domingo, 10 de fevereiro de 2013

Caçar com pau





Escreve

Gaspar Santos



Há quem diga: Quem não tem cão caça com gato! Mas também se pode dizer: Quem não tem espingarda caça com pau!

E é verdade, nos campos de Alcoutim caçava-se com pau. Munidos da respectiva licença, aqueles de que dei conta, pois é natural que muitos outros mais afastados da fiscalização o fizessem sem licença.

A caça é uma actividade das mais antigas do homem. Tal actividade, nas sociedades de hoje já não é necessária à sobrevivência das pessoas, mas o instinto predatório manteve-se nelas enraizado e, conse-quentemente, conduziu a um sector económico com algum peso.

A evolução económica e social, o aumento do número de caçadores, as boas armas e munições, e as boas estradas e automóveis que permitem aos caçadores a deslocação rápida e a longas distâncias, ditaram primeiro a escassez das espécies e depois o fim do regime livre e a redefinição do contexto em que a prática deste desporto se passou a enquadrar. O associativismo consciencializou os caçadores para práticas de caça mais racionais, que felizmente levou à preservação e à sustentabilidade das espécies cinegéticas.

Até meados dos anos 40 do século passado no concelho de Alcoutim havia muita caça: coelhos, lebres e perdizes. A reprodução destas espécies era enorme, conseguindo superar mesmo os maiores atentados que se possam imaginar à sua sobrevivência.

 Caçava-se todo o ano, ou numa grande parte do ano, todos os dias (!) assegurando uma fonte de alimentos a somar aos fracos recursos que o homem conseguia retirar das débeis e cansadas terras.

Caçava-se com furão para fazer sair os coelhos da toca. Caçava-se ao perdigão exactamente quando os casais de perdiz e perdigão estavam a organizar a procriação. Os pastores e os seus cães davam o seu contributo na destruição de ninhos, além das armadilhas que muitos colocavam nos sítios adequados. A reprodução era suficiente para tudo isto e as espécies não escasseavam!

Quem gostava de caçar, e não tinha espingarda, integrava-se nas quadrilhas de caçadores, tirando previamente a licença para caçar com pau! Munia-se de um potente varapau, um ou dois cães que possuía e, às vezes trazia mais coelhos e lebres do que os caçadores de espingarda.



Caçava de maneira simples dando uma cacetada com o pau ou atirando-o na direcção do animal em corrida. Ou surpreendia uma lebre deitada, que com o barulho produzido ficou amassada (deitada no chão) à espera que a tormenta passe. É muitas vezes o que acontece quando passa um rebanho de ovelhas mesmo com os chocalhos a vibrar e a lebre não foge. Também as perdizes depois de muito acossadas e de darem vários voos, sentindo-se cansadas pousam e, possuídas de grande inércia e medo, se amassavam e algumas vezes foram vítimas mortais de um destes paus.

Outras vezes o caçador de pau era ajuda/sócio de outro caçador de espingarda quando caçavam com furão. Metiam o furão na toca. Ele procurava os coelhos e os coelhos com medo saiam a toda a velocidade. O caçador de pau tinha a primeira oportunidade, intervinha logo à saída do coelho dando-lhe uma cacetada. Se esta falhava, intervinha o caçador a tiro com a espingarda quando o coelho já levava uma trajectória menos sinuosa e portanto mais fácil de alvejar.

Muitos caçadores de Alcoutim, antes de comprarem espingarda, que era cara, começaram por caçar com pau, auxiliados por um ou dois cães. Lembro-me do António Pandeireta e do Fernando Caleja.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Para norte da Vila de Alcoutim


É a segunda fotografia que apresentamos do cidadão alemão Echart Frischmuth mas esta não nos foi cedida, como a anterior pelo alcoutenejo colaborador deste espaço, José Madeira Serafim que tem tido o cuidado de preservar tantas relíquias que fazem parte da história da “pequena vila raiana”.

Então quem nos facilitou a fotografia, esta a cores e tirada igualmente em 1965?

Por mais que possa intrigar os nossos leitores tenho o grande prazer de informar que ela me foi enviada com mais quatro pelo seu autor e vindas da Alemanha! Sim, é verdade, não estamos no 1 de Abril.

O Dr. Eckart Frischmuth acabou por ter acesso à fotografia que publicámos e teve a amabilidade de nos enviar um mail, em português, agradecendo esse facto e tendo constatado que ainda é lembrado pelos amigos alcoutenejos que por cá deixou.

