quarta-feira, 13 de março de 2013

O mestre azeiteiro (fazedor de azeite)





Escreve

António Afonso



No Nordeste Algarvio a oliveira era uma árvore quase sagrada! Tal como na Grécia Antiga, pois, no perímetro da Acrópole sempre existiu e existe, um exemplar desta espécie. Há fortes razões para o Homem lhe dedicar tanta estima. Ela lhe concede sombra, alguma lenha, as azeitonas, que serão preparadas, de conserva, britadas, retalhadas, pisadas sempre presentes na mesa do Alcoutenejo; além disso, da transformação dos seus frutos se extrai o precioso azeite, utilizado na culinária, outrora alimentava as candeias, servia para oferecer a quem não o tivesse de colheita e ainda como oferenda à  Senhora das Candeias ou à Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Freguesia. 

Paralelo com esta árvore só encontrei em África, certo dia, um nativo em Moçambique me confessou que o Coqueiro é para nós a árvore de Deus! Porque dela tudo aproveitamos, a sombra, as folhas que cobrem as nossas casas, a madeira para vários fins, os frutos tão importantes para a nossa alimentação e não só.
Nós tínhamos algumas oliveiras centenárias herdadas dos nossos avós, o meu pai sempre que encontrava um zambujo, logo procedia á enxertia, caso obtivesse sucesso, na época própria o transplantava para local definitivo; passados alguns anos já dava frutos, mas continuava a ser designado por “ oliveiro” até ser de maior idade.

A Terra gira nos seus movimentos de rotação e translação, o tempo passa, deixando a sua marca, quer nas pessoas, quer nos seus modos de vida.

 Nos últimos cem anos, muitas profissões existentes no meu concelho, algumas nem conheci, desapareceram simplesmente e outras estão em risco disso. Irei enumerar umas quantas: o alvetário (profissional que tratava os animais), o vedor (profissional que indicava o local onde existia água no subsolo), albardeiro, o sapateiro, o azeiteiro, o latoeiro, o retratista, o dentista ambulante, o capador, o roupeiro, o maioral “zagal”, ferrador, o ferreiro, o oleiro, o almocreve, o ganhão, o limpador, a tecedeira, a boleira, a caiadora, a costureira, a ceifeira, o cesteiro, o tendeiro, o vendedores ambulantes (o ti Januário, o ti Zé´ Guerreiro, o ti Feliciano o ti Pano Cru), moleiro, o endireita, o cesteiro, o pedreiro de pedra solta, etc.

Hoje, irei recordar o azeiteiro.

Na verdade, havia em Martim Longo um lagar que funcionava por turnos, durante alguns meses, mas algumas pessoas preferiam fazer o seu azeite ao modo tradicional.

Após a colheita contratava-se este profissional, normalmente era o parente Raul – do monte do Barranco, situado para lá da Ribeira do Vascão ou ti Ludovino da Barrada, homem muito divertido, sempre bem humorado, os seus ditos animavam a rapaziada; fumava tabaco de enrolar, usava as onças “Duque” e papel “Zig-Zag”.

O azeiteiro trazia a sua talega (saco de pano espesso), utilizava a queijeira, peça usada para esse fim e ainda para colocar os queijos recém fabricados, para libertação do chorrilho, ( Soro do leite ) nela se  esmagavam também as uvas para fazer o vinho.

Este utensílio era feito de madeira de azinho ou oliveira, apresentava forma ovóide, o interior era escavado, terminando em bica, assemelhava-se ao útero feminino, mas de maior dimensão, claro, órgão que todos nós habitamos durante a gestação. Aquelas que conheci, assentavam em três pernas, sendo duas na parte posterior e uma anterior, mais curta, para desnivelar a superfície, formando um declive, obrigando deste modo o escoamento dos líquidos pela bica.

Queijeira. Foto JV
Sob a bica colocava-se um alguidar, o qual tinha a particularidade de ter um furo quase junto ao fundo, onde se colocava uma espécie de torneira “ o espicho”, quando aberto permitia a saída da água ruça. O mestre enchia a talega com as azeitonas previamente esmagadas, despejava sobre essa massa, água quente, sovava, esmagava, pressionava,  torcia ,de modo que se libertasse a água e o “azeite”, os líquidos iam desaguar ao alguidar, obedecendo às  leis da física, devido às diferentes densidades, estes não se misturavam, permitindo colher o azeite deste modo que nadava à superfície.

