Apresentamos hoje na nossa visitada rubrica de etnografia dois velhos ferros que foram usados no concelho de Alcoutim até depois do 25 de Abril, já que só a vila e os Balurcos usufruíam de electricidade a partir de 1965 e a mesma só esteve ao dispor do restante concelho depois de 1974.
Em casa de nossos pais existiram exemplares semelhantes a estes, ainda que existisse fornecimento de energia eléctrica onde vivíamos. Lembramo-nos perfeitamente, teríamos uns dez anos, quando o nosso pai surpreendeu a nossa mãe com um ferro eléctrico, muito tosco para os nossos dias e que nos parece ainda estar a ver. Aliás, durou muitos anos e custou 100$00, uma pequena fortuna para a época. A pega era de madeira e pintada de vermelho e penso que não possuía qualquer regulador de calor, era ligar e desligar.
Os ferros que as fotos apresentam não estão completos. Ao primeiro e mais antigo falta-lhe a pega de madeira, substituída por um pau de esteva, para “turista” ver. Além desta falta-lhe um protector de lata, em semicírculo que servia para evitar o calor que o interior emanava pela combustão do carvão.
Este ferro, em forma de quilha de barco, era composto por duas partes principais, a que constituía uma espécie de reservatório onde se colocava a acendalha, normalmente carqueja e sobre ela o carvão, a outra era a tampa que prendia por meio não uniforme ao corpo e que em muitos modelos se fazia por uma pequena argola que trancava numa espécie de cano e constituía a grosso modo uma chaminé por onde ia saindo o anidrido carbónico proveniente da combustão.
Na parte traseira oposta ao “bico”, havia uma pequena abertura por onde circulava o ar para assim o carvão ir podendo arder e aquecer o ferro, cuja base era polida para poder fazer o trabalho a que se destinava ou seja, passar a roupa, tornando-a mais apresentável para vestir. A parte da retaguarda tinha uma pequena peça que procurava evitar que alguma brasa mais pequena pudesse sair queimando o tecido, o que por vezes acontecia, como bem nos lembramos em casa de nossos pais e que deixava a nossa mãe bastante arreliada, inutilizando a peça.
O outro exemplar representado é mais moderno e por isso, mais evoluído na sua concepção. Não apresenta chaminé nem abertura traseira (?) já que a “respiração” ou seja, a passagem do ar, cujo oxigénio alimenta a combustão é feita por buracos feitos ao seu redor e junto à base, mas com uma posição recolhida para evitar a caída de brasas e aberturas de formato triangular e feitas na tampa. Havia modelos que tinham junto ao “bico” uma peça com o feitio de um galo com a qual, por intermédio de um movimento, fechava ou abria o ferro.
Ainda que o “combustível” fosse o mesmo, notavam-se consideráveis vantagens neste modelo.
Ambos eram naturalmente feitos de ferro forjado.
Quando necessário levavam uma abanadela para proceder à sua ventilação.
Havia sempre um descanso para colocar o ferro, como o primeiro exemplar apresenta.
Pequena nota
Estes exemplares fazem parte do “museu” do Sr. António Mestre no monte da Corte Tabelião, freguesia e concelho de Alcoutim, tendo solicitado a permissão para fotografar e que nos foi concedida.