segunda-feira, 10 de junho de 2013

Tabuleiro de jogo


 Tabuleiro de jogo de tipo Mancala III, recolhido no Castelo Velho de Alcoutim.

Este jogo milenar oriundo do Oriente Médio (foi encontrado um tabuleiro do IV milénio a. C. no Egipto) e da África, teve imensas variantes ao longo dos tempos.

Joga-se como o gamão, movendo as peças no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, procurando capturar as peças adversárias que fiquem isoladas em número de uma ou duas num orifício. Ganha o que capturar maior número de peças.

É de xisto e do período islâmico do século X – XI.

Med. 29,2 X 14,1 X 2,4 cm.


Pode ser apreciado no Núcleo Museológico de Arqueologia do Castelo de Alcoutim.

domingo, 9 de junho de 2013

Lua cheia em Afonso Vicente (Alcoutim)


A Câmara Escura de hoje é muito especial.

Residirá na simplicidade um hipotético interesse, pelo menos da nossa parte.

Quando estamos em Alcoutim, raramente a máquina fotográfica nos deixa de acompanhar, pois nunca se sabe quando aparece um motivo para fazer o disparo e hoje com o sistema digital não há preocupação quanto ao número de fotos que se pode realizar.

Para não ficar esquecida em qualquer parte, transportamos sempre a máquina a tiracolo.

No mês de Maio último ao dirigir-nos a casa na direcção do sul e virado para o Sul, deparamo-nos com este quadro singelo de Lua-cheia plena de brilho e... disparámos!

Deu isto, o contraste do negro do céu com o tom amarelado e brilhante da Lua! Mas não só, repare-se do lado direito onde se nota bem uma estrelinha.

Gostámos e partilhamos o nosso gosto com os visitantes / leitores.

É uma fotografia de âmbito diferente do habitual.


sábado, 8 de junho de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - L



  
Escreve

Daniel Teixeira




POVOAMENTO E ABANDONO

Esta minha crónica foi em grande parte despertada pelo excelente texto do meu parente António Afonso sobre o Monte dos Medronhais que pode ser lida aqui e que me levantou algumas questões em quase resposta ao seu texto. Para quem não leu ainda essa crónica de António Afonso devo dizer que o que me levanta curiosidade e questões é o facto de haver no Concelho de Alcoutim, e por esse Portugal rural fora seguramente, Montes (Povoações) unifamiliares.

Ora, na minha perspectiva, a unifamiliaridade de povoamento, ou o número de habitantes por local, tem a ver sobretudo com o volume dos recursos disponíveis a ser explorados através de uma dada localização geográfica. Penso que seja lógico pensar-se assim e a própria experiência adquirida nos restantes Montes, sejam eles do Concelho de Alcoutim ou outro, demonstra de alguma forma isso.

Quando eu falo de Alcaria Alta, por exemplo, pergunto-me quase sempre, directa ou indirectamente, porque existe uma aglomeração e uma relativamente forte concentração habitacional em espaços que em termos de construção são de difícil trato.

Já referi, por exemplo, que a casa da minha avó foi construída em cima de um rochedo que obrigou ao enchimento em pedra solta e provável entulho de uma grande parte do seu corpo para nivelamento do conjunto habitacional da casa, assim como tenho referido locais de difícil acesso diário, cuja justificação única que se poderia apontar seria o facto de a posse da propriedade a isso ter obrigado.

Mas também já referi que o meu avô tinha uma arramada a cerca de cem metros de casa que não era utilizada senão para armazenamento de palha, quando na verdade os animais e ele mesmo, ficariam muito melhor servidos nessa outra localização, não fora o contra de as bestas terem de comer durante a noite ou madrugada.

Isto para dar a entender que, na minha opinião, existia um factor que levava ao agrupamento habitacional que se não prendia (pelo menos exclusivamente) com a falta de alternativas vistas agora, na nossa perspectiva, mas que requeria uma relação de vizinhança tão aproximada quanto possível.

Ora, quando aparece, nas crónicas, neste caso no Alcoutim Livre, um Monte isolado e unifamiliar o  bichinho da minha curiosidade é despertado pela contradição entre o narrado e a cultura por mim construída. Sei por exemplo, que no litoral, as «hortas» são na sua grande parte separadas entre si pelas  delimitações dos terrenos e sua pertença, e logicamente pelo facto de constituírem unidades específicas, alegadamente auto-suficientes.

