domingo, 4 de abril de 2010

A Igreja de Nª Sª da Assunção, matriz de Giões


A bonita igrejinha paroquial situa-se num grande largo no ponto mais alto da aldeia e pode ser avistada quando se chega à povoação vindo de sul e alberga artefactos dos séculos XVI e XVII – é assim que é referida em recente publicação. (1)

Construída em meados do século XVI, em 1565 faltava-lhe só a capela-mor e o campanário. (2)

De fachada de bico, as três naves que as constituem assentam em dez colunas, sendo as quatro das extremidades adossadas às paredes. A cobertura é de madeira.

Os fustes são lisos e os capitéis simples, despidos de decoração.

[Portal da Igreja. Foto JV, 1974]
A porta principal é de arco perfeito e orlada de trabalhos de argamassa, sem interesse.

Porta lateral.

No bico da fachada, simples cruz de ferro forjado.

[Torre sineira. Foto JV]
Torre sineira de secção quadrangular e de quatro olhais, possui três sinos. O maior pesa 250 kg, foi feito em Lisboa no ano de 1817, sendo dedicado à padroeira, Nª Sª da Assunção. Outro, de 170 kg e que está rachado, tem a imagem de S. José e foi oferecido pelo prior José Roiz Teixeira, em 1817. Foi refundido vinte e três anos depois por conta das três confrarias locais (Santíssimo Sacramento, Nª Sª do Rosário e das Almas). Dedicado a S. Pedro, a imagem apresenta-se de pluvial, mitra e chave. (3) Era esta a situação que se verificava em meados do século passado.

A capela-mor, classificada algures de magnífica, tem tecto que apresenta pinturas do século XVIII e conserva um retábulo neoclássico. (4)

Cadeiral sem valor artístico.

Em 1758 (Memórias Paroquiais), o pároco que respondeu ao questionário diz que a Paróquia tem cinco altares, descrevendo-os assim:

No altar-mor, ao meio da tribuna, está a imagem de Nª Sª da Assunção e no meio do mesmo altar está o sacrário com o Santíssimo Sacramento. Da parte do Evangelho, num nicho está a imagem de S. Pedro Apóstolo; da parte da Epístola e noutro nicho está a imagem de Santa Catarina.

O segundo altar é o colateral da parte do Evangelho e no meio dele está a imagem de Nª Sª do Rosário e do lado do Evangelho a imagem de Nª Sª das Relíquias (5)e da parte da Epístola, Santa Luzia.

O terceiro altar está no lado do Evangelho e é o altar das Almas onde se encontra num nicho a imagem de Nª Sª das Neves, sua Padroeira.

O quarto altar é o colateral do lado da Epístola e onde se encontra a imagem de Nº Senhor Jesus Cristo Crucificado e aos pés desta, a imagem de Nª Sª do Monte do Carmo.

O quinto e último altar está no lado da Epístola, no meio do qual se encontra a imagem de Santo António de Lisboa.

Nesta altura o pároco era Cura da apresentação do Senhor Ordinário e tinha de renda oito moios de trigo e um de cevada, pouco mais ou menos. Ao coadjutor pagavam os fregueses conforme a lavoura que faziam, tendo de renda três moios de trigo, pouco mais ou menos e era igualmente apresentado pelo Senhor Ordinário.


Quando visitámos o templo, por volta de 1975, a descrição feita pela nossa guia, e complementada com outros dados, deu origem à seguinte descrição:

Na tribuna a imagem da padroeira, Nª Sª da Assunção (séc.XVI), que tem coroa de prata; do lado do Evangelho, S. Pedro Apóstolo (igualmente do séc. XVI) e do lado da Epístola, S. Domingos.

No altar colateral do lado do Evangelho, encontrava-se Nª Sª do Rosário, imagem do séc. XV (6) e também as de Nª Sª das Relíquias (séc.XVI) e de Sta. Luzia; Sto. António de Lisboa estava no altar colateral do lado da Epístola.

Os dois restantes altares, que completam o conjunto de cinco, estão junto às paredes laterais. Do lado do Evangelho, o das Almas com Nª Sª das Neves (séc. XVII) e Nª Sª da Oliveira, hoje regressada à sua capelinha em Clarines, do lado da Epístola Nº Sº Jesus Cristo, crucificado e Nª Sª do Monte do Carmo. (7)

O púlpito, quadrangular e de madeira, nada possui de interesse.

A pia baptismal, de boca circular, situa-se sob a torre sineira, muito tosca e desprovida de qualquer beleza, nota-se, contudo, uma inscrição que não decifrámos.

Entraremos agora noutro tipo de património. No que respeita a paramentos, foi considerado o mais belo e rico do Algarve.

[Nª Sª da Assunção]

Vestes sagradas: – Existem ou existiram: - paramento para missa cantada - tecido persa com fundo branco muito antigo e composto de casula, dalmáticas, pluvial, estolas, manípulos e bolsa de corporais. Véu de ombros – de lhama branca, com aplicações de lhama de outras cores e bordados a ouro. Feitos cerca de 1840, têm a particularidade de serem executados na própria freguesia.

Roupas de altar – Frontal branco, tecido oriental. (8)

Entre as alfaias sacras, destacam-se uma custódia – cálix do século XVII, de tamanho médio com campainhas pendentes do ostensório e uma bela cruz processional de prata lavrada e relevada, da mesma época. (9)

[Altar-mor]

O Bispo do Algarve D. Joaquim de Sant´Anna Carvalho (1816/1823) deixou um legado a esta Igreja, exclusivamente para paramentos e guizamentos, legado que estava sob a inspecção do Prelado Diocesano. (10)

Sabe-se que em 1877 a Junta de Paróquia pretende fazer obras na Igreja e casas da residência do pároco. (11) Dez anos depois a mesma Junta delibera aplicar quinhentos mil réis nas obras da igreja. (12)

Trabalhos realizados no fim da última década de sessenta não preservaram elementos de interesse.

A Câmara Municipal mandou instalar em 1988 um relógio na torre da igreja. (13)

O templo tem uma área coberta de 420 m2 e estava inscrito na competente matriz sob o nº 725. Mais dois prédios anexos fazem parte do património.

Em 1976 constou-me que Nª Sª da Assunção possuía bastante ouro proveniente de dádivas dos seus devotos.


NOTAS
(1) - Portugal Meridional - Gentes, tradições, fauna e flora, John e e Madge Measures, 1995, p. 77.
(2) - A Escultura de Madeira no Concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX., Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, 1985, p.11.
(3) - Vozes de Bronze, José António Pinheiro e Rosa, 1946.
(4) - Tesouros Artísticos de Portugal - Edições de Selecções do Reader`s Digest – 1976, p.285.
(5) – Nesta altura já a sua Ermida do Cerro das Relíquias não estava em condições para a manter na sua casa pelo que a recolheram na Igreja Matriz.
(6) – Idem, ibidem, op.cit. em (4).
(7) - Foi D. Catarina Mestre, natural da aldeia e que dedicou uma vida inteira ao ensino, que nos identificou as imagens e nos forneceu outras informações complementares.
(8) - "Exposição de Arte Sacra" in Boletim da Junta de Província do Algarve- Centenários, 1940.
(9) – Idem, ibidem.
(10) - Of. nº 91 de 23 de Abril de 1878.
(11) - Of. nº 172 de 12 de Novembro de 1877.
(12) - Acta da Sessão da C.M.A. de 5 de Maio de 1887.
(13) - Jornal do Algarve de 3 de Novembro de 1988.

sábado, 3 de abril de 2010

Da origem das Festas de Alcoutim aos "seios" de grão de café!



