terça-feira, 10 de maio de 2011

Do trigo de semente até à farinha

Vamos abordar hoje o trabalho que o trigo dava até meados do século passado até se transformar em farinha.

Tratava-se de um trabalho exaustivo como se poderá compreender dos passos que iremos abordar.

Depois da arroteia dos matos, quando era caso disso, pelos meses de Fevereiro / Março, fazia-se o alqueive, isto é, lavrava-se a terra, nos tempos mais antigos com arado de garganta, mais tarde com charrua, puxados por muares ou asininos. Era a altura dos jantares de feijão careto.

[Antiga charrua "Tramagal" à muito desactivada. Foto JV, 2011]

A seguir, pelo mês de Abril, atalhava-se, o que significa que se voltava a lavrar mas enviesado. Seguia-se o gradar, isto é, o esterroar e aplanar com a grade.

Em fins de Setembro, antes de se semear, enregava-se (fazer os regos para escoadouro), adubava-se com estrume transportado nas golpelhas e só mais tarde com adubos químicos, chegados ao cais da vila, trazidos por barcos da CUF que iam carregar minério ao porto do Pomarão.

Do saco de linho colocado ao ombro, saía a semente espalhada de seis em seis passos pelo semeador que o fazia tecnicamente em lanços o mais parecidos possíveis.

Estes trabalhos, em casa de lavradores, eram efectuados por trabalhadores a que chamavam ganhões.

No primeiro ano semeava-se trigo, no segundo, aveia ou tremoço, ficando depois um ou dois anos de pousio, conforme as suas necessidades de recuperação.

A monda, a apanha de ervas daninhas e o desbasto da semente nascida, fazia-se por mulheres e realizava-se em Abril / Maio do ano seguinte.

No mês de Junho, quando o calor começa a apertar, era a altura da ceifa, feita por homens e mulheres.

Havia na vila oficina artesanal de foices consideradas das melhores da região e por isso mesmo muito procuradas, mesmo pelos vizinhos espanhóis de “ayuntamientos” das redondezas.

Ceifava-se a “oito redondo” ou à margem e neste caso os homens tinham a seu cargo três regos enquanto as mulheres ficavam com dois.

[Ceifando]

Cabia aos homens atar o trigo em molhos o que faziam com o próprio trigo, servindo de baraço.

Depois acarretavam-se para a eira, o que os homens faziam em bestas, com o precioso auxílio de cangalhas, armação de madeira feita de azinho e zambujeiro e de confecção local. Cada carga comportava de dez a doze molhos, dependendo do tamanho de cada um, da espécie e robustez do animal. O atar fazia-se com corda de sisal auxiliada pelo gravato

Entretanto, tinha-se de preparar a eira. O solo (chão) de barro limpava-se muito bem, varrendo-se com uma vassoura de mata-pulga, sendo depois passado com uma solução de bosta de vaca, água e cal, o que depois de seco constituía uma camada protectora, evitando assim a saída de impurezas que iriam sujar os cereais.

A debulha fazia-se com animais, excepto para o centeio que se separava da palha com malhos feitos localmente e manejados por homens.

[Um dos últimos exemplares de asininos no concelho. Foto JV, 2009]

A arreata de um dos animais atava-se ao pescoço do seguinte e assim sucessivamente, formando grupos de três ou dois animais. A arreata do primeiro de cada grupo ficava na mão do homem que assim podia orientar o trabalho

Cada vez que se enchia a eira, fazia-se uma eirada

Após a debulha, havia que separar o grão da palha, com o auxílio de uma forquilha e quando esta deixa de ter acção, com uma pá de madeira (pá de padejar), atira-se ao ar contra o vento, ficando o grão para um lado e a palha para o outra, já que esta é muito mais leve.

Chama-se a este trabalho limpar o cereal.

