quarta-feira, 11 de agosto de 2010

D. Bárbara de Lara, 2ª Condessa de Castanheira

Pequena nota
Temos vindo a publicar nesta rubrica pequenas notas biográficas sobre descendentes dos Condes de Alcoutim que vamos compilando na bibliografia disponível.
Pensamos que isto ajudará a perceber, quando se visita a vila, a existência da designada Casa dos Condes, agora tão badalada e bem, mas que quando chegámos a Alcoutim, praticamente ninguém na terra sabia da sua existência.

JV

[Convento da Castanheira]

D. Bárbara de Lara era filha de P. Pedro de Meneses, 2º Conde de Alcoutim e da Condessa D. Brites de Lara a quem foi buscar o nome de família.

Foi irmã do 3º Conde de Alcoutim, D. Miguel de Meneses e igualmente do 4º, D. Manuel de Meneses que sucedeu ao irmão visto ter morrido sem geração.

Enquanto sua irmã mais velha, D. Juliana de Lara veio a ser 1ª Duquesa de Aveiro, pois casou com o 1º Duque, D. Bárbara foi destinada a D. António de Ataíde, já viúvo e 2º Conde de Castanheira, Senhor de Povos e Cheleiros e outras possessões, Alcaide-Mor de Colares e Comendador de Longroiva, na Ordem de Cristo.

O casamento devia-se ter realizado por volta de 1555, tendo o irmão, D. Miguel de Meneses, 3º Conde de Alcoutim e 2º Marquês de Vila Real vendido a D. António certos bens para pagamento do dote que prometera.

D. António de Ataíde notabilizou-se nas letras e nas armas, como era timbre da gente da sua estirpe.

Veio a falecer em 20 de Janeiro de 1603.

Do casamento nasceram pelo menos seis filhos, três do sexo masculino e três do feminino. Estas tiveram como destino o Convento da Castanheira, de freiras franciscanas, que tinha por invocação Nª Sª da Subserra, hoje desaparecido e onde professaram.
Na igreja do Convento de Santo António dos frades capuchos, vulgo Convento de Farrobo foi sepultado o 1º Conde de Castanheira.

O primogénito, D. Manuel de Ataíde sucedeu a seu pai, sendo o 3º do título, enquanto o secundogénito, D. António de Ataíde, casando com D. Ana de Lima, veio a ser o 1º Conde de Castro Daire.

Quanto ao terceiro, D. Jorge de Ataíde, governou Ceuta em substituição de seu tio, D. Manuel de Meneses e acabou por perecer na batalha de Alcácer Quibir, em 4 de Agosto de 1578.

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Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, 2ª Edição, III Vol.Coimbra, 1921.

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História,Vol.II, 2007.

Boletim da Junta de Província do Ribatejo, 1937/40.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Engorda do "sovão"



A Câmara Escura de hoje não é muito velha no tempo, terá cerca de vinte anos.
Em relação a esta foto podemos fazer várias observações, dependendo do olhar de cada um.

O cevão, localmente “sovão” parece estar pronto para o matador lhe espetar a faca e está, como é seu dever, procurando a comida.

O 2º olhar vai para o espaço onde pode andar, ainda que seja bastante amplo para o que normalmente acontece, andar por ali, mesmo para porco e com aquela gordura, não será fácil nem convidativo.

A 3ª observação vai para o aproveitamento do espaço que se tem disponível e a sua utilização é efectivamente a mais adequada e sem dispêndio de verbas avultadas, o que de contrário seria impraticável.

Podemos observar a tonalidade amarelada no cimo das paredes e que a criação dos líquenes proporcionou.

Os típicos muros de pedra, penso que de pedra solta, ainda se podiam observar, não esquecendo o branco da cal nas paredes de fachada. A telha de canudo ainda aparecia, quem sabe se alguma veio a ser vendida para as construções do litoral algarvio.

O verde da vegetação quase passa despercebido e o sinal dos nossos dias é representado pelo poste de electricidade.

Restará dizer que a foto foi tirado por nós nas Cortes Pereiras (Monte Longo) e que possivelmente já não se engordam “sovões” em tal “monte”.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Os Paços do Concelho - Os actuais funcionam há 110 anos

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE -Magazine - de 24 DE FEVEREIRO DE 1994)

[Os Paços do Concelho num desenho de José Varzeano]

A história local faz-se de pequenos nadas que no seu conjunto e a que se pode juntar um ou outro facto de âmbito nacional, quando os há, dão a caracterização de uma terra e da zona que domina.

