Mais um importante apontamento que o nosso colaborador Gaspar Santos traz a este espaço, recordando e interrogando-se sobre algo que teve importância na economia alcouteneja e que parece ter desaparecido completamente.
Ainda em finais dos anos 60 do século passado a laranja alcouteneja era o sustentáculo de algumas famílias da vila.
Os laranjais ocupavam as margens da parte terminal da Ribeira de Cadavais, estendendo-se depois pela margem direita do Guadiana, a norte da Vila.
Eram muito sumarentas e doces, procuradas pelos comerciantes do ramo vindos do litoral algarvio que como diz o nosso colaborador as compravam na árvore.
Era de tal maneira que por vezes os filhos da terra, principalmente os que estavam fora, pretendiam adquiri-las e já não as encontravam.
Hoje os laranjais estão praticamente abandonados. Não conheço as razões para que isto tivesse acontecido mas também não é difícil imaginá-las.
Se nós não defendemos o que é nosso, quem o há-de defender?
JV

Escreve
Gaspar Santos
Quem vem de fora, em noite sem vento, na época da Páscoa, passadas as Cortes Pereiras, sente o vale da Ribeira de Cadavais. O ar, que é sempre agradável, de múltiplos cheiros, tem agora o suave e ao mesmo tempo intenso aroma da flor de laranjeira. Mas não é só o cheiro da flor o mérito destas laranjas. Também, quando madura, é sumarenta, de casca fina, sem caroços, saborosa como não há outra e assim é reconhecida por todos que as provam.
Alcoutim tem muita laranja. E dela já teve outrora um bom rendimento. Quando estava em flor, negociantes de Moncarapacho compravam-na ainda na árvore. Depois, em Dezembro, Janeiro e Fevereiro enchiam grandes cabazes de ripas de madeira e, de barco até ao comboio, ou de camioneta, levavam-na para o Mercado da Ribeira em Lisboa. Um cunhado meu a quem há anos dei uma dúzia delas dizendo: - “come que são as laranjas melhores do mundo!” Dias depois ele me respondeu: “as melhores do mundo não sei, não conheço todas, mas que são muito boas, são”.

E hoje perdem-se. Por razões que são com certeza várias, os negociantes de fora deixaram de procurar estas laranjas. E em Alcoutim temos muita produção e muitas pessoas a produzi-las o que torna muito reduzida a sua procura local. Uns meus familiares que no ano passado estiveram uns dias em Alcoutim, no início de Março, pediram num restaurante um copo de sumo de laranja e a resposta foi que não tinham, não faziam tal coisa… apesar de se avistarem a apodrecer nos campos. Admiramo-nos como ainda as cultivam, quando se comem tão poucas. Mas isto diz-nos que ainda não há crise ou pelo menos que ainda não chegou aqui a moda do sumo. Quando for oportuno não é difícil nem caro que o Quiosque ou alguns restaurantes comprem e façam funcionar um espremedor eléctrico de laranjas e… já se tem o sumo todo que se quiser.
Por outro lado, temos no país o nosso “progresso” que até parece de novo-rico. Endividamo-nos ao estrangeiro com importações excessivas, algumas escusadas, desnecessárias. Comemos laranja espanhola, do Brasil e de África do Sul; melão de Espanha e do Brasil, sumo de laranja (por sinal muito saboroso) da Califórnia E.U.A., espargos do Peru (América latina). Batata de Espanha e de França. E, até já vi vender em Alcoutim batata-doce dos Estados Unidos da América. Nos cereais como nos frutos secos, o Algarve de exportador passou a importador. São os figos e as amêndoas da Argélia e da Turquia. Nem sei mesmo se alguma alfarroba não vem também de fora e se os tradicionais bolos de amêndoa ainda são feitos com alguma amêndoa portuguesa. E os cereais então, são quase todos importados. Como se já não bastasse termos que importar todos os combustíveis que os automóveis consomem.

Mas hoje, na TV e nos jornais já vemos alguns daqueles que nos quiseram convencer das vantagens do abandono da agricultura a querem-nos “desconvencer” disso e apregoam agora os benefícios do regresso à agricultura, para sermos um bocado mais auto-suficientes. Há mesmo quem aconselhe a fazer uma reserva alimentar preventiva. É bem verdade que no mundo, à medida que alguns países mais carenciados vão tendo acesso a alimentos, eles vão começar a escassear e no futuro teremos que voltar a aproveitar todas as terras, mesmo as que hoje se encontram incultas por serem pouco produtivas.