Para fazer a prova do azeite fazíamos, então, as nossas maravilhosas e saborosas “ tibornas “ com o novo azeite e o pão ainda quente, acabado de sair do forno comunitário.

terça-feira, 12 de março de 2013

Taça

Pequeno recipiente em calote, liso, recolhido na anta do Malhão, do lado esquerdo da câmara e próximo da entrada, cujo monumento situa-se a cerca de 1 km sul de Afonso Vicente.

A sua posição indica que conteria alguma substância utilizada como oferta.

Possui a altura de 5,1 cm e o diâmetro de 12 cm.

Tem uma forma de ampla distribuição no tempo e no espaço e aparece em contextos semelhantes.

Encontra-se em exposição inventariado com o nº 174 no Núcleo de Arqueologia no Castelo de Alcoutim.

Peça do período Calcolítico Final (último quartel, III milénio a.C.).

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https://repositorioaberto.uab.pt (em 09.03.2013)


segunda-feira, 11 de março de 2013

Amílcar Felício e a sua colaboração no A.L. (Pequena análise)


Continuando na rota de análise sobre os TEMAS desenvolvidos no A.L., nos quais incluímos os nossos colaboradores, para que deste modo seja fácil encontrar pelos nossos visitantes / leitores a sua colaboração, vamos abordar hoje a participação de Amílcar Felício.

Já publicou neste espaço 37 textos, assim contados, devido ao necessário desdobramento verificado, alguns em vários números, como acontece com o que se encontra em publicação e que tem por título UM FIM DE TARDE EM ALCOUTIM: SONHO OU REALIDADE?

Os nossos leitores conhecem bem o estilo de escrita deste colaborador que acaba por ser muito próprio e que tem, naturalmente, os seus apreciadores.

Não iniciou a escrita neste espaço, o que, praticamente, acontece com todos os outros colaboradores.

Começou a sua cooperação em 21 de Janeiro de 2010, quando o ALCOUTIM LIVRE tinha cerca de ano e meio de existência.

Além da riqueza de vocabulário que possui, mantém muito presente as maneiras de falar dos alcoutenejos de meados do século passado e até a construção das frases que muitas vezes transporta para os seus textos.

Tudo isto está alicerçado na poderosa memória que dispõe dos nomes, das pessoas e dos factos.

Não pensem os nossos leitores que Amílcar Pereira Felício viva ou tenha vivido a maior parte da sua vida em Alcoutim.

Saiu da vila onde nasceu por volta dos onze anos para após a instrução primária continuar os seus estudos, o que fez em Lisboa. Apenas passava as férias na Vila.

O que acontece, é que Amílcar Felício foi e é dotado de grande espírito de observação procurando sempre interpretar o que girava à sua volta.

Os textos que aqui tem escrito constituem um manancial de informação extremamente importante para o conhecimento do passado alcoutenejo.

Como é hábito, apresentamos um pequeno quadro com os 5 artigos mais procurados nos termos que temos vindo a indicar:

1º - RELAÇÕES DE TRABALHO NO ALCOUTIM DE ANTIGAMENTE...  (2011.07.24)
2º - A GUERRA CIVIL ESPANHOLA NO MEU IMAGINÁRIO DE CRIANÇA!  (2010.09.14)
3º - DA ORIGEM DAS FESTAS DE ALCOUTIM AOS “SEIOS”DE GRÃO DE CAFÉ!  (2010.04.03)
4º - AS MAGANAS DAS BARRIGAS NEGRAS NÃO ME DEIXARAM DORMIR!  (2010.07.09)
5º - O RANCHO FOLCLÓRICO E O FIM DE UM ALCOUTIM ROMÂNTICO!!!  (2010.01.21)

Esta “classificação”, como sempre dizemos, vale o que vale e a procura tem muito a ver com os títulos e as palavras que comportam.