Se conhecer os seus monumentos, como castelos, igrejas e palácios… tem interesse, não o tem menos, por exemplo, conhecer o seu tecido habitacional, sua disposição e orientação, tipo e materiais de construção e o mais que o define.

Dentro desta perspectiva, é-nos possível hoje escrever alguma coisa sobre os Paços do Concelho.

Como é sabido, os paços de concelho são edifícios municipais para reunião da vereação e onde se encontram instalados os serviços administrativos.

São quase sempre edifícios que se destacam entre os demais por alguma imponência e volumetria, situando-se de uma maneira geral no centro das povoações e no largo ou praça principal. Na maioria das terras, principalmente nas mais pequenas, não é necessário perguntar onde é a Câmara Municipal, logo se depara na praça principal, algumas toponimicamente designadas por Largo do Município, e muitas por Largo ou Praça da República.

[A desaparecida cadeia. Foto JV.]
Supõe-se que em Alcoutim a sede do poder local tivesse funcionado onde depois foi a já desaparecida cadeia. Quando recentemente falámos dela, indicámos alguns argumentos nesse sentido.

Sabe-se que em 1823 a cheia do Guadiana que se registou principalmente entre 31 de Janeiro e 4 de Fevereiro, “… derrubou a maior parte das habitações, nelas incluindo o edifício da Câmara”. (1)

Este prédio, como é natural, igualmente se situava na praça principal, mais precisamente no local em que é hoje um parque de estacionamento automóvel e o edifício da antiga escola do ensino primário.

Segundo o que nos revela o senhor Dr. Vilhena Mesquita (2), o orçamento apresentado por dois mestres pedreiros, obrigava a Edilidade a despender as receitas do Terreiro do Trigo e ainda a pedir um reforço de verba da ordem dos 500$000 réis. As obras e segundo ainda aquele douto investigador, foram efectuadas.

[Local onde se situaram os Paços do Concelho anteriores aos actuais, desactivados]

Aí, continuaram os Paços do Concelho e em 1860 (3) o presidente da Câmara de então, Augusto Carlos Pinto, ao abrir a sessão deu conta que a estreiteza e acanhamento do espaço que ocupão os Paços do Município os tornam insuficientes para o fim a que são destinados e que a Câmara é obrigada a fornecer casa para as audiências judiciais. Casa para a Administração do Concelho, e agora também para a Repartição de Fazenda, que pelo respectivo escrivão lhe foram já requisitadas.
He de todos sabido que não há casas que possam destinar-se para tais fins e mesmo se as houvesse a Câmara teria de pagar aluguel acima de trinta mil réis anuais. Sabe a Câmara (e continua o Presidente) que a Herdade dos Coitos, propriedade do município, está rendendo anualmente 40$000 réis, quando o seu valor intrínseco ascende seguramente a 1.800$000 réis. Ora se esta propriedade fosse vendida teria a Câmara 1.000$000 réis para fazer um prédio com as acomodações necessárias par as repartições públicas no Largo da Praça Nova e lhe ficavam ainda 800$000 réis que empregados em inscrições de juro de 3% ao ano poderiam arranjar para o Município hum rendimento superior ao que actualmente recebe da dita Herdade ficando-lhe além disso a mais os actuais Paços do Concelho que poderiam alugar-se.

Posto isto, esperava o Edil que a Câmara e o Administrador se decidissem se é ou não conveniente a referida venda e em caso afirmativo devia-se solicitar logo ao “Governo de Sua Magestade” a necessária autorização.

Posta em discussão a proposta e sendo evidente a necessidade de construir um prédio suficientemente espaçoso para albergar as repartições públicas e que a Câmara tem obrigação legal de o fazer e calculando-se que o produto da venda da herdade daria para o prédio, sobrando ainda quantia bastante que, utilizada em “Inscrições de Dívida Pública” cobriria o actual rendimento proveniente da mencionada Herdade dos Coitos, a Câmara e o Administrador, por unanimidade, votaram que se pedisse autorização para a sua venda e destino indicado.

