sábado, 9 de março de 2013

A onda como produto turístico pode desaparecer?





Escreve

José Miguel Nunes
















Desde que o surf se tornou a “menina dos olhos” do turismo em Portugal que ouço frases do tipo “as ondas não desaparecem”, “os estádios de surf já estão construídos” ou ainda que “as ondas não são passiveis de serem replicadas”, como argumentos justificativos para o investimento no produto surf.

Há muito que sou defensor, que o surf pode ser uma mais-valia muito importante para o desenvolvimento da economia da nossa região, tenho-o escrito variadíssimas vezes.

O produto surf tem como base a onda, pois é nela que se pratica a modalidade que serve de âncora a todo o desenvolvimento dos negócios a ele associados, sejam surfcamps,  surfschools,  surfshops, fábricas de pranchas, etc, etc, etc..., ou seja, sem ondas não há surf, e sem surf não há negócios associados, daí o tal argumento de que as ondas estão lá e não desaparecem, claro está, na perspetiva de não ser necessário construi-las, bastando unicamente que não destruam a sua envolvência, que elas continuam a rolar, como sempre rolaram.

Totalmente de acordo até este ponto, é quase uma ‘verdade de la palisse’, fisicamente a onda não desaparece (partindo do princípio que não a destroem), no entanto, o que está aqui em causa é a onda como produto turístico, e nesta perspetiva, na minha opinião, pode efetivamente desaparecer.

Senão vejamos, e existem alguns conceitos importantes para percebermos a questão.  TURISMO e não havendo uma definição única desse conceito, o que a Organização Mundial de Turismo (OMT) recomenda é que seja entendido como: "as atividades que as pessoas realizam durante as suas viagens e permanência em lugares distintos dos que vivem, por um período de tempo inferior a um ano consecutivo, com fins de lazer, negócios e outros."

Partindo do princípio que os turistas são aqueles que praticam o turismo, ainda segundo a OMT,  TURISTA “é todo o visitante temporário que permanece no local visitado mais de 24 horas”, o que nos leva à questão dos que permanecem menos de 24 horas, que segundo a mesma organização são os EXCURSIONISTAS. À conjugação destes dois conceitos aplica-se o conceito de VISITANTE, que “é toda a pessoa que se desloca temporariamente para fora da sua residência habitual, quer seja no seu próprio país ou no estrangeiro, por uma razão que não seja a de aí exercer uma atividade remunerada.”

Ponting, um dos estudiosos desta matéria, definiu então como TURISMO DE SURF “toda a viagem e permanência temporária, realizada por um surfista, envolvendo pelo menos uma noite fora da sua região de domicílio habitual, cuja principal expectativa é surfar.” Então, analogamente podemos dizer, e numa lógica de,  VISITANTE = TURISTA = SURFISTA (e aqui deixamos de fora os acompanhantes dos surfistas e aqueles que vêm ver os surfistas), que TURISTA DE SURF será toda a pessoa que se desloca temporariamente para fora da sua residência habitual, quer no seu próprio país ou no estrangeiro, por uma razão que não seja aí exercer uma atividade remunerada, cuja principal expectativa é surfar.

Qualquer turista, e o de surf não é excepção, tem no final da sua estadia, como objetivo, retirar uma sensação de satisfação, resultante da sua experiência de consumo, neste caso da onda, pois é nela que se baseia toda a oferta turística do surf.

Muito bem, assim, tudo isto nos leva à regra base do surf, um surfista, uma onda, e só havendo uma determinada percentagem de ondas de um turista de surf que satisfaça esta regra, é que o mesmo retira satisfação da sua estadia, caso contrário o feedback será negativo, com as implicações que isso terá.

Temos ainda de separar, na minha opinião, mais dois conceitos, os turistas de surf, que já fazem surf, e vêm para fazer surf, e os turistas de surf, que não fazem surf, mas que vêm para aprender a fazer. São dois nichos de mercado completamente diferentes, e que devem ser vistos de modo diferente.

Começando pelo primeiro caso, aqueles que não fazem já surf, aqui a tal regra básica do surf não se aplica, e uma onda (espuma) serve para muito mais do que um ‘surfista’, havendo apenas a preocupação da segurança com o número de ‘surfistas’ sem experiência dentro de água ao mesmo tempo.

No segundo caso, aqueles que já fazem surf, então aqui sim, a regra aplica-se, e o seu grau de satisfação aumenta ou diminui consoante aumenta ou diminui o número de ondas que conseguem fazer sozinhos, e não podemos correr o risco de chegar ao ponto de no futuro aparecerem títulos de notícias referentes a Peniche, como aquele que recentemente saiu no site Surftotal, no passado dia 19 de Fevereiro, referente à Gold Coast Australiana, e passo a citar, “As águas da Gold Coast na Austrália são uma autêntica "zona de guerra" com os surfistas a lutarem por espaço no meio do crowd”.