A fotografia que apresentamos é tirada da “esplanada” do castelo.

A paisagem pouco variou, estava distante a existência do cais acostável e ainda não havia os veleiros ou iates espalhados pelo rio.

A melhor várzea espanhola junto ao rio e a norte do cemitério local estava arborizada e ainda não tinha construções.

Do lado português nota-se a diferença de porte da casuarina e das duas árvores que se vêem no primeiro plano, do lado direito, uma secou pelo que teve de ser removida.

A buganvília que se vê no canteiro do cais talvez ainda exista mas tem sido sacrificada com cortes violentos.

Notar que nem uma única pessoa se vê e muito menos um veículo!

Temos mais algumas informações para dar do Dr. Eckard Frischmunth, especialmente para os seus amigos, mas ficará para uma próxima abordagem.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Demos mais um passo... 110 MIL VISITAS!



É verdade, adquirimos ontem pelas 18 horas mais 10 MIL VISITAS ainda que para tal acontecer o passo tivesse sido mais lento. Gastámos para o efeito 2 meses e 28 dias o que ultrapassou em 12 dias a contagem anterior.

Significa isto que houve um decréscimo diário de 17,94, (média de 113,63/dia) o que é significativo. Apesar disso a barra que o representa no gráfico que é costume apresentarmos é a segunda mais elevada.

Após o último balanço efectuado em 10 de Novembro último, o movimento de visitas ao A.L. continuou a subir a grande ritmo, ultrapassado várias vezes as 150 visitas diárias e muito excepcionalmente menos que a centena, o que acontecia compreensivelmente aos sábados por motivos que não é necessário referir, tão evidentes se mostram.

No período “festivo” do fim do ano o movimento naturalmente desce o que aconteceu mais uma vez. Não esperávamos contudo que a situação se mantivesse pelo mês de Janeiro e Fevereiro chegando a haver dias em que as visitas se pautaram por números há muito não encontrados, ou seja entre 50/60.

Naturalmente que existem razões para esta queda acentuada no número de visitas que podemos admitir mas não certificar.

Saturação dos visitantes? Assuntos abordados de menor interesse? Falta de tempo? Possivelmente a crise com o forte desemprego e a taxa elevadíssima de impostos terá sido um motivo a considerar.

O concelho de Alcoutim em si neste aspecto não conta pois além do número de computadores ser irrisório as dificuldades em obter sinal são muitas, também não tem desemprego e os construtores civis lutam com faltam de pessoal segundo informações de responsáveis e que a comunicação social trouxe a público!

O decréscimo no movimento não vem daí como é fácil deduzir.

Durante este período verificaram-se visitas de mais seis novos países, a saber: Líbano, Bermudas, Arménia, Guiana, Vietname e Bangladesh passando o número total a ser de 122. Enquanto os quatro primeiros têm uma única visita, os dois restantes já têm quatro cada.

Neste espaço de tempo e no sentido de facilitar a localização de assuntos versados criámos mais três Temas, ou seja ARQUEOLOGIA (13 entradas), REINO ANIMAL (14) e REINO VEGETAL (15).

Apresentamos seguidamente o gráfico actualizado.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Janeiro e as Janeiras!



Escreve

  Maria Dias
http://viseumais.com/viseu/?p=7489

 À tardinha, lusco-fusco regressavam os” moirais” com os seus enormes rebanhos a perder de vista!

Metiam-nos nas grandes cercas, com a ajuda dos seus cães rafeiros e ao som de um linguajar que só eles, os cães e os rebanhos entendiam, lá se amalhavam as ovelhas.

Regressavam a casa e acompanhados dos rafeiros chegavam-se à lareira e comiam os jantares de grão ou feijão com couves e a bela carne de porco da matança de alguns dias atrás, (os rafeiros contentavam-se com algumas sobras e uns bocados de pão de farelo que as donas preparavam de semana a semana para eles).

Mas o serão de 5 de Janeiro tinha na minha meninice um encanto especial!

Esses ditos pastores e outros vizinhos, mulheres também, reuniam-se em grupos e de porta em porta, alumiados pelo lampião a petróleo, quando não calhava haver um belo luar de janeiro, iam cantar as janeiras! Cantigas, que surgiam espontâneas, fruto das tradições e da inspiração de cada um mas ,com vozes timbradas, aquecidas previamente com um copinho de medronho ou de aguardente de figo antes de saírem de casa.