Aproveitou-se também para deliberar pedir autorização para a venda dos actuais Paços do Concelho e das “Casas da Cadeia”, se no prédio a construir ela também possa ser incluída. (4)

Sete anos depois a Câmara delibera, devido à exiguidade dos Paços, proceder ao seu acrescento até à Capela de Sto. António. (5)

A Herdade vem a ser efectivamente vendida em 1873, por dois contos e cinquenta mil réis, com os quais se compram títulos de dívida interna fundado com juro de 3%. (6) Como se vê, a verba não foi utilizada na construção de novos Paços do Concelho, como se pretendia.

Na sessão municipal extraordinária realizada em 21 de Dezembro de 1876, foi deliberado, entre outros assuntos, pedir o dinheiro existente no Cofre de Viação Municipal e o que a ele possa pertencer durante os dez anos seguintes, para a edificação dos novos Paços do Concelho, em lugar dos que caíram. Não sendo conveniente a edificação no local em que se achavam, por estarem sujeitos às cheias do rio, se peça o castelo, onde sem receio se pode construir, não só aqueles “Paços” mas também casas para a Delegação da Alfândega e outras.

A Câmara, a nível de prédios urbanos, é considerada a mais prejudicada, sendo calculados os seus prejuízos, nos Paços do Concelho, como atingindo um conto e oitocentos mil réis, pedindo-se subsídio nesse sentido.

[Lampião utilizado antes da iliminacão elétrica, mas que a mesma aproveitou e bem!]
Cinco anos depois da “Cheia Grande”, como o povo o designa, o assunto dos Paços do Concelho volta a ser badalado. A Câmara estava pagando alugueres de casas em que funcionam as repartições públicas no que despende mais de noventa mil réis anuais. No Cofre de Viação Municipal (hoje C.G.D.), tem perto de quatro contos de réis que com a devida autorização das Cortes, podiam ser empregues na reedificação ou construção de novos Paços do Concelho, com as acomodações necessárias para todas as repartições.

Pensa o Presidente da Câmara, João Xavier de Brito, de Martim Longo e um dos maiores contribuintes do concelho, ser altamente vantajoso que a Câmara apresente superiormente o assunto pedindo autorização para levantar a dita quantia para a construção dos novos Paços do Concelho. (7)

Na sessão de 31 de Março de 1883, o vereador Manuel António Torres chama a atenção da Câmara para o facto de ter sido publicado no Diário do Governo de 15 daquele mês, a Carta Régia pela qual é autorizada a Câmara a desviar do Cofre de Viação a quantia de quatro contos de réis para a construção dos Paços do Concelho. Entendia o mesmo vereador que o assunto devia de ser já accionado a fim de “dar começo à obra quanto antes”.

Na sessão seguinte (07.04.1883), o mesmo vereador apresenta uma proposta do Prior desta vila, António José Madeira de Freitas (sobrinho), em que este se dispõe a negociar as casas nobres que possui na Rua de Santo António, há poucos anos construídas, que são sólidas e que possuem o espaço suficiente para o fim em vista.

A Câmara aceitou a proposta e designou o dia 21 do mesmo mês para se ocupar desse assunto, sendo convidado o dito Prior a estar presente. (8)

Entretanto, na sessão de 14, são apresentadas mais três propostas de venda de casas para Paços do Concelho, por António José Ramos Faísca Caimoto, José de Morais e Sebastião do Rosário Vieira.

Reunida a Câmara em 19 de Maio, o Presidente informe que no dia 12 teve lugar a inspecção e exame sobre o estado de solidez e acomodação das Casas do Prior da Vila, resultando do exame a declaração dos peritos, serem as mesmas apropriadas para nelas funcionar a Câmara, Administração do Concelho, Repartição de Fazenda, tudo muita à vontade e em casas independentes umas das outras. Acrescenta ainda que o prédio foi construído há pouco, desde os alicerces, achando-se em estado de perfeita solidez. O valor foi calculado pelos técnicos em 3.750$000 réis.

Ao pronunciar-se a vereação votou por unanimidade entrar em negociações com o proprietário e não construir um novo prédio.

Chamado o Prior, foi acordado comprar as ditas casas nobres, pela quantia de três contos e seiscentos mil réis. (9)

No mês seguinte e novamente o vereador Torres (10) lembra que era conveniente pedir autorização ao Governo para serem vendidos os pardieiros dos antigos Paços do Concelho, mas tão somente para prédio e não para quintal. (11)

A título de curiosidade diremos que pelo menos em 1889 ainda os pardieiros dos antigos Paços do Concelho eram postos em praça, pela Câmara, para arrendamento por um ano, com a condição de não servirem para pocilgo ou outras coisas imundas.

