quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O lugar de Juiz de Fora em Alcoutim

Ao dedicado visitante/leitor
AM (Almada)




Para melhorar a aplicação da justiça, que era administrada por Juízes da terra, eleitos pelo concelho, o que dava por vezes origem a colisão entre normas jurídicas e interesses familiares locais, D. Afonso IV nomeou Juízes de Fora, contudo só no século XVIII as nomeações atingem algum relevo quantitativo.

A carta de criação do Lugar de Juiz de Fora de Alcoutim é de 18 de Fevereiro de 1773 e tem pendentes nas duas pontas de cordão vermelho “dous Sellos Reaea de chumbo idêntico” (1)

Criaram-se Juízes de Fora e dos Órfãos na vila de Alcoutim, por alvará de 1733, é facto documentado. Para o justificar, a vila é então definida pela Coroa como “considerável pelos muitos lugares do seu termo que abrigavam mais de mil e quatrocentos fogos e ainda, pela sua posição na extremidade oriental do Reino do Algarve, sobre o Guadiana”.

A nomeação dos respectivos juízes, em lugar dos ordinários ali existentes, pertencia à Casa do Infante D. Pedro, marido da Princesa do Brasil, mais tarde Rainha D. Maria I.(2)

A Alcoutim teriam chegado, segundo Pinho Leal, (3) e sem fundamento, em 1758, por deliberação de D. José.

Sabemos que, em 1775 as funções de Juiz de Fora eram desempenhadas pelo Dr. José Duarte da Silva; em 1778 J. Sebastião José G. Almeida Figueiredo; em 1787 António Novais Branco, tendo todos exercido as funções, ao mesmo tempo, de Provedores da Santa Casa da Misericórdia.

Por carta de Juiz de Fora de Alcoutim a 29 de Maio de 1794 é nomeado Juiz de Fora de Alcoutim, o bacharel em Leis, Manuel José Gomes Loureiro. (4)

Em 1810 Alcoutim possuía Juiz de Fora para controlar a entrada de estrangeiros. (5)


Em 1818 era também Provedor da Misericórdia e Juiz de Fora o Dr. Mateus António Pereira da Silva. (6)

[Casa que a tradição indica como tendo sido residência do último Juiz de Fora de Alcoutim. Foto JV]

De 1820/23 o bacharel Joaquim António da Costa Sobrinho que participa que o prior de Alcoutim, Joaquim José Cavaco tem explicado sabiamente o sistema Constitucional, em todos os dias que à Estação da Missa lê os decretos do Soberano Congresso que analisa com toda a clareza, e faz ver as atitudes que resultaram de tais leis; que o mesmo tem feito o pároco de Cachopo, (então pertencente a Alcoutim) Frei Joaquim de Lagos, os Párocos de Giões, José Rodrigues Teixeira, o de Vaqueiros Frei António do Carmo de Azevedo e o do Pereiro, Francisco de Paula, os quais no feliz aniversário da instalação das Cortes, se juntaram os três e nas suas igrejas fizeram festas constitucionais e o Padre Frei Francisco Bento, coadjutor de Vaqueiros, pregou em todas as três festas em que mostrou o quanto está possuído do Sistema actual. (7)

Em 1824 José Teles de Góis, nomeação que veio a ser suspensa, em 1825 José Francisco Parreira de Vilhena; de 1826 a 1829, por carta de privilégio de D. Miguel I, José António Fonseca de Lima e o último de que temos notícia é do bacharel José Pinto Coelho de Ataíde e Castro (1831).

Das nomeações de D. Miguel só existe a que referimos, já que as outras desapareceram com a destruição das folhas visto que a numeração salta bastantes folhas. Tratava-se de uma tentativa de evitar o conhecimento dos nomeados com medo a retaliações. (8)

Diz a tradição que o último Juiz de Fora habitou uma casa na Rua da Misericórdia onde viveu a família Cunha.


NOTAS

(1)-Dissertações Chronologicas e criticas sobre a História e Jurisprudência, João Pedro Ribeiro, 1813, pág. 193)

(2)–História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão, VI Vol.

(3)-Portugal Antigo e Moderno.

(4)-Gazeta de Lisboa de 18 de Agosto de 1831, pág. 793.Era Bacharel em Leis e Filosofia em 1792, Ouvidor em Moçambique com assento na Relação do Porto em 1798 e Desembargador em 9 de Setembro de 1805. Nasceu em Sezares (Braga) e morreu a 8 de Maio de 1855. Pertenceu à Junta Provisional do Governo do Estado da Índia (1821).

(5) – Mapa constante da pág. 222 do VII vol. da História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão.


(6) - Natural de Tavira, em 1860 era um dos proprietários da grande Herdade da Malhada, freguesia de Vaqueiros.

(7) - Suplemento nº 30 do Diário do Governo de 3 de Junho de 1822.

(8) – Livro de Privilégios com o desaparecimento de algumas folhas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A minha primeira vez....

Pequena nota
Temos o prazer de apresentar mais um texto do nosso colaborador, Amílcar Felício que abrange vários episódios significativos da vida alcouteneja ou com ela relacionados.
A colaboração vai-se estendendo numa variante de assuntos e em que os autores marcam o seu estilo.
Os grandes beneficiados são os nossos visitantes/leitores.

JV








Escreve

Amílcar Felício



(Nota: este texto resulta de um conjunto de apontamentos alinhavados há já alguns anos, mas que nunca saíram da gaveta. Davam continuidade a uma série de crónicas que fui publicando no jornal do Baixo Guadiana e faziam a minha singela homenagem ao Sr. Fernando Dias, uma referência para a juventude do meu tempo. Tiravam também um pequeno retrato a preto e branco ao Portugal de então, visto pela “minha máquina fotográfica” naturalmente).

Contudo, Alcoutim depois da morte de minha mãe transformou-se numa ferida difícil de cicatrizar e assim, fui protelando e evitando tocar-lhe. Manhas que aprendemos a usar para nos defendermos quando avançamos na idade! Mas ficou-me sempre um amargo de boca por este silêncio...

O convite do Sr. Nunes – que tanto tem dado do seu tempo à nossa terra – para participar neste espaço de história, estórias e cultura alcoutenejas, não poderia deixar-me indiferente e assim, aqui vai ao “meu jeito” mais uma estória para recordar um homem, que foi como que um “irmão mais velho” para a minha geração.)