Quando isso não acontece, ou seja, quando existe o caso de partilhas, aqui nos arredores de Faro, por exemplo, que «desmembram» a propriedade inicial, mantém-se a separação apesar de haver partilha conjunta de um recurso, neste caso, a água ou a nora, mais especificamente.

Assim, o nosso colaborador e amigo Dr. João Manuel Brito Sousa, aqui da zona montanheira dos arredores de Faro, mais concretamente Braciais - Patacão, refere textualmente o seguinte: «Lembro-me muito bem dessa língua de terra, que a minha mãe tinha lá em baixo, aonde às vezes a rega calhava de noite, pois a água vinha de uma nora de cinco ou seis herdeiros, e muitas vezes eu ia com o Manel fazer a rega, de candeeiro de carro na mão, às quatro da matina.» aqui (link).

Isto para dizer que a tendência para construção de habitação nesta zona é a proximidade com o terreno de cultivo, apesar de...conforme vimos acima... Ora, em Alcaria Alta (o Monte que melhor conheço) este processo de agregação parecia desobedecer a todas as regras lógicas, segundo a nossa (ou a minha) lógica actual.

Nunca vi ninguém aproximar-se (em termos habitacionais) de um poço, nem de uma parte de propriedade que fosse mais relevante no globo da sua propriedade. Foram sim os poços que se aproximaram dos Montes (conforme também foi referido já pelo José Varzeano quando da construção em Alcaria Alta do poço comunitário dos Tomázes - à entrada do Monte para quem vem de Giões pela estrada).

E por outro lado foram os terrenos ou hortas mais longínquas da habitação que foram relegadas para culturas ou planos secundários. Já aqui falei da Horta do meu Tio Afonso, nas Eiras Velhas, próxima do Ribeirão, à qual era dedicada muito pouca atenção e que praticamente se limitava às operações de colheita de frutos (uvas sobretudo) e plantação de cevada ou centeio.

Esta crónica já vai longa e ficam muitas questões para esclarecer, e vão ficar, mas o que mais me intriga é realmente a unicelularidade deste referido Monte dos Medronhais.

Ficará para uma próxima oportunidade tentar esclarecer se se trata de um Monte à Alentejana, ou se se trata de um caso excepcional dentro daquilo que considero ser a ancestral  lógica serrenha, acabando por ter (por uma questão de uso ou prestígio) um topónimo de colectivo quando na verdade se trata de uma habitação isolada.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Dez anos de trabalhos arqueológicos em Alcoutim do neolítico ao romano


No formato de 21 X 21 cm e 203 páginas. É trabalho editado pela Câmara Municipal de Alcoutim (2011) e da responsabilidade científica de João Luís Cardoso e de Alexandra Gradim.

O primeiro é Professor Catedrático da Universidade Aberta e Coordenador do Centro de Estudos Arqueológicos do Concelho de Oeiras (Câmara Municipal de Oeiras) e Académico de Número da Academia Portuguesa da História e a co-autora, Arqueóloga da Câmara Municipal de Alcoutim.

O trabalho divide-se em 7 partes, abordando: 1 – Conjunto Megalítico do Lavajo, 2 – Cista Megalítica do Malhão, 3 – Tholos do Malhanito, 4 – Anta do Malhão, 5 – Necrópole das Soalheironas, 6 – Necrópole do Cabeça de Vaca e 7 – Barragem Romana do Álamo.

Excelente papel e fotografia numa edição de 500 exemplares.

O exemplar foi-me oferecido pela Dra. Alexandra Gradim valorizado por comovente dedicatória.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A descoberta do amor...




Escreve

Amílcar Felício



Estávamos nos princípios da década de sessenta do século passado. Teria para aí os meus 14, 15 ou 16 anos no máximo. Tinha por hábito passar quinze dias ou um mês de férias em Vila Real de Santo António e o meu primo Zé Manel, retribuía com o mesmo tempo de férias em Alcoutim sua Terra Natal, de aonde tinha saído ainda menino. O Turismo estava ainda a despontar no Algarve e construía-se na altura em Monte Gordo o primeiro grande Hotel – o Hotel Vasco da Gama – aonde os trabalhadores simpaticamente nos deixavam tomar banho na piscina ao fim do dia. Era a cereja em cima do bolo!
 