O Corpo de Fiscalização externo das Alfândegas nesta vila, vai ser instalado nos baixos, na parte nascente dos novos Paços, sendo assinado o termo de arrendamento pela quantia de três mil e quinhentos réis mensais. (12)

Tudo indica que o negócio feito pelo Prior, se destinava a realizar capital para reconstruir um seu prédio que tem próximo da Igreja Matriz, visto ter pedido em 28 de Julho de 1883 licença para deitar fora, para a rua, a parede que está feita.

Conhecemos bem este prédio que já não existe e que tinha uma certa imponência a nível local. Vivemos lá cerca de dois anos. Derrubado em 1977, lamentamos hoje não possuir nenhuma fotografia, tanto exterior, como interiormente. O lajeado da cozinha e lareira, onde muitas vezes me aqueci, a pintura dos tectos, a escadaria de ladrilho e madeira, de acesso ao piso superior e o bocal da cisterna no qunitalão, se os tenho fotografado, constituíam para mim uma relíquia. Agora, não há remédio e o pior é que ninguém o teria feito!

A entrega do prédio já adaptado para Paços do Concelho é feita em 29 de Dezembro de 1883 (13), pelo que já funcionam neste local há mais de um século.

[O Presidente da Repúlica, Américo Thomaz, à varando dos Paços do concelho após apoteótica recepção, em 1965]

Naturalmente que durante este longo período de tempo tem sofrido alterações e obras de beneficiação, tendo o aspecto actual da grande transformação ocorrida em princípios dos anos sessenta.

Igual pesquisa gostaríamos de fazer sobre outros edifícios da vila, como por exemplo a arruinada “Casa dos Condes”, o quartel da extinta Guarda Fiscal e a residência indicada como tendo sido de um capitão-mor e onde se encontram instalados os serviços fiscais concelhios.

Localmente, o único departamento onde poderia encontrar alguma coisa, nada tem, tudo apodreceu!

NOTAS

(1)-“A derrocada do pelourinho e da Câmara de Alcoutim pelas cheias do Guadiana em 1824”, José Carlos Vilhena Mesquita, in Jornal do Algarve de 8 de Agosto de 1991.
(2)-Idem, ibidem.
(3)Acta da Sessão da C.M.A. de 4 de Novembro de 1860.
(4)-Idem
(5)-Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Fevereiro de 1887.
(6)-Acta da Sessão da C.M.A. de 15 de Novembro de 1873.
(7)-Acta da Sessão da C.M.A. de 3 de Fevereiro de 1881.
(8)-Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Abril de 1883.
(9)-Acta da Sessão da C.M.A. de 19 de Maio de 1883.
(10)-Manuel António Torres, figura marcante na sua época na vila de Alcoutim. Vide Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio…, 1985, pág. 321.
(11)-Acta da Sessão da C.M.A de 2 de Junho de 1883.
(12)-Acta da Sessão da C.M.A. de 30 de Junho de 1883.
(13)-Acta da Sessão da C.M.A. de 5 de Janeiro de 1884.

sábado, 7 de agosto de 2010

Na multidão (Poema)

Pequena nota
Temos o gosto de apresentar aos nossos visitantes/leitores mais um pequeno mas profundo poema saído da sensibilidade de José Temudo.
JV







Poeta

José Temudo




sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Manuel Inácio, que fora Palmira

Pequena nota
Eu pertenço ao número de pessoas que ouviu contar esta extraordinária façanha cirúrgica, então assim considerada, do Dr. João Francisco Dias e que apesar de tantos anos passados ainda é lembrada por alguns.
O que eu sabia, era aquilo que todos contavam e em meia dúzia de palavras.
Com a publicação deste texto e não vejo outra pessoa que o pudesse fazer, acabei por compreender melhor a situação e ficar mais esclarecido.
É preciso não esquecer que o facto se passou há cerca de 70 anos, não são dois dias.

JV







Escreve

Gaspar Santos




Chamava-se Palmira e nas mãos do Dr. João Francisco Dias passou a Manuel Inácio. Não se tratou de uma mudança de sexo. Foi tão só uma cirurgia para ajudar a natureza a ultrapassar uma pequena deformação congénita.