Eram as horas mais longas do dia.

Das duas às seis da tarde Alcoutim parecia um forno naquele mês de Julho talvez de 1963 ou 1964, já não me lembro ao certo, pronto a cozer-nos em lume brando e longe dos ar condicionados que se calhar nem sabíamos que existiam. Mas por estranho que pareça, ainda conservo bem vivo o cheiro delicioso da terra e dos pastos secos àquelas horas do dia.

Alcoutim tem um cheiro próprio àquelas horas da tarde e não há Verão quando lá esteja, que não seja arrastado para um passeio ao campo impróprio para cardíacos. É quase uma atracção fatal!!!

Saídos há uns anitos da adolescência, tínhamos o dia inteiro por nossa conta e os limites do que fazíamos, era tudo aquilo que a nossa imaginação conseguisse conceber. O mês de Agosto estava completamente preenchido com os peditórios e a preparação das Festas entre outras coisas. E com que responsabilidade e profissionalismo executávamos a tarefa, palmilhando desde as 7 horas da manhã por montes e vales todos os lugares do Concelho, a maior parte das vezes com sacos de trigo às costas, pois que se a abundância não era muita naqueles tempos, o vil metal era um bem ainda mais escasso.

[Festas da Vila, 1973. Foto JV]

Mas em prol das Festas, cujos lucros revertiam para a compra de uma Ambulância para
o Hospital imagine-se, toda a gente dava generosamente o que podia e muitas vezes até o que não tinha.

Refugiávamo-nos naquelas horas mortas e sufocantes, no fresco agradável das grossas e altas paredes do Celeiro aonde trabalhava o António Antunes, o Antonico Guarda-Rio como era conhecido, aproveitando a folgazita que certamente o Sr. Leopoldo não deixaria de fazer. Era ali o Quartel General da Malta, onde se reunia o núcleo duro do grupo de que faziam parte o Zé Serafim, o Arnaldo, o Antonico, eu próprio e algumas vezes o Rosairinho e aonde tudo era planeado ao pormenor.


[O velho Celeiro há muito desactivado. Foto JV, 2010]

Patuscadas, roubo de galinhas com as vítimas criteriosamente seleccionadas, jogatanas de futebol, bailaricos em Alcoutim ou nos Montes, passeios com as espanholitas, etc., etc., etc..

É verdade que já tinha deixado de olhar para o mundo de uma forma maniqueísta. Na realidade a minha ida para Lisboa em 1957 com 11 anos, tinha começado a abrir-me a pestana e já olhava para ele de maneira diferente. Já não o via tanto como um conjunto de Bons e Maus mas pressentia que existia mais qualquer coisa.... A sorte de ter encontrado um núcleo de professores de elevada estatura, contribuiu e de que maneira para me alargar os horizontes para lá do cerro da Mina, dos quais destaco o poeta Gedeeão (Prof. Rómulo de Carvalho), o Padre Alberto (o tal da Capela do Rato) (*), o professor Calado e tantos outros pedagogos que ainda recordo com carinho, mais interessados em preparar-nos primeiro para a vida e só depois ensinar-nos a físico-química, a moral ou a matemática.

Por outro lado, saído ainda menino do tranquilo aconchego alcoutenejo, embarcava numa autêntica aventura no popular e movimentado Bairro de Campo de Ourique. As idas para a brincadeira com a garotada da minha idade na Rua Tomás da Anunciação, a mando do meu tio Vieira, à espera que o ardina chegasse apregoando o Jornal República, com o dinheirinho à justa na mão para sorrateiramente comprar o Jornal e dar à soleta que se faz tarde rua acima direito à Rua Ferreira Borges, para depois virar à esquerda e a uns bons 50 metros inverter a marcha e vir pela Rua de Campo de Ourique abaixo, passando quase pelo mesmo sítio de onde tinha partido, até quase à Rua Maria Pia aonde morávamos para despistar eu nem sei bem o quê, davam-me que pensar! Não sabia bem do que fugia mas lá que fugia, fugia e fugia bem! E as noites de vigia de janela em janela enquanto o meu tio ouvia a tal rádio “que não falava verdade” (!). Como eu abria os olhos caramba, para dar conta do recado e não frustrar a confiança do meu tio! Dizia-se que eram carros pretos com umas antenas enormes e homens macabros lá dentro, que sabiam tudo o que se passava em cada andar e assim era necessário dar o alerta logo que eles chegassem, para desligar o Rádio que era proibido ouvir, senão estava o caldo entornado... Como eles vendiam bem a sua imagem de infalibilidade (!).

Possivelmente andavam disfarçados mas a verdade é que nunca vi nenhum. Mas nestas andanças, sentia a mesma adrenalina do que quando ia com o meu pai aos pássaros com os meus cinco ou seis anos e ele me mandava às 4 ou 5 horas da manhã pelo Barranco dos Ladrões abaixo, para colocar folhas de jornal nas poças que encontrasse e assim obrigar a desgraçada da passarada ávida para beber, a matar a sede no pego aonde ele estava escondido. E lá ia eu barranco abaixo, vendo em cada moita de loendreiros um ladrão, pois afinal não estava eu no barranco que era deles? Mas apesar da tremedeira não recuava, pois um homem é um homem e não vira assim a cara à luta, ensinavam-me os adultos...

[Ribeira de Cadavais ou de S. Marcos, formada pela junção do barranco dos Ladrões com o do Alcoutenejo. Foto JV, 2010]

Mas voltemos ao Celeiro e àquelas tardes escaldantes daquele mês de Julho, que passavam tão devagar...

Era impossível aos 17 ou 18 anos estar parado à espera que o tempo passasse, para mergulhar mais tarde nas águas cálidas e límpidas do Guadiana, de aonde até matávamos a sede a um ou dois metros de profundidade. E o que é que o pessoal se havia de lembrar para passar o tempo? Nem mais nem menos do que fazer um Jornal de Parede com algumas caricaturas e umas criticazinhas ingénuas à vaidade de alguns ou algumas, vaidadezinhas inofensivas é certo, mas que farão sempre parte da natureza humana.