É por ter colaboradores deste quilate que o ALCOUTIM LIVRE vai a caminho das 120 MIL visitas!

domingo, 10 de março de 2013

40 anos a escrever sobre Alcoutim!

JV. Caricatura
Passam hoje 40 ANOS que escrevo sobre Alcoutim.

O primeiro texto foi publicado no nº833 do JORNAL DO ALGARVE de 10 de Março de 1973 e teve por título Lembrando o Dr. João Francisco Dias no 18º Aniversário do seu falecimento.

A partir daí, nunca mais parei, com maior ou menor frequência, tendo em atenção os conhecimentos adquiridos e a disponibilidade para o fazer.

Primeiro em jornais e revistas, depois em livros e opúsculos. Por fim, neste espaço que caminha para o 5º ano de existência que conta com cerca de 1375 “postagens” sendo a grande maioria da minha autoria.

Se nem sempre o fizemos da melhor maneira, algumas teremos alcançado esse objectivo como provam as citações de ordem técnico-científica já encontradas em muitos trabalhos, incluindo teses de doutoramento.

O objectivo é e será sempre divulgar ALCOUTIM E O SEU CONCELHO com VERDADE por esse MUNDO fora, sem basófias e sem qualquer interesse pessoal, de ordem económica ou de qualquer outro tipo.

O lema é servir ALCOUTIM e não SERVIR-ME de ALCOUTIM.

Apresentamos os 24 volumes já escritos sobre Alcoutim e o seu concelho, faltando 2 que se encontram para encadernar. Dezasseis dizem respeito ao ALCOUTIM LIVRE e neles estão incluídos os textos valiosos dos colaboradores.

Quantos mais ainda escreveremos?

sábado, 9 de março de 2013

A onda como produto turístico pode desaparecer?





Escreve

José Miguel Nunes
















Desde que o surf se tornou a “menina dos olhos” do turismo em Portugal que ouço frases do tipo “as ondas não desaparecem”, “os estádios de surf já estão construídos” ou ainda que “as ondas não são passiveis de serem replicadas”, como argumentos justificativos para o investimento no produto surf.

Há muito que sou defensor, que o surf pode ser uma mais-valia muito importante para o desenvolvimento da economia da nossa região, tenho-o escrito variadíssimas vezes.

O produto surf tem como base a onda, pois é nela que se pratica a modalidade que serve de âncora a todo o desenvolvimento dos negócios a ele associados, sejam surfcamps,  surfschools,  surfshops, fábricas de pranchas, etc, etc, etc..., ou seja, sem ondas não há surf, e sem surf não há negócios associados, daí o tal argumento de que as ondas estão lá e não desaparecem, claro está, na perspetiva de não ser necessário construi-las, bastando unicamente que não destruam a sua envolvência, que elas continuam a rolar, como sempre rolaram.

Totalmente de acordo até este ponto, é quase uma ‘verdade de la palisse’, fisicamente a onda não desaparece (partindo do princípio que não a destroem), no entanto, o que está aqui em causa é a onda como produto turístico, e nesta perspetiva, na minha opinião, pode efetivamente desaparecer.

Senão vejamos, e existem alguns conceitos importantes para percebermos a questão.  TURISMO e não havendo uma definição única desse conceito, o que a Organização Mundial de Turismo (OMT) recomenda é que seja entendido como: "as atividades que as pessoas realizam durante as suas viagens e permanência em lugares distintos dos que vivem, por um período de tempo inferior a um ano consecutivo, com fins de lazer, negócios e outros."

Partindo do princípio que os turistas são aqueles que praticam o turismo, ainda segundo a OMT,  TURISTA “é todo o visitante temporário que permanece no local visitado mais de 24 horas”, o que nos leva à questão dos que permanecem menos de 24 horas, que segundo a mesma organização são os EXCURSIONISTAS. À conjugação destes dois conceitos aplica-se o conceito de VISITANTE, que “é toda a pessoa que se desloca temporariamente para fora da sua residência habitual, quer seja no seu próprio país ou no estrangeiro, por uma razão que não seja a de aí exercer uma atividade remunerada.”