Escreve

Amílcar Felício


“Em tempos longínquos... entre Alcoutim e Sanlúcar... havia-se estabelecido um extraordinário intercâmbio comercial de gado grosso, cavalar e muar e vasta comunicação em termos de verdadeira amizade e sob todos os pontos de vista”, escrevia o saudoso amigo Sr. Luís Cunha no Diário Popular de 13/05/68, artigo reproduzido no Alcoutim Livre de 12 de Março último.

Embora desconhecendo este artigo, conhecia perfeitamente os ecos da notícia que ele refere e que me chegaram provavelmente na Taberna do meu avô, local de convívio das classes trabalhadoras de então e verdadeira Escola de Vida para mim, nos meus tempos de menino.

[Rua Portas de Mértola. Foto JV]

Na realidade deliciavam-me aqueles serões da minha infância, sentado entre os homens nos bancos corridos da Taberna, a ouvir as estórias que eles contavam! Estórias de trabalho, de caça e pesca, de contrabando, da cobra de 20 metros que até já tinha pestanas de tão velha e que muitos garantiam já ter visto, nomeadamente no Cercado do Mineral, pois dormia no Castelo Velho (versão da década cinquenta da Moura Encantada certamente) etc., etc., etc.

Assim, entre uma rodada de copos de vinho de garrafão Abel Pereira da Fonseca e um cigarro de mortalha de Onça Duque ou de Três Vintes (20-20-20) depois de um dia extenuante de trabalho, contavam estórias excitantes para entreter o tempo e enquanto eles bebiam um copo ou fumavam um cigarro, recuperando energias para o dia seguinte, eu “bebia” com avidez algumas das mais belas estórias da minha infância que nunca mais esqueceria, substituindo com vantagem os livros de banda desenhada e de aventuras que nunca li.

[Rua Portas de Mértola, aspecto actual. Foto JV]
Lembro-me de falarem daqueles tempos recuados e de referirem que a travessia do Guadiana era feita a nado pelos cavalos, éguas e mulas e que o local da Feira era na Fonte Primeira, hoje conhecida como Praia do Pego Fundo. Ali se concentrava todo o gado português e espanhol para a Feira e para o negócio que se lhe seguia.

O tempo que tudo transforma, teria feito diminuir gradualmente este importante comércio e a Guerra Civil espanhola de 1936/39 ter-lhe-á dado a estocada final, particularmente no que respeita ao gado que vinha de Espanha e interrompido bruscamente as relações intensas entre as duas povoações ribeirinhas.

Mas aquela Feira deixou uma semente importante. Terá sido com base nessa Feira secular, que nasceu primeiro a Feira e Festa de Alcoutim e mais tarde unicamente as Festas de Alcoutim. Efectivamente referia-me o meu pai, que o declínio cada vez maior da Feira e o menor fluxo de gente à Vila naquele período, teria conduzido a “elite pensante” de então a compensar esse decréscimo, com a realização complementar de umas Festas, ideia surgida no grupo de amigos nomeadamente o Sr. Serafim, o velho Dr. João Dias e o meu próprio pai. E assim terão nascido as Festas de Alcoutim coincidentes com a data da Feira. É esta pelo menos a minha mais profunda convicção. De acordo com os estudos realizados por José Varzeano sobre aquela época, Fernando Dias terá sido o grande impulsionador das Festas e terá liderado a juventude do seu tempo na concretização daquele evento.

[Dançando as "sevilhanas" na Festa de Alcoutim. Foto cedida por Gaspar Santos]
Por outro lado “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não...” e a Guerra Civil espanhola apesar do drama sangrento e da separação dolorosa que provocou entre as duas povoações, não conseguiu matar completamente essa velha relação entre os dois povos ribeirinhos, criando essa figura mítica do Contrabandista, que continuaria a ligar as duas margens contra tudo e contra todos, atingindo naturalmente o seu auge na década de quarenta. E que pena que a maior parte desses verdadeiros heróis de carne e osso, tenham levado consigo para a cova tantas e tantas aventuras! A rede de contactos pessoais ou mesmo familiares existentes até então, terão facilitado e de que maneira todo o circuito de entrega e escoamento da mercadoria.

Lembro-me do pequeno Ti Eliseu, atarracado e forte como um touro – talvez o mais valente de todos os Contrabandistas -- contar que numa noite de cheia no Guadiana, ficou com a “carga” às costas encravado nas patas de um burro que vinha afogado rio abaixo e que quase o levava desta para melhor. Assim como noutra ocasião, em que estava escondido em cima de um eucalipto com a “carga” lá em cima também a fazer horas para a travessia e sentarem-se 2 Guardas Fiscais debaixo do eucalipto, à espera que o turno acabasse e ele aflito, com uma vontade de urinar terrível...

Mas havia mais. Como a estória do Ti Gonçalves barqueiro com a lancha cheia de ovos meses e meses a fio, a subir rio acima ao pôr do sol direito à Lourinhã junto à margem portuguesa e que quando escurecia, dava meia-volta direito ao Alcaçarinho aonde tinha o contacto para a entrega da “carga” e assim fintar os Carabineiros, que o acompanhavam meio escondidos no canavial do lado espanhol... E a estória do vizinho Zé Emídio latoeiro, que só abandonou as lides quando viu uma saraivada de balas em Espanha, fazerem-lhe cócegas à sola dos sapatos e ele teve que marimbar-se na “carga” para salvar a pele... o susto foi de tal ordem que abandonou o ofício de vez.

A proximidade destes acontecimentos e as conversas constantes à volta do tema com os meus 5, 6 ou 7 anos, permitiam-me imaginar com um realismo cinematográfico, o ambiente que se vivia em Alcoutim nos anos quarenta e que comparado com os tempos actuais nos fazem reflectir!

[Monumento ao contrabandista, em Alcoutim. Foto JV]
Efectivamente toda a gente sabia quem eram os Contrabandistas, incluindo a Guarda Fiscal. Aliás, dizia-se que até às 6 horas da tarde era frequente confraternizarem nas tabernas à volta de um copo ou de um petisco. A partir dessa hora despediam-se e diziam: “a partir de agora cada um para o seu posto e vamos ao trabalho”!

Num país de “compadres” como poderemos constatar mais uma vez nos dias que correm, Alcoutim deveria receber uma medalha de mérito! Até custa a acreditar, mas parece que era mesmo assim. No entanto, não consta que tivessem ocorrido grandes problemas, apenas algumas “cargas” perdidas depois de uns tiros para o ar. Contudo nunca ouvi comentar, que houvesse compadrio entre Guarda Fiscal e Contrabandistas. O que estes referiam, era sim o conhecimento profundo que possuíam de todos os hábitos, manhas e manias de cada um dos Guardas, conhecendo ao pormenor as suas rotinas, conhecimento esse que utilizavam na perfeição para o seu arriscado trabalho. Era o jogo do gato e do rato e o rato ganhava quase sempre.

Constava-se pelo contrário, que a Guardia Civil não tinha contemplações e atirava mesmo a matar. E que quando ocorria uma ou outra morte, davam-se ao requinte de deslocar os cadáveres para o lado português do rio, para sacudir a água do capote. Mas não se pense que os Contrabandistas entravam em Espanha às apalpadelas! Tudo estaria devidamente organizado com os seus vigias no outro lado que controlavam os passos da Guardia Civil, sinalizando quando era seguro a entrada em solo espanhol ou com sinais de luzes durante a noite ou pedras atiradas ao rio etc. Durante o dia dizia-se que com um espelho ou com qualquer outro sinal, iam comunicando fazendo assim o ponto da situação ao longo do dia. Que jeito dariam os telemóveis naquela altura!

