terça-feira, 8 de janeiro de 2013

D. JOÃO IV


Outro dos volumes que em boa hora foi lançado por Temas e Debates em Reis de Portugal, desta vez dedicado a D. João IV, o Rei Restaurador e 1º da 4ª Dinastia.

O trabalho, além de referir directamente a pág. 131 os Condes de Alcoutim, desenvolve como é natural, os Meneses da Casa de Vila Real que foram sacrificados no Rossio em Lisboa em 1641, por alegadamente terem entrado na conspiração contra D. João IV.

No formato de 17X25 cm e 384 páginas, comporta vários quadros, entre os quais a Lista dos Fidalgos Aclamadores de 1 de Dezembro de 1640 e Títulos Nobiliárquicos da Rede dos Aclamadores ou seus descendentes, 1641 – 1707.

Uma extensa Cronologia dos principais acontecimentos e as Genealogias da Casa de Bragança e a Família Real Portuguesa, séculos XV, XVI e XVII.

Além da Bibliografia apresenta-nos o indispensável índice remissivo.

São autoras do trabalho Leonor Freire Costa, doutorada em História Económica e Social e Mafalda Soares da Cunha, doutorada em História Moderna, isto entre os vários títulos que possuem.

sábado, 5 de janeiro de 2013

COMENTÁRIO DE DANIEL TEIXEIRA



Daniel Teixeira





Não porque seja «da praxe» acrescentar comentário ao comentário mas este texto do José Varzeano para além de se enquadrar num processo que tem seguido com outros colaboradores do Blogue Alcoutim Livre (coisa que eu gostaria de poder fazer também aqui no Raizonline) tem para mim um significado especial.

De um lado trata-se de falar na minha colaboração escrita sobre o Concelho de Alcoutim, que é uma coisa que me toca muito, em vários sentidos, mas é também o anotar de que mesmo sendo a minha alma pequena, vale sempre a pena.

Pequena (a minha alma aqui) porque inicialmente tive a convicção de que escrever sobre este Concelho era, em certa medida, trabalho perdido porque sempre achei que em Alcoutim não há mesmo nada já que se possa fazer para o fazer reviver e essa morte que anunciava eu não a queria lembrar nem aceitar e queria sobretudo não pensar nela.

Manta de Lã feita em Alcaria Alta
Mas isto acontece um pouco com quase tudo, ter esta sensação de que não vale a pena: neste jornal temos uma larga participação de pessoas que lutam por causas que pelo menos aparentemente são causas perdidas desde há muito.

O passado deixou de contar como lição para o presente e para o futuro e há dificuldade por vezes em fazer entender que nunca se pretendeu um regresso ao passado, apenas se tem querido que esse passado não seja esquecido.

Ora quem fala do passado? Só pode ser quem o viveu (os cotas) e digo infelizmente porque esse passado não se transmitiu ou não «entrou» no desenvolvimento cultural que se tem seguido. Foi mau, esse passado (?) ou foi uma coisa que não merece manter os seus traços? Tenho dificuldade em aceitar isso...

Uma parte substancial, por exemplo, dos Prémios Nobel ou outros têm sido entregues a alguns mais jovens mas muito mais a pessoas com tradição cultural implantada, com provas consolidadas: o falecido escritor José Saramago disse que a pessoa que mais lhe ensinou na sua vida foi o seu avô que não sabia ler nem escrever e todos nós temos exemplos de lições de vida que recordamos. O passado não foi e não é assim tão inócuo como isso: todos nós o sabemos e alguns esquecem (ou pensam que esquecem).

Há dias, bastantes, ouvi um jovem poeta e romancista, muito bom, na minha opinião, dizer que sabia que nunca seria um Fernando Pessoa ou um Tolstoi ...as referências comparativas que se vão buscar, na literatura, por exemplo, na sua grande parte, são de consagrados alguns deles já falecidos. E para isso o passado serve, serve para isso e deveria servir para muito mais.

