quinta-feira, 11 de abril de 2013

Calor

Mais uma interessante fotografia que damos a conhecer aos visitantes / leitores do ALCOUTIM LIVRE, incluindo-a na rubrica Câmara Escura.

A foto foi tirada em 1965 e o seu autor, o Dr. Eckart Frischmunth, deu-lhe um título bem ajustado e que nós naturalmente mantivemos.

Mais uma vez está patente o espírito observador do autor cuja fotografia tem por fundo dois cães, que   à sombra de um prédio procuram libertar-se do calor de Julho ou Agosto, que os atormenta.

O local parece não nos oferecer muitas dúvidas, será na antiga Praça da República.

O pequeno aglomerado de gente que se nota ao fundo é que se torna mais difícil de determinar a sua localização, mas parece-nos ser à porta da repartição do Registo Civil ou dos Paços do Concelho.

A título de curiosidade, podemos dizer que pelos anos de 1968 o número de canídeos na vila era superior ao número de habitantes!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

"Sonho ou Loucura"


  

Poeta


José Temudo





Sonho, sim, confesso,
não quando adormeço,
mas, quando acordado,
passeio,
ao longo da marginal,
alheio,
ao imenso mar
e ao extenso areal,
às gaivotas que pairam no ar,,
aos barcos pequenos que baloiçam
nas ondas que em espuma se esvaem!
Indiferente aos que por mim passam,
de tudo e de todos esquecido,
liberto do corpo, dos sentimentos, das emoções,
insensível às formas, aos sons, às cores,,
isento de alegrias e de dores,
sem deus, sem leis, sem tradições,
assim fico, todo dentro de mim,
sonhando que todos os seres,
que o Deus todo poderoso,
que a mãe Terra, úbere generoso,
que o mar, largo, profundo, temeroso,
e que o infinito e insondável céu,
são tudo criações minhas,
um teatro gigantesco, fantasioso,
em que, certo, certo, só existo EU !

terça-feira, 9 de abril de 2013

Alcoutim (Em O Século)


(PUBLICADO EM “O SÉCULO”NÚMERO EXTRAORDINÁRIO COMEMO-RATIVO DO DUPLO CENTENÁRIO DA FUNDAÇÃO E RESTAURAÇÃO DE PORTUGAL, LISBOA, JUNHO DE 1940)
Alcoutim é mo Algarve uma das mais lindas terras, pela sua excelente posição geográfica, e pela brancura do seu casario alegre, brancura esta, que é, aliás em todas as povoações algarvias, uma característica de beleza. E nem só beleza, mas também tradições tem a vila encantadora.

A 66 quilómetros de Faro, situada na montanha onde principia a serra de Monchique, na margem direita do Guadiana, Alcoutim foi uma das melhores fortalezas de Portugal. A praça de armas está rodeada de muralhas com três portas, que se chamam de Guadiana, de Mértola e de Tavira, existindo nesta última a seguinte inscrição: «Alphonsus VI Rex Portugaliae et Algarbiorum, 1661». O castelo em ruínas era quadrado.
Castelo de Alcoutim. Finais anos 60. Foto JV
Povoação muito antiga, que se supõe datar do princípio do domínio serraceno, o seu nome antigo era Alcoitinium, o que parece confirmar a sua existência no tempo dos romanos.

D. Sancho II a tomou aos mouros, em 1240 e D. Deniz mandou-a povoar, reedificar o castelo e deu-lhe foral, em 1304 com todos os privilégios de Évora, doando-a à Ordem de Santiago. D. José I elevou-a a vila. Pertenceu à Casa do Infantado.

Além do castelo, Alcoutim tem uma linda capela, fundada por D. João IV para comemorar a Restauração da Independência e dedicada a Nossa Senhora da Conceição. No castelo de Alcoutim se fizeram pazes entre dois reis Afonsos: o de Portugal e o de Castela. Junto do Cerro de Santa Bárbara, ao Norte da vila, há vestígios de fortificações antigas e ali, sobre um rochedo alto, se fez um reduto artilhado.

Na agricultura tem o concelho de Alcoutim, com as suas cinco freguesias, a base maior, quasi única, da sua economia. O terreno é fértil, como todo o do Algarve e produz especialmente trigo, do qual chegam a exportar-se 1.000 000 de quilos. E também se exportam carnes, lãs, queijos e amêndoas.

A indústria representa-se por duas espécies: cerâmica de barro (louças de uso) e foices.

O povo é laborioso e simples, acolhedor e amável, amando com excepcional e exemplar carinho a terra que é o fundamento da sua vida económica. A-pesar da fertilidade do solo, os homens do concelho de Alcoutim trabalham com exaustivo esforço, e só assim conseguem viver sem dificuldades.

Alcoutim e Sanlúcar. Finais anos 60. Foto JV

São lindos os panoramas que Alcoutim oferece aos visitantes. As montanhas, como os montes menores e as planícies formam um conjunto admirável, que encanta e seduz. Poucas terras do Algarve se lhe comparam ou excedem em beleza e atractivos naturais.