Um aspecto de Monte Gordo nos anos 60.
 Foto de Artur Pastor, in blog.turismodoalgarve.pt 
Certo dia nos extensos areais ainda desérticos da praia de Monte Gordo, que mais pareciam naqueles tempos verdadeiros viveiros naturais de conquilha, de amêijoa e de lingueirão, fui picado por uma melga – a melga do amor – pois naqueles tempos não havia os potentes insecticidas que existem hoje em dia como os Computadores, as Internetes, as Playstations, os Ipades, os Iphones e os “Ai” não sei quantos que por aí abundam e que vão matando ao que parece, tudo o que mexe à sua volta! Às vezes pergunto-me: será que ainda haverá melga que lhes resista? Ou será mais uma espécie em vias de extinção acelerada, neste mundo cada vez mais coisificado, árido e robotizado?
 
De regresso a Alcoutim neste país de poetas com tanta poesia de pé quadrado à mistura é verdade e aonde me incluo naturalmente, e numa noite de calmaria em que servia de pasto às abundantes melgas que vinham da Ribeira naquela época, saiu-me “isto” que vos conto mais em baixo. Para vosso descanso, informo desde já de que todos os poemas que fui escrevinhando desde então, foram sendo religiosamente arquivados no caixote do lixo.
 
Mas para azar dos nossos leitores, este por ser o primeiro e corresponder à primeira paixoneta ficou-me na memória e até hoje só eu e a “melga” suponho (já nem me lembro acreditem!), tínhamos conhecimento dele! Assim, tenham lá paciência ou então para vos recompensar, riam-se que eu faço o mesmo e não vos levo a mal claro... Contudo, analisando à distância e sem falsa modéstia penso que a raiva de alguém se sentir prisioneiro, assim como o choro calado das feridas da alma ou o ardor e o vazio que se misturam naquele sentimento quando genuíno, estão razoavelmente bem passados para o papel ainda por cima vindo de um “teenager inconsciente” com 14, 15 ou 16 anos, que acabava de fazer a “Descoberta do Brasil” e das suas insondáveis riquezas!
 

Melga desgraçada!












Oh Melga desgraçada quão torturas,
sem dó, carinho e nem piedade!
E vens pousar à noite na solidão,
de um coração,
que vive roído pela saudade!

Mas donde vens oh das Melgas a Rainha,
com tua bela estória fabulosa!
Com tuas belas asas matraqueando,
e espedaçando,
a solidão tão calma e monstruosa!

Vens eu sei, voando de tão longe,
qual vampiro faminto, esmagador!
Pousas mansinho para depois picar,
e avivar,
a febre doentia de um amor!



quarta-feira, 5 de junho de 2013

Relógio - despertador

Era um luxo nos anos 50 / 60 do século passado possuir um relógio destes, nomeadamente, nos meios rurais “montes”, onde a hora ainda se media pela altura do sol e o trabalho era marcado desde a hora do seu “nascer” até ao ocaso.

A vida do campo ainda era pautada pela natureza e era ela que, igualmente, indicava a hora das refeições.

O velho relógio que durante muitos anos, vindo do tempo da monarquia e que foi mantido pela 1ª República, soçobrou com o “Estado Novo” e só depois do 25 de Abril foi colocado um na Capela de Nª Sª da Conceição substituindo o que se encontrava há muito parado e sem condições de funcionamento. Logo a seguir, o município presidido por Manuel Cavaco Afonso colocou um relógio em cada igreja matriz das restantes freguesias.

Até essa altura a vila recebia as horas por contrabando vindas da vizinha Sanlúcar, o que nos causou durante os primeiros tempos grande confusão, até porque a hora era diferente.

O espalhar deste relógio e de outros tipos na vila de Alcoutim e mesmo no concelho foi originado pela acção comercial do nosso saudoso amigo, João Baltazar Guerreiro, que além de os ter à venda, também os reparava.