Ora bem, dito isto quero agradecer ao José Varzeano e aos restantes colaboradores, leitores e amigos do Blogue Alcoutim Livre. Vou continuar a escrever no estilo e sobre os assuntos que sei...

E termino com um poema de PedroAfonso que fui «pescar» aqui.

rega as tuas plantas

semear é sorrir no futuro. Por entre a terra
recordar amanhã.
O meu quintal é pequeno
e acredito que cobrir-lhe os muros
com vida
não é apenas uma forma de
me alhear.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Descobrir o Folclore


Pequena nota

Recebemos deste nosso amigo, recentemente o texto que a seguir publicamos após ter  sido autorizado pelo autor.

O assunto tratado já o conhecia de uma maneira geral, pois sempre tivemos interesse por tal temática, tendo-nos habituado desde bem novo a ouvir especialistas na matéria que pugnavam como lhes competia pela verdade e não pela fantochada.

O folclore é um assunto muito sério que obriga a um âmbito muito alargado de conhecimentos e a uma investigação cuidada, como têm de ser todas as investigações. Esta área oferece dificuldades, pois segundo pensamos saber, a documentação escrita é escassa e a oral é muito falível e necessita de confirmação, o que por vezes é difícil de obter.

Um agrupamento folclórico não se faz de um dia para o outro, não basta arranjar uns músicos, enfarpelar as cachopas com saias ou blusas garridas, que ao dançar façam levantar as saias e arranjar um poeta popular, em que o país é fértil para escrever umas letras a contento. Isto é, quando muito, um grupo carnavalesco e neste contexto tudo é admissível.

Este texto serviu para nós e serve para toda a gente que verdadeiramente se preocupe como o assunto, ficando assim mais esclarecido.

JV

 

 
Escreve 

Lino Mendes



Em Portugal moram os grupos de folclore “mais representativos” a nível mundial; mas é também em Portugal que mais de metade dos grupos “que de folclore se dizem” não têm representatividade. Em parte porque nunca se promoveu uma ”Educação para a Cultura da Tradição”, porque o ensino da “cultura tradicional” não entrou ainda no “ensino básico”, porque mesmo ao nível das cúpulas culturais não se sabe o que é folclore, que a UNESCO também se designa por “cultura tradicional e popular”. Aliás, muitos são lá por cima os que consideram “folclore” como coisa de somenos: não ligues que isso não passa de folclore. Aliás ainda, por que muitos são os que ainda não aceitaram que o “popular” e o “erudito” são duas faces da mesma moeda—a Cultura—e que se situam  em  “espaços” que não em” patamares” diferentes. Não compreendendo também ainda que até é no popular que se situam os valores “identitários”.

Pois bem, depois da Secretaria de Estado da Cultura não ter mostrado interesse pelo projecto que “sem custos” lhe apresentámos (refiro-me ao anterior Secretário de Estado, que o actual ainda não respondeu), avancei com a elaboração de um pequeno texto destinado à Escola de Montargil, que foi elaborado com todo o cuidado e seriedade. A pesquisa de conteúdos e o texto base é de minha responsabilidade, que entretanto solicitei a revisão ao antropólogo Dr. Aurélio Lopes que bastante o enriqueceu em especial na forma, para finalmente a escritora Rita Vilela lhe conferir uma linguagem visando o público alvo—os alunos dos 4 anos do ensino básico (e naturalmente todos os que ainda não se iniciaram ou pouco sabem da matéria.

Iniciativa muito interessante a considerou o Dr. Aurélio Lopes, com formação académica mas também experiência no terreno.

O texto é-vos hoje apresentado, e gostaria de saber a vossa opinião sobre o mesmo, inclusivamente para o melhorar, se disso for caso.

 
FOLCLORE?! O QUE É ISSO?

FOLCLORE é um conjunto de tradições, de usos e costumes ligados à maneira como os nossos antepassados viviam, no tempo em que a sua vida ainda não era influenciada pelos usos e costumes de outros povos.

Consegues imaginar um tempo em que “viajar” significava apenas ir trabalhar para outras terras durante algum tempo?