Depois, passava-se a semente por um arneiro (peneira com rede de malha larga) , deitava-se em sacos de linho, normalmente de três alqueires (alqueire igual a 26 litros) , que, despejados no celeiro em grandes sacos de empreita ou linho, assim se armazenava.
Para o transformar em farinha, ensacava-se novamente e os animais de carga transportavam-no ao moinho ou azenha mais próximo, em grande número espalhados pelo concelho. (1)

NOTA
( 1) - Estes trabalhos foram-nos explicados principalmente pelo nosso amigo, Sr. António Patrício, vulgo António Pedro, natural de Afonso Vicente, freguesia de Alcoutim e já falecido.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ano memorável


A data inscrita na parede lateral de uma habitação, nas típicas escadinhas da Rua da Boavista, em Alcoutim é de 1877 e deverá ter sido inscrita para marcar algo que desconhecemos mas que podemos equacionar.

Admitimos que a data esteja relacionada com a Grande e funesta Enchente do Guadiana que teve lugar em fins de 1876 e princípios de 1877.

O local da habitação deve ter sido bem castigado pela acção das águas que admitimos tivesse coberto a construção.

Sabemos que na vila ruíram totalmente cerca de sessenta prédios devido principalmente ao tipo de construção (taipa) pelo que aquela que existira neste lugar poderia ter sido uma das que abateu.

Admitimos que a data apresentada poderá indicar a reconstrução do edifício cujo local é dos mais privilegiados da vila.

Esta inscrição é caiada ou pintada há muitos anos pelo que a inscrição dá sinais de deterioração, ainda que seja notória a preocupação de a manter.

Pensamos que nem todos os alcoutenejos nela terão reparado e esta “postagem” poderá contribuir para a sua atenção

domingo, 8 de maio de 2011

Favas com griséus



Juntar as favas ainda tenras aos griséus, é prática frequente pelas bandas da serra do Caldeirão

As vagens mais tenras da faveira são utilizadas inteiras ainda que se lhe cortem as pontas e se lhe tirem os “fios”. Aos griséus tiram-se as “linhas”.

Além da gordura principal ser o azeite, adicionam-se umas tiras de toucinho alto, rodelas de chouriço de carne e outras tantas de chouriço de sangue.

Depois do azeite quente, fritam-se levemente os enchidos e o toucinho para deixam o seu gosto na gordura vegetal. Alouram-se folhas de alho e de cebola picadas.

São indispensáveis as ervas aromáticas como os coentros, hortelã, folha verde de alho e também de cebola que se atam aos molhos com linha branca.

Deitam-se as favas e os griséus que ficam a “suar”. Se necessário, acrescenta-se um pouco de água morna.

Acrescentam-se depois os molhos, excepto o dos coentros que só devem entrar no tacho pouco antes do conteúdo estar estufado visto perderem rapidamente o aroma.

Na parte final da preparação vai-se voltando o conteúdo para que os aromas se distribuam com mais equidade.

Fica bem acompanhar-se com salada, nomeadamente se for de alface com os indispensáveis coentros.

Pão regional, “azeitonas de água” e uma caneca de vinho caseiro completam o repasto típico.

sábado, 7 de maio de 2011

Simbiose Telúrica de Fragmentos do Ser - Reflexos e reflexões - Poesia




Decorreu ontem, pelas 21 e 30 na Galeria da Casa dos Condes em Alcoutim a apresentação local deste livro de poemas da autoria de Manuel Madeira, um algarvio de S. Bartolomeu de Messines, nascido em 1924 e com obra publicada nesta área.

As palavras de abertura couberam ao funcionário municipal, Carlos Barão.

A apresentação esteve a cargo de Carlos Brito, “velho” amigo do autor e no que respeita aos seus mais notórios dados biográficos, enquanto a Dra. Maria Luísa Francisco fez uma análise crítica do trabalho definindo-o como “poesia poética e cheia de luz”, um “livro cheio de vida”, um “poeta que vive com grande intensidade e homem de grande sensibilidade”.