Em tempos recuados o favor de reis e de fidalgos lhe deu importância e a acrescentou em riqueza e esplendor. Depois, como sucedeu a grande parte do País, as lutas civis, a política e o desinteresse de muitos dos seus filhos permitiram que Alcoutim caísse no abandono absoluto. Até mesmo a política nova com dificuldade lá chegou. Nos últimos vinte anos nenhumas obras se fizeram no concelho. Apenas estão em construção as estradas 106 – 2ª e 108 – 2ª, que ligará o concelho ao resto do País, com o qual Alcoutim não tinha vias de comunicação indispensáveis ao seu progresso e desenvolvimento. À estrada 106 – 2ª faltam as pontes nas ribeiras de Beliche, Foupana, Odeleite e Vascão. A conclusão dessas obras é da maior importância e urgência. Só quem visita Alcoutim pode avaliar a falta que tão importante melhoramento tem para o nosso concelho.

E não só esta aspiração tem o concelho, mas muitas mais, entre elas a ligação telefónica com o País, o cais da vila, que está estudado desde 1936, mas para o qual não se deu mais um passo; uma estrada que ligasse Martinlongo e Vaqueiros, duas freguesias importantes que, no Inverno, ficam completamente isoladas do concelho, em especial a última.

É estranhável, de facto que Alcoutim, com tão poucas aspirações, não consiga vê-las realizadas, sobretudo se pensarmos que melhoramentos do mesmo género e até maiores têm obtido aldeias e freguesias de menor categoria.
Capela ou Igreja de Nª Sª da Conceição. Finais dos anos 60.
Foto JV
Os homens esforçados e inteligentes que se encontram à frente do Município, desajudados de qualquer auxílio do Estado, têm em projecto a construção de cemitérios em todas as freguesias, pois os que existem estão absolutamente condenados visto que ficam no centro das povoações; e, também para todas as aldeias, o abastecimento de água e a construção de caminhos. Este problema de caminhos é o mais premente, pois não os há no concelho. Resolver esse problema é um dever dos poderes públicos, pelos prejuízos que a falta de caminhos causa a populações que tanto trabalham pela valorização da riqueza pública.

Se o Estado, com o seu estímulo e ajuda material, não acode ao concelho de Alcoutim, outro largo período correrá sem que os seus habitantes vejam satisfeitas as suas tão legítimas aspirações.

Se o leitor alguma fez for ao Algarve, não deixe, a-pesar de tudo, de visitar Alcoutim, vila encantadora, e os panoramas admiráveis que dele se descobrem.

Pequena nota
Quem escreveu este texto não se identifica, admitindo que pudesse ter sido alguém que vivesse em Alcoutim e que ocupasse lugar político localmente importante.
As fotografias que apresento são dos anos 60 e de minha autoria, já que as constantes do texto não estão em condições de as transportar para este espaço. As que empregámos correspondem às apresentadas no original no que diz respeito ao local fotografado.

Na parte introdutória encontram-se como é fácil de perceber alguns erros sobre a história, aliás erros que se foram repetindo por muitos anos.

A análise das potencialidades de Alcoutim e seu concelho estão, quanto a nós, impregnadas de bairrismo. Procura o autor depois dar umas picadas no seu próprio partido político, lamentando a falta de auxílio e criticando o facto de “Até mesmo a política nova com dificuldade lá chegou”.

Apesar de tudo é possível verificar o atraso confrangedor em que o concelho se encontrava apesar de se viver há pelo menos 12 anos na Política Nova que alguns alcoutenejos e não só, abraçaram, como é natural.

As estradas, a electricidade e a água não chegavam mas havia União Nacional, Mocidade Portuguesa, Legionários e... bufos.

E ainda não acabaram!

JV

segunda-feira, 8 de abril de 2013

"Chico Salvado Pirolito" natural de Balurcos


Pequena nota

Como verificaram logo à primeira vista, vamos apresentar hoje um novo colaborador pois a nosso convite acedeu a prestar o seu auxílio ao ALCOUTIM LIVRE tornando-o assim ainda mais versátil e pujante.

É sempre uma honra para nós podermos contar com um novo estilo e uma nova visão das coisas. Pelo pouco que conhecemos, estamos certos que o nosso novo colaborador irá criar, como todos os mais o têm feito, leitores assíduos aos seus textos, ora em prosa, ora em verso.

O Eng. José Rodrigues, hoje na situação de reformado, é natural do concelho de Alcoutim mas naturalmente não reside lá.

Aqui lhe deixamos o nosso agradecimento e que com a sua acção possa contribuir para um melhor conhecimento de Alcoutim e do seu concelho com a verdade que é apanágio deste espaço.

Inicia o seu trabalho com uma “versalhada” em que caracteriza os homens e as mulheres da terra a que tem gosto de pertencer, procurando utilizar os termos próprios das gentes e as actividades que balizavam as suas vidas.

JV

 


Escreve

José Rodrigues




Chico Salvado Pirolito,
natural de Balurcos

(Este conjunto de quadras é uma homenagem ao passado, de muitos homens e mulheres da minha terra.)


Em noite chuvosa e fria,
De mil novecentos e tal,
Não preciso bem o dia,
Mas era no mês de Natal,

Nasceu um lindo mocito,
Filho querido e adorado,
De Zé Custóido Pirolito,
E de Sarafina Salvado.