Já tinha acabado a Guerra Mundial de 1939/45 mas as pessoas ainda viam, se não já espiões, pelo menos ainda “viam” nazis fugidos ocultando-se atrás dos mais diversos disfarces.

Foi assim que a Palmira quando passeava em Tavira umas crianças seus sobrinhos foi denunciada à GNR como suspeita de ser um homem disfarçado de mulher. É que ela, vestida como mulher, deixava ver ainda assim, uma barba bem escanhoada mas densa, apesar do lenço que quase lhe cobria a cara. E, para mulher, o seu quase um metro e setenta não eram muito usuais.

A GNR deteve-a e identificou-a. Penso que uma autoridade médica teria procedido à determinação do sexo. Depois com a colaboração do familiar que vivia em Tavira, sendo chamado a estas autoridades escolheu para proceder ao tratamento o médico cirurgião de Alcoutim, o concelho da sua residência e naturalidade, uma vez que era da freguesia de Vaqueiros.

Lembro-me da sua chegada a Alcoutim no Guadiana, o “gasolina” que fazia carreiras regulares vindo de Vila Real Santo António, para consultar o Dr. Dias.

Vinha já com o cabelo cortado e vestia fato de homem. A pele do pescoço estava muito branca pela falta de exposição ao sol. Mas cabisbaixo, ainda a estranhar a nova situação e indumentária. Ainda hoje guardo a imagem da tristeza e da vergonha deste homem.

[Dr. João F. Dias, médico cirurgião]
Em Alcoutim já era aguardado e já se conheciam as razões da sua vinda. A curiosidade era grande e por isso o número de pessoas à chegada do barco foi maior nesse dia.
O Dr. Dias depois de proceder a uma avaliação da situação cirúrgica, fez a competente operação e após algumas semanas de convalescença deu-lhe alta.

Como é normal, teve os procedimentos burocráticos junto do tribunal para alteração do registo de nascimento e de regularização da sua situação militar. Mais tarde casou e há poucos anos faleceu. Não me consta que tenha deixado descendência.



Tratava-se de uma pessoa bem-disposta e que contava com uma certa graça episódios da sua vida. Nomeadamente, que costumava ir ceifar para o Alentejo. Ceifava três regos como os homens, enquanto as mulheres só ceifavam dois. Na ceifa as grandes propriedades tinham dois dormitórios, num dormiam as mulheres e noutro os homens.

Quando era Palmira, naturalmente dormia com as mulheres. Também falou dos namorados que teve, etc.

Esta é uma história com um duplo final feliz. Manuel Inácio ultrapassou uma situação sexualmente ambígua. Uma sua irmã que lhe dava apoio durante o tratamento, iniciou um namoro com o José Caleja de Alcoutim com quem veio a casar.

Este assunto foi público e publicado nos jornais. No jornal O Século para o qual eu então escrevia como seu correspondente, esta notícia foi ali publicada com fotografia cedida por ele e cuja publicação autorizou.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Cabaços, o último monte por este lado da freguesia de Vaqueiros



Este “monte”, que pertence à freguesia de Vaqueiros, é o último do concelho por este lado, ficando quase na linha divisória com o de Castro Marim. freguesia de Odeleite.

Nas Memórias Paroquiais de 1758 são-lhe atribuídos 7 vizinhos, o mesmo número indicado para Traviscosa, Fernandilho e Vale da Rosa.

Nesta altura e por se encontrar a Sul da Ribeira de Odeleite, fazia parte do termo de Tavira e não do de Alcoutim.

Sabemos que em 1882, o Administrador do Concelho envia ao Delegado do Procurador Régio na Comarca de Tavira um auto de investigação que levantou por ocasião do aparecimento de alguns restos de uma criança que foi enterrada próximo deste “monte”, a fim de que em vista do mesmo possam vir a ser descobertos e punidos os perpetradores do infanticídio.(1)

Quanto ao topónimo, parece estarmos na presença de um caso de origem vegetal, do substantivo masculino cabaço, o mesmo que cabaça, cabaceira ou abóbora-cabaça, planta cultivada em Portugal.

Encontrámos oito vezes referido o topónimo Cabaços e também Cabaça, Cabaçal, Cabaceira e Cabaçotas, todas com a mesma origem. (2)

Cabaçal, terreno onde crescem cabaças, isto é, abóboras, cujo nome poderá derivar do étimo pré-romano cala, conforme o castelhano calabaza.