Lembro-me pouco das letras, mas há uma frase que achava graça e quase sempre anunciava a chegada dos janeireiros: depois de baterem à porta, e sabendo que nessa família havia um luto recente, perguntavam: quer que cante ou quer que reze? Consoante a resposta assim procediam, mas nos restantes casos as cantigas eram divertidas e quase sempre começavam: Estou aqui vizinha Maria, com o cu na pedra fria.....abra a porta ou o postigo.... Eu e os meus irmãos entrávamos numa excitação misto de medo e de alegria ao ouvirmos o “rasmalhar” das botas dos janeireiros e dos gatos em corrida à frente dos cães. Eram eles, os janeireiros que se aproximavam da nossa porta. Ouvíamo-los e depois sim é que íamos dormir. Tinha encanto a nossa meninice!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Os filhos "Noronha" da 1ª Condessa de Alcoutim


(PUBLICADO NO JORNAL ESCRITO Nº 66 DE AGOSTO DE 2004 – ENCARTE DE O ALGARVE Nº 4810)

Brasão dos Noronha
Foi através da Internet na consulta de uma página de genealogia que tive conhecimento de outros filhos dos primeiros Condes de Alcoutim, a que em título chamo os “Noronha”.

As consultas que até aí tínhamos feito através da literatura habitual, só nos tinha levado ao conhecimento do filho primogénito, aquele que veio a suceder a seu pai como 2º Conde de Alcoutim e 3ºMarquês de Vila Real, D. Pedro de Meneses, mas hoje não é sobre este que vamos escrever, mas sim sobre os seus irmãos.

Um Meneses e os outros Noronha, porquê?

D. Pedro de Meneses, o do “aleo”, sepultado num belíssimo túmulo na Igreja da Graça, de Santarém, foi o 1º Conde de Vila Real, título que lhe concedeu D. João I em 1424, capitão e 1º governador de Ceuta, durante vinte e dois anos, até à sua morte.

Túmulo de D. Pedro de Meneses, 1´º Governador de Ceuta.
Des. Braz Ruivo.


Entretanto o título é-lhe substituído pelo de Viana, passando o de Vila Real para D. Fernando de Noronha que casara com D. Beatriz de Meneses, única e legítima filha do seu primeiro matrimónio.

Foi D. Fernando o 2º Conde de Vila Real, por direito de sua mulher, pelo que passou a usar o nome de D. Fernando de Meneses. A partir daí, só o primogénito e imediato sucessor se apelidava de Meneses, usando todos os demais membros da família o apelido e armas de Noronha.

Depois desta pequena introdução, iremos agora referir os “filhos Noronha” dos 1º Conde de Alcoutim.

O filho secundogénito chamou-se D. João de Noronha. Na ausência do irmão D. Pedro de Meneses, assumiu o governo da capitania de Ceuta. Como era próprio da sua estirpe, foi guerreiro notabilizando-se nas guerras do norte de África. Esteve com seu tio, D. Duarte de Meneses, 3º Conde de Viana, em Alcácer Ceguer, onde foi capitão.

Acompanhou o rei D. Afonso V na batalha do Toro, onde ficou prisioneiro. Libertado, é encarregado por D. João II do governo da Casa de D. Joana, a “Excelente Senhora”. O seu túmulo renascença encontra-se na Igreja de Santa Maria de Óbidos. (*)

Passemos agora a D. Nuno Álvares de Noronha, também ele capitão e governador de Ceuta. Casou com D. Maria de Noronha (Vila Nova) que parece ter falecido em 1578.

Não conseguimos até agora mais qualquer dado biográfico.

D. Afonso de Noronha, 5º Vice-rei da Índia.
O 4º filho de D. Maria Freire e de D. Fernando de Meneses, foi D. Afonso de Noronha que casou com D. Maria de Eça, filha de Fernando de Miranda. Foi o 5º Vice-rei da Índia.

Aposentador-mor do Reino, cargo já desempenhado por seu avô materno, foi Senhor de Olalhas, de S. Miguel e de S. João da Castanheira. Substituiu o seu irmão D. Nuno como capitão de Ceuta, funções que exerce de 1538 a 1549.

D. João III devido às grandes contrariedades encontradas, com faltas de tudo, acaba por resolver abandonar as praças de Arzila e Alcácer Ceguer, voltando ao Reino D. Afonso de Noronha. É nesta altura e tomando em consideração os bons serviços prestados em África que o nomeia Vice-rei da Índia, substituindo D. João de Castro.