Nos Balurcos foi parido,
Por obra da graça Divina,
Depois do Zé ter perdido,
O juízo pla Sarafina.

Aos seis meses baptizado.
P´lo padrinho ficou Chico,
P´la mãe quedou Salvado,
E pelo pai Pirolito.

Cresceu com tantas agruras,
Que nem a ler aprendeu,
Foram muitas amarguras,
Q´a puta da vida lhe deu.

Homem sem ser menino,
Roubaram-lhe a ilusão,
Foi moiral em pequenino,
Aos quinze anos, ganhão.

Aos vinte deixou a Terra,
Assentou praça militar,
Obrigado a ir à guerra,
Sem razões pra garrear.

Depois desmobilizado,
De volta à terra natal,
Como futuro: o passado,
Pra continuar tudo igual.

De manhã migas de pão,
Para beber, café preto,
Ao jantar, jantar de grão,
À ceia, fejão careto.

Ainda esteve emigrado,
Mas não foi muito feliz,
Dizia não se ter dado,
Com os ares de Paris.

Voltou de vez prá Terra,
Onde tinha a namorada.
Homem que nasce na serra,
Não troca a serra por nada.

Casou com a Etelvina,
Toda vestida de branco,
Tiveram uma menina,
Que foi de si o encanto.

Matavam sempre um cevão
Pra ter carne para o ano,
Com festa na matação,
Propagando o desengano.

Toucinho na salgadeira,
E a choriça pendurada,
Durava menos q´uma jeira,
E tinha que ser condutada!

Todos os dias trabalho,
Sempre o mesmo fandango,
Alguma noite de balho,
No outro dia, acefando.

Colhia batatas em Março,
Em Dezembro era o mato,
E com seu macho picarço,
Alquevava de carramato.

Despunha couves na horta,
Alfaces, coentros, fejão,
Até já tinha a vista torta,
De tamanha esganação.

Em Outubro semeava trigo,
Mondava a seara em Fevereiro.
Só podia contar consigo,
Era assim o ano inteiro.

Não só consigo, contava,
Porque a Etelvina Maria,
Fazia a lida da casa,
Do nascer ao fim do dia.

Colhia figos em Agosto,
As ferrovas em Setembro,
Em Outubro espremia mosto,
Fazia azeite em Novembro.

Pra montar tinha um burrito,
E uma cabra pra dar lête,
Por companhia um canito,
Q´acudia por Manolete.

Quando vendia um chibinho,
Pela feira de S. Marcos,
Sempre dava algum jetinho,
Pra arramendar os sapatos.

E uma porca no curral,
Criava alguns bacoritos,
Que na feira do Azinhal,
Dava mais uns testanitos.

Um dia acordou o Monte,
E a má nova correu,
Ontem, à meia nonte,
O Pirolito morreu.

Abateu-se uma desgraça,
Ficou sem pai a menina,
A casa ficou sem graça,
E viúva a Etelvina.

Levaram-no a enterrar,
E diante do corpo do Chico,
Eram todos a encomendar,
A alma do Pirolito!

domingo, 7 de abril de 2013

Navio de carga "Alcoutim"


Na secretaria da Câmara Municipal de Alcoutim existia, nos finais da década de 60 do século passado, pendurado numa parede a fotografia de um barco que eu presumo ser este. Penso que não havia qualquer texto explicativo e perguntar algo sobre ele seria descabido já que ninguém sabia explicar-me o brasão de armas da Vila. Desconheço o destino de tal quadro.

Se é este o barco que estava representado, o que tenho algumas dúvidas, tratava-se de um navio de carga construído em Vancouver, Canadá em 1943.

Adquirido pela Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes de Lisboa, é reconstruído em 1946 pela Companhia União Fabril, no Estaleiro Naval da A.P.L., em Lisboa e registado na Capitania do porto de Lisboa, em 16 de Janeiro de 1947, com o nº G 484.

Tinha um comprimento de 134,56 m, boca máxima de 17,38 e um calado à proa de8,15.
O peso bruto é de 10.526 toneladas e tem uma capacidade de 14 395 m3.

Com uma máquina que desenvolvia uma potência de 2500 cavalos, alcança uma velocidade máxima de 11 nós.

A tripulação compunha-se de 35 elementos.

Certamente que o nome dado teria sido uma homenagem à pequena vila ribeirinha na margem do Guadiana.

A actividade marítima esteve sempre muito ligada aos alcoutenejos, possivelmente devido ao seu contacto diário com as águas do Guadiana, rio que potenciava a sua existência.

Foram imensos os mancebos que escolheram a Marinha quando tiveram de cumprir o seu serviço militar e alguns acabaram por seguir essa carreira, alcançando muitos o oficialato.

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http://navios.no.sapo.pt/naviosc.html

http://bordolivre.no.sapo.pt/set_out2002/pag4_45&46.htm

htt://naviosenavedaores.blogspot.pt

sábado, 6 de abril de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim, Recordações - XLVII



  
Escreve

Daniel Teixeira




ALCARIA ALTA E OS CIGANOS

Devo começar por confessar que faço parte de um sector dentro da minha geração onde ser cigano tem o significado usual que tem atravessado muitos anos da nossa história. Não vou, pois, neste texto, «armar-me» em defensor acérrimo dessa etnia até porque eles disso não sentirão seguramente falta e também não vou dizer que me coloco ao lado daqueles que a não toleram de todo.