SUSTENTABILIDADE, este é o conceito base para o sucesso de Peniche como destino de surf. Este conceito assenta, grosso modo, em três pilares, que só em conjunto o definem: o ambiental, o económico e o social, que nos leva a um outro, o de DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, que se refere a um modo de desenvolvimento capaz de responder às necessidades do presente sem comprometer a capacidade de crescimento das gerações futuras, visando melhorar as condições de vida dos indivíduos, preservando simultaneamente o meio envolvente a curto, médio e, sobretudo, longo prazo, comportando um triplo objectivo: um desenvolvimento economicamente eficaz, socialmente equitativo e ecologicamente sustentável.

O ser sustentável, passa por criar condições para que o crowd não aumente desmesuradamente, pois isso irá ter implicações a médio/longo prazo, na vertente ambiental, económica e até social (e aqui falamos também na comunidade local), influenciando diretamente o grau de satisfação dos surfistas/turistas, e a escolha destes para viajar. O ser sustentável passa por termos a noção que existem ondas que têm capacidades de carga diferentes, consoante o tipo de surfistas que as procuram. O ser sustentável passa por percebermos que os mega-investimentos turísticos têm quase como única e exclusiva preocupação, o ganhar muito dinheiro e o mais rapidamente possível, sem preocupações ambientais e muito menos sociais. O ser sustentável, passa por criarmos condições em infraestruturas que melhorem as condições das praias. O ser sustentável, passa por legislar especificamente o surf e não adaptar legislação ao surf, de modo a que quem tenha negócios nesta área os possa desenvolver de forma ordenada, sustentada e principalmente em igualdade de circunstâncias no mercado concorrencial.

Se não conseguirmos desenvolver de modo sustentável o turismo de surf em Peniche, declarações como as de Kelly Slater ao Jornal “A Bola”, de dia 9 de Outubro de 2012, começam a fazer sentido, e mais importante, a “fazer mossa” na afirmação de Peniche como destino turístico de excelência para o surf, e que passo a citar: “Já com Peniche tenho uma relação de amor/ódio. Adoro as ondas mas está sempre lotado. Há tantas escolas de surf que, para ser honesto, nem vou surfar fora dos heats, porque está sempre muita gente. A única hipótese é tentar escapar para alguns spots mais distantes.", e não nos esqueçamos de quem é Kelly Slater, e que tudo aquilo que este Senhor diz, é ouvido com redobrada atenção.

O surf é uma excelente aposta para o desenvolvimento turístico, mas não pode ser unicamente “à conta” do surf que resolveremos todos os nossos problemas nesta área, pois para que isso acontecesse seria necessário tanta gente, que o produto turístico surf, deixaria de ser apelativo, perdendo qualidade e sustentabilidade, acabando por desaparecer enquanto tal.

Então, as ondas não precisam de desaparecer fisicamente, para desaparecerem como produto turístico, e para que tal não aconteça, devem ser aproveitadas de modo sustentável e equilibrado.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia Internacional da Mulher



Escreve

Maria Dias




“Silenciosamente elas fazem girar o Mundo”


Assim escreveu um dia alguém sobre a comemoração do dia Mundial da Mulher.

Nada mais verdadeiro! A Mulher é o motor da Grande Máquina!

Mulher filha, mulher namorada, mulher esposa, mulher mãe, mulher avó!

Ela é só uma, e todas elas! O fio condutor. A que avalia, planeia, executa, mima, aconselha, ampara!

Por mim, costumo dizer (por graça):

Atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher.......Parva!

Felizes dias para todas as mulheres!

Abastecimento antigo de água


O título da Câmara Escura de hoje é o que o  autor lhe deu quando teve a amabilidade de nos enviar, do seu país, um valioso conjunto de fotos que capetou em Alcoutim em 1965.

Tirou a fotografia o Dr. Eckart Frischmunth a quem não passou despercebido este quadro cheio de tipicidade da vila na época e que quis levar consigo, compartilhando-o agora com todos nós.

Quando o nosso colaborador, Eng. Gaspar Santos escreveu neste espaço sobre os aguadeiros em Alcoutim, não conseguimos obter uma fotografia deste tipo.

A foto, como reconhece facilmente quem conheceu o local, é tirada na antiga Praça da República.

Em lugar de apanhar dois automóveis que na altura seriam escassos por ali, fotografa dois burros, um, trazendo o homem que veste à maneira do campo, que por sua vez traz de arreata outro burro carregado de cântaros de zinco, contendo água e colocados em cangalhas duplas de ferro, pelo que transportava quatro cântaros.