Recordo-me de o meu pai me contar que numa noite de baile, apeteceu-lhe fumar e foi até ao velho banco do Celeiro aonde acendeu o cigarro, o que sinalizou a sua presença de imediato a grande distância. Pouco tempo depois passa por ele alguém, estrada abaixo, em missão de reconhecimento. Sem lhe dirigir palavra, esse desconhecido dá meia-volta de imediato e segue pelo mesmo caminho de aonde tinha vindo, direito às antigas passadeiras da ribeira. Dez minutos mais tarde volta a passar, mas desta vez já vinha “acompanhado com a talega” às costas. O meu pai curioso grita-lhe: “não avance”!!! O desconhecido recua apressado e em surdina pergunta-lhe: “está a Guarda aí à frente Sr. Felício”? “Não pá, desculpa lá, era só para saber quem eras”, diz-lhe o meu pai! Era o Ti Pandareta. Quando o meu pai voltou ao baile já ele lá estava todo aperaltado e diz-lhe a sorrir: “você há bocado meteu-me cá um cagaço do caraças”!

[Guarita da Guarda-Fiscal em Alcoutim. Foto JV, 1988]
Tive a felicidade de percorrer nos finais da década de sessenta entre as 3 e as 6 horas da manhã de um invernoso mês de Janeiro, um velho trilho de Contrabandistas na fronteira norte do país, aquando da minha deserção do Exército. Pude observar como o trajecto era integralmente vigiado do lado português e perfeitamente “oleado” do outro lado, com a colaboração de nuestros hermanos. Experimentei entre ribeiros e caminhos escalavrados a ansiedade que aqueles homens deveriam ter sentido e a coragem a que tinham que deitar mão, para ganhar o pão nosso de cada dia. Para emprestar maior realismo ao cenário e como teria acontecido a tantos deles, ainda em Portugal estivemos sob a mira de 6 velhas Mausers, mas o esquema estava bem montado e seguimos viagem. Para quem tem 20 anos fazer isto uma vez é uma experiência enriquecedora (ou radical como diríamos agora), mas fazer disto vida no dia-a-dia, anos a fio e já homens maduros, é obra! Foram de facto verdadeiros heróis. Por isso sempre lhes tirei o chapéu. Alcoutim merecidamente erigiu aos seus heróis uma bela estátua no Cais Velho!

[Sanlúcar, a irmã siamesa. Foto JV]

Contudo a situação liberalizou-se bastante a partir dos meados/finais da década de cinquenta, embora o comércio continuasse a ser proibido por lei, de ambos os lados da fronteira. Apesar dessa liberalização, continuavam a existir no Quartel da Guarda Fiscal em Alcoutim as célebres “apalpadeiras” para verificar se as mulheres que iam a Sanlúcar, traziam algo de contrabando. Os homens eram “apalpados” passe a expressão, pelos próprios Guardas. Ainda era obrigatório pedir autorização ao Chefe da Guarda Fiscal para ir a Espanha e vice-versa e apresentarmo-nos à autoridade no regresso. Estávamos ainda longe do Mundo sem Fronteiras dos nossos dias!

Mas os esquemas de contrabando tinham mudado radicalmente e os produtos “contrabandeados” eram principalmente café em grão, corda, tabaco etc., sendo feito nesses tempos à luz do dia e durante as próprias Festas. Eu por ser miúdo, tinha a “função” de acompanhar a um pequeno quarto na mercearia dos meus pais, as espanholitas que entravam e que pareciam umas tabuinhas de engomar, saindo dali gordas e anafadas com uns peitos de fazer inveja ou uma barrigona de grávidas incrível! Eram quilos e quilos de café que transportavam camuflados ou nos seios ou na barriga! Apesar dos cuidados e do receio que demonstravam, penso que a Guarda Fiscal fechava os olhos, uma vez que a lei continuava a proibir o comércio e com aquele procedimento “cumpria-se” rigorosamente a lei.

Também já era frequente nos anos sessenta observar o velho barqueiro Dominguez nas suas tradicionais “alpergatas” e de olhos sempre tristes que nem parecia um andaluz – tinha sido obrigado a ver fuzilarem-lhe o pai e um irmão e dizia-se até que a abrir-lhes a própria sepultura – fazer diariamente a travessia do rio, para levar e trazer os produtos mais triviais.

[A barca de passagem. Desenho de JV, 1993]
Socialmente a minha geração na década sessenta, colocaria um ponto final no esmorecimento das relações entre as duas populações reatando em pleno, o relacionamento com a juventude espanhola, que se tinha deteriorado em consequência dos acontecimentos das duas últimas décadas. Formou-se efectivamente um grupo que foi gradualmente engrossando a outras pessoas mais velhas de que recordo o Sr. Ângelo (Secretário da Câmara da altura) e o Sr. Paulino (Chefe da Tesouraria) entre outros e que veio a gerar pelo menos um casamento e fortes ameaços de enlaces. Refiro-me ao casamento do Sr. Ângelo já falecido, com a Tónia (obrigado Sr. Nunes pelas notícias. Olá Tónia! Como han pasado casi cincuenta años, mi cago en Diós!). Contrariava-se mais uma vez a desconfiança histórica quer do lado português: “de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos”, quer do lado espanhol: “callate niño que aí vien Dom Nuno!” Referiam-se naturalmente ao D. Nuno Álvares Pereira, que era o terror dos meninos espanhóis.

Esta desconfiança que foi um facto real histórico entre Portugal e Espanha, parece que nunca passou nem por Alcoutim nem por Sanlúcar. Alcoutim e Sanlúcar formavam decididamente um mundo à parte! Foram sempre verdadeiras “irmãs siamesas”, como dizia o amigo Luís Cunha no seu artigo. Apesar de que hoje, parece que já não se conhecem...

(Nota: o único “arquivo” que consultei para escrever esta crónica foi a minha memória e uma ou outra pequena correcção de que o Sr. Nunes teve a amabilidade de me comunicar, pelo que lamentamos se eventualmente subsistir alguma imprecisão nos temas relatados)


Pequena nota

Caro Amigo:
Nestas coisas e principalmente quando a transmissão é feita por via oral, estas pequenas divergências são naturais, dependendo da sua origem.
Aquilo que me foi transmitido oralmente e que acabei por referir no meu livro, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (...) coincide com o que aqui refere.
Gaspar Santos depois de ter lido atentamente o livro teve a amabilidade de me escrever uma longa carta em que anota algumas falhas ou incorrecções e entre elas o facto de terem sido os jovens unidos pelo G.D.A. e liderados por Fernando Dias que deram o pontapé de saída às Festas. Quando posteriormente consultei o arquivo daquela associação tive oportunidade de confirmar isso como refiro no pequeno opúsculo que escrevi sobre o GDA.
É natural que estas coisas tivessem que ter o aval das figuras políticas e não só da vila de Alcoutim, onde era proeminente o Dr. João Francisco Dias.
Durante os onze anos a que assisti às Festas de Alcoutim e onde modestamente prestei o meu auxílio e que me lembre de momento teve lugar na decoração, na feitura de uma gincana de “motorizadas” e na confecção de um estrado e palco que serviram muitos anos, já que até aí era um grande problema para a organização a que nunca pertenci.
Durante estes anos a organização era feita por dois ou três jovens locais que acabavam por assumir todas as responsabilidades e eu sei como era difícil fazê-lo pois se viesse a chuva (o que acontece por vezes nesta época do ano) onde estava o dinheiro para o cumprimento dos contractos assinados por eles?
Sempre ouvi as suas lamentações quanto à falta de apoio do comércio local.
Se o que vem por via oral pode ter vários matizes, o que fica escrito por vezes também não corresponde à realidade.
Tanto antes como depois do 25 de Abril sempre que um ministro saía era a seu pedido e não por “demissão”, o que quase sempre acontecia. Que eu me lembre, ficou conhecido um caso relativamente recente em que o 1º Ministro precedeu à exoneração visto o visado não a ter querido pedir.
Nas Câmaras Municipais era e é prática usada e até em relação a funcionários que eram assim aconselhados para fugirem a processos disciplinares que podia levar à demissão.
A nota acabou por não ficar tão pequena como desejava.