E que sucesso teve aquele primeiro “Jornal” Alcoutenejo!!! Já se juntava muita gente à espera da hora a que era afixado, na parede da antiga Sociedade, até ao dia em que fomos intimados pelo Cabo da GNR a apresentarmo-nos no Quartel. E lá fomos nós de rabinho encolhido entre as pernas, pois a autoridade naquele tempo metia medo. Lá vem o Sr. Cabo, o Sr Cabo Alberto se a memória não me falha, e bem nos esforçámos por explicar que aquilo não passava de uma brincadeira sem maldade para passarmos o tempo e que tudo acabaria ali, mas ele já de sentença afiada comunica-nos em tom grave, qualquer coisa do género: “por causa de uma queixa e da afixação de anúncios sem licença, estão multados em não sei quantos contos de réis ou se não pagarem, 2 ou 3 meses de ‘xelindró´. Ficámos aterrados e lá fomos cada um para sua casa convencer os velhotes para ver se abriam os cordões à bolsa, pois ninguém estava interessado em ir preso. Mas nada feito. Disseram todos qualquer coisa parecida com a canção muito em voga actualmente, “quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga... e vocês têm que aprender”! ...


[Fernando Dias]
Em desespero de causa lá fomos como sempre, conferenciar com o Sr. Fernando Dias. Não sabíamos bem porquê – estas coisas naquelas idades sentem-se -- mas quando estávamos em apuros era com ele que íamos falar. Tomei conhecimento à distância, que assumiu as suas responsabilidades no 25 de Abril e constou-se-me que teria sido maltratado quando os cravos já murchavam. Senti partir-se-me o coração...

Ele era como um irmão mais velho que nos compreendia, aconselhava e estava quase sempre do nosso lado. Lá lhe contámos a história e a perspectiva quase certa de irmos de cana nos próximos meses.

Pergunta-nos ele do alto dos seus quase dois metros, se é que não os tivesse mesmo, na sua voz inconfundível, metalizada, segura e bem timbrada: “Olha lá Amilcar, se vocês forem presos quem é que faz os peditórios e organiza as Festas para o mês que vem”? Isso agora é que nós não sabemos, Sr. Fernando, respondo-lhe eu. “Então vão ter com o Presidente, contem-lhe a história toda e digam-lhe que se vão deixar prender, porque os vossos pais não querem pagar as coimas”!

E lá vamos nós ter com o Sr. Presidente.

O Presidente da Câmara da altura era o Sr. Sargento Corvo, o homem que nos dizia: “vá lá rapazes que no fim das Festas o Presidente oferece uma caixinha de gambias (sic!) para beberem uma cervejas”. As gambas naquele tempo tinham em Espanha um valor equivalente ao tremoço em Portugal, pois lembro-me de irmos a Sanlúcar beber umas cervejas e trazerem-nos como tapas um prato de gambas à borla. Penso que vinham das Canárias ao preço da uva mijona. Mas verdade seja dita que foi o único Presidente que tinha a gentileza de apreciar e agradecer, o nosso esforço de quase 2 meses de trabalho intenso no pino do Verão!

E lá lhe contámos a nossa história e a perspectiva negra de vermos o sol aos quadradinhos nos próximos meses... Diz-nos ele de imediato, com a confiança na voz que só o poder dá: “mas vocês estão todos malucos ou quê? Vão-se lá embora que eu trato disso !!!”

Francamente não sei o que se passou depois, mas ainda hoje estou à espera que me venham buscar para cumprir a pena...

A minha primeira vez tinha sido um êxito e o Sr. Fernando Dias, tinha-me dado uma lição de Mestre para a vida! Mas ao mesmo tempo ficava-me um sabor amargo, por descobrir que a verdade e a razão dos homens afinal, era apenas uma questão de poder!

Não era bem esta ideia que eu fazia dos adultos...


(*) Que Padre tão Corajoso Meu Deus! Foi ele que no antigo Liceu Pedro Nunes, me deu a conhecer e a muitos outros nos princípios da década de sessenta, a música do Zeca Afonso, levando religiosamente o seu velho gravador para todas as aulas. Era um Padre que arrastava multidões. Falava dos ricos, falava dos pobres, falava da vida! Falava dos nossos problemas! E o que é que preocupa sobremaneira um garoto aos 13 ou 14 anos?

Naturalmente o que é novidade para ele ou então desconhecido... sexo! Pois em todas as suas aulas reservava um período de tempo para uma pequena aula de sexologia, há 50 anos atrás imagine-se!

Retenho a ideia que martelava continuadamente sobre as diferenças comportamentais entre rapazes e raparigas, tentando sempre educar e moderar os impulsos da rapaziada: as raparigas são muito sensíveis, procuram carinho, vocês só têm sexo na cabeça, isso não está bem, moderem-se, tentem compreender as suas emoções, os seus sentimentos, os seus interesses!

Nem os Champalimaulds, nem os Espiritos Santos e outros que tais resistiam em seguir-lhe a batina naquele tempo, o que é revelador de que até a alta finança já se distanciava dos estereótipos da educação do regime.

Apareceu assassinado a tiro em 1987 perto de Setúbal (Águas de Moura) quando vinha do Algarve, por razões que nunca foram publicamente esclarecidas.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Escadinhas da "Conceição"


Nem sempre a Câmara Escura apresenta fotografias antigas, como hoje acontece pois esta foi tirada há dias.

Não é por isso a antiguidade que motivou a publicação e muito menos a sua qualidade.

Uma das primeiras fotografias que publicámos nesta rubrica foi precisamente destas escadinhas sendo o motivo da sua publicação a circunstância de se encontrar completamente infestada de ervas daninhas que evitavam ou dificultavam a sua utilização. Hoje como se pode ver estão bem limpas e transitáveis.

O motivo da publicação está no restauro feito das seculares escadinhas, possivelmente proporcionando mais segurança mas completamente desfasado do original como se pode ver.

Este “restauro”, se a memória não me falha já tem uns bons anos mas ainda ninguém se lembrou da sua correcção que dava mais dignidade ao local.

Nas suas proximidades situava-se a Porta de Tavira e a muralha que cercava a Vila seguiria pelo local onde se encontra o poste de electricidade.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A canastra



Já referimos este objecto de uma maneira sucinta quando escrevemos neste espaço sobre a cestaria.