O fotógrafo aproveitou o ângulo, que não apanha mais ninguém, em frente de um edifício bem típico de Alcoutim, casas baixas com portas e sem janelas, se a memória não me falha em toda a fachada só havia uma janela, telhado de telha de canudo e beiral ao gosto regional.

É um quadro obtido pela sensibilidade de um estrangeiro e que representa a vivência alcouteneja em meados do século passado.

O autor apanhou a mudança para o fornecimento de água ao domicílio.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Réplica de Santa Justa (Alcoutim) no Brasil?


A Internet possibilita coisas impensáveis não há muitos anos. Como tudo na vida tem a vertente boa e a vertente má. Quem a utiliza é que lhe dá o tom.

No A.L. não existe espaço para comentários mas temos o nosso endereço electrónico para quem nos deseje contactar e manifestar-se.

Neste sentido e como já o dissemos, tem aparecido recen-temente correspondência quase sempre oriunda de não al-coutenenses, pois estes, os que tinham de o fazer, já o fizeram.

Fazem-me várias abordagens de tipos completamente diferentes e a todos vou respondendo dentro das minhas possibilidades, umas ajudando, outras sem isso nos ser possível fazer.

Recebi recen-temente um e-mail oriundo do Brasil em que um cidadão daquele país me solicitava a indicação onde poderia adquirir uma imagem de Santa Justa, afirmando que já o tinha procurado em vários lugares do Brasil e mesmo na Internet e sem resultado. Encontrou sim um nosso artigo sobre a Capela de Santa Justa que leu e lhe causou interesse.
Capela de Santa Justa. Desenho de JV, 1990

Resolve por isso vir junto de nós numa tentativa de resolver a situação dizendo que possui uma propriedade rural designada por Fazenda de Santa Justa, no município de Miracema, no Estado do Rio de Janeiro e nela está construindo uma capelinha onde gostaria de ter uma imagem daquela invocação.

Respondi-lhe dizendo que desconhecia onde poderia encontrar tal imagem mas se desejasse podia enviar-lhe uma fotografia com boa resolução da imagem de Santa Justa existente na Capela de sua invocação no concelho de Alcoutim, acompanhada da sua descrição técnica e em face disso encontraria certamente um artista que lhe fizesse uma réplica.

Respondeu-me dizendo que aceitava a oferta e nestes termos cumpri o prometido.

Teve a amabilidade de nos enviar três fotografias que representam edifícios recentemente recuperados da mesma propriedade.



Estas fotografias têm muito de Portugal, segundo a nossa opinião.

O quintalão lajeado como as eiras no norte de Portugal que entre outras utilizações é lugar de secagem, aqui penso que para o café, pelo menos nos primórdios da fundação da Fazenda; a telha de canudo em telhado de quatro águas, o telheiro, o gradeamento de madeira com uma configuração muito vulgar em casas do centro e norte de Portugal, sendo destas regiões que saíram para o Brasil muitos dos emigrantes, ainda que saibamos que houve na zona uma forte corrente originária de Itália.

O beiral que é suportado através de tábuas, ainda se pode ver na região norte de Portugal.

Até o amarelo-torrado e o verde-escuro lá estão como por cá ainda acontece, nomeadamente no sul do país.

Fomos procurar saber alguma coisa sobre Miracema.

A colonização do território é atribuída a D. Ermelinda Rodrigues Pereira, um nome que nos parece bem português, e que parece ter acontecido por volta de 1846.

Muitas famílias de mineiros acorreram a esta zona de solos muito produtivos, principalmente de café, transformando-se em pequenos fazendeiros cujas famílias se foram fixando e proliferando.

A par do café cultivavam arroz, milho e feijão. Após a quebra do café é introduzida e desenvolvida a cultura do algodão e da cana do açúcar. A criação de gado leiteiro e o cultivo do café, milho e feijão são consideradas actividades complementares e de subsistência.

A Fazenda de Santa Justa foi das primeira a ser fundada na região e pertenceu, além de outras, a Bernardo Homem da Costa que foi Juiz de Paz em Paraíso do Tobias.

O edifício sede da Fazenda deve ter sido construído por volta de 1870 e passou ao filho do Juiz de Paz, Bernardo Alves da Costa.

Arroz, milho e algodão eram então as culturas principais.

Na década de 60 a Fazenda de Santa Justa foi vendida a Paulo Lima Barros que a transferiu a Décio Pereira Lima e com o seu falecimento é seu filho o actual proprietário. (1)

Aqui fica este breve apontamento para que os alcoutenejos saibam para onde foi a fotografia da imagem de Santa Justa existente na povoação a que deu o nome, freguesia de Martim Longo, concelho de Alcoutim e que poderá ter uma réplica na Fazenda de Santa Justa, município de Miracema, Brasil.