O que a fotografia representa foi por ele vendido e é guardado como uma relíquia, mesmo sem trabalhar. Ainda o plástico não tinha entrado na sua construção e era necessário dar-lhe corda diariamente para não falhar. A precisão também não era muito rigorosa.

Na altura não era muito fácil comprar um relógio-despertador!

Hoje, só não tem quem não quer, nas lojas dos chineses vendem-se por tuta-e-meia!

São mais precisos, trabalham a pilhas e... duram o tempo que durarem!

terça-feira, 4 de junho de 2013

Crónicas dos Balurcos [1]






Escreve

José Rodrigues




O TI AFONSO DA EIRINHA

Normalmente a Eirinha não faz parte da toponímia dos Balurcos. Situa-se entre o Montinho e o Cerro, junto à Estrada Municipal nº1057 constituindo, por assim dizer, a “baixa comercial” comum aos dois núcleos habitacionais, não sendo por isso considerado individualmente, como Monte. É onde hoje existe ainda, o único estabelecimento comercial dos Balurcos, o Café e Mercearia da D. Teolinda, sendo que há 40/50 anos existiam ali, do lado do Cerro, a Taberna do Ti Zé Joaquim (José António, de nome verdadeiro), que também tinha oficina de Ferrador e, do lado do Montinho, a Mercearia do Ti Afonso, (António Afonso).

É do Ti Afonso, sapateiro de profissão e comerciante por opção, que vou falar na presente crónica. Lembro-me dele, desde que me conheço, pelo facto de ser vizinho e compadre dos meus avós. Foi uma pessoa com bastante humor, muito amigo dos clientes que visitavam o seu estabelecimento, muito informado mas com alguma dose de ingenuidade, extremamente bem formado e, sobretudo um homem bom, tal como sua esposa, a Ti Joaquina Pereira. Frequentemente o via a ler jornais e era cliente habitual da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian onde se misturava com a juventude na procura de literatura que lhe interessasse. Ouvi-o vezes sem conta a recitar poemas, nomeadamente “Os bichinhos que há no mundo”, de que retive na memória apenas a 1ª quadra (Os bichinhos que há no mundo / Eu te os vou nomear / O piolho está sesudo / E a pulguinha anda a pular.) ou a “Nau Catrineta”, entre outros.

Foi, também, um homem com preocupações sociais e, no início dos anos 30, em conjunto com o Cabo Galrito, residente no Cerro, fundou a meritória Instituição Mutualista, Lutuosa dos Balurcos, vulgarmente conhecida por Sociedade dos Caixões, cujo objectivo era pagar aos herdeiros dos sócios falecidos um subsídio para custear ou ajudar às despesas do funeral. O dinheiro para esse pagamento resultava da quota fixada, que era paga à Direcção, só quando acontecia o óbito de um associado, ou seja, não havia pagamento regular periódico.  

Sinalética toponímica. Foto JDR

Amigo de dizer piadas e de colocar problemas, lembro-me muitas vezes quando, com outros amigos, íamos à mercearia para fazer algum recado ou simplesmente para o visitar, de o ouvir dizer larachas do tipo: “Fó daí moço…!”, em que o “fó” era a contracção da palavra foge, que ligado ao “daí moço”, resultava na fonética desejada, para nos fazer rir. Uma vez requisitou na Biblioteca o livro, A noite e a Madrugada de Fernando Namora que depois nos mostrava, dizendo: - estão a ver este livro?! Olhem para isto?! E lia, com a pontuação que lhe convinha, o que constava da capa: Fernando, namora a noite e a madrugada!
A mercearia estava sempre limpa e bem arrumada. Sobre o balcão, corrido e bastante puído dos clientes lhe encostarem os braços, uma guilhotina de cortar bacalhau à qual eu sempre achei muita graça, e uma balança de pratos com armação em ferro fundido e pratos de “arame” (latão), que a ti Joaquina Pereira mantinha reluzentes de tão bem areados. Ainda sobre o balcão um boião de vidro com rebuçados que o ti Afonso vendia, a dois um tostão, e que também usava, quando lhe faltavam as moedas de 10 ou 20 centavos (1 ou 2 tostões), para a demasia. Na parte posterior, as tulhas em madeira onde armazenava os produtos da venda avulsa: grão, feijão, arroz, açúcar, griséus, etc. e por cima, na parede, um escaparate onde eram arrumados outros produtos, alguns já embalados, como: palha d´aço, bolachas baunilha, farinha 33, café em grão, línguas-de-gato, latas de conserva, OMO, TIDE, etc. Apesar da já existência destes últimos, no ramo das limpezas, ainda pontificava o sabão azul e branco em grandes barras, que eram cortadas, à medida que o cliente pretendia, por um instrumento feito pelo próprio ti Afonso, composto basicamente por um arame fino, em arco, cujas extremidades eram atadas a um cabo feito de um pedaço de vara de “jambuzo”. No escaparate também havia lugar para material básico de papelaria como: cadernos, sebentas, lápis, borrachas, folhas de papel azul de 25 linhas, etc. No resto do espaço algumas sacas, em pé e abertas, com produtos como: milho, cevada, favas ou mistura para animais. Existia também uma balança decimal, onde se pesavam os produtos de venda em maiores quantidades, como as ditas rações, ou então os produtos que também comprava aos vizinhos, sobretudo as azeitonas “verdes” para “britar” ou “arretalhar”, que negociava com compradores exteriores obtendo, também aí, alguma mais-valia.  