A sua confecção era praticada por grande número de alcoutenenses pois fazia parte da formação de um homem. Havia sempre na família quem as soubesse fazer para uso da casa.

Faziam-nas de cana e de tamanhos diferentes, conforme as suas necessidades, dependendo da utilização que lhe iriam dar. Tinham sempre duas asas.

Eram várias as utilizações, sendo algumas muito próprias.

Nelas se transportava a palha que se colocava nas manjedouras para alimento dos animais, nomeadamente as bestas.

Além da utilização para transporte, era usada para armazenamento. Era nelas que grande parte das famílias recolhia o figo seco, depois de devidamente tratado, tendo passado pelo forno e pelo escaldar. Aqui ficavam para o consumo anual da família que os utilizava muitas vezes como alimento quando saíam para os trabalhos de campo.

Noutra canastra eram armazenados os figos rejeitados e que se destinavam à alimentação dos animais.

Outra utilização muito praticada tratava-se da preparação da azeitona, que se salgava, destinada ao fabrico do azeite e que tinha lugar nas queijeiras que aqui já referimos.

Em canastras pequenas (como alternativa aos cestos e aos cortiços) preparavam as azeitonas mais gradas, principalmente as maçanilhas roxas que constituíam as chamadas “azeitonas de sal”, muito típicas desta região.

Enquanto a roupa “fina” era colocada na arca de castanho, a de trabalho guardava-se em canastras.

As mulheres utilizavam-nas para levar a roupa suja aos pegos dos barrancos próximo para procederem à lavagem, utilizando-a igualmente no regresso.

Foram estas, segundo a recolha feita, as principais utilizações da canastra.

Tudo isto faz parte de um passado recente pois estas actividades estão hoje praticamente abandonadas.

Hoje, poucos saberão fazer uma canastra!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A residência do Capitão-Mor


Os visitantes/leitores deste blogue, muitos deles assíduos e de que naturalmente desconheço o número, (só sei que as visitas já ultrapassaram as 11 mil) já terão lido algumas referências que aqui tenho feito e de diversos tipos, à chamada “Casa do Capitão-Mor”.

Também alguns dos colaboradores, nomeadamente Gaspar Santos e José Temudo o têm feito.

Encontro-me hoje (2010.02.07) num período de visita ao concelho. Nos pequenos espaços que tenho livres, ou por outra que procuro que sejam livres, desloquei-me à Vila para efectuar uma sessão de fotografias, sem qualquer intuito técnico e mesmo algumas com nível muito baixo, como naturalmente reconhecemos.

As fotos destinam-se além de uma satisfação pessoal, a ter hipóteses de documentar os “escritos” que eu e os colaboradores vamos publicando no ALCOUTIM LIVRE.

Neste dia que dedicámos à vila e sem o procurar, acabámos por “disparar” a máquina para aquilo que além de não nos admirar, poderá ser admiração para muita gente mal informada.

A fotografia que apresentamos do telhado da “Casa do Capitão-Mor” é por demais elucidativa e que nos leva a prever que dentro em breve abaterá!

Este edifício e para quem conhece, tem grande significado para a história local, ainda que tenha sofrido pelo menos nos último 50 anos reparações não ajustadas às suas raízes.

A primeira que lhe conhecemos, já propriedade municipal, foi quando devido a incúria ruiu a cimalha, o que levou à transferência provisória das instalações da Repartição de Finanças e tesouraria de Fazenda Pública, para o edifício dos Paços do Concelho. Tanto a cimalha do beiral do telhado como a da moldura das janelas de sacada foram no restauro, obliteradas.

A quando da restauração das instalações das mesmas repartições, depois do 25 de Abril, houve novamente desajustamentos e creio que por inteiro desconhecimento pois pensava-se que se estava a realizar o melhor possível!

Com a extinção da Guarda Fiscal as instalações ocupadas por esta força militarizada e pertencentes ao Ministério das Finanças foram adaptadas para a instalação da Repartição de Finanças e Tesouraria da Fazenda Pública.

O prédio conhecido por Casa do Capitão-Mor ficou só ocupado pelo Posto da GNR., ficando o restante devoluto.


Depois de alguns anos perguntei politicamente a quem de direito qual o destino daquele espaço histórico de Alcoutim, tendo-me sido afirmado que iria ser adaptado aos serviços técnicos camarários.

Não tenho aqui elementos concretos mas isto tenho a certeza que se passou há mais de 10 anos! O que vi foi no rés-do-chão meterem-se embarcações desportivas conhecidas por canoas! A degradação é notória.

Existe efectivamente o abandono do edifício com a agravante do telhado estar a cair. Até as pináculas de madeira que embelezavam os vértices superiores das grades de ferro forjado, há muito desapareceram.

Eu sei que naturalmente o dinheiro não é elástico e não chega para tudo e existem outras prioridades, mas para nós deixar desaparecer este edifício emblemático da Vila, ou desvirtuá-lo, é um “crime” de lesa-património.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Primo Antunes, uma Figura de Alcoutim

Pequena nota
Gostei da lembrança do nosso colaborador Gaspar Santos de recordar Primo Antunes como figura alcouteneja ainda que não tivesse nascido em Alcoutim.

Conheci-o relativamente bem, mas não como o nosso Amigo e Colaborador pelo que não seria capaz de o retratar com esta profundidade.

A actividade de “solicitador” referida no texto deu origem ao nosso contacto e sempre em sentido positivo pela eficiência e honestidade que sempre demonstrou.
Estas pequenas notas biográficas sobre figuras que marcaram o passado alcoutenense têm, segundo a nossa opinião, plena justificação.

Venham mais.

JV







Escreve
Gaspar Santos



Primo Antunes era Guarda-Rios. Era seu amigo e privei de muito perto com ele mas nunca percebi muito bem quais eram as suas tarefas oficiais. Ele fazia muito do seu escritório no Celeiro (quando os humores do Senhor Leopoldo lho consentiam). Ali privámos bastante pois era onde eu trabalhava. Ali escrevia à máquina o seu expediente e os trabalhos de uma espécie de “solicitador” que ele exercia nas suas horas vagas, que eram quase todas. Ajudava a esclarecer muitos assuntos que muita população analfabeta do concelho necessitava. Fazia relações de bens para as habilitações de herdeiros. E todo o tipo de requerimentos de que as pessoas precisavam. Tinha para isso um grosso arquivo de “modelos”. Vim encontrar em Lisboa, nas escadas de acesso ou na própria sala de espera dos Cartórios Notariais, umas figuras semelhantes que elucidavam quem não sabia e serviam de testemunhas em todos os actos notariais.