O ALCOUTIM LIVRE cumpriu assim mais uma das suas missões.

(1) www.institutocidadeviva.org.br

quarta-feira, 6 de março de 2013

O último barqueiro do rio Guadiana - Há 20 anos entre Portugal e Espanha


(PUBLICADO NO CORREIO DA MANHÃ DE 27 DE JANEIRO DE 1994)

Texto
de
João dos Reis

Faro (da nossa Delegação)

A fronteira entre Alcoutim e a povoação espanhola de San Lucar del Guadiana, ainda não funciona como as duas terras desejavam. Os alcoutinenses e os espanhóis, ainda muito antes das directrizes da União Europeia para a abertura franca de todas as fronteiras visitavam-se mais ou menos com uma certa frequência, embora, apenas um ou dois dias por ano é que a fronteira está oficialmente aberta.

Num, porque é dia da vila de Alcoutim, noutro, porque é também festa em San Lucar del Guadiana ou Sanlucar.

Desde que o generalíssimo Franco mandou encerrar a fronteira, facto que aconteceu durante a Guerra Civil Espanhola, que as duas povoações estiveram sempre de costas voltadas. Apesar de tudo, a travessia nos dois sentidos processou-se sempre, ante o olhar cúmplice das autoridades dos dois países.


Sem ponte ou ferry boat, os alcoutinenses e as gentes de Sanlucar, que lhe fica em frente, continuam a fazer o trajecto com a ajuda de velhos barqueiros espanhóis e um português, o único que existe na vila de Alcoutim, o “ti” João Parreira Baptista, de quase 70 anos, que nasceu junto ao rio Guadiana, correu mundo e regressou novamente para junto dele.

Fomos encontrá-lo no regresso de mais uma viagem que tinha acabado de fazer entre Alcoutim e San Lucar del Guadiana.

Amarrou o barco com uma corda de nylon à velha margem do rio por onde navegaram celtas, cartagineses, romanos, árabes e por onde agora transitam alguns iates de envergadura.”Ti” João Parreira Baptista, mais popularmente tratado por “ti” João, é uma figura de barqueiro bem conhecida em toda a vila que um dia o viu nascer.

“Transporto os turistas, alguém que queira passar para o outro lado, a fazer compras. Ás vezes faço pequenos passeios pelo rio. Passo assim o meu tempo, distraio-me com as brincadeiras dos turistas, com todas as pessoas que transporto para Espanha”, diz-nos.

“Ti” João Parreira Baptista é um homem que mede bem as palavras que pronuncia. Em menino, andou no transporte de areia, ajudou a construir o cais que há muitos anos servia de porto de acostagem aos barcos que então desciam o velho rio Guadiana em direcção a Vila Real de Santo António. Barcos que navegavam carregados de minério das minas de São Domingos, no desolado Baixo Alentejo e que eram carregados no velho porto do Pomarão.

“Eram outros tempos que eu não esqueço. Hoje, nos nossos dias, os tempos são outros. Os barcos que transportavam o minério e muitas outras coisas, já acabaram. O rio está morto. Aquela vida cheia de alegria que eu ainda conheci quando era novo”, esclarece.

Apesar da fronteira ainda não estar oficialmente aberta, “ti” João lá vai vivendo a vida no transporte das pessoas para Sanlucar. Sobretudo portugueses que querem ir consultar um famoso curandeiro espanhol que vive e trabalha a cerca de 10 quilómetros de Sanlucar.

“Muita gente quer ir tratar-se ao curandeiro António, que toda a gente conhece como o curandeiro do Granado. O curandeiro António diz e faz coisas que a gente nem imagina, Cura doenças que os médicos não conseguem curar”, adianta.

“Ti” João Parreira Baptista foi muitos anos condutor de máquinas na Marinha de Guerra. Correu mundo e reformou-se há cerca de 20 anos. Andou 32 anos pelos mares que lhe deram uma vivência superior àquela que a vida dura de Alcoutim lhe tinha dado.

“Quando me reformei, voltei para Alcoutim, para junto do rio. Vivia cá um velhote que fazia estas carreiras que eu hoje faço. Começou a andar doente. Antes de falecer, propôs-me este negócio. Fiquei-lhe com o barco em madeira, que mais tarde troquei por este, em fibra, que é muito melhor e não necessita de tanta manutenção. Era conhecido por Zé Altura. Uma boa pessoa que eu conheci muito bem”, prossegue, ainda, “ti” João.

Ainda é preciso pedir autorização

“Ti” João Baptista diz-nos que as pessoas, para atravessarem a fronteira entre Alcoutim e San Lucar del Guadiana ainda têm que ir pedir autorização à Guarda Fiscal (Brigada Fiscal da GNR).