Igualmente não é descabido pensar que a sua origem poderá estar no topónimo pré-romano calapacios, que poderá significar “monte rochoso” (3) o que se confirma com a situação topográfica.

São vários os topónimos nas redondezas que poderão ter origem no castelhano.


Próximo desta povoação, mas já na freguesia de Odeleite e certamente por ser mais pequena, existe Cabacinhos.

Ainda que Silva Lopes o refira na sua Corografia do Algarve, omite-lhe o número de fogos que tinha em 1839.

Passando-lhe junto a estrada nº 506, que é obra depois do 25 de Abril, tornou-o um “monte” de passagem o que lhe tem proporcionado a existência de um estabelecimento comercial misto, café/restaurante.

[Um aspecto do estabelecimento comercial]

Foi electrificado ao mesmo tempo que os seus vizinhos em 1984 (4) e os arruamentos pavimentados em 1993, (5) tendo recentemente obtido nova beneficiação. (6)

Em 1998 é aberto um furo artesiano (7) e a água colocada ao domicílio em 2002, (8) ainda que não haja saneamento básico.

A melhoria é compensada pelos utentes com os pagamentos da água consumida e a recolha de lixo, o que então não acontecia.

Possui logo à entrada e do lado direito, no sentido Norte/Sul, um estabelecimento comercial, que também serve refeições, o que faz muito jeito aos passantes, que devido à melhoria da estrada vão de certo modo aumentando de número.

Nas redondezas, foi reparada a ponte do Barranco Grande. (9)

Em 1991 o censo populacional indicava 36 habitantes, 16 homens e 20 mulheres para dez anos depois ter descido para 28, continuando o sexo feminino em maior número (15).

Presentemente devem lá viver cerca de 20 pessoas.

A quando da construção da estrada, junto a esta povoação, foram destruídas sepulturas de recuados tempos. (10)

Terminaremos dizendo que o isolamento a que ficou sujeito este monte e toda a freguesia a que pertence, durante séculos e séculos, permitiu que Michel Giacometti e F. Lopes-Graça tivessem recolhido, em 1961 uma Oração das Almas (culto dos mortos), canto de peditório no dia de Finados (2 de Novembro) que começa “Recordai, nobres senhores ...” possivelmente hoje totalmente desaparecida. (11)


NOTAS
(1) Of. nº 96 de 27 de Setembro de 1882, ao Delegado do Procurador Régio na Comarca de Tavira.
(2)–Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizonte/Confluência, Vol I, 1993, p 297.
(3)–Infopédia – Enciclopédia e dicionários Porto Editora.
(4)–Jornal do Algarve de 27 de Dezembro de 1984.
(5)–Boletim Municipal nº 12, de Abril de 1993.
(6)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 15 de Julho de 2009, p. 15.
(7)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 6 de Janeiro de 1999, p 11.
(8)–Alcoutim, Revista Municipal nº 9 de Dezembro de 2002, p 7.
(9)–Alcoutim, Revista Municipal nº 8, de Setembro de 2001, p. 13.
(10)–“O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, in Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº6, 1997/98, p 194.
(11)–Cancioneiro Popular Português, Michel Giacometti com colaboração de Fernando Lopes-Graça, Círculo de Leitores, 1981, pp 95 e 311.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

D. Juliana de Lara, 1ª Duquesa de Aveiro

D. Juliana de Lara, por vezes designada incorrectamente por D. Joana de Lara, era filha do 2º Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses e de sua prima, 2ªCondessa, D. Brites de Lara e neta dos 1ºs Condes, D. Fernando de Meneses e D. Maria Freire de Andrade.

Casou com D. João de Lencastre, 1º Duque de Aveiro, casamento realizado em Almeirim, onde a Corte se encontrava e no dia 22 de Fevereiro de 1547.

O casamento foi proposto por D. Manuel I, realizou-se com grande pompa e com a presença da família real.

Os duques foram conduzidos a casa do tio D. Nuno Álvares de Noronha, onde pernoitaram.

O dote de vinte contos de réis foi atribuído dentro de determinadas condições e teriam como sustentáculo as rendas do Marquês de Vila Real (3º Conde de Alcoutim) e seu irmão, da cidade de Tavira, da Vila de Alcoutim, da cidade de Leiria e de Vila Chã de Couce.

D. João de Lencastre esteve preso por se ter oposto ao casamento do Infante D. Fernando, filho de D. Manuel I, com D. Guiomar Coutinho, pois afirmava que há muito a desposara clandestinamente.