JV

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Galego, pequeno monte das serranias de Vaqueiros

[O monte visto do Sul. Foto JV, 2010]

Já visitámos por três vezes este pequeno monte da freguesia de Vaqueiros.

Durante alguns anos lemos e escrevemos muitos vezes este topónimo e a informação que recebíamos a quem a solicitávamos era que se tratava de um pequeno monte lá para a freguesia de Vaqueiros onde se chegava com dificuldade de burro e ainda com maior a pé.

Antes do 25 de Abril, poucos presidentes da Câmara teriam conhecido esta pequena povoação, talvez algum originário da freguesia mas de lugar próximo, como aconteceu a António Gonçalves, em meados do século XIX e que era lavrador residente no Monte das Madeiras, o mais próximo do Monte do Galego.

Após a República, duvido muito que algum presidente da Câmara (até ao 25 de Abril) tivesse conhecido tal povoação, esta e todas as outras que estavam na mesma situação, distantes e sem acessos, completamente isoladas. Tomando em consideração que ainda hoje, para lá se chegar, a espécie de estrada que temos que seguir não é asfaltada e tem subidas bastante inclinadas sendo-se obrigado a utilizar a 1ª velocidade!

Saindo da aldeia de Vaqueiros, a cuja freguesia pertence, pela estrada 506, ao primeiro cruzamento cortamos à direita. À 506 só lhe faltam duas faixas para ser auto-estrada, mas como o movimento é quase nulo, funciona como isso, a que tomamos, 505, é asfaltada e tem algumas curvas acentuadas. Poucos quilómetros andados, somos obrigados a parar sempre que lá passamos pois desfrutamos talvez o melhor panorama serrano do concelho de Alcoutim, isto do lado esquerdo da estrada. Ao vale largo e profundo que a Ribeira de Odeleite origina, opõem-se cerros atrás de cerros numa progressão equilibrada. Sem dúvida que é a prova provada do que disse um conceituado geógrafo português, a Serra Algarvia é um mar de cerros.

Apanhamos à esquerda a estrada municipal nº 1049 hoje já asfaltada, pois quando lá passámos pela primeira vez talvez ainda não fosse estrada municipal, mas sim caminho.

A estrada é sempre a descer e vai levar-nos ao Monte das Madeiras, um dos primeiros que aqui referimos com os elementos que então possuíamos.

Atravessamos a ribeira de Odeleite por um pontão e seguimos o caminho a que já nos referimos quanto à sua inclinação e dificuldade em o vencer. À nossa direita desenvolve-se o profundo vale da Ribeira de Odeleite que na altura e apesar de Inverno era pouco caudalosa pois a chuva tinha sido pouca, contudo, notava-se grande quantidade de cascalho que a água inunda quando cai mais forte e devido aos fortes declives rapidamente se junta no seu leito e corre impetuosa. Nos melhores locais ainda se notam algumas árvores e os terrenos limpos, apesar de serem diminutas as gentes das redondezas.

Em todo este trajecto vimos uma cabra e um burro aparelhado mas não vislumbrámos o seu dano. Nem vivalma! Veículos, nem um.

[Ribeira de Odeleite próximo do monte. Foto JV, 2010]
Fomos observando a Ribeira à esquerda e ao mesmo tempo a serra à direita onde apesar de todas as dificuldades oferecidas plantaram amendoeiras e onde não é fácil apanhar o seu fruto. Hoje, ficará lá todo, mas quando o local era povoado e o preço da amêndoa era compensador, não ficava lá nenhuma.

Após cerca de dois mil e quinhentos metros, sempre a subir e já no alto, à direita encontrámos na primeira visita uma rústica e velha placa toponímica de chapa pintada com a indicação de GALEGO. Cinquenta metros depois estávamos no monte.

Vamos agora recuar no tempo.

A referência mais antiga que encontrámos e como quase sempre acontece é a que nos fornece as “Memórias Paroquiais de 1758” e isto se a indicação de Alcarias Galegas for sinónimo de Monte do Galego ou simplesmente Galego. Não nos parece oferecer grandes dúvidas pois que o monte das Alcarias já existia com esse nome.

[Antigo forno, possivelmente comunitário. Foto JV, 2010]

Era, como sempre foi, um monte pequeno pois atribuíam-lhe 3 vizinhos ou seja, três fogos habitados. As Madeiras, nessa altura, tinham apenas dois e as Taipas, que são dois montes, 10. Havia nessa época, na freguesia, variadíssimos montes com o mesmo número de vizinhos.

Numa acta da Câmara Municipal de meados do século XIX, encontrámo-lo designado por Casa do Galego.

Silva Lopes, no anexo final da Corografia e em que fornece o número de fogos existentes no Algarve em 1839, não refere este, pois só indica oito desta freguesia.

Em 1998/99, a primeira vez que lá estivemos, ainda tinha quatro moradores. Falámos então com dois velhotes muito trémulos.

Ainda não havia energia eléctrica ,o que agora encontrámos, pelo menos os postes, embora não conseguíssemos localizar quando tal se realizou. Existiam dois poços, um na parte alta e apetrechado de bomba elevatória, mas que segundo os informadores era água de má qualidade e outro na parte mais baixa de água melhor e de onde bebiam os moradores.

Disseram-nos que ainda por lá iam passando de vez em quando alguns vendedores ambulantes.

[Chaminé e telhado novo. Foto JV, 2010]

Os fogos desabitados ainda existentes são próprios da região. Casas de xisto e grauvaque, quase todos caiados. Pelo menos dois fornos de cozer pão e o mais antigo devia de ser forno comunitário como era próprio da zona. O outro já com telheiro é muito mais recente. Telhados de telha de canudo, mas encontrámos um com telha moderna e de recente colocação, segundo o aspecto da telha. Palheiros e pocilgos em declínio também se podem ver.

[Amendoal junto ao monte. Foto JV, 2010]

Apesar do que descrevemos, os terrenos circunvizinhos encontram-se desmatados e até pudemos apreciar um amendoal tratado, o que hoje raramente acontece e com as árvores em floração.

Quanto ao topónimo, poderá ter várias explicações e por vezes nenhuma é verdadeira, tal a complexidade da toponímia.

Uma das hipóteses é a circunstância de que terrenos galegos ou terras galegas têm o significado de fracos, pobres e pouco produtivos e isto vai no sentido do primitivo topónimo ou seja Alcarias Galegas, o que se ajusta aos terrenos locais.

Se tomarmos em consideração a outra designação que encontrámos na acta da Câmara ou seja, Casa do Galego, orienta-nos totalmente para um fundador do monte, um galego, com a variante que isso significa: natural da Galiza, nortenho para os homens do sul, escravo do trabalho e utilizado na nossa língua para muitas mais situações, como é do conhecimento geral.

[Ruínas e Poço com bomba elevatória. Foto JV, 2010]

Ou estará no fruto de uma casta de oliveira a que chamam azeitona galeguinha ou simplesmente galego?

Nos últimos mapas publicados do concelho, é monte que já não é referido.

Aqui fica o que conseguimos reunir sobre este despovoado monte.

terça-feira, 30 de março de 2010

Uma pequena aventura nas Festas de Sanlúcar



Escreve

José Miguel Nunes


Há “estórias” que só se podem contar passados alguns anos, esta é uma delas.
Recuemos então 23 anos, até 1987. Eram as férias da Páscoa, e como acontecia todos os anos encontrava-me em Alcoutim a passar esses dias. As festas de Sanlúcar são por essa altura, e nesse ano coincidiram com os dias em que aí estava, pois nem sempre acontecia, umas vezes, um ou dois dias antes de chegar, outras vezes, um ou dois dias depois de me vir embora.