Parte com a sua armada composta de seis naus, em Maio de 1550 e acompanham-no alguns fidalgos que se tinham distinguido nas guerras do norte de África.

Chega a Goa e toma posse do seu governo a 6.11.1550. Manda construir as fortalezas dos Reis Magos, próximo de Goa, e a de Mascate, de fortes muralhas. Ormuz, Ternate e Malaca foram valorosamente defendidas por D. António de Noronha e D. Jorge de Meneses.

No tempo do seu governo estiveram na índia o missionário Francisco Xavier, que morreu em 1552 e Luís de Camões. O seu vice-reinado durou quatro anos sendo substituído por D. Pedro de Mascarenhas. Regressa a Portugal onde parece ter vivido com indícios de pobreza, servindo o honroso cargo de mordomo-mor da Infanta D. Maria, filha de D. Manuel e da Rainha D. Leonor.

Foi sepultado no Convento de S. Domingos de Santarém.

Por último iremos referir a única filha do casal, D. Leonor de Noronha.

Teria nascido em Évora. Versada em várias línguas, foi discípula do humanista siciliano, Cataldo Sículo, com quem aprendeu latim, O seu Mestre descreve-a, aos onze anos, de cabelos louros e pele rosada. Considera-a inteligente e estudiosa, elogiando-a muito em carta que escreveu ao rei D. Manuel I.

Traduziu do latim a Crónica Geral de Marco António Sabélico (1550) além de outras obras de importância cultural.

Faleceu solteira, em 17 de Fevereiro de 1563, com aproximadamente 75 anos de idade, tendo levado uma vida de piedade e de estudo, dedicada às letras.

Algum dos filhos do casal teria nascido em Alcoutim? Não sabemos, mas não seria impossível.

(*) Não ficou sepultado em Óbidos como se afirma pois ficou em Ceuta tendo morrido na luta contra os mouros. Houve confusão com um familiar do mesmo nome mas de outro ramo.

Bibliografia

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
Lello Universal, Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro.
Enciclopédia Verbo. Luso Brasileira de Cultura, Edição Século XXI.
Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Lisboa, Publicações Alfa, 1985.
Nobreza de Portugal e do Brasil, 3 Vols., Lisboa, Editorial Enciclopédia, 1961.
FREIRE, Anselmo Braamcamp, Brasões da Sala de Sintra, 3 vols, Lisboa, 1927.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Um fim de tarde em Alcoutim:sonho ou realidade? [2]





Escreve

Amílcar Felício 



Portas de Mértola. Foto JV
 De facto com o fim do dia e o regresso a casa, Alcoutim e todas as Casas de Campo envolventes ganhavam outra vida naqueles finais da década de cinquenta do século passado, como vimos na crónica anterior. Os sons do clarinete ou do saxofone com que o Mestre João Ricardo acabava normalmente os seus dias de trabalho na Barbearia, esgueiravam-se melodiosamente pela Praça e esbatiam-se melosa e suavemente pelo alcatrão escaldante estrada acima, naquela tarde calorenta de Agosto.

Os homens sentados no muro em frente à casa da Tia Catarina das Portas embalados por aquela música de fundo, lá continuavam naquela moleza à espera do primeiro fresco da tarde. Para saírem daquele entorpecimento iam falando de tudo e de quase nada ou dizendo umas larachas às moças que entretanto passavam alegres e em grupo, com a infusa ao quadril a caminho do Pocinho. A Maria Tomásia ia quase sempre atrás delas para se defender dos impropérios, que alguns desbocados mais atrevidos lhe dirigiam.

Pego Fundo de outros tempos. Foto JV
 As Lavadeiras de Caneças alcoutenejas – a Tia Maximina e a Tia Alice Pandareta – lá vinham de canastra à cabeça, depois de uma tarde inteira a lavar roupa no Pego Fundo e cruzam-se com as moças mesmo à entrada da Vila. A Tia Maximina preocupada com a catrefada de gente que tinha lá em casa para alimentar pois seriam mais de dez, pergunta à Aurora se a Idalina não se tinha esquecido de tratar do jantar, ao que ela responde que até já estava ao lume mas que ainda devia faltar uma boa meia hora para estar pronto, possivelmente só quando chegasse do Pocinho.