Mais adiante define-o como “poeta doa afectos” e que “pensa com profundidade”.

O livro que “mexe connosco” proporciona uma “leitura apaixonante”.

Maria Luísa leu com propriedade alguns dos poemas incluídos no trabalho.

Carlos Brito de improviso coloca em destaque a luta do autor pela Paz e Liberdade, considerando-o da plêiade de Mário Soares e de Salgado Zenha, entre outros.

Relata um episódio passado numa mata em Bela Mandil onde os jovens reunidos são cercados e espancados pelas forças policiais e levados para Olhão o que durante o trajecto motivou manifestações de repúdio do regime Salazarista.

Manuel Madeira foi preso várias vezes e sofreu as torturas habituais impostas pela polícia política.

Foi demitido das funções públicas que exercia por motivos políticos tendo posteriormente trabalhado como técnico da indústria agro-alimentar. Vive actualmente na cidade de Olhão.

O poeta tem ligação a Alcoutim pois possui casa no pequeno "monte" dos Penteadeiros, freguesia de Martim Longo, cuja nostalgia, sossego e ambiente rural é apanágio de homens de marcada sensibilidade, nos quais se incluem os poetas.

O autor no decorrer da apresentação por sua iniciativa ou a pedido fez várias intervenções cheias de erudição, simplicidade e humanismo, tendo palavras de agradecimento para os apresentadores e assistentes em número significativo para o meio.

Aqui deixamos os nossos agradecimentos ao autor pelas palavras que nos endereçou e igualmente a sua filha que o acompanhou.

Ficamos esperando por novos trabalhos e agradecemos a escolha de Alcoutim como terra de descanso.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Onda versus betão

Pequena nota
Este artigo foi publicado no Jornal de Peniche (on-line) em 1 do corrente.

JV






Escreve


José Miguel Nunes







A escolha era entre uma onda de qualidade mundial e a construção de um porto de águas profundas, ou dito de outra forma, a escolha era entre a preservação do nosso património e beleza natural e o betão armado para abrigar enormes monstros poluentes, era isto que estava em jogo.

A escolha foi a onda, e toda a beleza que a rodeia, foi a melhor escolha, foi a escolha mais acertada. No meu ponto de vista, uma decisão difícil, mas revelando uma enorme coragem, e acredito que não deve ter sido nada fácil, pois as pressões devem ter sido enormes.

Esta decisão para além de preservar o nosso património natural, assume de forma clara a nossa identidade. Peniche desde sempre foi uma terra ligada ao mar, Peniche desde sempre foi uma terra que retirou do mar o seu sustento. Assim é, e assim continuará a ser.

Chegou o momento em que a mudança de rumo era inevitável, mas o mar rodeia-nos e é a nossa base, é nele que temos inevitavelmente de nos apoiar, aliás, como sempre fizemos, e foi isso que esta decisão permitiu, continuar a apostar no mar, mas numa perspectiva de preservação e não de destruição, como até aqui aconteceu, e os exemplos estão aí e são muitos.

O turismo é a nossa tábua de salvação, no entanto era importante que nos diferenciássemos da concorrência. Turismo de toalha de praia e sol existe em milhentos locais, e em grande parte deles até melhor que o nosso, era importante então que apostássemos naquilo que temos melhor que os outros, e temos melhor que os outros, não o clima nem as praias, mas sim as ondas, as nossas ondas são sem sombra de dúvidas as melhores.

Esta decisão do Município, muito particularmente do seu presidente, foi bastante importante numa perspectiva de preservação natural e ambiental, por isso aqui fica o meu agradecimento, já chega de estragar o que a natureza nos ofereceu, temos é de potenciar esse património natural com que fomos abençoados.

Muito há ainda a fazer para que esta aposta seja sustentável e permita desenvolvimento económico à terra, mas esta decisão foi o ponto de partida, agora há que adequar uma série de medidas para que não caiamos na desorganização e na anarquia, como já aconteceu e acontece noutras partes do país e do mundo.