D. Juliana de Lara foi mãe de D. Jorge de Lencastre, 2º Duque de Aveiro, que pereceu com D. Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir, casado com D. Madalena de Telles Giron e de D. Pedro Dinis de Lencastre, casado com D. Filipa da Silva e Capitão de Porto Seguro (Brasil).

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Bibliografia

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, Vols, II, V e XI, 2007.

Dicionário Ilustrado Da História de Portugal, Edição Alfa.

Nobreza de Portugal e do Brasil, (Dir.coord. e comp. do Doutor Afonso Eduardo Martins Zuquete) Edições Zairol, Lda, Lisboa, 2000.

Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, Vol. III.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Peniche - Pelos caminhos do passado - 1º Vol. Vida Religiosa


O Escaparate de hoje nada tem a ver com Alcoutim, mas tem a ver comigo.

Primeiro porque é um trabalho histórico sobre a terra onde vivo há trinta anos, segundo porque colaborei na sua organização nomeadamente no que concerne à estruturação e digitalização das fotografias.

O trabalho é constituído por artigos que o autor publicou no jornal local, A Voz do Mar, sendo o prefácio do director do mesmo quinzenário.

É constituído por 286 páginas A/5 e dividido em quatro partes: - IGREJAS E CAPELAS AO CULTO, IGREJAS E CAPELAS DESAPARECIDAS, SOLENIDADES E FESTAS e ASSUNTOS DIVERSOS.

O trabalho oferece-nos, sem qualquer sombra de dúvida, uma panorâmica muito completa sobre os temas abordados com revelações absolutamente inéditas.

Fernando Engenheiro, um filho de Peniche a quem a sua terra já muito deve, foi funcionário da Câmara Municipal onde ocupou as funções de oficial de diligências e durante 26 anos as de bibliotecário-arquivista.

Numa edição de autor, este é o 1º volume de uma série que pretende dar a público.

O lançamento teve lugar ontem, dia do município e com a presença do Senhor Presidente da Câmara.

Que obtenha os êxitos que deseja são os nossos votos.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Velhos usos de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 3 DE FEVEREIRO DE 1973)

Pequena nota

É este o primeiro artigo que conhecemos, publicado pelo nosso saudoso Amigo no Jornal do Algarve.
Acabámos por transcrevê-lo a pp 261 a 263 do nosso trabalho,” Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio, Subsídios para uma monografia” Ed. CMA, 1985 pelos motivos que lá indicamos.
Temos a possibilidade hoje de enriquecer o texto com duas fotografias de dois casamentos, um realizado em 18 de Outubro de 1936, já se passaram 73 anos e o outro a que assistimos em 12 de Maio de 1968.
O primeiro referido é de D. Berta Cunha Martins, irmã de Luís Cunha, com o Sr. Leopoldo Vicente Martins há muito falecidos e o segundo dos nossos Amigos, Maria Catarina Xavier e de Francisco Coelho que felizmente estão entre nós e são todos alcoutenejos.
Presto assim uma pequena homenagem aos dois casais.

JV








Escreve

Luís Cunha




Desapareceu há anos uma interessante praxe a que obedeciam os casamentos camponeses de Alcoutim.

Com vista a assistir a todos os ritos de um que se realizava a rigor nos primeiros anos da década de vinte, para o qual éramos convidado do noivo, fomos para o monte das Cortes das Pereiras na véspera à tarde. Os convidados dele e dela, formavam em separado, como se fora luta entre bandos: quem sabe se disso não haveria reminiscência?

Ao cair da noite, o grupo de que fazíamos parte reuniu numa taberna e o outro, noutra. À lareira uns cavaqueavam relembrando peripécias passadas; ao lado disputava-se o cálice de aguardente em renhida partida de “truco” (jogo de cartas, segundo parece de paternidade algarvia mas que a juventude desconhece), e já alegrotes, alguns entravam a versalhar.

Assim se fez a fria noitada, até ao alvorecer. Pouco antes do romper do sol o grupo abalou, pé ante pé, no mais completo silêncio como quem vai a assalto ou a pilhar galinhas. Do outro grupo, nem rastos. No mesmo silêncio chegámos a casa da noiva onde um homem se destacou, batendo ao de leve sem resposta; insistiu com um pouco mais de força mas o resultado foi o mesmo, e por fim, quase violentando a porta e praguejando que aquilo mais parecia cemitério, excitou uma voz de dentro que, indignada, acusava o desacato a tais horas e inquiria o que se pretendia.