Nesse tempo, quando “viajavam”, as pessoas podiam trazer ou deixar uma ou mais danças, canções, provérbios... Alguns ficavam na cabeça do povo, que os ia adaptando, de maneira espontânea, à sua maneira de ser e de estar.

Dizem os entendidos que a partir de 1910 tudo o que foi criado já não pode ser considerado tradição, folclore, mas nós não acreditamos… pois houve terras onde o progresso chegou mais tarde, e foi o progresso que fez parar a evolução das tradições.

O que cabe dentro do folclore? Música, dança, canções, provérbios, anexins… tanta coisa!

PARA QUE SERVE UM GRUPO FOLCLÓRICO?

Serve para manter vivas as nossas tradições, e também para mostrar, através do espectáculo, os usos e costumes de antigamente, para que as pessoas os possam conhecer.

Um grupo folclórico é assim um tipo de MUSEU VIVO.

Mas, para se poder mostrar como as coisas eram realmente, é preciso que os trajos, as danças, os cantares sejam resultado de uma pesquisa.

Como deves imaginar, à medida que o tempo passa, é cada vez mais difícil encontrar pessoas que ainda conheceram as pessoas que viviam nesses tempos… e começa a ser raro encontrar velhinhos que nos possam falar do tempo dos seus avós. Mas a pesquisa tem de ser feita, não podemos inventar.

HÁ ROUPAS MAIS FEIAS E OUTRAS MAIS BONITAS…

Não interessa se um trajo de um grupo folclórico é mais ou menos bonito, o que é realmente importante é que ele seja igualzinho àquele que usavam os nossos antepassados. E o mesmo se passa com a música…

O outro ponto que temos de garantir é que tudo seja da mesma época: a música, o “baile”, o traje, os cantares… todas as vivências das nossas gentes de um mesmo tempo.

SOMOS UM RANCHO !!!

Decidimos chamar-nos RANCHO FOLCLÓRICO DE MONTARGIL. A designação de GRUPO FOLCLÓRICO também podia servir, mas preferimos o RANCHO pois, em terras como a nossa, um grupo de trabalhadores era chamado de RANCHO de trabalhadores. Há regiões onde um grupo de pessoas se chama RUSGA, outras onde o termo correto é RONDA… na nossa é RANCHO!

HÁ GRUPOS EM QUE OS HOMENS VESTEM DE IGUAL E AS MULHERES TAMBÉM…

Um “grupo de folclore” representa um povo e este não veste todo de igual… Porque é que um grupo folclórico havia de vestir?

Trajo ou farda? Os fatos do folclore chamam-se trajo. FARDA é o que usam a GNR, a PSP, as BANDAS DE MÚSICA, é vestir todos de igual.

 

NOTA FINAL

Quando vemos um grupo folclórico a atuar estamos a assistir a um pedaço de História, não estamos preocupados em fazer um espetáculo ao nosso gosto, estamos a representar os nossos antepassados, gente que viveu entre 199 e 1920. A pesquisa é base de tudo, em folclore não podemos inventar. E não conseguimos recuar no tempo para além dos finais do século XIX.

Isto é apenas o começo. Há tanto a aprender, tanto a descobrir…

Vestir um trajo é transformar-se numa personagem de outros tempos… e, enquanto fores uma “personagem antiga”, não podes usar coisas modernas, só da altura que o traje representa.

Se usas pinturas, brincos, pulseiras, relógios de pulso, rabo-de-cavalo, se te comportas com alguém do teu tempo… ninguém vai acreditar em ti.

Texto elaborado para as aulas de “Iniciação ao Folclore”, na Escola Básica Integrada de Montargil, facultativo e para os primeiros três anos de escolaridade

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Alcoutim, 1965


Câmara Escura de hoje é uma interessantíssima fotografia que não é muito vulgar.

Existem muitíssimas fotografias de Alcoutim mas quase todas tiradas de Sanlúcar ou do seu castelo, o que não acontece com esta, que apresenta um ângulo fotograficamente pouco conhecido, ou seja, tirado do sul e neste caso de um barco.