Ponting, um dos estudiosos desta matéria, definiu então como TURISMO DE SURF “toda a viagem e permanência temporária, realizada por um surfista, envolvendo pelo menos uma noite fora da sua região de domicílio habitual, cuja principal expectativa é surfar.” Então, analogamente podemos dizer, e numa lógica de,  VISITANTE = TURISTA = SURFISTA (e aqui deixamos de fora os acompanhantes dos surfistas e aqueles que vêm ver os surfistas), que TURISTA DE SURF será toda a pessoa que se desloca temporariamente para fora da sua residência habitual, quer no seu próprio país ou no estrangeiro, por uma razão que não seja aí exercer uma atividade remunerada, cuja principal expectativa é surfar.

Qualquer turista, e o de surf não é excepção, tem no final da sua estadia, como objetivo, retirar uma sensação de satisfação, resultante da sua experiência de consumo, neste caso da onda, pois é nela que se baseia toda a oferta turística do surf.

Muito bem, assim, tudo isto nos leva à regra base do surf, um surfista, uma onda, e só havendo uma determinada percentagem de ondas de um turista de surf que satisfaça esta regra, é que o mesmo retira satisfação da sua estadia, caso contrário o feedback será negativo, com as implicações que isso terá.

Temos ainda de separar, na minha opinião, mais dois conceitos, os turistas de surf, que já fazem surf, e vêm para fazer surf, e os turistas de surf, que não fazem surf, mas que vêm para aprender a fazer. São dois nichos de mercado completamente diferentes, e que devem ser vistos de modo diferente.

Começando pelo primeiro caso, aqueles que não fazem já surf, aqui a tal regra básica do surf não se aplica, e uma onda (espuma) serve para muito mais do que um ‘surfista’, havendo apenas a preocupação da segurança com o número de ‘surfistas’ sem experiência dentro de água ao mesmo tempo.

No segundo caso, aqueles que já fazem surf, então aqui sim, a regra aplica-se, e o seu grau de satisfação aumenta ou diminui consoante aumenta ou diminui o número de ondas que conseguem fazer sozinhos, e não podemos correr o risco de chegar ao ponto de no futuro aparecerem títulos de notícias referentes a Peniche, como aquele que recentemente saiu no site Surftotal, no passado dia 19 de Fevereiro, referente à Gold Coast Australiana, e passo a citar, “As águas da Gold Coast na Austrália são uma autêntica "zona de guerra" com os surfistas a lutarem por espaço no meio do crowd”.

SUSTENTABILIDADE, este é o conceito base para o sucesso de Peniche como destino de surf. Este conceito assenta, grosso modo, em três pilares, que só em conjunto o definem: o ambiental, o económico e o social, que nos leva a um outro, o de DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, que se refere a um modo de desenvolvimento capaz de responder às necessidades do presente sem comprometer a capacidade de crescimento das gerações futuras, visando melhorar as condições de vida dos indivíduos, preservando simultaneamente o meio envolvente a curto, médio e, sobretudo, longo prazo, comportando um triplo objectivo: um desenvolvimento economicamente eficaz, socialmente equitativo e ecologicamente sustentável.

O ser sustentável, passa por criar condições para que o crowd não aumente desmesuradamente, pois isso irá ter implicações a médio/longo prazo, na vertente ambiental, económica e até social (e aqui falamos também na comunidade local), influenciando diretamente o grau de satisfação dos surfistas/turistas, e a escolha destes para viajar. O ser sustentável passa por termos a noção que existem ondas que têm capacidades de carga diferentes, consoante o tipo de surfistas que as procuram. O ser sustentável passa por percebermos que os mega-investimentos turísticos têm quase como única e exclusiva preocupação, o ganhar muito dinheiro e o mais rapidamente possível, sem preocupações ambientais e muito menos sociais. O ser sustentável, passa por criarmos condições em infraestruturas que melhorem as condições das praias. O ser sustentável, passa por legislar especificamente o surf e não adaptar legislação ao surf, de modo a que quem tenha negócios nesta área os possa desenvolver de forma ordenada, sustentada e principalmente em igualdade de circunstâncias no mercado concorrencial.

