada como medrosa, o que deu aos estouvados estudantes o atrevimento necessário para terem propósitos menos decentes; continuei, porém, a calar-me. Por fim, um dos estudantes atreveu-se a atira-me uma bolinha de pão. Seguiram-se outras e uma destas bolas raspou-me por um dos bucres da cabeleira. Perdi a paciência e reconheci que não podia evitar o protesto, embora me expusesse a uma deprimente humilhação. Cortei o silêncio e apresentei-me desta maneira: “Vejo perfeitamente que sou alvo da vossa animadversão; pergunto: que vos fiz para me hostilizardes, a mim, a quem nem sequer conheceis? Ignorais que é prova de bárbara covardia insultar um estrangeiro que procura hospitalidade entre vós e que nada fez para a não merecer? Percorri a Espanha, a Turquia europeia, parte da Tunísia asiática, visitei os estados de Tripoli, de Tunis, de Argel, o Império marroquino, e todos estes povos, que são considerados bárbaros, nunca ousaram fazer-me o menor insulto. Acaso sereis mais bárbaros que eles? Mesmo que eu fosse o último dos homens, reinícola ou não, não teríeis justificação para assim procederdes comigo. E que faria se eu fosse um estrangeiro merecedor de todas as vossas atenções?” Ditas tais palavras, abri o capote e exibi a minha farda: “Sim, meus senhores, sou homem de honra, fidalgo tanto pelo menos como qualquer um de vós; além disso sou um oficial de sua Majestade a Imperatriz Maria Teresa, Imperatriz-Rainha, sobrinha da mãe do vosso rei”. Fiz pausa e continuei: “Li a história do vosso país e sei que os portugueses se distinguiram pela bravura; ora de duas uma: ou o que li do valor e hospitalidade da vossa nação é falso ou vós não sois portugueses. Outrora, no tempo dos Almeidas, dos Albuquerques, dos Sousas e de tantos outros valentes capitães cheios de virtudes, bastavam trezentos ou quatrocentos portugueses para fazer debandar exércitos numerosos de mouros e de índios – e vós, vilíssimos velhacos, ajuntai-vos nove para atacar um estrangeiro que nunca vos viu nem molestou?”

Felizmente para mim acabara de reler o divino Camões. Fixara muitas estâncias e principalmente aquelas onde o grande poeta fez o elogio dos Portugueses. Declamei tais estâncias com maior ênfase que aquela que lhe dão os naturais quando citam este poema. Muito se tem falado de Orfeu por ter encantado homens e bichos com os seus cantos; pois eu posso assegurar ter conseguido o mesmo. O bacharel foi o primeiro a apresentar-me as mais humildes desculpas e os outros oito estudantes seguiram-lhe o exemplo, pedindo-me para lhe relevar a leviandade dos verdes anos e agradeceram-me a lição, de que prometiam tirar proveito.

De todos os episódios da minha vida, nenhum cuja recordação me dê maior prazer que esta aventura. E cabe aqui acrescentar que, desde que alguém se arrepende e repara o mal que fez, a injúria se olvida e a própria baixeza, bem como o insulto injustificado, se convertem em nobreza de alma. Nada de mais belo, de maior e sublime que o arrependimento destes moços portugueses. Sentiram toda a extensão da sua tolice e não se pouparam em nada que a pudesse reparar. As citações dos autores gregos, latinos, espanhóis, franceses que entremeavam a apóstrofe virulenta que lhes dirigi e, finalmente, as estâncias do seu autor favorito, esborrachou-os. Por meu lado, verificando que a minha prédica produzira grande efeito e que o seu arrependimento era sincero, mudei de tom, mantive a conversa na maior cordura e elogiei-lhes o arrependimento como uma prova de nobreza das suas almas.
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(*) – Título da nossa responsabilidade.

(1) – PORTUGAL, A Côrte e o País nos anos de 1765 a 1767, José Gorani, Tradução, Prefácio e notas por Castelo Branco Chaves. Editorial Ática, Lisboa, 1945, pag. 32 a 34.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Cais Novo, Setembro de 1986


Quem chega a Alcoutim tem, sem saber porquê, a tendência para se aproximar do rio e consequentemente dos Cais. Digam o que disserem, é naquela zona que fervilha o pulsar alcoutenejo e isto sem se ter praticado o que muitos opinam ou seja a limpeza do edifício onde funcionou a antiga escola primária e funcionam hoje departamentos dos serviços camarários e mesmo a Capela de Santo António, hoje transformada em núcleo museológico.

Quanto a nós, não nos choca a eliminação do edifício, mas nunca destruir a velha capelinha, não pelas suas características de construção, mas sim pelo que significa para a vila.

Quem chega à vila raramente percorre a parte medieval, até porque a desvirtuação no tipo de construção e principalmente na volumetria é factor dissuasor.