[Rua D. Sancho II, na Vila de Alcoutim e onde sempre viveu Primo Antunes]

Também cobrava as avenças para o Dr. João Francisco Dias. Avença era uma contribuição para uma espécie de “Serviço Local de Saúde” que o Dr. Dias tinha criado no início dos anos 30 quando veio para Alcoutim. Assim os doentes acediam aos seus serviços gratuitamente. Pagavam quando não estavam doentes, salvo erro vinte escudos por ano por cada família. Uma avença que o Dr. Dias respeitou, penso que, até ao fim da sua vida, o que equivalia a trabalhar gratuitamente para quase toda a população do concelho.

[A casa de azul foi a 1ª que a família Antunes habtou]
Foi na mão do Primo Antunes que cerca do ano de 1948 vi pela primeira vez uma esferográfica. Ele só a utilizava em usos muitos restritos, dado que as entidades públicas não o autorizavam nos documentos oficiais, receosas de que esta tinta desaparecesse com o decorrer do tempo.

Este homem era natural do Azinhal concelho de Castro Marim. Tinha formação musical teórica, o que era muito raro encontrar em Alcoutim, mesmo em pessoas que tocavam instrumentos. Ainda tentou dar-me alguma formação musical para execução em bandolim. Fez-me algum jeito como cultura geral tê-lo ouvido falar de claves, de notas breves, semi-breves, colcheias e semi-colcheias. Mas como executante nunca consegui distinguir um sol dum mi.

Era jovem quando veio para Alcoutim e deu o seu contributo ao Clube Recreativo, primeiro como rijo futebolista e, mais tarde, segundo diz o Amílcar Felício deu colaboração na pequena biblioteca.

Tive oportunidade de ver dois dos seus símbolos de autoridade como guarda-rios, que poucos em Alcoutim terão visto. O crachá que ele devia usar sempre no chapéu e não usava. A espingarda (semelhante a um canhangulo) com umas balas muito toscas de chumbo, que ele poderia usar quando em trabalho de campo. Em vez de trazer o crachá no chapéu, ele o trazia sempre no bolso, seguro a um elástico preto. E se acontecia aparecer um chefe, ele rapidamente o tirava do bolso e o colocava no chapéu para se apresentar. Era um funcionário público, guarda ao serviço da Direcção Hidráulica do Guadiana. E teria a incumbência de fiscalizar a pesca ilegal e as respectivas licenças para águas interiores (Ribeiras) e a limpeza do mato e outros obstáculos nos barrancos tais como a construção de muros. Penso que, mesmo à distância, sem muito se dedicar a visitas ao terreno, ele cumpria.

[Casa que habitava Primo Antunes quando se reformou]
Em vencimento e dignidade era equivalente a cantoneiro da Junta Autónoma das Estradas. Os cantoneiros tinham porém um certo grau de ciúmes pois os seus esforços e utilidade visível eram muito distintos.

Sendo um trabalho que pouco o ocupava, dividia esse tempo fazendo escritório nos mais variados sítios: celeiro, repartições públicas e até… nas tabernas. Por fim veio a ter um escritório no largo da “Aparada”. O tipo de trabalhos que por vezes executava, de um simples requerimento para pessoa amiga a quem nada cobrava. Morava na parte alta da Vila na Rua D. Sancho II, tendo mantido sempre um relacionamento pouco amistoso com a proprietária do prédio, pelo que depositava as rendas à ordem do Juiz da Comarca. Era uma prática que eu nesse tempo desconhecia.

Quando se reformou foi viver para o Azinhal no concelho de Castro Marim onde veio a falecer. Fica assim a lembrança desta figura de que gostávamos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A importância da árvore na herança alcouteneja

Já tenho referido em vários textos este assunto mas nunca o fiz numa análise individual.

Quando cheguei a Alcoutim e me apercebi que existiam árvores, nomeadamente oliveiras, de duas ou mais pessoas, fiquei embasbacado. Depois e perante a minha admiração foi-me dito que existiam árvores em terrenos de outras pessoas, o que reforçou a minha admiração já que não conhecia nada semelhante.

Naturalmente que isto não aparece por aparecer, tem forçosamente que ter uma explicação.

Numa explicação simples e procurando um exemplo elucidativo, admitindo que ficaram por herança duas propriedades rústicas de terreno e áreas semelhantes, dava-se a circunstância que uma delas possuía três oliveiras. Supondo dois herdeiros, aquele que ficaria com o terreno que não tinha oliveiras nem qualquer outra árvore, caber-lhe ficar com uma e o outro com duas pois era a sua terra que as alimentava e além disso ficava mais devassada.



Poder-se-á perguntar porque não haveria tornas a quem ficasse mais beneficiado? Existem, segundo o nosso ver, duas razões para o facto: 1ª - as árvores eram escassas nesta região e o seu fruto indispensável para a subsistência directa no caso da oliveira e indirecta por exemplo quando se tratava de azinheiras cujo fruto se tornava importante para a alimentação dos animais domésticos, nomeadamente do porco. A carne de porco e o azeite, a que se juntava o “pão” (trigo) eram o sustentáculo deste povo; 2ª – o papel moeda era escasso e ainda no primeiro quartel do século passado, a troca frequente, trocando-se trigo por louça de barro, ovos por sardinhas ou petróleo, por exemplo. O pouco dinheiro existente tinha destinos obrigatórios como acontecia com as décimas (contribuição predial).

Que seja do meu conhecimento, as árvores utilizadas nas situações que apresentámos, eram a oliveira, azinheira e o sobreiro. Não tenho conhecimento de mais nenhuma.

Estas situações passavam de pais para filhos, desconhecendo muitas vezes os proprietários as suas origens.

Tenho conhecimento de oliveiras pertencerem a três e mais pessoas!