O Mestre Carlos Sapateiro assobiando no seu famoso e popular”prega-saltos”pedalava ligeiro estrada acima e quando os homens o questionam aonde é que ia, respondeu como sempre na sua maneira de falar de rajada como se fosse uma metralhadora e brincalhona de quem leva a vida pouco a sério, de que ia “à do Ti Chico das Quatro Estradas beber um pirolito, que é muito mais barato do que na Vila”. A garotada mais miúda na sua algazarra frenética não parava, ora estrada acima direito ao Celeiro ora estrada abaixo direito à Praça, com uma cana entre as pernas a fazer de cavalo e uma corda entre as mãos atada à ponta da cana, como se montassem um Puro Sangue Lusitano. E não é que os sacanas dos “cavalos” até relinchavam, caramba!

Talvez influenciados pelas tropelias da miudagem, o Gonçalves e o “maluco de Giões” como era conhecido, passavam entretanto a correr descalços como sempre. Os homens perguntam-lhes “então mas de aonde é que vocês vêm a esta hora (?)”. O Gonçalves que ia à frente gritando “bruuuuhhhh... bruuuuhhhh... bruuuuhhhh...” responde que “é a camioneta que está a chegar à Vila”. O “maluco de Giões” um pouco mais lúcido do que o Gonçalves e por quem sentia um certo paternalismo, ria-se e comentava que “este gajo nunca mais tem juízo, cada vez está mais maluco (!)” e lá continuam os dois na sua correria desenfreada estrada abaixo, direitos à Praça!

O Gonçalves teria uns vinte e muitos anos e o “maluco de Giões” já um pouco mais velho, andaria na casa dos trinta. Eram dois dementes pacíficos que não se metiam com ninguém, acarinhados pelo povo que lhes dava comida e que de tempos a tempos, percorriam juntos o Concelho sempre a pé. O “maluco de Giões” tinha por hábito vir a Alcoutim duas ou três vezes por ano, possivelmente visitar o seu amigo Gonçalves. Dormiam nos escombros das casas abandonadas. O Gonçalves dormia normalmente numas casas derrubadas que existiam entre a casa dos Caimotos e a Estalagem da Tia Libânia entretanto desaparecidas, para dar lugar ao largo existente na fachada principal do Castelo. Andava quase sempre com as calças rotas no rabo pelo que quando se sentava, ficava invariavelmente com a ferramenta à vista para deleite de uma ou outra mulher mais arrojada que o fustigava, “mas tu nunca mais tens vergonha de”tar”sempre com isso à mostra Gonçalves (?), mete lá isso já”p´ra dentro (!)”, mas o Gonçalves eternamente a sorrir, lá continuava impávido e sereno na sua sacrossanta ingenuidade a dar ar à minhoca, como se não fosse nada com ele.

Passadeiras na Ribeira de Cadavais. Foto JV
 Havia sons naquela época que chegavam à Rua das Portas de Mértola aonde eu passava a maior parte do dia e uma boa parte da noite, que nos ficariam gravados para sempre nas profundezas da nossa memória como se tivessem sido ontem, como o ronco tenebroso durante a noite das Ribeiradas nas passadeiras da Fonte Primeira ou os gritos lancinantes e arrepiantes do Gonçalves, quando os homens lhe davam banho em pelota naqueles invernos gelados no Pego Fundo com direito a roupa lavada, principalmente para a Ceia de Natal que o velho Dr. João Dias organizava em sua casa para os pobres, no meio da habitual fofoca alcouteneja que em privado não poupava nas palavras. Mas adiante...

Lá passa entretanto o Ti Mário com o seu macho pela arreata, incansável contador de estórias e de sonhos, sempre com esperança na vida e num futuro melhor, com a gorpelha cheia de canastras de amêndoas e de maçarocas de milho e logo a seguir o Ti Alfredo das Portas, a cavalo na sua mula bem arreada com uma bela albarda e com a sua nova burra logo atrás, ainda pouco habituada àquelas andanças com os alforges cheios de abóboras, frades e alguns melões e melancias. Trazia também umas alfarrobas e alguns figos de tuna para os porcos. Já vinham sozinhos pois os filhos como tantos outros, há muito que tinham batido a asa para a tropa e até já algumas das filhas tinham casado, ficando a casa mais vazia.