É absolutamente essencial que haja legislação especifica relativamente aos vários negócios relacionados com o surf e com este segmento do turismo. É importante não esquecer de incluir cláusulas que permitam a preservação da natureza e a preservação da identidade do local e dos surfistas locais, que são aqueles que mais abdicam e menos usufruem desta mediatização da sua terra e das suas ondas.

Foi há pouco tempo aprovado nos Açores um DL onde os planos de ordenamento aplicáveis à zona costeira definem áreas reservadas “à prática de desportos de ondas e de windsurf”, sendo que, nessas áreas, a prática daqueles desportos “tem precedência sobre todos os usos, incluindo o uso balnear”, este é um exemplo a seguir, mas há muito mais que tem de ser feito, para evitarmos ver acontecer nas nossas praias aquilo que aconteceu em França nos anos oitenta e noventa, e mais recentemente no sul de Portugal, com actos de violência praticados entre escolas de surf concorrentes em pleno areal.

Particularmente agradeço a escolha feita, e penso que as gerações futuras também, e falo em nome da minha filha, que neste momento tem cinco anos, e que graças a esta decisão terá a oportunidade de pelo menos poder continuar a brincar na praia, e talvez mais tarde possa levar lá os seus filhos, e estes os seus… numa areia e água limpas, sem gasóleos, óleos e grandes cargueiros como paisagem.

Obrigado António José Correia, obrigado por possibilitar que a minha filha possa vir no futuro a usufruir de uma onda de classe mundial, cumprindo assim o sonho de qualquer pai surfista, o que de certeza não aconteceria se a decisão tivesse sido a outra.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Parabéns para a minha neta



A minha neta falando ontem ao telemóvel comigo manifestou a sua tristeza pelo avô (bábá) não poder estar presente na sua festinha dos seus cinco anos. Afirmou no diálogo travado:- Que pena bábá não poderes ir à festa dos meus anos!

A sua grande preocupação é saber quando volto (regresso) pois tem muitas saudades minhas.

Fez-me várias perguntas não esquecendo de me recomendar a mudança da água do lago onde estão os peixinhos que nunca mais esqueceu e que de tanto gosta.

Igualmente perguntou pela minha “ajudante” que não esquece.

Disse-lhe que a festa de anos deveria ser feita na “sua” casa mas defendeu-se, como é seu timbre, dizendo que ainda é muito pequena para ir para lá e que os seus brinquedos estão na casa da rua do Lapadusso e aí os seus amigos podem brincar à vontade.

Há cinco anos encontrava-me neste mesmo local onde recebi a notícia da tua chegada a este mundo, o que me causou uma sensação muito especial e que não sou capaz de descrever.

Daqui te envio um grande beijo de parabéns pela passagem do teu 5º aniversário natalício e fica assente que quando chegar te darei a prenda prometida, aliás como ficou combinado por tua sugestão, pelo telefone.

Desejo que passes um dia muito alegre na companhia dos teus amigos.

Para o ano já vais para a escola! Porta-te bem.

O António não existe, é mesmo imaginário! Só existes tu!

[Micas e bábá]


[Rua Cruz das Almas. Foto JV]

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Superstições e crendices

Como qualquer outro povo, o alcoutenense é supersticioso, ainda que o não seja em excesso.

Nas noites que antecediam as manhãs dos Santos Populares, punham-se de molho ramos de alecrim novo, na rua, de maneira que apanhassem a neblina. Pela manhã, lavavam a cara com aquela água que oferecia virtude.

Na manhã de S. João, antes do sol nascer, outros levantavam-se e iam buscar água a sete poços. Era a “água de São João” que bebiam e com que lavavam a cara, já que esta também era milagrosa.

Quem o fizesse primeiro, obtinha maior virtude.