[Virgem de La Rábida]

Tal como os espanhóis não falham as Festas de Alcoutim em Setembro, também nós não falhamos as deles, e claro, depois de jantar, lá pelas oito, nove horas, atravessámos o Guadiana em direcção a Espanha.

Nessa noite lá fomos nós em grupo até Sanlúcar, sinceramente já não me lembro nem quem, nem quantos éramos ao certo, mas entre amigos residentes em Alcoutim e outros vindo de fora, talvez fossemos aí uma dezena.

A festa estava animada em Sanlúcar, e claro o pessoal acabou por se dispersar, formando grupos mais pequenos. Uma “canha” aqui, uma “tapa” ali, com mais dois dedos de conversa, preferencialmente com alguma espanholita que sorrisse a uma piscadela de olho, lá iam passando as horas, sem que nos déssemos conta disso.

[Cais de Sanlúcar em 1986. Foto de JV]

Eu tinha ficado com o..., chamemos-lhe J.A., e a determinada altura demos conta que já não estava por ali ninguém do pessoal, aliás, já estava muito pouca gente na rua, olhámos para o relógio e a hora marcava já umas quatro da manhã, portuguesas, pois na hora espanhola, temos que acrescentar mais uma. Bem, dirigimo-nos até ao cais na esperança de ainda por lá estar alguém que nos levasse para Alcoutim, mas nem vivalma.

Depois de alguma conversa do que iríamos fazer, o J.A., residente na vila, sabia onde morava o barqueiro, e queria ir lá bater à porta, para ele nos ir levar a Portugal, ao que eu lhe dizia que era melhor não, pois já era tarde e ainda íamos arranjar confusão, mas ele tanto insistiu que lá fomos. Claro que ninguém abriu a porta.

[Alcoutim e Sanlúcar num óleo de JV, 1973]

Com isto, mais uma hora tinha passado. Viemos novamente para o cais e sentámo-nos nas escadas ao pé do rio, determinados a aguentar até de manhã e esperar que o barqueiro se levantasse e nos fosse levar. O grande problema é que o frio começava a apertar e tínhamos ainda pelo menos umas duas ou três horas de espera pela frente.
Começam então a germinar ideias para resolvermos a situação em que estávamos. O plano era simples: levar um barco dos que estavam atracados no cais, e a remos atravessávamos o rio, chegados a Alcoutim, íamos comer qualquer coisa a minha casa (onde eu estava sozinho, pois os meus pais ficavam em Afonso Vicente), vestíamos uma roupa mais quente e voltaríamos a Sanlúcar antes de nascer o dia, para depois regressarmos com o barqueiro e assim ninguém dava por nada … era o plano perfeito.
Bem pensado, melhor feito, agarrámos no barco e atravessámos o rio, ainda demos um pequeno encosto num iate que estava ancorado no meio do rio, mas nada de especial, acho que nem os tripulantes acordaram. Chegados à margem portuguesa, atracámos no cais velho, amarrámos bem o barco com uma das amarrações presa ao cais novo, e pusemo-nos a caminho de minha casa. A vila estava deserta, corria tudo às mil maravilhas. Comemos, vestimos uma roupinha mais quente, e preparávamo-nos para cumprir a segunda parte do plano, que basicamente era voltar a Espanha e deixar o barco no local de onde o tínhamos tirado. Como ainda tínhamos tempo, decidimos esperar mais um pouco, resultado, adormecemos…, acordámos já passava bem da hora de almoço. Bom, não tínhamos ido levar o barco, e isso ia dar alguma confusão na vila, pensámos nós, mas como ninguém nos tinha visto, até nem estávamos muito preocupados, não tínhamos estragado nada, só tínhamos trazido um barco “emprestado”, portanto, era só devolve-lo, nada mais simples.

[O cais novo nos dias de hoje. Foto JV]

Decidimos então ir até lá abaixo ver se se passava alguma coisa. Ao chegarmos à Sociedade, logo encontrámos pessoal amigo que nos contam que o alarido era grande, pois alguém tinha roubado um barco em Espanha e que este tinha ficado pendurado no cais, pois quem o tinha feito, não tinha dado folga suficiente na amarração a fazer conta com o vazar da maré. Logicamente este pormenor não fazia parte do nosso plano, pois não tínhamos previsto adormecer.

Já no café do Carlos e com a Guarda Fiscal à mistura, invadiram-nos de perguntas, como tínhamos vindo, a que horas, com quem, ao que nós lá íamos respondendo conforme podíamos. Sem nos contradizermos, lá conseguimos sem grande dificuldade engendrar uma história mais ou menos fiável que nos ilibou daquela situação. Problema resolvido.

Pouco depois, e já estávamos nós descansados, chega-me aos ouvidos que alguém tinha visto alguma coisa: dois moços a chegar de barco já madrugada dentro. A coisa começou a complicar-se outra vez, mas esse alguém era e ainda é muito meu amigo, e tinha-nos realmente visto chegar e reconheceu-nos, conforme me disse, no entanto,não foi muito difícil depois de uma pequena conversa, convencê-lo a não nos denunciar.
Lá se entregou o barco aos espanhóis e passados uns dias já ninguém falava do assunto. Ficou apenas a recordação de mais uma aventura em Alcoutim.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O lampião



Este é um dos utensílios, embora caído em desuso, ainda vai aparecendo à venda em estabelecimentos comerciais, nomeadamente drogarias. Se isso acontece, é porque há quem compre para uso.

O apresentado na foto, já velhinho mas ainda funcional, se for preciso, é mesmo do concelho de Alcoutim.

Chamava-lhe naturalmente candeeiro, como é, mas era natural que tivesse outra designação local para o distinguir dos outros.

Peguei no telefone e fui à minha informadora destes assuntos, já octogenária, nascida e criada num monte de Alcoutim, onde vive. A resposta foi rápida e sem qualquer dúvida: É UM LAMPIÃO.

Fiquei assim em condições para desenvolver o tema já que o resto é do meu conhecimento observativo, pois não me lembro de alguma vez me ter servido de tal objecto.

Lampião é definido nos dicionários por grande lanterna portátil ou fixa num tecto, esquina ou parede o que se ajusta perfeitamente a esta peça utilitária.

Antes de 1965 as ruas da Vila eram iluminadas por lampiões fixos a esquinas ou paredes.

Os lampiões dos “montes” eram estes candeeiros a petróleo, portáteis, com uma pega no cimo. O funcionamento para a produção de “luz” era muito semelhante ao que referimos quanto aos candeeiros de casa que já aqui abordámos, com torcida e obedecendo aos mesmos cuidados. Nestes, o que equivale à chaminé é igualmente de vidro mas mais robusto e certamente de tratamento diferente para suportar a diferença de temperatura e partir-se com mais dificuldade.

Este vidro era protegido por um arame forte em cruz cujo movimento fazia subi-lo para poder acender a torcida e logo se fazia baixar para não se apagar.

A configuração do lampião proporcionava duas protecções para evitar pancadas na chaminé.

O lampião era o candeeiro de rua que ajudava as pessoas a deslocarem-se de noite para a realização de tarefas, sendo das mais importantes o tratamento dos animais. Tinha a vantagem de com ele ser mais difícil o aparecimento de incêndio num local onde existia palha e outros elementos de fácil combustão.

Para outras deslocações, as pessoas do monte podiam corrê-lo todo sem lampião, que não punham o pé numa poça! Os outros, saltavam de uma e caíam noutra, como a mim me acontecia.

Tal como o candeeiro de casa, o tipo de lampião não era uniforme, tinha algumas variantes, possivelmente dependente do fabricante.

domingo, 28 de março de 2010

Português me confesso... ...com orgulho!