Nesta perspectiva, o castelo aparece em posição de evidência e se nesta altura não servia de pocilgo, era utilizado como curral. Um colega de trabalho que já se encontrava em Alcoutim quando lá chegámos, dizia-nos muita vez que nunca mais se esqueceria do espectáculo que lhe proporcionavam os ovinos balindo na “esplanada”, quadro que desfrutava do seu gabinete de trabalho. Hoje, o castelo só não é uma sala de visitas da vila porque é necessário pagar para o visitar.

Se olharmos bem para ela, podemos encontrar algumas diferenças para o que no presente é.

Esta fotografia foi tirada, como se refere no título, em 1965, quando nós ainda não tínhamos chegado a Alcoutim e é seu autor, Eckart K. E. Frischmuth, cidadão alemão, que passou cerca de dois anos em Alcoutim, tendo-se hospedado em casa do senhor Luís Lopes Corvo.

Dominando relativamente bem o português era um jovem na casa dos 22/23 anos, louro e com 1,98 de altura.

Foi para Alcoutim a conselho de um professor com o intuito de preparar o trabalho final do curso de Geólogo. Desconhecemos se seria de licenciatura ou de um grau mais elevado, pois o tempo de permanência pode sugerir isso.

Não deixou de ser notado o seu rigor no horário de trabalho, que cumpria rigorosamente, o que não admira devido às características daquele povo. À hora marcada, era vê-lo sair sempre com martelo de geólogo a caminho do Cerro da Mina ou de qualquer outro local. Cumpria igualmente a hora de regresso.

Segundo nos consta enquadrou-se bem na vida alcouteneja e tinha uma excelente relação com a juventude local.

Foi-nos sempre referido que ele com o seu 1,98 e um alcoutenejo seu amigo, que terá cerca de 1,5 m ou pouco mais, deram grande espectáculo passeando pela praia de Monte Gordo, ao lado um do outro!

Francisco António João, vulgo Chico Balbino, contou-nos que quando trabalhava na Alemanha se encontrou com ele.

É pena que este trabalho científico não seja do conhecimento dos alcoutenejos.

Acresce referir que a fotografia nos foi amavelmente cedida, como tem acontecido com outras, pelo alcoutenejo nosso amigo, José Madeira Serafim, a quem muito agradecemos.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Começamos bem o Ano!




À NOSSA COLABORADORA
PELA PASSAGEM DO ANIVERSÁRIO NATALÍCIO
HOJE OCORRIDO.
 
BOM REGRESSO E QUE ENCONTRE AS “CRIANÇAS”
SOSSEGADAS.


VOTOS
DO
 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Pucarinho


Peça de cerâmica islâmica do século X / XI, medindo de altura 14,1 cm e de diâmetro 12,3.

Recipiente utilizado à mesa para beber. O seu nome em árabe seria surayba.

Foi recolhido no Castelo Velho e encontra-se em exposição com o nº 46 no Núcleo de Arqueologia no Castelo de Alcoutim.

domingo, 30 de dezembro de 2012

A sela

 
 
Assento acolchoado que se coloca no dorso do cavalo, para maior comodidade do cavaleiro, é designação basilar e comum.
 
O exemplar que apresentamos, que foi usado e ainda existe em Alcoutim, deverá ter perto de oitenta anos e foi ele que nos possibilitou esta abordagem.
 
Até meados do século passado foi relativamente vulgar no concelho de Alcoutim e utilizado por alguns dos chamados lavradores locais. Eram usados, principalmente, em machos ou mulas ,pois o cavalo, animal menos resistente a estes terrenos, era muito menos frequente.
 
Na altura em que a diferença era feita entre quem se apresentava num macho gordo, bem aparelhado e em que a sela era peça principal e quem se transportava num burro e montado numa albarda. Hoje a diferença é feita entre os automóveis topo de gama e os populares, entre os veículos “políticos” do concelho e os do povo.
 