Aquela nova burra do Ti Alfredo, tinha vindo substituir a última burra que lhe tinha morrido enforcada numa noite desgraçada na arramada e que o fez chorar convulsivamente como uma criança, apesar de ser um homem temperado pela 1ª Guerra Mundial em França, da qual guardava como lembrança mas que nunca utilizava, o garfo e a colher que por lá tinha usado. Nunca lhe tinha visto nem nunca mais lhe voltaria a ver uma lágrima a correr por aquela cara abaixo! Aquela burra tinha sido a sua companhia anos e anos no seu trabalho solitário entre a Hortinha no Pocinho, a Corte da Seda e o Alcaçarinho. Possivelmente só quem viveu situações semelhantes poderá compreender tais sentimentos. A Tia Catarina das Portas debruçada no parapeito do seu muro altaneiro, contemplava lá do alto e em silêncio o movimento dos que passavam, depois de um dia de trabalho que ainda estava longe de chegar ao fim, enquanto as brasas das estevas iam apurando em lume brando o jantar de grão que tinha na pelengana em cima da trempe, para a refeição da noite que se aproximava.

Ribeira de Cadavais. Sítio do Pego das Portas. Foto JV
Chega o Ti Pimenta também, com uma cabra pela mão provavelmente para matar no dia seguinte, pois havia já alguns dias que não tinha carne no talho. Tenho que avisar a minha mãe, pensei eu logo cá para mim, para perguntar à Tia Nascimento pois carne de cabra é sempre mais rara e acaba depressa! Um dos criados do Senhor Serafim vinha logo a seguir atrás das vacas, enquanto os outros ainda continuavam na Eira do Cerro do Celeiro com as bestas, à espera que se levantasse algum vento para acabar a debulha. Quase ao mesmo tempo passa o Senhor Antunes Guarda-Rio, que foi dar uma volta pela Ribeira para ver se estava tudo em ordem. Olha o Senhor Zé Custódio e o Senhor Santos Guarda-Fios hoje vêm juntos, comentam os homens. Se calhar tiveram algum trabalho mais complicado e tiveram que ir os dois, diz logo outro a seguir.

Na encosta da Igreja da Nossa Senhora da Conceição o Senhor António do Vinagre a que todos chamavam de Ti Enterrador, indiferente ao que se passava lá em baixo nas Portas ainda regava os pequenos eucaliptos que ele próprio tinha plantado. Vamos lá a ver mas é se pegam todos, comentavam os homens uns para os outros, pois sempre faziam uma entrada na Vila mais bonita!

A brisa da tarde estava difícil de chegar às Portas mas o regresso a casa naquele dia, fazia-se a bom ritmo como habitualmente. Contudo, ainda estávamos longe de chegar ao fim como veremos na próxima crónica.

(continua)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Abrótea


Alabroitas ou labroitas é o nome que de uma maneira geral o alcoutenejo dá a esta planta herbácea, vivaz, de raízes carnudas e medicinal.

Além de abrótea, do latim abrotina, é conhecida por gamão.

As folhas são lineares e planas, saindo todas da mesma base.

A abrótea (Asphodelus ramosus) pertence à família das liliáceas. Procura solos secos e ácidos, principalmente os de xisto que são característicos do concelho de Alcoutim

É planta espontânea própria na Região Mediterrânea e praticamente existe do norte a sul do nosso país.

As flores que são numerosas aparecem entre Janeiro e Maio. São brancas e têm uma faixa central acastanhada e dispõem-se em cacho composto na extremidade de uma longa haste. Os alcoutenejos como dissemos designam a planta em si como “alabroita” e ao conjunto da haste com as flores “gaimão”. Noutras regiões do país é conhecida por outros nomes como nunos ou foguetes e às raízes chamam badalhocas.

Os frutos de forma ovóide constituem cápsulas pequenas.

As raízes tuberculosas depois de cortadas longitudinalmente e postas sobre impigens ou então esfregadas sobre as mesmas, originam o seu desaparecimento o que era muito utilizado pelo povo.

Segundo informação recolhida localmente, as suas folhas depois de secas serviam para fazer um chá contra o “constipado”.

Temos conhecimento que em outras zonas do país as suas raízes eram utilizadas depois de esmagadas com sal, no tratamento da sarna, o que não encontrei em Alcoutim.

Os “gaimões” eram utilizados para voltar as tripas para a limpeza nos barrancos a fim de serem utilizadas nos enchidos.

Noutros tempos as crianças alcoutenejas utilizavam as raízes para brincar pois serviam como se fossem porcos após pequena adaptação.