Devido ao negócio era homem de contas, e gostava igualmente de nos testar com problemas que ele inventava ou que teria ouvido ou lido, em qualquer outro lugar. Um dia, achando-me já “maduro” para a resolução de uma questão complicada, na sua perspectiva, colocou-me o problema/fábula do gavião e das 100 pombas, desconhecido para mim até essa data, e que nunca mais esqueci:
“Um gavião passa a voar e vendo um bando de pombas, pousadas, diz-lhes: Bom dia minhas 100 pombas! Respondendo elas: 100 pombas não! Nós pombas que aqui estamos, mais outras tantas como nós, mais metade de nós, ainda mais a quarta parte de nós e contigo Gavião, 100 pombas somamos”.

Posto o problema nestes termos, queria o Ti Afonso saber quantas pombas tinha o Gavião saudado. Para minha sorte, tinha ainda “fresca” a aprendizagem recente das equações de 1º grau e então pedi-lhe o lápis, que sempre trazia atrás da orelha, e num bocado de papel pardo, onde enrolava algumas das mercadorias, ali mesmo atribui o xis ao número de pombas e foi só estabelecer a equação e resolvê-la. Uns minutos depois dei-lhe a solução: 36 pombas. É claro que o Ti Afonso ficou admirado e satisfeito pelo meu desempenho, e se ele ficou contente, imaginem, agora, eu!

Muitas vezes convidava-nos, à noite, para jogarmos “ao rebuçado”. As apostas eram feitas com rebuçados que ele nos vendia e no jogo, designado naquele tempo por “estica” (uma espécie de poker), podiam entrar até 8 jogadores com um baralho de 40 cartas e o objectivo era fazer “pares”, “ternos” ou “quadras” de cartas com o mesmo valor facial, naturalmente de naipes diferentes, podendo, nas 5 cartas distribuídas em cada jogada, obter-se “um par”, “dois pares”, “um trio”, “um trio e um par” ou uma “quadra”. Lembro-me que o mais forte era a “quadra de ases”. No inicio de cada jogada todos apostavam um rebuçado para constituir a “mesa”, depois de concluída distribuição das cartas, (cinco na 1ª rodada e mais duas para substituir igual número rejeitado, na 2ª rodada), os que não tinham “jogo” iam “abaixo” (era expressamente proibido, aos desistentes, mostrar as cartas), os que “iam a jogo” apostavam, à vez, o valor que achavam conveniente, de acordo com a qualidade do jogo que tinha escondido, e quem quisesse ir até ao fim tinha que igualar a maior aposta, sendo que muitos faziam caixa (“bluff”), arriscando apostas elevadas, sem jogo que prestasse, ganhando algumas vezes, aos que desistiam com receio de perder, mesmo tendo as combinações mais fortes. Dos que ficavam até ao fim ganhava o que tivesse o jogo mais “valente” e, naturalmente, arrecadava todos os rebuçados da “mesa”.