Vou contar uma história sem tirar nem por. Comecei cedo a criar esta convicção quase neutra que tenho hoje sobre a etnia cigana. Sou um «produto» desta sociedade em que vivemos e nada lhe acrescento neste plano nem nada lhe retiro.

A sua errância tem servido para alimentar inúmeros sonhos de liberdade e fuga às regras sociais mais custosas sobretudo quando somos jovens, a sua capacidade de viverem numa sociedade que os hostiliza e não os hostiliza conforme as circunstâncias e as conveniências pontuais tem merecido algumas referências também pontuais e o seu relacionamento com o conceito de autoridade, tanto internamente na sua comunidade como externamente na sua relação com os «outros» já foi inclusivamente objecto de teses académicas.

Trata-se de uma questão discutida e não discutida ao mesmo tempo, uma questão neutra, se quisermos, tal como eu apresento aqui neste meu texto. Por curioso que possa parecer a imagem que existe sobre os ciganos, em Portugal e um pouco por todo o mundo é quase a mesma que existe em relação à negritude nos países que preferem ignorar que possa existir um problema simplesmente não falando nele.

Pois, e começando propriamente, a minha mãe, essa para mim extraordinária contadora de histórias, contou-me talvez centenas delas e eu infelizmente só de quando em vez arranjo princípio, meio e fim para as contar. A primeira que aqui conto e que entra dentro deste contexto, foi logo quando o meu irmão mais novo nasceu.

Todos nascemos no antigo Hospital da Misericórdia de Faro, gerido por freiras, por razões que se prendem não tanto com a falta de ideia do uso da parteira, mais utilizada na altura, mas porque as gravidezes da minha mãe todas elas foram de risco, exceptuando a última, em que se tratou já do assunto numa perspectiva preventiva.

Os cuidados pré-natais eram praticamente inexistentes e todos até ao mais novo nascemos com peso excessivo. Este, o mais novo, já «beneficiou» de uma parte desses cuidados e acabou por nascer com um peso a aproximar-se daquele que agora é considerado normal para um parto normal.

E a primeira parte desta história nasceu logo quando ele nasceu. Encontrando-se a minha mãe na enfermaria já com o meu irmão nascido, deu entrada uma cigana que teve o seu rebento ao qual a minha mãe por vizinhança de camas assistiu. Nascido o bebé trataram de o lavar, naquele tempo numa arcaica pia quase semelhante em dimensão àquelas que temos hoje nas nossas casas de banho.

Pois o miúdo naquela natural aflição de ter nascido para o mundo e começar logo por ser manipulado daquela forma naquela operação agarrou-se à torneira com a força que tinha e não a largava, daí que uma Freira (religiosa e que em princípio não deveria ter opinião) com humor um pouco infeliz saiu-se com esta: «Olha lá o ciganito, mal nasceu já quer roubar a torneira!» Pois é, da ancestral fama não se livrou, o pobre do miúdo que nem sequer sabia ainda que era cigano nem o que era ser cigano.

E a história continua, com outros personagens, alguns anos antes. Contou-me a minha mãe que havia amiúde ciganos que passavam com as suas trouxas pelos montes e seus arredores, acampando aqui e ali, normalmente ao pé de cursos de água ou de poços e entre os Montes que frequentavam na sua errância havia Alcaria Alta.

Ora numa dessas passagens por Alcaria Alta terá desaparecido um porco de um pocilgo e tendo os ciganos pernoitado por lá e já tendo partido de madrugada logo lhes foi atribuída a autoria do roubo.

Embora a fonte desta informação seja credível (caramba, foi a minha mãe que me contou!) eu ainda hoje me pergunto como é possível roubar-se um porco, de noite que seja, sendo a sua gritaria (do porco) tão forte e estridente que é até capaz de acordar um morto.

Mesmo que o tivessem morto, o ruído (o guinchar) do porco teria sido grande, pelo que aqui só posso acreditar ter acontecido aquilo que normalmente é atribuído também aos ciganos e sobretudo às ciganas, que é o conhecimento mágico de alguma poção capaz de meter o animal a dormir a horas certas e durante o tempo necessário para que a troupe alcançasse as redondezas.

Ora o montanheiro não nada em dinheiro e por natureza precisa do porco, é o seu alimento de Inverno e para além do mais era seu, era do primo Custódio («Custóide» em Alcarialtês) num sítio onde todos são primos. Tinha-lhe custado a criar para além do custo em bacorinho e havia mais um rol de argumentos usados nestas ocasiões e noutras semelhantes.

Depressa a solidária revolta juntou alguns voluntários para irem em caça dos ciganos e do porco. Movimentaram-se depressa estes, e só o facto de o montanheiro ser também naturalmente um bom pisteiro permitiu que eles fossem alcançados já perto de Martim Longo, por onde tinham seguido via Ribeirão e proximidades de Santa Justa, Foupana acima depois.