Pequena nota

É com prazer que partilhamos com os nossos visitantes / leitores um dos belos poemas que o nosso colega de profissão, colaborador deste ALCOUTIM LIVRE e amigo teve a amabilidade de nos oferecer, a mim e a minha mulher.
JV




Em vez das tradicionais amêndoas, é com muito gosto que vos envio dois simples poemas cuja virtude residirá unicamente no facto de irem contra a corrente dos sentimentos de desânimo, de descrença em nós próprios e, até, de algum desamor pátrio que grassam entre nós nestes tempos difíceis que estamos a viver.
Com os poemas, vão os votos sinceros e amigos de uma Páscoa alegre e feliz gozada na companhia daqueles que mais amais.









Vila do Conde, Páscoa de 2010.









Poeta

José Temudo





SER PORTUGUÊS

Um dia, se puder,
nesse dia, se souber,
com alegria, hei-de dizer,
sem “mas” e sem “talvez”,
o orgulho imenso,
sentido e tenso,
em ser português!

Hei-de falar do que somos,
sem esquecer o que fomos.

Hei-de lembrar os castelos
altaneiros, rudes mas belos,
que erguemos ou conquistámos,
que perdemos e reconquistámos.

Não esquecerei cada palmo de terra que ganhámos,
e dos rios de sangue que por eles pagámos.

Recordarei os que, um dia, sonharam
-Homens de Estado, de Deus e do Povo -
e, determinados, abalaram
em busca de um Mundo Novo!

Hei-de falar dos mares que afrontámos,
dos caminhos que abrimos,
das terras distantes a que aportámos,
das ilhas que descobrimos!

Hei-de falar das fomes que passámos,
das doenças que sofremos,
das mortes que chorámos,
das saudades que tivemos!

Lembrarei as raças que conhecemos,
com que comerciámos,
a que ensinámos,
com quem aprendemos,
que nos estimaram,
com quem nos cruzámos!

E falarei daqueles com quem lutámos,
a quem muito roubámos,
que nos odiaram,
que nos esqueceram.

Hei-de falar da língua que criámos,
e que pelo mundo divulgámos!

Falarei dos trovadores,
dos poetas, dos provadores,
dos cronistas, dos historiadores!

Sim, um dia hei-de falar,
com orgulho, satisfeito,
deste povo singular,
de mil raças feito!

Se eu ainda puder,
se for capaz, se souber,
um dia, hei-de contar!


Vila do Conde, 10 de Outubro de 2009

sábado, 27 de março de 2010

Pego dos Penedos


A foto que ilustra esta nossa rubrica foi tirada em Agosto de 1992 sendo a resultante da habilidade do homem, da máquina e do tempo. Teria sido necessário chegar antes que o sol tivesse proporcionado aquelas sombras que lhe roubam nitidez.

Algumas ribeiras e os maiores barrancos do concelho originam pegos na época estival (pequenos reservatórios de água) que se tornam muito úteis para as populações das redondezas, hoje quase extintas.

Desde o alagar do linho ao lavar da roupa, passando pelo dar de beber aos rebanhos, para tudo serviam.

Apareciam por vezes situações de conflito, tendo a edilidade, por intermédio de posturas, regularizar as situações, determinando coimas para quem as não cumprisse.

Todos os pegos possuem os respectivos nomes para poderem ser identificados com mais facilidade.

O pego que apresentamos é como o título indica, o Pego dos Penedos e o seu topónimo não precisa de explicação, tal a evidência.

As penedias que o envolvem são de grande beleza, ora pelas tonalidades que apresentam ora pelos efeitos que a acção erosiva das águas, por vezes impetuosas (barrancadas) e durante milénios, têm provocado.

Outro aspecto que chama a atenção é o das plantas aquáticas que o cercam.

O murmurar de um pequeno fio de água correndo entre as rochas dá-lhe uma nostalgia impressionante. O seu fundo em rocha, que as águas moldaram, vê-se com plena nitidez, tal a transparência das suas águas.

Restará dizer que se encontra no Barranco do Tamujoso, oriundo de Santa Marta e é afluente da Ribeira do Vascão. Diz o povo que o conhece que tem água todo o ano.

Bebedouro da caça será hoje a sua maior utilidade.

Não me consta que haja informação turística sobre esta beleza natural.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Uma viagem pela EN 122 em 1945 -Como eram a camioneta, a estrada, e as pontes

Pequena nota

Mais um magnífico trabalho do nosso Amigo e colaborador que nos dá a sua visão de criança observadora e que o decorrer dos anos, não diluiu.
Ainda que já me tivesse sido contado uma versão, por pereirenses, esta retrata com pormenores engraçados e próprios da época, em que não falta o aviso do Sr. Francisco do Rosário.

JV






Escreve

Gaspar Santos




Em Junho de 1945 fui à Cidade de Faro pela primeira vez. Ia fazer exame de admissão ao liceu. Até Vila Real Santo António pela EN 122, depois até Faro de comboio. Tem hoje interesse referir apenas a viagem até Vila Real Santo António.

A estrada não era alcatroada. Era em Mac Adam (macadame)uma mistura de pedra britada e terra compactada e pressurizada pela passagem de um pesado cilindro. Levantava-se uma enorme poeira que entrava pelas frinchas da camioneta, depositava-se nas roupas e nos narizes. Havia mesmo alguns homens, mais preocupados com o seu aspecto, que viajavam envergando por cima do fato um ridículo guarda pó cinzento com riscas pretas.

O João Marques, que veio a casar com uma jovem do Pereiro, conduzia bem e era bom mecânico. Tinha essas duas qualidades que eram imprescindíveis nesses tempos. As estradas eram muito perigosas, com mau piso e muitas curvas. Na aproximação das ribeiras da Foupana e de Odeleite a sucessão das curvas resultava num “caracol” que punha à vista verdadeiros precipícios. As camionetas de tecnologia ainda muito mal dominada, sujeitas a avarias frequentes, exigiam que o motorista fosse capaz de se desenvencilhar também da parte mecânica.

O ajudante desse motorista ou revisor como se dizia nesse tempo era o Victor, um nosso velho conhecido. Fora empregado de lavoura da D. Carmem Caimoto e vivera na Rua das Flores em frente do nosso quintal nas instalações que nós conhecíamos como o palheiro do Victor.

A camioneta equipada com motor de explosão a gasolina, fora adaptada para consumir gasogénio. Um combustível a que, devido à falta da gasolina, se recorreu durante a guerra e que tinha origem no carvão vegetal. Este veículo tinha atrás uns cilindros semelhantes a panelas gigantes. Um cilindro onde o carvão ardia de maneira incompleta e, por não arder completamente, libertava uma mistura de dois gases. Um desses gases era o monóxido de carbono (ainda combustível), o outro era o bióxido de carbono já não combustível. Os outros cilindros constituíam filtros para separar a cinza dos gases.

[A camioneta que o autor descreve]

Este equipamento traseiro do veículo, ainda por cima complementado com uma escada para acesso ao tejadilho onde se acondicionavam as bagagens, prestava-se lindamente para a miudagem na Vila se pendurar e, na galhofa viajar umas dezenas de metros, às vezes até ao celeiro ou até à curva seguinte.

Era uma trabalheira fazer o motor funcionar com este combustível. Logo de manhã, para o arranque da caldeira havia que atestar de carvão e iniciar a sua demorada queima. Depois era necessário rodar uma manivela para aspirar a mistura até que esta já estivesse combustível, facto que o motorista testava com um isqueiro. Só depois o motor tinha condições para arrancar.

Este gás tinha pouco poder calorífico. Por isso a camioneta andava muito de vagar nas subidas, o motor aquecia muito, sendo necessário atestar a água de arrefecimento do radiador a cada 10 km andados.