Casa de Ti Afonso, hoje desabitada. Foto de JDR

Muitas outras “estórias” ficam por contar, por falta de espaço, como por exemplo as da sua faceta de caçador furtivo, onde era mestre em “armar” “arames” (laços) e “rateiras” com as quais apanhava lebres e coelhos, ou das conversas com o seu vizinho Zé Joaquim, de quem foi sempre muito amigo, ou em temas sobre o bem falar português com o ti Zé Dias, reformado da GNR e também vizinho ou, ainda, sobre os seus dois sonhos, aos quais sempre se referia com a chalaça que o caracterizava: um era viver até aos 100 anos e o outro possuir uma motorizada com três rodas. Nenhum deles, infelizmente, se concretizou. Faleceu em 1985, com 82 anos de idade.

Depois do 25 de Abril de 74, várias vezes o ouvi referir a terceiros, ter sido eu quem lhe tinha ensinado o significada da palavra Democracia. Lembro-me de termos falado sobre o assunto e confesso que hoje, quase 40 anos volvidos, seria muito mais difícil explicar tal significado, tendo em conta a realidade actual do país.

Foi infinitamente pouco, alguma coisa que lhe tenha “ensinado”, tomando por comparação o que aprendi com ele, sobretudo no que diz respeito aos valores e à forma bem-disposta e optimista de encarar a vida.

OBRIGADO e até sempre, Ti Afonso!

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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Barlavento: Área do projecto de reflorestação nacional

 (PUBLICADO NO CORREIO DA MANHÃ DE 8 DE OUTUBRO DE 1985)

O Barlavento algarvio faz parte da «área de intervenção, a médio prazo, do projecto de reflorestação nacional, financiado pelo Banco Mundial».

O projecto, acordado há cerca de dois anos entre o Governo português e o Banco Mundial, estipula a arborização com espécies produtoras de madeira de cento e cinquenta mil hectares em todo o País, dos quais noventa mil a cargo do Estado e os restantes da Portucel.

Uma fonte da Direcção-Geral de Florestas disse que o objectivo de tal projecto é, simplesmente, «atingir esses cento e cinquenta mil hectares no mais curto espaço de tempo, não determinando normas rígidas a seguir na florestação».

O pinheiro manso, o bravo e o eucalipto são as espécies escolhidas pelos serviços florestais para o plantio nas áreas a florestar no Algarve, cujo valor é, no entanto, desconhecido na região.

Segundo a mesma fonte, aqueles serviços têm procurado diversificar a implantação no terreno das espécies escolhidas, evitando criar na sua área de intervenção manchas de concentração de uma só espécie.

A mesma fonte reconheceu, todavia, que o poder de intervenção dos serviços florestais no processo de reflorestação «é muito reduzido».

Estes serviços apenas intervêm quando são solicitados para tal por um proprietário que lhe pede , por exemplo, que elaborem um plano de reflorestação do terreno.

Por outro lado, os serviços florestais não exercem também qualquer controlo sobre as extensas áreas florestadas pelas três empresas de celulose, detentoras de grandes interesses no Algarve.

Estas empresas, classificadas como «grandes plantadoras de eucalipto na região algarvia, exploram grande parte das zonas de floresta da serra da região.

O mesmo técnico da Direcção-Geral de Florestas referiu que o plano da reflorestação do Nordeste algarvio, que não se integra, no referido «projecto de reflorestação nacional», obedece a princípios totalmente diferentes.

A reflorestação naquela zona insere-se num plano de desenvolvimento integrado abarcando os concelhos de Alcoutim e Castro Marim, que tem por objectivo, «aproveitar ao máximo os usos múltiplos da floresta integrando-os com o fomento da caça e da pastorícia.» promovendo-se assim a fixação humana.

No Nordeste algarvio, conforme salientou o mesmo técnico, não se vão plantar eucaliptos nem pinheiros, mas sim espécies autóctones e adaptadas ao seu clima e solo, tais como medronheiros, alfarrobeiras, amendoeiras, sobreiros e azinheiras.

Pequena nota

As fotografias que apresentamos são recentes e de nossa autoria. A primeira apresenta uns raquíticos pinheiros e limpos, não sabendo quando o trabalho foi feito. A 2ª, ainda ninguém lhe tirou uma pernada! Estão ao lado um do outro!

