De há uns anos a esta parte “ocupamos” as nossas férias no Algarve serrano, concelho de Alcoutim. Por vontade própria e fácil de conseguir, alheamo-nos de noticiários radiofónicos ou televisivos e não lemos jornais.
São dias “maravilhosos” em que nos sentimos distantes do mundo que nos envolve.
Vivemos só ávida local conversando com os poucos habitantes ainda existentes (caminha-se a passos largos para o despovoamento) e percorrendo cerros e barrancos onde já se penetra com dificuldade devido ao mato, principalmente a esteva e que as nossas pernas testemunham com muitos arranhões.
Estes dias de diálogo simples mas muito enriquecedor, traz-nos quase sempre algumas novidades que procuramos registar.
Se umas vezes instigamos o diálogo para o campo que nos interessa, ainda que primeiramente e como é natural nos tentemos enquadrar e seguir a conversa que se trava, outras, são os nossos interlocutores que com a nossa presença tentam informar-nos de algo que conhecem e calculam ser do nosso interesse.
Afinal, o interesse é mútuo, nós, procurando as indicações concretas locais, eles, saber algo de mais positivo (no sentido técnico se assim se pode dizer) que lhe possamos informar.

Foi assim que este ano alguém nos perguntou se conhecíamos a “pedra grande” do Lavajo, situada naquela zona rústica e atribuída aos mouros, como aqui sempre acontece quando denuncia antiguidade.
Ao nosso “não”, seguiu-se o diálogo natural.
Dos presentes, todos conheciam tal pedra, procuravam descrevê-la o melhor possível, vasculhavam na memória factos passados onde não faltavam escavações na tentativa de obter achado valioso na concepção local representado por panela com barras ou moedas de oiro.
O volume, configuração e aparelhamento, aliado a outras circunstâncias, começou a espicaçar a nossa curiosidade.
Entretanto apareceu mais um natural da localidade, chegado para férias, que também conheceu a dita pedra à cerca de trinta anos, mas que só agora começava a vê-la com outros olhos.
Combinou-se a visita e lé fomos.
O automóvel, que entrou por caminhos agrícolas, depois de passar com dificuldade o barrando do Lavajo, ou da Nora, deixa-nos perto do local.
Estamos na zona rústica conhecida por Lavajo, situada entre Afonso Vicente e Cortes Pereiras, freguesia de Alcoutim.
O topónimo, de origem espanhola, segundo pensamos, é um provincianismo do sul do País, encontrando-se representado, a nível de povoação, no concelho de Loulé, freguesia de Salir e em Castro Marim.
Denuncia a existência de água, pelo que é zona hortejada com existência de oliveiras por aproveitamento de zambujeiros, isto nos lugares mais baixos.
O cicerone, nascido e criado na zona, depois de subirmos uma pequena elevação que segundo ele deu sempre boas searas, leva-nos a um arrife de estevas no meio do qual, completamente cercada, se encontra a procurada “pedra grande”, assim conhecida pelas populações locais.
A palavra menir, que significa pedra comprida, veio-nos rapidamente à memória e após uma observação mais atenta pareceu-nos tratar-se desse monumento megalítico.
Máquinas fotográficas em acção, fita métrica a actuar colhendo assim dados identificativos.
O nosso companheiro, investigador com nome mundial no campo geológico, recolhe um pequeno fragmento que à vista desarmada identifica como grauvaque.
Aquilo que ambos considerámos ser um menir, está em situação prostrada, tem 312 cm de comprimento (que corresponde à altura, quando erecto), secção elíptica que no seu máximo apresenta com eixos 72 e 46 cm.
Quanto ao talhe, é relativamente bem afeiçoado.
À sua volta, terra mexida e duas pedras que nos dão a ideia de poderem ter auxiliado a sua erecção.
Perto, a cerca de duas dezenas de metros e em posição menos elevada, encontram-se três pedras (grauvaque) ao alto, bastante enterradas, comprimento máxima descoberto, cerca de cento e trinta centímetros, em forma de círculo que nos sugerem os esteios de uma anta, outro monumento megalítico funerário que por vezes anda associado ao primeiro. Rodeadas de estevas, é curioso verificar que o espaço interior está limpo de mato é constituído por terra.

Não encontrámos vestígios do chapéu.
Mais nenhumas pedras encontrámos no local, como sempre nos disseram e aquelas, não “nasceram” ali.
No dia seguinte transmitimos o “achado” a uma arqueóloga em trabalhos de escavação nas castelos de Alcoutim e que levámos ao local sendo a primeira opinião semelhante à nossa.
Nos trabalhos da especialidade que consultámos posteriormente, a Pré-História de Portugal, de M. Farinha dos santos e a História de Portugal, Publicações Alfa (O megalitismo e os primeiros metalurgistas – de Carlos Tavares da Silva) nomeadamente, nada encontrámos sobre este assunto.
Também Leite de Vasconcelos que por aqui passou e refere achados arqueológicos, nada disse.
A tratar-se efectivamente de monumentos megalíticos como pensamos, seria conveniente efectuar-se a escavação adequada. Não estará o chapéu soterrado?
Aquele conjunto a acrescentar ao já existente no concelho pode constituir um pólo de interesse turístico se a edilidade para isso estiver motivada.