Era já tarde, talvez pelas cinco da tarde e os ciganos sentindo-se seguros já prepararam as trouxas para estacionar. E lá foi um dos mais novos a Martim Longo chamar a Guarda tendo o resto do pessoal ficado de vigia. A patrulha quando chegou era já noite e para desgosto de todos e sobretudo do primo Custóide assistiram a toda a operação de desmembramento do animal, à sua colocação nas brasas e pior ainda sentiram chegar aos estômagos há muito vazios o cheirinho a carne assada.

Quando a guarda chegou pôs logo aquela malta toda em sentido. Naquele tempo a guarda não gozava de um grande prestígio em relações públicas e passou-se logo aos factos. Apesar das tradicionais negações depressa se chegou a um forçado acordo: os ciganos pagavam o porco por um preço que foi considerado justo e para o primo Custódio e os outros que o acompanhavam estava tudo certo.

Mas a Guarda tinha ainda em carteira a sanção acessória: aquela tribo nunca mais ia a Alcaria Alta e ficava com o encargo de dizer às outras tribos que não podiam pernoitar nas imediações do Monte. E assim aconteceu, assegurou-me a minha mãe: quando apareciam ciganos por lá nem era preciso ir lá dizer-lhes o que quer que fosse; chegava ao entardecer arrumavam as trouxas e iam-se embora.

No meu tempo não cheguei a ver ciganos lá pelo Monte, mas - dizia-me a minha mãe - se eles viessem havias de ver que agora, que são passados mais de trinta anos, os ciganos não pernoitam nos arredores de Alcaria Alta.

Sinceramente acho que a minha mãe aqui na parte final me enfiou um barrete, mas como criticá-la se a história está tão bem contada!?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Foices e foicinhas



Esta alfaia agrícola, ainda que já não tenha a importância que teve, é um verdadeiro símbolo do trabalho campesino.

Como é sabido, na nossa língua o ditongo oi substitui-se de uma maneira geral por ou, sendo assim, diz-se foice ou fouce.

Naturalmente, aos exemplares mais pequenos chamam-se foicinhas ou foicinhos.

Trata-se de um instrumento formado por duas partes, uma barrinha curva de ferro ou de aço e com gume serrado.

Na extremidade que não é curva é embutida por um cabo de madeira que se destina a poder efectuar o seu manejo.

Utiliza-se para ceifar ou segar, isto é a cortar as searas maduras. Tendo sido Alcoutim um concelho cerealífero teve grande importância local, tanto no seu uso como no fabrico.

Sobre a sua feitura e técnica já o nosso colaborador Gaspar Santos se pronunciou neste espaço com um interessante texto (*) que enriqueceu o nosso conhecimento, pois a única coisa que sabíamos era ter existido uma afamada fábrica artesanal de foices. A técnica é-nos explicada por este colaborador. Enquanto em Alcoutim eram feitas com uma única barrinha, os concorrentes utilizavam duas, pois se as fizessem só numa, partia-se com muita frequência.

Havia em todo o concelho várias fabriquetas de foices e se a memória não nos falha, a última a funcionar foi em Corte Serranos, freguesia de Martim Longo, isto já depois da nossa presença em Alcoutim.

Ao picar a foice, ou seja construir o serrilhado que ficava sempre virado para cima, determinava o seu uso ora por dextros ora por esquerdinos. Havia de vários tamanhos sendo as dos homens maiores. As pequenas, como já dissemos, chamavam-se foicinhas ou foicinhos destinavam-se ao corte de erva para os animais.

A mudança tecnológica para a ceifa mecânica obrigou naturalmente ao fecho destas pequenas fabriquetas, pois se o uso da foice não acabou, reduziu-se drasticamente.

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(*) - Vide Blogue ALCOUTIM LIVRE, post de 3 de Julho de 2009 – A Fábrica de Foices de Alcoutim – Qual o segredo da sua tecnologia??

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Um fim de tarde em Alcoutim: Sonho ou realidade? [4]




Escreve

Amílcar Felício




 “Há quanto tempo que não se via um calor dum cabrão destes Senhor Zé (?)”, desabafavam os homens para o Senhor Zé Peres que chegava entretanto à Vila. “Isto hoje está por demais porra, vejam lá que estive no Pego Fundo há bocado para desligar o motor e ainda parecia que fazia mais calma ao pé da água (!)”, responde ele. O Senhor Zé Peres apesar de reformado de outras guerras tinha uma razoável Casa de Campo, mas como acontecia com quase todas as outras Casas de Campo naqueles finais da década de cinquenta do século passado, o núcleo económico/familiar que as sustentava já estava bastante desfalcado, pois o Justino e o Manuel Peres há que tempos que tinham dado de frosques. O único dos filhos que ainda estava com ele era o António Peres por ser deficiente e que subia naquele preciso momento pelo Caminho do Celeiro, atrás da manada de vacas leiteiras que estavam à sua guarda.

 
Pego Fundo, anos 70. Foto JV.