As Ribeiras da Foupana, do Odeleite e do Beliche não tinham ponte. A sua travessia fazia-se dentro do leito das ribeiras sobre uma calçada, que também tinha umas passadeiras para peões. À falta de melhor, estas passadeiras indicavam em cada momento o nível das águas. O atravessamento no Inverno às vezes com caudais maiores dava problemas. Vezes houve em que as camionetas empanaram no meio da enxurrada e as pessoas cheias de medo tiveram que ser evacuadas, saindo pelas janelas. Pelo contrário no Verão com pouco mais de 20 cm de altura de água corrente não havia essa preocupação.

A camioneta, nesta minha viagem, como era habitual, teve outros problemas. Na saída do leito das ribeiras da Foupana e Odeleite devido ao íngreme da estrada o motor não tinha força para subir com os passageiros lá dentro. Assim as pessoas tinham que sair e durante 200 ou 300 m seguiam atrás do veículo e alguns até o empurravam. E foi assim comigo e outros passageiros. Só subiram aquelas rampas na camioneta as pessoas mais inválidas e senhoras que não quiseram sair. Na viagem de regresso, passados alguns dias, esta cena repetiu-se. E estas experiências tiveram-na as pessoas nesse tempo até surgir a tecnologia Diesel e o gasóleo.

Antes da Guerra (1939/45) Alcoutim era servida por camionetas a gasolina da Empresa Pilar de Tavira. Com a Guerra escasseou a gasolina e recorreu-se ao carvão/gasogénio nas carreiras da Empresa Rodoviária, com sede em Olhão. Só depois da Guerra surgiu a moderna tecnologia das camionetas a gasóleo – o motor Diesel.

[O IC 27 que proporciona hoje uma boa ligação entre Alcoutim e Vila Real de Sto. António]

Finalmente uma referência aos horários das camionetas. A Vila era ponto de passagem. A carreira tinha início de manhã na Aldeia do Pereiro, passava por Alcoutim e terminava em Vila Real de Santo António. À tarde fazia o percurso inverso. Tinha um horário, de manhã razoavelmente cumprido, caso o Senhor Francisco do Rosário não viajasse para Vila Real e mandasse informar o motorista: “Espere só um minuto que o Senhor Rosário ainda vai tomar banho”. Á tarde, quase no fim de percurso, a descontracção era maior. Muitos dias o João Marques atrasava-se a desempanar um automóvel ou moto ou por outro motivo. Mas as pessoas conformavam-se e não protestavam.

Hoje parece mentira como nos transportávamos naquele tempo.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Os primórdios do ensino na Vila de Alcoutim

Ao cidadão espanhol, Carlos Vieira, descendente por linha colateral do Prof. Simão Vieira


[Rainha D. Maria II]
O ensino primário é instituído em Alcoutim no ano de 1840.

Por Mercê de D. Maria II, A Educadora, datada de 17 de Janeiro daquele ano e registada no liv.11, fl. 232 e 232 v. é passada Carta de Professor proprietário da Cadeira de Ensino Primário de Alcoutim, a Francisco José de Barros. (1)

Em 4 de Junho de 1851, por isso, onze anos depois aparece-nos um Francisco José de Barros, por Carta Régia, nomeado Sub-Director da Alfândega de Alcoutim, admitindo nós que se possa tratar da mesma pessoa, mas é difícil afirmá-lo já que por essas alturas havia com frequência nomes iguais, nem sempre distinguidos com Júnior ou Sénior.

Esta situação já nos tem levado a grandes confusões.

Em 1866 é rejeitada a criação de uma cadeira ou escola de Francês ou Inglês, princípios gerais de Administração Pública, Economia Política ou Industrial, atendendo à repugnância quase geral que se dá nos habitantes deste concelho relativamente à instrução.

Tal escola, a ser criada, ficaria sem alunos.







[O benemérito Conde de Ferreira]

Logo a seguir a Câmara não aceita também o legado de 1.200$000 réis do Conde Ferreira para o edifício escolar, alegando o fraco recurso do cofre Municipal, a pequenez da terra e diminuto número de alunos. O Governo Civil perfilha também esta opinião.

[Um dos primeiros locais onde funcionou a Escola Masculino]
Em 1873 a mesma autoridade faz sentir à Câmara a necessidade desta pedir a criação de uma escola primária para o sexo feminino no concelho. Analisado o assunto em Sessão de Câmara, esta acaba por aproveitar a ideia e deliberar solicitar a criação de uma escola de meninas nesta vila, oferecendo para o efeito, casa e mobília para a mesma. Para justificar o seu pedido, informa que a freguesia tem 2385 almas em 715 fogos, que existem nela 195 meninas entre os seis e os catorze anos e que a distância a que fica a escola mais próxima é de 30 km. Possivelmente referiam-se a Mértola ou a Vila Real de S.to António.

Em Sessão de 5 de Abril do ano seguinte, o vereador Torres declara que se apresentava um bom ensejo para obter casa para a escola de meninas que tinha sido criada no ano anterior e que ainda não tinha sido posta a concurso, nem se poria, enquanto a Câmara não mostrasse ter casa e os utensílios necessários. O Rev. Prior da freguesia (P. António José Madeira de Freitas, sobrinho) estava arranjando umas casas no Largo da Igreja e que tendo todo o empenho em que a escola fosse provida, não tem dúvidas em arranjá-la de modo a satisfazer os fins em vista. E é logo adiantada a renda de mil réis mensais.

[Local onde funcionou a 1ª Escola Feminina de Alcoutim]
A 12 de Novembro de 1874 já a escola para as meninas está pronta a funcionar, pois é enviado um auto de inspecção da mesma em que se declara a sua conformidade.

Este edifício já não existe e no testamento do seu proprietário é indicado como “casas nobres”. Foi derrubado depois de 1977 para um empreendimento turístico que nunca chegou a funcionar. Nesse local encontra-se hoje a Farmácia Caimoto.

A sala de aula tinha 5,85 m de comprimento por 3,85 de largura, sendo a altura de 3,37 m. Não era contudo, assoalhada. Em 1876 frequentada por 16 alunas e regida pela professora temporária, Teresa de Jesus Maria Almeida que tomou posse em 1 de Junho de 1875, inaugurando a escola.

A escola do sexo masculino, apesar de ter uma maior frequência, 19 alunos, era bem pequena. Funcionava nesta altura nos baixos da Câmara e era regida pelo professor, também temporário, António Simão Vieira.

Em 23 de Dezembro de 1875, o médico José Maria Alves Cardoso e outros cidadãos requerem a criação de uma escola nocturna para o ensino de adultos. Na Sessão de 14 do mês seguinte a Câmara limitou-se a louvar o pensamento dos requerentes.

[Capela de Sto. António onde funcionou provisoriamente a escola dos rapazes]
Devido à grande enchente do Guadiana em Dezembro, de 1876, a escola de meninas passou a funcionar “na casa que se poude arranjar” e a do sexo masculino não funcionava por ainda não estar pronta a Capela de S.to António, mas dentro de dois ou três dias se abrirá, segundo informa o Administrador do Concelho.

A escola masculina foi transferida da Capela de S.to António para uma casa situada na Rua do Esteiro, pertencente à viúva e filho de Paulo José Lopes, pagando-se de aluguer 1100 réis por mês. Contudo, o professor não aceita de bom grado a mudança, tendo-se gerado grande polémica.

O Administrador justifica-se perante o Governador Civil do seguinte modo: “Em tempo algum a Câmara contraiu obrigação de dar casa para escola. O respectivo professor fazia-a na sua residência. Como o novo mestre não tivesse casa capaz para o efeito, a Câmara cedeu uma térrea nos Paços do Concelho. A casa que agora alugou é melhor que a anterior e serviu já muitos anos de casa escolar no tempo do professor, Francisco de Barros.”