Nas noites de São João, faziam uma fogueira de alecrim e deitavam-lhe uma moeda. No outro dia, antes do sol nascer, recolhiam-na. Ao aparecer o primeiro pobre a pedir esmola, davam-lha perguntando o nome. Ficavam assim a saber como se chamaria o homem com quem viriam a casar.

- As pessoas que sofriam de mau-olhado, mandavam talhar o sol para ficar boas.

- Os mochos e as garças, quando aparecem, são sinal de mau agoiro.

- Nunca se sentam treze pessoas a uma mesa, pois isso era aziago.

- Quem guardasse duas amêndoas pegadas ou “coroas” de romãs, era indicação que o dinheiro não faltava em casa.

- Não se cruzam as facas que dá agoiro.

- As mulheres que assobiam, não têm sorte.

- Quando se entorna azeite, deita-se um copo de água para a rua!

- Nunca se atira pão fora sem o beijar.

- O piar das corujas e o uivar dos cães, são sinais de agoiro.

- Moça que se senta no canto da mesa, não casa.

- Quando se perde uma agulha, diz-se: Piquem-se os olhos ao diabo. Seguidamente cuspia-se na mão, dava-se um murro e para onde saltasse era o local onde se encontrava.

- Para encontrar o que se perdia, dizia-se: lagarto pintado, dá-me o que eu perdi, se não corto-te o rabo. Havia outro sistema. Dava-se um nó na ponta de um lenço, o que significava atarem-se os testículos do diabo!

- Para passar a azia basta dar um nó num lenço com a mão esquerda (certamente para os destros) sem qualquer outro auxílio!


Indicamos, para finalizar, o significado regional de alguns sonhos.

Sonhar com peras, era sinal de prejuízos; laranjas, alegrias.

As igrejas significavam casamentos breves e figos secos desgostos.

As uvas, se eram brancas, davam origem a lágrimas e as pretas, a letras (cartas).

Vacas e bois pressagiavam sorte na lotaria e era preocupante quando se sonhava com casas caiadas pois era sinal que morria gente na família.

Era vulgar as pessoas referirem os sonhos, tanto no bom como no mau sentido.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Pás de padejar



Estes dois utensílios agrícolas que hoje decoram parede de uma casa do concelho pois deixaram de ser completamente utilizados.

Os cereais cultivados no concelho eram após a ceifa atados em molhos e transportados nos animais de carga, designados por bestas, para as eiras situadas em locais altos onde o vento pudesse correr proporcionando a última fase da debulha, isto é da separação da palha da semente.

Era então que após a debulha, o cereal e a palha eram atirados ao ar para que o vento levasse a palha que por ser mais leve caía mais afastada do que acontecia à semente.

Esta tarefa era feita com estas pás, de confecção local através da fixação de cabos de formato adequado a uma base de madeira aproximadamente rectangular, sendo o lado mais afastado do cabo ligeiramente mais comprido.

Estes utensílios eram designados por “pá de padejar” já que padejar significa revolver com a pá; fabricar pão.

Há muito que o pouco trigo semeado no concelho é debulhado mecanicamente.


[Pereiro. Recriando o padejar. Foto de Ana Teixeira]

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Estatísticas - Movimento do mês de Abril / 2011



1º - ALCOUTIM LIVRE, IMPARÁVEL (2010.07.10)

2º - A ESTEVA, ARBUSTO DOMINANTE NO CONCELHO DE ALCOUTIM (2011.02.04)

3º - 1ª FEIRA DE ARTESANATO DE ALCOUTIM (2010.06.12)

4º - D. FERNANDO DE MENESES, 1º CONDE DE ALCOUTIM (2009.04.03)

5º - O CANDEEIRO A PETRÓLEO (2010.03.09)

6º - PETER O INGLÊS QUE VEIO PARA FICAR (2011.02.21)

7º - A IGREJA DO ESPÍRITO SANTO, MATRIZ DO PEREIRO (2010.04.19)

8º - EDUCAÇÃO DO ESTADO NOVO (2010.01.09)

9º - GUISADO DE FAVAS (2008.09.26)

10º - PASSEIO AO CAMPO (2011.04.12)



O Top Ten do mês que acaba de findar traz-nos como é habitual algumas curiosidades que gostamos de partilhar com os nossos visitantes / leitores.