Os antigos consideravam-na como penhor de amor e os Gregos plantavam-na perto das sepulturas

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O "Betabê"


Pequena nota
Este texto é retirado com a devida vénia de um interessante livrinho (págs. 35 a 37) que tem por título Memória de algumas Figuras Populares de Chaves em meados do Século XX e que o autor teve a amabilidade de nos oferecer.
JV

 


Escreve

José Temudo



Aconteceu-me sempre assim quando abro o baú das recordações. Como no caso das cerejas, puxo por uma e logo vem um rosário delas.

Tendo falado do Joaquim Cavalo, preparava-me para fechar o baú, quando fui surpreendido por uma voz que assim me interpelou:

“E eu? Não quer falar de mim? Acaso não fui eu tão popular quanto os outros de quem já falou?”

Era o “Betabê”que assim falava enquanto pulava do baú para a minha secrtetária e se colocava bem à minha frente.

Na verdade, pensei, como pude esquecer o Betabê, que a cidade inteira conhecia? Tem razão o pobre diabo, como pude esquecê-lo?

Quando o conheci, o Betabê era engraxador do Café Comercial. À época, o melhor café da cidade. Os fregueses gostavam dele, mas “picavam-no”, só para o ouvirem ripostar, nem sempre nos melhores termos, na sua linguagem de “cecemelo” (regionalismo que significa “ceceoso”). Não teria, ainda, quarenta anos. Era de estatura média, de cabelo e barba ruça, a puxar para o ruivo, ambos ralos e ressequidos, como que a lembrar a miséria de vida que fora a sua desde que nascera. Aquele lugar de engraxador no Café Comercial tinha sido até então, o seu melhor ganha-pão. Aliás, aquele lugar de engraxador no melhor café de Chaves era muito disputado pelos muitos outros engraxadores que havia na cidade, a maior parte deles trabalhadores ao ar livre. O preço do serviço e as gorjetas davam para os gastos mais necessários e imediatos do Betabê; para o resto, roupa e calçado, contava com a generosidade dos clientes, que sempre aparecia quando o viam mais necessitado. E é sobre este aspecto que eu vou contar uma “historieta” que muito fez rir a cidade.

Um dos clientes do Café e do Betabê era um engenheiro, director dos serviços florestais daquela zona. Era um homem dos seus 45 anos, de boa constituição física; alfacinha puro, educado e comunicativo, andava sempre impecavelmente vestido e calçado. Tinha um ar refinado, havia mesmo quem o achasse “snob”. Uma virtude ele não tinha, mas isso, em Chaves, não incomodava ninguém. Casado, não era homem de uma só cama! E foi através do Betabê, dos “bons serviços do Betabê”que ele estabelecera relações com uma moça muito cobiçada e que já tinha passado pelas mãos de dois ou três amantes que lhe tinham proporcionado uma vida regalada. O Betabê foi, naturalmente, recompensado. O engenheiro arranjou-lhe um emprego qualquer nos serviços que dirigia, uma espécie de moço de recados, pago pelo orçamento do Estado.

In kidsalfabetizaca.blogspot.com
Ainda antes do Betabê ter entrado para o “serviço público”, num dia em que estava engraxando os sapatos ao engenheiro, disse-lhe:

“Bonitos sapatos, estes, sr. Engenheiro!”
“Gostas deles, Betabê?”
“Se gosto deles, sr. Engenheiro? Isto é do melhor que há!”
“Que número calças, Betabê?, “perguntou-lhe o engenheiro.
“Quarenta e um, sr. Engenheiro.”
“Também eu. Pois, fica sabendo que quando me cansar deles, ofereço-tos!”
“O sr. Engenheiro está a gozar comigo? Ia, agora, dar-me estes sapatos!”
“O que está dito, está dito”, disse-lhe o engenheiro.
“Palavra de honra, sr. Engenheiro?”
“Eu só tenho uma palavra, Betabê!, disse o engenheiro com prosápia.