“Só passo com as pessoas depois de elas terem obtido autorização Só não peço autorização quando a fronteira está aberta nos dias de festa. Dizem que esse problema vai acabar a partir a partir do próximo dia 1 de Fevereiro. Ainda hoje de manhã ouvi isso no meu rádio”, adianta.

À noite, sendo Alcoutim uma vila morta, alguns dos seus habitantes costumam deslocar-se até Sanlucar, “p`ra beber uns copitos”, diz.

“As autoridades fecham os olhos quando são pessoas conhecidas. Tenho mais fregueses no Verão que no Inverno, que está a ser muito morto este ano”, prossegue.

Leva apenas 100 escudos por cada viagem que faz. A não ser aos passeios porque a gasolina está cara, tornando os custos mais elevados e que os turista têm suportar, pagar mais caro. “Ti” João Baptista tem uma média, neste tempo de Inverno bem friorento, cerca de 5 a 6 clientes por dia, que quase não dá para viver.

“Se não fosse a minha reforma, morreria de fome. Tinha que arranjar outro modo de vida”, exclama, sorrindo com o seu rosto de muitas décadas.

Para “ti” João Parreira Baptista, ser barqueiro é um modo de vida como qualquer outro. Só que para ele, que nasceu junto ao rio Guadiana, é diferente. Nasceu com o rio.

Possui dois cães que o adoram. A “Carocha”, uma cadela preta que nunca o deixa sozinho. Ao outro animal deu-lhe o nome de “Guadiana”. Um esperto cão de cor castanha que também não o abandona.

“Quando vou para o outro lado, para Espanha, ficam sempre aqui à minha espera. Agora fui comprar a Sanlucar um pouco de “cascarilla” (tipo de pimentão vermelho próprio para temperar chouriças). Eles ficaram à minha espera. É sempre assim”.

“Ti” João Parreira Baptista: o único barqueiro do rio Guadiana que o viu nascer e com ele quer acabar o resto dos dias que ainda lhe faltam.

“O rio foi sempre meu. Quero que ele continue a ser meu, mesmo que amanhã deixe de ser barqueiro”, finaliza, “ti” João.

Foto: Luís Forra.

terça-feira, 5 de março de 2013

D. Joana de Meneses, sobrinha do 1º Conde de Alcoutim


 Filha de D. Henrique de Meneses e prima entre outros do 2º Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses.

Foi a 1ª mulher de seu tio D. Aleixo de Meneses que foi o 3º filho de D. Pedro de Meneses, 1º Conde de Cantanhede e de sua segunda mulher D. Beatriz de Melo.

Foi alcaide-mor de Arronches, mordomo-mor da rainha D. Catarina.

Cedo se iniciou na carreira das armas ao lado de seu tio D. João de Meneses na tomada de Azamor em 1513.

Antiga fortaleza de Azamor.
Tomou o rumo ao Oriente acompanhando o Governador da Índia Lopo Soares de Albergaria.

Foi comandante de uma esquadra que percorreu a costa da Arábia, entrando em vários combates e defendeu Malaca.

Durante a ausência de Lopo Soares de Albergaria foi governador interino do Estado da Índia.

Regressou ao reinado e D. João III incumbiu-o de reformar as praças de Arzila, Azamor e Tânger.

Pelas suas altas qualidades foi nomeado aio de D. Sebastião, funções que exerceu dos 4 aos 14 anos.

Do casamento com sua sobrinha resultou uma filha, D. Luísa de Meneses que se casou com D. Pedro de Meneses, 8º Senhor de Cantanhede e morreu de parto.

D. Aleixo de Meneses voltou a casar por imposição de D. João III, enlace que efectuou com D. Luísa de Noronha de quem teve numerosa sucessão, entre os quais D. Luís de Meneses que morreu na batalha de Alcácer-Quibir e D. Pedro de Meneses, Eremita de Santo Agostinho e que tomou o nome religioso de D. Frei Aleixo de Meneses.

Faleceu em 1569.

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História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Edição QuidNovi / Público – Academia Portuguesa da História, Vol. V, 2007

Enciclopédia Histórica de Portugal, Edição Romano Torres, Vol. 9, 1938

Dicionário de História de Portugal, Direc. Joel Serrão, Vol. IV, Livraria Figueirinhas / Porto

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Vol. I, Publicações Alfa, 1982

segunda-feira, 4 de março de 2013

Vocabulário Português de Origem Árabe


Pequeno mas muito útil este livro de formato A/5 de autoria  de José Pedro Machado, algarvio de Faro falecido não há muitos anos e que deixou grande obra.

Numa edição da Editorial Notícias e incluído na colecção linguística, tem prefácio de Fernando Sylvan, então Presidente da Direcção da Sociedade da Língua Portuguesa.