Se não conseguirmos desenvolver de modo sustentável o turismo de surf em Peniche, declarações como as de Kelly Slater ao Jornal “A Bola”, de dia 9 de Outubro de 2012, começam a fazer sentido, e mais importante, a “fazer mossa” na afirmação de Peniche como destino turístico de excelência para o surf, e que passo a citar: “Já com Peniche tenho uma relação de amor/ódio. Adoro as ondas mas está sempre lotado. Há tantas escolas de surf que, para ser honesto, nem vou surfar fora dos heats, porque está sempre muita gente. A única hipótese é tentar escapar para alguns spots mais distantes.", e não nos esqueçamos de quem é Kelly Slater, e que tudo aquilo que este Senhor diz, é ouvido com redobrada atenção.

O surf é uma excelente aposta para o desenvolvimento turístico, mas não pode ser unicamente “à conta” do surf que resolveremos todos os nossos problemas nesta área, pois para que isso acontecesse seria necessário tanta gente, que o produto turístico surf, deixaria de ser apelativo, perdendo qualidade e sustentabilidade, acabando por desaparecer enquanto tal.

Então, as ondas não precisam de desaparecer fisicamente, para desaparecerem como produto turístico, e para que tal não aconteça, devem ser aproveitadas de modo sustentável e equilibrado.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia Internacional da Mulher



Escreve

Maria Dias




“Silenciosamente elas fazem girar o Mundo”


Assim escreveu um dia alguém sobre a comemoração do dia Mundial da Mulher.

Nada mais verdadeiro! A Mulher é o motor da Grande Máquina!

Mulher filha, mulher namorada, mulher esposa, mulher mãe, mulher avó!

Ela é só uma, e todas elas! O fio condutor. A que avalia, planeia, executa, mima, aconselha, ampara!

Por mim, costumo dizer (por graça):

Atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher.......Parva!

Felizes dias para todas as mulheres!

Abastecimento antigo de água


O título da Câmara Escura de hoje é o que o  autor lhe deu quando teve a amabilidade de nos enviar, do seu país, um valioso conjunto de fotos que capetou em Alcoutim em 1965.

Tirou a fotografia o Dr. Eckart Frischmunth a quem não passou despercebido este quadro cheio de tipicidade da vila na época e que quis levar consigo, compartilhando-o agora com todos nós.

Quando o nosso colaborador, Eng. Gaspar Santos escreveu neste espaço sobre os aguadeiros em Alcoutim, não conseguimos obter uma fotografia deste tipo.

A foto, como reconhece facilmente quem conheceu o local, é tirada na antiga Praça da República.

Em lugar de apanhar dois automóveis que na altura seriam escassos por ali, fotografa dois burros, um, trazendo o homem que veste à maneira do campo, que por sua vez traz de arreata outro burro carregado de cântaros de zinco, contendo água e colocados em cangalhas duplas de ferro, pelo que transportava quatro cântaros.

O fotógrafo aproveitou o ângulo, que não apanha mais ninguém, em frente de um edifício bem típico de Alcoutim, casas baixas com portas e sem janelas, se a memória não me falha em toda a fachada só havia uma janela, telhado de telha de canudo e beiral ao gosto regional.

É um quadro obtido pela sensibilidade de um estrangeiro e que representa a vivência alcouteneja em meados do século passado.

O autor apanhou a mudança para o fornecimento de água ao domicílio.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Réplica de Santa Justa (Alcoutim) no Brasil?


A Internet possibilita coisas impensáveis não há muitos anos. Como tudo na vida tem a vertente boa e a vertente má. Quem a utiliza é que lhe dá o tom.

No A.L. não existe espaço para comentários mas temos o nosso endereço electrónico para quem nos deseje contactar e manifestar-se.

Neste sentido e como já o dissemos, tem aparecido recen-temente correspondência quase sempre oriunda de não al-coutenenses, pois estes, os que tinham de o fazer, já o fizeram.

Fazem-me várias abordagens de tipos completamente diferentes e a todos vou respondendo dentro das minhas possibilidades, umas ajudando, outras sem isso nos ser possível fazer.