Das dez "postagens" mais procuradas no mês de Março, neste, apenas se mantêm três.

D, FERNANDO DE MENESES, 1º CONDE DE ALCOUTIM que passa da 1ª posição para a 4ª, O CANDEEIRO A PETRÓLEO que da 2ª desce para a 5ª e a EDUCAÇÃO DO ESTADO - NOVO que mantém e com surpresa a oitava posição.

Temos por isso sete novas “postagens”, umas que aparecem pela primeira vez, como 1ª FEIRA DE ARTESANATO DE ALCOUTIM (3º), PETER O INGLÊS QUE VEIO PARA FICAR (6º), de autoria de Alexandra Gradim, GUISADO DE FAVAS, um texto de 2008 e PASSEIO AO CAMPO (10º) que juntamente com EDUCAÇÃO DO ESTADO NOVO fazem parte do TEMA Câmara Escura, constituindo assim mais uma prova da existência do assunto.

ALCOUTIM LIVRE, IMPARÁVEL depois de no mês de Março ter saído pela primeira vez do Top Ten, regressa agora e surpreendentemente para o 1º lugar.

Desta vez não contamos com nenhum Monte(s) do Concelho mas a nível de TEMPLOS regressou A IGREJA DO ESPÍRITO SANTO, MATRIZ DO PEREIRO (7º)

Verifica-se a saída depois de se ter mantido durante alguns meses, de A MEDIDA DO TEMPO, do nosso colaborador José Temudo.

Temos quatro entradas do ano de 2011, outras tantas de 2010, uma de 2009 e outra de 2008 (GUISADO DE FAVAS) que apesar do afastamento no tempo, consegue chegar ao Top Ten do último mês.

Estas são as nossas curiosidades, outras se poderão tirar.

domingo, 1 de maio de 2011

Em defesa do Património Alcoutinenses

[Alcoutim.Vista da porta do castelo, Abril de 2011. Foto JV]

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 2 DE AGOSTO DE 1984)

Depois de alguns brados lançados de que o Jornal do Algarve foi um dos transmissores – insistia-se na ligação turística do litoral algarvio à Serra, servindo esta de complemento indispensável – , começam a notar-se movimentos indicativos de que algo está mudando. Para isso tem contribuído a Edilidade pós – 74, principalmente a actual e anterior vereação, com a mesma presidência.

O alargamento e melhoria da rede viária, tomando em consideração ideias velhas debatidas em grupo de amigos e defendidas por alguns que incluem os “bradadores”, o abastecimento de água, a electrificação e outras iniciativas, têm sido dados positivos que abriram perspectivas e foram já aglutinados por um ou outro investidor ou profissional de turismo.

Outro factor importante poderá ser o “esgotamento” do litoral tomando em consideração preços proibitivos. Tudo está em embrião.

Comenta-se muito os erros praticados no litoral e a circunstância do Algarve deixar de ser dos algarvios, os menos beneficiados, dizem, com o turismo. É isto que temos lido e ouvido aqui e ali.

Se num futuro próximo, como parece, o turismo for desbravar a serra-ribeirinha, penso que será necessário e com a experiência adquirida, evitar esses (muitos) erros.

O turismo não pode nem deve tirar a identidade serrana. Se o fizer, descaracteriza um povo e os verdadeiros turistas, ao aperceberem-se de que foram logrados, não voltam e não recomendam o local, afinal a melhor propaganda que se pode fazer.

O turismo da serra-ribeirinha que poderá ou deverá ter por centro a velha vila raiana, para vingar deverá manter a quietude do meio, o típico das ruas e casario, os marcos históricos em que se incluem os templos e não só, oferecer o maravilhoso rio – passeios, pesca, desportos náuticos – e o aproveitamento dos miradouros naturais, vários e de quadros que embevecessem.