Conheci um caso em que um apreciável número de azinheiras que se situavam nos arredores da Ribeira de Cadavais, para os lados da Corte Tabelião, davam origem a cinco quinhões, quase todos já divididos.

Havia um acordo entre as cinco partes iniciais, que tinha origem em tempos que ninguém conhecia e em que havia um único dia para a sua apanha, o dia de Todos-os-Santos. Cada quinhão fazia-se representar por um determinado número de pessoas e se alguém faltasse nesse dia da apanha, perdia o direito ao fruto.

Os homens velhos faziam os montões dos cinco quinhões, se todos estivessem representados e depois, cada quinhão era dividido nas partes que o constituíam, devido às heranças que o decorrer dos anos tinham originado.

Diz-nos a nossa informadora que se juntavam vinte ou trinta pessoas e que ela fez muitas vezes este trabalho. Algumas das pessoas não se conheciam como família, vindo algumas de montes relativamente distantes.

Ainda hoje a nossa informadora, já octogenária, desconhece de quem era a terra onde se encontravam as azinheiras.

Faltará dizer que, ainda que pareça impossível, estavam inscritas na matriz predial rústica algumas árvores nestas circunstâncias.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O vinho "caseiro"

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 31 DE MARÇO DE 1994-MAGAZINE)

O concelho de Alcoutim é um dos mais pobres do país.

É aqui, em plena serra algarvia que se encontrava o mais baixo rendimento agrícola nacional: apenas quinhentos escudos por hectare, isto em relação a 1970, quando a amêndoa ainda se vendia menos mal (1), se semeava algum trigo e havia mais braços de trabalho.

Habituado à paisagem vinhateira, quando ali chegámos, sentimos a sua falta. “Vai daí”, perguntei se pelo concelho não havia vinhas, se não se fabricava vinho.

As informações e explicações dadas sobre o assunto deixaram-nos embasbacados, já que nada tinham a ver com aquilo que conhecíamos. Ficava tudo para trás do nosso horizonte!

O que então encontrámos, e já lá vão quase trinta anos, mantém-se hoje com algumas pequenas diferenças.

As pequenas vinhas existentes situavam-se nas várzeas do Guadiana, principalmente nas zonas de Premedeiros, Lourinhã, Vale de Condes e Vinagre. Eram “feitas” por mergulhia ou “atanchando” (2) varas. A reprodução fazia-se assim “directamente” e não por enxertia do bravo.

Distante das margens do rio, junto dos barrancos, onde os terrenos são mais profundos e frescos, existiam os parrões .

A vara enraizando com mais facilidade, trepava pelos loendreiros com o auxílio das gavinhas, deixando livre o terreno que se aproveitava para qualquer mimo hortícola, já que, muitas vezes, existia perto pequeno poço do qual se extraía, quando necessário, caldeiras de água para pequenas regas.

A cava e a pode constituíam o tratamento dispensado.

Quando me disseram que não se fazia a “cura”, não queria acreditar. Adquiri um pulverizador para o fazer e ofereci os meus préstimos que de uma maneira geral foram rejeitados – acreditavam que aquele líquido é que iria fazer mal às parreiras!

Hoje, a maioria já não pensa assim, pelo que a cura se faz. Há pouco me contou um amigo que quando jovem abandonou o seu “monte” indo procurar uma vida melhor, fixou-se no concelho de Palmela, grande produtor de vinho. Quando dizia que na sua terra as parreiras não eram tratadas, quem o ouvia tinha dificuldade em compreender, concluindo sempre que assim, não davam uvas.

Segundo me constou, já há quem se dedique à cultura de uva de mesa, utilizando técnicas modernas.

Já me foi dado ver, apesar do longo afastamento, pequenas vinhas “aramadas” em Santa Marta, Diogo Dias e Fonte Zambujo do Meio.

Além das doenças próprias, o alcoutenejo considera as vespas as grandes destruidoras das uvas e para o evitar, quando os cachos eram poucos, muitas vezes optava por embolsá-los, isso é, colocá-los dentro de uma parte de meia velha que de certa maneira os protegia. Até agora e em qualquer outra parte do País, nunca vi tal!



Além das “assarias”, entre outras castas tenho ouvido referir “tintilho” (sugere-me influência espanhola), “olho-de-perdiz” e “olho de lebre”.

Depois deste pequeno apontamento, em que guardámos o fabrico do vinho para um pouco mais adiante, por motivos que então se compreenderão, e em que rebuscámos a nossa memória, iremos explanar o que compilámos com algum sentido histórico, um dos apanágios pretendidos nos meus escritos.

No século XVI existem referências a variadíssimas vinhas.

Sabe-se que Lourenço Martins Orraco traz uma vinha no Pontal de que paga cada ano dez reais, António Dias, outra no mesmo local, pagando dezasseis reais, Nicolau Estevens Queimado paga, de foro pela vinha de Premedeiros, quarenta reais, outra vinha na Várzea do Moinho, explorada por André Pires e João Afonso Vilão trata de outra na Cova de Santa Maria.

Mais outras podíamos indicar na Lourinhã e nos Carreiros, Era tudo propriedade da Capela de Nª Sª da Conceição.

O vigário de São Salvador de Alcoutim tinha de mantimento, entre outros, vinte e sete almudes de vinho. (3)

Frei João de S. José (4), e também com referência ao mesmo século, faz-nos descrições e fornece-nos informações importantes sobre as vinhas e o vinho do “Reino do Algarve”.

Não vamos aqui transcrever o que o erudito frade escreveu sobre o assunto mas transmitir as ideias e uma ou outra leve transcrição para assim podermos ser mais concretos.

Diz o frade que a vinha neste “Reino” difere da de Portugal por se não cavar nem empar. Como castas importantes refere as mouriscas, de que se faz vinho e as chamadas assarias, destinadas a passas.

As uvas que se destinavam a vinho, eram postas a secar, ao sol, durante doze a treze dias. Parece que este uso teve origem nos romanos.