Recebi recen-temente um e-mail oriundo do Brasil em que um cidadão daquele país me solicitava a indicação onde poderia adquirir uma imagem de Santa Justa, afirmando que já o tinha procurado em vários lugares do Brasil e mesmo na Internet e sem resultado. Encontrou sim um nosso artigo sobre a Capela de Santa Justa que leu e lhe causou interesse.
Capela de Santa Justa. Desenho de JV, 1990

Resolve por isso vir junto de nós numa tentativa de resolver a situação dizendo que possui uma propriedade rural designada por Fazenda de Santa Justa, no município de Miracema, no Estado do Rio de Janeiro e nela está construindo uma capelinha onde gostaria de ter uma imagem daquela invocação.

Respondi-lhe dizendo que desconhecia onde poderia encontrar tal imagem mas se desejasse podia enviar-lhe uma fotografia com boa resolução da imagem de Santa Justa existente na Capela de sua invocação no concelho de Alcoutim, acompanhada da sua descrição técnica e em face disso encontraria certamente um artista que lhe fizesse uma réplica.

Respondeu-me dizendo que aceitava a oferta e nestes termos cumpri o prometido.

Teve a amabilidade de nos enviar três fotografias que representam edifícios recentemente recuperados da mesma propriedade.



Estas fotografias têm muito de Portugal, segundo a nossa opinião.

O quintalão lajeado como as eiras no norte de Portugal que entre outras utilizações é lugar de secagem, aqui penso que para o café, pelo menos nos primórdios da fundação da Fazenda; a telha de canudo em telhado de quatro águas, o telheiro, o gradeamento de madeira com uma configuração muito vulgar em casas do centro e norte de Portugal, sendo destas regiões que saíram para o Brasil muitos dos emigrantes, ainda que saibamos que houve na zona uma forte corrente originária de Itália.

O beiral que é suportado através de tábuas, ainda se pode ver na região norte de Portugal.

Até o amarelo-torrado e o verde-escuro lá estão como por cá ainda acontece, nomeadamente no sul do país.

Fomos procurar saber alguma coisa sobre Miracema.

A colonização do território é atribuída a D. Ermelinda Rodrigues Pereira, um nome que nos parece bem português, e que parece ter acontecido por volta de 1846.

Muitas famílias de mineiros acorreram a esta zona de solos muito produtivos, principalmente de café, transformando-se em pequenos fazendeiros cujas famílias se foram fixando e proliferando.

A par do café cultivavam arroz, milho e feijão. Após a quebra do café é introduzida e desenvolvida a cultura do algodão e da cana do açúcar. A criação de gado leiteiro e o cultivo do café, milho e feijão são consideradas actividades complementares e de subsistência.

A Fazenda de Santa Justa foi das primeira a ser fundada na região e pertenceu, além de outras, a Bernardo Homem da Costa que foi Juiz de Paz em Paraíso do Tobias.

O edifício sede da Fazenda deve ter sido construído por volta de 1870 e passou ao filho do Juiz de Paz, Bernardo Alves da Costa.

Arroz, milho e algodão eram então as culturas principais.

Na década de 60 a Fazenda de Santa Justa foi vendida a Paulo Lima Barros que a transferiu a Décio Pereira Lima e com o seu falecimento é seu filho o actual proprietário. (1)

Aqui fica este breve apontamento para que os alcoutenejos saibam para onde foi a fotografia da imagem de Santa Justa existente na povoação a que deu o nome, freguesia de Martim Longo, concelho de Alcoutim e que poderá ter uma réplica na Fazenda de Santa Justa, município de Miracema, Brasil.

O ALCOUTIM LIVRE cumpriu assim mais uma das suas missões.

(1) www.institutocidadeviva.org.br

quarta-feira, 6 de março de 2013

O último barqueiro do rio Guadiana - Há 20 anos entre Portugal e Espanha


(PUBLICADO NO CORREIO DA MANHÃ DE 27 DE JANEIRO DE 1994)

Texto
de
João dos Reis

Faro (da nossa Delegação)

A fronteira entre Alcoutim e a povoação espanhola de San Lucar del Guadiana, ainda não funciona como as duas terras desejavam. Os alcoutinenses e os espanhóis, ainda muito antes das directrizes da União Europeia para a abertura franca de todas as fronteiras visitavam-se mais ou menos com uma certa frequência, embora, apenas um ou dois dias por ano é que a fronteira está oficialmente aberta.