O registo com ordem alfabética, além de referir a palavra árabe completa, indica  a mais antiga data conhecida da sua presença na Língua Portuguesa.

Como apêndice apresenta os mais antigos arabismos de textos redigidos em terras hoje Portuguesas, além de outras curiosas e valiosas indicações, distribuindo as palavras por temas.

Comporta 141 páginas e foi editado em 1991.

Faz parte da nossa pequena estante de apoio de dicionários, prontuários e gramáticas.

domingo, 3 de março de 2013

Viagem ao Pomarão de lancha a remos





Escreve

Gaspar Santos



Todos os verões fazíamos uma viagem ao Pomarão, para visitar o nosso Tio António Patrocínio. Ele, ainda jovem, fizera um esforço muito grande no trabalho de guarda-fios dos CTT que o deixou imobilizado em cadeira de rodas mais de 40 anos até morrer.

Nosso Tio tinha muitos filhos. Teve um primeiro casamento, ficou viúvo e casou novamente. Os filhos do primeiro casamento tinham idades equivalentes à do meu Pai, enquanto os filhos do segundo casamento, aqueles que ainda moravam com o pai, tinham idades equivalentes à minha. Assim, esses tinham sobrinhos com idade superior à deles, o que eu estranhava por ser diferente do habitual.

 A viagem foi de lancha a remos. Remar exige um esforço físico considerável. Esforço aceitável se a água do rio corre a favor. Mas custoso e quase proibitivo se a maré corre em sentido contrário. É tarefa só para profissionais, que sabem aproveitar as revessas (menor corrente que corre junto da margem) e, sobretudo, que sabem vencer as intensas correntes do rio nos salientes cascalhos dos ribeiros.

 Como a água corre para norte 6 horas e outras 6 horas para sul, esta viagem tinha que ser programada de modo que saíssemos de Alcoutim de manhã quando a maré começava a encher e, portanto, corria de sul para norte e que passadas 6 + 4 horas iniciássemos o regresso para em menos de 2 horas estar de novo em Alcoutim.

Pomarão era nesse tempo uma pequena localidade, porto de embarque do minério das Minas de S. Domingos. Situava-se na margem esquerda do Guadiana e na margem direita do Rio Chança, próximo do vértice de confluência dos dois. Do outro lado do Chança é Espanha.

Estava assim situado no local mais perto da foz do Guadiana na sua margem esquerda, onde o Rio tinha largura e profundidade de águas que lhe permitiam o manobrar fácil dos navios.

Mais a sul também os espanhóis tinham um porto para escoamento de minério. Era o Puerto de la Laja, a meio caminho entre Alcoutim e Pomarão.

 Gostava de lá ir. Considerava aquilo uma saborosa aventura. Ia pisar um outro mundo a que não estava habituado. Uma grande azáfama de indústria mineira e, pelo facto de os mineiros terem poder de compra, também grande azáfama comercial. Tinha várias casas comerciais, lojas, talho e até já tinha um grande café em que os empregados atendiam os estrangeiros em inglês, fruto do atendimento frequente dos tripulantes dos navios.

Hoje as crianças lêem mais, e digitam nos seus jogos electrónicos, a todas as horas e em todos os locais, pouco olhando em volta. Pelo contrário, nós nesse tempo tínhamos poucos livros e, se havia curiosidade, olhávamos mais as coisas e fazíamos mais perguntas aos pais.

O Guadiana à Lourinhã. Foto JV, 2013
Logo a seguir à curva da Lourinhã a margem portuguesa do rio é muito inclinada, nela se avistando um caminho de cabras, que era utilizado pelos tripulantes para puxar à sirga os seus barcos a remos e vela, quando durante as cheias a corrente não deixava que os barcos rumassem a norte só com os seus próprios meios. A uma observação minha, meu Pai explicou-me como funcionava essa sirga e a necessidade do seu uso, pois o comércio ribeirinho sofreria severamente se essas cargas não fossem transportadas.

A casa de meu tio era já um pouco fora do Pomarão, a norte da localidade e tinha uma vista de muitos quilómetros tanto para sul como para norte e que com os binóculos que ele possuía nos permitia “aproximar” o que se avistava. A poucos metros, em plano inferior havia um enorme parque de linhas de caminho de ferro onde os comboios manobravam com as suas vagonetas carregadas de minério.

Nessas manobras podíamos experimentar os mais variados sons: eram o “pouca terra”, “ pouca terra” dos comboios que chegavam ou partiam; era o som das correntes de engate das vagonetas; eram os estampidos dos impactos/choque das vagonetas com outras; e a multiplicação desses impactos por propagação do movimento tipo dominó duma para as outras.