A partir deste momento, o Betabê passou a olhar para aqueles sapatos como coisa sua. Se era cuidadoso a engraxar quaisquer outros, com aqueles refinava os cuidados. Entretanto, o Betabê continuou a engraxar os sapatos ao engenheiro, não só os que lhe estavam prometidos, como também alguns outros pares, que o homem era um autêntico “dandy” e gostava pouco de repetir o que vestia e o que calçava. Mas um dia, por sinal um dia de muita chuva, o Betabê ficou estarrecido e sem fala quando viu o engenheiro entrar no café com os sapatos, aqueles belos sapatos, que lhe estavam prometidos, todos enlameados! E só quando o engenheiro, já sentado, lhe fez sinal para lhe ir engraxar os sapatos, é que o Betabê saiu do pasmo em que tinha ficado. De má catadura, sem cumprimentar o cliente, sem mesmo olhar para ele, começou a limpar-lhe os sapatos. O engenheiro estranhou-lhe o silêncio e a cara de poucos amigos e interpelou-o:

“Que diabo tens tu, Betabê? Trataram-te mal?”
“Ninguém me tratou mal, sr, Engenheiro.”
“Então dói-te a barriga?”, perguntou-lhe o engenheiro em tom de gozo.
“Porra sr. Engenheiro, dá-me cabo dos sapatos e depois ainda me pergunta se me dói a barriga? Isso, é fazer pouco dos pobres!”

Num primeiro momento, o engenheiro ficou irritado, de testa franzida, com o tom acrimonioso da resposta daquela infeliz criatura; mas bem depressa se lembrou do compromisso que assumira de lhe oferecer aquele par de sapatos quando deles se cansasse. Riu-se tanto, achou-lhe tanta graça, que não perdia a oportunidade de contar aquele episódio às pessoas do seu convívio.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Cantarinha


É decorada parcialmente a corda seca servindo como louça de cozinha.

Cerâmica islâmica do séc. XI

Vasilha que serve para guardar líquidos ou para levar água à mesa.

Foi recolhida no “Castelo Velho” e está exposta no Núcleo de Arqueologia do Castelo de Alcoutim e inventariada com o nº 44.

Med. Alt. 24,2 cm, Diâm. 20,3 cm.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

"Montes do Concelho - Martim Longo", analisando o seu movimento

Pessegueiro visto da barragem. Foto JV, 2009

Como é do vosso conhecimento temos vindo a analisar as várias rubricas em que o A.L. se vai dividindo para facilitar possíveis procuras dos nossos visitantes / leitores.

Ainda que a estatística pouco ou nada tenha a ver com o valor dos textos, não deixa de ser curioso verificar esse movimento a que só nós, como administrador, temos acesso.

Considero nossa missão partilhar com os leitores esses dados.

Depois de já o termos realizado em relação à freguesia de Vaqueiros, vamo-nos hoje ocupar da de Martim Longo.

A rubrica tem 25 entradas tendo já sido realizado pequenas notas monográficas sobre todas as povoações da freguesia, algumas já despovoadas.

As cinco mais movimentadas foram as seguintes e por ordem decrescente:

1
PESSEGUEIRO, O “MONTE” MAIS DINÂMICO DO CONCELHO

(14.11.2011)

431


2

PERO DIAS, PEQUENO “MONTE” NAS PROXIMIDADES DE MARTIM LONGO

(13.04.2011)



287

3

LUTÃO, DOIS “MONTES” DE TOPÓNIMO CONFUSO


(05.10.2009)



287

4

DIOGO DIAS, UM DOS VÁRIOS CASOS EM QUE O ANTROPÓNIMO DEU LUGAR AO TOPÓNIMO



(18.08.2010)




236


5


CASTELHANOS, UM MONTE COM NOME ESPECIAL


(13.08.2009)





191

Existe uma grande diferença entre a primeira e as segundas o que afinal acaba por justificar bem o título que demos à mensagem. É, sem dúvida, o “monte” mais dinâmico do concelho. Até nesta apreciação isso se nota!

Pêro Dias foi sempre um pequeno “monte” e hoje o número de habitantes deve de ser muito reduzido. As “visitas” naturalmente que não são de lá mas de fora através dos seus filhos espalhados pelo país, independentemente de quem o faz por uma questão de interesse técnico ou de simples curiosidade.

Tanto Diogo Dias como o Lutão foram “montes” relativamente bem povoados e que hoje, como todos os do concelho se encontram a caminho da desertificação.

Em sentido contrário a entrada menos procurada foi SILGADO, PEQUENO “MONTE” DESPOVOADO DA FREGUESIA DE MARTIM LONGO (12.04.2010) com apenas 2 visitas e com 14 e em pé de igualdade temos ZORRINHOS, “MONTES” NA CUMEADA DO PEREIRÃO (06.10.2008), LABORATO, POVOAÇÃO PRÓXIMA DA ALDEIA DE MARTIM LONGO e O MONTE DA BERENGEIRA OU DA BERINGUEIRA (04.06.2011).

É esta a nossa análise sobre o TEMA.