O António Peres apesar dos seus problemas, fazia a sua vida normal de trabalho. Tinha principalmente dificuldade de comunicação e uma grande deficiência na fala, tornando-se quase incompreensível para quem não estivesse habituado. Mas a verdade é que de um modo geral quase toda a gente o respeitava e acarinhava para que ele não se sentisse diminuído, inclusive a rapaziada mais nova que acamaradava com ele nos bailes das redondezas para que se pudesse divertir um pouco nem que fosse só para conviver com o pessoal ou beber um pirolito, pois não era fácil arranjar-lhe um par para dançar. Mas numa noite de sorte nas Cortes Pereiras conseguiu-se arranjar um par para o António Peres, que se iniciava assim nas lides de dançarino. Quando a música acabou -- desculpem-me lá o desbocamento -- o António Peres radiante e deslumbrado com a descoberta de novas sensações, dizia eufórico para a rapaziada: “óh moços (!), óh moços (!) ueu dança a pichaueu fa ito (!)” e arrebitava o dedo indicador para cima.

Passa entretanto o Professor Amaral que cumprimenta amavelmente os presentes com o seu característico sotaque beirão, pois apesar do calor que estava ia todos os dias à Amarela, nem que fosse só para controlar e orientar o trabalho do Ti Chico Barão. O Senhor Luís Corvo é que já tinha passado há muito, mas esse tinha sempre algum criado lá em casa que lhe tomava conta do serviço, para lá dos caseiros da Eira Branca que se encarregavam das extensas várzeas e laranjais que iam quase desde a Fonte Primeira passando pelo Pego do Calhau Branco até às Passadeiras das Cortes. E de facto lá passava o afilhado Carlos Barão quase
Sr. Felício
uma hora depois. “Olha o Senhor Felício hoje vem com a Hortinha”, comentam os homens admirados ao vê-los já para cá do Celeiro direitos à Vila e perguntam-me em surdina como quem não quer a coisa: “então Amílcar e como é que tu te safaste hoje da rega das nespereiras e das laranjeiras?” Explico-lhes a minha habilidade: “é fácil, quando ele se esquece de me avisar a tempo, lancho mais cedo e piro-me de casa antes que ele saia da Câmara às cinco e meia e ele nem me vê!”. “Boa técnica rapaz dizem os homens, não és nada parvo não senhor!”.

Mal os homens tinham satisfeito a sua curiosidade, passava o António da Teresa e o pai com uma pequena saca às costas. “Então e o rabisco da amêndoa hoje deu alguma coisa (?)” perguntam-lhes os homens. “Apanharam-se para aqui umas amêndoinhas mas coisa pouca, pois há alguns cercados que nem vale a pena a gente andar a perder tempo. Isto este ano está muito fraco”, diz o Ti Alfredo da Cadeia. O Senhor Brito de bengala na mão e o Senhor Domingos Mariano de cajado passavam entretanto e já faziam o seu passeio da tarde pela estrada acima direito ao Celeiro, sinal de que já tinham jantado. O Cabo Barros acompanhava a Maria da Conceição que vinha do Pocinho com uma infusa de água ao quadril. Depois deles passarem os homens cochichavam entre dentes, “este também não lhe dá um palmo de distância, parece que anda sempre desconfiado e nem deixa sair a moça de casa sozinha (!)”.

E com isto tudo o relógio da Igreja da Conceição já tinha batido as oito e meia da noite há um bom bocado e a minha mãe chamava-me aflita como sempre, com um tom de voz carregando alguma ameaça para disfarçar naturalmente o seu coração mole do costume: “Amíííílcar (!)... Amíííílcar (!), anda já a jantar (!) olha que o teu pai já está à mesa com a tua irmã (!)”. E lá vou eu a correr rua adiante, pois o“velho” gostava muito de brincar com os outros mas a verdade é que a mim não me dava lá muita confiança...

Ti Afonso Costa
Passei pela Venda do Senhor Simões que aviava mais um copo de três ao Ti Chapa de Aço, ao Mestre Carolino e ao Mestre Pinto que pareciam que já estavam um pouco entornados. Sentados no muro em frente da Venda estavam o Ti Lázaro, o Ti Pandareta e o Ti Eliseu que depois de alguns anos fora tinham vindo passar uns dias à Vila e que conversavam com o Ti António Emílio, o Ti Afonso Costa, o Ti Botelho e o Ti Chico Canelas. Possivelmente falavam sobre a hipótese de irem também trabalhar para Lisboa pois o Ti Eliseu estava a dizer que “a vida aqui já não presta, cada vez está pior...”.

A Tia Georgina estava à janela e falava para o outro lado da Rua com a Tia Ilda e o Ti Manel Francisco que já viviam sozinhos pois a filha, o genro e os três netos há muito que tinham ido viver para Faro. O Ti Guerreiro estava logo a seguir na janela do Talho, possivelmente a fazer umas limpezas e para ver o seu rebanho que tinha passado há pouco. O Ti Justo e a Ti Ana também já estavam sentados ao fesco e faziam companhia à filha Maria que chuleava ainda as bainhas de umas calças, enquanto o marido estava lá dentro do quarto que fazia de Alelier de Costura durante o dia e parecia que ainda estava a cortar tecido
Tia Ana da Costa
para um casaco. Ainda me meti com a Ti Ana que já comia uma "tijala" de sopas: então Ti Ana, hoje já não se faz mais nada? "Olha moço "tive" a fazer estas sopas de tomate, lavei os pratos e a caçoila e por hoje já tem àvonde", respondeu-me ela enquanto continuava a comer as suas sopas do jantar. A minha vizinha Gertrudes também já lá estava no poial da sua casa meia afogueada no meio daquelas suas banhas a queixar-se que não aguentava aquele calor.