Existem muitos tipos de sela, além da portuguesa temos a americana, originária do México e introduzida pelos espanhóis e a inglesa a mais divulgada no mundo.
 
A sela portuguesa engloba vários modelos entre os quais “D. Dinis”, “Ribatejo” e “Relvas”.
 
É feita com couro de suíno e tiras de metal que ficam ao longo da armação para lhe dar mais elasticidade e consistência.
 
Esta sela portuguesa é composta pelo assento (a parte central), a patilha, a de trás e o cepilho, a da frente. As partes laterais são as abas e por baixo ficava o suadouro.
 
Além da sela encontram-se os estribos, uma peça que fica presa nas laterais da sela por um tipo de cinto de couro que serve para apoio e dar impulso ao montar o animal.
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Dicionário Prático Ilustrado, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1972
Wikipédia, a enciclopédia livre


sábado, 29 de dezembro de 2012

Analisando a rubrica "Figuras do Baixo Guadiana"

Sérgio Pica trabalhando no seu "atelier" na Ribeira de Santarém.
Foto cedida por seu filho Bruno Ribeiro.

Quando criámos esta rubrica tencionávamos que fosse bem abrangente dos quatro concelhos que constituem a região designada por Baixo Guadiana, ou seja, os concelhos de Mértola, Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António.

Se nas primeiras postagens isso foi evidente, acabámos por nos dedicar mais às alcoutenejas, já que era dessas que possuíamos maior informação através de pesquisas que temos feito ao longo destes últimos 40 anos.

Penitenciamo-nos por o não ter feito em relação aos outros concelhos, pelo que a diferença entre o número de alcoutenejos e os outros é considerável. O tempo não chega para tudo!

São até hoje 39 as “Figuras” abordadas e a nível de movimento verificámos o seguinte:

 
1º - Sérgio Pica (2010.04.28)

2º - António José Madeira de Freitas (2009.04.21)

3º - Maria Eduarda de Freitas (2008.07.16)

4º - Marina Ramos Themudo (2009.05.07)

5º - António Vicente Campinas (2009.02.07)

Dos cinco mais procurados e nos termos que temos vindo afirmando quando fazemos análises deste tipo, quatro, naturalmente, são alcoutenejos, dos verdadeiros, daqueles que lá nasceram.

A figura grada de António Vicente Campinas, vila-realense e antifascista é a excepção.

A primeira posição é ocupada a distância considerável, pelo que foi pintor de arte profissional, autodidacta, Sérgio Pica que nasceu nos Balurcos, “monte” do Deserto.

Seguidamente, surge o Padre António José Madeira de Freitas (tio), uma das figuras centrais alcoutenejas do século XIX, ocupando o 3º lugar a republicana Maria Eduarda de Freitas, uma mulher plurifacetada, a que recentemente foi dado o seu nome a uma “quelha” na Vila de Alcoutim.

Encerra o escol alcoutenejo, Marina Ramos Themudo, que saibamos a única doutorada nascida na vila de Alcoutim. Esta é mesmo doutora e não dra, não haja confusão.

Nunca é demais voltar a referir que esta classificação nada tem a ver, nem de perto nem de longe, com o valor real das pessoas, mas não deixa de ser uma curiosidade.

Admitimos que a sua procura signifique o desconhecimento e curiosidade dos alcoutenejos pelas “figuras” que lhe apresentamos em pequenas notas biográficas que conseguimos organizar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

"De que falam os velhos?"


Pequena nota

Não consigo passar sem deixar uma pequena reflexão sobre este poema.

Possivelmente, isso acontece por me encontrar na faixa etária que o poeta refere e por isso mesmo, podê-la analisar com realismo.

Tudo o que a poesia nos diz é a realidade que todos sentem quando chegam a uma determinada idade. Contudo, há muitos que não chegam a ter esta experiência.

Encontrar as palavras ajustadas à situação, ligá-las com harmonia e sonoridade, é o que poucos sabem fazer, como eu, mas não é o que se passa com o meu sempre jovem colaborador, cuja poesia transmite um toque especial a este espaço.