Travou-se em seguida interessante debate em verso que estamos agora a lamentar não ter escrito; dizendo-se procurador de outrem, o de fora tecia-lhe extraordinário panegírico, com exaltação das virtudes do bom tom local, habilidade inexcedível nisto e naquilo, homem às direitas em tudo o mais, o lavrar sem lobas (curvas nos regos da lavoura atribuíveis a fraqueza de pulso) e ao qual parelha alguma meteria medo, etc. etc,

Sem se deixar impressionar, o de dentro, também em verso, cortava-lhe de quando em quando a verve: que tinha bem entendido tudo mas que à rosa que ali guardava a bom recato não bastava o já dito e que apresentasse outras virtudes do pretendente, se a isso se supunha com direitos. Com trocadilhos de cá e de lá e risota geral, a versalhada continuou até ao dia romper.

Simulando surripiar-se, o noivo foi para as traseiras e enquanto procedia ao rapto da bem-amada, a barulheira aumentava dos dois lados. Para felicidade do jovem casal, a noiva devia ser por ele retirada a pulso, por uma janela térrea, sem tocar com os pés no parapeito.

De súbito, rompeu de dentro medonho escarcéu, com pedidos de socorro e rebate a ladrão. A rosa fora roubada!

Seguido por todos os outros, o jovem par fugia no mesmo cavalo, a caminho da vila, a cuja entrada parou para se formar o cortejo, como o de qualquer outro casório.


Para contar um velho uso que só por tradição conhecemos, abrimos aqui um grande parêntesis: em tempos antigos, só à terceira tentativa do padre e depois de ostensivamente muito espicaçada pela madrinha, a noiva dava o sim; de contrário, dir-se-ia estar a rebentar por casar, o que não ficava bem. Porém, um belo dia, como a noiva não respondesse à primeira, o padre António, sem mais aquelas, mandou-os ter juízo e que voltassem daí a oito dias. Escapou-se para a sacristia e o pior é que encasmurrou e nem todos os rogos e amizades da vila conseguiram demovê-lo. Consta ter sido aquela a última vez que tal prática se usou, pois daí em diante, ainda o padre não abria a boca e já tinha a resposta adiantada.

Voltando ao casório; depois das formalidades da vila, formou-se à saída o processo de regresso: a gente nova alinhou para a fogaça que consistia numa prova de perícia em que, partindo os concorrentes ao mesmo tempo, ganhava o que, chegando em primeiro lugar ao monte se apossava do “bolo” que depois oferecia ao noivo para partir. Cuida-se que isto simbolizaria a virgindade da nubente.

domingo, 1 de agosto de 2010

Arreigota de esteva


A Câmara Escura de hoje tem alguma especificidade pois é a primeira vez que apresento uma imagem deste tipo.

Quando cheguei a Alcoutim não sabia o que era uma arreigota, termo desconhecido na minha região de origem e de outra por onde já tinha passado.

Os dicionários ditos “normais” não o trazem, mas o do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, refere-o como arrègota ou règota, significando raiz de esteva utilizada como combustível nas cozinhas e fornos.

Foi com esse significado que o aprendi no concelho de Alcoutim onde todos o conhecem e empregam.

Eram as estevas que se arrancavam no Inverno, pois a brandura dos terrenos facilitava esse trabalho, que depois de secas abasteciam o “fogo” na confecção das refeições e os fornos que coziam a amassadura da semana.

Transportadas no dorso dos burros formando cargas muito volumosas mas pouco pesadas, já que a esteva é uma planta que atinge pouco porte e que se parte facilmente com as mãos e auxílio do joelho.

Devido à sua contextura produz bom calor, pega com facilidade e é relativamente durável a sua combustão. Sempre ouvi dizer na região que não há “fogo” como o de esteva!

Quem é que com as mãos e o auxílio do joelho consegue partir o exemplar que apresentamos e que ainda existe, não sendo eu que o coloco no “fogo”.

O meu conhecimento sobre o assunto é limitadíssimo mas dizem os conhecedores que é muito difícil encontrar outro com este porte havendo mesmo quem diga que nunca viu coisa igual.

Fica-se assim percebendo a razão da Câmara Escura de hoje.