Os filhos e os netos do Ti Carolino faziam uma" algraviada" dos diabos de casa para a Rua e da Rua para casa. Nem sei como cabia tanta gente lá em casa pois só tinha um quarto, a salinha da Barbearia e uma pequena cozinha. A Tia Maximina coitada via-se aflita para dar conta daquela fartura de filhos e netos. Só a Idalina e o marido o Ti Zé do Telhado, já tinham uns três ou quatro filhos. Se calhar aquela algazarra toda era porque o jantar não chegava para todos, sabe-se lá... A Tia Martinha vinha Rua adiante com um balde na mão que ia deitar nos estrazes da Ribeira e ia perguntando a quem passava se não tinham visto o seu Alfredo, ao que alguém lhe gritou de
Ti Martinha
que “ainda há bocado estava lá em baixo no Rio a limpar a lancha (!)”. Parou à do Ti Zé Emídio na Latoaria e virou-se para trás a gritar “óh Bia (!)... óh Bia (!)... vai lá a chamar o teu pai ao Rio que está a limpar a lancha, para vir a jantar (!)”.

A minha vizinha Clotilde estava à janela com a Chiquinha e esperavam como sempre pelo Senhor António do Rosário para jantar, pois como era habitual depois de fechar a Forja ao fim do dia, ia sempre dar corda ao relógio da Igreja da Nossa Senhora da Conceição. Mais abaixo o Ti Ferrador, surdo que nem umas portas de cachimbo na mão, estava sentado numa cadeira na Rua olhando para quem passava enquanto a Tia Chica Botelho e a Custódia andavam numa fona de um lado para o outro, para acabar o jantar para os hóspedes que nunca faltavam àquela hora. Na casa em frente a Dª Clarisse e a irmã a Dª Conceição já estavam de janela também, pois o jantar devia de ter sido rápido visto que o resto da família Cunha apesar de numerosa, estava em Moçambique e só cá vinham de dois em dois anos.

Ti António Joaquim
Na Venda do Ti António Joaquim o Ti Marciano, o Ti Nameaçes, o Ti Manel Melão e o Ti Gonçalves petiscavam umas sardinhas estivadas e umas cavalas em conserva. Tinham também umas tiras de muchama que algum deles tinha trazido de Vila Real certamente. Estavam a fazer os planos para a pesca dessa noite. Pareceu-me que estavam a combinar também o dia para tapar a Boca da Ribeira, pois a baixa-mar calhava a uma boa hora da manhã daí a uma semana e o Ti Marciano estava-lhes a dizer que “no Domingo depois de almoço combinamos tudo à do Ti Sabino, pois a baixa-mar dá lá para as oito horas.”

E lá vou eu a correr para a cozinha e jantar à pressa, pois o serão na Venda do Ti António Joaquim começava às 9,5h ou 10h o mais tardar e eu não podia perder pitada...


Nota Final:
A aguarela deste Alcoutim simples e trabalhador de que demos umas leves pinceladas nestas quatro últimas crónicas, existiu de facto quem havia de dizer e representa uma simples homenagem aos homens e às mulheres que dele fizeram parte, com quem mais convivi e com quem comecei a aprender as coisas da vida. Foi também o recordar nostálgico de uma linguagem, petiscos e utensílios caídos em desuso e arquivados há muito nas profundezas das nossas memórias como almareado, àvonde, magana, calma enzorrada, brandura, geada, estrazes, dar de vaia, ir à do Ti Chico e à do Ti Sabino, Venda, andar numa fona, rabisco, agourar, trangomango, salipanta, pirolito, sardinhas estivadas, muchama, cavalas em conserva, laranjas picadas da mosca, pelengana, “tijala”, caçoila, trempe, gorpelha, alforge, onça Duque e de Três Vintes, cigarros Provisórios e Definitivos etc., etc., etc... Há quantos anos que eu não pronunciava a maioria destas palavras caramba, mas os sabores de alguns pitéus e a sensação indescritível das belas noites estreladas de Verão dormidas ao relento na Eira do Cerro do Celeiro, garanto-vos que ainda cá moram! Não se tratou portanto de uma simples ficção. De mais de uma centena de nomes de pessoas referidos ou induzidos nestas crónicas, ainda andaremos por cá uma boa dúzia deles para recordar estas estórias ou talvez estas “histórias” romanceadas. “Histórias” e linguagem de outros tempos, mas que a magana da borracha do tempo sempre pragmática e insensível se encarrega de ir apagando. Às vezes até apetece fechar os olhos para não ver o tempo passar... 