Aqui deixo ao “velho” colega de profissão, alcoutenejo pelo coração, o meu abraço de admiração.

JV

 


 Poeta

José Temudo

 

 

Os velhos falam do passado.

De que mais hão-de falar?

 

Do tempo que corre, apressado,

das dores que devem calar,

da tristeza, que sempre magoa,

da vida breve, que se escoa?

De que mais hão-de falar?

 

Da Primavera, de flores, do sol, do Verão,

dos passeios que jamais farão,

de petiscos, que não vão comer,

de roupas ,que não vão usar ?

De que mais hão-de falar?

 

De livros, que já não podem ler,

de filmes, que jamais verão,

dos filhos que os esquecem,

dos netos, que os desconhecem,

da vida viva, que passa ao lado ?

De que mais hão-de falar?

 

Do futuro, ignorado,

do presente, mal amado?

Os velhos falam do passado,

do vivido e do imaginado,

com vontade de voltar!

De que mais hão-de falar?

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Serões de Inverno



 

Escreve

António Afonso

Para compreender melhor esta crónica, devemos situar-nos, em termos de tempo, nos anos 50 do século passado, num lugar remoto no Nordeste Algarvio, a rádio não era extensiva a todos, a televisão não tinha chegado e os outros meios de comunicação, alguns não tinham nascido.

Ao final da tarde, ao regressarmos da escola, tínhamos de realizar tarefas que nos tinham sido confiadas previamente, como sejam: ir ao poço buscar água, alimentar os animais, preparar a lenha para alimentar a lareira durante a noite, etc. Conjugávamos então parcerias com os amigos e tudo se resolvia, airosamente, desta forma de ajuda mútua.
Era à luz da candeia ou do Petromax, que iluminavam quase nada (por isso havia tantos meninos " curtos de vista"), que fazíamos os trabalhos de casa, auxiliados por os mais velhos que nos ajudavam na leitura de palavras esquisitas, problemas deveras bicudos, com várias casas decimais e torneiras que debitavam vários hectolitros por minuto e tanques com enormes capacidades, muito maiores que a capacidade mental de um aluno de dez anos. O meu preceptor era o António Miguel, rapaz metódico e aplicado que me tentava explicar aqueles enigmas.

Os trabalhos eram feitos em ardósia (pedra preta, com um caixilho de madeira de cantos arredondados), escrevíamos com giz, ou na falta dele, fabricávamos nós os próprios lápis com taliscas do Barranco da Corte (Xisto foliáceo), só posteriormente passávamos tudo a limpo para o caderno.

Devo acrescentar, que esta pedra, que vos falo, não é mais que um antepassado do célebre computador Magalhães. Ainda hoje, quando as crianças me pergunta a idade eu respondo dizendo-lhe que sou da idade da pedra. – Então o tio é "muita" velho!

Após o jantar, aqui chamado ceia, a mãe lavava a loiça, as meninas corriam para a casa da Ti Maria Francisca, ouvir na rádio, o folhetim do Tide, cujas personagens centrais eram a Esmeralda e o Guilherme, originando muitos nomes por aquelas bandas. O serão era feito à volta da fogueira, admirando a cor e a forma das labaredas e ouvindo as histórias dos mais velhos. Mas as verdadeiras noites Mágicas e grandiosas tinham lugar com a chegada do primo Afonso da Alcaria Alta, vinha colher os frutos, ficando alojado na casa do Tio Guerreiro, vinha montado numa mula de cor clara, coberto com uma capa alentejana com gola de raposa, fazia-se acompanhar da mulher, prima Zabelinha e do filho, o primo Celestino.

O primo Afonso era, sem sombra de dúvida, um exímio contador de histórias, umas vividas outras imaginadas, reproduzidas com tanta graça e realismo que nos atraía como as tivéssemos a viver in loco; havia sido guarda republicano a cavalo nas planícies do Alentejo e aí acumulado muitas vivências; homem corpulento com voz grossa que brotava dos confins da alma, que nos encantava simplesmente!

Que Saudades desses tempos de criança!