Num, porque é dia da vila de Alcoutim, noutro, porque é também festa em San Lucar del Guadiana ou Sanlucar.

Desde que o generalíssimo Franco mandou encerrar a fronteira, facto que aconteceu durante a Guerra Civil Espanhola, que as duas povoações estiveram sempre de costas voltadas. Apesar de tudo, a travessia nos dois sentidos processou-se sempre, ante o olhar cúmplice das autoridades dos dois países.


Sem ponte ou ferry boat, os alcoutinenses e as gentes de Sanlucar, que lhe fica em frente, continuam a fazer o trajecto com a ajuda de velhos barqueiros espanhóis e um português, o único que existe na vila de Alcoutim, o “ti” João Parreira Baptista, de quase 70 anos, que nasceu junto ao rio Guadiana, correu mundo e regressou novamente para junto dele.

Fomos encontrá-lo no regresso de mais uma viagem que tinha acabado de fazer entre Alcoutim e San Lucar del Guadiana.

Amarrou o barco com uma corda de nylon à velha margem do rio por onde navegaram celtas, cartagineses, romanos, árabes e por onde agora transitam alguns iates de envergadura.”Ti” João Parreira Baptista, mais popularmente tratado por “ti” João, é uma figura de barqueiro bem conhecida em toda a vila que um dia o viu nascer.

“Transporto os turistas, alguém que queira passar para o outro lado, a fazer compras. Ás vezes faço pequenos passeios pelo rio. Passo assim o meu tempo, distraio-me com as brincadeiras dos turistas, com todas as pessoas que transporto para Espanha”, diz-nos.

“Ti” João Parreira Baptista é um homem que mede bem as palavras que pronuncia. Em menino, andou no transporte de areia, ajudou a construir o cais que há muitos anos servia de porto de acostagem aos barcos que então desciam o velho rio Guadiana em direcção a Vila Real de Santo António. Barcos que navegavam carregados de minério das minas de São Domingos, no desolado Baixo Alentejo e que eram carregados no velho porto do Pomarão.

“Eram outros tempos que eu não esqueço. Hoje, nos nossos dias, os tempos são outros. Os barcos que transportavam o minério e muitas outras coisas, já acabaram. O rio está morto. Aquela vida cheia de alegria que eu ainda conheci quando era novo”, esclarece.

Apesar da fronteira ainda não estar oficialmente aberta, “ti” João lá vai vivendo a vida no transporte das pessoas para Sanlucar. Sobretudo portugueses que querem ir consultar um famoso curandeiro espanhol que vive e trabalha a cerca de 10 quilómetros de Sanlucar.

“Muita gente quer ir tratar-se ao curandeiro António, que toda a gente conhece como o curandeiro do Granado. O curandeiro António diz e faz coisas que a gente nem imagina, Cura doenças que os médicos não conseguem curar”, adianta.

“Ti” João Parreira Baptista foi muitos anos condutor de máquinas na Marinha de Guerra. Correu mundo e reformou-se há cerca de 20 anos. Andou 32 anos pelos mares que lhe deram uma vivência superior àquela que a vida dura de Alcoutim lhe tinha dado.

“Quando me reformei, voltei para Alcoutim, para junto do rio. Vivia cá um velhote que fazia estas carreiras que eu hoje faço. Começou a andar doente. Antes de falecer, propôs-me este negócio. Fiquei-lhe com o barco em madeira, que mais tarde troquei por este, em fibra, que é muito melhor e não necessita de tanta manutenção. Era conhecido por Zé Altura. Uma boa pessoa que eu conheci muito bem”, prossegue, ainda, “ti” João.

Ainda é preciso pedir autorização

“Ti” João Baptista diz-nos que as pessoas, para atravessarem a fronteira entre Alcoutim e San Lucar del Guadiana ainda têm que ir pedir autorização à Guarda Fiscal (Brigada Fiscal da GNR).

“Só passo com as pessoas depois de elas terem obtido autorização Só não peço autorização quando a fronteira está aberta nos dias de festa. Dizem que esse problema vai acabar a partir a partir do próximo dia 1 de Fevereiro. Ainda hoje de manhã ouvi isso no meu rádio”, adianta.