Dias depois, 31 de Agosto de 1877, o professor apresenta-se a requisitar as chaves e iniciar as aulas.

O prof. Vieira mostra-se um homem activo (não só na política) e oficia à Câmara expondo as grandes vantagens de se adoptar nas escolas o método de ensino de João de Deus. Apresenta um alvitre compatível, segundo ele, com os fracos recursos do Município, para o sobredito método poder difundir-se neste concelho. A Câmara mandaria a Faro um professor leccionar-se no dito sistema pois naquela cidade está pessoa habilitada oficialmente a fazê-lo. Depois, o referido professor viria ensinar os demais existentes no concelho.

A Câmara foi deixando o assunto de sessão para sessão e nunca mais resolveu.

O prof. Simão Vieira, de ideias republicanas, deixa de exercer funções em 21 de Fevereiro de 1884, certamente por pressões políticas e é substituído por Francisco Dias de Almeida. (2)

Em 28 de Junho de 1928 toma posse uma comissão administrativa das escolas, constituída por Manuel José da Trindade e Lima, professor, Dr. José Pedro Cunha, médico e José Ildefonso, comerciante.

[Edifício Escolar construído nos inícios do Estado Novo]
Pensamos que é por estas alturas que se constrói a escola da vila que serviu até aos inícios da década de setenta e que hoje alberga dependências dos serviços de obras da Câmara, Junta de Freguesia e no rés-do-chão os serviços de Tesouraria e de Águas do Município além do Posto de Turismo que ocupou a residência do professor após as devidas adaptações.

A Comissão Administrativa da Câmara Municipal nomeada pelo “Estado Novo” criou variadíssimos postos escolares espalhados por todo o concelho e alguns deles vieram a transformar-se em Escolas, mas este assunto não se insere neste trabalho.


NOTAS(1) – ANTT – PT-TT-RGM/h/200787 (Registo Geral das Mercês do Reinado de D. Maria II).
(2) – “ Um século de ensino escolar no concelho de Alcoutim (1840-1940)”, in Jornal do Algarve de 4 de ril de 1991.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Luís Cunha

Pequena nota

Aproveitamos esta rubrica “Figuras do Baixo Guadiana” para simultaneamente apresentar o último colaborador (a título póstumo) do ALCOUTIM LIVRE.
A sugestão foi lançada pelo colaborador Gaspar Santos que bem conheceu Luís Cunha e sempre o admirou. Não a podíamos deixar de apoiar e logo inserimos a sua fotografia no lugar devido.
Temos a certeza de que se tivesse sido possível a existência do ALCOUTIM LIVRE no seu tempo, estaria desde a primeira hora ao nosso lado com os seus textos sucintos mas profundos e em defesa da sua terra natal que muito amava.
Luís Cunha que fixou residência nos arredores de Faro e não em Alcoutim poderá ser visto por personagens retrógradas como não amante enão defensor da sua terra, mas isso são conversas sem clarividência e de objectividade duvidosa.

JV




Nasceu na vila de Alcoutim em 8 de Janeiro de 1911.

Filho do Dr. José Pedro Cunha e de D. Domingas da Palma, fez a instrução primária na sua terra natal, tendo sido aluno do prof. Trindade e Lima e iniciou o curso liceal na cidade de Faro, concluindo o sétimo ano no Liceu do Funchal.

Vem para Lisboa onde se matricula na Escola Superior Colonial, curso que concluiu apesar das divergências frequentes com a orientação rígida do corpo docente.

No dia 3 de Fevereiro de 1940, apesar da grande cheia do Guadiana, toma o “gasolina” e vem à terra natal despedir-se de familiares e amigos pois ia tomar rumo a Moçambique, iniciando a sua brilhante carreira profissional.

Exerce funções nos distritos de Manica e Sofala, Zambézia e Gaza, aposentando-se como Intendente Administrativo. (1)

De uma cultura fora do comum, era pena fluente que bastante escreveu em louvor e defesa da sua terra, deixando colaboração no Diário Popular (2), Jornal do Algarve e provavelmente em outros.

Tivemos o prazer e a ventura de ser seu amigo. Muito conversámos. Aceitou sempre a crítica mordaz que fazíamos sobre a sua terra, dizia-nos que tínhamos razão naquilo que afirmávamos, mas que nos faltava conhecer o outro lado, o que um dia havia de acontecer, como efectivamente aconteceu.

Esperávamos sempre um pelo outro para disputarmos o cafezinho num dramático jogo de trinta e um que na maior parte das vezes nos obrigava a perder à forçada tal o conhecimento que tínhamos da maneira de jogar um do outro!

Em carta que nos endereçou, datada de Faro a 29 de Janeiro de 1974, comentava: Sabe que eu, embora lhe pareça o contrário, não tenho grandes coisas mais a dizer sobre Alcoutim, porque já tudo me esquece e não escrevi quando devia.
A frontalidade que o caracterizava causou-lhe alguns dissabores, mesmo a nível profissional, mas cimentou o seu carácter.

De uma honestidade intocável, simples e bondoso, conhecia a sua terra e o seu povo como ninguém.

[Última Casa que habitou a Família Cunha na Rua da Misericórdia. Des. de JV]

Presidiu aos destinos camarários desde 4 de Maio de 1967 a 3 de Abril de 1969.

Não se sentia, como nos confessava, nada vocacionado para tal missão que aceitou desempenhar a muito custo e em situação muito especial.

Um dia o Governador Civil convoca-o para uma reunião na qual lhe transmite a grande notícia da construção de umas tantas escolas no concelho. Luís Cunha ficou praticamente indiferente, o que levou o Governador a perguntar:- Então estou a dar-lhe esta notícia que muitos colegas seus queriam ouvir e não fica satisfeito?!

Luís Cunha, com o conhecimento que tinha do seu concelho e com o sentido de equilíbrio que o caracterizava, comentou:- Senhor Governador, essas escolas deviam de ter ido para o meu concelho quando eu andava à escola, quando estava povoado, quando não havia estradas , quando as crianças que viviam nos montes eram muitas e não aprendiam a ler por falta de escolas e professores. Agora que o concelho está a ficar sem gente e que as crianças vão rareando, as escolas de muito pouco servirão, ficarão devolutas dentro de muito pouco tempo, gasta-se o dinheiro e a sua manutenção fica constituindo um encargo para o município que não tem meios para o suportar.

Foi mais ou menos assim que Luís Cunha respondeu ao Governador e meia dúzia de anos depois as suas palavras estavam completamente provadas.

Adorava calcorrear os serros de xisto, de espingarda às costas, mesmo que não desse um tiro, sentar-se junto do paredão do velho cais, esperando que o peixe picasse, sentir junto à lareira o calor consolador da esteva crepitante ou saborear um prato regional que não trocava a qualquer outro e em que as irmãs eram exímias.

Faleceu na cidade de Faro a 16 de Janeiro de 1981 onde passou os últimos anos.

As lajes de xisto de várias tonalidades utilizadas na vivenda que mandou construir nos arredores de Faro, eram oriundas de uma sua propriedade situada em Alcoutim. Queria sentir algo da sua terra, bem perto de si, prestando-lhe assim uma homenagem.


NOTAS

(1)-Dados biográficos fornecidos por sua irmã, D. Clarisse Cunha, nossa saudosa amiga.
(2)-Acontece que o correspondente do Diário Popular era seu cunhado. Os artigos foram escritos por Luís Cunha mas enviados pelo correspondente que nessa qualidade veio a ser contemplado em Abril de 1968 com um prémio monetário, atribuído a nível nacional.

NB
Texto extraído de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 2ª Edição, em preparação.