Depois de recordar a leitura deste texto, passados 27 anos, a florestação efectuada no concelho, pelo que conheço das visitas feitas em todas as freguesias, é quase totalmente de pinheiros, o que sempre nos admirou pois não era árvore existente no concelho em número significativo. Os poucos exemplos que conhecemos demonstram apesar dos anos decorridos um porte modesto.
O que é que mudou? Foi o sentido técnico ou a política?

A azinheira foi sempre a árvore desta região!

JV

domingo, 2 de junho de 2013

"Doce Nostalgia"


Versos
de
Maria Dias


Fiz 60 e agora?

Agora, quero mais!
Quero o lume,
Quero o gato,
Meinhas brancas de linha,
A cordinha de saltar,
Os girinos do regato
´Mais "macaca" pra jogar.

Mais ribeiras a correr,
Malmequeres para desfolhar,
Bem-me-quer, mal-me-quer,
Quem começa a namorar?

O nascer do sol nos montes,
O entardecer no mar,
Fazer croquete na areia,
Com o corpo a rebolar!

E quero ainda dizer,
Que os momentos de prazer
Que na escola se passaram,
Nunca, os irei esquecer!

E os namoricos de verão?
Hormonas em roda viva,
Cabeça desordenada,
Eram segredos guardados,
Num diário com chavinha,
E corações desenhados.

60 já passaram?
Esta é a realidade?
Não me assusta!
O tempo corre apressado,

Mas eu? Não tenho idade!

sábado, 1 de junho de 2013

O Património Edificado


A destruição do património alcoutenejo não é de hoje, vem de longe.

O pelourinho, símbolo do poder local, foi escondido no cais velho onde uma das peças serve de base de chuveiro.

Talvez o primitivo edifício do poder municipal, conhecido por cadeia velha, foi cilindrado ficando como relíquia a placa indicativa a que chegou a Cheia de 1876 / 77.

A Igreja da Misericórdia foi espoliada do seu altar de pintura marmórea e transformada em simples “Casa Mortuária”, ainda que não possua instalações sanitárias anexas.

Salvaram-se os restauros da chamada “Casa dos Condes” e da simples mas significativa Capela de Sto. António, na “Ribeira”. Depois de ter estado condenada ao derrube, quase por milagre consegue salvar-se.

Preservou-se, igualmente, a “Capela Real de Nª Sª da Conceição”, património municipal.

As últimas ruínas à mostra da muralha que cercava a vila desapareceram recentemente.

Houve alguém que lhe tirou fotografias, pelo menos para  ficarmos com essa imagem.

Destruíram-se a Casa do Capitão-Mor e os Paços do Concelho para darem lugar a réplicas mais ou menos bem concebidas. Uma réplica, como todos sabem, nunca constituiu um restauro, como algunspretendem fazer crer! Uma réplica é uma cópia.

No património particular, na Rua Dr. João Dias, a família Soeiro recuperou bem pelo menos um dos seus imóveis do século XIX, o mesmo acontecendo com a fachada da casa onde residiu durante muitos anos a família Cunha, na Rua da Misericórdia. Na mesma, mantém-se com dignidade a residência que foi de Luís Lopes Corvo.

Na Rua da Parada e mesmo em frente do local onde se encontravam as assassinadas escadinhas da Rua de Nª Sª da Conceição, conserva-se uma das mais atraentes casas de habitação da vila, recentemente vendida e que pertenceu à família Rosário. Teve a sorte de ser comprada por estrangeiros.

Uma das habitações mais interessantes da Rua Portas de Mértola, e mesmo da vila de Alcoutim, conserva desde a data em que foi construída, nos anos 30 do século passado, uma fachada muito característica da época onde avultavam as decorações em argamassa, conforme a habilidade dos mestres. Choca-nos, contudo, o actual alumínio de porta e janelas.

Desconhecemos o destino de uma interessante grade de ferro forjado existente num desaparecido prédio na Praça da República e que continha as iniciais de J J M (José Joaquim Madeira) que foi presidente da Câmara Municipal de Alcoutim e desempenhou outras funções políticas. Penso que era obra de ferreiros locais.

E o" trabalho" irá continuar!