A linha de caminho de ferro que vinha da Mina de S. Domingos, após passar um pequeno túnel já à vista do Pomarão corria para sul paralelamente ao Guadiana. E em frente da casa do meu tio começava a descrever uma curva suave e a subir uma estrutura de madeira em ponte, terminando num cais acostável também de madeira. A linha terminava aqui, já perpendicularmente à margem do rio. Podem ver-se imagens deste cais e da localidade na Wikipédia.
O Gomes 2º
E aqui dava-se a parte mais espectacular do trabalho. As vagonetas carregadas de minério, que tinham sido empurradas para o cais pela máquina a vapor e colocadas imobilizadas em fila de espera, eram empurradas uma de cada vez por 2 ou 3 homens até chegarem ao limite do cais que possuía um engenhoso sistema de paragem brusca de fim de linha. A energia cinética de que ia animada fazia-a capotar deixando cair a sua carga para uma tolda a escorregar para o porão do navio encostado ao cais. Tudo com sons característicos do escorregamento do minério sobre a chapa metálica da tolda e a sua queda no porão do navio.

Descrevemos a actividade portuária ligada à exportação do minério. Na linha de ferro circulava por vezes também uma pequena automotora – a “auto zorra” ou “alto zorra” como lhe chamavam localmente, para transportar entre a Mina e o Pomarão empregados da empresa mineira.

Pomarão tinha então um porto já com alguma sofisticação só para o serviço da empresa mineira. Mas não tinha um simples cais acostável para pequenos barcos nem para o “gasolina” que fazia nesse tempo carreiras regulares entre Mértola e Vila Real Santo António. Tendo que recorrer a uma prancha improvisada e algo perigosa para a saída e entrada de passageiros e carga.

O Pomarão em 1864 vendo-se os barcos aguardando para
carregar o minério

Quando a empresa das Minas de S. Domingos se retirou levou toda a sucata possível inclusivamente as linhas de ferro.

Nesta última viagem fizemos o regresso com a maré a correr para sul de acordo com o programado. Mas como eu gostava muito de velejar, levava mais ou menos escondido um lençol para improvisar uma vela e aproveitar a brisa favorável do norte se a houvesse. Tive a sorte de nesse dia se formar essa brisa com alguma intensidade. E assim consegui convencer o meu Pai a preparar uma vela com um remo e uma cana. Montado o leme a que eu me agarrei, lá vim todo o regresso orgulhoso como timoneiro. E o esforço assim foi muito menor.

Guarita da G.F.
Foto JV, 1986
Recordo-me de quando chegamos a Alcoutim. Era já noite. Queríamos pedir ao Guarda-fiscal de serviço autorização para atracar e sair da lancha. - Senhor Guarda dá licença…Senhor Guarda dá licença… e nada …Saímos, fizemos bastante ruído com a ancora de propósito para acordar o guarda, sem sucesso… o guarda estava a dormir em pé, encostado à muralha da capela! Passámos pelo guarda e fomos para casa sem que ele desse por nada.

O Pomarão era naquele tempo, por ser próximo, o adversário mais frequente com que se batiam em futebol os de Alcoutim. Os jogos alternavam num campo e no outro. O nosso na Fonte Primeira, não sendo bom, era maior e melhor do que o do Pomarão que, para jogarem no parque do minério a granel, tinham que proceder previamente à sua remoção e limpeza. Também vários anos fomos lá pelos Santos Populares que ali se festejavam brilhantemente com bailes durante todos os dias entre o S. João e o S. Pedro.

Hoje o Pomarão quase não é habitado, parecendo uma terra fantasma. Meia dúzia de casas habitadas, em geral por idosos; e a maior parte das casas em ruínas ou restauradas por pessoas não residentes. São os destroços finais duma grande actividade mineira.

Pomarão já está bastante estudado historicamente. Há por isso na internet vários e bem documentados trabalhos que se podem consultar.

Este texto pretende ser apenas um simples relato/lembrança de viagem que fizemos há muitos anos, a esta simpática e acolhedora terra, quando a mina ainda funcionava.

sábado, 2 de março de 2013

Zimbro

http://floresdoareal.blogspot.pt/2011/02/juniperus-phoenicea.html

Zimbro ou zimbreiro é arbusto ou pequena árvore espontâneo em Portugal, de folhas pontiagudas e o fruto umas bagas doces e aromáticas.

É própria da faixa costeira da região mediterrânica. A floração tem lugar no mês de Fevereiro.

Existe no concelho de Alcoutim, principalmente junto aos pequenos ribeiros e barrancos, onde os terrenos se tornam mais frescos pela proximidade da água.

Contrariamente ao que acontece em outros lugares, os alcoutenejos nunca utilizaram os seus pequenos frutos para dar sabor a bebidas obtidas por destlilação, como a aguardente.