Pequena nota

Ainda que esteja tudo dito, não posso deixar de escrever duas linhas sobre “Um fim de tarde em Alcoutim: sonho ou realidade?” com que o nosso colaborador e Amigo nos presenteou e aqui englobamos todos sem excepção: -os que conheceram e viveram todo este ambiente, os filhos da terra que vêem retratados com fidelidade e graça alguns dos seus antepassados que não conheceram e por último o leitor que nunca foi a Alcoutim que vive em qualquer parte do Mundo e que por esta leitura fica conhecendo toda a vivência de uma pequena vila rural em meados do século XX, ao sul de Portugal, junto do Guadiana e numa das extremidades da Serra Algarvia.
De pinceladas de pulso firme e cores ajustadas, Amílcar Felício deixa aos vindouros este magnífico quadro. Poucas teriam sido as pessoas que fugiram ao seu olhar atento.
Pela minha parte, o meu OBRIGADO.
JV

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Jarro [2]




Peça cerâmica visigótica igualmente recolhida após a Cheia de 1876/77 pelo arqueólogo algarvio, Estácio da Veiga e que igualmente faz parte do acervo do Museu Nacional de Arqueologia e inventariada com o nº 15149

Med. – Alt. 16 cm e de Diâm. 9,7 cm

Em relação ao JARRO [1] que já apresentámos e recolhido no mesmo local, tem a mesma finalidade sendo em relação à 1ª, um pouco mais baixo e mais bojudo.

Encontra-se como o anterior exposto no Núcleo Museológico do Castelo de Alcoutim nos termos que já indicámos e sob o número 41.

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Gradim, Alexandra, 2011,  Cardoso, João, Catarino, Helena, Guia do Núcleo Museológico de Arqueologia, C.M. de Alcoutim.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Quando nevou no meu "monte"!


Escreve
António Afonso

O "Monte" de Pêro Dias. Vista aérea.

Aquele fim de Outono e início de Inverno vieram acompanhados de grandes chuvadas, de tal modo, que comprometeram as sementeiras do trigo, cevada e aveia. Todas as linhas de água transbordaram e os terrenos ficaram ensopados.

Em Janeiro regressaram os dias solarengos, embora frios. À volta do monte e pelos campos tudo verdejava, os regatos, os ribeiros e a ribeira da Foupana; corriam águas límpidas e cristalinas, todas apressadas em chegar ao mar.

 Nos finais desse mês o tempo atmosférico mudara de novo, o céu carregou-se de nuvens negras acompanhado de rajadas de ventos fortes e frios que sopravam do Norte; o frio era intenso e as temperaturas desceram bastante.

Apesar da minha tenra idade, recordo aquele 02 de Fevereiro de 1954, dia da Nossa Senhora das Candeias. Teve lugar um acontecimento acompanhado de imagens únicas, as quais ficaram bem gravadas na minha memória, decoradas de relatos de pessoas mais velhas que presenciaram o fenómeno.

Ao final da tarde, as crianças que regressavam a casa, vindas da escola situada no monte da Barrada, foram surpreendidas pela ti Custódia que vinha a correr com o seu rebanho de ovelhas. Ordenou-lhes que a acompanhassem rapidamente para o monte, pois baseada na sua experiência e na observação dos ventos fortes e agrestes e do céu coberto de nuvens cor de chumbo, que não tardaria a cair neve.

Chegados a casa os miúdos merendaram, aqueceram-se junto à lareira e relataram aos pais o que tinha acontecido. Depois da ceia, a noite continuava fria e desagradável, fomos para a cama mais cedo que o habitual. Logo de manhãzinha a mãe levantou-se para ir para a cozinha, que ficava separada da casa onde dormíamos e ao abrir a porta deparou-se com um manto branco que tudo cobria, ruas, telhados e campos. Foi junto de nós e deu-nos a novidade.


Ficamos boquiabertos com tanto branco! Tudo aquilo era inédito para nós e a maioria das pessoas jamais tinha presenciado a neve. Talvez alguém tivesse ouvido falar dela na lenda das Amendoeiras em flor ou no poema Balada da Neve, de Augusto Gil.

Como o meu pai estava a trabalhar fora, a mãe agarrou numa pá e abriu um carreirinho até à cozinha. A água que tínhamos nos cântaros congelou e nós íamos ao quintal buscar neve que introduzamos numa panela de ferro junto ao fogo; com o calor aquele “algodão” liquidificava, que coisa extraordinária!

Um pouco por todo o país tinha nevado. No Algarve desde Vila Real de Santo António até Aljezur, existem registos que o testemunham… Na aldeia de Cachopo o manto atingiu 60 centímetros de altura.

Recordo que dos beirais estavam pendentes estalactites de gelo. A miudagem fazia e atirava bolas de neve uns aos outros; os mais velhos deram largas à sua imaginação, e fizeram um grande boneco de neve com os olhos feitos de azeitonas pretas, o nariz era uma cenoura e a boca uma pequena laranja; colocaram-lhe um cachecol no pescoço e um velho chapéu na cabeça.

Como o tempo não permitia ir à escola todos se divertiram com alegres brincadeiras.
Até hoje, jamais presenciei outro nevão, mas frequentemente recordo com muita saudade esta vivência da minha infância!