Quanto ao fabrico do vinho, vamos transcrever o que para o efeito considerarmos mais importante: “É pois o caso que todos os Algaravios, para fazer o seu azeite e vinho, já têm em suas casas um ou dous lagares de pau, feitos de duas ou três tábuas grossas, pesadas, muito juntas sobre ua s travessas com suas bordaduras ou torno, as quais assim juntas fazem cinco, seis palmos em largo e oito, nove em comprido, à maneira de tabuleiro, e a isto chamam eles lagar. Tem ua bica no meio duma das cabeceiras e asentam-no sobre dous banquinhos pêra isto feitos, quando se querem servir dele; e, acabado o seu ofício, encostam-no a ua parede té que o tornam a haver mister”.



“É tão fácil e maneiro este engenho que o carregam sobre qualquer besta e o levam de um cabo pêra o outro com pouco trabalho e serve de lagar de azeite e também de vinho, como o alimparem primeiro”.

“A maneira de fazer o vinho é a mesma que do azeite, de maneira que não há mais ciência nisto que meter as uvas na saca, como fica dito da azeitona e, no próprio lagar bem lavado, pisá-las muito bem e dar-lhe o arrocho té três vezes e sai o vinho limo…” (5)

O que acabámos de transcrever e que foi publicado em 1577, tem muita aplicação ainda nos dias de hoje. O alcoutinense continua a fazer o seu vinho num lagar de pau, só com a diferença do tampo constituir uma peça única e em lugar dos bancos para suporte, usam-se três pés implantados, A estes lagares de pau, chama o homem da serra queijeiras. Quando tal me disseram, pareceu-me justificar o nome como engenho onde se faziam queijos, o que, contra a nossa expectativa, não nos foi confirmado. Se alguma vez teria sido, diziam os meus informadores, ninguém se lembra dos queijos serem feitos ali; aquilo só se destinava ao azeite (o que já não acontece) e ao vinho, que ainda continua.

Após desenhar as queijeiras que acompanham para documentar este escrito e já com um segundo sentido, perguntei a um amigo, natural do distrito de Portalegre, se conhecia aqueles engenhos o que facilmente confirmou, ainda que presentemente sejam raros. Ali, no Alto-Alentejo, aqueles objectos destinavam-se ao fabrico de queijo, aliás, como o nome indica.

Parece-nos que o “lagar de pau” do litoral, e por haver muito menos produção de uva na serra, seria substituído, devido a análogos existente, pela queijeira que nessa altura serviria para fazer queijos.

Perdeu o uso, ficou o nome. No Alentejo permaneceram as duas coisas.

Conheci quem juntava ao mosto, alfarroba, o que dava ao vinho um paladar agradável e uma cor característica. O hábito de juntar frutos ao vinho virá pelo menos do tempo dos árabes.

Silva Lopes, que realizou grande trabalho monográfico sobre o Algarve, considera que as várzeas de Alcoutim são férteis e abundantes em vinhas, além de outras culturas. Afirma ainda que o primeiro trabalho que se lhe faz, é a cava junto à cepa, antes de lhe cair a parra, seguindo-se a poda, em Janeiro, voltando a cavar-se em Abril ou Maio, mas não se empam. A vindima é feita em princípios de Setembro.

As vinhas ficaram bastante estragadas e muitas deixaram de ser vindimadas em 1833 e podadas em 1834 devido à guerra civil. (6)

Em 1867 chega ao nosso país a doença da filoxera, oriunda dos Estados Unidos. Devastou as nossas vinhas principalmente na região do vinho do Porto. (7)

A filoxera era um insecto muito pequeno, do grupo dos afídios.

Em 1874 o presidente da Câmara recebe um mapa para preencher com o fim de se conhecer o estado das vinhas no concelho e da sua produção. Por ser muito técnico o seu preenchimento, não se atreve a fazê-lo, enviando contudo nota designando os sítios e milheiros de cepas em cada localidade e a sua produção em almudes. Que pena não termos conhecimento desses números e dos locais. Acrescenta ainda que a uva, sendo muito boa para comer, não o é para mosto e por isso se vende para consumo do concelho e para os portos de Vila Real e Pomarão. (8)

Em 1880 e em resposta ao Agrónomo do Distrito de Faro, o Administrador do Concelho, Manuel José da Trindade e Lima, informa que nas vinhas próximas da vila (nomeadamente uma das melhores que possui) apareceram primeiramente muitas cepas afectadas da moléstia conhecida pelo nome de “cinzeiro” (9) e mais tarde, muito antes dos calores, secaram-se todas as “espigas”, morrendo totalmente algumas cepas e ficando muitas outras sem parras. As cepas mais afectadas são as de uva branca.

Continua a informar que no dia seguinte tenciona mandar arrancar algumas cepas e observá-las minuciosamente, para ver se encontra nas raízes ao “galhos ou verrugas” que me são indicados. (10)

Efectivamente, oito dias depois, o Administrador informa que tendo examinado minuciosamente as raízes de algumas cepas, não foi possível descobrir a filoxera nem outro qualquer insecto. Posso contudo dizer com convicção que me dá a experiência de muitos anos, e continua o Administrador, que o mal aparecido este ano em muitas vinhas deste concelho e a forma horrível como foram atacadas e os estragos que nela produziu, nunca eu nem muita gente aqui viu, conclui o administrador. (11)

No final do ano comunica-se que o concelho produziu 5 250 litros de vinho, isto porque a inundação de 1876 arrancou e fez desaparecer completamente todas as vinhas que existiam na margem do Guadiana, seu local de maior implantação. (12)

Dois anos depois é constituída a Comissão Concelhia Antifiloxera, composta por sete elementos e chefiada pelo presidente da Câmara, Manuel António Torres. (13)

Em 1883 volta a informar-se que é pouca a importância vitícola do concelho, sendo a sua produção consumida em “verde”. A Comissão de Vigilância ainda não tem pesquisador habilitado para a inspecção da filoxera, nem ainda se resolveu preparar indivíduo algum para esse serviço. (14)



Na Sessão da Câmara de 5 de Julho de 1884 é deliberado convidar um indivíduo para se deslocar a Santarém a fim de estudar ou habilitar-se a conhecer a moléstia das vinhas conhecida por filoxera.