Desaparecido boqueirão com padieira
de zimbro. Foto JV
Os frutos têm muita vitamina C pelo que deve de haver cuidado na sua ingestão.

Mezinha utilizada em Alcoutim e hoje desaparecida, era a preparação de um chá, mas com um número controlado de frutos, segundo a nossa informadora, o que se conjuga com o que tecnicamente está indicado. Facilitava o urinar.

Isto conjuga-se com o que está cientificamente indicado, ou seja um bom desinfectante e curativo das vias urinárias.

Quando os animais estavam doentes era hábito esfregá-los com um pau de zimbro verde na barriga, indo das pernas para as mãos. Presume a minha in-formadora que pudesse ter efeito nos intestinos dos animal e fazê-los obrar.

Segundo parece, o que os alcoutenejos mais apreciavam no zimbro era a rijeza e durabilidade da sua madeira. Eu, ainda que conhecesse o nome da planta não a sabia identificar e muito menos as suas utilizações.

Palheto
Ao procurar conhecer e interpretar as construções locais, uma das coisas que me chamou a atenção foi o lintel usado em portas e janelas, tanto de habitações como de palheiros. Se numas encontrava um grauvaque comprido (localmente designado por pedra viva) a servir de verga ou padieira, noutras via-se madeira a executar essa função. Hoje, já é raro verificar essas circunstâncias, mas ainda conheci muitas construções com tais características. Perguntei naturalmente porquê madeira que apodreceria com facilidade?

Quando não se conseguia arranjar uma pedra viva com jeito, procurava-se encontrar paus de zimbro e quando isso não fosse possível recorria-se ao zambujo ou zambujeiro.

Pisador (pilão)
Informaram-nos então que o zimbro além de ser muito rijo durava tanto como a pedra! E em relação ao xisto isso não é difícil de acontecer devido à sua fácil fracturação.

Foram-nos então mostrar algumas padieiras com zimbro e que têm tantos anos que eles não sabem quantos!

Numa altura em que se vivia do que se produzia e do que a terra tinha, com-preende-se melhor a situação.

O zimbro não “bicha” pois o bicho não entra com ele, foi a última achega!

Pelos mesmos motivos era utilizado para fazer palhetos e “pisadores” (pilões) que se utilizavam na confecção das refeições com a função de mexer, o primeiro e pisar, o segundo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Almece


É palavra de origem árabe, de almeiz ou al-meice ou ainda al-mîs, que significa «soro do leite». Trata-se de um regionalismo utilizado principalmente no Alentejo e zonas confinantes da Serra algarvia e também nos Açores.

Após a ordenha dos animais (ovelhas ou cabras) para o ferrado, o leite é deitado para cântaros onde se faz o seu transporte.

Depois, passa para uma panela, na época, de barro, em cuja boca se preparava um coador constituído por um pano de linho, seguido de lã (por exemplo um pedaço de manta premedeira) e por fim de linha. Deixando naturalmente um abaulamento, os panos que constituíam um filtro eram ata-dos os seguros à boca.

Ia-se deitando o leite a pouco e pouco ficando no coador as impurezas e interiormente o leite em condições de preparar o queijo.

A flor do cardo que se comprava no comércio local, tinha sido colocada previamente de molho. É bem pisada num almofariz de metal. Seguidamente e com a água em que tinha ficado de molho é coada misturando-se ao leite.

Entre uma e duas horas depois o leite está coalhado formando assim a “coalhada” que vai ser espremida no cincho para fazer o queijo.

Durante esta operação escorre um líquido, o soro, “sujo” de leite a que se juntam alguns pedacitos de coalhada e por vezes um pouco de leite. Chama-se a isto o “chorrilho”.

Depois de fervido, obtém-se aquilo a que se chama almece e onde se notam pequenas partículas de leite coalhado a que chamam “borregas”. É usado na alimentação das pessoas e também dos animais.

Come-se de uma maneira geral com pão migado e é apreciado pelos alcoutenejos. Nunca me seduziu.

Há quem lhe chame tabefe mas nunca o ouvi no concelho de Alcoutim onde o termo é desconhecido.

Já aparece comercializado e vendido em vasilhas de plástico de vários tamanhos.

Na freguesia a pequena povoação designada por Vascão, teve primitivamente a designação de Fonte Almece, que segundo a lenda, obteve esse nome porque ao abrir-se um poço comunitário a água que dava tinha a aparência do almece.

A mudança de nome deverá ter ocorrido entre os séculos XVII / XVIII.
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Vocabulário Português de Origem Árabe, José Pedro Machado, Editorial Notícias, 1991.

Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa – Verbo, 2001

Dicionário Prático Ilustrado – Dir. de Jaime de Séguier, Lello & Irmão, Porto, 1972.