É fácil verificar onde a fotografia foi tirada – nas escadas junto da casuarina, vulgo pinheiro.

São oito os fotografados, então uns jovens e hoje quarentões. Vítor, João Paulo, Paulo, José Miguel, Zezinha, Susana e Paula são os nomes indicados.

Mais uma fotografia no cais e assim continuará ao longo dos tempos.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Analisando a rubrica gastronomia / culinária


Não foi das primeiras que criámos neste espaço e surgiu da opinião de um dos colaboradores.

Foi dito logo que não se tratava de fornecer um conjunto de receitas e muito menos seria uma página de culinária no seu sentido técnico.

Além da apresentação de pratos genuínos sem os acrescentos que ultimamente é hábito fazer, incluímos na rubrica alguns dos condimentos mais habituais e pouco usados noutras regiões.

Não deixámos de referir algumas plantas silvestres que eram usadas na alimentação.

Referimos, igualmente, algo sobre a doçaria.

A nível de pratos, os mais procurados dentro das características que temos indicado foram:

                     1º – JANTAR DE GRÃO OU DE FEIJÃO (2011.02.06)

                     2º - CARAPAUS ALIMADOS (2011.03.25)

                     3º - MIGAS DE AZEITE (2011.03.03)

                     4º - FEIJÃO CARETO COM ATUM (2011.04.08)

                     5º - SALADA DE LEITUGAS (2011.08.04)

O 1º lugar é obtido, com grande diferença dos restantes, por um dos melhores pratos e genuínos da serra algarvia, infelizmente, pouco divulgado e até adulterado.

A DOÇARIA DE NATAL (2010.12.25) foi a 2ª mensagem mais visitada de todas da rubrica.

No aspecto de ervas aromáticas, silvestres e outros produtos locais, obtivemos a seguinte ordem:

                     1º - HORTELÃ DA RIBEIRA (2011.10.04) entre todas a que obteve maior número de visitas.

                     2º - ABÓBORA DE CASCA (2011.02.07)

                     3º - ERVA-LUÍSA (2011.06.13)

                     4º - CELGAS OU ACELGAS (2011.05.31)

                     5º - O ORÉGÃO (2011.09.21)

A hortelã da ribeira é uma erva aromática muito curiosa, muito utilizada no Alentejo e nas zonas confinantes como é a serra algarvia.

A abóbora de casca, que no Alentejo chamam abóbora de pau, ocupa a mesma zona de utilização, tendo a particularidade de ser confeccionada com a casca.

A erva-luísa, noutras zonas designada por lúcia-lima, será o chá mais utilizado no concelho de Alcoutim. Se não é, foi-o.

As celgas ou acelgas que continuam neste concelho a ser utilizadas nos pratos de cozidos e por fim, o orégão, indispensável em variadíssimos pratos e no tempero das azeitonas.

As preferências dos nossos visitantes / leitores demonstram uma certa racionalidade.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sopas de passarinhos



Cotovia
Desta vez não vou ter hipótese de apresentar fotograficamente o prato.

Desconhecia-o completamente e ao organizar o texto sobre a esparrela e ao procurar documentar-me oralmente sobre o assunto, sou informado da sua existência.

Todos nós sabemos que o concelho de Alcoutim é economicamente muito pobre e das dificuldades que o homem tinha para se manter , era necessário tirar de solos pobres todo o seu sustento e da família.


Alvéola
Os passarinhos que se apanhavam com as esparrelas durante um dia de trabalho proporcionavam uma refeição especial.


Depois de depenados e amanhados, derretiam numa caçoila umas tiras de toucinho, em cujo pingo fritavam com um dente de alho e uma folhinha de louro os passarinhos.

Retiravam-nos para uma vasilha, assim como os torresmos que ficavam, provenientes das tiras de toucinho. Acrescentavam ao pingo onde se tinha feito a fritura água quente, que se deixava ferver para a gordura ser bem distribuída.


Calhandra
Entretanto, tinham-se feito umas sopas de pão, que depois de bem acomodadas, eram cobertas por aquele caldo, que além do gosto do toucinho tinham também o dos passarinhos e dos condimentos.

As sopas comiam-se acompanhadas dos passarinhos e dos torresmos.

A utilização da gordura animal, tão prejudicial à saúde e hoje posta de parte, pelo menos quanto ao toucinho, justificava-se, como me explicaram.

Tordo
As oliveiras eram poucas, pois a abundância do gado movia-lhe tenaz guerra. Nas margens do Guadiana era onde existiam mais. O azeite pouco e a sua prioridade ia para a iluminação. O petróleo custava dinheiro que era escasso e que tinha preferências mais prementes.

Tratava-se de uma maneira de obter proteínas.