Em 1889 continua a informar-se que não se tem descoberto, por enquanto, neste concelho, o mal da filoxera, o que tem predominado com muita intensidade é o oídio que bem tem prejudicado as vinhas. Pedia o Administrador do Concelho que lhe fosse indicada a melhor5 forma de o atacar. (15)

Não tem havido plantação de vinhas e a uva produzida nos poucos bocados que há, é consumida em verde. Segundo os cálculos, importa o concelho 45 728 litros por ano. Igualmente se informa que não se fabrica aguardente no concelho. (16)

Sabe-se contudo que António Joaquim Pinto fabricava essa bebida na vila, em 1843, onde existiam oito casas públicas que a vendiam. (17)

Acabámos de referir o que conseguimos obter em trabalhos publicados e por pesquisa própria, oral e escrita, sobre a vinho caseiro, como os alcoutenejos e todos os homens da serra algarvia chamam ao pouco vinho que fabricam. Não me consta que alguma vez tivessem avaliado o seu teor alcoólico.

Na primeira metade deste século, um conhecido comerciante da praça de Mértola deslocava-se frequentemente na época de caça à parte norte da freguesia de Alcoutim. Parece que o principal motivo não era a caça mas sim o “caseiro” que muito apreciava, produzido pelo Ti Virgolino, de Afonso Vicente.

Pensamos que se houvesse um estudo adequado, os terrenos xistentos da serra algarvia podiam produzir um vinho generoso de qualidade apreciável.

NOTAS

(1) “As Serranias de Alcoutim, a mais deprimida zona portuguesa”, Roby Amorim, em O Século, de 22 de Julho de 1975.
(2) Vide Dicionário do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, 1988.
(3) Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, 1987.
(4) “Duas Descrições do Algarve do Século XVI”, Sá da Costa, Editora, Cadernos, Revista de História Económica e Social – 3, Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, 1983.
(5) Idem. Ibidem.
(6) Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, João Baptista da Silva Lopes, 1841.
(7) História de Portugal, Vol. IX, Joaquim Veríssimo Serrão, pág. 264.
(8) Ofício nº 108 do Administrador do Concelho de Alcoutim, de 13 de Novembro de 1874.
(9) Doença provocada por certos fungos, oídios.
(10) Ofício nº 57 de 16 de Julho de 1880, dirigido ao Agrónomo do Distrito de Faro.
(11) Ofício nº 63, de 24 de Julho de 1880, dirigido ao Agrónomo do Distrito de Faro.
(12) Ofício nº 161, de 3 de Dezembro de 1880, dirigido ao Governador Civil de Faro.
(13) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim, de 9 de Novembro de 1882.
(14) Ofício nº 18 de 20 de Janeiro de 1883 ao Presidente da omissão Central de Antifiloxera do Sul, dirigido pelo Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim.
(15) Ofício nº 19 de 28 de Janeiro de 1889 ao Agrónomo da 9ª Região – Lobular.
(16) Ofício nº 160 de 29 de Agosto de 1889 do Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim.
(17) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim, de 22 de Dezembro de 1843.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Prato "grande"


Não encontrámos localmente um nome próprio e específico para esta peça de louça que foi muito usada no concelho de Alcoutim onde era considerada importante.

Constituía com as pelenganas, tigelas , caçoilas e alguns pratos soltos as peças de louça existentes numa casa alcoutenense de nível médio.

Era uma peça usada principalmente em dias festivos, nomeadamente em casamentos desempenhando as funções destinadas às travessas que por aqui não existiam e só vieram a aparecer muito mais tarde.

Era hábito nestas alturas e para suprir as necessidades pedirem-se a familiares e vizinhos. Eram neles que se colocava o carneiro guisado com batatas, prato muito característico destes eventos.

Nem todas as casas possuíam esta peça.

O prato apresentado é da Fábrica Sacavém, tem 40 cm de diâmetro e presumo que seja centenário.

Na minha região de origem estes pratos eram conhecidos como “pratos de arroz”.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Um roubo perfeito no Guadiana

Pequena nota
Depois da assídua colaboração deste alcoutenejo Amigo, que os nossos visitantes/leitores bem conhecem pelo estilo e conteúdo das suas abordagens, pouco temos a dizer.
Confesso que desconhecia totalmente esta história curiosa que acaba por enriquecer o meu conhecimento local.
J.V.






Escreve

Gaspar Santos


Estávamos no início do Século XX. O transporte de pessoas e mercadorias entre Vila Real Sto António e toda a zona ribeirinha no Baixo Guadiana fazia-se por barcos à vela que sulcavam o rio.



Os barcos maiores, com vela latina grande, daquelas cuja “escota” faz muita força, precisam de cadernal de roldanas com dois ou três quilogramas de peso para o mestre a manobrar em segurança.

Um destes barcos subia o Guadiana “bordejando” ou bolinando, por alturas do Álamo, com forte vento que soprava do Norte. No fim dum bordo, ao virar a proa ao Norte, antes de a vela “cambar” no início de novo “bordo”, a vela varejou e a roldana atingiu violentamente um passageiro na cabeça.



Este homem, sentado imprevidentemente na borda do barco, caiu pela borda fora e ninguém mais o viu. Ele talvez soubesse nadar, mas a carga que trazia nos sacos de couro presos à cintura, com a roupa e calçado vestidos e ainda atordoado pela pancada do cadernal na cabeça, não lhe deram possibilidades de salvação.

O homem que morreu afogado era um pagador da Mina de S. Domingos. Deslocava-se periodicamente às minas para pagar aos trabalhadores. Os trabalhadores recebiam em moedas de ouro. Para as transportar de forma segura, o pagador levava à cintura uns sacos de couro cheios dessas moedas, de que nunca se separava.

Após as infrutíferas tentativas de salvamento, as buscas continuaram a expensas da Administração das Minas de S. Domingos, para além da Guarda-fiscal e das Autoridades Judiciais. Só passados vários dias o corpo foi encontrado.



O cadáver jazia nas lamas que ficam a descoberto na baixa-mar, na margem espanhola junto à foz do barranco, quase em frente do Álamo na curva à vista dos Guerreiros do Rio. Os sacos com ouro tinham sido cortados da cintura do cadáver e desaparecido. E havia pegadas na lama desde a margem do Rio até junto do morto.

Muitos anos passados após este acontecimento, contava o meu avô, não se deu por sinais exteriores de riqueza que denunciassem alguém pelo seu proveito e consequentemente pela autoria do roubo do ouro.

Por isso dizemos hoje que nessa altura se deu um roubo perfeito no Guadiana.