À noite, sendo Alcoutim uma vila morta, alguns dos seus habitantes costumam deslocar-se até Sanlucar, “p`ra beber uns copitos”, diz.

“As autoridades fecham os olhos quando são pessoas conhecidas. Tenho mais fregueses no Verão que no Inverno, que está a ser muito morto este ano”, prossegue.

Leva apenas 100 escudos por cada viagem que faz. A não ser aos passeios porque a gasolina está cara, tornando os custos mais elevados e que os turista têm suportar, pagar mais caro. “Ti” João Baptista tem uma média, neste tempo de Inverno bem friorento, cerca de 5 a 6 clientes por dia, que quase não dá para viver.

“Se não fosse a minha reforma, morreria de fome. Tinha que arranjar outro modo de vida”, exclama, sorrindo com o seu rosto de muitas décadas.

Para “ti” João Parreira Baptista, ser barqueiro é um modo de vida como qualquer outro. Só que para ele, que nasceu junto ao rio Guadiana, é diferente. Nasceu com o rio.

Possui dois cães que o adoram. A “Carocha”, uma cadela preta que nunca o deixa sozinho. Ao outro animal deu-lhe o nome de “Guadiana”. Um esperto cão de cor castanha que também não o abandona.

“Quando vou para o outro lado, para Espanha, ficam sempre aqui à minha espera. Agora fui comprar a Sanlucar um pouco de “cascarilla” (tipo de pimentão vermelho próprio para temperar chouriças). Eles ficaram à minha espera. É sempre assim”.

“Ti” João Parreira Baptista: o único barqueiro do rio Guadiana que o viu nascer e com ele quer acabar o resto dos dias que ainda lhe faltam.

“O rio foi sempre meu. Quero que ele continue a ser meu, mesmo que amanhã deixe de ser barqueiro”, finaliza, “ti” João.

Foto: Luís Forra.

terça-feira, 5 de março de 2013

D. Joana de Meneses, sobrinha do 1º Conde de Alcoutim


 Filha de D. Henrique de Meneses e prima entre outros do 2º Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses.

Foi a 1ª mulher de seu tio D. Aleixo de Meneses que foi o 3º filho de D. Pedro de Meneses, 1º Conde de Cantanhede e de sua segunda mulher D. Beatriz de Melo.

Foi alcaide-mor de Arronches, mordomo-mor da rainha D. Catarina.

Cedo se iniciou na carreira das armas ao lado de seu tio D. João de Meneses na tomada de Azamor em 1513.

Antiga fortaleza de Azamor.
Tomou o rumo ao Oriente acompanhando o Governador da Índia Lopo Soares de Albergaria.

Foi comandante de uma esquadra que percorreu a costa da Arábia, entrando em vários combates e defendeu Malaca.

Durante a ausência de Lopo Soares de Albergaria foi governador interino do Estado da Índia.

Regressou ao reinado e D. João III incumbiu-o de reformar as praças de Arzila, Azamor e Tânger.

Pelas suas altas qualidades foi nomeado aio de D. Sebastião, funções que exerceu dos 4 aos 14 anos.

Do casamento com sua sobrinha resultou uma filha, D. Luísa de Meneses que se casou com D. Pedro de Meneses, 8º Senhor de Cantanhede e morreu de parto.

D. Aleixo de Meneses voltou a casar por imposição de D. João III, enlace que efectuou com D. Luísa de Noronha de quem teve numerosa sucessão, entre os quais D. Luís de Meneses que morreu na batalha de Alcácer-Quibir e D. Pedro de Meneses, Eremita de Santo Agostinho e que tomou o nome religioso de D. Frei Aleixo de Meneses.

Faleceu em 1569.

______________________________________

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Edição QuidNovi / Público – Academia Portuguesa da História, Vol. V, 2007

Enciclopédia Histórica de Portugal, Edição Romano Torres, Vol. 9, 1938

Dicionário de História de Portugal, Direc. Joel Serrão, Vol. IV, Livraria Figueirinhas / Porto

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Vol. I, Publicações Alfa, 1982