A quietude é algo de maravilhoso para quem necessita de descansar depois de um ano ou vida de árduo trabalho.

As tradições, os hábitos da região devem ser rigorosamente respeitados e mantidos, para bem dos alcoutinenses e regalo dos visitantes. A gastronomia, inteiramente desconhecida, deve ser avivada, propagada e mantida com rigor. Não será gastronomia de bitola avantajada mas é, sem dúvida, diferente, característica de uma zona e é capaz de ganhar adeptos.

Pensamos ser errado levar turistas rio acima, viagem que não se esquece, para dar-lhe de almoço sardinhas ou febras assadas! Sou apreciador de tais pratos, mas não percorreria o Guadiana para almoçar assim.

Partir da vila pombalina, percorrer o Guadiana, ora de margens escarpadas, ora semiplanas e agricultadas, principalmente do nosso lado, é belo, reconfortante e até a vila pequenina nos parece uma cidade com o bom porto fluvial. Certamente que o turista se entusiasmaria ao saber que lhe iria ser servida uma caldeirada à pescador do Guadiana, por exemplo, que é diferente de qualquer outra. Mas não é só este o prato típico local. Existem muitos mais. O que acontece é que, por vezes, se tem vergonha de os apresentar, pensando-se serem mal recebidos.

E como sobremesa? Quem conhece a doçaria local já apreciada por El-Rei D. Sebastião, quando visitou a vila?

É preciso dar a conhecer ao visitante a gastronomia alcouteneja. Não a imponham mas apresentem-na como alternativa ao bife à moda não sei de quem, com ovo a cavalo ou a pé ou ao bacalhau às mil maneiras.

Em Peniche, Nazaré, Portimão Matosinhos e tantos outros centros piscatórios, não procuramos peixe do rio mas sim do mar em típicas caldeiradas, infelizmente muitas vezes adulteradas mas sempre a preços elevados, ou então a sardinha assada, fresquinha, acabada de apanhar, brilhando como prata.

Em Alcoutim deve procurar-se o muge (no litoral já goza de boa fama), de caldeirada, assado na brasa ou frito, das mais saborosas que até hoje comemos e a lampreia, produtos que originam bons pratos. Saladas de agriões criados nas margens do rio ou das ribeiras, de tomate assado ou, se quisermos experimentar, de leitugas, planta espontânea de suco leitoso.

Azeitona de água ou de sal, curtida localmente, formam bom aperitivo. Sopa de beldroegas ou de grão, à maneira do monte, ou então sopas de peixe, de lebre, coelho, galinha ou tomate, onde o pão tipo caseiro é rei, daquele que aguenta uns dias sem perder as características.

Refrescantes gaspachos acompanhados por fatias de presunto. “Jantares”, tipo de cozido, cujo conjunto heterogéneo nos confunde mas que, depois de se provar, se pede mais.

Note-se que na culinária alcoutinense, usa-se muito o alho e os orégãos, plantas aromáticas.

[Filhós de rosa]


E no campo da doçaria: nógado Ti Ana Brandoa, filhós de rosa ou canudo, empanadilhas, costas, maçapão e estrela de figo e amêndoa. Que sei eu?! E os saborosos citrinos da região, para não falar nos figos e outros frutos?

Não são só os templos e outros edifícios que estão em causa. Não é só a adulteração da vila, já iniciada que faz clamar. Em breve, os caniços, os mosaicos, cadeiras de tampo de junça, serão só uma recordação de alguns.

É preciso também defender a gastronomia e doçaria regional, que constituem uma riqueza a preservar.
Alcoutim tem a amarga experiência da Campanha do Trigo dos anos trinta, que deixou a terra mais pobre do que era. Alcoutim não suportará um turismo qualquer, mas deseja o verdadeiro.